terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Basta eleger a esquerda institucional para a situação melhorar?

 

Há uma ilusão presente em diversas categorias do funcionalismo público de que basta eleger maiorias de “esquerda” para os parlamentos federal, estaduais e municipais para solucionar a situação deplorável em que nos encontramos. Lula falou recentemente sobre isso, afirmando que “não basta elegê-lo sem eleger uma maioria de ‘esquerda’ no Congresso Nacional”[1].

         O resumo dessa compreensão foi sintetizado também pela direção estadual do CPERS num dos seus últimos vídeos, lançados em razão da aprovação do “reajuste” salarial do governo Leite (PSDB e cia.) para menos da metade da categoria – como sempre, e com grande êxito, dividindo-a. Ela disse, solenemente, que: “a nossa saída é elegermos um governo de esquerda e uma maioria de esquerda na Assembleia [Legislativa do RS]. Somente isso fará com que possamos lutar para avançar”[2].

         Há quanto tempo o PT e a direção do CPERS vendem tal ideia? Qual foi o resultado dessa política sindical de “pressão sobre os deputados” e de “eleger a ‘esquerda’” (institucional – faltou acrescentar), levada a cabo por décadas dentro do nosso sindicato e nos discursos petistas, senão o aumento desenfreado de ilusões e a perda compulsória de direitos?

         Esta política fomenta o pior tipo de ilusões porque o parlamento é burguês, bem como toda a estrutura do Estado. Esperar que se possa governar para a classe trabalhadora por dentro desta estrutura apenas tendo “maiorias” é disseminar passividade, conivência e (des)ilusões para com a máquina que nos massacra e só recebe legitimidade para isso.

         Senão vejamos: se elegemos um “governo de esquerda” – tipo PT ou Psol – vamos ter algumas medidas progressivas, mantendo-se toda a podridão burguesa, dado o seu peso econômico de classe dominante. As forças políticas da burguesia tirarão, mais cedo ou mais tarde, com a mão direita tudo o que concederem à classe trabalhadora (geralmente migalhas) com a mão esquerda, tão facilmente quanto foi eleger tal tipo de governo.

         O parlamente burguês e os governos dentro do capitalismo já deram provas de que são reféns do peso econômico da burguesia, que jamais abrirá mão de influenciar o “eleitorado” por meio de fraudes abertas ou disfarçadas; sejam elas as malfadadas pesquisas eleitorais, compra de votos, de candidatos, de projetos, da opinião pública; sejam as influências legais ou ilegais sobre a justiça, as deliberações legislativas e judiciárias, pressão sobre os locais de trabalho, de moradia e de estudo, através da grande mídia, do pragmatismo cotidiano ou do próprio senso comum – sem falar na teatralidade vazia que está no cerne do funcionamento dos parlamentos, usada para acalmar os ânimos e vender “mudanças” que, a bem da verdade, só garantem a permanência do que está aí. Ao invés de tentarmos um novo tipo de programa e de trabalho de base, apenas brigamos com os colegas e conhecidos “que votam errado” e são influenciados pela máquina de marketing eleitoral dos partidos de direita, das igrejas, da grande mídia, da “justiça” eleitoral, dos parlamentos, etc. Como poderia ser diferente, sendo que a própria esquerda institucional entra nessa ciranda e a aprova integralmente?

         Mesmo que nos nossos sonhos mais belos e coloridos um parlamento fosse composto por uma maioria de candidatos de “esquerda”, o peso econômico da burguesia continuaria a influenciá-lo e a dominá-lo, de um jeito ou de outro. Pra piorar, em nenhuma encruzilhada desse tipo ela abriu mão de dar golpes parlamentares, jurídicos e/ou militares para assegurar a manutenção do seu poder. Como o parlamento é burguês, ele foi feito para dar maiorias seguras à burguesia e não à “esquerda”, que só pode ser um enfeite “democrático”, um arremedo de representatividade – ou foi mera casualidade que ao longo dos governos Lula e Dilma a bancada evangélica, do empresariado e do agronegócio não tenha diminuído?

         A direção do CPERS e o PT, como representantes do reformismo em geral, “esquecem” disso tudo e adoçam a classe trabalhadora, vendendo-lhe as ilusões mais doces e infantis, fazendo terra arrasada da história do movimento operário nacional e internacional. Enquanto estas ilusões forem preponderantes no funcionalismo público e na classe trabalhadora, veremos governo após governo, legislatura após legislatura, retirar um a um dos direitos que restam, impor novos decretos e “leis” que apenas interessam ao empresariado, direta ou indiretamente.

         Não há meio termo possível, por mais que se queira acreditar nesse meio termo. A história do país e do Estado comprova. Sem levar adiante uma ação que questione toda a estrutura política, econômica e social – o que inclui o próprio parlamento – não haverá mudança pra melhor. Nossa luta e qualquer candidato de “esquerda” eleito deveriam apostar neste caminho inexplorado e não no que adoça a classe trabalhadora, fazendo-a esperar passivamente uma mudança eleitoral – que apenas pode ser superficial e passageira, enquanto garante as condições para que nada de essencial mude na máquina política dos ricaços.

Num momento de crise de direção profunda, de desorganização da classe trabalhadora e de ascensão do neofascismo até se pode condescender que se vote em partidos reformistas e sociais-democratas, como é o caso do PT e do PSol – dentre outros. Mas jamais se deve compactuar com a venda de ilusões, tal como sempre acontece nesses casos, que afirma ser esse o único caminho possível. Este círculo vicioso só pode nos manter chafurdando na lama eterna, enquanto, obviamente, a burguesia nos olha, sorri e agradece. É a eterna loucura de esperar resultados diferentes fazendo tudo exatamente igual.

         Algumas pessoas não percebem (ou não querem perceber) a relação que existe entre as armadilhas do circo eleitoral, a estrutura política e econômica ao qual o parlamento e os governos estão submetidos[3], e a retirada de direitos, as nossas misérias e derrotas recorrentes. Parte considerável dessas desgraças se deve, sem a menor sombra de dúvidas, a estas ilusões pragmáticas que parecem ser o orgulho e a certeza não apenas da direção do CPERS, mas de grande parte da sua base de sustentação[4].

Quando passamos a ignorar a experiência, tornamo-nos refém da ingenuidade; e se ela cruza certos limites, passa a ser parte do problema. A nossa saída, portanto, não pode ser ter simples “maiorias nos parlamentos burgueses” (ainda que possamos eleger parlamentares comprometidos com a sua denúncia e destruição por dentro – o que não tem sido o caso); mas, sim, lutar contra toda estrutura de poder da burguesia, o que inclui o próprio parlamento, visando criar novas instituições de poder que representem efetivamente a classe trabalhadora.

 

Referências

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