sexta-feira, 7 de maio de 2021

Bolsonaro X Lula


Uma das lógicas de funcionamento do sistema é a alternação de governos duros (militares) e brandos (“democráticos”). Voltem o olhar para o passado e verão sem muitas dificuldades esta gangorra de sucessão entre “duros” e “brandos”.

A essência funcional do sistema depende desta engrenagem, que inclusive lhe confere um ar “democrático”. Isto é: uma “mudança” que não muda nada, embora dê aparência de mudança.
Já os governos de caráter mais duro (militares) cumprem o papel de enfiar goela abaixo medidas de contenção e sustentação das estruturas econômicas e sociais. Eles fazem uma lambança tão grande que literalmente qualquer coisa parece melhor.
Aparentemente os governos de tipo neofascistas, como de Trump e Bolsonaro, parecem não ter lógica alguma, mas o sistema depende das suas ações práticas para aplicar um projeto de renovação da acumulação de capital que um governo mais brando (“democrático”) não conseguiria impor pelas vias convencionais de “diálogo” (leia-se: conchavos demorados do Congresso Nacional).
Na atualidade, Bolsonaro e Lula são os representantes máximos de cada um desses tipos de governos que, apesar de venderem-se como antípodas irreconciliáveis, são complementares para o funcionamento geral e de longo prazo do sistema (mesmo que jurem de pés juntos o oposto). Isso não quer dizer que no processo eleitoral e mesmo ao longo das gestões não haverão diferenças.
O sistema também necessita dessa polarização entre “projetos” para fanatizar os setores populares e desviar o foco do que é essencial.
Durante o governo Lula os pobres continuaram sendo pobres, embora com bolsa família e com a possibilidade de ascensão universitária para alguns dentre centenas de milhares; enquanto os “bancos lucraram como nunca”. Ao longo de todo este período, o parlamentar inútil que dormia durante as sessões do Congresso Nacional, Jair Bolsonaro, então no PP, foi base de sustentação do governo Lula (e não apresentou nenhuma de suas críticas desesperadas ao petismo e ao próprio Lula nesses 10 anos).
Veio então o golpe que preparou as bases para a subida de Bolsonaro ao poder. O bolsa família foi parcialmente cancelado; mas os bancos seguiram “lucrando como nunca”. A possibilidade de ascensão dos pobres via universidade foi novamente restringido e uma série de ataques, projetos e declarações bizarras faz a população mais humanizada desejar desesperadamente qualquer outro governo que estanque a sangria desatada.
É exatamente aí que a “ala moderada” e “bem comportada” da burguesia (os tucanos) e, evidentemente, Lula, que faz um discurso anti-bolsonarista que soa — até quando? — como o salvador da pátria, recebem o sinal para reaparecerem com “solução”. Para compor seu possível governo, Lula modera o tom e fala de novo em frente amplíssima, tal como fez em 2002-2003 (na qual, de tão ampla, tinha — vejam só vocês — Bolsonaro e Temer como sua “base”).
Pronto! Assim tudo se resolve. Estamos já numa “nova economia” uberizada e controlada pelas big tech (google, facebook, microsoft, apple, uber, etc.). Os “durões” podem ser novamente dispensados para entrar os “brandos” com a sua nova coalizão de “partidos amigos” para administrar e acalmar o povo nesta “nova economia” que, lembremos, os bancos continuam a lucrar como ninguém.
Gangorra lá embaixo novamente. Até quando? Até a próxima crise inevitável do capitalismo, quando os “durões” vão se mobilizar para voltar ao poder e subir a gangorra outra vez. De onde eles sairão? Provavelmente do seio do mesmo “governo amplo” que fez vistas grossas e conteve o descontentamento popular com discurso de “paz e amor” e de “não ser possível outro projeto”.
Afinal de contas, qualquer coisa no governo é melhor do que Bolsonaro, não é assim que se justificam? Até mesmo a nossa boa Rede Globo “reconhece”. Dá pra acreditar nesse teatro? Infelizmente parece que sim… Assim seguimos, de altos e baixos, de golpes em golpes, de mudanças que não mudam nada. Aí o imediatismo, o desespero, a ausência de uma política classista, se juntarão e formularão a seguinte questão — bem rasa, diga-se de passagem: “então tu é a favor de que Bolsonaro siga no poder?”.
A dicotomização também faz parte da essência funcional do sistema. Se a cada vez que uma pergunta limitadora como essa fosse formulada, apostássemos na renovação das discussões teóricas e formativas, numa militância classista nos sindicatos, nos movimentos sociais, nas ruas e em todos os locais de trabalho, moradia e estudo, já estaríamos muito além deste brete que nos coloca anos a fio de joelhos: “Lula X Bolsonaro”.
Luto pelo meu direito a ter um país. E para que esse país seja verdadeiro não pode haver espaço para salvadores da pátria. Se eles comandam a política e, sobretudo, as esperanças políticas, algo está muito errado. E é necessário que este “algo muito errado” seja questionado urgentemente.

Um comentário:

  1. Excelente texto mais uma vez. Difícil criar uma consciência de classe na atual conjuntura.

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