sexta-feira, 16 de junho de 2017

O homem que esquecia

Charles Bittencourt era um bom homem: temente a deus, fraterno com as pessoas, educado. Se vestia à moda antiga: usava blazer, camisa social com suspensórios e chapéu dos anos 1950. Não se metia em política, mas julgava-se politizado o suficiente para emitir algumas opiniões. Era funcionário público de carreira. Não que ele fosse dos melhores, mas também não era relapso, como virou costume ouvir acusações a respeito, sobretudo vindo dos meios de comunicação. Por consequência, como as atribuições do seu cargo exigiam, ele não tinha vícios e buscava ser um “bom cristão”. Possuía uma bela família, que trabalhava duro para sustentar. Era bastante amável com ela, dedicando-lhe bastante tempo. É claro: ninguém é de ferro! Às vezes brigava com a mulher ou algum dos filhos, mas nada que fugisse ao bom senso. Ia de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Durante este percurso, o universo buscava contato.
         
Certo dia, em uma manhã chuvosa e cinzenta, Charles vestiu seu blazer marrom e saiu caminhando pela rua em direção ao trabalho (sim, ele trabalhava perto de casa e nem ônibus precisava pegar, embora tivesse um belo carro popular na garagem, usado apenas em ocasiões especiais). Quando se aproximava da esquina, viu uma cena absurda, horrenda, inaceitável. Uma mãe, vestida só com trapos e possuindo apenas sacos com escassos pertences, segurava um bebê que chorava de fome. Seus olhares se entrecruzaram. Charles não pôde evitar. Foi tão sentido e tão desesperado, que lhe ficou gravado na mente até chegar ao trabalho. Nenhum preconceito plantado na sua mente por anos de debates familiares, nenhuma criminalização midiática, nenhuma ideologia foi capaz de esconder aquele fato tão cruel e desumano ali, bem debaixo do seu nariz, quase na porta de sua casa. A mãe murmurou palavras monossilábicas pedindo ajuda, como se fossem grunhidos. Charles constrangeu-se profundamente. Arregalou os olhos, alisou o seu blazer e lançou um qualquer “não tenho nada” para poder seguir apressando o passo.
         
Chegou no trabalho pálido. Algo de estranho tinha acontecido. Suando e aflito, tomou um copo d’água de um gole só. Os colegas, preocupados, foram lhe perguntar: “o que foi, colega?”. Charles respondeu: “nada, nada!”. E sentou-se para trabalhar. A maré da rotina avançou sobre sua consciência. Começou a trabalhar e imediatamente esqueceu-se de tudo. Um pouco depois já estava conversando com os colegas animadamente e falando sobre a partida de futebol do seu time.
         
Durante toda aquela semana, Charles saía de casa e se deparava com aquela mãe e o seu bebê subnutrido. Novamente uma onda de agitações lhe atormentava, mas chegava no trabalho e era logo afogado pelo mar da rotina. Se esquecia de tudo outra vez. E lá estava o seu colega, do setor ao lado, conversando animadamente com ele sobre e vitória da seleção brasileira da semana passada. E novamente, tendo muito que trabalhar, Charles esquecia-se de tudo.
         
Quinze dias mais tarde, Charles não viu mais a mãe e o seu bebê subnutrido, mas encontrou dezenas de moradores de rua dormindo empoleirados uns sobre os outros, embaixo de uma marquise de loja, próximo à entrada do edifício do seu trabalho. Ele pensou consigo: “que vida, meu deus do céu! Como isso é possível em pleno século 21?”, mas chegando à sua repartição pública, tendo muito que trabalhar, logo esqueceu de tudo.
         
Num primeiro momento, Charles não percebeu que estes episódios foram lhe corroendo a própria dignidade humana, mesmo que ele próprio tivesse condições dignas de vida. Olhava para os filhos e para a esposa e suspirava aliviado, mas ao adormecer, tinha sonhos horripilantes, onde via esqueletos humanos, crianças subnutridas e a morte, a espreitar todos eles. Acordava assustado, mas não associava estes sonhos à nada, a não ser à forças do além. Levantava-se, chegava no trabalho e, tendo muito que trabalhar, logo se esquecia de tudo.
         
Que força inconveniente era esta que abria um clarão de luz na sua mente para uma parcela da realidade que parecia não existir, mas que logo depois lhe fazia sutilmente esquecer de tudo? Certo dia ficou sabendo que a filha de um colega de trabalho foi estuprada em um assalto. Charles horrorizou-se, empalideceu! Que sociedade era aquela? Mas tinha muito que trabalhar, logo esquecia de tudo. Dias mais tarde, soube que uma colega de trabalho apanhava regularmente do marido, o que explicava muitos hematomas que ela exibia e justificava como sendo quedas e acidentes de trabalho doméstico. Charles pensou na mulher: “deus me livre”. Uma sensação boa de saber que estava em paz com a esposa lhe acalantou o coração, mas como tinha muito trabalho a fazer, logo esqueceu-se da colega, que trabalhava no setor ao lado.
         
O mundo era maior do que o trajeto da casa até o trabalho de Charles. Muitos episódios perturbadores como aqueles foram se sucedendo em sua vida. Charles viu imagens na internet de um matadouro e tomou consciência de como a indústria da carne tratava um novilho recém nascido. Horrorizou-se. Chegou a pensar em tornar-se vegetariano. Tentou até pautar isso em conversas com colegas de trabalho, que o ouviram por alguns segundos, mas logo voltaram a falar sobre a espetacular partida da noite anterior. Como tinham muito trabalho a fazer naquele dia, Charles logo esqueceu de tudo.
         
Numa outra ocasião, Charles pôde ver imagens da guerra na Síria: crianças, mulheres e senhores de idade sendo bombardeado com armas químicas e mísseis de última geração, por “oposição” e situação. Chegou aos seus ouvidos a informação do grande número de refugiados que tentava chegar na Europa através de botes insalubres. Viu a imagem de uma criança morta, atirada ao relento na beira de uma praia qualquer. Como isso era absurdo! “Em que mundo vivemos?”, ele disse aos colegas ainda sob o impacto de todas aquelas cenas horríveis. Apesar de todas estas “coisas do mundo”, havia muito trabalho a fazer, e logo ele esquecia de tudo novamente.
         
Aqueles episódios todos, apesar de sempre esquecidos por Charles, acabaram se somando e despertando uma preocupação. “Devo estar doente”, ele concluiu. Foi ao médico: “doutor, eu vejo cenas horríveis todos os dias, nosso mundo está doente, mas logo a seguir eu e os meus colegas esquecemos de tudo. Eu acho que estou com alguma doença. Não é possível examinar meu cérebro?”. O médico franziu a testa. Pegou o estetoscópio e levou às costas de Charles; pediu que falasse “trinta e três”. Olhou seus olhos com uma lanterna. Pediu que colocasse a língua pra fora. Por fim, solicitou exames em três laboratórios diferentes. Ao chegar em um deles, que ficava no hospital central, Charles se deparou com uma fila enorme, cheia de idosos, crianças e mães com rostos de uma pintura de Tarsila do Amaral. Um senhor de idade desmaiou de tanto passar mal. Ficou ali, agonizando. Charles, que possuía plano de saúde privado, logo foi atendido e liberado. Porém, a cena do velho agonizando lhe marcou a mente como ferro e fogo. Sonhou com aquilo de noite. No outro dia, o trabalho acumulado lhe levou a esquecer tudo novamente. Apesar deste esforço para curar-se, o médico disse que Charles não tinha nenhum problema: “sua saúde é de ferro”. “Não é possível”, ele tentou argumentar com o médico, “você deve conhecer algum neurologista”. O médico indicou um conhecido seu. Novos exames foram feitos e nada de novo apareceu.
         
A pior notícia que acometeu Charles foi a de um operário que se suicidou de cima de uma caixa d’água quando viu que não teria condições de sustentar a própria família. “Por que isso, meu deus do céu, por quê?”, ele perguntava para si próprio em um surto humanizador. Procurou comentar com os colegas de trabalho sobre todos estes problemas. Eles apenas respondiam: “Ah Charles, sempre foi assim e sempre será!”, e tornavam a falar de futebol. Em casa, tentou desabafar com a esposa, mas ela estava muito preocupada com o almoço do dia seguinte e com a lista do supermercado. O filho mais velho jogava videogame no quarto e não deu a mínima para o pai quando ele se sentou na cama para tentar conversar. A filha, pendurada no celular, falando com amigos, também não deu muita atenção ao pai, plantado na sua frente, esperando uma resposta. Ficou aflito. Sentou-se na sua poltrona, bem no meio da sala, e logo após a novela de sua mulher ia começar a partida do seu time; ao primeiro ponta-pé Charles já havia esquecido de tudo.
         
Naquela noite, porém, Charles não conseguiu dormir. Foi como se uma força estranha lhe tivesse tomado conta. Apagou, exausto, às 2h; e acordou às 5h da manhã totalmente transtornado. Vestiu seu blazer marrom, colocou os suspensórios e o chapéu, tomou café, escovou os dentes e saiu de casa, perplexo, às 6h da manhã (uma hora mais cedo do que estava acostumado). Chegou no trabalho, subiu até o último andar e abriu a janela. Sentiu a brisa fresca das primeiras horas do dia. Respirou fundo. Pisou no parapeito, se agarrou na maçaneta da janela e como que fora de si lançou-se ao ar. Às 6h13min estava espatifado no pátio do seu trabalho. A partir das 7h da manhã um grupo de colegas olhava, horrorizado o que havia acontecido com o infeliz colega. 7h25min chegaram os primeiros repórteres e cinegrafistas para noticiar o fato.

Na edição daquele dia o suicídio foi noticiado. O povo estarrecido e horrorizado leu aquela notícia, comentaram à boca pequena, passaram-na adiante, mas, como tinham muito que trabalhar, logo iniciaram suas atividades e esqueceram-se do ocorrido.

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