sábado, 21 de março de 2015

Duelo de titãs

Minha vida anda tumultuada, incerta; não sei o que o futuro me reserva para a vida profissional. Isso é fantástico e assustador! As sensações se misturam e este é o resultado inevitável de ser e existir.
           
Cumpri o meu dever e pago por isso (quem se importa com “dever” hoje em dia?). Eis aí o início dos pensamentos conflituosos: cumprir o dever ou não cumprir! Remar contra a corrente ou boiar e ser levado por ela?
           
Por volta das 6h da tarde, quando transitava com o meu cachorrinho pelos arcos da Redenção, o medo se encontrou com a liberdade na arena do meu peito. Se entreolharam. Se estranharam! E a luta começou. A poeira do chão começou a subir e embaçou os outros sentidos, principalmente a capacidade racional. Com grande esforço consegui entender alguma coisa ou outra entre o estalar metálico dos gládios em luta. Enquanto isso, meu coração em um conflito de emoções clamava por congelar todas as sensações boas e estáveis da vida. Gostaria, particularmente, de congelar as minhas garantias profissionais e materiais do ano passado. Como seria doce viver!
           
Uma das vozes em luta bradou:
           
– Queria que a certeza do meu emprego e do meu salário se congelassem! Que eu pudesse receber tudo o que recebia “certamente” no ano passado! Pensar nessas garantias dá um acalanto para o coração!
           
A outra respondeu:

– Isso é impossível! Como pode o mundo se congelar? Ainda mais na situação de um trabalhador precarizado? É claro que é impossível! A situação piora se levarmos em consideração a crise econômica do capitalismo, que assola o Brasil e o mundo! A vida é incerteza e insegurança (se você não é um parasita explorador de trabalho alheio, como um banqueiro, um mega empresário, é claro!). O que dirá se optarmos levar uma vida de revolucionário?

A primeira pergunta de novo:

– Justamente aí é que está o pomo da discórdia! Não seria o momento de repensar tudo, procurar um emprego rentável e estável, sentar juízo para casar e ter filhos? Sem estes pré requisitos isso torna-se muito difícil; quase impossível nos dias de hoje.

– Pra começo de conversa, o que seria “sentar juízo”? Seria, por acaso, abdicar da consciência que construímos, tornarmo-nos “mais do mesmo”, levar a vida fingindo não ver que está tudo errado? Por acaso a culpa é minha por ter um emprego precarizado e viver em uma sociedade que só se preocupa em “como melhor te explorar”? Não seria o sistema econômico que ameaça permanentemente a minha “estabilidade” e as minhas condições de vida, bem como as condições de vida da massa trabalhadora como um todo?

– Mas, mas... agindo dessa forma você acelera a possibilidade de piorar a sua condição de vida e aumenta a probabilidade de perder o seu emprego!

– Sim, é verdade. Você tem razão. Isso é assim porque vivemos em uma ditadura de classe disfarçada, chamada eufemisticamente de “Estado democrático de direito”, que não garante sequer o direito ao trabalho. Aliás, vivem nos chantageando diariamente com a possibilidade de “perder o emprego”, “cortar nossos salários”; enfim, de nos tirar os meios de vida. É o meio mais eficaz de fazer “opositores” potenciais calarem a boca posando de democrático, pois a degola ocorre de forma burocrática, se escondendo atrás de leis ou do “direito de empregador” demitir “funcionário vagabundo”; ou simplesmente de “cortar gastos”, afinal de contas, o lucro da empresa dele é mais importante que a fome dos filhos do empregado (quem mandou fazer tantos filhos? Que se vire, não é mesmo? Bem nesse momento o sadismo de uma mente reacionária chega ao orgasmo!). É assim que o sistema funciona...

– Reafirmar tudo isso, como um mantra, lhe dá uma espécie de segurança?

– Sim! Não posso me dar ao luxo de esquecer isso em uma sociedade que vive em amnésia permanente. Você queria que eu jogasse a culpa em quem? Nos familiares, nos signos, nos búzios e tarô, em deus? Olhar a realidade de frente por mais amarga que seja é a única forma verdadeira de levar a vida dignamente, de não perder a essência humana. Eventualmente, em razão das chibatadas da realidade, tornamo-nos mais agressivos e ríspidos; mas assim, penso eu, conseguimos preservar a essência sensível humana até o final da vida. Quanto em casar e a ter filhos, acredito que isso deve estar baseado única e exclusivamente no amor “carnal” e “espiritual” do casal, que precisa levar a uma compreensão mútua, também de “corpo” e “alma”. Chega de casamentos por conveniência, não é mesmo? A humanidade, e as mulheres em particular, já sofreram muito com isso. Você não acha?

– Nunca pensei a respeito!

– Pois é, foi o que eu imaginei... Ademais, é impossível “congelar” as condições de vida do passado que nos são favoráveis e agradáveis. “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”.

– Frase feita para impressionar!

– Que seja! O fato continua sendo que a realidade modifica-se continuamente e que não podemos fugir disso, a menos que morramos ou nos suicidemos (e ainda assim continuaríamos a nos modificar)! Desde o útero materno somos colocados à prova. Se congelar as coisas boas fosse possível voltaríamos ao útero materno e lá nos congelaríamos eternamente, pois haveria situação mais favorável e agradável do que esta?

– Não seja estúpido! Quero poder me mover, andar, pensar, sentir! E por conta própria!

– Ok! Então você quer só garantias, sem riscos? Os únicos seres vivos que tem este privilégio são os grandes capitalistas, seus bancos, agiotas, investidores, acionistas, etc. Viver significa morrer; significa riscos, enfrentamentos! Luta! Embate! Precisamos nos desapegar das coisas supérfluas. Aprender a conviver mais com a natureza e o cosmos, com o seu movimento. Neste aspecto muitas contribuições do pensamento budista são interessantíssimas! Você conhece? Eles dizem que a fonte do nosso sofrimento está em se apegar às coisas em um mundo que muda ininterruptamente. Viva e deixe viver...

– Pare com essa lorota! Eu quero segurança, estabilidade! Quero garantir o meu futuro! – gritou ensandecidamente a primeira voz.

– Bebê, é preciso crescer! A vida dói, o novo dói! Monstros como a rotina, o hábito e o senso comum, que matam e asfixiam a iniciativa, a alegria de viver, a própria vida, se escondem atrás destes nobres “sentimentos” e “preocupações”.

– No fundo você quer convencer a si mesmo de tudo isso!

– Sim, quero nos convencer (afinal, somos um só) de que é possível viver o que se prega, que podemos praticar a teoria que defendemos e que neste mundo cão precisamos nos esforçar para dar o nosso melhor pelos outros, o que, no fundo, é para nós mesmos.

(Silêncio...)

A liberdade e o medo bufavam, estavam exaustas! A luta foi interrompida pelas exigências da vida cotidiana. Mas acredito que ela não tardará a acontecer novamente...

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