segunda-feira, 30 de julho de 2018

Latino-americanos em campos de neve

Relato de uma pequena-grande viagem à Europa

            Dos 4 anos que passei na faculdade de história eu e meus colegas estudamos mais a Europa do que o Brasil e a América Latina. Por um lado é compreensível: a maior parte da nossa cultura, política e economia provêm de lá (não apenas a faculdade, mas também a sociedade, os pais, avós e amigos professam a cultura europeia); por outro lado, quando passa de certos limites, esta idolatria significa uma submissão voluntária a um pensamento eurocêntrico que, definitivamente, enquanto latino-americanos, temos que superar.
            Por tudo isso, viajar para a Europa significou uma grande oportunidade pessoal e, ao mesmo tempo, a chance de olhar cara a cara o nosso “complexo de vira-lata” (para confirmar, definitivamente, a conclusão do samba de Jorge Aragão: “nem tudo o que é bom vem de fora”). A decisão não foi fácil, pois significava abrir mão de economias pessoais acumuladas desde 2007 numa conjuntura nada promissora para os próximos 10 anos. A distância, o medo do novo e a incerteza do que nos esperava causou receio. Mas, ao mesmo tempo, que grandes possibilidades de mudanças interiores esta viagem poderia abrir? Só esta dúvida já valia o “investimento”.

Os primeiros seis dias
            Eu e T chegamos à Europa pelas portas do aeroporto de Fiumicino, na Itália. Lá, mesmo não havendo o vergonhoso processo de visto – como exigem EUA, Canadá e Austrália, por exemplo – acompanhamos e vivemos um hostil processo de migração, onde apresentamos nossas credenciais de “terceiro mundo” para poder entrar (local de estadia, tempo de duração da viagem, passagens de volta, etc.). Vimos uma brasileira ser constrangida porque queria visitar uma amiga em Portugal e “não apresentou provas suficientes”. Espero o dia em que situações constrangedoras como esta não existam mais. Pra mim, este processo de “entrevista de migração” nada mais é que uma demonstração de que as sociedades “desenvolvidas” são como castelos de cartas, que não podem receber imigrantes e os tratam como inimigos porque a sua opulência e condições de vida são para poucos (uma espécie de “cidade proibida” da China imperial).
            Tanto no Canadá quanto na Europa (e mesmo na minha tentativa de visto para os EUA) eu não tinha a menor intenção de ficar para morar. Quero fazer o inverso do que faz a classe média: não fugir do país e dos seus problemas, mas, a partir de uma estadia, procurar sentir, ver e entender o que se passa lá e aqui. Contudo, nossa chegada em Roma seria apenas uma conexão; apenas algumas horas de espera até o próximo embarque. Este pouco tempo nos demonstrou a dimensão das conexões europeias: voos chegando e partindo dos 4 cantos do velho continente, dos mais distintos países para as mais distintas regiões. Apesar de profundamente cansados, estávamos curiosos e ansiosos. As notícias da neve em Paris (após quase 5 anos sem nevar no inverno europeu) não era das mais animadoras para quem queria desbravar a cidade a pé, mas não arrefeceu nosso desejo de aventuras e de viver novas emoções.
Então, após um atraso de mais de uma hora, decolamos em direção à cidade luz.
***
            Ao meio dia de uma quarta feira, 7 de fevereiro, conforme o nosso planejamento, chegamos no aeroporto Charles de Gaulle pela primeira vez. As suas dimensões são imponentes. É quase como uma cidade à parte, tipo Versalhes, cerca de 20 minutos ao nordeste de Paris. Já no sobrevoo pelo céu da região metropolitana pudemos ver prédios, casas, muros, campos e árvores cobertos de neve. A longa viagem sobre o Atlântico (mais de 10 horas no primeiro avião), mais 2 horas de Roma até Paris e o choque térmico em um país que estava abaixo de zero, nos deixou extremamente cansados, o que não nos impediu de sair pela cidade já nos primeiros momentos.
            Paris é realmente linda como dizem! Prédios peculiares, tipicamente parisienses, com uma arquitetura que é uma verdadeira obra de arte a céu aberto. Estátuas sobre pontes, muros, edifícios e palácios. Sobretudo palácios; muitos palácios! O Museu do Louvre, o Museu d’Orsay, o Palácio dos Inválidos, a Ópera Garnier e muitos outros, que antes pertenciam à aristocracia e à monarquia francesa, e hoje estão abertos ao público (ainda que para entrar neles tenha que se pagar caro). O Rio Sena dá a tônica da cidade (não apenas de Paris). Foi ali que vi pela primeira vez as aves típicas de lá, como os estorninhos, os corvos e as gaivotas, que estão em praticamente toda a Europa. A partir do Rio Sena os pescadores fundaram a vila que daria origem à cidade, provavelmente – até onde eu sei – estendendo-se das suas duas ilhas principais, onde está localizada a Catedral de Notre Dame. Os reis também estabeleceram o Palais Royal às suas margens (ainda que séculos depois tenham construído o Château de Versailles a alguns quilômetros de Paris). No primeiro dia experimentamos o famoso macarron e a baba au rhum (bolo feito a base de rum) em uma elegante “padaria”, no caminho do Museu do Louvre; o não menos famoso crepe susete com nutella e banana iríamos degustar somente alguns dias mais tarde.
Catedral de Notre Dame
Em razão do frio, conseguimos chegar às ilhas do Sena e à Catedral de Notre Dame apenas no segundo dia, logo depois de visitar a famosa livraria Shakespeare and Company, que fica também às margens do rio e constitui-se de uma construção bastante antiga, mas muito charmosa, repleta de livros por todos os lados e de visitantes que chegam de vários cantos do mundo, tiram fotos na entrada, visitam o segundo andar (onde, reza a lenda, grandes escritores frequentaram e mesmo pernoitaram, como Ernest Hemingway) e perambulam por todo estabelecimento, folheando ou lendo livros. Entre prateleiras e estantes se pode ler trechos de grandes obras, como de Alice no País das Maravilhas, por exemplo; além de máquinas de escrever como objetos de decoração e alguns gatos de estimação. No dia que tivemos a oportunidade de visitar o segundo andar da livraria, duas moças tocavam piano e um homem de terno, que a despeito de fungar e grunhir, as ouvia em silêncio. A sensação era de um ambiente peculiar e elegante, que atraía pessoas ávidas por cultura.
            No primeiro dia em Paris nos deparamos com ruas cobertas de neve e um chão bastante escorregadio (caímos um tombo homérico na esquina da Ponte Alexandre III que me custou um rasgão no casaco – esta ponte, para mim, é uma das mais bonitas do mundo, com postes e estátuas de bronze e uma bela vista da Torre Eiffel; tudo romanticamente retratado no filme Meia noite em Paris). Neste primeiro contato com a cidade ficamos, literalmente, desnorteados, não apenas pelo frio e o cansaço, mas pela beleza e deslumbramento do que tínhamos a oportunidade de vivenciar. As cidades da Europa, ainda que possuam belezas naturais, como a orla dos rios, montes e parques, são lindas porque traduzem séculos de urbanização, com arquiteturas, estátuas e praças peculiares. Portanto, foram as mãos humanas que as fizeram tão belas. Comparada com a arquitetura daqui percebemos o quanto há para evoluir.
Andávamos por ruas parecidas, mas igualmente lindas e ornamentadas – quase todas com aqueles charmosos e atraentes bares parisienses (os cafés e brasseries). Neste caminhar sem rumo do primeiro dia, sendo mais guiado pelo frio e pela sonolência, acabamos casualmente dando de frente com o Banque de France. Por tamanha coincidência e surpresa, escrevi na postagem do instagram, de 7 de fevereiro: “vocês se lembram que a maior parte de membros da direção da Comuna de Paris (de 1871), formada de blanquistas e proudhonistas, não quis tomar o Banco da França contra a tirania de Thiers, que usou de toda a crueldade e artimanhas possíveis contra a Comuna? Pois é...” estávamos diante da entrada deste banco (que provavelmente não funciona mais enquanto tal e hoje é apenas um prédio que conserva a fachada), com blocos de neve pelas ruas, calçadas, telhados e as tendas dos cafés.
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            Nos dias seguintes ficamos um pouco mais a vontade, embora retraídos quando se tratava de comunicação. As pessoas causam medo, ainda mais em outra língua! Nas capitais da Europa não se fala apenas inglês ou francês, mas uma variedade incrível de línguas (não teve um dia que não tenhamos ouvido distintas línguas ou mesmo o português do Brasil). O quanto os europeus são instigados a falar outros idiomas e a entrar em contato com outras culturas em comparação a nós, brasileiros, que vivemos em rincões que apenas falam português e, no máximo, espanhol? Foi no meio de reflexões parecidas com estas, interrompidas pelo esforço de tapar as pequenas brechas nas roupas e no pescoço por onde entrava um ventinho gelado, que chegamos na Torre Eiffel, já no segundo dia. Ainda estávamos evitando o metrô e procuramos atingi-la a pé. Acertar o caminho olhando no mapa nos deu aquela emoção que fica gravada na memória de quando dobramos uma esquina inesperada e demos de cara com aquela gigantesca construção de ferro e aço, que nos faz tão pequeninos. Para nosso azar ela estava fechada em razão da neve, mas o pequeno parque, com algumas flores, plantas e bancos nos propiciou bons momentos de fotos e contemplação. A Torre Eiffel é mais do que o símbolo turístico da França, é uma colossal obra prima, que se utiliza de todo o valor estético do aço, forjado no final do século 19, conforme pudemos ler no Museu d’Orsay. No primeiro nível da torre, mesmo do chão, pode-se ler os nomes de cientistas, matemáticos, engenheiros e políticos da França.
Por outro lado, em dissonância com a sua beleza e opulência, percebemos o quanto há de trabalho informal em todos os pontos turísticos da França e da Itália (quiçá de toda a Europa), levado a cabo, em sua maioria, por africanos. Assim que percebiam que éramos turistas (o que, de fato, não era nenhum pouco difícil), eles começavam a nos cercar e oferecer seus souvenires (pequenas lembrancinhas, chaveiros de Torre Eiffel, pau de selfie, dentre outros), tentando acertar a nossa língua: inglês, francês, espanhol; até hakuna matata! Bem de fronte à torre, atravessando a rua em direção ao Sena, sofremos o golpe da ONG que ampara crianças surdas e mudas. Ofereceram-nos um abaixo assinado em defesa destas crianças, com o qual, evidentemente, não tivemos como recusar. Assinamos no auge de nossa ingenuidade. Logo em seguida nos pediram a quantia para a doação que tínhamos nos comprometido, uma vez que tínhamos assinado a planilha. Não tinha como fugir, né? Afinal, eram as crianças surdas e mudas! Demos um valor razoável, seguimos nosso caminho e depois não caímos mais nessa armadilha (tentaram outra vez nas margens do Sena próximo do Palácio Real e ainda na Itália).
            Depois desse breve, gelada e inesquecível visita à torre, fomos caminhando em direção ao monumento que traduz as extravagâncias da era napoleônica: o Arco do Triunfo. A cada passo que dávamos pra frente virávamos para olhar a Torre Eiffel, que ficava cada vez mais distante, lá, a nos brindar, majestosa e linda, já do outro lado do Sena. Tal como todos os outros pontos turísticos de Paris, o Arco do Triunfo é repleto de turistas e vendedores ambulantes. Passamos por debaixo da rua para atingir o monumento, de ondem despontam inúmeros ornamentos, detalhes e nomes de militares e personalidades francesas. Não subimos até o topo porque exigia pagamento, mas andamos por todo o espaço inferior. De saída do arco caminhamos pela Champs-Éllysées, o mais famoso e largo boulevard da França (e do mundo?). Ela desemboca na Praça da Concórdia, onde o Rei Luís XVI foi guilhotinado durante a revolução francesa. Foi na Champs-Éllysées que usamos pela primeira e única vez os carregadores de celulares disponíveis nas paradas de ônibus. Esta “grande invenção” francesa, a despeito de toda a beleza da capital do país, foi o que mais marcou a viagem do sagaz prefeito do PSDB, digno de obriga-lo a fazer uma nota para as redes sociais. Isso que é visão!
            Neste mesmo dia, já bastante cansados pela longa caminhada (mais de 40 quadras!) e pelo frio, chegamos ao Palácio dos Inválidos, um museu essencialmente militar, onde está enterrado Napoleão Bonaparte. Pelo tamanho e extensão, certamente era utilizado como palácio militar, onde tropas desfilavam, se exercitavam e faziam manobras. Em todos os museus, palácios ou mesmo igrejas é preciso passar por um aborrecedor processo de revista de raio-X. Num inverno de zero graus, significa tirar casacos, tocas e cachecóis; às vezes relógios e celulares. É um tanto desagradável. Segundo eles, tudo para vencer a luta contra o terrorismo!
            No Palácio dos Inválidos, a despeito de murais com fotos e informações sobre a visita de Sir Wiston Churchill ao local, bem como de “mártires” da luta contra o nazi-fascismo, a “atração” é mesmo a tumba de Napoleão. Não pagamos para entrar em razão do valor, mas só de chegar às suas portas e dar uma olhadela para dentro, mesmo discordando de todos os horrores proporcionados pelo período napoleônico, se sente aquele frio na espinha de pensar em todo um período histórico que mudou a face de um continente e do mundo inteiro.
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            No dia em que reservamos para ir ao Museu do Louvre o céu amanheceu carregado, ameaçando tempestade de neve. No percurso do nosso hotel até lá grossos flocos de neve começaram a cair, confirmando a ameaça do céu e nos obrigando a parar em toldos de café e, no fim, a ter que comprar um guarda chuva. Chegamos na famosa pirâmide de vidro cerca de 11h da manhã. O frio era severo, de cerca de -1ºC, o que tornou a espera na fila de entrada muito mais dolorosa. Novamente passamos pelo ritual da longa fila de inspeção, com esteira e raio-X (para terem certeza de que nós não éramos terroristas. Sorte a nossa!).
            O Museu do Louvre ocupa um grande palácio que forma um “U” em um grande pátio, onde se encontram as pirâmides de vidro. Pela imponência de suas extensões, provavelmente era parte do Palácio Real, onde antes habitavam os cortesãos dos reis e de Napoleão, que instalou sua nova corte real nas Tulherias, exatamente onde o Museu está localizado. Neste museu – o mais famoso do mundo – encontra-se um grande tesouro da cultura humana! Separado por épocas históricas, o museu parte do período mesopotâmico, passando pelo egípcio e greco-romano, indo até a arte moderna e Renascentista. Há uma longa galeria que traz o florescimento da escultura francesa, influenciada pelo Renascimento italiano. Descobri que os franceses tem verdadeira devoção por esculturas, procurando repetir não apenas os italianos, mas os próprios gregos e romanos. As estátuas estão literalmente por todos os lados, não se restringindo ao Museu do Louvre: se encontram belas obras nas praças, nas fachadas dos edifícios, nos postes, nos telhados, nas pontes, nos muros... Desde ninfas e seres mitológicos, até personagens históricos da França e de outros países, as esculturas dos artistas franceses estão, certamente, entre as mais belas e expressivas do mundo.
            O acervo do Louvre é constituído, segundo nosso amigo bolonhês (que conheceremos mais adiante), por obras roubadas de outros países, em particular, da Itália. Penso que ele tem razão, ainda que a Itália seja uma pequena parcela dos países que tiveram artefatos artísticos e históricos saqueados pelos franceses. Esta riqueza cultural e arqueológica certamente não deve ter caído do céu, embora muitos colecionadores e mecenas vendam ou doem obras para os museus europeus. O fato, contudo, foi que o Louvre me abriu os olhos para esta arte tão apreciada pelos antigos – a escultura –, e me fez ficar muito mais atento passeando pelas ruas de Paris, Londres e Roma do que propriamente dentro do museu. Nas ruas as estátuas dão um charme especial e peculiar às cidades europeias; em particular à Paris, que foi a que mais estátuas pude contar (na verdade perdi as contas).
            Entre diversos saguões que abrigam cerâmicas, peças, pedras, estátuas e quadros das mais variadas fases da história, eu e T disputamos ombro a ombro com turistas do mundo todo um espacinho para ver de perto a pedra do Código de Hamurábi, La Gioconda (a Monalisa) e a Vênus de Milo. No caminho, perdido entre um e outro, esbarrávamos numa estátua da Pallas Atenas, num quadro impressionante da Idade Média ou numa grande obra do Renascimento (que exigiriam pelo menos, algumas horas de análise). No Louvre há tanta cultura espalhada por um Palácio fantástico, que por si só, com seus corredores imensos e grandes janelas, que ora fazia aparecer um pedaço da rua branquinha de neve, ora aparecia o grande pátio com suas pirâmides de vidro, já valeria o ingresso. Nos perdemos, então, neste labirinto de saguões, apartamentos e escadarias, pelo menos, duas vezes. Neste percurso, encontrávamos sempre novos setores interessantíssimos, dentre os quais, cabe destacar o que abordava a aristocracia francesa dos séculos XVII, XVIII e XIX. Em uma das quinas do Palácio, está reconstruído, tal e qual, as salas de jantares e de reuniões da época do falsário Napoleão III. Eram ambientes ornamentados com detalhes de ouro, grandes mesas, sofás, vitrais e lustres, entrecortados por estátuas, quadros e pinturas deslumbrantes no teto – geralmente de cunho religioso, ostentando anjos, ninfas e santos –, que sugerem que você está no céu; tudo isso explicou pra mim de forma muito eloquente o porquê das revoluções francesas de 1789, 1830, 1848 e 1871.
            O Museu d’Orsay, que visitamos no nosso último domingo em Paris, era um tanto menor, embora não menos impressionante. Praticamente grudado ao Museu do Louvre, o Museu d’Orsay fica do outro lado do Rio Sena, em uma antiga estação de trem, toda adaptada para abrigar um museu, com mais quadros e estátuas de valor histórico-universal. Fomos a este museu por calorosa recomendação de nosso já referido amigo bolonhês, que nos disse valer muito a pena, sobretudo em razão dos quadros impressionistas, que é a especialidade do Museu d’Orsay. Esta dica valeu muito a pena. As obras dos impressionistas, vistas dentro de um contexto, são realmente fantásticas. Ver em sequência os quadros de Van Gogh, Manet e Monet é um privilégio, ainda que se tenha que pagar bem caro por ele (levando em consideração que somos latino-americanos). Fiquei horas deslumbrado com um quadro de Monet, que retratava uma simples paisagem iluminada por uma luz outonal, pois parecia uma foto e não uma pintura. Aprendi mais sobre história da arte do que em toda a minha faculdade (e toda a minha vida?). E o impacto e a emoção de olhar o quadro “A noite estrelada” de Van Gogh? O resultado é que na saída fui obrigado a comprar um livro retratando Paris pintada pelos impressionistas.
Neste museu ainda me marcaram as estátuas dos irmãos Gracos, de Roma, dos Gladiadores e o escultor, do deus grego Dionísio (Baco para os romanos) oferecendo um cálice de vinho para uma pomba, a pintura de mulheres enchendo vasilhas num lago (que pareciam ser as mulheres de Atenas) e de uma luta de espadas que tinha terminado com uma terrível decapitação. Pela falta de tempo não pudemos aproveitar mais, pois o museu abrigava também uma parte que falava sobre Paris ao longo da história, a grande feira conhecida como Exposição Universal de 1900, a construção da Torre Eiffel e o valor estético do aço, além das obras de Delacroix, que não conseguimos ver por que nos perdemos de novo e não tínhamos mais tempo. As janelas do Museu d’Orsay são magníficas, permitindo uma visão panorâmica da Basílica Sacré Cœur em meio a vários prédios típicos de Paris. Não poderia esquecer, é claro, dos grandes relógios de vidro, que permitem que a luz da rua entre no prédio e também propicia belíssimas fotos para os turistas.
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            Geralmente saíamos cansados de todos estes passeios, não apenas porque os museus eram gigantescos e exigiam subir e descer muitas escadas, além de obrigar que ficássemos muitas horas de pé, mas também porque aquele excesso de beleza nos preenchia os olhos e tudo nos deslumbrava demais. Sentíamos fome; muita fome! Saíamos a caça de um bar, ou de uma barraquinha de crepe susete, ou mesmo de um restaurante mais acessível. A comida parisiense é deliciosa, diversa e, em alguns casos, na minha opinião, exótica. Basta dizer que muitos pratos surgiram da culinária parisiense e a palavra gourmet, é francesa. No petit déjeuner (café da manhã) quase sempre tem croissant, baguete típico, com um tablete de queijo (tipo polenguinho), geleias, ovos fritos e suco de laranja. Os croissants que comi foram os melhores da minha vida, o que confirma a fama. Já as iguarias como Macarron não me agradaram tanto. Ao meio dia, quase sempre oferecem pasta (massa) com variados molhos, mas estas não diferem muito das do Brasil. Bem diferente da Itália, onde a massa, as pizzas e o azeite são fabulosos; posso dizer, seguramente, que são os melhores que já comi (ainda que as da América sejam boas a seu modo).
            Caberia destacar os queijos e os vinhos, que são verdadeiras relíquias da França. Nos restaurantes (tanto lá, quanto aqui) não vale a pena beber nos restaurantes, pois são bem mais caros. Compramos em supermercado por um valor relativamente barato. Assim como não encontrei pizza ou massa ruim na Itália, não encontrei vinho ruim na França. Os Bourdeaux são incrivelmente saborosos, diferentemente dos “bordôs” brasileiros, que se assemelham aos de garrafões. Já os vinhos italianos me parecem com a qualidade um pouco inferior ao dos franceses, enquanto que na Inglaterra só víamos marcas estrangeiras, inclusive muitas do Chile (que também estão presentes no Canadá). Em Londres comprávamos vinhos nos supermercados também e tomamos um muito ruim da Califórnia, que não tinha rolha (era de tampa comum). Na França não vi nenhum vinho que não fosse de rolha, o que, segundo entendidos, garante a sua maior qualidade, e nos obrigou a comprar um saca-rolha.
O café Les Deux Moulins
            Mas o que mais trago vivo na memória foram os pequenos restaurantes da Rue Lepic, que desce desde o morro da Basílica de Sacré Cœur, quase como umas pequenas casinhas dos Alpes Suíços (ainda mais com neve nos telhados). O cenário constituía-se não apenas de restaurantes tradicionais parisienses, como o famoso café Les Deux Moulins, do filme Amélie Poulain, mas também de muitos mini mercados, açougues, quitandas e mercearias típicas, com frutas dos mais variados tons, aparentemente geridos pelas famílias tradicionais francesas. Em uma que fomos comprar almoço, por exemplo, os atendentes não falavam nenhuma língua a não ser o francês. Comemos couscous, uma espécie de hambúrguer com tomate (um bem tipicamente francês), arroz e salada (estávamos com muita vontade de comer arroz e salada!). No local não tinha lugar para sentar, por isso tivemos que comer no hotel, mas a Rue Lepic nos causou as melhores impressões de um típico charme urbano francês, que nos deixou com muita vontade de voltar lá.
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            Num certo domingo decidimos ir conhecer Versalhes e o seu famoso palácio, que fica a alguns quilômetros de Paris. Foi a primeira vez que desbravamos o metrô parisiense, que tem ligação direta com o trem que leva até Versalhes. Desta vez a distância exigia um meio de transporte, pois era realmente impossível ir a pé. Por orientação do nosso amigo Sofian, o recepcionista do hotel, pegamos três linhas e, por um preço acessível, chegamos até Versalhes ainda na manhã daquele domingo. No trem, nos bancos atrás de nós, sentou-se um grupo de brasileiros (não teve um único dia que não encontrássemos brasileiros); um pouco mais adiante, ingleses e mais à esquerda alguns alemães. Assim como em quase todas as partes da França, víamos e ouvíamos turistas de todos os cantos do mundo. Na fila de entrada do Palácio tínhamos a nossa frente um grupo grande de chineses e atrás um casal russo.
            O Palácio de Versalhes – lido e ouvido sempre como o local do famoso tratado de 1918, como centro da burguesia francesa contra a Comuna de Paris ou, ainda, como um dos mais marcantes episódios da Revolução Francesa de 1789 – possui dimensões colossais (quase um palácio-cidade dentro de outra cidade), não apenas pela estrutura dos edifícios construídos pela megalomania dos reis absolutistas franceses, mas, sobretudo, pela imponência dos jardins, que são imensos e descomunais, repletos de chafarizes e outras tantas estátuas. Por dentro, o Palácio é marcado pela busca de glória, riqueza e luxo dos monarcas e da sua corte que ali viveram supostamente representando a sociedade francesa.


            Hoje está totalmente transformado em um imenso museu, onde cada sala ou saguão conta um episódio da vida nacional da França. Em um largo corredor aparecem enfileirados cronologicamente as estátuas de reis, pensadores, filósofos e políticos franceses, indo desde a Idade Média até a contemporaneidade. Não vi entra elas (bem como em nenhum outro lugar da França) nenhuma estátua de Robespierre, Marat ou de Gracus Babeuf. Mesmo a sala do Palácio que fala sobre a Revolução Francesa de 1789 é absolutamente sem graça, quase um hiato entre a nobreza absolutista medieval e o período contemporâneo. Provavelmente a clássica revolução burguesa que deu origem ao desenvolvimento capitalista na França e na Europa inteira hoje cause certo desconforto.
            Andando pelos quartos e salas de jantares da nobreza francesa pode-se perceber a opulência e a ostentação que certamente contribuiu de maneira decisiva para as revoluções do povo francês contra ela. Desde o grande saguão construído por Luís XIV para abrigar suas amantes, até o imenso salão dos espelhos, usado pela monarquia para dar grandes bailes e festas. Em 1871, no auge da Comuna de Paris, este salão foi utilizado pelo Kaiser alemão para a sua coroação, humilhando não apenas a monarquia francesa, que estava em frangalhos, mas a própria burguesia da França que naquele momento estava em uma luta de morte contra os operários parisienses sublevados.
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            Mais do que gastar dinheiro para entrar em museus, igrejas, templos ou pontos turísticos, nos interessava passear pelas ruas e, sobretudo, conhecer as praças. As praças de Paris são muito diferentes das brasileiras, não apenas pelo conteúdo histórico da maioria delas, mas, também, porque elas não possuem árvores e mata verde como acontece geralmente aqui no Brasil. As praças de Roma quase não têm árvores. As praças de Paris e Londres que tem algum tipo de espaço verde tem o acesso às árvores e flores fechado com cercas.
            A Place de la Concorde, por exemplo, ainda que possua uma “vizinhança” verde com os bosques da Avenida Champs-Éllysées, de um lado, e do Jardim das Tulherias, do outro, ela própria não possui uma árvore sequer. Do seu centro se ergue um majestoso obelisco, seguido por um grande chafariz, repleto de estátuas e significações. Quase todos os postes exibem pequenos sátiros e ninfas. É nesta praça que está a grande roda gigante (talvez uma imitação do Big Eye londrino?) e um pequeno carrossel na entrada. Na parte sul da praça se pode vislumbrar o imponente prédio da Assembleia Nacional, com seus pilares à moda grega, do lado norte um grande palácio (hoje é o Museu Maxim’s) e na extensão da Rue Royale a imponência da Igreja de La Madeleine.
            Quando caminhamos pela Place de la Concorde fiquei imaginando a cena ocorrida em 21 de janeiro de 1793: o Rei Luís XVI subindo ao cadafalso, com as mãos amarradas, cabisbaixo, sendo guiado por um sentinela jacobino, enquanto que o carrasco e outras autoridades o aguardavam. A massa parisiense ensandecida e enfurecida, esperando para ver o que seria o ato mais radicalizado das revoluções burguesas de toda a Europa: o guilhotinamento do Rei, que abalaria uma instituição com mais de 1000 anos, a monarquia. O clima que eu via, ao contrário de tudo isso, era bem diferente. Fluxo de carros e turistas chegando em excursões de ônibus, ou a pé, tirando fotos e formando fila para andar na roda gigante.
            Bem próximo dali está a Place Vendôme, que possui a famosa coluna de mesmo nome, que se ergue por uns 40 metros acima das nossas cabeças. Fundada originalmente por Luis XIV no que hoje é o 1º arrondissement de Paris (uma região bem rica e movimentada), a praça possuía no centro uma estátua equestre do Rei Sol. Em 1792, os revolucionários destruíram a estátua, símbolo do poder real. Em 1800, já na era napoleônica, um decreto impõe a construção de uma coluna em 20 de março, quando Napoleão Bonaparte decide construir uma coluna departamental na Praça de Vendôme para celebrar a sua vitória na batalha de Austerlitz, com uma estátua de si mesmo em traje de imperador romano na parte superior da dita coluna. O episódio mais marcante, contudo, ocorre na época da Comuna de Paris. A insurreição que leva os operários ao poder traz uma nova visão sobre os antigos monumentos, conforme um dos seus manifestos declara: “A Comuna de Paris considera que a coluna de Vendôme é um monumento bárbaro, símbolo da força bruta e da falsa glória, uma afirmação do militarismo, a negação do direito internacional, um permanente insulto dos vencedores aos vencidos, um perpétuo ataque a um dos três grandes princípios da República Francesa, a fraternidade. Por isso a coluna de Vendôme será demolida”. Assim a Comuna procedeu: em 16 de maio de 1871 a coluna foi demolida frente a uma multidão. Porém, com a sua sabotagem e derrota, a coluna foi reconstruída e hoje abriga no seu topo uma reconstrução da estátua de Napoleão em trajes romanos.
            A Praça Vendôme não possui uma única árvore. Está envolta por edifícios no estilo tradicional parisiense em formas de um grande quadrado, hoje possui algumas lojas de grifes e marcas famosas. Passamos por lá certa vez quando voltávamos para o nosso hotel na Square D’anver.
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            Na maioria das estações, metrôs e nos aeroportos há um piano público ou algum tipo de manifestação artística. No aeroporto de Fiumicino, em Roma, e na estação de trem de Saint Pancras, em Londres, ouvimos por um bom tempo pessoas comuns tocando piano, esbanjando talento numa grande demonstração de arte popular. Em duas estações de metrô de Londres vimos pessoas tocando violão (rock clássico ou pop) e violino. Na praça do Pantheon, em Roma, assistimos por alguns minutos a apresentação de um violinista, que encantava e interagia com os turistas e as pessoas que passavam na rua. Ainda em Roma, numa passagem em forma de caverna com uma escadaria que passava por debaixo de um grande edifício velho estava um senhor tocando as músicas típicas da Itália em um acordeão.
No entanto, dois destes shows populares me marcaram mais a memória: uma senhora tocando gaita em uma das pontes do Rio Sena, em Paris; e a apresentação de pop rock em frente a academia nacional de música (o prédio da famosa Ópera Garnier, no coração de Paris) em um belíssimo sábado de sol parisiense, aquecendo um pouco o rigoroso inverno francês. A senhora do acordeão sobre a ponte do Sena me marcou pela melodia triste e por seu rosto, cheio de rugas da vida e com olhos piedosos pedindo ajuda; o cantor pop da Ópera Garnier era, provavelmente, um mendigo que tocava e cantava (julgo pelas roupas – posso estar enganado!). Porém, parecia um músico profissional e tentava estabelecer uma conexão com os turistas e os parisienses que, se empoleirando nas escadas da Ópera, procuravam o seu lugar ao sol. Até onde o tempo nos permitiu ficar lá, ele estava conseguindo envolver um grupo de turistas norte-americanos no seu show improvisado, pedindo para irem até o microfone cantar junto com ele.
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            Nos últimos dias da nossa primeira estada em Paris, por recomendação de amigos e familiares, fomos visitar o famoso cemitério de Père-Lacheise, que fica entre o 11º e o 20º arrondissement. Chegamos lá a pé, depois de visitar a Place de la Bastille (onde ficava a antiga masmorra que foi tomada em 14 de julho de 1789 pela revolução) e a Place de la Nacion, para onde os bulevares Diderot e Voltaire confluem, quase na periferia de Paris.
            Por fora o cemitério é bastante comum, com grandes muros brancos, de ondem saltam algumas cúpulas ou ornamentos de um grande túmulo qualquer, que tem alguma coisa de egípcio em sua entrada central. O cemitério de Père-Lacheise se constitui de um gigantesco espaço verde, com árvores entrecortadas por inúmeras covas no chão, em sua maioria com mausoléus que possuem estátuas ou arcos e janelas ogivais, no velho estilo gótico, cruzadas por ruas de paralelepípedos (as principais) ou vielas de chão batido (por entre os túmulos). Para a minha surpresa, fiquei sabendo que grande parte da história da França e da Europa está enterrada ali (Saint-Simon, Honoré de Balzac, Oscar Wilde, Allan Kardec, Augusto Comte, Eugène Delacroix, Édith Piaf, Laura Marx, Thiers e a “grande atração”, Jim Morison, enterrado em uma tumba sem muita ostentação). Como resultado disso, muito mais do que viúvas ou entes queridos, vimos perambular pelas sepulturas um grande número de turistas e curiosos, que observam ou tiram fotos com o celular do grande mapa afixado num mural de metal, logo na entrada, contendo o nome dos “mortos famosos”, para as utilizar como mapas do submundo parisiense de Hades.
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            O frio tinha dado uma leve trégua. A neve já havia derretido das ruas e o sol brilhava em um curto período de tempo do dia do inverno europeu. Voltamos ansiosos para o hotel: no dia seguinte ganharíamos um novo carimbo no nosso passaporte; desta vez com o emblema da realeza!

4 dias como súditos
            Uns 3 dias após a volta para o Brasil, li no romance “O homem que amava os cachorros”, de Leonardo Padura, que Bukharin regressou de Paris a Moscou pela Gare du Nord, a estação ferroviária que liga a França aos países do norte da Europa. Foi justamente nesta estação que pegamos o trem da Euro Star que nos levou para Londres. A Gare du Nord é uma grande construção de vigas de aço, que ainda conserva algum toque dos séculos XIX e XX. Fundada em 1866, já possui ares de modernidade, com sala de espera com wi-fi e todos os confortos da calefação, embora na plataforma de embarque se sinta um pouco de frio, uma vez que não é fechada.
            O empreendimento ferroviário é simbólico quando falamos do Brasil: um país de dimensões continentais (quase maior que a Europa), proibido pelos trustes, monopólios automobilísticos e petroleiros, com o subserviente apoio dos seus pares políticos, de ter uma malha ferroviária que transporte passageiros e cargas. O quanto estamos atrasados se comparados à Europa, que está totalmente interligada por estradas, trilhos e pontes aéreas? O que justifica nós, latino americanos, não possuirmos – tal como já tivemos no passado (pelo menos em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul) – uma malha ferroviária que ligue Porto Alegre à São Paulo, Santa Maria e Montevidéu? Por que não existe transporte ferroviário entre Rio de Janeiro, São Paulo e o nordeste? Por que taxaram de “utópico” ou “populista” o projeto proposto pelos chineses de ligar por trem o sudeste brasileiro com o Peru e o Equador, isto é, o oceano Atlântico com o oceano Pacífico? A resposta é uma só: o controle absolutista monárquico de grandes monopólios industriais sobre a fabricação de carros, caminhões, asfalto e combustível. O Estado brasileiro, totalmente dominado pelos dogmas anacrônicos e parasitários do neoliberalismo, jamais empreenderia estes projetos (que certamente se autofinanciariam) para não se chocar contra os seus amos.
            Estas reflexões são inevitáveis, uma vez que há grande facilidade de deslocamento (ainda que o valor não seja dos mais baratos) entre passageiros da França para a Inglaterra, o que gera uma profunda capacidade de interação (justamente o que nos falta na América Latina). Voltemos, pois, às 5h30min daquela terça feira, 13 de fevereiro, quando o nosso despertador tocou para sairmos a tempo do nosso hotel na Square D’anvers e nos dirigirmos caminhando para a Gare du Nord, que ficava a cerca de 10 minutos a pé. Saímos de lá para conhecer a terra da rainha apenas com duas mochilas, pois graças ao nosso amigo Sofian, pudemos deixar nossas malas maiores em um depósito do hotel sem nenhum custo extra. Apesar do gelo ter derretido no dia anterior, fazia muito frio: cerca de zero graus, e ainda era noite fechada. Havia um breu que deixava a lua um pouco nublada e ao longe ainda podíamos avistar as grandes cúpulas da Basílica de Sacré Cœur. Alguns garçons e funcionários de restaurantes já começavam a chegar para o trabalho, colocando mesas nas ruas, limpando o chão ou abrindo cortinas e vitrines. O movimento neste horário era bem menor, embora já houvessem um princípio de circulação de carros e bicicletas.
            Chegamos na Gare du Nord, que parece não dormir, mantendo um fluxo constante de passageiros. Nos dirigimos à plataforma de embarque internacional. Por não fazer mais parte formalmente da zona do Euro, a Inglaterra exige uma rápida entrevista de migração, feita pelos guichês que se encontram na própria Gare du Nord, mas não exige visto (tal como suas arrogantes ex-colônias). Preenchemos um pequeno papel com nossos dados, motivos da viagem, hospedagem, quantidade de dias que ficaríamos, etc. Logo em seguida, entramos numa fila um pouco grande, mas que andava rápido. O funcionário da rainha, de forma rotineira e repetitiva, nos questionou o que iríamos fazer no seu reino. Respondemos apenas a verdade: turismo! Aproveitar as férias! Isto é, a mesma coisa que queríamos fazer em Nova York, mas tivemos o nosso pedido de visto absurda e autoritariamente negado. Poderíamos ter dito outra verdade: conhecer um quinhão do mundo que é nosso também, pois somos terráqueos e, enquanto tal, desfrutando dos supostos “direitos humanos” e da “declaração universal dos direitos dos homens”, possuímos, supostamente, o direito de ir e vir.
            Sem nenhum tipo de questionamento, o funcionário, de forma um pouco aborrecida (talvez pela repetição monótona daquela profissão burocrática e, na minha opinião, um pouco ultrajante) simplesmente carimbou nosso passaporte e voilà, estávamos aptos a entrar por até seis meses (com o severo destaque de “sem direito ao trabalho”) no Reino Unido. Sentimos um pouco de medo. Tínhamos ficado traumatizados pela nossa experiência muito amarga com o visto para “a maior democracia do mundo” (que mereceria também uma narração detalhada como esta – quem sabe um dia?).
            Embarcamos no equivalente à “terceira classe” de um longo trem da Euro Star, conhecido por atingir altas velocidades e fazer o trecho Paris-Londres em apenas 2 horas. A nossa terceira classe era muito confortável, possuindo poltronas com um bom espaço, tomadas para celulares e notebooks, mesas para comer (caso alguém compre algo no bar dentro do trem, pois não é servido nem uma água sequer), televisão com informações da viagem e propaganda da empresa, e um wi-fi que às vezes perdia o sinal. Vimos o sol nascer da janela do trem, passando pela zona rural da França e imaginando como vivem ali aqueles agricultores. Eu ansiava pelo grande momento: a passagem no túnel por baixo do Canal da Mancha. Já havia propaganda nas televisões sobre um óculos que poderia ser conectado ao celular e ao wi-fi e onde se criaria uma imagem em 3D do fundo do mar, por onde o nosso trem cruzaria destemidamente. Nós, é claro, não compramos, alugamos ou mesmo baixamos no celular o aplicativo para ver esta reprodução, que no vídeo da empresa parecia encantar profundamente aquelas crianças e mesmo os seus pais. Para nós, cruzar o Canal da Mancha por baixo foi como passar por um túnel comum: apenas o friozinho na barriga e aquele tradicional entupimento nos ouvidos por causa da pressão. O mais esperado estava realmente do outro lado.
            Quando saímos do túnel, cerca de uns 20 ou 30 minutos depois, já era dia. Nos deparamos com uma bonita paisagem verde, com pequenas e grandes casas, provavelmente fazendas, com enormes silos metálicos interligados. O céu, como não poderia deixar de ser, estava nublado.
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            O nosso trem aportou na estação de Saint Pancras, em Londres, aproximadamente às 10h daquela terça feira. Conhecida como a “estação internacional” entre as paradas do metrô londrino (chamado de underground), Saint Pancras estava comemorando 150 anos. Construída no estilo tradicional inglês, mesclando vigas de aço, ferro e tijolos à vista, a famosa estação ferroviária é conhecida por abrigar a lendária passagem secreta de Harry Potter. A plataforma de trem é constituída de um grande vão, onde os trens aportam para desembarcar os passageiros. Sentimos muito frio ao sair, mas não estava nevando. Logo entramos num ambiente climatizado, onde pudemos avistar uma escada rolante que desembocava em grandes vitrais e, em seguida, num corredor com várias lojas, restaurantes e livrarias.
            Caminhamos em direção ao underground e lá, praticamente não existem mais guichês, tudo sendo feito automaticamente por máquinas. O underground e a Libra Esterlina são caríssimos. Como bons “capitalistas empreendedores” que não somos, eu e T não compramos as promoções que barateariam o preço dos tickets. Demoramos um tempo para perceber e dar o braço a torcer de que deveríamos ter feito isso: eu ainda tinha esperanças de andar a pé o tempo todo, até ser convencido pelo “bom tempo britânico” de que isso não seria possível. A sensação de passar pela catraca, descer as escadas, olhar o rosto dos passageiros, suas roupas “chiques”, de gola alta, com sobrecasacas, gorros e cachecóis, e, principalmente, ouvir a voz metálica das gravações de “next station”, me deu a plena sensação de estar em um episódio de black mirror ou num romance de Huxley. Aquela modernidade fria era um pouco assustadora e desumana. Ao entrar no metrô lotado em direção à Victoria station, fui empurrado sutilmente para a frente por uma cara feia, envolta em uma toca preta e segurando um livro de Gabriel Garcia Marques, em inglês! Este “chega pra lá” foi a nossa saudação de “boas vindas”.
            O sistema de metrô de Paris e de Londres é fantástico: uma verdadeira cidadela subterrânea que se liga com os quatro cantos da cidade e, inclusive, com estações internacionais. Nada demonstra mais a subserviência das prefeituras das grandes cidades brasileiras aos trustes das empresas de ônibus que controlam o transporte público (sobretudo em Porto Alegre), do que a sua recusa em construir um metrô, em interligar as grandes cidades às suas periferias, facilitando o deslocamento e a vida dos seus cidadãos. Apenas 6 cidades brasileiras possuem metrô: São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza. Isto é realmente vergonhoso!
Acompanhando meus mapas, querendo arranjar com isso um pouco de segurança, fiz um cálculo improvisado da estação que seria mais próxima da rua do nosso hotel: Hugh Street, número 20. Vi a pimlico station, próxima da referida rua, então, pensei que seria a mais próxima. Não era! Ao sairmos do underground caminhamos um pouco a mais numa avenida de prédios de tijolos vermelhos sob um céu terrivelmente acinzentado (lembrando os piores dias de inverno porto alegrense: Quintana tinha razão!).
            O nosso hotel fez jus ao poder aquisitivo de latino-americanos tentando pagar em libras. Seu nome era Holly House Hotel, mas se quisesse corresponder à realidade, deveria se chamar Hell House. Administrada por indianos, o hotel estava instalado naqueles tradicionais edifícios ingleses, com escadinha de entrada e grandes fossos dos lados, que dão para as janelas dos andares inferiores. O piso era estofado e as escadas muito estreitas, com poucos banheiros, que eram todos compartilhados. Os forros de madeira faziam os quartos tão pequenos que quando adentrávamos nele quase caíamos na cama. À noite, ouvíamos nestes forros (não sabíamos bem se acima ou ao lado, nas paredes) o caminhar de alguma coisa: ratos ou esquilos? Tentávamos nos convencer de que eram belos esquilos.
            A nossa Hell House também tinha vantagens. Estava bem localizada: cerca de 3 quadras do Palácio Real. Sim, éramos quase convidados da rainha, embora dormindo no estábulo real!
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            Como plebeus latino-americanos, tínhamos levado cerca de R$1.600 para passar 4 dias na Inglaterra. Isso nos valeu míseras 350 libras. Pensava eu, na minha ingenuidade, que os preços e o custo de vida em Londres seriam expressos em valores mais baixos em libras. Que nada! Tudo custava mais do que 5 ou mesmo 10 libras, inclusive nosso primeiro fish and chips e a nossa primeira cerveja morna que tomamos no restaurante mais humilde dentre os mais chiques próximos ao palácio da rainha, gerido por uma senhora, tipicamente inglesa, de cabelos curtos e roupas singelas. Tinha uma voz que me lembrava algo do Mr Bean e na sua janela, que dava para os edifícios vizinhos, podíamos ver um punhado de livros com teias de aranha, entre cartilhas com páginas de luxo sobre o majestoso Buckingham Palace até um grande e velho tomo de War and Peace, que fiquei muitíssimo curioso para folhear. A Libra Esterlina, como uma das moedas mais valorizadas do mundo, faz de nós, latino americanos, devedores de nascimento (algo como um “pecado econômico original”) e dos ingleses, credores por natureza. Um inglês, dispendendo muito menos dinheiro, pode usufruir de muito mais luxo no Brasil, na Argentina ou no México, do que um latino-americano na Europa. Nossas condições de hospedagem nos criaram trabalhos extras e muitos incômodos. Mas sabíamos dos riscos desde o início. A quantidade de moedas que vinham de troco, entre peças de 2 pennys ou mesmo 1, era impressionante. Impossível não lembrar das “mil divisões” da libra no século XIX. Certamente o sistema monetário inglês hoje é diferente, mais centralizado e menos subdividido, porém, alguns resquícios sempre permanecem.
            O fato, contudo, é que as nossas poucas libras nos obrigaram a economizar, andar a pé, comer comidas mais baratas (o que inclui o McDonald’s). Por outro lado, perder um pouco de conforto abre outras possibilidades. Numa viagem como esta, não aproveitar para caminhar por todas as ruas e avenidas possíveis e inimagináveis significaria ser transportado pelo underground ou, no melhor das hipóteses, ser levado por táxis e ônibus turísticos direto aos principais pontos.
            E o que há melhor para se sentir o sangue correndo nas veias do que caminhar por caminhos desconhecidos, sem saber o que nos espera no dia de amanhã? Qual inglês atualmente já andou cerca de 40 quadras de Londres a pé? Será que possuindo facilidades de transporte alguém já tenha cruzado duas vezes o Hyde Park, ido até a Abbey Road e o Freud Museum, na Maresfield Gardens, apenas com a tração dos próprios sapatos e durante o auge do inverno? Isso, por certo, cobrou o preço de um dos joelhos da T, mas isso era sempre superado no dia seguinte, quando a sede de novas aventuras anestesiava a dor física e o nosso cansaço.
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            Ainda às doze horas do primeiro dia em que pisamos na Inglaterra, dada a proximidade com o Palácio, fomos visitar a rainha. O guarda chuva que compramos em Paris nos foi de grande utilidade, pois desde o primeiro dia na Grã-Bretanha tivemos que utilizá-lo. No caminho do Palácio de Buckingham, na Buckingham gate, já sentimos os primeiros pingos fininhos de uma garoa típica. Ainda não acreditávamos que estávamos ali, na Inglaterra que foi outrora o centro do império britânico e hoje, de certa forma ainda é um dos centros do mundo. Aquela sensação de novidade por tudo nos deixava um pouco grogues, sem falar na fadiga, pois havíamos acordado às 5h30min na França e às 10h estávamos na Inglaterra!
            Na frente do Palácio, mesmo com chuva, se aglomeravam inúmeros turistas, tirando fotos, selfies ou apenas observando a tradicional guarda inglesa. Não vimos vendedores ambulantes, tal como na França e na Itália. Acima do Palácio tremulava uma grande bandeira bordada em estilo medieval: as velhas e infames flâmulas da tradição! Fiquei sabendo quando dei uma olhada no livro sobre o Palácio no restaurante da senhora tipicamente inglesa, que quando aquela bandeira está hasteada a rainha se encontra no Palácio. Nós, lamentavelmente, não vimos absolutamente nada; mas pudemos observar o belo chafariz que se encontra de fronte às grades do Palácio, em que de um lado temos um homem com um martelo e, do outro, uma mulher segurando uma foice (o que diriam os neuróticos anti-comunistas brasileiros e ianques?). Também apreciamos a tradicional guarda real inglesa, parada nas suas guaritas, resistindo às fotos e aos sorrisinhos zombeteiros dos turistas.
            Embalados pela curiosidade, saímos caminhando em direção ao centro de Westminster, onde se pode vislumbrar grandes construções no estilo medieval, desde a catedral do famoso bairro até o parlamento, que ostenta às margens do Tâmisa, o famoso Big Ben. Ao nos aproximarmos da George Street, pudemos ouvir as badaladas dele. Porém, para o nosso azar, percebemos que ele estava em reformas, cheio de andaimes e tapumes que impediam a visão. O edifício do parlamento, no entanto, valeu a visita: tal como uma grande catedral gótica, a sua arquitetura é toda ornamentada com pequenos e grandes detalhes dourados, além de uma belíssima estátua de Oliver Cromwell e imensos portais de entrada em estilo ogival.
            Na tardezinha e noite do primeiro dia, após um breve descanso, caminhamos pelas margens do Rio Tâmisa, que banha e corta Londres em duas partes. Em largura e extensão lembra bastante o Sena em Paris e o Tibre em Roma. Indo pela Vauxhall Bridge Road até a beira do rio, subimos depois pela Abington Millbank e fomos novamente até o parlamento inglês, caminhando pelo grande jardim que o precede para quem vem pelo sul, chamado de Victoria Tower Gardens. Alguns cachorros e seus donos passeavam por ali naquela terça feira nublada e fria. Passando o Palácio do Parlamento, fomos até o big eye londrino, a famosa roda gigante às margens do Tâmisa. Do lado oposto ao do London eye está um grande monumento aos aviadores britânicos mortos na Segunda Guerra Mundial (existe outro em homenagem aos combatentes das guerras mundiais próximo de uma das entradas do Hyde Park). De lá, fomos procurar um tradicional pub londrino para tomar cerveja morna e, talvez, degustar uma nova porção de fish and chips. 
        Nos recomendaram um pub barato de Westminster, chamado The Lord Moon of The Mall. Enquanto caminhávamos para lá íamos saboreando a paisagem, já de noite fechada, com prédios de arquitetura e aparência medieval, em meio a um grande trânsito de pedestres e carros. O google maps nos enganou duas vezes. Quando já estávamos desistindo de encontrar o pub demos de cara com ele, do outro lado da rua. Atravessamos e adentramos o local. O ambiente era grande e chique, com carpete no chão e grandes mesas de madeira espalhadas por todos os lados e quadros pendurados em todas as paredes. Estava lotado! Pessoas sentadas e outras em pé conversavam sonoramente. Pegamos uma mesa em um canto e pedimos duas cervejas com uma porção de chips (foi o que nossas libras nos permitiram comprar!). Enquanto comíamos e conversávamos, observava uma família e um grupo de amigos bem ao nosso lado, comendo hambúrguer e bebendo cerveja. Falavam animadamente e volta e meia um senhor dava uma risada. Eu me esforçava, mas não conseguia entender aquele inglês tão rápido, provavelmente, repleto de gírias. A experiência foi boa; e a cerveja, apesar de morna, também! Depois disso, a little bit drunk, caminhamos de Westminster direto para o nosso hostel.
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            No dia seguinte acordamos cedo, tomamos café e zarpamos para a rua: a agenda estava lotada! Queríamos conhecer a Abbey Road, o Museu do Freud e, se possível, visitar o bairro em que Marx viveu – o Soho – e ainda passar na Baker Street, pois no mapa todos estes pontos pareciam relativamente próximos. Por esta ousadia, caminhamos mais de 40 quadras. Apesar do “erro”, andamos por lugares inesquecíveis, cheios de uma beleza arquitetônica e estética rara para nós. De tanto que caminhamos chegamos a sentir calor em alguns momentos, sendo obrigados a tirar cachecol e toca. Por volta das 11h da manhã chegamos na Abbey Road. Não se sabe ao certo quando se está próximo da famosa faixa de segurança, pois as ruas são muito parecidas e bastante longas. Porém, não há mais dúvida quando se vê um grupo de pessoas atravessando várias vezes a faixa, de um lado para o outro, tirando fotos e um aglomerado de gente nas calçadas, esperando sua vez de atravessar, chegando a gerar um certo congestionamento de carros.
            Um pouco mais adiante da faixa de segurança mais famosa do mundo está o Abbey Road Studios, que abriga uma loja de conveniências com tudo sobre os Beatles. No muro de entrada todos deixam o seu recado de agradecimento à banda, trechos de música ou simplesmente uma declaração de amor a outrem. Eu e T eternizamos nosso amor com um belíssimo coração em um dos poucos espaços em branco dos pilares do muro do estúdio. All we need is love! Em alguns prédios vizinhos existem placas pedindo (sem sucesso) para não picharem, tamanho o afã dos beatlemaníacos do mundo em deixar um “estive aqui”.
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            Um pouco mais tarde e mais distante da Abbey Road, eu demorei certo tempo para acreditar que estávamos diante da casa em que Freud morou. Foi na Maresfield Gardens, número 20, que vimos as nossas primeiras placas azuis, que diziam que Sigmund Freud e Anna Freud tinham vivido ali até as suas mortes, em 1939 e 1982, respectivamente. Neste local, onde viveu a família Freud, também foi redigido Moisés e o Monoteísmo e O esboço de Psicanálise. Mesmo diagnosticado com câncer, Freud continuou a sua prática psicanalítica, recebendo pacientes que vinham até aquela casa para sessões. Na grande sala do térreo pode se ver o divã original trazido da Áustria, a sua mesa, com os famosos óculos redondos sobre um papel com anotações e cinzeiros, muitos cinzeiros! Mais à esquerda está uma grande estante de livros, com réplicas de pequenas estátuas gregas, romanas, egípcias e orientais; mais acima despontam vasos gregos e de outros povos antigos, pedaços de paredes ornamentadas (como se fossem de um templo da mesopotâmia), tapetes em estilo persa e até uma máscara funerária de Tutancâmon (provavelmente uma réplica). Impressiona a quantidade de estátuas! Que só perdem em quantidade para os livros! Segundo os organizadores do museu, tudo pertencia a Freud, que era um ávido colecionador de antiguidades. “A paixão por colecionar”, diz o portfólio do museu, “só era superada em intensidade pelo seu vício de fumar charutos”.
Entre seu acervo de livros há diversos assuntos que vão desde a biologia, psicologia, arte e literatura até medicina, arqueologia, filosofia e história. Antes de fugir de Viena, Freud teve que vender, contrariado, cerca de 800 livros. Observando a estante de livros logo após o hall de entrada, percebemos uma movimentação atrás de nós: era um grupo de brasileiros, provavelmente psicanalistas, que vinham conhecer o museu também. No jardim de inverno, que fica no fundo da casa (originalmente aberto para o grande quintal, mas atualmente fechado) é onde se compra o ingresso. Ali há uma pequena lojinha de conveniências, com souvenires, obras de arte, livros, blocos de anotações, canetas, bolsas, etc., tudo, evidentemente, ou quase tudo, relacionado com a psicanálise. Lá recebemos o nosso adesivo do museu que servia como ticket de entrada. O tempo que passamos na casa constatamos grande afluxo de turistas de todo o mundo, não apenas brasileiros, mas, também, alemães e de outras nacionalidades que não conseguimos identificar. O preço em libras não era muito convidativo, mas, de qualquer forma, queríamos levar lembranças daquele momento mágico para nós. T comprou uma bolsa do museu e eu um pequeno livro intitulado: “Life lessons from Freud” de Brett Kahr, um psicanalista inglês que ajudou a organizar o museu.
Foi na sala de vídeo do segundo andar, que era provavelmente um quarto no passado, mas que transformaram em uma espécie de cinema do museu no presente, onde passava um vídeo narrado por Anna Freud, que me caiu a ficha e eu pude perceber então onde eu estava. O filme contava, pela voz de Anna, a história da vinda da família Freud até Londres e dava um breve relato da vida do pai naquela casa. Quando me sentei numa das cadeiras e pude olhar uma nesga de céu pela janela dos fundos, que dava para o belíssimo jardim do quintal, a emoção do momento me trouxe muitas lembranças à consciência: de repente me vi na casa da minha infância, também muito grande e com um belíssimo quintal, onde ficava olhando o céu nublado porto alegrense. Agora estava lá, no outro extremo do oceano Atlântico, na casa de um grande pensador! Não se tratava apenas de estar na casa em que Freud “passou o último ano de sua vida”, mas na Europa, no velho mundo! Vendo e vivendo todas aquelas coisas que outrora apenas lia nos livros e via na TV ou na internet.
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            Saímos um pouco apressado do museu porque já era tarde, estava frio, e o inverno londrino faz os dias muito mais curtos. Ainda pretendíamos voltar a pé para o hotel, quando uma chuva, que começou fininha, mas engrossou rápido, começou a cair. Na ida tínhamos visto uma feira gastronômica com bancas que vendiam comida de todos os lugares do mundo, inclusive do Brasil (com pão de queijo e guaraná!). Gostaríamos de ter voltado lá, mas com a chuva achamos mais prudente seguir o nosso caminho em direção ao hotel. Através de um pequeno beco, desembocamos na grande avenida Finchley Road, na qual há uma sequência de restaurantes, bares e lanchonetes. A chuva nos fez entrar numa Starbucks, onde sabíamos que tinha a internet de menor burocracia para livre conexão.
            Nos sentamos em duas confortáveis poltronas de lado para um grande vitral que dava para a rua. Tomávamos café e falávamos com os familiares no Brasil pelo celular e entre nós também. Foi neste momento que T percebeu que estávamos sendo observados. Eu demorei um pouco para entender. Continuamos conversando, até que reparei um senhor, sentado bem de frente para nós, do outro lado da mesinha, nos analisando com um olhar provocador. Ele possuía uma grande barba branca, vestia um paletó cinza e tinha no colo um notebook. Não lembro ao certo qual foi a deixa para que ele começasse a falar conosco desenfreadamente, só sei que no meio de todas essas sensações já estávamos conversando como se fôssemos velhos amigos. Tal como ele nos falou um pouco depois, o que tinha lhe chamado a atenção em nós era a língua, que não era muito familiar para os seus ouvidos. Mesmo percebendo que nós tínhamos grandes dificuldades para falar em inglês, ele não desistiu de nós.
            Começou, obviamente, perguntando de onde éramos. Em seguida, quis saber por que estávamos em Londres no inverno! Falei, no meu péssimo inglês, que éramos dois jovens latino-americanos, andarilhos do mundo, curiosos, amantes da boa literatura e de boas aventuras. Gostávamos de andar por outros países e pelas ruas de outras cidades. Ele se interessou muito pelo assunto. Desandou a falar. Compreendíamos entre 60% e 70% do que dizia. Parecia que ele esperava alguém romper com o mundo virtual daquela cafeteria para poder trocar uma ideia em carne e osso, que é sempre muito melhor.
            Perguntou o que fazíamos da vida. Respondemos brevemente. Vendo o notebook não mais no seu colo, mas já na mesinha a sua frente, perguntei se ele era escritor (quem sabe eu e T estivéssemos virando personagens de um grande romance?). Não! Para nossa grande surpresa ele nos disse que era jogador de xadrez (não entendi até hoje se amador ou profissional). Me espantei! Não imaginava que isso fosse possível! Lamentei não termos um tabuleiro para jogar. Nesta altura eu já estava muito curioso, tendo a possibilidade de conversar com um senhor inglês, de mais de 70 anos, muito simpático (iguaria rara em Londres), que exibia grandes dentões de coelhos por entre a espessa barba branca quando sorria, e, ainda por cima, jogador de xadrez! Era, realmente, um encontro muito surreal!
            Nos contou ainda que havia estado na Alemanha (provavelmente para jogar xadrez), e que lá a juventude estava falando melhor inglês do que na Inglaterra. Repliquei lhe dizendo que este era um fenômeno mundial. A juventude está se alienando em todos os países e valorizando coisas banais (claro que não falei com esta clareza, mas tropeçando para formar cada uma destas frases; quando T não me ajudava a completa-las, o senhor inglês compreendia por si só, ou me ajudava a concluir). Questionei-lhe então, por duas vezes, quais eram os seus autores preferidos da atualidade. Ele não compreendeu a pergunta. Como bom inglês, primeiro me falou longamente sobre Shakespeare e a sua peça preferida: Júlio César. É compreensível! Qualquer país se orgulharia de ser a pátria de Shakespeare. Em seguida, falou de Charles Dickens. Sabia muito pouco sobre este escritor, a não ser o básico: ele escreveu Oliver Twist. Certamente aquele senhor inglês me despertou a curiosidade em conhecer mais a sua obra. Contou-nos detalhes das passagens que mais lhe emocionavam no livro As aventuras do Sr. Pickwick. Neste momento confesso que consegui compreender 40% do que ele dizia, mas, de qualquer forma, sentia que ele vibrava ao contar e que realmente queria conversar conosco, como se fôssemos velhos amigos.
            Ele, por sua vez, perguntou quais eram os nossos escritores preferidos. Respondi-lhe que gostávamos de Marx, Dostoievski e Machado de Assis (citamos este porque vimos um de seus livros de contos numa livraria de Paris). Ao ouvir o primeiro nome ele desandou a nos contar a história de Marx em Londres. Disse-lhe que conhecíamos a história e que me agradava a sua biografia. Então, o nosso amigo nos questionou se iríamos pagar libras para ver o velho revolucionário no cemitério. Não pude lhe responder a altura, pois não tinha conseguido compreender a maldade do questionamento. Limitado pelo meu inglês, disse-lhe apenas que “talvez fôssemos”. Quis lhe perguntar se ele já tinha lido Os irmãos Karamazov, de Dostoievski, e ele respondeu que não, apenas havia visto a adaptação para o cinema (que eu nem sabia que existia!). Não sei se entendi mal, mas me pareceu que o nosso bom senhor inglês não se interessava muito por arte de fora do reino. Talvez tenha sido apenas uma má impressão minha. Vendo tantas pessoas aficionadas nos seus celulares e notebooks, o questionei sobre a tecnologia: o que pensava ele do mundo virtual e das pessoas vidradas nos seus aparelhinhos? “Wonderful”, ele respondeu! Uma criança de 5 anos de idade se comunica com pessoas do outro lado do mundo, ele completou. Era um senhor realmente conectado com as novidades tecnológicas do mundo.
            Nessa altura me dei por conta que ainda não sabíamos os nossos nomes. Nos apresentamos e, em seguida, ele apresentou-se: chamava-se John. Já nos tratávamos como grandes amigos. John elogiou nossa preocupação em andar com guarda-chuva: “nesta cidade isto é muito necessário”, ele nos alertou. Comentei que já estava ficando tarde e que a chuva havia diminuído: o cinza do céu já dava lugar a uma névoa úmida. Perguntou onde estávamos hospedados. Respondi-lhe que perto do Palácio de Buckingham. John demonstrou um leve desapontamento. Puxou um novo assunto: como estava a situação do Brasil? Fiz-lhe, até onde o meu inglês o permitiu, uma breve exposição da situação política nacional, com um governo ilegítimo e odiado. A sobrancelha de John franziu-se. Disse-lhe que vivemos em um país jovem e cheio de problemas, mas apesar de tudo, um bom país. Meu inglês limitado e nossa breve amizade não me permitiu apresentar-lhe as dívidas da Inglaterra para com o Brasil e a América Latina
            T reparou que John tinha os sapatos e uma parte de sua maleta, logo ao lado da poltrona, sujos de terra. Até hoje não solucionamos este enigma. Vendo os adesivos do Freud museum que havíamos esquecido de tirar dos nossos casacos, John se pôs a falar de sua família. Disse-nos que havia nascido em 1939, na Escócia, criado em uma família muito autoritária, o clã dos McDonald. Neste momento ele disse, orgulhoso, “me chamo John McDonald”! Contou ainda que seu pai maltratava a sua mãe (não ficou claro para nós se eram realmente um casal ou o seu pai “abusava” de sua mãe) e que isso lhe fazia muito mal. John não era casado e não tinha filhos: a sua última esposa era muito estúpida (segundo o seu relato), e isso acelerou o fim do relacionamento. Não tivemos coragem (nem nosso inglês nos permitiu) perguntar mais detalhes. Logo em seguida, por iniciativa própria, com a voz um pouco engasgada e os olhos marejados, John falou que não chorou quando seu pai morreu, o que aprofundava seu complexo de culpa. Isso lhe pesava muito sobre os ombros – foi bastante visível. Nós nos limitamos a ouvir e dizer: “tudo isso é realmente muito triste, John”. Ele apenas sorriu e disse: “life is complicated”. Dessa vez fomos nós que sorrimos. Já era tarde! Falamos que tínhamos que ir. John se pôs de pé e nós também. Lembro-me que ele salientou a altura de T: “como ela é alta”! Nos abraçamos e nos despedimos.
            Já no meio da rua, caminhando em direção ao underground, fomos pensando no quão surreal tinha sido tudo aquilo. John McDonald parecia um personagem pitoresco saído de um romance. Esfregávamos os olhos para ver se o que tínhamos vivido era verdade. Aqueles que aguentaram ler o relato até aqui podem perguntar se tudo isso não passa de uma ficção literária. T é testemunha de que não! Quando estávamos próximo de uma banquinha de distribuição do Evening Standard, nos demos por conta de que devíamos ter pedido o contato dele. Facebook, e-mail, qualquer coisa! Peguei um jornal, rasguei uma parte e escrevi ali o nosso contato. Quando voltei à cafeteria para lhe entregar o bilhete improvisado, tudo indicava que ele tinha ido ao banheiro. Deixei o pequeno pedaço de papel sobre o seu notebook e fui embora.
            Até hoje nunca recebemos retorno...
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            Cabe um destaque para o jornal londrino Evening Standard, que é entregue gratuitamente todas as noites, principalmente nas entradas do underground. Trata-se de uma publicação regular de grande circulação, de caráter liberal-burguês. Do meu ponto de vista, até onde consegui ler, é um jornal insosso, descartável, mesclando notícias políticas com fofoquinhas de personalidades. Os editoriais, a despeito de um chargista, que passou a ser meu amigo no instagram, defendem pautas burguesas e neoliberais. Cabe o destaque de uma crítica literária de um “best seller”, lançado recentemente, que afirma que “a sociedade humana nunca esteve tão bem quanto neste século” e que, por isso mesmo, temos todo o direito de nos sentirmos otimistas. Parecia, evidentemente, que os jornalistas sofriam de uma espécie de cegueira voluntária, uma vez que se a sociedade está boa para eles, então está boa para todos. A América Latina, a África e a Ásia são pequenos detalhes...
Outro tópico que me chamou a atenção foi um artigo escrito por Allan Mak, um parlamentar eleito pelo partido conservador por Havant (região ao sul da Inglaterra), como representante de uma colônia chinesa da Grã-Bretanha. Ele atacou severamente o “comunismo” chinês (obviamente para se diferenciar dos seus compatriotas e ignorando, provavelmente de forma consciente, que não há, nem nunca houve, “comunismo” na China), para logo em seguida conclamar a que a comunidade de chineses na Inglaterra (que não deve ser pequena) torne-se protagonista dentro do Reino Unido, assumindo mais funções sociais e saindo dos guetos. Em síntese, conclama a que esta comunidade chinesa utilize-se de seu poder de maioria e, é claro, lhe dê suporte político. Basta perguntar: para quê?
Um homeless inglês
O Evening Standard também abordou o aumento dos moradores de rua (homeless) nos bairros ricos de Londres. Isto realmente é visível a olhos nus. Diferentemente dos mendigos da Itália e do Brasil, os indigentes da França, mas, sobretudo, os da Inglaterra, não falam absolutamente nada com você. Ficam sentados, com uma plaquinha e uma latinha para colher pennys (quiçá 1 libra). Mal conseguem elevar os olhos. Evidentemente que o Evening Standard fez uma abordagem jornalística superficial e burguesa, mas não pôde esconder o problema, que tem crescido por toda a Europa, bem como o “problema” da imigração. Também é importante registrar que, tal como na França, os imigrantes ocupam as profissões mais baixas: atendentes de hotel, caixas de supermercado, motoristas de ônibus, serventes, faxineiros; na Inglaterra, a maioria destes postos é composta por pessoas negras ou indianas. Em menor medida, se observam muitos chineses nestes mesmos postos – embora se ocupem mais de pequenas lojas de conveniência e souvenires.
Naquela noite, depois de conhecer nosso amigo John McDonald, comemos uma pizza comprada em um supermercado e tomamos vinho barato da Califórnia (muito ruim, na minha opinião), comprado em uma loja de conveniência. Sentados num estreito vão do quarto do nosso hostel, eu e T tivemos uma briga homérica, digna de andarilhos cansados e um pouco estressados, que viviam momentos inesquecíveis do outro lado do mundo. As paredes tinham um forro muito ruim que nos fazia ser ouvidos em outros quartos. Por sorte, ninguém sabia falar português. Felizmente o amor é uma grande força da natureza. E tão logo o ódio – que é parte do amor – se desfez, já estávamos em paz.
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            Na manhã do dia seguinte descemos na estação de Archway da linha preta do underground, que leva para o norte da cidade, saímos em um bairro pacato de Londres. Nos deparamos com um clima totalmente diferente de Westminster, onde um tráfego lento de carros e de pessoas nos deu grande tranquilidade para caminhar e desfrutar de um belíssimo dia de sol, que contradizia toda a literatura e os filmes que se passam na capital da Inglaterra. Na saída demos de cara com um mendigo, que estava absolutamente imóvel, segurando uma placa pedindo ajuda e “lagarteando” no sol do inverno. Tirei uma foto dele para registrar os moradores de rua na Europa. Ao perceber que estava sendo fotografado (embora eu estivesse disfarçando, tirando foto da estação do underground), ele escondeu o rosto atrás da placa. 
Outro homeless inglês
            Nos deslocamos, então, calma e vagarosamente para o bairro de Highgate, conhecido por sediar o famoso cemitério no qual Karl Marx está sepultado. Já estávamos nos tornando turistas mórbidos de cemitério. Chegamos próximos de grandes grades, artisticamente soldadas, que deixavam aparecer, por entre suas frestas, o interior do cemitério, com tumbas ostentando estátuas e belíssimos ornamentos, nesgas de árvores altas, que davam um bonito aspecto bucólico e verde musgo a todo o cenário.
            Tivemos que contornar toda a parte sul do Highgate Cemetery East, que é separado do West por uma avenida que se estende por uma lomba. Após uma breve caminhada chegamos ao portão principal, que tem uma casinha de entrada, onde fica um funcionário. A entrada nos custou 4 libras, o que nos dá direito a um mapa. De início pode-se perceber em um grande banner no portão de entrada uma foto da tumba de Karl Marx. Até hoje a mídia burguesa ironiza o fato de se pagar para ver o túmulo de Marx (como se fosse culpa dele); no dia anterior nosso amigo John McDonald já nos tinha ironizado. Por mais que seja realmente um absurdo pagar para entrar em um cemitério – uma vez que o Perè-Lacheise, em Paris, é absolutamente gratuito e muito maior, contendo muitas mais tumbas “famosas” –, fazer turismo é uma questão de opção: ao invés de pagar para andar na roda gigante do London Eye ou num barco no Tâmisa, preferimos prestar condolências ao velho revolucionário, tal como muitas outras pessoas do mundo. Ainda que tenhamos sido logrados pelo espírito burguês do “empreendedorismo” inglês, era nossa única oportunidade de estar de pé no mesmo local em que Friedrich Engels pronunciou seu famoso discurso, quase uma profecia, sobre o caixão do amigo, em 17 de março de 1883: “seu nome viverá através dos séculos, e com ele a sua obra”.
            Lá estávamos nós, de pé em frente ao seu grande busto, em cima de um bloco sólido e bem compacto de pedras, com os seguintes dizeres: Workers of all lands, unite; Karl Marx, Jenny Von Vestphalen, the beloved wife of Karl Marx, born 12th february 1814, died december 1881; seguido por outros nomes de filhas. Logo abaixo se pode ler, em inglês, a famosa 11ª tese à Feuerbach: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras, mas o que realmente importa é transformá-lo”. Sobre a tumba se vê um punhado de flores de vários tipos, velas, folhetos, livros e bilhetes agradecendo-o por tudo. No tempo que estivemos ali, pelo menos umas 10 pessoas passaram para olhar e tirar fotos (algumas de feições orientais). Quando saímos do cemitério, perto do meio dia, outras pessoas estavam chegando do leste europeu, pelo que pudemos ouvir, também para visitar o seu túmulo.
 

            Juntei algumas pedrinhas brancas que ficavam sobre a tumba, agradecemos no nosso íntimo a luta daquele grande revolucionário – que morreu no anonimato de sua época, difamado e caluniado –, e nos pusemos a caminhar pelo cemitério. Entre tumbas grandes e pequenas, carros de coveiro e funcionários do cemitério, vimos uma raposa sair do meio de arbustos, nos olhar e voltar para a mata, e alguns esquilos subindo nas árvores. Que belo presente da natureza em meio a um cemitério, não? Ainda “visitamos” o túmulo de Eric Hobsbawm e de Douglas Adams, o autor do Guia do mochileiro das galáxias. Entre uma caminhada e outra descobri um jornalista brasileiro enterrado em Highgate: era José Carlos Rodrigues, editor do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, que viveu entre 1844 e 1923.
            Aquela manhã em que visitamos o túmulo dos Marx fazia um dia estranhamente ensolarado em Londres. Passamos outra vez em frente ao grande busto do revolucionário alemão, como que para nos despedirmos. Se aproximava um novo grupo de indivíduos. Nos pusemos em marcha para a saída. Quase no portão da rua o céu nublou abruptamente e desabou um aguaceiro, que logo se transformou em granizo. A guarida do guarda era muito pequena para abrigar a todos nós, além do que já tinha outras pessoas. O jeito foi se esconder na capela de entrada, muito ornamentada, com grandes vitrais coloridos e com uma tela de televisão acoplada à parede, que dava boas vindas aos forasteiros e mostrava foto das tumbas e dos caminhos do cemitério. Justamente naquele dia fomos iludidos pelo sol que brilhou radiante e não levamos o nosso guarda chuva parisiense. Quanto tempo iríamos esperar encarcerados ali? Felizmente, em menos de 10 minutos, a chuva foi se transformando em uma garoa e o céu se abriu novamente. Assim que sentimos firmeza, saímos caminhando do cemitério, subimos a lomba e demos numa praça muito bonita, que dava de frente para um Igreja cercada por um belíssimo muro de tijolo à vista, de onde despontava a placa da Highgate High Street.
            Caminhando em direção à estação do underground, ainda encontramos uma nova placa azul: dessa vez foi uma casa em que o escritor Charles Dickens tinha estado em 1832 (isso é o legal dessas plaquinhas azuis, que apareciam quando se menos esperava). Paramos, contemplemos o lugar e seguimos nosso caminho. Mas a nossa visita a Marx não acabou em Highgate.
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            Por volta da uma da tarde desembarcamos na estação do underground do Soho, bairro em que Marx morou durante o período que escreveu O capital, provavelmente se aproveitando da proximidade com o Museu Britânico. Fomos seguindo as orientações do mapa, que mostrava o edifício exato da Dean Street em que Marx tinha morado. No caminho o estômago começou a falar mais alto que a curiosidade e, então, achar um restaurante tornou-se primordial. Tentamos uma lanchonete, mas estava completamente lotada. Então, voltando nosso olhar para o outro lado da rua e demos de cara com um convidativo restaurante italiano: Limoncello! Só ao adentrar o recinto e ouvir as músicas já nos sentimos em casa. O italiano é irmão do português, e o parentesco com o latim quebrou aquela overdose de anglo-saxão que estávamos ouvindo 24h. Eu comi macarrão típico com uma taça de vinho; T pediu um minestrone. O atendente era um senhor italiano, que falava inglês com o “R” carregado. Eu conseguia entendê-lo perfeitamente. Apesar de um pouco caro, saímos satisfeitos e eu um pouco embriagado para encontrar a antiga casa de Marx.
            Posso dizer, seguramente, que o Soho foi um dos lugares que mais me agradaram em Londres: um centro comercial, que mais parecia um formigueiro, de tantas pessoas que caminhavam para lá e para cá. Em cada canto um restaurante diferente, com prédios coloridos de toldos listrados e postes com vasos de flores pendurados. Uma praça ao centro do bairro, muito charmosa e convidativa. Pena não termos tido tempo de desfrutar uma tarde sentados nos seus bancos. Chegamos de fronte a casa de Marx, com uma placa azul quase no terceiro andar do prédio, mal dando para ler os dizeres: Karl Marx lived here 1851-56. Tivemos que quase quebrar o pescoço para conseguir olhar e mal deu para tirar uma foto. Ao lado da plaquinha azul tremulava uma grande bandeira do Reino Unido.
            Seguindo a rua em que Marx morou desembocamos em uma grande avenida, onde paramos para olhar algumas lojas e o movimento de transeuntes. Ao longe víamos um engarrafamento dos grandes ônibus vermelhos, seguidos pelos black cabs. Num pequeno estabelecimento de souvenires, compramos duas caixas metálicas do tradicional chá inglês para levarmos de lembrança. Consultando o caminho pelo celular, nos pusemos em marcha para o Museu Britânico, que era relativamente próximo dali, observando o início do fim da tarde no movimento bairro do Soho.
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            Quando chegamos na entrada do Museu Britânico o sol do Inverno já estava bastante fraco, dando uma tonalidade avermelhada para a fachada da frente e o telhado do prédio, que parece um grande templo grego. Apesar de menor que o Louvre em tamanho e em acervo, o Museu Britânico tem a grande vantagem de ser totalmente gratuito! Talvez seja por isso que se forma uma grande fila na entrada até às 18h, que é impedida de fluir livremente porque precisa ser revistada pelos aparelhos de raio-X numa verdadeira operação militar. Com pacotes de compras, mochilas, casacos e cachecóis, nos pusemos a passar por aquele ritual aborrecedor, embora a recompensa fosse valiosa: os tesouros da antiguidade humana, desde o oriente chinês e a América pré-colombiana (arte Maia e Asteca) até a antiguidade clássica greco-romana.
            Certamente o Museu Britânico passou por readaptações, com partes hoje cobertas, lojas de conveniência, livrarias, cafés, bancos para descanso, etc. Chegamos muito atrasado naquele dia, por isso não pudemos desfrutar de cada sessão com calma. Em algumas exposições tivemos que simplesmente passar, lamentavelmente. A sessão egípcia compensou a do Louvre (que não pudemos ver em razão de estar fechada). A greco-romana me passou uma impressão de ser melhor organizada e com mais acervo do que o Louvre, mas posso estar enganado. A mais original, contudo, foi a que trazia estátuas de porcelana da antiguidade chinesa, com vasos, fragmentos de placas contendo textos de epigramas em mandarim. Em razão do tempo, não pudemos ver as galerias da Renascença europeia, com uma coleção doada pelo barão Ferdinand Rothschild, nem a galeria pré-colombiana.
            Finalmente, após subir e descer por várias escadas e passar por diversas galerias, chegamos à biblioteca do museu, que hoje, certamente deve ser muito diferente do que era na época de Marx. Foi precisamente ali que ele escreveu sua grande obra, utilizando-se, provavelmente, daqueles livros espalhados por gigantescas prateleiras (hoje fechadas com vidro), entrecortadas por vasos gregos e estátuas antigas. Ficamos algum tempo sentados num dos grandes bancos bem no meio do saguão, observando os curiosos que passavam por ali, tirando fotos ou simplesmente observando. Imaginei o velho, sentado em uma das mesas (que não estão mais ali), com vários livros de consulta, fazendo anotações e apontamentos, pegando e descartando livros. Foi neste interim que dois funcionários passaram gritando, comunicando que o museu iria fechar em 10 minutos e que todos tinham que se dirigir para a saída.
            Deixamos o museu e fomos caminhando para o hotel, numa noite já gelada e, apesar disso, com muita gente na rua. O dia seguinte seria o nosso último dia como súditos.
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            Levantamos cedo, tomamos o nosso café da manhã magro do hostel, com cereais, torradas, suco de laranja industrializado, café ou chá. Comemos o que conseguimos, juntei os flyers que achei interessante, um mapa de Londres e nos pusemos em marcha, com mochilas e sacolas, parecendo dois retirantes. O nosso último dia na capital do Reino Unido foi colaborativo: sol, céu azul e poucas nuvens, embora estivesse frio, muito frio. Caminhamos do nosso hostel até o Hyde Park, onde, cansados de carregar tanto peso, nos sentamos num dos bancos da praça. Vimos pessoas correndo, ciclistas e um grupo do exército passando com as suas metralhadoras à vista (isso foi uma cena recorrente nos três países que passamos, principalmente na França e na Itália).
            Cortando caminho pelo meio do parque, nos deparamos com alguns esquilos cheirando e examinando nozes no chão e alguns corvos, que a poucos passos de nós crocitavam, preenchendo o cenário bucólico. Ao longe já avistávamos uma grande avenida, por onde passavam os tradicionais ônibus vermelhos e vários carros, e alguns prédios no bom estilo londrino. Vendo aquelas árvores seculares espalhadas ao longo do caminho verde, dada a proximidade com o Palácio de Buckingham, cheguei a pensar, com os meus botões, que num passado longínquo aqueles jardins seriam de uso exclusivo da família real, para caçar, passear, ou simplesmente desfrutar de um lugar ao sol. Perdido nesses devaneios, cruzamos a grande Park Lane e adentramos a rua que nos levaria à Baker Street.
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            De todos os cenários londrinos de filmes que já vi e histórias que já li, nada se parecia com aquela Baker Street fria, escurecida pelo nevoeiro do inverno. Nenhum violino sendo tocado na janela pelo famoso inquilino dessa rua ou pelo ratinho que mora no seu assoalho. Vimos apenas uma rua ensolarada e linda, cheia de pessoas caminhando e um comércio pujante. Próximo da estação do underground se encontra o Sherlock Holmes Museum, mas não possuíamos mais nenhum penny para poder visita-lo. Nos contentamos a tirar uma foto do lado de fora. Bem acima da entrada encontra-se uma placa azul, afirmando que o lendário detetive tinha “vivido” ali.
            Antes de chegarmos no museu, passamos por uma das esquinas da Baker Street que tinha um prédio de tijolos à vista, com outra placa azul, que dizia que John Lennon e George Harrison tinham estado naquele lugar, provavelmente fazendo um som. Tiramos algumas fotos e, logo após, fomos comer em um fast food “saudável”, que fazia sopas e comidas vegetarianas. Here comes the sun! Já ao meio dia fazia um pouco de calor, o que me obrigou a tirar a toca, o cachecol e colocar o casaco na cadeira. Estávamos cheios de sacolas, mochilas e, agora, com roupas penduradas por todos os lados.
            Depois da rápida visita à rua de Sherlock Holmes fomos para a London Bridge. Queríamos desfrutar alguns bons momentos de sol de inverno pertinho do Tâmisa. Saímos do underground com as nossas bagagens e ficamos alguns minutos sobre a ponte, olhando o fluxo intenso de barcos cheios de turistas e de transeuntes, ônibus e carros que passavam de um lado para o outro. Lá no outro lado podíamos avistar a grande ponte das torres (Tower Bridge), com a sua arquitetura medieval majestosa. Passava, naquele dia, um ventinho frio por nós, mas o sol nos esquentava um pouco. Muitas pessoas também se empoleiravam para tirar uma selfie ou uma foto qualquer. Algumas gaivotas voavam por baixo da ponte ou pousavam em algum alambrado nas margens do rio.
            Seguimos caminhando e cruzamos a ponte em direção à City Londrina, a Wall Street da Europa. Um grande prédio espelhado está bem na saída da ponte. Procurávamos um supermercado barato para comprar alguma fruta ou comida barata. Dando a volta no prédio acabamos encontrando uma grande coluna, que era o monumento ao grande incêndio ocorrido em 1666 (mais conhecido como The Monument), que devastou prédios, templos, casas e deixou um número grande de vítimas. Foi perto deste monumento que entramos numa lancheria do Pret a Manger, uma das “novidades” em termos de fast food da Inglaterra, onde passamos nossos últimos minutos antes de embarcar no trem de volta à França.
            Esta rede de restaurante britânico prega uma “nova filosofia”, que supostamente respeitaria os ciclos da natureza: os lanches seriam produzidos diariamente a partir de comida natural e café orgânico, não ficando mais do que um dia nas prateleiras. Segundo o seu site, eles afirmam “fazer a coisa certa” partindo de “uma abordagem estratégica para reduzir os impactos no meio ambiente e tendo um efeito positivo nas comunidades que atende”. Supostamente estariam preocupados com a sustentabilidade, evitando o desperdício e aliviando o sofrimento de famintos e de sem teto (a partir da Pret Foundantion – seria algo como o Instituto Ronald McDonald?). Para comer, servem sanduíches de tipo baguete, saladas e wraps; para beber, oferecem café orgânico, chás e sucos. Inegavelmente a comida é boa e aparentemente mais saudável que os hambúrgueres do McDonald’s ou do Burger King, embora dois lanches custem cerca de 10 libras, o que para latino-americanos como nós era algo muito dispendioso. O discurso sustentável é questionável, dado o número de plástico envolvido no transporte e o regime de produção, que certamente deve ser industrial; bem como o suposto alívio da fome, uma vez que na lanchonete próximo ao Marble Arch, na Oxford Street, havia um indigente sentado quase na sua entrada e que, apesar de quieto, segurava uma placa pedindo ajuda.
            Foi na mesa de um Pret a Manger, próximo da London Bridge, que brinquei com os meus últimos pennys, esperando o momento de pegar o underground para a estação internacional de Saint Pancras. Reparei numa família inglesa, bem ao nosso lado, conversando e comendo sanduíches e bebendo suco. A menininha que estava sentada numa cadeira mais alta falava aos pais sobre a sua escola e percebeu que eu os observava; então, passou a me olhar também. Tive muita vontade de conversar com eles, mas não tive coragem. Terminamos de comer nosso “almoço” com uma bela vista do rio Tâmisa.
            O relógio soou 15h! Sob um céu azul, embora já dando seus primeiros sinais de escurecimento, adentramos a Monument Station do underground e fomos para Saint Pancras.
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            As últimas horas em Londres foram lúdicas e tensas. Sentados nos bancos de espera antes do embarque para Paris recebemos a notícia, via WhatsApp, de que o governo Temer preparava uma intervenção militar no Rio de Janeiro. As notícias eram escassas e confusas, sendo mais o resultado de uma histeria virtual. Ficamos atordoados e preocupados, pois a imprensa europeia quase nem fala do Brasil.
Ouvir dois jovens pianistas quase na plataforma de embarque, no entanto, tornou esta espera um pouco mais sublime e nos acalmou. Às 18h já tínhamos passado as burocracias de imigração e já estávamos prontos a subir num trem da EuroStar de volta à cidade luz.

Fim de semana de sol em Paris
            Chegamos em Paris às 21h de uma sexta feira, atrasados em função de um pequeno “engarrafamento” de trens nas proximidades da cidade. Desembarcamos na Gare du Nord, onde ainda se via um grande fluxo de pessoas chegando dos mais distintos cantos da Europa. Fazia muito frio e os passageiros saíam quase em fila indiana para o ponto de taxi. Como o nosso antigo hotel – onde estavam as nossas bagagens maiores – era relativamente próximo da Gare du Nord, fomos até lá busca-las. O frio, o cansaço da viagem e o joelho de T foram alguns problemas que tivemos que enfrentar, mas resistimos a tudo isso e conseguimos chegar no hotel por volta das 21h30min.
            Quando chegamos na recepção percebemos que não era mais o nosso amigo Sofian que estava lá, mas um novo recepcionista que não conhecíamos. Com alguma dificuldade de comunicação, fomos até o depósito e resgatamos nossas malas. Agora estávamos com as mochilas que levamos para a Inglaterra e mais duas grandes malas. Não sabíamos ao certo onde ficava o outro hotel que tínhamos reservado. Nos guiando pelos mapas, caminhamos em direção a ele através de uma grande avenida que nos ligava ao 10º arrondissement, já bastante afastado do centro. Resisti o quanto pude em pegar um taxi, nos aproveitando da ciclovia para puxar as malas de rodinha. Vimos uma Paris um pouco diferente, inclusive com certos “elementos estranhos” em pontos mais escuros desta marcha. Além de economizar alguns bons euros, pudemos observar este movimento noturno da cidade, num dos invernos mais rigorosos do mundo.
            Nos acalmamos um pouco quando nos aproximamos da grande Place de la République, uma das mais bonitas na minha opinião, muito iluminada e bastante movimentada, sempre puxando nossas bagagens, que resistiram bravamente, bem como o joelho da T. Do centro da praça se ergue um grande monumento com uma mulher segurando um ramo de flores, rodeada por outras mulheres erguendo tochas, e onde, logo abaixo, se podem ver ornamentos de ferro e metal retratando cenas da história francesa, desde 14 até 20 de julho de 1789; momentos dramáticos da tomada da bastilha e da grande revolução. Um pouco mais embaixo, quase no chão, se pode ver um grande leão de ferro a proteger o monumento com um olhar imponente. A praça é cercada por belos prédios no tradicional estilo parisiense, sendo que um deles parece um grande palácio e a rua bem na sua frente desemboca no Apollo Théâtre. Nesta mesma via ficava o nosso hotel, onde existiam, como sempre, inúmeros barzinhos com as cadeiras dispostas na frente. Muitas pichações nas paredes e nas portas dos estabelecimentos, inclusive no Apollo Théâtre. O asfalto cedia lugar a paralelepípedos, lembrando algumas das ruas de Porto Alegre.
            Nosso Hotel du Centre, ficava de fronte a pequenas lojas de roupas (alguma coisa que nos lembrava as lojas da Voluntários da Pátria) e ao lado de uma loja de vinho Nicolas, que existe desde 1822 e está espalhada por toda Paris com mais de 100 lojas. O hotel era estreitinho, como se estivesse esmagado pelos edifícios do lado, possuindo apenas duas janelas cada andar, uma próxima da outra. Possuía um toldo bem na frente, que protegia a saliência, onde estavam duas entradas por onde se vendia crepe. Foi ali que conheci um amigo indiano, chamado Ricky, que nos orientou a entrar no estabelecimento para falar com o “seu chefe”.
            Ao adentrar o recinto, andamos até um estreito balcão, um pouco enevoado pela fumaça que tomava conta do ambiente. Ao fundo percebemos um grupo de pessoas jogando cartas e fumando charutos. Ricky deu um grito da entrada e um homem, de meia idade e cabelo preto, um pouco cambaleante, se aproximou de nós. Falou em francês algo incompreensível. Dissemos, em inglês, que tínhamos uma reserva. Então ele puxou um caderninho, em cima do balcão, e folheou, como que procurando nossos nomes. Com os olhos vermelhos e uma língua enrolada perguntou quem éramos: o dono do hotel estava visivelmente bêbado! Nos entreolhamos e contivemos as risadas. Começou a nos dar diversas informações em inglês. Compreendíamos grande parte do que ele dizia. De repente parou de falar, um pouco aflito. Nos olhou e coçou a cabeça. De certo pensou que não estávamos entendendo nada. Passou para o espanhol, o que tornou toda a cena ainda mais inusitada. Dizia: “quedarán en el quinto piso, entendes?”, e nos olhava atentamente, dando o máximo da sua seriedade. Depois contou os andares em espanhol, para nos demonstrar qual era o nosso: “uno, dos, tres, cuatro, cinco...”, apontando o cinco com o dedo, como se fôssemos bárbaros selvagens e não conhecêssemos os números. Logo a seguir nos cobrou as diárias. Pegamos o cartão com as instruções e lá fomos nós, com as nossas bagagens, subir 5 andares, em uma escadinha estreita, pois o edifício obviamente não possuía elevador. Assim que saímos da esfumaçada recepção, ele rapidamente voltou para a jogatina.
            Os quartos do hotel eram muito estreitos e simples, mas caíram como uma luva para o nosso cansaço. O banho era bom, ainda que o banheiro fosse muito apertado. A janela dava uma boa vista para os edifícios da frente, de onde podíamos, no melhor estilo hitchcockeano, observar a vida alheia dos nossos vizinhos parisienses. Passei uns bons momentos me divertindo olhando o movimento da cidade luz, naquele distante 10ª arrondissement. Na noite seguinte, um pouco embriagado com o bom vinho francês, bradei por esta mesma janela “Je t’aime Paris”. À noite devoramos bons e baratos crepes de nutella com banana, além de desfrutar de uma boa garrafa de vinho comprada no franprix por 3 ou 4 euros. Nossa primeira noite de volta à Paris foi no aconchego da calefação deste quarto de hotel. Parecia que já estávamos viajando a meses, mas tínhamos completado apenas 10 dias de viagem.
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            Na manhã seguinte acordamos tranquilos, descemos as escadinhas estreitas do nosso hotel e saímos pra rua. Olhamos as lojinhas bem de fronte ao nosso hotel, caminhando num ritmo sabático. O Hotel du Centre não oferecia café da manhã, então tivemos que sair a procura de algo para tapar o buraco do nosso estômago. O céu estava um pouco nublado, mas prenunciava um dia bonito: dava pra sentir que o sol queria vencer as nuvens. Encontramos um restaurante bem próximo do nosso hotel, na esquina seguinte. Por 7 euros oferecia 2 croissant, geleia de pêssego ou uva, manteiga, 2 ovos fritos, suco de laranja e café preto. Entramos mais pelo ambiente, que era convidativo e tinha uma excelente vista para a praça e a avenida da frente, do que pelo preço em si.
            Saciados, saímos a caminhar por Paris, com o céu já mais convidativo. O clima de sábado no 10º arrondissement era bastante tranquilo: poucas pessoas, poucos carros, pouco barulho. Parecia que os nossos vizinhos tinham preferido ficar dormindo naquele friozinho matinal. Quase na Place da la République fomos abordados por um senhor, que estava próximo de uma idosa, sentada em um banquinho, quase no chão. Eram dois pedintes. O senhor, usando chapéu rasgado de onde saíam tufos de cabelo, e com a cara bastante enrugada, pediu algo em uma língua que não conseguia distinguir (possivelmente alguma do leste europeu). Eu não entendi uma única palavra, mas compreendi que se tratava de um pedido de dinheiro. Coloquei a mão no bolso e encontrei 1 euro e algumas moedas. Juntei todas elas e as coloquei na mão daquele senhor, que esboçou um largo sorriso, faltando alguns dentes, e muito contente me agradeceu com novas palavras que também não entendi nada. Por certo era bastante difícil conseguir esmolas na Europa. No 10º arrondissement o número de pedintes aumentou sobremaneira, ficando visível a situação difícil de parte da população francesa e deixando claro que os meios de comunicação quase não retratam este assunto no Brasil.
            Caminhando sem rumo, apenas pra conhecer as avenidas, os prédios e as casas, terminamos dando de frente com uma comemoração do ano novo chinês, em uma avenida que desembocava numa viela com restaurantes orientais. Lá estavam centenas de pessoas, com banda marcial, fantasias e o tradicional grande dragão vermelho, erguido por pequenas varetas, e ondulando organizadamente conforme o movimento dos seus intérpretes. Alguns fogos de artifícios e rojões começaram a explodir em certas extremidades da manifestação e os presentes falavam coisas inaudíveis para nós. O tambor e os pratos batiam! Alguns curiosos – como nós – ficavam olhando tudo do outro lado da rua. Pude perceber uns poucos carros querendo passar, sendo guiados por senhores aparentemente incomodados com aquela demonstração cultural.
            Depois de passarmos certo tempo observando a festividade, tomamos nosso caminho. Passamos por umas lojinhas empoleiradas, da qual se destacava uma de relógios. Ali comprei meu relógio parisiense, por apenas 6 euros. Aguardando T olhar uma loja, percebi que ao fundo havia uma grande arco do triunfo, bem no meio da avenida, a qual acredito ser o pórtico chamado de La Porte Saint-Denis, que dava um ar especial para aquela paisagem urbana. Foi olhando seus ornamentos e a sua arquitetura majestosa que me dei conta como os europeus eram e são obcecados por arcos do triunfo. Esta é, sem dúvida, uma herança da colonização romana.
            Um pouco mais a frente, na mesma avenida, ainda entramos numa lojinha de duas senhoras que queriam vender desesperadamente qualquer peça por 10 euros e, um pouco mais adiante, numa livraria-sebo. Perto do meio dia chegamos às famosas Galeries Lafayette, um dos lugares que dita a moda em Paris e, consequentemente, no mundo. Trata-se, atualmente, de um grande “shopping center” – de um tipo bem diferente dos brasileiros – que ocupa uma grande construção de onde se ergue um grande telhado envidraçado multicolorido, muito bonito, entrecortado por estruturas e vigas de ferro e metal. Um dos melhores atrativos das Galerias Lafayette é o acesso ao terraço superior, que oferece gratuitamente uma esplêndida vista de Paris e da Torre Eiffel. Subimos até lá (temendo que iriam nos cobrar alguma coisa), contemplamos todo este cenário e saímos, incrivelmente, sem gastar um tostão!
Parte da fachada da Ópera Garnier,
com suas estátuas características
Ao sair das Galeries Lafayete fomos caminhando sem rumo, contemplando arquiteturas, ornamentos, estátuas, muros, e desembocamos na Ópera Garnier. Lá presenciamos o referido show de rua de um violeiro que estava sendo contemplado por inúmeras pessoas sentadas na escadaria bem em frente do belíssimo edifício, ao mesmo tempo em que se esquentavam no sol de inverno. Depois de ouvirmos algumas músicas, nossa marcha terminou próximo ao Museu do Louvre, onde almoçamos num restaurante grego, para saborear uma tradicional pizza de lá com um jarro de vinho de Creta.
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            Do meio para o final da tarde seguimos caminhando pela rua do Museu do Louvre até uma grande praça que tinha uma igreja imensa em estilo gótico, cercada por belos jardins e pessoas sentadas nos bancos, tomando sol, e muitos jovens andando de skate. O sol já se aproximando do fim da tarde dava um aspecto muito bonito ao céu e, em particular, à igreja. Foi uma enorme surpresa encontrá-la; e uma surpresa ainda maior poder entrar nela e desfrutar da sua arquitetura interna, muito bonita, sustentando arcos ogivais no seu centro e contendo pelo menos dois altares em locais diferentes. Todo o ambiente e a construção arquitetônica lembravam a Idade Média, inclusive o eco das conversas dos presentes, que andavam, como eu, contemplando o templo.
            Saímos de lá e rumamos para o nosso Hotel du Centre. No dia seguinte zarparíamos para a cidade eterna, e a expectativa era grande. Chegamos de noite no nosso quarto. A caminhada tinha sido longa novamente. O cansaço só não era superado pela fome. A janta foi uma escolha consciente: crepe feito pelo nosso amigo indiano Ricky. Desci até a rua após tomar banho e descansar um pouco. Lá estava ele, atendendo os fregueses que passavam na frente do hotel. O 10º arrondissement possuía uma fervilhante vida noturna, embora um pouco mais proletária. Enquanto esperava o crepe, pelo menos umas 3 pessoas vieram me pedir dinheiro. Dei as moedas que podia dar. Ricky observou tudo atentamente; levantava os olhos, observava, e depois baixava o olhar para a sua chapa redonda, de onde habilidosamente conseguida girar seu “rodinho” para fazer os crepes. Depois que ficavam prontos, habilmente ele embalava tudo num papel e entregava aos clientes.
            Eu estava com grandes dificuldades de compreender o cardápio. Do francês ele me traduziu para o inglês, o que facilitou um pouco: pedimos crepe de banana com nutella e outros de queijo. Enquanto Ricky fazia os crepes me senti suficientemente a vontade para conversar com ele, pois o seu inglês possuía um acento forte no “R”, tal como os escoceses, o que facilitava muito minha compreensão. Ele me falou que morava em Nova Deli e que há pouco mais de um ano foi tentar a vida em Paris. Senti simpatia por ele desde o início, pois seus olhos passavam um ar de desconfiado, de alguém preocupado por estar em um ambiente hostil (é claro que esta interpretação subjetiva pode estar totalmente errada, mas foi isso que senti). Comentei com ele que tinha muita curiosidade e interesse em conhecer a Índia. Ele apenas sorriu. Era um homem de poucas palavras! Eu, mesmo assim, prossegui: disse, em um contexto que não me recordo mais, que os nossos países eram explorados por fucking bastards, e a nós, latino-americanos e indianos, restava a pobreza ou o subemprego. Ele consentiu com a cabeça e sorriu, mas não teve coragem de se pronunciar. Perguntou se de onde eu vinha possuía praia. Disse-lhe que não; que vínhamos do sul do país, um lugar que fazia frio durante alguns meses do ano. Ricky me deu algumas orientações sobre como pegar o metrô para a Gare du Nord, que tem linhas para o aeroporto Charles de Gaulle. Elogiei mais uma vez seus crepes, que eram melhores e mais generosos do que os crepes nos arredores do Museu do Louvre, e nos despedimos. Subi para o nosso quarto. Bebemos vinho e desfrutamos de um crepe maravilhoso, que até hoje guardamos as melhores recordações (é uma lástima não podermos comer isso por aqui também!).
            Dormimos o sono dos anjos e, às 5h da manhã, levantamos e saímos direto para o aeroporto. A um estudante de História como eu, que teve entre os principais motivadores a investigação e o estudo do Império Romano, esta viagem revestia-se de um sabor especial. Meio dormindo e meio acordado, senti o avião da Air France levantar voo em direção à península em forma de bota no sul do velho continente, a qual tinha grandes esperanças de conseguir vê-la das nuvens (essa esperança foi frustrada, mas compensada pela belíssima vista dos Alpes suíços). 

Nas ruínas imperiais da cidade eterna
Depois de uma rápida escala na cidade de Lyon, onde infelizmente não pudemos sair em função do pouco tempo e do clima (mas pudemos ver o exército de metralhadora em riste fazer vigília nos saguões do aeroporto), chegamos novamente em Fiumicino às 17h do domingo. Já estava quase noite e o frio era um pouco mais brando do que na França e na Inglaterra. Nos direcionamos ao ônibus que leva diretamente ao centro de Roma – mais precisamente ao Roma Termini (grande estação de trem nas proximidades dos principais pontos turísticos da cidade), e onde se localizava o nosso hotel. O aeroporto de Fiumicino fica a cerca de 20 km de Roma, por isso se faz necessário pegar ônibus ou trem. Quando eu e T subimos a escada do ônibus, percebemos que ele estava quase lotado. Sobravam dois lugares um do lado do outro, mas separado pelo corredor, bem no meio. Com grande dificuldade, pois estávamos com muitos casacos e mochilas, sentamos.
Um indivíduo ao meu lado me viu mexendo no celular (eu estava tentando me conectar no wi-fi do ônibus) e pediu a senha pra mim. Eu lhe comuniquei que a internet não funcionava. Ficamos um pouco em silêncio, mas a curiosidade me fez olhá-lo de lado. Puxei assunto. O passageiro ao meu lado era egípcio. Ele estava indo visitar o pai, que era italiano. Fiquei bastante interessado em conversar mais com ele, que apesar de se demonstrar amigável, era um pouco arrogante e esbanjador. Num dado momento do nosso translado alguém ligou para ele e, então, se pôs a falar árabe espalhafatosamente. Ouvi toda a sua longa conversa. Quando ele desligou o telefone me disse que era o seu irmão. Num outro momento, me contou que falava mais de 3 línguas – fez questão de perguntar algo em italiano para o passageiro de trás. Porém, tive certeza de que o meu amigo egípcio era um tanto fútil quando me perguntou sobre jogadores de futebol brasileiros. “O que acha do Philippe Coutinho?”, e ficou me olhando esperando uma resposta. Me enrolei não apenas no inglês, mas com o tal do Philippe Coutinho, que não tinha a menor ideia de quem era. Com uma pergunta tão clichê a um brasileiro, me senti confortável para perguntar a ele sobre as pirâmides. Gostaria que ele me falasse algo mais do que uma evasiva, mas não consegui nenhuma informação relevante. Apenas um “I’ve been there a lot of times”: ele não se saiu muito melhor do que eu sobre o tal do Philippe Coutinho.
Neste momento o motorista gritou com aquele forte sotaque italiano: Vaticano! Eu me enchi de curiosidade, ignorei meu amigo egípcio e tentava olhar pela janela do ônibus, mas a escuridão não deixava ver nada além de um grande muro num breu. Olhava pelo celular e realmente o mapa confirmava que estávamos do lado da cidade do Vaticano. Quando me recostei de novo no banco do ônibus, o egípcio tentou me mostrar algumas fotos no seu celular, mas por sorte não tinha internet e ele se perdeu nos seus arquivos pessoais. Eu, ele e T tiramos algumas selfies por iniciativa dele (sabe-se lá o que ele fez com essas selfies). Mas felizmente nos aproximamos do Roma Termini e, então, nos despedimos e descemos com a promessa de nos adicionarmos no facebook (queríamos mesmo era adicionar o nosso amigo John McDonald – T chegou a procurar seu perfil, sem sucesso). Até hoje, não sei se feliz ou infelizmente, o egípcio não nos adicionou.
Pegamos nossas malas e caminhamos com certa dificuldade pela lateral do terminal de trem por uma ruela de paralelepípedos em direção ao lado que estava nosso hotel, com mochilas e malas de rodinhas. A língua, o clima e os prédios nos remeteram involuntariamente ao Brasil: era como estar no centro de Porto Alegre! Mais especificamente naqueles grandes prédios da Borges de Medeiros, antes de chegar na Salgado Filho. A latinidade ferveu nas veias. Já podíamos observar mais pedintes e, inclusive, algumas pessoas deitadas na rua, com sacolas, roupas, malas e colchões. Tristemente isso tudo era muito parecido.
De todas as cidades que íamos visitar, Roma foi a que menos estudamos em detalhes, nos mapas, nos vídeos do youtube, nos passeios, no clima, etc. Isso dava uma margem maior à incógnita da aventura, mas também nos trouxe problemas. Tivemos algumas dificuldades em programar melhor a disposição do nosso tempo, sem falar num dia em que a chuva de inverno nos impediu de circular pela cidade.
Após rodar um pouco feito barata tonta, chegamos em frente ao Hotel Cherubini, que ficava exatamente a uma quadra do Roma Termini. Era um prédio muito antigo, com uma grande entrada e que reunia inúmeros hotéis nos seus 5 ou 6 andares. Tinha uma escadaria em forma quadrangular, que ocupava quase toda a sua parte central (lembrando muito as habitações antigas dos romanos, pois é sempre bom lembrar que eles foram os precursores dos edifícios com apartamentos). O hotel estava adaptado no segundo andar deste edifício. O recepcionista era de Bangladesh, muito simpático e amigável; fizemos rapidamente amizade com ele. O hotel era bonito, apesar de ser um valor relativamente acessível, com uma grande janela que dava pra rua; o seu estilo arquitetônico, cortinas, móveis, ainda que singelos, eram dignos de César e Cleópatra. Mas a melhor parte era o local do café da manhã, com uma escadinha que dava para uma espécie de varanda, com plantas e flores no alambrado e uma rica visão da rua, com mesinhas de madeira rústica, vitrais e lamparinas. Lamentavelmente estávamos no auge do inverno europeu, por isso a sacada ficava fechada com uma lona transparente. Fiquei imaginando a sorte dos hóspedes que podem desfrutar desse ambiente no auge do verão de Roma (que dizem ter temperaturas muito próximas do brasileiro).
A verdade é que Roma não é uma cidade muito grande, sendo fácil percorrer as ruas a pé até os seus principais pontos turísticos. Para quem tinha caminhado 40 quadras nas outras cidades, as 10 que nos separavam do Coliseu e das ruínas do fórum imperial eram barbada! Quando pensamos que há cerca de 2000 anos atrás a cidade que dominou todo o mundo antigo era muito menor, restrita às colinas e às ruínas do fórum, sendo quase um simples bairro de uma cidade moderna, como Porto Alegre.
Não fosse o cansaço, teríamos andado a pé diretamente até o Coliseu, o Vaticano, o Circus Máximus e as ruínas. Terminamos jantando num dos charmosos restaurantes italianos, daqueles com toalhinhas xadrez avermelhada, com direito a vinho da casa.
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Na nossa visita ao Coliseu consegui comprar o livro que vim cobiçando desde Londres: SPQR – Uma história da Roma Antiga, da historiadora inglesa Mary Beards. O SPQR era o brasão que os exércitos romanos empunhavam nos seus estandartes de guerra. Significava Senatus Populus Quo Romanus, isto é: “O Senado e o povo de Roma”. Estas quatro letras estão espalhadas por tudo ainda hoje: desde o brasão do time de futebol, até caminhões, camisetas, souvenires e as tampas dos esgotos no chão das ruas. Segundo a historiadora na abertura deste livro, Roma ainda nos ajuda a encontrar um caminho para entendermos o nosso mundo e a pensarmos sobre nós mesmos, sobretudo a política e a cultura ocidentais.
A começar pela própria Europa: foram os romanos que definiram e modelaram a Europa moderna que estávamos desbravando. A conformação do território do Império Romano é subjacente à geopolítica da Europa moderna e ainda vai além. Segundo a historiadora, a principal razão de Londres ser a capital do Reino Unido é devido ao fato dos romanos a terem feito capital da sua província, conhecida como Britânia (de onde vem o nome da “ilha” também). Desde os arcos do triunfo – que dão a tônica de como os europeus compreenderam por longos séculos a política entre si e para o mundo – até as noções de política, cidadania e civilidade. Tudo isso é bastante visível na Europa; principalmente nas duas outras cidades que tivemos a sorte de ter conhecido (sendo uma delas uma verdadeira capital do mundo moderno, desde fins do século XVIII e todo o XIX).
No dia seguinte da nossa chegada, pudemos, então, perceber que tínhamos a possibilidade de aprofundar esta “sorte” e desbravar as ruínas imperiais da cidade eterna!
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            Elas estavam ali, acolá, em todos os lugares, bem na nossa frente. Pedaços de colunas, restos de parede, pequenos e grandes templos, pedras com grandes inscrições. Roma é um museu a céu aberto. Não é preciso gastar dinheiro, porque a cidade inteira é um grande campo de arqueologia que se abre aos seus olhos na próxima esquina.
            Jamais esquecerei da nossa primeira manhã em Roma, quando saímos caminhando sob um céu ainda cinzento, mas que foi se abrindo ao longo do dia e nos presenteou com um belíssimo dia de sol. Os prédios da grande avenida que nos levou à Roma antiga eram encantadores, alguns com trepadeiras e folhagens, ou mesmo com um singelo vaso de flores na janela. Foi emocionante desbravar uma pequena escadinha que passava por debaixo de um prédio e de onde podíamos ouvir uma bela melodia tocada em um velho acordeón. Lá estava um senhor a tocar antigas canções italianas, com o seu potinho para receber moedas. Muitos transeuntes cruzaram aquela pequena “caverna”, que nos levava a uma grande rua de paralelepípedos e mais parecia um pátio, cheio de carros estacionados e algumas barracas de comida. As ruas de Roma são peculiares e lindas; pequenas, estreitas, convidativas, onde praticamente não há distinção entre a calçada e a passagem dos carros. E os prédios vão se empoleirando de tal maneira que as ruas se formam nos hiatos, nas entrelinhas, nas margens entre um prédio antigo e outro mais antigo ainda ou, inclusive, por debaixo dos prédios, como era o caso daquele lugar onde estava o velho gaiteiro.
            Íamos subindo a ladeira, olhando os prédios velhos, de uma arquitetura sem igual. De repente nos deparamos com a faculdade de engenharia, no qual podíamos ver alguns jovens sentados, fumando e conversando. Paramos a contemplar aquele cenário, enquanto enchíamos os pulmões com o ar da Itália, observando aquelas árvores típicas – a Pinos Doméstico –, que despontavam de um lado e de outro, de um pequeno canteiro ou de um terreno mais adiante. De repente, naquele andar descomprometido, sem correrias e compromissos compulsórios, tal como a vida deve ser, viramos a esquina e lá estava o Coliseu, majestoso, com seu grande declive, quebrado e inteiro ao mesmo tempo, resistente à história: mais de 15 séculos nos contemplavam!
            Nos aproximamos da grande praça do Coliseu, onde centenas de milhares de turistas do mundo todo fervilhavam para todos os lados, formavam filas, tiravam fotos, compravam tickets, ou simplesmente ficavam contemplando aquele monumento histórico. Guias te oferecem os seus serviços a cada passo, em todas as línguas possíveis e imagináveis. Mais do que isso, ficam tentando acertar a sua língua materna, dizendo que “você pode evitar filas se segui-los”, etc. Esperando para comprar os ingressos, reparei nas grandes pedras que compõe o chão ao redor do Coliseu; provavelmente são as mesmas que resistem desde a época dos césares. Um pouco mais ao lado, já com grandes cercas de ferro, erige-se praticamente intacto o arco de Constantino. Todo aquele cenário te remete involuntariamente para as cenas de filmes épicos, com inúmeros romanos com suas túnicas e sandálias, caminhando em direção às entradas do Coliseu, se espremendo para conseguir um lugar na arena dos gladiadores.
            Ponto importante: T não tinha ideia da função exata do Coliseu! Quando ela descobriu, disse que se arrependeu de ter despendido 20 euros para comprar os ingressos (ainda que este ingresso dê acesso também às ruínas do Monte Palatino e do fórum imperial – o que talvez valha mais a pena!). Afinal, o que é o Coliseu? Um monumento à barbárie para alienar um povo a partir do panis et circenses.
            Caminhando por aqueles destroços se pode imaginar a grandeza daquela civilização e, ao mesmo tempo, a necessidade de se recorrer à crueldades inauditas para sustentar um império baseado no militarismo e na escravidão. Aquelas pedras falam, ainda que estejam silenciadas a quase 20 séculos. Depois do império ainda veio a Igreja Católica, que também se utilizou de um símbolo anti-cristão para seus rituais, o que é, no mínimo, contraditório. Olhando as descrições históricas numa das partes do Coliseu, transformada em museu, pode-se descobrir que durante a Idade Média algumas partes daquele “circo” foram utilizadas como estábulo, silo e galpão.
            Subir ao segundo andar do Coliseu e observar o fluxo de turistas demonstra claramente que Roma ainda é uma capital mundial. Pessoas de todos os cantos do mundo transitam por ali, esperando um lugar entre o gradil ou os alambrados para tirar uma foto. Muitas outras partes estão fechadas ao público (como o centro da arena, que hoje é constituída por buracos e pedaços de pedras), podendo ser contempladas de longe. Me chamou muito a atenção o fato de que nas rochas do meio da arena, onde no passado os gladiadores se matavam, hoje nasce flores, o que nos dá um pouco de direito à esperança. Saí de lá atordoado e reflexivo. Algumas fotos tiradas na ocasião denotam isso perfeitamente.


            É interessante como a cidade nova “abraça” as ruínas do Coliseu e da cidade antiga. Seguimos aquelas ruas, mais puxados pela curiosidade do que por um plano predeterminado. Estávamos famintos e curiosos por provar a comida e o vinho italiano direto da fonte.
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            Na florida, histórica e bela Via Urbana fomos analisando os preços e a “cara” dos inúmeros restaurantes que despontam ao longo do caminho. Encontramos um bastante simpático e típico, que oferecia massas, pizza e vinho. Era um restaurante adaptado em vários ambientes de uma antiga casa, com aquela tradicional toalha xadrez vermelha e preta sobre as mesas, bastante convidativo e aconchegante.
            Os clientes comiam conversando em alto e bom som, bebendo vinho, comendo massas e saladas. Tivemos que caminhar quase todos os ambientes até encontrarmos uma salinha nos fundos do restaurante, onde sentamos praticamente sozinhos. Tocava uma bela canção italiana e pela parede estavam pendurados pinturas de regiões de Roma e da Itália.
            Pedimos pizza e espaguete à carbonara, com o vinho da casa, servido em grandes cálices. A massa da pizza é fina, mas feita de uma forma bastante peculiar que dá um gosto absolutamente diferente de todas as pizzas que já comi. Não disponibilizam condimentos, como ketchup ou mostarda, pois, segundo os próprios italianos, isso estraga o verdadeiro sabor. Apenas colocam na mesa azeite e óleo de oliva. As pizzas geralmente eram do tamanho de um prato, não existindo aqueles exageros da América (inclusive de Porto Alegre). Os vinhos que tomamos lá (em especial o popular casteli romani) eram muito saborosos, embora não fossem melhor do que os franceses.
            Saímos do restaurante tão satisfeitos que lembramos deste almoço até o final da nossa viagem. Ainda comeríamos em uma pizzaria – chamada Galina Bianca –, bem próximo do nosso hotel, nos últimos dias de nossa estada, que também nos marcou bastante; sobretudo a pizza de quattro formaggi.
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            A pobreza na Itália é muito mais visível que nos outros países europeus pelos quais passamos. Os indigentes não ficam sentados quietos, tal como na Inglaterra e na maior parte de Paris. Eles procuram conversar, tal como os mendigos brasileiros. Talvez por isso a gente consiga sentir maior o peso da pobreza, sem falar das pessoas morando nas ruas, que também é visível, ao contrário dos outros países, que deve esconder melhor estas mazelas do “mundo desenvolvido”.
            Há inúmeras lojinhas de souvenires por todos os cantos; principalmente próximo dos pontos turísticos. Estas, em sua maioria, são administradas por chineses. Há, também, muitos camelôs e ambulantes, que procuram vender camisas, pôsteres, pequenas lembrancinhas. Em muitos cantos pudemos encontrar as banquinhas típicas de camelô, tal como no Brasil. Acredito que muito dos “guias turísticos” próximos do Coliseu, das ruínas históricas e do Vaticano estejam nesta mesma condição de subemprego – embora nem todos.
            Foi na Fontana di Trevi que presenciamos um caso de repressão policial aos ambulantes. Depois de caminhar por ruelas muito charmosas, com cafés e restaurantes que aumentavam a quantidade de turistas quanto mais nos aproximávamos da fonte, que desembocamos na praça da Fontana, cercada por prédios tradicionais romanos e uma igreja clássica, também repleta de turistas, com uma senhora pedinte sentada bem nos portões de entrada. T tinha ido comprar um sorvete em uma gelateria, eu fiquei parado, contemplando o fluxo gigantesco de pessoas próximas da fonte, tentando um espacinho pra tirar uma foto. Muitos ambulantes circulavam entre os turistas, vendendo souvenires e “pau de selfie”. Reparei que uma viatura da Polizia cercou um desses ambulantes, negro, provavelmente africano, usando toca e portando uma mochila onde guardava suas mercadorias. Sem muita conversa confiscaram a mochila e colocaram no porta-malas da viatura. O ambulante ficou desesperado e tentou argumentar em italiano. Três policiais o cercaram: um tomava nota em um bloquinho; o outro o inquiria, ora com o olhar, ora com palavras; e o terceiro ficava com um olhar intimidador.
            Me aproximei do local e comecei a tirar fotos do celular. Tentei ficar observando pra demonstrar que alguém acompanhava aquela “operação”. A grande esmagadora maioria das pessoas estava completamente alheia ao sofrimento ou demonstrava medo daquele homem, que falava gesticulando, tal como um italiano. Um dos policiais era ríspido, extremamente autoritário. Negava com a cabeça e com palavras tudo o que o ambulante falava. Este quase implorava, faltando pouco para se ajoelhar. Um outro policial sorria e tentava manter um “ar democrático”, como se realmente se importasse com o destino do ambulante. Em todo o tempo que estive ali não vi ele fazer absolutamente nada de diferente do que os outros ambulantes estavam fazendo. Como um ato de uma injustiça flagrante, o ambulante foi colocado na viatura e levado pelos policiais sabe-se lá para onde.
            Aquela cena estragou completamente minha visita à Fontana di Trevi, que sempre me remeterá a este episódio lamentável. O quanto isso se repete Itália afora ou mesmo em outras regiões da Europa? Postei algumas das fotos das cenas de repressão da polícia italiana nas redes sociais para demonstrar aquilo que nós não vemos na mídia ordinária.
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            Mesmo não sendo caminho, quase todos os dias passávamos pelo Coliseu e pelas ruínas, para contemplar aquela cidade que outrora foi a capital do mundo. Hoje tão deserta, destruída, repleta de ruínas e gaivotas, que voam e pousam no mais alto das colunas em estilo coríntio. Já estávamos aprendendo a andar por aquela região praticamente sem mapas, quando desviamos um pouco o caminho e desbravando novas ruelas e becos, chegamos ao Panteão, um dos prédios que eu mais queria conhecer. Reza a lenda que durante o Império Romano aquele prédio abrigara deuses dos povos conquistados em troca da adoração total dos deuses de Roma. A cúpula do Panteão era recoberta de bronze dourado para que toda a cidade pudesse ver-lhe o brilho; um atestado evidente de sua riqueza. Hoje, no entanto, ele não passa de um templo católico, cheio de estátuas da mitologia cristã e sem nenhum brilho especial, a não ser, é claro, para os historiadores, que como eu, ficam contemplando aquelas colunas da entrada, imaginando como seria aquela praça de entrada nos tempos dos césares. Alguns atores, vestidos de centuriões romanos ficam a disposição dos turistas para tirar fotos. No dia que passamos por lá tinha um violonista popular dando um belo espetáculo.
            O melhor do Panteão é que não precisa pagar: um ponto turístico clássico e histórico totalmente gratuito! O melhor, na minha opinião, é ficar olhando para o teto, com as suas pequenas cavidades quadriculares, a 48 metros de altura das nossas cabeças, recebendo luz apenas por uma abertura no ápice da abóboda. Todos se perguntam o que acontece quando chove, uma vez que este grande “buraco” no teto não pode evitar que a água entre. Pois bem, presenciamos um dia terrível de chuva em Roma, que nos perseguiu o tempo inteiro, me fez encharcar as calças, as meias e o sapato; mas me fez ver como o sistema de dreno no chão de mármore do Panteão consegue absorver quase tudo o que cai pelo teto.
            O Panteão é um prédio redondo. Em todos os seus 360º há estátuas de algum santo católico. Bem ao centro está um altar e bancos de madeira, típicos de igreja. Sentamos ali, por alguns segundos, e pudemos ouvir o volume das conversas aumentar, quando uma pessoa, através de um microfone que ecoou por todo os 48 metros do saguão, pediu “silêncio, por favor” em quase todas as línguas, inclusive em português. O Panteão romano, tal como os arcos do triunfo, fez escola pela Europa. A maioria dos países, mas em especial a França, possui um “Panteão” com os heróis da pátria, que não pudemos entrar e conhecer (lamentavelmente!), pois era pago.
Ainda voltaríamos uma última vez no Panteão, quando passamos pela Piazza Navona, a caminho do Vaticano. Tudo feito a pé, respirando o “ar puro” das margens do Rio Tibre. As nossas fotos são testemunhas.
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            Dizem que ir à Roma e não ver o papa é a mesma coisa que não ter ido lá. A gente quase conseguiu concretizar a profecia. Ficamos sabendo que todas as quartas feiras pela manhã o papa profere algumas palavras numa missa realizada na Praça de São Pedro. O medo do mau tempo e a caminhada a pé nos fez chegar atrasados ao evento. Pudemos ver apenas as centenas de cadeiras dispostas ao longo da praça central, cercadas pelas barreiras de madeira.
            Do lado delas estava a bela e imponente estátua de São Pedro, envolto em uma longa túnica e segurando uma espada, circundada pelas belíssimas colunas que ladeiam toda a praça e desembocam na grande basílica. Sobre estas colunas estão estátuas de apóstolos e santos muito caros à história cristã. Turistas do mundo todo formam uma fila que nunca diminui, todos ansiando por entrar na Basílica de São Pedro ou na capela Sistina. Há um ambiente de poder oculto muito forte, justificado como “fé”, que sentimos a cada passo. Nesta primeira visita não conseguimos entrar para a visitação. A fila para passar nos censores e na revista dos policiais era imensa e o tempo escasso. Pensamos que iríamos embora de Roma sem poder entrar na basílica. Um futuro “imprevisto” faria a sorte nos sorrir e nos brindar com uma nova oportunidade.
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            Fomos embora de Roma num sábado, dia 24 de fevereiro, com destino a Paris. Era da capital da França que iria sair nosso voo da Alitalia para o Brasil, com nova escala em Roma. Ou seja, retornaríamos à Paris, para voltar de novo à Roma; de onde, só então, iríamos decolar definitivamente para o Brasil, tudo isso apenas no dia 26. Contudo, neste voo do dia 24 para Paris teríamos uma breve escala em Bolonha, no norte da Itália.
            O avião tinha 3 poltronas juntas de um lado e do outro, com apenas um corredor ao centro. Estávamos nos acomodando, guardando mochilas e sacolas, arrumando os livros que iríamos ler ao longo da viagem e conversávamos descontraidamente (naturalmente, em português), quando fomos inquiridos, também em português, por um homem ao nosso lado: “Vocês são do Brasil?”. Eu olhei para a minha direita e lá estava um sujeito de meia idade, cabelos pretos, um pouco acima do peso, barba por fazer e óculos escuros. Trajava uma jaqueta clara e calça jeans. Respondi afirmativamente. Pensei se tratar de um brasileiro, uma vez que neste primeiro contato não percebi sotaque na sua fala e também pela quantidade de compatriotas que encontramos ao longo de quase 20 dias em solo europeu.
            Neste primeiro momento senti um certo alívio, pois poderíamos conversar na nossa língua materna, já que há tantos dias não falávamos com outras pessoas além de nós mesmos. Perguntei ao meu interlocutor de que parte do Brasil ele era, e me surpreendi ao saber que ele não era brasileiro, mas italiano; precisamente de Bolonha, para onde o nosso avião faria uma escala dentro em breve! Ele disse que reconheceu a língua ao nos ouvir conversando e que não perderia a oportunidade de conversar com brasileiros. Nem eu gostaria de perdê-la! Então, nos pusemos a conversar.
            Ao contrário de John McDonald, fechado na redoma do seu reino, o bolonhês, de nome Pietro, conhecia muito bem o Brasil. Segundo me falou, morou em São Paulo e Rio de Janeiro. De 6 em 6 meses – não ficou claro o motivo, mas acredito que deva ser um pequeno empresário de algum ramo – viajava ao Brasil. Conhecia bem os bairros das duas maiores cidades do país, os hábitos dos brasileiros, bem como parte de sua realidade política. A sua mentalidade, é claro, era condizente com a sua classe, embora no início da conversa isso não tenha ficado muito claro.
            Falava tão bem português, com um leve sotaque italiano, tal como os colonos da serra gaúcha, que eu poderia muito bem tê-lo levado como brasileiro o tempo todo. Me disse que aprendeu falando errado, tropeçando, fazendo os outros rirem muito das suas confusões linguísticas. Frente ao meu comentário da semelhança entre as nossas línguas ele disse, também, que o italiano e o português, apesar de descenderem do latim, são profundamente diferentes. O que é verdade, embora haja inúmeras semelhanças, a começar pela sonoridade.
            No meio da nossa conversa, duas aeromoças viram o livro de Mary Beard – SPQR, a history of ancient Rome – sobre a mesinha a minha frente, questionou, em italiano, a sua colega o que significava a sigla, ao que Pietro voltou-se rapidamente, intrometendo-se na conversa das aeromoças e explicou, também em italiano, se tratar de Senatus Populus Quo Romanus. A seguir, fez um comentário maldoso, menosprezando a inteligência média do seu próprio povo. Exaltou o patriotismo alemão e norte-americano (de onde estava regressando). Conversamos um pouco sobre isso. Acabamos descambando para como os outros países do mundo faziam uso dos condimentos e temperos nas pizzas e massas, inclusive o erro comum do que se entende no Brasil por “massa à bolonhesa”, que segundo ele, nada tem a ver com o verdadeiro molho feito na Bolonha. Ainda nos receitou uma banquinha no aeroporto que tinha a tradicional mortadela defumada de lá (provamos e era realmente deliciosa e totalmente diferente do que conhecemos por aqui). Pietro estava voltando de Miami, pois tinha conseguido passagens absurdamente baratas, além do que, ele nunca tinha ido para a Flórida. Trocamos algumas impressões, mas ele realmente ficou impressionado com a demonstração de patriotismo ianque: bandeiras nas janelas e nas portas das casas! Relativizei, dizendo que isso não era o mais importante em um povo. Ele novamente falou mal do desleixo italiano, sua falta de organização social e patriotismo, fazendo inevitáveis paralelos com o Brasil. Com o que, tive que concordar.
            Durante toda a conversa não expressei nem por um momento minhas referências políticas. Dei corda solda para o diálogo, que estava fazendo o voo muito mais agradável e interessante. O céu italiano estava nublado, mas como sobrevoávamos as nuvens, o sol brilhava, radiante, fazendo a luz inundar todo o interior do avião, o que fez com que Pietro não tirasse os óculos escuros. No meio dos diálogos ele se equivocava um pouco na conjugação de um ou outro verbo, o que é bastante natural, embora isso nem de longe comprometesse o seu desempenho quase perfeito no português.
            Chegou no ponto que talvez ele estivesse pleiteando: “A comunidade internacional está com medo da eleição dele!”. Perguntei, ingenuamente, “ele quem”? Pois Pietro puxou este assunto quase do nada. “Como um país que estava crescendo a quase 10% ao ano fica estagnado desse jeito? Se ele for reeleito os demais países do mundo vão colocar um ‘x’ no Brasil”, e desenhava um “x” com os dedos nas costas da poltrona da frente. Logo entendi se tratar de Lula. Todos aqueles argumentos toscos, colonialistas e terroristas eram patéticos e facilmente refutáveis, mas dei corda para ver até onde ele iria. Que direito tinha ele de se intrometer nas eleições do nosso país? Por acaso o mundo não deveria colocar um “x” na Itália caso os italianos reelegessem Silvio Berlusconi? Provavelmente Pietro não via nenhum problema em votar num indivíduo mafioso, corrupto até a medula dos ossos e, além de tudo, depravado. Apesar de insistir sutilmente, não fiquei sabendo de sua opção eleitoral, pois a Itália teria eleições gerais na próxima semana.
            Então, ele descambou a falar da crise da Europa, em particular de Grécia e Itália; e chegou no ponto que estava almejando: a xenofobia. Como todo cidadão médio europeu, alimentado por uma mídia absurdamente xenófoba, Pietro era anti-imigração, vendo no deslocamento de seres humanos do terceiro mundo para as “cidades proibidas” do “primeiro” como algo inaceitável e como fruto dos problemas dos seus próprios países, como se o imperialismo europeu não tivesse absolutamente nada a ver com isso. Depois disso, começou a atacar os muçulmanos, como bom italiano cristão que deveria ser. “Sabe o que essa gente vai fazer em Meca todos os anos?”, me perguntava ele, querendo me envolver na sua xenofobia, “Olhar uma pedra! Veja só você! Uma pedra, que é sagrada pra eles! Veja se isso tem cabimento?”, ele me dizia, com ares de indignação e superioridade.
            Quando nos aproximávamos de Bolonha, Pietro foi me contando um pouco da história da cidade. Felizmente nem toda a conversa se resumiu a episódios reacionários lamentáveis. Me disse que a cidade foi praticamente fundada por duas famílias que queriam se manter no poder. Cada uma dessas “famiglias”, no melhor estilo da máfia italiana, queria construir um edifício com uma torre maior do que a família rival. Quando começamos a sobrevoar os edifícios da cidade, ele me mostrou as duas maiores torres, que podiam ser vistas tranquilamente do avião. A seguir, nos fez algumas recomendações sobre Paris: “O melhor museu de Paris não é o Louvre, que tem um amontoado de obras roubadas de vários lugares do mundo, em especial dos renascentistas italianos; mas o Museu d’Orsay, que é onde estão as obras dos impressionistas franceses e de Van Gogh. O impressionismo foi um movimento autenticamente francês”.
Anotamos a boa indicação e, assim que o avião pousou em Bolonha, nos despedimos dele. Dessa vez não pedimos contato: o Brasil já tem reacionários que chega!

O último au revoir!
            Nos nossos últimos dois dias em Paris cumprimos o conselho de Pietro e reservamos a manhã do domingo para visitar o Museu d’Orsay. O mais impressionante é que o nosso último hotel era ao lado da famosa estação de trem de Saint Lazaire, que hoje é uma das mais movimentadas estações de metrô de Paris, com algumas ligações à estradas de ferro internacionais. O livro que não pude deixar de comprar no Museu d’Orsay, chamado Le Paris impressioniste, possui uma grande pintura dessa estação, datada do século XIX, na época em que as marias-fumaças faziam parte indissolúvel do cenário europeu. Hoje é uma estação completamente diferente do que a pintura retrata. Diversos túneis de metrô a entrecortam, e grandes construções de concreto criaram diversas lojas, restaurantes e lanchonetes, como Burger King, que a transformaram praticamente em um shopping.
            Mesmo extremamente cansados com a viagem, logo ao nos estabelecermos no nosso hotel, decidimos ir até a Torre Eiffel para vê-la à luz noturna. Aproveitamos a nossa localização privilegiada (ao lado da estação Saint Lazaire) e fomos de metrô. Como já foi relatado, com certa dificuldade aprendemos a usar as conexões do metrô parisiense. Desembarcamos na estação mais próxima da torre, às margens do Sena, e fomos caminhando com uma relativa apreensão, pois ela estava quase deserta. No meio de uns restaurantes e prédios típicos conseguimos vislumbrar o desenho da torre, totalmente iluminada. Ela estava majestosa e coroou a nossa noite de sábado. Tiramos muitas fotos e a contemplamos até quando o nosso corpo resistiu ao frio, que estava absurdamente insuportável, apesar de não estar nevando. Por incrível que pareça, muitos ambulantes – em sua maioria, africanos – vendiam souvenires da Torre e (acreditem!) vários tipos de vinho para ajudar os poucos turistas, como nós, a suportar o frio. Os valores até não eram altos, mas não tínhamos muitos euros pra gastar nestes últimos dias.
            No caminho de volta, em uma das conexões do metrô, encontramos um mendigo disforme, provavelmente com algum tipo de doença degenerativa (talvez diabetes), com as unhas das mãos entortadas e a sobrancelha caída sobre um dos seus olhos, completamente largado a própria sorte. Enrolado por trapos ele nos deu a nítida sensação de que o corcunda tinha descido de Notre Damme para as profundezas do metrô – ele era, possivelmente, o corcunda moderno! Estávamos com fome e tentamos pegar um chocolate em uma daquelas máquinas de self service. Ao nos ver penando para conseguir o doce, ele se aproximou e tentou comunicação em todas as línguas. A sua fala travada e o nosso inglês limitado dificultava ainda mais a comunicação. Ele ainda tentou digitar os números na máquina, mas as suas unhas tortas não o permitiam. Tentamos ajudá-lo, mas também não conseguimos. Por fim, com a iminência da chegada do nosso metrô, demos as moedas para o corcunda do metrô e nos despedimos dele.
***
            Ao meio dia de um domingo ensolarado, após visitarmos o Museu d’Orsay,
Le Rue Montorgueil de Claude Monet,
exposto no Museu d'Orsay
procuramos o nosso último restaurante parisiense. Mais do que nunca Paris era quase uma cidade nossa. Já andávamos pelas ruas com certa desenvoltura, quase aproveitando a ressaca de um domingo de sol invernal. Tentamos um restaurante chamado Bonaparte, um dos poucos abertos naquele dia. Estava lotado, soltando gente pelas janelas. Pegamos uma mesa para 4 pessoas bem próxima a uma das entradas. O garçom ao nos ver sentar ali se desesperou e nos enviou para outra, bem estreitinha, para duas pessoas, repleta de senhoras e senhores pelas laterais. Sentimos uma espécie de claustrofobia ali; nos levantamos antes do garçom voltar com o cardápio e fomos embora sob o olhar curioso daqueles fregueses. Em todos os restaurantes não existe espaço vazio: eles querem otimizar todas as mesas, nunca deixando cadeiras livres. O fluxo de clientes parece ser muito grande.
            Terminamos por escolher um restaurante bonito esteticamente, com cadeiras, mesas e paredes coloridas, que tinha um apetitoso prato dominical de frutos do mar, dando a impressão de um cenário de verão. Como eu não sou muito afeito a este paladar, pedi um que tinha arroz (tinha muita vontade de comer arroz; só faltava o feijão!) e carne (que na verdade eram grandes pedaços de bacon frito), acompanhados por uma salada leve e um molho especial. Para brindar nosso último domingo em solo europeu, como não poderia deixar de ser, uma jarra de vinho.
            Após degustar estas iguarias, demos a nossa última volta nos Jardin du Luxemburg, que era muito próximo do restaurante que almoçamos. O parque estava cheio de pessoas, sentadas próximas ao grande chafariz central, procurando tomar o máximo possível de sol. Algumas crianças brincavam com pequenos barcos a vela e à pilhas nas águas do chafariz. O clima era muito despojado e tranquilo. Ficamos ali um tempo, tomando sol e contemplando as pessoas, a arquitetura do grande prédio que fica logo ao fundo do chafariz, em estilo clássico francês. Após esse breve tempo, decidimos ir embora para o hotel organizar nossas bagagens para a longa viagem.


***
            Estávamos realizados e felizes, mas bastante cansados. Fomos privilegiados por ter podido desfrutar de tal experiência. A grande esmagadora maioria da população da América Latina não tem esta oportunidade. Quase completando 20 dias de viagem já havíamos saturado a nossa parca capacidade de comunicação (na tensão diária ela se expandiu um pouco – é apenas no tensionamento que a gente evolui –, mas deixou claro também o quanto somos provincianos e precisamos evoluir!). Quando temos que pensar para falar – e isso acontecia o tempo todo – o diálogo não flui de maneira natural (com exceções, é claro) e, dessa forma, nós não somos nós mesmos. Pesava, também, o nosso lado anti-social, de evitar a conversa quando isso era possível, seja através da mímica ou simplesmente evitando o contato. Não foram poucas as vezes que ficamos com cara de tacho frente a um funcionário do metrô ou de um restaurante; ou mesmo pedindo informações: certo dia da nossa primeira estada em Paris, falamos com um senhor sentado no metrô e ele não entendeu nenhuma das nossas diversas tentativas de pronunciar a palavra invalides (queríamos chegar ao Hôtel des Invalides). Somente após mostrarmos no mapa impresso ele entendeu aonde queríamos chegar.
            Essa sensação ruim de deficiências na nossa comunicação me deixou muito reflexivo sobre as minhas capacidades, as relações humanas e me fez lembrar, involuntariamente, do Arquipélago – o terceiro livro da trilogia O tempo e o vento –, quando Floriano Cambará, o escritor fictício, fala da necessidade de construirmos pontes entre as ilhas, que somos nós, os seres humanos. Mais do que nunca senti o peso desse afastamento, das inúmeras culturas, universos, da ausência de busca entre nós, da supremacia de uma única língua sobre todas as outras e da falsa sensação de nos bastarmos a nós mesmos. Além de pontes entre os seres humanos, precisamos construir pontes entre todos os países do mundo.
            Um pouco extenuados por este cansaço linguístico, não sabíamos ainda que falaríamos dois dias a mais em outras línguas, como veremos a seguir. Além do esgotamento comunicativo, depois de passar quase 20 dias de um frio muito mais intenso do que o que conhecemos no Rio Grande Sul, confesso que já sentia um pouco de saudades do calor brasileiro, e de falar livremente também. Todos estes elementos, bem ou mal, apesar da ideologia nacionalista (sobretudo a nazifascista), demonstram que há sim algo em nós que faz sentirmo-nos como pertencentes a um torrão natal. No final desses dias em campos de neve, embora realizado pessoalmente, estava sentido vontade de me reencontrar com o meu povo e a minha terra. Este – e somente este – sentimento pode ser considerado como uma real nacionalidade; mas é claro que nunca podemos nos dar por satisfeitos com esta mediocridade: o mundo é muito maior que o nosso quarto e precisamos estabelecer as pontes entre as culturas e os países do mundo inteiro!

"Presos" em Roma
            Saímos do nosso hotel às 5h da manhã e chegamos cedo no aeroporto Charles de Gaulle, por volta das 5h50min. Uma grande fila de brasileiros e chineses se formava para fazer o check in. Fizemos todos os procedimentos com o máximo de destreza – tínhamos passado por tantas máquinas, sensores e esteiras de raio-X nesses 20 dias que já estávamos craques. Apesar dessa desorganização inicial, conseguimos chegar no portão de embarque com cerca de 25 minutos de antecedência. Ficamos sabendo que o voo estava suspenso, pois o aeroporto de Roma tinha sido fechado em razão de uma nevasca na noite anterior. Ficamos esperando mais ou menos 2h entre conseguir embarcar e ouvir o piloto anunciar que o voo tinha sido autorizado.
            Chegamos em Roma por volta do meio dia. O nosso avião da Alitalia ainda aparecia na tela de departures, ordenando: boarding now! Corremos tudo o que podíamos, segurando nossas mochilas, passamos pelo free shop e o posto de migração. Suportando a morosidade da fila, chegamos de língua de fora no portão de embarque e o nosso avião... já tinha partido!
            Começou, então, um longo tormento sobre o que fazer. No balcão de informações da Alitalia encontramos muitos brasileiros que também tinham perdido o mesmo voo “em razão das condições climáticas” e, da mesma forma, estavam preocupados e indignados, pois o avião com destino ao Brasil, mesmo sabendo dos atrasos de todas as suas conexões, tinha partido sob condições misteriosas. Nesta mesma situação, conhecemos um estudante paulista que tinha ido visitar a mãe e o padrasto no interior da Itália, um casal de namorados, uma mãe e uma filha de Minas Gerais e uma excursão de idosos gaúchos liderados por uma jovem que era a intérprete do grupo. Imediatamente nos aproximamos deste pessoal frente às evasivas da empresa aérea, que dava claras demonstrações de que iríamos permanecer no aeroporto até o voo do dia seguinte (ou sabe-se lá quantos dias a mais), sem ter onde dormir ou comer. Eu e T não tínhamos mais dinheiro. Estávamos completamente à mercê da comida que esperávamos receber no avião.
            Intermediando a relação entre o atendente do balcão, a jovem líder da excursão e o restante dos brasileiros – que juntava cerca de 40 pessoas –, recebemos a informação de que a empresa estava “trabalhando pra resolver o problema” e pedia “para que retornássemos dali a 1 hora”. Muito a contragosto nos pusemos a esperar, ali mesmo, aflitos, de fronte ao balcão, para demonstrar que não iríamos arredar pé.
            Bateu o relógio e o homem que nos atendeu foi substituído por uma nova atendente, que nos enrolou mais um pouco e pediu mais uma hora, já elevando o tom de voz; o que nos obrigou a elevar o nosso também. Os outros passageiros do aeroporto olhavam aquele acontecimento, meio estarrecidos, meio sorridentes. Colocamos as nossas bagagens em cima do balcão, para demonstrar que se necessário fosse, iríamos acampar ali. Iniciou-se um debate entre nós e os atendentes sobre o utilitarismo das empresas aéreas. Querendo otimizar os custos, a Alitalia fazia conexões de distintos países da Europa para Roma e, um único voo, de Roma para o Brasil. Se é certo que a empresa não tem nada a ver com a nevasca que acometeu a cidade naqueles dias, tampouco nós, os passageiros, que sequer temos os meios de produção da empresa (e muitos ali, como nós, sequer tinham dinheiro para se manter um dia a mais), temos responsabilidade sobre isso. Para quem sobraria a conta?
            Mas nós, unidos pelo imprevisto, não estávamos dispostos a pagar por ela. Buscamos cadeiras de espera que estava num dos cantos do saguão e ficamos bloqueando parte da fila do balcão da Alitalia. Escrevemos cartazes exigindo nossos “direitos de passageiros” e os penduramos no balcão. Os transeuntes nos olhavam espantados. Uma guarda do aeroporto veio nos perguntar o que estava acontecendo. Relatamos toda a situação. Ela fez alguns contatos em italiano pelo seu walkie-talkie e nos pediu mais paciência. Dirigiu-se até o balcão da Alitalia e conversou alguns minutos com os atendentes, que já nos olhavam com caras aflitas.
            Nossa intransigência nos arrancou um almoço, pago pela empresa, na praça de alimentação do segundo andar e uma audiência com o setor da empresa que garantia hotel e transfers a partir do aeroporto. Almoçamos e depois nos dirigimos para este novo balcão. Até chegarmos nele tivemos que passar pelo posto de migração novamente, onde nossos passaportes foram outra vez carimbados (haja burocracia!) para entrar na Europa (teoricamente nós já estávamos fora).
            Durante as “negociações” com estes funcionários da Alitalia, algumas pessoas desse grupo de brasileiros, como o estudante paulista e o jovem casal conseguiu ser encaixado no voo daquela noite para São Paulo. Eu e T iríamos apenas na noite do dia seguinte, junto com a mãe e filha mineiras e a excursão gaúcha, que reunia umas 30 pessoas. Além disso, recebemos uma noite no hotel Holly Day Inn de Roma, um dos hotéis mais ricos e confortáveis que já tivemos a oportunidade de estar, bem diferente de todas as nossas estadias anteriores (em particular, da nossa pocilga de Londres).
            Nos deslocamos, então, sob um frio de -1ºC até o estacionamento do aeroporto de Fiumicino, onde o micro ônibus nos buscaria. Separados da excursão gaúcha – que foi para outro hotel (eles tiveram menos sorte do que nós) –, mas junto com as mineiras, estarrecidas pelo frio, esperamos, com alguns outros passageiros árabes e alemães, cerca de 30 minutos o micro ônibus. Quando ele finalmente chegou já era noite fechada. Fomos, então, para o nosso novo hotel, chegando lá por volta das 21h.
            No meio do caminho entre o aeroporto de Fiumicino e Roma, o hotel constituía-se de duas grandes torres, com mais de 10 andares. Tinha um grande saguão de entrada, com confortáveis poltronas, um belíssimo restaurante, onde era servido o café da manhã, almoço e janta, além de belas piscinas que, em razão do mau tempo, estavam fechadas para banho (me pus a imaginar a aristocracia europeia a aproveitar aquelas instalações no tórrido calor italiano do verão). Estavam hospedados naquele hotel muitos ingleses, o que dá uma ideia aproximada de quanto ele custa. Os quartos eram imensos, com duas camas de casal, uma bela vista pela janela, e banheiras imensas. Aproveitamos cada minuto que pudemos desse nosso “azar”.
***
            No dia seguinte, após tomar um belíssimo e indescritível café da manhã, que tinha mais opções do que um restaurante de buffet livre, e logo depois de almoçar (para valermo-nos da refeição do hotel), aproveitamos o dia de sol (ainda que muito frio) para visitar o Vaticano.
            Chegamos à praça de São Pedro por volta das 15h. Como sempre, a fila estava quase dando a volta na praça. Tomamos a posição do último lugar e resistimos às investidas dos guias e vendedores ambulantes. Exatamente na nossa frente tinha um velho casal de ingleses; o homem, de cabelos grisalhos e apesar de roupas pesadas para o frio, de forma bastante despojada; a mulher, de cabelos curtos e pintados, de traços severos. Ambos conversavam tranquilamente. Durante a nossa estada na fila, duas pessoas tentaram se infiltrar no meio para não precisar ir desde o fim da fila. O velho homem inglês deu uma dura nos impostores, acompanhado pelo olhar ríspido de sua mulher. Depois ficamos cuidando pra ver se nenhum engraçadinho tentaria dar um novo golpe.


            Após resistir a estas investidas chegamos até a parte que nos autorizava a entrar. Novamente passamos por uma nova máquina de raio-X, que nos examinou, bem como as nossas mochilas. Assim que adentramos a cerca que dava acesso à basílica, tivemos que deixar nossas malas em um guardador (gratuito, felizmente). As proporções do templo são gigantescas, e o chão e as colunas de mármore dão a impressão de entrarmos em uma das sete maravilhas do mundo. Trata-se de uma verdadeira Igreja-Palácio, pra dar a certeza de que estamos na capital oficial do catolicismo. Ao passar o grande portal que dá acesso à basílica, pudemos ver o chão lustroso, as cadeiras milimetricamente dispostas próximos do altar central, cercadas por colunas e estátuas imponentes. É maior do que todas as igrejas que tive oportunidade de conhecer, inclusive os imensos mausoléus católicos da França. O altar gigante, de onde o papa reza suas missas, com ornamentos metálicos e as madeiras torneadas se estendem quase até o teto, constituindo-se de um símbolo do seu poder atemporal. Um grande número de turistas procurava o melhor ângulo para tirar suas fotos, deixando o espaço ainda mais exíguo para o trânsito dos curiosos. Apesar de todo este povo caminhando lá dentro, observando, tirando fotos, cochichando baixinho, o silêncio se impunha como uma das normas sem que quase ninguém precisasse pedir.
            Um pouco mais à esquerda havia um grande corredor que levava para uma loja de souvenires, com rosários, terços, fotos, cartões postais, imagens do papa e de santos católicos, pequenas estátuas, etc. Todas estas “mercadorias para a alma” variavam muito de valor. Foi inevitável não lembrar de Lutero. Próximo desse corredor que dava acesso à loja há uma escadaria que leva para um subsolo tenebroso e um pouco sombrio, com ares de Idade Média. Neste subsolo estão enterrados diversos papas que “governaram” a Igreja ao longo dos séculos. Em pequenas placas de mármore se pode ler, esculpido, o seu nome e os anos do seu papado. É impressionante o fato de que o Vaticano e os papas reinaram como uma verdadeira monarquia, por séculos, em quase toda a Europa; e ainda hoje, em certo sentido, continuam reinando não apenas na Europa, mas em grande parte do mundo. Possuem bancos, mídias, escolas, universidades, diplomacia, exército e guarda nacional.
            Apesar do frio e dos restos de gelo, saímos da Basílica com sede e levemente cansados. Naquela noite ainda teríamos que cruzar o Atlântico e o horário do nosso voo se aproximava. Bebemos água numa das bicas que está entre as colunas da Praça de São Pedro e nos pusemos em direção à rua. Saímos do Vaticano e fomos caminhando pela avenida central, até às margens do Rio Tibre. Fomos costeando o Castelo de Santo Ângelo até a estação de metrô mais próxima.
            Dos três que conhecemos, o metrô de Roma é o mais barato. É bem organizado, embora com menos linhas e disposto sobre um território bem menos abrangente. Ficamos na fila e compramos nossos tickets por apenas 1,50 euros. Tomamos a direção do Roma Termini, de onde sabíamos que saem ônibus de 1 em 1 hora em direção ao aeroporto de Fiumicino. Os trens do metrô são modernos e bonitos. Naquele dia não lotaram, tal como o underground londrino, mas tivemos que ir de pé, ouvindo a conversa de uma família de russos, que provavelmente estavam visitando a capital da Itália naquela ocasião, e tentando decifrar o que aparecia escrito em italiano na pequena TV acoplada quase no teto do vagão.
            Conforme o planejado, descemos no Roma Termini e pegamos o ônibus em direção ao aeroporto. Ainda sofremos com um engarrafamento de cerca de 1h. Por prudência, fomos para o aeroporto com bastante antecedência. Certamente a Alitalia não seria generosa uma segunda vez. Por volta das 20h nos encontramos com os brasileiros, que já estavam sentados no saguão de espera. Cansados e realizados, eu e T nos despedimos da Europa às 22h do dia 27 de fevereiro de 2018.

Europa e América Latina: 
“desenvolvimento” e “subdesenvolvimento”!
            Antes de chegarmos no velho continente, eu e T já tínhamos desbravado Uruguai, Argentina, Recife, Rio de Janeiro e parte do Canadá. Nenhuma dessas viagens – com algumas exceções – me fez escrever minhas memórias. Só isso denota os fortes resquícios do “eurocentrismo” que ainda vive em mim. Visto, sentido e vivido parte da Europa Ocidental, posso afirmar que estávamos diante de sociedades altamente desenvolvidas, mas com crescentes problemas sociais, que nós, latino americanos, conhecemos muito bem. O fato de os terem em menor número não os justificam. A imigração e o subemprego são realidades cotidianas. Africanos e latino americanos só são bem vindos para turismo e para jogar futebol – e ainda assim de forma muito restrita. A vida boa e o alto desenvolvimento do continente europeu estão assentados sobre o subdesenvolvimento e a miséria dos demais continentes. Aos miseráveis do mundo, que querem se deslocar para lá visando melhorar suas condições precárias de vida, ergue-se um muro de mentiras, de burocracia, de exércitos, de dissimulações e de desculpas. Aquelas “cidades proibidas” não podem ser desfrutadas por todos. É assim que o “capitalismo funciona”: pequenas ilhas de países prósperos cercados por oceanos de miséria, exploração e sofrimento.
            O povo brasileiro e latino-americano (e, em especial, a sua classe média) cria uma imagem idealizada dos países da Europa e demoniza os latino-americanos. A visão dicotômica redunda na ideologia de que os povos europeus são destinados à liderança do mundo por suas virtudes intrínsecas, enquanto que os povos latino-americanos e dos demais continentes são predestinados à submissão servil e escravocrata. Alguém duvida da enorme capacidade de produzir autolegitimação e autoestima nas sociedades ditas “avançadas” pela propagação desses preconceitos que pressupõem uma superioridade moral “inata”, como se os séculos de exploração e submissão da América Latina nada tivesse a ver com isso? Não se trata, é claro, de negar a corrupção e os graves problemas sociais da América Latina, mas, sim, de colocar a noção sobre “desenvolvimento” e “subdesenvolvimento” no seu devido lugar histórico. A exploração do nosso continente propiciou as condições para o surgimento de “sociedades avançadas” na Europa e na América do Norte. Essa exploração não acabou a partir das “independências” das repúblicas da América Latina; apenas mudaram sua forma.
            O andar “aventureiro” de dois latino-americanos, cheios de sonhos, curiosidades e desejo de viver a vida, se traduziram nestas inevitáveis reflexões e memórias que colocam em contraste duas realidades sociais muito diferentes, mas complementares. Que elas sejam o pontapé inicial para uma nova mentalidade e uma nova forma de ver esta dialética entre metrópole e colônia; entre “desenvolvimento” e “subdesenvolvimento”. Paremos a sangria desatada da nossa intelligentsia rumo aos países do norte: o caminho real é a mudança das estruturas do sistema mundial, que possibilita que o “desenvolvimento” de alguns poucos se assente no “subdesenvolvimento” de todos e gere uma onda migratória para fugir do problema ao invés de olhá-lo de frente, para compreendê-lo e resolvê-lo.

Porto Alegre, 8 de julho de 2018