domingo, 19 de abril de 2015

Dois poemas modernistas

O Rebanho

Oh! minhas alucinações!
Vi os deputados, chapéus altos,
Sob o pálio vesperal, feito de mangas-rosas,
Saírem de mãos dadas do Congresso...
Como um possesso num acesso em meus aplausos
Aos salvadores do meu Estado amado!...

Desciam, inteligentes, de mãos dadas,
Entre o trepidor dos taxis vascolejantes,
A rua Marechal Deodoro...
Oh! minhas alucinações!
Como um possesso num acesso em meus aplausos
Aos heróis do meu Estado amado!...

E as esperanças de ver tudo salvo!
Duas mil reformas, três projetos...
Emigram os futuros noturnos...
E verde, verde, verde!...
Oh! minhas alucinações!
Mas os deputados, chapéus altos,
Mudavam-se pouco a pouco em cabras!
Crescem-lhe os cornos, descem-lhe as barbinhas...
E vi que os chapéus altos do meu Estado amado,
Com os triângulos de madeira no pescoço,
Nos verdes esperanças, sob as franjas de ouro da tarde,
Se punham a pastar
Rente do palácio do senhor presidente...
Oh! minhas alucinações!

(Mário de Andrade, in Paulicéia Desvairada, 1922)

Erro de português

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

(Oswald de Andrade, in Pau-Brasil, 1926).

Os poemas “O Rebanho” e “erro de português” dos poetas modernistas Mário de Andrade e Oswald de Andrade abordam o tema da situação política brasileira, tanto do ponto de vista da sociedade “independente” pós-colonização portuguesa, quanto do início da própria colonização. A análise da situação de dependência do Brasil é uma preocupação recorrente na obra dos dois autores, que procuram ajudar na emancipação cultural e política do Brasil, bem como na criação de uma identidade nacional. Tanto um quanto outro poema contribuem para o encontro desta identidade.

No poema de Oswald percebemos claramente esta preocupação, quando logo se constata no primeiro verso uma referência à chegada dos portugueses ao Brasil. O ato de "vestir" e de "despir", expostos naqueles versos, sugere a relação de poder entre o povo dominante e o povo dominado. Vestindo os indígenas, o colonizador tinha a intenção de impor sua cultura: catequese, língua, vestimentas, etc. A maneira em que nos vestimos é uma reflexão da influência da sociedade a que pertencemos. As vestimentas de uma população refletem seus hábitos, sua cultura. O poema refere-se também às condições da chegada dos portugueses: "debaixo duma bruta chuva", que é usada para simbolizar os tempos sombrios que estavam por vir e que “nublariam” o sol da vida simples e idílica dos povos indígenas.

Já em "O rebanho", a alucinação ganha foro de “iluminação”. O tema da loucura, também presente em outros poemas de “Paulicéia Desvairada”, traduz os ritmos das negociatas políticas, captados em meio às alucinações do poeta. No primeiro verso da primeira estrofe, podemos ler "Oh! Minhas alucinações!”, trecho que se repete mais de três vezes ao longo do poema, incluindo no seu último verso. Tal frase não emoldura um texto em vão. Ela certamente remete à ideia de imaginação e desejo de algo diferente da realidade vivenciada, a qual percebemos ser a realidade política da época em questão. A seguir, o restante da primeira estrofe descreve a atitude e a pose arrogante de políticos de nosso país sob a visão irônica do poeta.

Ao aplaudir os deputados deixando o Congresso, o “eu poético” vê os distintos políticos transformados em “cabras”. Investido da liberdade pela “alucinação”, a voz lírica satiriza os políticos, que, sob a face distinta dos “chapéus altos”, envergam trejeitos, trajes e costumes de pessoas mandadas, comandadas e dirigidas, como cabras ou gado em seus rebanhos, que seguem a “correnteza”. Aqui, novamente, vemos a alegoria dos trajes estrangeiros presentes na definição da dominação e na aculturação. O parlamento brasileiro, que deveria ser soberano e “original”, além de ter de debater mais de duas mil reformas e aprovar meros três projetos, segue a imagem semelhança de um parlamento europeu, mais especificamente do parlamento britânico. As roupas para o frio, típicos do clima europeu, com os seus “chapéus altos”, cartolas, ternos e sobretudos, são trazidas mecanicamente para a realidade brasileira, onde impera um calor infernal que contrasta com tudo aquilo. Ser “civilizado” e “progressista” para eles é copiar o que vem das metrópoles européias, inclusive a vestimenta. Ainda é possível estabelecer um laço de continuidade entre “O rebanho” e “Ode ao burguês” (poema famoso que também consta em "Pauliceia Desvairada"), uma vez que se afinam como sátira, como escárnio expressionista ao burguês e à sua sociedade, criada à imagem e semelhança da sociedade burguesa européia.

O senhor presidente, por sua vez, surge com a sua figura mítica de um verdadeiro fazendeiro, dono do rebanho. O seu palácio seria uma espécie de casa grande da fazenda, dispondo de um amplo campo verde, onde os deputados-cabras pastariam conforme a vontade do dono. O uso da palavra “esperança” enche o poema de expectativa incerta sobre o futuro de nossa nação, a de “ver tudo salvo!”. Como se algo estivesse perdido, mas tivesse solução. No entanto, não é o poeta que pode agir e resolver os problemas que vê, mas aqueles que poderiam por em prática seus “projetos”. O poeta só pode esperar que eles ocorram através de suas “verdes alucinações”, onde deixa evidente que o verde é a cor da esperança.

Podemos constatar com os dois poemas analisados que eles não apenas criticam o passado colonial e a “atualidade” de repetições dos padrões e modas políticas das metrópoles européias, mas, sobretudo, investem em uma ruptura com o passado literário nacional. Ou seja, procuram a experimentação de novas técnicas e, principalmente, da liberdade poética para criticar o passado colonial e aquela realidade brasileira ainda não superada.

sábado, 4 de abril de 2015

O outono brasileiro

Em analogia ao que a esquerda e a grande mídia convencionaram chamar de “primavera árabe”, podemos dizer que no Brasil estamos vivendo um “outono neoliberal”. Os protestos contra o governo Dilma (PT), impulsionados principalmente pela oposição de direita (PSDB, Democratas, Solidariedade), apóiam-se, sobretudo, nas camadas da pequena-burguesia, ainda que contem também com o apoio de setores dos trabalhadores.

Este “movimento” defende um programa neoliberal, mas usa como disfarce para angariar mais apoio entre a população o “combate à corrupção” (dentre outras demandas reacionárias, vagas e confusas). Ele conta com o apoio dos aparatos da mafiosa Força Sindical (dirigida majoritariamente pelo partido Solidariedade) e da grande mídia, que manipulou assustadoramente números, bandeiras, consignas e tem dado gigantesco destaque para estas “manifestações” e para a operação lava-jato, visando desmoralizar o PT, não pelo que ele é hoje, mas pelo que foi um dia. O “anti-petismo” destas “mobilizações” está sendo usado para destilar ódio e preconceito contra toda a esquerda, principalmente a revolucionária. A intenção deste “movimento” é se apoiar no descontentamento popular da classe média contra a corrupção e os “altos impostos” para fazer cumprir integralmente o programa neoliberal, que atende, sobretudo, aos interesses econômicos do imperialismo norte americano, em crise desde 2008. Os setores mais atrasados desta classe média tomaram coragem para defender demandas reacionárias reprimidas e levantam abertamente medidas neoliberais (privatizem mais; fora o “comunismo”; dentre outras pérolas como a volta da ditadura militar). Querem puxar a roda da História para trás.

Exigir o fim da “corrupção” e, ao mesmo tempo, medidas neoliberais é uma contradição que estes setores não percebem (ou não querem perceber). As práticas neoliberais legalizam a corrupção. Os montantes roubados dos cofres públicos nas privatizações dos governos do PSDB fazem corar as da operação lava jato. Que moral tem PSDB e Democratas para exigir punição à corrupção na Petrobrás? Outras características do neoliberalismo, como a especulação financeira e o pagamento das dívidas externa e interna (a maior das corrupções), são fontes de inúmeras outras vias da corrupção, legal e ilegal, que a mídia não veicula e os “indignados” não contestam. Não é a toa que PSDB, Democratas e Solidariedade não criticam estas medidas do governo Dilma, bem como os seus “ajustes”, senão que é precisamente isto que visam intensificar, além, é claro, da privatização total da Petrobrás e da intensificação da retirada de direitos. Com a exploração do escândalo da Petrobrás a seu favor, o PSDB trabalha por sua plena privatização para que preferencialmente empresas multinacionais hegemonizem as novas licitações, tal como era no governo FHC. Já o PT quer seguir o seu modelo próprio de privatização, dividindo as concessões entre o capital nacional e internacional, sobretudo às empreiteiras brasileiras amigas do governo federal. Em 2008 o governo Lula anunciou a Petrobrás como a “locomotiva estatal do desenvolvimento”. A empresa era a espinha dorsal das políticas econômicas dos governos petistas; tanto é assim que ela era a responsável por 60% das obras do PAC. Portanto, os ataques fulminantes e sem tréguas da oposição de direita e da grande mídia contra a Petrobrás são premeditados e certeiros, não para resolver os seus problemas de corrupção, mas para desestabilizar o governo e acelerar a sua entrega às multinacionais do Big Oil.

Ao que tudo indica – incluindo o discurso da mídia –, não haverá impeachment, ainda que este não possa ser totalmente descartado, a depender da correlação de forças. Os setores mais conscientes deste “movimento” (Aécio, Paulinho da Força e os demais caciques das legendas de oposição) manobram dentro da legalidade democrático burguesa, ora usando a mídia, ora usando estas “mobilizações”, para desgastar política e eleitoralmente o governo federal, de olho em 2018, e, principalmente, para aplicar plenamente sua pauta neoliberal segundo o ritmo dos interesses da oposição de direita e do imperialismo.

A grande mídia, sem perder um único minuto, já saiu divulgando as declarações de Dilma para comprometê-la e pressioná-la: “Algumas das frases da presidente: – Vamos fazer os ajustes necessários, dialogando com todos, numa posição de humildade, mas com firmeza para que possamos chegar a um bom resultado (...) Não temos mais condições de fazer política anticíclica do jeito que fazíamos (...) Ninguém pode negar o fato de que fizemos de tudo para a economia reagir. A fala deu peso à tese de Christopher Garman do Eurásia Group no Brasil, que poucas horas antes havia dito, em teleconferência da GO Associados: – É hora de dobrar aposta na estratégia do Levy. O custo político de não fazer é maior. O governo está mais refém dessa agenda do que nunca” (ZH, 17 de março de 2015). Eis aí o resumo da tragédia. “Ajuste”, no caso, são os cortes orçamentários, a retirada de direitos (MPs 664 e 665), novas privatizações (que o governo chama eufemisticamente de “concessões”); isto é, todas as medidas neoliberais exigidas para o pagamento das dívidas com os bancos e agiotas nacionais e internacionais.

Uma vez que o impeachment é descartado como saída imediata, os acordões de bastidores já estão sendo costurados. O PMDB (como sempre) está no centro destes acordões. É por intermédio deste partido que internamente a pressão pela “direita” será intensificada. O PT paga o preço da sua política de alianças e da sua estratégia reformista. Que nenhum trabalhador esqueça dessas lições! A degeneração do PT é irreversível e ele não pode mais fazer frente as pressões da direita: aplica planos de “ajuste” contra os trabalhadores e depois quer mobilizá-los contra a “ameaça da direita”! Hoje é um partido burguês como qualquer outro (o mesmo se aplica ao PCdoB: o cão de guarda do petismo). A classe média reacionária (que exige o “Fora PT”) vê nele ecos das greves de 1980, de “socialismo”, mas isso não passa de preconceito de classe. Delphin Neto, guru da “direita”, já deu o seu veredicto sobre os governos do PT: “Lula salvou o capitalismo no Brasil”. Ele está corretíssimo! Lula afirmou certa vez que “os banqueiros nunca ganharam tanto dinheiro como no meu governo”.

O discurso de Dilma sobre a defesa da “ordem democrática” é a confirmação do pântano em que está atolada. Seu governo não pode ir além desta ordem. E quanto mais a reivindica e sustenta, mais se afunda neste lamaçal e se torna refém da ofensiva da direita. Só um caminho revolucionário poderia romper o círculo vicioso. Mas, por tudo que já demonstrou, bem como pelo seu novo caráter, o PT não está disposto a seguir esse caminho.

A crise capitalista que se aprofunda no Brasil e no mundo exige mais sacrifícios dos trabalhadores. A oposição de direita quer os cortes e o arrocho já! O governo do PT, que já está fazendo os ajustes neoliberais, mescla a entrega das riquezas do país com doses homeopáticas de Bolsa Família e de uma pseudo política nacionalista da Petrobrás, como foi do seu feitio durante 12 anos. A oposição de direita quer a submissão total e incondicional ao imperialismo ianque (sem demagogias); enquanto que o governo do PT quer jogar com duas possibilidades: boa vizinhança com o imperialismo ianque e aproximação com China e Rússia. Para o imperialismo ianque e a oposição de direita isso é intolerável! Ainda mais quando constatamos que o governo Lula contraiu um empréstimo de U$10 bilhões com o Banco de Desenvolvimento da China (BDC) para financiar a sua política de desenvolvimento a partir da Petrobrás, que tem como contrapartida gastar U$3 bilhões em compra de equipamentos e tecnologias da China, e o comprometimento da Petrobrás em lhe fornecer 200 mil barris de petróleo por dia, durante 10 anos.

Atualmente o mundo todo está submetido à disjuntiva: EUA X China/Rússia. É só lançar um olhar mais crítico para a situação de Ucrânia, Síria (Oriente Médio em geral), Argentina, Venezuela. Entre os primeiros países, os ânimos estão acirrados ao ponto do enfrentamento militar aberto; e nos segundos, ao enfrentamento disfarçado. Por aqui, a “mobilização” pacífica das bandeiras neoliberais vai cumprindo a sua missão. O patriotismo deste “movimento” e dos partidos da oposição de direita é profundamente cínico, pois significa apenas a incondicional submissão aos interesses do imperialismo ianque. O único e verdadeiro “patriotismo” é o que levanta e defende a bandeira histórica dos trabalhadores: o socialismo; ou seja, valoriza o povo e, por isso mesmo, defende a unidade internacional de todos os trabalhadores, que não tem pátria. O discurso patriótico sempre serviu como uma luva para o fascismo. Agora não é diferente.

As organizações da “esquerda” brasileira faliram. Cumprem um papel de auxiliar de um ou outro setor da burguesia. Ou apóiam o governo com a desculpa de “golpe da direita”, ou apóiam indiretamente a direita quando esquecem da correlação de forças da conjuntura para impor um governo alternativo ao de Dilma. É preciso uma análise lúcida dos fatos para rebater as armadilhas dos dois campos burgueses, dando ênfase para o atual ascenso da direita em todo mundo, fruto do acirramento da crise capitalista internacional.

A política cotidiana dos partidos de esquerda (PSOL, PSTU, PCB e PCO) é de sustentação do sindicalismo cutista, ainda que defendam eventualmente a desfiliação de sindicatos da CUT. O PSOL chega ao cúmulo de defender uma “frente popular” contra o “ascenso da direita”, exigindo que o governo Dilma “reverta o modelo” político que vem aplicando e propondo um programa mínimo em conjunto com setores do PT. Não se pode ter um programa em comum com o PT; no máximo, atos específicos em repúdio à “direita” e o seu “golpismo”, no sentido de alertar e mobilizar os trabalhadores. A nossa propaganda e programa devem ter total independência do PT. Da mesma forma que o PSOL, o PSTU trabalha no sentido de aprofundar as ilusões políticas no governismo. A sua política de exigências para que CUT, UNE e MST rompam com o governo é uma tragédia, pois serve apenas para gerar ilusões de que estas entidades burocratizadas até a medula possam efetivamente romper com o governo (na verdade, estas exigências são um presente para ele). Chega ao cúmulo de exigir que a Força Sindical rompa com o PSDB! O PSTU ainda defende uma “greve geral” para enfrentar esta crise política. Quem a convocaria e a sustentaria? A CUT ou a Força Sindical? Outra vez esta bandeira ignora a real correlação de forças do país e serve como matriz de novas ilusões. O PCO conclama abertamente a esquerda para apoiar o governo Dilma contra o “golpe da direita”, denunciando os “nem, nem” (nem direita, nem governo), mas não denuncia corretamente a inconsistência da política de PSOL e PSTU porque julga que sustentar o governo seria uma política em defesa dos trabalhadores. Na realidade, o PCO arrasa qualquer possibilidade de uma política de independência de classe e serve como sustentação política do PT. O PCB faz uma análise política um pouco mais lúcida, mas termina com um programa dogmático que esquece a correlação de forças do momento, sem falar de sua política sindical que vai a reboque do PT, PSOL e PSTU, sem críticas!

Existem ainda setores de trabalhadores que não estão organizados em partidos ou correntes sindicais que, da mesma forma que os partidos de “esquerda” já citados, terminam como base de sustentação dos atos da “oposição de direita” e do fascismo, ou apóiam o governismo por compreenderem o que estes “atos” e o crescimento do fascismo representam. Eles dizem: “combater o golpismo significa estabelecer uma sólida aliança com os companheiros do PT e da CUT”. Quem criou a atual possibilidade para o golpismo senão a própria política de conciliação de classes do PT? Devemos lutar contra o ascenso da direita sim! Mas isso não significa de nenhuma forma estabelecer uma “sólida” e “respeitosa” aliança com o PT e a CUT. Isso é o enterro definitivo de qualquer resistência real, pois o PT não tem interesse em uma resistência à direita, ao avanço neoliberal, às medidas de “ajustes” exigidas pelos bancos. Sua resistência será sempre vacilante e restrita aos limites do jogo viciado da democracia burguesa.

Os trabalhadores conscientes devem buscar construir um caminho de independência de classe para enterrar estas organizações oportunistas que sustentam de uma forma ou outra o governismo (e indiretamente a própria direita). Precisam fazer isso se não querem ficar reféns da sanha de urubus dos dois setores da burguesia em luta. O único “patriotismo” possível dos trabalhadores, portanto, é lutar para mudar a situação do país, fazer uma revolução socialista para erradicar a miséria, a pobreza, a ignorância e a exploração; em suma, lutar para derrubar o capitalismo. Mas, nesse momento, para concretizar esta intenção é preciso construir as condições através de um programa e de uma propaganda de independência de classe. A classe média que se compadece com os sofrimentos do povo e, principalmente, os trabalhadores conscientes, devem não apenas não se somar aos atos do 12A, mas, sobretudo, trabalhar para construir uma alternativa de movimento de massas com independência de classe dos dois setores da burguesia brasileira e imperialista.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Um balanço do neoliberalismo

Não é costume da burguesia e da sua mídia fazer balanços das suas políticas sociais e econômicas. Geralmente ela sempre procura esconder os seus resultados (aumento da pobreza, da disparidade de renda, da miséria, do analfabetismo e da exploração) e, como se diz, “vai levando”, vendendo tudo como “grande acerto” e como “única política possível”. Os pilares econômicos do sistema e das suas políticas não são nunca questionados seriamente. Um desses “balanços” nunca feitos é sobre o neoliberalismo, principalmente após a crise capitalista iniciada em 2008.

O neoliberalismo é uma política econômica capitalista, que surgiu por volta da década de 1980 e se intensificou após a restauração do capitalismo na Rússia, leste europeu, China, Cuba, etc. Se caracteriza por levar os dogmas liberais até as últimas consequências e criar novos: o mercado deve “organizar toda a sociedade e não ter limites”; o Estado não pode interferir na economia, nem investir nos serviços públicos básicos (saúde, educação, transporte), pois isso seria “concorrência desleal” com o setor privado; os bancos centrais devem ser independentes dos governos e manter o câmbio flutuante, o “controle da inflação” e a economia pautada pelo dólar (as moedas nacionais não se pautariam mais pelo lastro-ouro, mas pelo lastro-dólar – esta medida transcende a questão neoliberal); os bancos privados também podem ter o “direito” de se tornarem independentes, podendo usar os depósitos individuais como garantias para a especulação financeira (este foi um dos fatos que desencadeou a crise econômica de 2008); a livre especulação financeira, sem limites, bem como a agiotagem internacional em relação as dívidas públicas devem nortear a atração de capitais para investimentos. Tudo deve ser regulado a partir da iniciativa privada, da “luta” voraz na “livre” competição capitalista.

É desta compreensão que surgem como “naturais” as privatizações. Como o Estado é induzido a não intervir na economia, qualquer empresa ou serviço público precisa deixar de sê-lo. O governo FHC (PSDB) privatizou inúmeras empresas a preço de banana (Telebrás, Eletrobrás, Vale do Rio Doce; iniciou a partilha da Petrobrás). O caso mais escandaloso foi a venda da estatal Vale do Rio Doce (a maior mineradora do mundo) por um valor 20 vezes menor do que ela realmente valia.

Segundo os ideólogos da burguesia e da grande mídia, se opor a este verdadeiro saque do patrimônio público é ser “anacrônico”, defender o “passado”, “ideologias retrógradas como o socialismo”. “Progressivo” mesmo seria entregar as riquezas nacionais e ainda bater no peito, orgulhoso. É importante relembrar que o neoliberalismo surgiu e se consolidou no período da restauração do capitalismo nos ex-Estados Operários, o que representou um retrocesso e uma dura derrota para os trabalhadores de todo o mundo. No momento em que sua degeneração atingiu o ápice, o PT reproduzia o discurso neoliberal de que os opositores às suas medidas eram “retrógrados”, para poder defender livremente as suas “reformas” (que na realidade eram apenas uma forma disfarçada de privatizar). Uma das primeiras medidas de Lula na presidência da República foi dar seguimento à “Reforma” da Previdência iniciada por FHC, que, além de aumentar a idade mínima para a aposentadoria, trabalha no sentido da sua privatização total. O mesmo caso pode ser aplicado à atual campanha contra a “corrupção” na Petrobrás levada a cabo pela Operação Lava Jato. O PSDB quer a sua plena privatização para que somente empresas multinacionais (do Big Oil) possam participar de novas licitações para explorar o petróleo brasileiro. Já o PT quer seguir o seu modelo próprio de privatização, dando prioridade para concessões entre o capital nacional e internacional, sobretudo às empreiteiras brasileiras amigas do governo federal.

Histórico do neliberalismo
O neoliberalismo foi idealizado pelo imperialismo inglês e norte americano, que tinham à sua cabeça as figuras de Margareth Thatcher (1ª ministra britânica de 1979 a 1990) e Ronald Reagan (presidente republicano dos EUA de 1981 a 1989). Em seguida, foi a vez das neocolônias seguirem fiel e servilmente as metrópoles: o Brasil, com Fernando Collor, Itamar Franco e FHC (e posteriormente pelo PT, disfarçando a defesa do neoliberalismo com o nome de “reformas”); a Argentina, com Carlos Menem, De La Rua e, agora, com os Kirchners, que fazem um jogo duplo, tal como o PT.

Para que projetos extremamente impopulares fossem aplicados, a máquina gigantesca de propaganda da grande mídia fez uma verdadeira lavagem cerebral em massa, disseminando um terrorismo psicológico subliminar e afirmando que esta era a única política viável. Sustentava que o Brasil iria ser excluído da comunidade internacional, iria virar uma “nova Cuba” (argumento reacionário recorrente da direita para passar a sua patrola política e econômica) e, se não aderisse às políticas neoliberais, se tornaria refém de ideologias “atrasadas”. Depois de privatizado o sistema de comunicação (Telebrás, CRT, etc.), de algumas estatais de energia elétrica, da Vale do Rio Doce, parte da educação, saúde e da Petrobrás, o Brasil não apenas continua atrasado, dependente do capital internacional e da sua tecnologia, como aprofundou esta dependência; a população segue na miséria, analfabeta, subempregada ou mesmo desempregada. Naturalmente que esta política neoliberal só serviria para concentrar ainda mais a riqueza nacional em poucas mãos e aumentar a miséria do povo. Apenas os ingênuos ou os neoliberais convictos interessados nessas “transações” não o veem.

O neoliberalismo levou à crise internacional de 2008 e a uma crise financeira permanente nos países neocoloniais
Este balanço da aplicação do neoliberalismo a mídia burguesa não faz. Ela continua defendendo e incentivando a política de privatizações do governo Dilma: entrega de portos, aeroportos, do pré-sal, da Petrobrás, etc. Os protestos anti-Dilma, insuflados pela mídia, também trazem uma pauta neoliberal e estão sendo usados pela oposição de direita para intensificá-la. A crise capitalista, iniciada em 2008 nos EUA e na Europa, foi o coroamento da política neoliberal: especulação financeira desenfreada, quebra de várias empresas e bancos ao redor do mundo, desemprego, recessão, crise e revolta popular (que geralmente tem sido canalizada ou mesmo dirigida diretamente pelos imperialismos em disputa).

E o mais irônico nisso tudo é que as empresas, multinacionais e bancos falidos recorreram ao Estado para escapar da falência. Foi drenado mais de 10 trilhões de dólares do dinheiro público para lhes salvar da bancarrota. Ou seja, podemos resumir a aplicação do neoliberalismo da seguinte forma: é a política econômica do capitalismo na sua fase de decadência histórica, de agonia, fruto das suas contradições insolucionáveis que levam à crises periódicas.

A restauração do capitalismo e as suas crises do final do século 20 impuseram uma nova “saída” na reformulação do liberalismo, transformando-o em neoliberalismo. Este legalizou a especulação financeira, a privatização das riquezas nacionais, a concentração de rendas sem precedentes que jogou milhares de pessoas no subemprego, no desemprego, na miséria e, portanto, fora do ciclo de consumo, o que por sua vez prepara sempre novas e piores crises econômicas. Assim, contribui permanentemente para novas crises de superprodução sem escoamento, novas formas de legalizar a especulação financeira que quebrou centenas de bancos para depois resgatá-los com o dinheiro público. Eis o resumo da ópera: o neoliberalismo privatiza os lucros e socializa os prejuízos; demoniza o Estado e tudo o que cheira à público, mas, como um sanguessuga, se gruda neles quando necessita. Como sempre, são os trabalhadores que pagam a conta disso tudo.

O capitalismo não pode regulamentar a especulação financeira, nem taxar as grandes fortunas. Esperar pela concretização destas propostas feitas por grande parte da esquerda e periódicos ditos “progressistas” – como o Le Monde Diplomatique, dentre outros – é, além de um contrassenso, uma utopia reacionária. O socialismo salta aos olhos como uma necessidade histórica imprescindível. Somente o socialismo pode regulamentar o sistema financeiro, o mercado, resolver o problema da especulação, das privatizações, da falta de dinheiro, dos serviços públicos de qualidade e resolver o problema da superprodução porque ataca as raízes de todo o problema: a propriedade privada e as relações de produção. Contudo, o socialismo não nascerá pela via pacífica e supostamente “reformista” das eleições burguesas. Só pode ser fruto de uma revolução dos trabalhadores. Para isso, é necessário uma nova vanguarda disposta a construção de um partido revolucionário em frontal oposição aos atuais partidos de “esquerda” (PSOL, PSTU, PCB e PCO) que estão mortos para as tarefas da revolução socialista.

quinta-feira, 26 de março de 2015

O que está por trás da luta encarniçada na CPI da Petrobrás?

- A grande mídia usa a operação Lava Jato em uma verdadeira campanha para desmoralizar o PT. Não pelo que ele é hoje (um partido burguês corrupto como qualquer outro), mas pelo que ele foi um dia; sobretudo por sua atual política internacional (aproximação com China e Rússia) e em relação à Petrobrás (priorizar negócios com a "indústria local").

- Com a exploração do escândalo da Petrobrás a seu favor, o PSDB trabalha por sua plena privatização para que preferencialmente empresas multinacionais hegemonizem as novas licitações, tal como era no governo FHC. Já o PT quer seguir o seu modelo próprio de privatização, dividindo as concessões entre o capital nacional e internacional, sobretudo às empreiteiras brasileiras amigas do governo federal.

- Em nenhum caso os trabalhadores ganham! Estão entre a cruz e a espada! Ainda que tenham que defender a Petrobrás do atroz ataque entreguista que vem sofrendo, é preciso uma política radicalmente distinta de ambos setores burgueses em disputa e, de nenhuma forma, podem servir de suporte para o governo Dilma (que é tão privatista e neoliberal quanto os tucanos).

- O PT paga o preço da sua estratégia reformista. Foi ela que o transformou no que ele é hoje: um partido degenerado e refém da oposição de direita e dos seus métodos. Unidade contra a "ascensão da direta" não significa silêncio sobre os ajustes neoliberais do governo Dilma (amplamente apoiado pelo PSDB-DEM) e nem sobre a necessidade premente de se desfiliar da CUT, a agência sindical governista.

sábado, 21 de março de 2015

Duelo de titãs

Minha vida anda tumultuada, incerta; não sei o que o futuro me reserva para a vida profissional. Isso é fantástico e assustador! As sensações se misturam e este é o resultado inevitável de ser e existir.
           
Cumpri o meu dever e pago por isso (quem se importa com “dever” hoje em dia?). Eis aí o início dos pensamentos conflituosos: cumprir o dever ou não cumprir! Remar contra a corrente ou boiar e ser levado por ela?
           
Por volta das 6h da tarde, quando transitava com o meu cachorrinho pelos arcos da Redenção, o medo se encontrou com a liberdade na arena do meu peito. Se entreolharam. Se estranharam! E a luta começou. A poeira do chão começou a subir e embaçou os outros sentidos, principalmente a capacidade racional. Com grande esforço consegui entender alguma coisa ou outra entre o estalar metálico dos gládios em luta. Enquanto isso, meu coração em um conflito de emoções clamava por congelar todas as sensações boas e estáveis da vida. Gostaria, particularmente, de congelar as minhas garantias profissionais e materiais do ano passado. Como seria doce viver!
           
Uma das vozes em luta bradou:
           
– Queria que a certeza do meu emprego e do meu salário se congelassem! Que eu pudesse receber tudo o que recebia “certamente” no ano passado! Pensar nessas garantias dá um acalanto para o coração!
           
A outra respondeu:

– Isso é impossível! Como pode o mundo se congelar? Ainda mais na situação de um trabalhador precarizado? É claro que é impossível! A situação piora se levarmos em consideração a crise econômica do capitalismo, que assola o Brasil e o mundo! A vida é incerteza e insegurança (se você não é um parasita explorador de trabalho alheio, como um banqueiro, um mega empresário, é claro!). O que dirá se optarmos levar uma vida de revolucionário?

A primeira pergunta de novo:

– Justamente aí é que está o pomo da discórdia! Não seria o momento de repensar tudo, procurar um emprego rentável e estável, sentar juízo para casar e ter filhos? Sem estes pré requisitos isso torna-se muito difícil; quase impossível nos dias de hoje.

– Pra começo de conversa, o que seria “sentar juízo”? Seria, por acaso, abdicar da consciência que construímos, tornarmo-nos “mais do mesmo”, levar a vida fingindo não ver que está tudo errado? Por acaso a culpa é minha por ter um emprego precarizado e viver em uma sociedade que só se preocupa em “como melhor te explorar”? Não seria o sistema econômico que ameaça permanentemente a minha “estabilidade” e as minhas condições de vida, bem como as condições de vida da massa trabalhadora como um todo?

– Mas, mas... agindo dessa forma você acelera a possibilidade de piorar a sua condição de vida e aumenta a probabilidade de perder o seu emprego!

– Sim, é verdade. Você tem razão. Isso é assim porque vivemos em uma ditadura de classe disfarçada, chamada eufemisticamente de “Estado democrático de direito”, que não garante sequer o direito ao trabalho. Aliás, vivem nos chantageando diariamente com a possibilidade de “perder o emprego”, “cortar nossos salários”; enfim, de nos tirar os meios de vida. É o meio mais eficaz de fazer “opositores” potenciais calarem a boca posando de democrático, pois a degola ocorre de forma burocrática, se escondendo atrás de leis ou do “direito de empregador” demitir “funcionário vagabundo”; ou simplesmente de “cortar gastos”, afinal de contas, o lucro da empresa dele é mais importante que a fome dos filhos do empregado (quem mandou fazer tantos filhos? Que se vire, não é mesmo? Bem nesse momento o sadismo de uma mente reacionária chega ao orgasmo!). É assim que o sistema funciona...

– Reafirmar tudo isso, como um mantra, lhe dá uma espécie de segurança?

– Sim! Não posso me dar ao luxo de esquecer isso em uma sociedade que vive em amnésia permanente. Você queria que eu jogasse a culpa em quem? Nos familiares, nos signos, nos búzios e tarô, em deus? Olhar a realidade de frente por mais amarga que seja é a única forma verdadeira de levar a vida dignamente, de não perder a essência humana. Eventualmente, em razão das chibatadas da realidade, tornamo-nos mais agressivos e ríspidos; mas assim, penso eu, conseguimos preservar a essência sensível humana até o final da vida. Quanto em casar e a ter filhos, acredito que isso deve estar baseado única e exclusivamente no amor “carnal” e “espiritual” do casal, que precisa levar a uma compreensão mútua, também de “corpo” e “alma”. Chega de casamentos por conveniência, não é mesmo? A humanidade, e as mulheres em particular, já sofreram muito com isso. Você não acha?

– Nunca pensei a respeito!

– Pois é, foi o que eu imaginei... Ademais, é impossível “congelar” as condições de vida do passado que nos são favoráveis e agradáveis. “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”.

– Frase feita para impressionar!

– Que seja! O fato continua sendo que a realidade modifica-se continuamente e que não podemos fugir disso, a menos que morramos ou nos suicidemos (e ainda assim continuaríamos a nos modificar)! Desde o útero materno somos colocados à prova. Se congelar as coisas boas fosse possível voltaríamos ao útero materno e lá nos congelaríamos eternamente, pois haveria situação mais favorável e agradável do que esta?

– Não seja estúpido! Quero poder me mover, andar, pensar, sentir! E por conta própria!

– Ok! Então você quer só garantias, sem riscos? Os únicos seres vivos que tem este privilégio são os grandes capitalistas, seus bancos, agiotas, investidores, acionistas, etc. Viver significa morrer; significa riscos, enfrentamentos! Luta! Embate! Precisamos nos desapegar das coisas supérfluas. Aprender a conviver mais com a natureza e o cosmos, com o seu movimento. Neste aspecto muitas contribuições do pensamento budista são interessantíssimas! Você conhece? Eles dizem que a fonte do nosso sofrimento está em se apegar às coisas em um mundo que muda ininterruptamente. Viva e deixe viver...

– Pare com essa lorota! Eu quero segurança, estabilidade! Quero garantir o meu futuro! – gritou ensandecidamente a primeira voz.

– Bebê, é preciso crescer! A vida dói, o novo dói! Monstros como a rotina, o hábito e o senso comum, que matam e asfixiam a iniciativa, a alegria de viver, a própria vida, se escondem atrás destes nobres “sentimentos” e “preocupações”.

– No fundo você quer convencer a si mesmo de tudo isso!

– Sim, quero nos convencer (afinal, somos um só) de que é possível viver o que se prega, que podemos praticar a teoria que defendemos e que neste mundo cão precisamos nos esforçar para dar o nosso melhor pelos outros, o que, no fundo, é para nós mesmos.

(Silêncio...)

A liberdade e o medo bufavam, estavam exaustas! A luta foi interrompida pelas exigências da vida cotidiana. Mas acredito que ela não tardará a acontecer novamente...

segunda-feira, 16 de março de 2015

O que é direita e esquerda?

Escutamos corriqueiramente na TV e nas ruas que o PT é de “esquerda” e o PSDB de “direita”. Ou ainda: o governo Dilma é “esquerdista” e o de FHC “direitista”. Estariam estas afirmações realmente corretas? Em razão da confusão que impera na grande mídia e na sociedade em geral sobre o que é “esquerda” e “direita”, é preciso um trabalho de esclarecimento entre os trabalhadores e a sua vanguarda.

Na internet podemos encontrar as seguintes definições: “Esquerda: Basicamente trata-se de uma posição ideológica que defende práticas voltadas a uma sociedade mais igualitária. Defende uma melhor redistribuição de renda e respeito às diferenças e prega mudanças na realidade socioeconômica em prol da coletividade. Direita: Basicamente trata-se de uma posição ideológica conservadora e defensora, hoje, do Neoliberalismo Econômico. Defende a meritocracia e a manutenção da realidade socioeconômica em prol da individualidade” (Café com sociologia); ou ainda: “Há um consenso geral de que a esquerda inclui progressistas, sociais-liberais, ambientalistas, social-democratas socialistas, democrático-socialistas, libertários socialistas, secularistas, comunistas e anarquistas; enquanto que a direita inclui fascistas, conservadores, reacionários, neoconservadores, capitalistas, alguns grupos anarquistas, neoliberais, econômico-libertários, monarquistas, teocratas (incluindo parte dos governos islâmicos), nacionalistas e nazistas” (Wikipédia).

Estas definições são genéricas e não fazem uma reflexão profunda acerca da confusão e da subjetividade a que estes conceitos estão submetidos. Teoricamente, em política, os termos “esquerda” e “direita” definem campos antagônicos que expressam concepções de sociedade diferentes. Como estão sujeitos a diversas interpretações e manipulações, eles podem ser utilizados para confundir ou esclarecer; para definir uma posição política ou para obscurecê-la. Como geralmente se fala em “direita” e “esquerda” de forma abstrata, sem nenhum ponto de apoio e sem método, então a confusão se instala.

Este texto pretende lançar um método de análise pela ótica proletária para se compreender realmente quem está no campo da “direita” e quem está no campo da “esquerda”. Para isso, é importante partir das raízes históricas destes termos e chegar até as polêmicas da atualidade.

As origens
A origem desta terminologia é controversa. A explicação mais difundida é aquela que remete às comoções da Revolução Francesa. Segundo ela, os “deputados” da Assembleia Nacional que sentassem à “esquerda” da mesa diretora eram partidários de mudanças sociais (sem especificar ao certo quais seriam essas mudanças, mas, provavelmente, ligadas aos movimentos desencadeados pela revolução de 1789 e o republicanismo burguês que, naquela época histórica, era muito progressivo); e os deputados que se sentassem à “direita” seriam conservadores, isto é, resguardariam os interesses da ordem social vigente e os privilégios de classe que ela acarreta (na época significava ser partidário da monarquia e contra a revolução).

Por extensão, os termos foram sendo aplicados seguindo a mesma lógica em outras conjunturas políticas e históricas, em diferentes países. Por isso geralmente terminam refém de uma grande subjetividade e servem mais para obscurecer do que esclarecer.

O advento do movimento socialista
Com o desenvolvimento da sociedade burguesa, logo se viu que os slogans da Revolução Francesa de “liberdade, igualdade e fraternidade” eram limitados à visão e aos interesses da grande burguesia. “Liberdade” significava “liberdade” de comércio; “igualdade” era apenas nas condições de concorrência entre os capitais (igualdade de comércio esta que foi totalmente abolida na atual época imperialista); a “fraternidade” do lema revolucionário tomou corpo nas deslealdades e na inveja da luta de concorrência, a opressão violenta cedeu lugar à corrupção, e a espada, como principal alavanca do poder social, foi substituída pelo dinheiro. Em suma, uma vez que a sociedade feudal foi derrotada pela revolução, a burguesia, de força revolucionária, tornou-se profundamente conservadora, interessada em manter o status quo e a nova estrutura social de classe criada pela revolução de 1789, da qual provinha o seu sustento e a sua “máquina de fazer dinheiro”. Aos trabalhadores, que lutaram bravamente junto à burguesia nas revoluções dos séculos 18 e 19, restou a fome, a miséria e a exploração.
           
O resultado disso foi que o movimento operário começou a se organizar nos sindicatos e a questionar este estado de coisas; o proletariado, portanto, transformou-se na força revolucionária e a burguesia tornou-se conservadora. O marxismo apontou para a organização sindical e política, em partido revolucionário. Naturalmente, o movimento socialista foi localizado no campo da “esquerda” e recebeu como herança o termo da Assembleia Nacional da Revolução Francesa. Devemos sempre partir desta dinâmica de classe para interpretar os termos “direita” e “esquerda”.
           
Com o surgimento do movimento socialista, a burguesia, sempre atenta ao seu desenvolvimento, passou a influenciá-lo de diversas formas. Usa desde a repressão policial até à influência política e ideológica. Tudo isso é feito se escondendo atrás de palavras capciosamente selecionadas, tais como “democracia”, “legítima defesa”, “neutralidade ideológica”, etc. As derrotas do movimento operário e a influência burguesa deram a base para o surgimento da aristocracia operária, que freia e sabota o movimento socialista. Atualmente ela é conhecida como “burocracia sindical”.

A aristocracia operária, mais interessada na calmaria do movimento operário e nas gordas divisas que os sindicatos rendem, foi procurando se institucionalizar. Neste processo deu origem ao que hoje o marxismo chama de “reformismo”; isto é, querem substituir a revolução por pequenas reformas e melhoramentos do capitalismo, feitos de forma pacífica e institucional, geralmente por meio das eleições burguesas. Este processo foi amplamente analisado e desmascarado por Rosa Luxemburgo no início do século 20. Sendo assim, a “esquerda” se dividiu entre reformistas e revolucionários. É através da esquerda reformista que a burguesia (a “direita”) influencia e controla os trabalhadores. A esquerda revolucionária mantém acesa a chama da mudança social e luta contra as armadilhas da esquerda reformista, que serve como carapuça perfeita para ser usada pela direita.

A “direita” e a “esquerda” nos dias de hoje
Após a restauração do capitalismo e a experiência com o stalinismo (o que a mídia burguesa chama de “socialismo”), bem como após a experiência com os partidos reformistas – dentre os quais o PT foi uma das mais catastróficas –, a grande mídia e os intelectuais burgueses (geralmente “pós-modernos”) afirmam que não existe mais “direita” e “esquerda”. Como isso pode ser possível? Não existiriam mais forças conservadoras e as que querem mudanças sociais? Seria possível transformar forças antagônicas em um lamaçal comum? Tudo isso não passa de mais um engodo ideológico. Eles querem fazer crer que não há saída e que os caminhos da “esquerda” terminam sempre no leito da “direita”, pois esta é mais racional e viável (ou seja, a mudança social seria impossível). Procuram levar os trabalhadores a ignorar que houve toda uma adaptação teórica e política do PT às bandeiras e práticas da “direita”, em razão da sua opção pelo reformismo. Em poucas palavras: o PT abdicou das bandeiras da “esquerda” revolucionária – as únicas que poderiam levar à mudanças reais e duradouras que beneficiassem os trabalhadores – e aderiu conscientemente às bandeiras da “direita”, de “governabilidade”. Portanto, aqueles que afirmam que “direita” e “esquerda” não mais existem estão cumprindo o papel de obscurecer os fatos, servindo como uma luva aos interesses da burguesia de manutenção da ordem social de exploração e miséria.
           
“Direita” e “esquerda” inevitavelmente continuarão existindo enquanto houver sociedade dividida em classes; enquanto houver exploradores interessados na manutenção do status quo social e trabalhadores conscientes, que necessitam de outro tipo de sociedade, mais livre, igualitária, e onde não haja a exploração de seres humanos por seres humanos. É possível que “direita” e “esquerda” ainda existam em uma sociedade socialista ou comunista, muito provavelmente com contornos políticos e sociais diferentes e, esperamos, mais progressivos e honestos.

É preciso critérios para diferenciar “direita” e “esquerda”
Em razão da grande subjetividade presente nas análises disseminada pelas universidades e pelos meios de comunicação, “direita” e “esquerda” podem adquirir contornos profundamente amplos e confusos. Como são termos passíveis de manipulação e de confusões subjetivas, é preciso um olhar sempre atento nos debates políticos e, sobretudo, frente ao que é divulgado na grande mídia. Por exemplo: é possível que um único partido possua uma ala “direita” e uma ala “esquerda”, como o caso do PT, onde a Articulação Sindical é a sua ala direita e o Movimento de Luta Socialista (ex-CUT pode mais) é a sua ala “esquerda”. Porém, frente aos demais partidos e movimentos sociais o PT continua sendo uma força de direita em razão do papel que vem cumprindo há mais de uma década. Da mesma forma podemos analisar PMDB e PSOL, partidos que possuem muitas tendências públicas. Dentro do próprio campo dos partidos de “direita” também é possível delimitar o espectro mais à direita e mais à esquerda: PSC, PRTB, Dem e PSDB são a “direita da direita” e PSB, PT e PCdoB são a “esquerda da direita”. Critério subjetivo e impreciso como este também poderia ser aplicado no campo da “esquerda”. Neste caso, tudo depende do ponto de vista de classe do observador e, por isso mesmo, torna-se passível de fácil manipulação política e midiática.

A mídia burguesa usa os termos “direita” e “esquerda” de forma restrita, apenas segundo o critério do sistema parlamentar burguês brasileiro. Por exemplo: PSOL é a “extrema esquerda” (uma vez que PSTU e PCO não possuem representação no Congresso Nacional) e o PP e o PSC a “extrema direita” (ainda que isto não seja lembrado). Os movimentos sociais e os inúmeros agrupamentos políticos (sejam da esquerda revolucionária ou da direita fascista) são sumariamente excluídos da análise da mídia, legalista e institucionalista por “natureza”. É por isso que a sua cobertura é tendenciosa e unilateral, servindo apenas para obscurecer a consciência dos trabalhadores de acordo com as suas conveniências.

Algumas conclusões
Se não há mais “direita” e “esquerda”, ou se ambas tornaram-se a mesma coisa, conforme sustentam alguns intelectuais burgueses, então é evidente que aos trabalhadores só resta a acomodação dentro do capitalismo, aceitando passivamente a sua exploração, desmandos e arbitrariedades contra os trabalhadores e o povo pobre. Ou seja, o caminho da “direita” seria o único viável e aceitável. Porém, como foi dito, “direita” e “esquerda” ainda existem, se encontram em campos sociais antagônicos e atuam através das forças políticas que se expressam nos partidos, organizações e centenas de movimentos, ainda que estes conceitos possam ser obscurecidos pela interpretação subjetiva a que estão sujeitos.

Numa sociedade dividida em classes, a “esquerda” será representada sempre por aqueles que trabalham no sentido de avançar rumo ao fim das classes, do Estado, das desigualdades, isto é, trabalham no sentido da construção do socialismo; e a “direita” será representada sempre por aquelas forças políticas e sociais que, de alguma forma, direta ou indiretamente, se beneficiam da sociedade tal como ela é e trabalham no sentido de manter as suas estruturas de exploração. E, dentro do campo da “esquerda”, o reformismo será sempre a porta de entrada para a influência da classe dominante, a burguesia e, por conseguinte, da “direita”. A autêntica “esquerda” é a revolucionária, que trabalha para a construção da revolução socialista e, como tal, pela mudança profunda e radical da sociedade.

É por isso que o PT, ao contrário de tudo o que é dito na grande mídia e em alguns movimentos sociais, não é mais de “esquerda”. Rasgou suas bandeiras históricas e assumiu as da “direita”, mesclando um discurso demagógico e falando de “socialismo” nos dias de festa para o consumo das suas próprias bases. Na verdade, o PT hoje aplica o mesmo programa que o PSDB (a “direita clássica”): reformas neoliberais, retirada de direitos, pagamento religioso da dívida externa/interna, nomeia banqueiros e latifundiários para os principais ministérios e ainda ocupa o Haiti vergonhosamente em nome do imperialismo.

Toda a estrutura eleitoral, com sua legislação restritiva e burocrática que reforça as alianças eleitorais que conhecemos, regada com o dinheiro das empreiteiras, bancos e grandes empresas, reduz a disputa eleitoral entre PT e PSDB, os únicos que a grande mídia apresentam como “viáveis”. Querem reproduzir a lógica eleitoral dos sistemas bipartidários inglês e americano, onde existe uma falsa polarização entre “conservadores” (direita) e “liberais” (esquerda). Se olharmos um pouco mais atentamente para tudo isso, concluiremos que se trata apenas de um grande teatro, onde a “direita” sempre ganha se passando por “esquerda”, vendendo-se como “mudança” para que nada mude. Para superar este “beco sem saída” em que nos encontramos é preciso vencer o imediatismo que impera na vanguarda dos trabalhadores, que vota desesperadamente no PT para “evitar a volta da direita”, quando na realidade a “direita” e as suas práticas nunca saíram do poder.

sexta-feira, 13 de março de 2015

O duplo

Os protestos contra o governo Dilma (PT), impulsionados pela oposição de direita (PSDB), encontram eco em parte da população, sobretudo em razão da desilusão com os governos do PT, com a sua tergiversação oportunista, com a sua degeneração eleitoral e burocrática, em suma, com a sua semelhança com o governo FHC (PSDB). O impeachment, a despeito da empolgação ingênua ou da maldade consciente, provavelmente não ocorra. E isso por vários motivos: o principal é que não há correlação de forças plenamente favorável para isso. Então, a oposição de direita, sem nenhuma moral para isso, se centra no desgaste político do governo federal e na sua base de sustentação política, visando 2018 e o tencionamento à direita das políticas federais: mais privatizações, mais entrega do patrimônio público, mais ministérios para os nomes do grande capital (segundo a Revista Veja “Levy está isolado”), privatização total da Petrobrás. De volta ao poder, a oposição de direita vai fazer tudo o que critica no atual governo e preparar outros "pacotes de maldades". É preciso romper o círculo vicioso!

A pressão não tardou a surtir efeito! Dilma rapidamente foi à TV anunciar mais concessões à iniciativa privada (novas privatizações de portos, aeroportos, ferroviais, rodovias, etc. – mas a Petrobrás ainda não!) para acalmar a sanha da velha "direita", com quem o PT tem comunhão de práticas e identidade nos métodos. Paga o preço pelo seu reformismo às custas do suor e do aumento do sofrimento dos trabalhadores (como sempre!). Estas "concessões" devem aprofundar o seu desgaste porque atacam duramente o povo pobre.

Ainda existem as relações internacionais, que são determinantes! O governo Dilma se aproxima dos dólares chineses, o que desagrada o imperialismo ianque e a velha elite brasileira, deveras entrelaçada e dependente dos dólares norte-americanos (que em razão da crise agora vem a conta gotas; para "reabrir a torneira" é preciso novos cortes e concessões – as velhas “garantias” do FMI).

No meio desse mar de interesses políticos e econômicos é preciso analisar os fatos com consciência de classe. Os trabalhadores estão esmagados pela disputa de dois setores burgueses imperialistas e nacionais. O “bolsa família” não apaga o “bolsa banqueiro” e nem a macro política econômica petista, que é idêntica à dos tucanos (aqui está o centro da questão!). Neste momento histórico o PT está pagando o preço da capitulação à estratégia reformista. Como se atolou até o último fio de cabelo no jogo democrático-burguês que decidiu jogar, dança qualquer música de desgaste político que a oposição de direita resolver tocar. Esta, por sua vez, trabalha conforme o interesse do amo imperialista do norte, que quer mais sacrifícios para sanar a sua crise econômica internacional.

Em conluio com a elite nacional, eles dizem: – Chega de brincar de “governo popular”! Basta de falsificações! Queremos sangue do nosso sangue! O “deus-capital” não pode mais esperar!

domingo, 8 de março de 2015

O que Rosa Luxemburgo tem a ensinar para os ativistas do CPERS?*

Muito se ouve falar sobre Rosa Luxemburgo dentro do nosso sindicato nos dias 8 de março, mas pouco se sabe sobre o seu real papel histórico. Rosa foi a grande dirigente da ala esquerda da revolução alemã de 1918 e do combate sem tréguas ao reformismo da social-democracia. Viveu em um período de grandes comoções revolucionárias, mantendo-se fiel aos princípios do proletariado mesmo nas piores tormentas. Foi o oposto dos burocratas de partido ou dos sindicatos, preocupados unicamente com a máquina da qual dependem. Por tudo isso, é fundamental resgatarmos o seu legado teórico, que segue mais atual do que nunca.

Em fins do século XIX, Rosa compunha o Partido Social-Democrata Alemão (SPD), que naquela época era uma potência política. Ele dirigia um movimento sindical massivo; possuía uma forte bancada parlamentar (sendo maioria em muitas províncias do interior); influenciava centenas de milhares de pessoas através dos seus jornais, revistas e dos escritos de seus teóricos. Tornou-se o partido mais influente e mais admirado da 2ª Internacional Socialista. Edward Berstein era o seu grande teórico e dirigente. Militara ombro a ombro com Engels e, de certa forma, procurava capitalizar a sua autoridade. Em seu livro
“Fundamentos do socialismo e as finalidades da social-democracia”, Berstein queria normalizar a reforma em detrimento da revolução, revisando princípios essenciais do marxismo e teorizando aquilo que já tinha se tornado a prática do SPD após a morte de Engels.

Enquanto a maior parte do SPD engoliu seco e, cabisbaixa, aceitou passiva e acriticamente o que sua direção determinava, esta deturpação do programa revolucionário foi identificada e denunciada corajosamente por Rosa Luxemburgo, afirmando que Berstein visava dissociar a luta sindical da revolução socialista. Ou seja, segundo Berstein, o SPD deveria abdicar da luta pelo poder político, lutando apenas por reformas graduais e pacíficas dentro da ordem capitalista, elegendo deputados e aproveitando-se da suposta capacidade de “autorregulação econômica” e do crédito que o capitalismo proporcionaria à toda sociedade. Assim, o socialismo seria atingido pacificamente, ficando para um futuro indeterminado.

“Toda esta teoria
– escreveu Rosa – só tende a aconselhar a renúncia à transformação social, à finalidade da social-democracia, e a fazer, ao contrário, da reforma social – simples meio na luta de classes – o seu fim. É o próprio Berstein que formula de modo mais claro e mais característico o seu ponto de vista, quando escreve: ‘O objetivo final, qualquer que seja ele, não me importa; o movimento é que é tudo’”[1]. Era por trás deste sofisma teórico que estava escondido toda a falência política da social-democracia alemã. A sua obra “Reforma ou Revolução?”, de 1900, retrata toda polêmica e é leitura indispensável para todos os novos e velhos militantes, porque esta divisão em 2 campos marcou a esquerda durante todo o século 20 e ainda hoje é um divisor de águas.

Quem afinal venceu este embate? Rosa ou Berstein? Hoje, passado mais de 100 anos desta polêmica histórica, podemos constatar que Rosa sagrou-se vencedora. Demonstrou não apenas toda a inconsistência das posições de Berstein, mas também que a manutenção do capitalismo significa sofrimentos sem fim para a classe trabalhadora. A suposta “autorregulação” do capitalismo, teorizada por Berstein, é uma piada de mau gosto frente a toda atual crise capitalista iniciada em 2008 e o seu estopim: a especulação financeira. Rosa tinha razão, mais uma vez, quando dizia que uma das principais características do capitalismo é a anarquia incontrolável da produção. A sua célebre sentença “Socialismo ou Barbárie?” define bem o que vivemos hoje. Diariamente temos acompanhado as ações sanguinárias do imperialismo nos quatro cantos do planeta: guerras, bombardeios, subemprego, desemprego, mentiras institucionalizadas através da sua mídia venal, etc. Na sua condição de último rebento da classe exploradora, a burguesia imperialista ultrapassa em brutalidade, em cinismo e infâmia todas as suas antecessoras. Esta classe defende com unhas e dentes a barbárie criada por ela própria, pois disso depende o seu lucro e o privilégio da exploração. O desemprego, o analfabetismo, a miséria, são realidades constantes dentro deste sistema, que necessita destes mecanismos para controlar e aterrorizar os trabalhadores; inclusive nos países imperialistas.

Em 1898, antes da polêmica contra Berstein, Rosa já alertava sobre os desvios nascentes da social-democracia que tentavam apresentar o reformismo como sendo a “única política possível” e “realista”. A lógica oculta por trás deste raciocínio era a do oportunismo espontaneísta (muito comum no sindicalismo brasileiro atual). Rosa assim se expressou: “A questão fundamental do movimento socialista sempre foi como colocar sua atividade prática imediata em acordo com seu objetivo final. (...) [aquele que defende a política “do possível”] está sacrificando os princípios básicos da luta de classes por vantagens momentâneas, e suas ações estão baseadas no oportunismo”[2].

A burguesia exerce uma pressão permanente para a adaptação ao capitalismo, como comprova toda a história da social-democracia alemã. Uma das formas desta pressão é o reformismo, que tenciona a vanguarda do proletariado à abdicar de seus princípios em nome de uma “política realista”, isto é, que conquiste alguns ganhos econômicos e pequenas reformas sem chocar-se com os fundamentos do capitalismo. Segundo a lógica dos oportunistas, seria através destes “ganhos” que o SPD aumentaria a influência sobre os trabalhadores e, por conseguinte, cresceria numericamente. Então, eles diziam à ala de Rosa: “Vocês irão se privar de influências práticas se sempre e como uma questão de conduta disserem ‘não’”. A isto, ela respondia: “Em nosso ‘não’, em nossa atitude intransigente, encontra-se toda nossa força. É esta atitude que nos ganha o medo e respeito do nosso inimigo e a confiança e apoio do povo. Precisamente porque nós não concedemos nenhum centímetro de nossa posição, nós forçamos o governo e os partidos burgueses a nos conceder os poucos sucessos imediatos que podem ser ganhos. Mas se nós começamos a perseguir o que é ‘possível’ de acordo com os princípios do oportunismo, sem nos preocupar com nossos próprios princípios, e por meio de trocas como fazem os estadistas, então nós iremos logo nos encontrar na mesma situação que o caçador que não só falhou em matar o veado, mas também perdeu sua arma no processo”[3]. Quanta diferença havia entre Rosa Luxemburgo e a ala reformista do SPD! Não casualmente, este pensamento oportunista que Rosa combateu é o mesmo que impera hoje na maior parte da vanguarda “socialista” brasileira e dentro do CPERS.

A degeneração do SPD completou o seu curso. Em 1914, durante a deflagração da 1ª Guerra Mundial, votou a favor dos créditos de guerra, ajudando a burguesia alemã a se armar para disputar mercados na carnificina imperialista mundial. Por tudo isso, Rosa chamou a social democracia alemã de um “cadáver insepulto”. Cada vez mais adaptado ao capitalismo, teórica e praticamente, quando a monarquia alemã caiu durante a revolução de 1918, o SPD assumiu o poder junto com a burguesia, não apenas ocupando os principais postos de governo, mas aprovando todas as suas medidas repressivas contra os trabalhadores e patrocinando a participação da Alemanha na Guerra Mundial. Toda esta situação foi assim descrita por ela: “Em nenhuma parte a organização do proletariado foi colocada tão completamente a serviço do imperialismo. Em nenhuma parte (...) a luta de classes econômica e política da classe operária [foi] tão completamente abandonada quanto na Alemanha”[4]. Fazendo um paralelo entre a revolução russa e a revolução alemã, Trotsky se pronunciou em termos semelhantes: “Sem dúvida que, no caso de a revolução ter triunfado na Alemanha (e somente a social-democracia impediu seu triunfo), o desenvolvimento econômico da URSS, como da própria Alemanha, teria prosseguido a passos de gigantes, de tal modo que os destinos da Europa e do mundo se apresentariam hoje sob um aspecto muito mais favorável”[5].

Cumprindo o seu papel histórico, Rosa rompeu corajosamente com o SPD e fundou a Liga Espartaco (antecessora do Partido Comunista Alemão). Assim como fora uma ameaça ao revisionismo de Berstein do ponto de vista teórico, durante a tempestuosa revolução alemã tornara-se uma ameaça do ponto de vista político. Em 1919, Rosa foi presa, torturada e executada com total consentimento dos dirigentes do SPD.

A burguesia, através dos seus aliados no seio do proletariado – isto é, por meio do SPD –, derrotou a Liga Espartaco e assassinou Rosa, mas o seu exemplo e a sua contribuição teórica permanecem para guiar e incentivar as gerações futuras. Rosa nunca deu prioridade para as questões feministas, ainda que falasse delas esporadicamente. No seu “Folheto Junius”, escrito no auge da Guerra Mundial e no início da revolução alemã, exige – entre inúmeras outras medidas de cunho econômico – a imediata igualdade jurídica e social entre os sexos. A sua grande preocupação sempre foi a derrubada revolucionária do capitalismo e a superação de todos os seus entraves, tais como o oportunismo da social-democracia alemã. Ela sabia que a verdadeira emancipação da mulher só poderia se dar em uma sociedade socialista, pois não existe capitalismo sem machismo, patriarcalismo, prostituição e abuso sexual legalizado.

Em relação às polêmicas com Lenin, Rosa se equivocou no que diz respeito à organização do partido revolucionário. Muitos intelectuais burgueses exageram esta diferença pontual para obscurecer os inúmeros acordos existentes entre eles. Apesar disso, este equívoco de Rosa não a impediu de ser uma grande apoiadora da Revolução Russa de 1917, propagandeando-a e defendendo-a dos ataques do imperialismo entre os trabalhadores alemães, ao contrário de todo o SPD que se colocou abertamente contrário aos bolcheviques e aos trabalhadores russos sublevados; isto é, colocou-se no campo da contra-revolução.

“Venceremos desde que nós não tenhamos desaprendido a aprender”

Rosa sempre dizia que o proletariado perecerá se não souber aprender com os erros do passado. Ela dizia que seus erros são tão gigantescos quanto suas tarefas. O penoso caminho de sua libertação não é pavimentado apenas com sofrimentos imensos, mas também de inumeráveis erros e derrotas. Sua libertação, dizia Rosa, só será atingida se soubermos aprender com estes erros, pois não existe um talismã ou uma receita pré-fabricada. Para o movimento proletário, portanto, a autocrítica sem piedade, cruel, indo ao fundo das coisas, é o ar, a luz sem a qual ele não pode viver e se desenvolver.
           
A maior parte da vanguarda brasileira atual não quer aprender. Está satisfeita com o faz de conta. Hoje o PT é a reedição do SPD e a História se repete como farsa. As mesmas polêmicas sobre “reforma versus revolução” voltam ao centro do debate. Infelizmente, o berstenianismo continua vivo, apenas com novas máscaras. Por isso a obra de Rosa adquire tanta importância e atualidade, e precisa ser resgatada pelos autênticos revolucionários dentro e fora do CPERS.

Se hoje o PT cumpre este papel nefasto de serviçal da burguesia não foi por falta de advertências e de exemplos históricos. O PT optou conscientemente pelo programa reformista muito antes da eleição de Lula e Tarso. Isso significa renegar, dentre outras coisas, a cara experiência teórica que Rosa nos deixou e assumir, disfarçadamente, com novas justificativas, a mesma estratégia de Berstein. Da mesma forma, existem novos candidatos a SPDs brasileiros, portando-se como verdadeiras rêmoras, comendo os restos do governismo petista. Trata-se de PSOL e PSTU; partidos que mantém os mesmos métodos oportunistas da social-democracia alemã, tanto dentro dos sindicatos, quanto nos processos eleitorais burgueses. O PSOL mostra-se, cada dia mais, como o “novo PT”. Seu eleitoralismo burguês é gritante: recebe financiamento da burguesia e em menos de 10 anos de existência já fez alianças que vão desde o PT até o PSDB-DEM. O PSTU é o sócio menor do PSOL. Sempre implorando para se coligar eleitoralmente com o PSOL, o PSTU fala em “revolução”, mas é só da boca para fora. Além do PSOL, faz alianças eleitorais escandalosas com o PCdoB em nome do vale-tudo eleitoral. Nos sindicatos PSOL e PSTU agem da mesma forma, aliando-se ao governismo e vivendo do aparato da burocracia sindical. Ambos disfarçam-se com discursos radicais para esconder uma prática reformista-eleitoreira. Hoje o bersteinianismo mudou de forma: está totalmente degenerado; no passado era um pouco mais honesto. Os ativistas conscientes do CPERS devem se inspirar no exemplo de Rosa e lutar implacavelmente contra o berstenianismo brasileiro, expresso no PT, PSOL, PSTU e correntes políticas satélites que, não casualmente, ocupam a direção do CPERS em uma aliança emblemática.
           
Rosa viveu durante a última ascensão histórica do capitalismo, no início do século 20. Ainda era possível conquistar reformas limitadas e pontuais, o que causava a ilusão de que o reformismo era a saída. Hoje, porém, vivemos a época da decadência histórica do capitalismo, isto é, de um reformismo sem reformas, da retirada de direitos históricos, de um sindicalismo corrompido e adaptado totalmente às estruturas oficiais do Estado burguês. Qualquer partido “operário”, sindicato ou organização política que, após toda esta experiência histórica, não apenas da social-democracia alemã, mas de muitos outros reformismos fracassados mundo afora, pretenda falar em nome do proletariado, cantando uma canção no mesmo tom que Berstein e o SPD, estará cumprindo o papel de coveiro do socialismo e da revolução, tal qual o SPD. Por isso é fundamental tomar consciência da obra teórica de Rosa para identificar e desmascarar os velhos e novos farsantes.
           
Rosa tinha razão quando dizia que era na Liga Espartaquista que batia o coração da revolução e que o futuro lhe pertencia. Fora da revolução não há perspectiva de futuro. Somos os herdeiros desta cara experiência teórica do passado e temos que estudá-la para aplicá-la corretamente no presente. O reformismo significa a manutenção do passado em estado de putrefação, como bem nos demonstra a experiência do SPD na Alemanha e a do PT no Brasil. Precisamos ainda, em pleno século XXI, derrotar o reformismo e o espontaneísmo, que persistem nos sindicatos brasileiros e nas demais organizações operárias. Para isso, o otimismo e o entusiasmo de Rosa servem como um alento: nós não estaremos perdidos e venceremos desde que não tenhamos desaprendido a aprender. E se o guia atual do proletariado não mais souber aprender, então ele deverá ser derrubado para dar lugar àqueles que estarão à altura de um mundo novo.



* Texto publicado originalmente no livro "Essas mulheres - saúde e trabalho", editado pelo 39º núcleo do CPERS, em 2014.
[1] LUXEMBURGO, Rosa. Reforma ou Revolução? Editora Expressão Popular, 2010.
[2] LUXEMBURGO, Rosa. Oportunismo e a arte do possível. Texto disponível em www.marxists.org.
[3] Idem.
[4] LUXEMBURGO, Rosa. A crise da social-democracia (Folheto Junius), escrito em maio de 1915. Disponível em www.marxists.org.
[5] TROTSKY, Leon. A Revolução Traída. Editora Sundermann, São Paulo, 2005.