terça-feira, 18 de outubro de 2016

O socialismo é a mais alta forma de humanismo

O humanismo burguês, desenvolvido ao longo dos séculos 16, 17 e 18, foi muito importante para lançar as bases teóricas deste movimento filosófico que ficou conhecido como “humanismo”. Sua função foi colocar o ser humano no centro do universo, do debate filosófico, artístico e social, rechaçando a velha mitologia cristã medieval, junto com a sua metafísica idealista, que subordinava o ser humano a Deus e ao reino dos céus. Muitos dos filósofos e pensadores renascentistas e iluministas foram responsáveis por propagandear o humanismo e angariar inúmeros adeptos pelo mundo. No entanto, após a Revolução Francesa de 1789, que derrotou o feudalismo e a igreja, ele entrou em franco declínio e tornou-se uma hipocrisia flagrante. A miséria crescente, a exploração do trabalho, a prostituição, as más condições de habitação dos operários e das prisões – ainda hoje! – deixaram o humanismo burguês definitivamente para trás, como uma bonita “saudação à bandeira”; uma autêntica letra morta no papel.
Já é hora dos trabalhadores debaterem e se apoderarem de uma bandeira que é sua por excelência. Não é mais possível falarmos em humanismo atualmente sem falarmos em socialismo. Indo mais além, não podemos deixar de falar em humanismo quando abordamos o tema do socialismo; sobretudo em relação às distorções e os estigmas herdados da URSS stalinista.
A propriedade privada, a competição voraz e desigual, a exploração predatória e irresponsável, tornam à burguesia e ao capitalismo impossível sustentar um suposto humanismo (que dirá um “capitalismo humanitário”?), a não ser em palavras, que lamentavelmente enganam muitas pessoas. Aliás, o capitalismo tem sido um campeão em se utilizar de palavras que não correspondem à realidade. Somente mexendo na estrutura social, na propriedade privada dos meios de produção de riqueza social (no capital), elevando à condições humanas o nível material e cultural do proletariado, procurando dar as bases para acabar com a indigência, a prostituição e a miséria, poderemos falar de humanismo; e não apenas de palavras soltas, vazias, hipócritas.
Sem condições econômicas dignas, levados a uma luta pela subsistência, qualquer forma de “liberdade individual de escolha” ou de “individualismo” é uma enganação, pois sem estas condições materiais básicas, as “opções” subjetivas e as decisões pessoais não passam de uma fraseologia sedutora que serve unicamente para esconder a real condição do indivíduo na sociedade de classes. Esta crítica ao “humanismo abstrato” não é nenhuma novidade. O marxismo já a fez de distintas formas e em diversas obras. Bastaria, talvez, um pouco de boa vontade e honestidade intelectual para compreendê-la.
No entanto, estes pré requisitos nem sempre existem.
Para alguns, a desonestidade intelectual é uma necessidade para esconder a contradição e a hipocrisia em que caiu o “humanismo” abstrato (e o humanismo burguês). Tudo, evidentemente, usado sob medida para justificar a defesa do capitalismo e de todas as suas desigualdades. À noção de “humanismo”, precisamos acrescentar a perspectiva do socialismo, ou então ele não passará de um engodo para esconder a total falta de “humanismo” em que a sociedade capitalista jogou a humanidade.
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         Justo no momento em que colocamos esta perspectiva política, muitas vozes que ajudam a sustentar o sistema – consciente ou inconscientemente – nos respondem com o discurso padrão:
– O problema não é o sistema econômico (seja capitalismo, socialismo ou o que for), mas o ser humano.
Aí os revolucionários socialistas precisam responder pacientemente:
– Os seres humanos não vivem abstratamente, isto é, não estão isolados de uma realidade histórica e de uma sociedade correspondente; são, precisamente, o resultado e o reflexo dessas condições.
Então, um pouco encurralados, os apologistas inconscientes do capitalismo, julgando encontrar o argumento que “decide a questão” e refugiando-se no pensamento metafísico do senso comum, respondem:
– Mas olhem para o que foi a repressão, a tortura e o controle na União Soviética. Está aí a prova de que o problema são os seres humanos e não o sistema econômico.
– Mesmo a União Soviética – respondem os socialistas não dogmáticos – foi uma sociedade condicionada por uma época histórica. Alguns teóricos e escritores criticaram correta e honestamente os desvios do regime stalinista; muitos outros não. O stalinismo foi um reflexo de uma situação que reunia os seguintes elementos: baixo nível cultural e político interno, somado a um país agrário, de débil desenvolvimento econômico, com uma burocracia de funcionários disciplinados para servir; somado a uma pressão de inúmeros estados inimigos, dentre os quais estava o nazi-fascismo, que ameaçava por abaixo a porta da URSS; além, é claro, do boicote econômico internacional, organizado e orientado pelo imperialismo, e da política internacional de Stalin, que sabotou inúmeros processos revolucionários mundo afora. O revolucionário russo, Leon Trotsky, deixou uma vasta obra que analisa minuciosamente todos estes fatores. Sendo assim, se insistimos que o problema está no “ser-humano” abstrato, então caímos numa metafísica barata, numa abstração que nos impede de ver todo o contexto.
– O sistema econômico ainda é conduzido por decisões humanas – insistem os apologistas conscientes do capitalismo.
– Sim, não há dúvida! Mas são seres humanos condicionados historicamente, como já foi dito. Suas decisões não estão embasadas unicamente nas suas respectivas vontades individuais, por mais que esta seja a aparência. Quando um rei era cruel ou um ditador mandava assassinar milhares de pessoas, isso não se dava por sua “maldade inata”, mas pelas necessidades imperiosas que lhe ditavam as condições da manutenção da dominação da classe a qual ele estava representando, na maioria das vezes inconscientemente. É evidente que seus apetites e a sua formação psicológica contribuem com maiores contornos sádicos e outras perversões; mas isso não significa nada se não estiver embasado por um poder político e econômico concreto. As pulsões de um ditador não são nada sem o poder político do Estado.
– E as pulsões individuais do povo? De um assassino? De um indivíduo egoísta que tenta tirar vantagem sobre tudo e sobre todos? – retomam os apologistas inconscientes do capitalismo.
– Sem dúvida estas pulsões individuais do povo entram como elos que fortalecem, de uma forma ou outra, a opressão geral de um sistema econômico, facilitam a ascensão de um ditador ou de um burocrata psicopata; contudo, se a orientação de toda a sociedade estiver condicionada por outra perspectiva político-econômica, certamente tal ditador e tal psicopata encontrarão inúmeras dificuldades. Portanto, a questão que devemos colocar é a seguinte: que regime econômico e político facilita mais esse egoísmo e esses “desvios” no indivíduo? O capitalista ou o socialista?
– Para mim, os dois! – dirá o apologista consciente do capitalismo.
– Como os dois? – retrucam os socialistas – Você está querendo dizer, então, que um regime político e econômico que legaliza a propriedade privada, a acumulação individual desmedida e incontrolável de riquezas, a exploração do ser humano pelo ser humano, a indústria bélica e o seu lucro astronômico, as guerras e a prostituição como um negócio, pode incentivar o egoísmo nos seres humanos da mesma forma que um sistema econômico que tem como perspectiva a propriedade coletiva dos meios de produção de riqueza social e a finalidade de desenvolver uma cultura e uma riqueza mais humana e igualitária nos seres humanos?
– Lhes digo apenas que o problema está no ser humano, pouco importando se vivemos num regime capitalista ou socialista – tergiversa o apologista consciente do capitalismo.
– Em relação ao ser humano ter problemas intrínsecos, tais como o egoísmo, o ódio, a ganância, a maldade, a perfídia, a inveja, dentre outros, não há nada o que objetar – insistem os socialistas –, contudo, há que se insistir no ponto de que precisamos construir uma base material capaz de inibi-los, puni-los, criminalizá-los; onde se construa uma real unidade entre os seres humanos, e destes com a natureza. A plena solidariedade humana só poderá surgir a partir de uma sociedade cujos valores estejam alicerçados na propriedade coletiva dos meios de produção de riqueza social, em que as oportunidades, no geral, sejam as mesmas. Em suma, uma sociedade em que sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres, como dizia Rosa Luxemburgo.
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- Não podemos nos apegar em utopias que apenas criam falsas esperanças – afirmam os intelectuais burgueses disfarçados.
- Utopias? – questionam os intelectuais socialistas – O nosso socialismo está baseado em uma compreensão científica da sociedade e das leis econômicas que a regem. Por isso o chamamos de “socialismo científico” em contraposição às escolas do “socialismo utópico”.
- Sejamos realistas! – insistem os intelectuais burgueses – O “socialismo científico” de Marx não tem nada de científico. É um amontoado de disparates que não se sustentam. Não há nenhuma explicação realmente científica. O socialismo e qualquer revolução sempre se tornam uma forma de ditadura despótica muito maior do que as que pretendia combater.
- Mas vocês defendem então a manutenção da sociedade capitalista, com a exploração de classe, o financiamento e a derrubada de inúmeras ditaduras e governos pelo mundo com as mais variadas desculpas; a indústria da prostituição, da guerra, da mentira? – retrucam os intelectuais marxistas.
- Todo o sistema econômico é ruim e opressor – tergiversam os intelectuais burgueses – Achamos que o ser humano é o problema.
- Voltamos a estaca zero, como sempre – dizem os intelectuais marxistas – Vocês, os intelectuais burgueses pretendem se colocar acima do bem e do mal. Dizem-se contra o capitalismo e o socialismo, isto é, querem nos fazer crer que estão acima de qualquer sistema econômico e de uma sociedade historicamente determinada. Seriam, portanto, simplesmente “humanos”, representantes de uma “moral humana superiora”. Sempre inflam os pulmões para criticar a “escravidão soviética”, sob a batuta stalinista (o que na maioria das análises é omitido), mas relativizam ou nunca critica a escravidão capitalista, que, pra eles, é sempre preferível. É por trás desta manobra intelectual que está escondido o seu apoio velado ao capitalismo. Segundo a lógica de vocês, capitalismo e socialismo seriam fundamentalmente a mesma coisa. Sendo assim, como os seres humanos são “maus” e “pecadores” seria impossível eliminar a miséria, sendo, pois, necessário suportá-la e habituar-se a ela.
- A ditadura soviética, o chamado “socialismo real” – insistem os intelectuais burgueses -, foi a pior forma de ditadura de espécie humana, o povo passou fome, foi preso, torturado.
- E com as revoluções burguesas foi diferente? – questionam os intelectuais marxistas – Depois da revolução francesa o povo passou fome, frio, foi torturado, humilhado e quem subiu ao poder? Napoleão Bonaparte, que instaurou uma nova forma de opressão. Isto não é motivo para desacreditarmos no futuro e numa sociedade socialista. Isso só demonstra que toda mudança social profunda, isto é, toda revolução engendra uma contra revolução, muito mais cruel e impiedosa, que tenciona pelo fim dos ideais que desencadearam a revolução. Isso não significa que as revoluções sejam impossíveis, apenas que não podem ser “perfeitas”, uma vez que movem inúmeras paixões, medos, angústias, crises, além, é claro, de ferir interesses poderosos. A ascensão de Stalin ao poder na URSS, com todos os seus crimes que mancharam o nome do socialismo, não significa que o socialismo seja irrealizável ou que “se transforme inevitavelmente em uma ditadura sanguinária”. Apenas atestou que sob as condições históricas do século 20, a contra revolução na União Soviética adquiriu aqueles contornos nefastos. Agora, as lições precisam ser tiradas e divulgadas. Assim como o capitalismo surgiu das contradições entre os avanços das revoluções burguesas e a contra revolução girondina e napoleônica, o socialismo vai se reciclar e ressurgir, como uma fênix, da contra revolução stalinista.
- Aí está todo o problema – argumentam os intelectuais burgueses – Vocês apenas raciocinam em cima da política. Secundarizam ou mesmo ignoram o ser humano e suas aspirações individuais. Tudo se resume a revolução e contra revolução. O mundo é mais complexo do que isso. O ser humano não é uma máquina e não se pode resolver problemas pessoais, tipicamente humanos, mexendo na economia. O socialismo não combina com humanismo porque submete tudo à ditadura do estado.
- Não se pode confundir a ditadura stalinista com “socialismo”. O que querem os socialistas com o socialismo senão humanizar as relações de produção, as relações políticas e econômicas? Isto é, os socialistas querem justamente desmercantilizar as relações humanas, elevar o nível intelectual, cultural e moral. Buscar relações mais verdadeiras, menos hipócritas e moralistas; portanto, relações verdadeiramente humanas. Visa humanizar a humanidade, tão mercantilizada, degenerada por sucessivos regimes de escravidão. Jogar fora todo o entulho aristocrático, místico, escravocrata, racista, feudal, burguês e burocrático. O humanismo deverá ter como norte estas premissas, caso contrário naufragará.
- Isso tudo é muito bonito em teoria – retrucam com a mesma leviandade de sempre os temerosos intelectuais burgueses.
- Por certo que para atingirmos nosso fim, que é a sociedade socialista, certamente nos depararemos com muitas circunstâncias que podem nos levar a uma encruzilhada e, até mesmo, à degeneração; isso, é claro, se não queremos ficar apenas na teoria, isto é, num humanismo abstrato incapaz de descer até o campo de batalha da realidade. Vocês que defendem consciente ou inconscientemente o capitalismo e a burguesia são incapazes de “utopia” porque pra vocês o futuro está morto. Vocês o assassinaram. Pra vocês só há “saída realista” no capitalismo; e dentro do capitalismo não há futuro. Para nós, socialistas, a “utopia” é um exercício e um dever, pois o futuro nos pertence.
- Esta história de atingir determinados “fins” lembra muito Maquiavel – esforçam-se os intelectuais burgueses, escondendo todo o seu maquiavelismo – Lembrem-se que Stalin era adepto da filosofia de Maquiavel.
- Certamente – respondem os intelectuais socialistas – Mas qual era mesmo o “fim” visado por Stalin: o socialismo ou a defesa da estabilidade da União Soviética para garantir os privilégios de uma burocracia parasitária e antissocialista?
- Voltamos ao problema dos desvios interiores do ser humano – insistem os intelectuais burgueses.
- De forma alguma! – retrucam os intelectuais marxistas – Se alguns “socialistas” e “partidos socialistas” se desviam do caminho da humanização da sociedade, se degenerando e traindo certos princípios, isso se dá por diversos fatores, mas a doutrina econômica e a base do pensamento socialista não normalizam e não relativizam a degeneração, a opressão e a exploração. Os especuladores, os corruptos e magnatas (bem como seus pequenos sócios da classe média) procuram enganar a população e os trabalhadores pobres de que eles podem enriquecer também. Incitam a cobiça, a “vontade de poder”, o egoísmo interior de cada um deles. Levam vantagem porque possuam a mídia, as igrejas, as universidades e escolas; em suma: o monopólio sobre o poder ideológico. Os socialistas, por sua vez, dialogam com o lado social, estóico, ético e honesto do interior de cada um. Estes impulsos são sempre mais fracos que os primeiros; por isso estão sempre em desvantagem. Isso não significa que a mudança seja impossível, como pensam vocês, induzindo muitos a pensarem o mesmo. A sedução pelo poder político e econômico, por mais invencíveis que pareçam, também tem limites naturais (ainda que bastante largos). A degeneração humana e social, a destruição da natureza através do consumismo desenfreado e a destruição da sociedade pela exploração e pelas guerras colocam uma sentença. Obrigam, por bem ou por mal, a um posicionamento. Esta pressão ultimatista da realidade conduz os “seduzidos” a se mobilizarem, a se politizarem, a lutarem pela sua sobrevivência; nem que sejam conduzidos pelo egoísmo mais tacanho da própria subsistência. É neste momento que se abre uma porta para mostrarmos a eles que a garantia da existência humana sobre a Terra depende do socialismo: das mudanças no regime político e econômico. Estas devem desencadear e preparar as mudanças na psicologia de massas, nas condutas pessoais, nas relações humanas, ainda que possam levar muito tempo.
- O ser humano não gosta de mudanças. São conservadores por natureza. Como fazer uma revolução dentro de limites tão estreitos, com tantas resistências, seja dos opressores (que resistem em razão das suas riquezas e da sua condição social), seja dos oprimidos (em razão da reprodução e assimilação dos valores dominantes)?
- Achamos que é inevitável usar a força para realizar esta mudança. Mas é claro que ela só pode funcionar dentro de um plano mais geral, de convencimento, elevação do nível cultural, intelectual, moral e, sobretudo, da produção econômica. O autêntico humanismo socialista em um período de difícil transição entre sociedades se expressa naquela frase de Che: “é preciso endurecer, sem perder a ternura jamais”. Os frutos poderão demorar a aparecer, mas estamos seguros de que virão.
- Poderão sobrevir os “Stalins” também – debocham os intelectuais burgueses.
- Sem dúvida este é um perigo real. Sabemos hoje que para o surgimento do regime stalinista houve, além de condições econômicas, sociais e políticas, certas propensões dentro de cada ser humano que esteve na alta cúpula do Estado soviético, bem como nas suas zonas adjacentes. E que isso, de alguma forma, também determina os rumos dos acontecimentos históricos. Porém, queremos ter o direito de tirar as lições pela ótica proletária, para que possamos continuar lutando e pensando dentro da perspectiva socialista. A burguesia quer apavorar a classe média e o proletariado utilizando-se da barbárie stalinista. Pretende transformar a mais profunda experiência revolucionária e progressista da humanidade no século 20 (isto é, a revolução russa) em seu oposto: em algo retrógrado e abominável, culpabilizando-a pelos crimes e traições do stalinismo. Atribui exatamente o futuro da humanidade sombrio sob o capitalismo ao socialismo: um futuro sem liberdades, sem direitos, apenas com escravidão, exploração, fome e miséria. Não! Não deixaremos a burguesia e os “socialistas” reformistas fazerem isso. Vale lembrar as palavras de Graco Babeuf, exímio revolucionário que permaneceu fiel às consignas que desencadearam a Revolução Francesa de 1789, quando se defendeu das acusações dos burgueses monarquistas que queriam condená-lo à morte: “são minhas as ideias que nos levam de volta à barbárie?”. Não podemos condenar a Revolução de 1789 pelos crimes da reação girondina e pela ascensão de Napoleão Bonaparte. Por acaso a Revolução Francesa também não degenerou o pensamento dos iluministas (Voltaire, Diderot, Rousseau)? Rousseau falou de “homens odiosos a ponto de cobiçarem mais do que o suficiente enquanto outros homens morrem de fome”. E o que fizeram os girondinos e os republicanos burgueses logo após o apogeu da Revolução Francesa senão acumular riquezas e matar outros homens de fome? Acreditamos que nem pela fome, nem pela tortura a que o povo francês foi submetido, a Revolução de 1789 deixou de ser necessária e importante para a humanidade. Tampouco o feudalismo e o antigo regime eram preferíveis ao capitalismo. Apenas os niilistas incorrigíveis (ou os desonestos intelectuais) podem pensar assim. O fracasso do “socialismo” apenas atesta o fracasso do stalinismo, nada mais, nada menos. O terror stalinista é o correspondente do terror girondino e napoleônico. A crítica trotskysta nos legou uma importante fonte documental que nos atesta esta afirmação. O futuro pertence aos trabalhadores, apesar de toda a tentativa dos reacionários de parar a roda da história, inclusive lançando mão do nazi-fascismo para aterrorizar, castrar e deter o proletariado.
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         Os intelectuais burgueses, que recebem grandes somas de dinheiro para firmarem falsas ideais para a manutenção da ordem vigente, não desistem:
         - Não é possível a criação de uma nova ordem social utilizando-se da violência. Isso não pode ser considerado humanismo; tampouco uma forma social que nasça da força.
         - Acaso a propriedade não é uma violência atroz? – retrucam os intelectuais socialistas, que geralmente possuem infinitamente menos meios para expressarem tais posições, quando não são diretamente ridicularizados pelo senso comum e pela grande mídia sem direito à resposta.
         - Acabar com a propriedade privada é um sonho nefasto que vocês, socialistas, desenvolveram de forma antinatural. A propriedade faz parte da declaração dos direitos do homem. É para acumular propriedades e riquezas que o homem trabalha. Tire esta perspectiva dele e então você verá todo o seu esforço minguar. Foi por isso que os homens fizeram a Revolução Francesa. Foi por isso que os pensadores iluministas levantaram alto a bandeira de uma nova sociedade. A propriedade era um privilégio restrito à nobreza feudal. A burguesia, sob o estandarte dos iluminista e dos revolucionários de 1789 estendeu este direito à toda sociedade.
         - É interessante notarmos que este “direito” continua restrito. Marx e Engels já desmascararam esta posição em 1848: “a Revolução Francesa aboliu a propriedade feudal em proveito da propriedade burguesa. O que caracteriza o comunismo não é a abolição da propriedade geral, mas a abolição da propriedade burguesa. Ora, a propriedade privada atual, a propriedade burguesa, é a última e mais perfeita expressão do modo de produção e de apropriação baseado nos antagonismos de classes, na exploração de uns pelos outros. Neste sentido, os comunistas podem resumir sua teoria nesta fórmula única: a abolição da propriedade privada. Censuram-nos, a nós comunistas, o querer abolir a propriedade pessoalmente adquirida, fruto do trabalho do indivíduo, propriedade que se declara ser base de toda liberdade, de toda atividade, de toda independência individual. A propriedade pessoal, fruto do trabalho e do mérito! Pretende-se falar da propriedade do pequeno burguês, do pequeno camponês, forma de propriedade anterior à propriedade burguesa? Não precisamos aboli-la, porque o progresso da indústria já a aboliu e continua a aboli-la diariamente. Ou por ventura pretende-se falar da propriedade privada atual, da propriedade burguesa? Mas, o trabalho do proletário, o trabalho assalariado cria propriedade para o proletário? De nenhum modo. Cria o capital, isto é, a propriedade que explora o trabalho assalariado e que só pode aumentar sob a condição de produzir novo trabalho assalariado, a fim de explorá-lo novamente. Em sua forma atual, a propriedade se move entre os dois termos antagônicos: capital e trabalho assalariado”. E concluem de forma categórica: “Horrorizai-vos porque queremos abolir a propriedade privada. Mas em vossa sociedade a propriedade privada está abolida para nove décimos de seus membros. E é precisamente porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós. Acusai-nos, portanto, de querer abolir uma forma de propriedade que só pode existir com a condição de privar a imensa maioria da sociedade de toda propriedade”.
         - Não existe liberdade sem propriedade! – insistem por inércia e por não poder proceder de outra forma os intelectuais burgueses.
         - Esta é uma contradição insolucionável. Responsável pelo aprofundamento das desigualdades, da miséria, da fome; em suma: da barbárie social que vemos crescer todos os dias. Definitivamente propriedade e liberdade não combinam. O iluminismo burguês foi muito importante para desenvolver uma nova sociedade, mas hoje, passados mais de 200 anos, caducou. Podemos afirmar, portanto, que o pensamento socialista, sob a perspectiva marxista-trotskysta, é o herdeiro legítimo do iluminismo e do humanismo burguês dos séculos 17 e 18, que hoje caiu na hipocrisia completa. Somente dentro da perspectiva marxista-trotskysta é que poderemos colocar o humanismo no caminho correto. De uma certa forma o humanismo socialista já estava presente, em germe, no pensamento iluminista. Graco Babeuf foi o fundador do humanismo socialista ainda durante a Revolução de 1789 ao ver a ascensão da nova opressão burguesa, muito antes de Marx, que somente chegou a estas conclusões com a revolução de 1848. Babeuf reivindicava alguns pensadores iluministas, como Rousseau e Diderot. O terror girondino, que subiu ao poder após a queda de Robespierre, lembrando muito o papel reacionário cumprido pelo stalinismo, terminou por perseguir, condenar e executar Graco Babeuf. Durante o seu discurso de defesa, ele denunciou que a “nova” República era menos tolerante que a monarquia. Em 27 de maio de 1797 foi guilhotinado. Durante décadas o seu nome foi usado como um espectro, tal como o de Trotsky.
         - Socialismo é uma utopia e sempre será! – desafiam os intelectuais burgueses, interessados na manutenção da sua ordem social – Em teoria é muito bonito, mas na prática não dá certo.

         - Então, temos que concluir forçosamente que a concretização do humanismo é impossível – completam os intelectuais marxistas – Se olharmos na perspectiva da sua matriz ideológica, realmente é uma utopia. Porém, se expandimos nosso campo de visão, percebemos que não apenas é possível, como se trata de uma necessidade histórica para a evolução humana. Por acaso o capitalismo dá certo? Onde este sistema não foi um grande negócio para uma pequena minoria? A prática do humanismo burguês degenerou em hipocrisia e chantagem. O humanismo, por sua vez, não pode se desenvolver em uma sociedade de classes, pautada pela ganância, competição e exploração. Sabemos agora que o humanismo autêntico só pode se desenvolver sob bases econômicas socialistas. Como a socialização da produção industrial e agrícola, bem como o fim da propriedade do grande capital, a grande mídia, as escolas e universidades podem ser usadas para a evolução e o desenvolvimento harmônico do ser humano. Será necessário também longos anos de “psicanálise social” para superarmos distorções introjetadas por séculos no inconsciente coletivo. Vocês, os intelectuais burgueses, insistem que é possível um “capitalismo humanitário” sem mexer nas bases econômicas do sistema. Por exemplo: que os ricos deixem de ser tão mesquinhos e passem a reinvestir seus lucros no social. Ora, isso seria o mesmo que querer que a raposa cuide do galinheiro e não coma os ovos. Os socialistas sustentam que somente será possível reinvestir os lucros no social quando os trabalhadores tiverem no poder, quando houver uma revolução que os leve ao poder e faça-os dirigirem a sociedade, socializando a economia, elevando o nível material e cultural de toda a população. Sabemos que apenas industrializar um país, elevar seu nível tecnológico e científico, por mais importante que seja, não é suficiente. O passo decisivo para o humanismo socialista é esclarecer se os membros da sociedade são indivíduos oprimidos ou trabalhadores livres, seres humanos racionais ou irracionais; se podem buscar a felicidade no social ou se precisam se esconder numa concha? O decisivo é saber se a sociedade socialista criará uma coletividade humana fundamentalmente e essencialmente diferente da ordem social capitalista anterior, baseada na ganância, na competição e na exploração. Eis a base do humanismo futuro.