quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A queda do muro de Hamburgo

I
            O mundo acompanhou os protestos da juventude e dos trabalhadores de Hamburgo contra a realização da reunião do G-20 (o grupo de governos das 20 principais economias do mundo). Mais de 100 mil pessoas participaram dos atos em repúdio à reunião, com palavras de ordem claramente anticapitalistas. A grande mídia, como era de se esperar, tratou a cobertura dos protestos com frieza, sendo praticamente forçada a fazê-lo. As suas palavras chaves foram “tumulto” e “confronto”. Embora tenha sido obrigada a reconhecer que o caráter da manifestação fosse anticapitalista, não noticiou que muitas delas falaram em “socialismo” e “comunismo”.
            Em quase todas as suas antigas reportagens ou artigos sobre o “socialismo real” no leste europeu e na antiga URSS apenas se destacava o que ela classifica como os “horrores do comunismo”: falta de liberdade de expressão, espiões, torturas, etc. Seguidamente mostrava imagens ou descrevia habitantes da Alemanha Oriental querendo pular o muro de Berlim para fugir do suposto “comunismo”. Nada de bom surgido daquele “regime” poderia ser passado para a opinião pública ocidental. Porém, houveram fatos notáveis e importantes na maioria dos países ditos “comunistas”, em especial, na Alemanha Oriental. Segundo Luiz Alberto Moniz Bandeira: “A República Democrática Alemã fora o estado do Leste Europeu onde a população alcançara o mais alto e melhor padrão de vida [dos países “comunistas”]. Embora possuísse terras menos cultiváveis do que a URSS, a RDA lograra resolver o problema da alimentação, tanto que inclusive exportava carne e manteiga e seu programa de construção de moradias se constituíra um êxito”[i].
            Como se pode ver, a Alemanha Oriental (RDA) conseguiu resolver problemas sociais básicos que o Brasil capitalista, em pleno século 21, ainda não conseguiu, tais como: fome, miséria, analfabetismo e moradia. Isto, contudo, não foi capaz de impedir os grandes meios de comunicação e o senso comum conservador de classe média de salientar repetida e exclusivamente o fato de muitas “pessoas comuns” pularem o muro para “fugir do comunismo”. Querem vender o inferno da barbárie capitalista como mais aceitável do que os graves problemas de burocratismo e autoritarismo dos primeiros “Estados Operários” da história, como se estes não fossem superáveis. A ideia de socialismo precisa ser condenada radicalmente!
O descontentamento popular em relação ao autoritarismo vigente na Alemanha Oriental – o que a grande mídia chama de “socialismo real” ou “regimes comunistas”, mas que na verdade deveríamos chamar de regime stalinista – e a ausência de uma política classista a seguir, somado à crise econômica da URSS e do leste europeu, levaram à queda do muro de Berlim, à restauração do capitalismo e à subsequente propaganda ideológica contra o “comunismo”, que dura até hoje. 

Manifestação em Hamburgo, 2017

II
Longe de querer esconder os graves problemas sociais do regime stalinista, tal como os ideólogos burgueses e a sua imprensa fazem com o capitalismo, o autêntico pensamento marxista desnuda a essência da conjuntura da época: no final da Segunda Guerra Mundial a Alemanha e toda a Europa estavam arruinadas. A partir da Conferência de Yalta Potsdam, realizada em 1945, os vencedores da guerra encontraram-se para decidir como administrar a Alemanha. Nenhum dos abutres estava disposto a ceder seu território aos adversários. O resultado foi a sua divisão em zonas de influência, com a construção posterior de um muro na capital, a partir de 1961. Stalin, interessado apenas na Alemanha como zona de influência e área fronteiriça de defesa militar, pensando exclusivamente na estabilidade interna do seu regime na URSS, aceitou a divisão do país. Desta forma, a doutrina oficial do stalinismo, que defendia a absurda “viabilidade” da construção do “socialismo em um só país”, agora incorporava empiricamente uma nova aberração teórica: a possibilidade de “construir o socialismo em meio país”. Todos os dogmas oficiais e práticas autoritárias da URSS foram transferidos mecânica e acriticamente para a Alemanha Oriental, que passou a perseguir opositores, a condenar o “trotskismo”, a elevar ao posto de dirigentes os fantoches acéfalos do stalinismo alemão ou qualquer arrivista útil. Também esconderam e abafaram problemas de ordem econômica, social e política para sustentar a falsa imagem de um regime inabalável.

O muro de Berlim
            Em compensação, a Alemanha Ocidental foi beneficiária da política econômica dos EUA, conhecida como Plano Marshall, que significou o investimento maciço de capitais norte-americanos para a reconstrução dos países europeus no pós-guerra, à exceção dos países ditos “comunistas”, do leste europeu à URSS, dentre os quais, estava a Alemanha Oriental. Os EUA foram o país vencedor da Segunda Guerra, que praticamente ficou intacto durante todo o conflito, e agora estava pronto para reconstruir o mundo à sua imagem e semelhança. Durante esse período, algo em torno de US$ 13 bilhões foram “investidos” em assistência técnica e econômica (equivalente a cerca de US$ 143 bilhões em 2017) na Europa Ocidental, com baixos juros, para ajudar na recuperação dos países europeus; enquanto que o leste europeu, a URSS e a Alemanha Oriental (a despeito de toda a política catastrófica da camarilha stalinista no poder) tiveram que tirar leite de pedra para reconstruir suas economias, sofrendo, ainda por cima, o boicote internacional no mercado mundial.

III
            A queda do muro de Berlim, em 1989, foi celebrada pelos países imperialistas e passada para o inconsciente do senso comum como o “fim do socialismo”. As universidades publicaram inúmeros livros a respeito, formaram intelectuais e teorias com esta tese central, enquanto que a grande mídia divulgou este pensamento à exaustão de diferentes formas; sempre misturando propositalmente “socialismo” ou “regime comunista” com stalinismo. Uma parte da “esquerda” (como o PT; embora não seja o único) incorporou a ideologia do “fim do socialismo” e a levou ao movimento dos trabalhadores. Anos de terrorismo psicológico associou o imaginário do senso comum sobre “comunismo” ao que é, na verdade, um regime stalinista. Dentro desta lógica, qualquer outra tentativa de se construir o comunismo teria mecanicamente o mesmo resultado.
As zonas de influência na Alemanha pós Segunda Guerra
            Contudo, passados quase 30 anos da queda do muro de Berlim, vemos as ruas de Hamburgo protestar contra o capitalismo. Estes protestos partiram justamente de uma cidade que fez parte da Alemanha Ocidental (capitalista). Naturalmente, não poderíamos esperar da grande mídia uma cobertura que demonstrasse os trabalhadores e a juventude da Alemanha atual querendo pular o muro de volta ao “comunismo”.
Certamente os trabalhadores conscientes alemães não defendem um regime político tal como foi o stalinismo. O papel da grande mídia neste processo é, portanto, obscurecer as bandeiras da mobilização dos trabalhadores e da juventude de Hamburgo para não arranhar o discurso oficial de que o “socialismo morreu para sempre”. A juventude que organizou os atos falou claramente contra o capitalismo, repudiando a reunião do G-20 e, principalmente, Donald Trump (que é a encarnação da barbárie capitalista). Embora ainda seja um movimento regionalizado, na atual conjuntura reacionária em que vivemos, isto não é pouca coisa. Soma-se a isso o fato de a Alemanha estatizar universidades, enquanto que nos EUA temos a crise dos financiamentos universitários e no Brasil a ameaça de privatização das universidades públicas.

IV
Os trabalhadores com consciência de classe sabem que não podemos deixar a roda da história voltar para trás. Não queremos  o regime stalinista restaurado; mas tampouco queremos a manutenção do capitalismo, que a despeito de avanços tecnológicos concentrados e monopolizados, caminha no mundo todo para a barbárie.
            Estes defensores da “civilização da barbárie” (dentre os quais o que mais se destaca é Donald Trump) ressaltam através da grande mídia os muros construídos pelo suposto “comunismo”, as “fugas de Cuba”, a “ditadura da Coréia do Norte” (como se aquilo fosse “comunismo”), mas relativizam ou escondem os muros construídos pelo capitalismo contra o povo: muro de Israel contra a Palestina, dos EUA contra o México, da Europa contra os imigrantes do Oriente Médio; em suma: das ilhas de riqueza contra os oceanos de pobreza. O capitalismo concentra riqueza e cria um “mundo de oportunidades” nos grandes centros urbanos dos principais países imperialistas, mas impede através da imigração, dos passaportes, da xenofobia fascista, das guerras, da miséria, a migração e a interação dos povos. Faz tudo isso hoje criticando o suposto “comunismo” e disfarçando-se de “democracia”. Recria a “cidade proibida” da China imperial: somente os aristocratas podem habitá-la; para os miseráveis ela é inatingível.
Por mais importante e aparentemente inabalável que seja, o capitalismo é um sistema econômico transitório na história, tal como foram os outros. O futuro pertence ao socialismo e ao comunismo, mesmo que estes também sejam regimes sociais transitórios. Precisamos tirar as lições das primeiras experiências “comunistas”, compreender e superar seus erros e, sobretudo, livrar a consciência dos trabalhadores desta erva daninha disseminada pela grande mídia e pela intelectualidade burguesa que quer fazer terra arrasada da sociedade e sustentar a aceitação da barbárie capitalista na consciência dos trabalhadores.
Os ventos soprados em Hamburgo ainda são tímidos, mas nos mostram um caminho. Os trabalhadores e a juventude da Alemanha estão acertando contas com o passado... e com o presente!

Manifestação em Hamburgo, 2017




[i] BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. De Martí a Fidel, a Revolução Cubana e a América Latina. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1998.

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