segunda-feira, 30 de dezembro de 2024
Prefeito de Porto Alegre segue sendo financiado pelo setor imobiliário
sábado, 21 de dezembro de 2024
Novo-velho front para destruir a hegemonia crescente de Rússia e China no mundo: a retomada da guerra na Síria!
Os senhores da guerra mundial, entrincheirados no deep state dos
EUA, não param!
Frente ao esgotamento
da guerra da Ucrânia, onde atingiram suas finalidades específicas de sabotar a
influência russa sobre o mercado de energia da Europa, impondo inúmeras sanções
arbitrárias, desorganizando a economia e aumentando a influência norte-americana
no continente, o deep state estadunidense volta-se contra a Síria,
reacendendo a guerra civil contra o governo Bashar Al Assad, um aliado
fundamental da Rússia no Oriente Médio, que estava morna desde 2013-2014.
A Síria é uma região
estratégica para a Rússia, pois faz conexão entre o oeste da Ásia e a África,
onde a sua influência é cada vez maior. Portanto, o país asiático é uma porta
de entrada russa não apenas na África, mas, também, no leste do Mediterrâneo. O
governo Putin mantinha duas bases militares na Síria, que agora seguem em uma
situação de incerteza.
Com o financiamento e
as armas do imperialismo ianque os grupos “rebeldes” atiram no governo sírio,
mas atingem a influência regional do Irã, da Rússia e da China. As mobilizações
populares de 2011, reflexos da chamada Primavera Árabe, foram canalizadas para
o armamento e a formação destes grupos rebeldes que desencadearam uma guerra
civil contra o governo de Assad entre 2013-2014.
Frente à vitória
eleitoral de Trump, o deep state norte-americano muda a sua estratégia
geopolítica, visando, como sempre, manter a hegemonia global estadunidense,
visivelmente em crise. É por isso que a comemoração da “revolução síria” por
parte de organizações de “esquerda”, ativistas e pessoas “progressistas” não
encontra respaldo na realidade. Trata-se, em síntese, da abertura de um
“novo-velho” front para lutar contra a influência crescente do bloco
liderado por Rússia e China.
A esquerda ufanista
finge não ver os grupos de rebeldes armados e treinados pelos militares
ucranianos em troca de apoio na guerra contra a Rússia. É evidente que a queda
do regime de Assad é um alívio para largas parcelas da população síria, mas o
que vem no seu lugar é um esquartejamento da Síria que colocará no poder grupos
islâmicos e pró-Ocidente que não serão melhores do que o governo anterior,
deixando o país numa situação difícil.
Ou seja, foi uma ação
geopolítica movida pelo deep state ianque neste momento cinzento de
transição entre o governo Biden e o “novo” governo Trump, buscando se
relocalizar no tabuleiro mundial visando, em essência, desestabilizar os BRICS
e seus aliados regionais, como o Irã e o governo deposto da Síria, bem como dar
suporte ao seu principal aliado local — cada vez mais desgastado e odiado —, o
Estado de Israel.
Donald Trump já
anunciou publicamente que não vai intervir na Síria, mas isso é um movimento
distracionista. Independentemente do partido que esteja à frente da Casa
Branca, quem efetivamente governa é o deep state, que reúne a elite
financeira e dona do complexo industrial-militar norte-americano. É o deep
state que dá a linha política de forma “anônima” e, muitas vezes,
imperceptível. Ele tem mudado a estratégia militar dos EUA deste início de
século, seja financiando e armando grupos “rebeldes” ou apenas dando apoio
logístico e midiático.
A “novidade” com a
atual guerra da Síria é a postura de Trump de dizer que não intervirá no
conflito. O objetivo é disfarçar a atuação indireta e “discreta” do deep
state na região, que ainda conta com a cobertura de toda a grande mídia
Ocidental e do seu “jornalismo imparcial”.
O apoio de Turquia e Israel
A derrocada do regime
de Assad não seria possível sem o amparo dado pela Turquia ao norte e por
Israel ao sul.
A Turquia foi peça
chave no desencadeamento do atual movimento militar contra a Síria, junto com a
OTAN. Isso ocorre, não casualmente, em um momento em que a Turquia flertava com
os BRICS, participando ativamente da cúpula de Kazan. Os apontamentos não são
claros, mas não se pode descartar uma pressão política, diplomática e econômica
do deep state sobre o governo turco.
Já Israel, que vive
uma situação cada vez mais complicada não só na região, mas com a própria
opinião pública ocidental, interviu em causa própria, ajudando a desestabilizar
o país vizinho, neutralizar fronteiras, dificultar alianças e proteger sua
estratégia militar na região, que é continuar o genocídio contra os palestinos
e anular o Irã.
O Estado de Israel é
o principal cliente e parceiro do complexo industrial-militar ianque,
possuindo, também, a sua própria máquina mortífera.
Num esforço sem igual
entre Israel e OTAN para desmilitarizar completamente a Síria, o governo
genocida de Netanyahu lançou mais de 350 ataques contra a infraestrutura
militar do antigo Exército Árabe Sírio, destruindo fábricas de armamentos,
munição, bases e, em Damasco, posições tanto de defesa síria, quanto das bases
navais russas. Este é o real apoio político e militar dos “rebeldes” sírios,
que não estão em contradição com o Estado de Israel e a OTAN.
É possível a Terceira Guerra Mundial?
Muitos analistas e
mídias professam a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial, sobretudo se
baseando na situação atual da Síria.
Nos últimos séculos,
sempre que um imperialismo entra em decadência e outro se alça para tomar o seu
lugar, vemos uma disputa que termina numa grande guerra ou, então, numa guerra
mundial.
Os porta-vozes da
China já tentaram dissuadir esta ideia, afirmando que o gigante asiático irá se
tornar a maior potência global sem causar maiores danos ao mundo. É difícil
saber se isto é possível.
Já os arautos do
imperialismo Ocidental tentam alarmar o mundo com a possibilidade de uma guerra
de proporções mundiais, o que também não pode ser descartado. Porém, os donos
do mundo não são ingênuos. Eles sabem que uma guerra mundial pode significar
crises e revoluções populares.
Pela atual situação
mundial, aparentemente o deep state aponta para as tradicionais “guerra
por procuração”, financiando e armando grupos “rebeldes”, patrocinando guerras
civis e “revoluções coloridas” em países que lhes são relevantes
geopoliticamente, ao invés de um conflito generalizado entre potências. É uma
estratégia momentaneamente mais barata, onde a possibilidade de mantê-la dentro
de certos limites é mais segura.
No entanto, o deep
state possui entre seus membros psicopatas que colocam o seu poder acima de
qualquer humanismo ou estabilidade. Eles esconderão suas intenções por trás de
inúmeras provocações que aparecerão para a grande maioria das pessoas do mundo
como conflitos e “revoluções” nacionais, ao mesmo tempo que financiam e mantêm
o caos em regiões que a sua agenda geopolítica ordenar. Para efetivar tais
planos, contarão com o amparo do “jornalismo” ocidental, que tem sido uma de suas
principais armas de guerra.
Porém, uma vez que
sinta que irá perder tudo, não podemos descartar uma degradação da situação em
que estes psicopatas não se contentem com guerras regionais e provoquem o
desencadear de uma nova catástrofe mundial.
O “novo-velho” front
da Síria é o termômetro do momento…
quarta-feira, 11 de dezembro de 2024
Jessé Souza, o pobre de direita e a classe média de esquerda
O mais recente livro de Jessé Souza, “O pobre de direita: a vingança dos
bastardos”, provocou uma série de manifestações e de debates por entre a
esquerda e os meios intelectuais.
Concordemos ou não
com sua tese, devemos reconhecer que instigar o debate e a reflexão pública no
Brasil é um mérito.
Contudo, nem todo
mundo percebe assim. O PSTU, por exemplo, escreveu um longo artigo de polêmica
com o livro de Jessé, intitulado “quem mais alimenta a ultradireita: branco
pobre ou a esquerda capitalista?”, querendo refutar totalmente a sua tese,
embora esta crítica, escrita por Hertz Dias, também tenha seus méritos.
Outros artigos e
críticas apareceram para polemizar com o livro de Jessé ou com o termo “pobre
de direita”. No entanto, a grande questão é que o termo parece ofender
susceptibilidades; sobretudo, parte da militância de orientação marxista.
A abundância de análises e críticas, por mais opostas que pareçam, às
vezes cantam a mesma canção, só que em tons diferentes. Por isso, é preciso
atentar para a essência da questão.
“Ser ofendido não tem importância nenhuma, a não ser que continuemos a
nos lembrar disso” (Confúcio)
Comecemos pelo seguinte dilema: o problema é se o termo é ofensivo ou se
a categoria sociológica existe na realidade?
Trocando em miúdos: o “pobre de direita” existe na realidade brasileira
ou é uma invenção de sociólogos e militantes frustrados?
Tanto faz se o classificamos como “pobre de direita”, alienado, trabalhador
sem consciência de classe ou com consciência burguesa. A forma como o chamamos
não é o centro da questão. Certamente faltaria polidez da nossa parte ou,
talvez, paciência — para se dizer o mínimo —, se saíssemos xingando as pessoas
da classe trabalhadora como “pobre de direita”. Contudo, o problema segue
existindo e ainda precisa ser encarado, por mais doloroso e desesperador que
nos seja.
Uma grande parcela da militância atual — sobretudo a de orientação
petista — realmente tende a xingar e a humilhar os pobres que apoiam a direita
neofascista e não votam no PT. Este problema de impaciência e desequilíbrio não
deve impedir de encarar a questão: o pobre de direita (ou trabalhador sem
consciência de classe) existe ou não existe?
E mais: o seu apoio tem sido decisivo para o neofascismo ou não? Se a resposta for afirmativa, devemos perguntar: por quê?
Sim, o pobre de direita existe e sustenta o neofascismo!
Não deveria haver
dúvidas de que o problema existe e precisa ser encarado. Se o problema é o
receio de ofender um trabalhador na lida do dia a dia, isto é, no campo da
agitação e da propaganda, até podemos considerar uma preocupação justa. O que
não é justo é não reconhecer o problema sociológico real atrás do problema do
rótulo.
Que se busque os
melhores termos para um trabalho de base cotidiano, mas que não se deixe de ver
a realidade que nos salta aos olhos! Se a negamos por medo de ofender, então
não temos sequer como começar a enfrentar o problema.
Como se tratam as
concessões e contradições diárias explícitas e implícitas na situação de cada
um? Simplesmente se ignora?
Quem alimenta a direita neofascista: o branco pobre ou a esquerda
capitalista? Os dois!
No embate do PSTU com
Jessé Souza podemos ficar refém de uma velha forma de fazer polêmica na
esquerda: a dicotomização cega.
Os pontos trazidos
pelo PSTU são necessários: para Jessé a questão se resume ao não-voto nos
governos do PT e à narrativa da direita, que não tem contraponto e sai
vencedora. É uma simplificação do problema que vai no sentido da concepção da
“solução” proposta por Jessé, que é apoiar o petismo como única solução.
Para ele, os governos
petistas estavam tomando medidas importantes para fortalecer a soberania do
país, reduzindo a pobreza, enfrentando os bancos, etc., quando sabemos que isso
não é verdade. Todas essas medidas foram extremamente pontuais e limitadas
pelos arcos de alianças e o programa do petismo. Jessé não vê nisso problema
algum, embora esteja aí uma das principais causas que alimentam e dão armas à
direita neofascista.
O voto é um
termômetro importante, mas nem de longe toca nas questões essenciais do
problema sociológico da existência do pobre de direita, que deitam suas raízes
nos problemas da psicologia de massas. A experiência com os governos do PT vai
muito além do problema de narrativa. O petismo governou o país por mais de uma
década e também se tornou parte do sistema. A direita neofascista tirou todo o
partido disso e, como sempre, distorceu tudo a seu favor. Ela tem sempre
vantagem, já que na sua narrativa e agitação não é necessário ser coerente.
Estes fatos
importantíssimos da realidade recente do país são ignorados por Jessé e
lembrados corretamente pela crítica do PSTU.
Porém, o que Jessé e
PSTU não enxergam é que o pobre de direita aceita acriticamente tudo o que vem
da narrativa da direita, que é absolutamente incoerente — e esse “detalhe”
parece não importar em nada no atual contexto político brasileiro, já que
compra qualquer discurso baseado no ódio e no conservadorismo mais tacanho,
enquanto contesta tudo o que vem da “esquerda” e acredita em qualquer acusação
contra ela.
“É a manipulação da psicologia de massas, estúpido!”
Frente ao mecanicismo
da visão dos marxistas brasileiros, que atribuem tudo à economia e ao
objetivismo, relevando as questões subjetivas, como a ética pessoal, a
psicologia, as emoções e ilusões individuais, Jessé critica a famosa frase do
conselheiro político norte-americano James Carville tentando explicar a
essência da realidade ao então candidato à presidência dos EUA, Bill Clinton:
“é a economia, estúpido!”.
Em um trocadilho apresentado no seu livro, Jessé redireciona o sentido
desta frase para explicar o pobre de direita, invertendo-a completamente:
“nunca foi a economia, tolinho!”.
Jessé entende a economia como economia política — o que de fato é. Para
ele, quando você pensa em economia política, já está envolvendo moralidade,
ética, conduta, etc.
Isto é, as coisas não estão dissociadas e não podemos definir uma causa
estática que estaria hierárquica e eternamente acima das demais. Nesse sentido,
Jessé não deixa de ter elementos de razão confrontando a visão estática da
esquerda atual que resume e submete tudo à economia, ignorando os problemas
subjetivos, que muitas vezes se tornam determinantes. Porém, simplesmente
deslocar todo o problema da economia para a moral, mesmo que seja uma figura de
linguagem, não é muito inteligente, nem contribui para a solução do mistério
que investigamos. Cria, portanto, outra forma de desequilíbrio.
A grande questão não analisada para entendermos o fenômeno do pobre de
direita está na psicologia de massas do neofascismo, que tem diversos pilares
que estão e vão muito além da economia. Se não podemos explicar tudo através da
economia — e nesse sentido Jessé tem razão —, também não podemos excluí-la
totalmente, bem como as suas consequências objetivas e subjetivas.
Justamente neste ponto é preciso um caminho do meio, que não temos nem
na análise de Jessé, nem na crítica do PSTU.
Uma visão mais sóbria nos diria que, assim como a psicologia de massas é
influenciada e engendrada pela economia, da mesma forma, consegue influenciar e
distorcer a economia a partir da sua manipulação política, feita “de fora” —
por exemplo, a partir da manipulação do ódio sadomasoquista da massa e do seu
conservadorismo que lhe foi incutido desde a infância. Todas as ferramentas
para entender e explicar o fenômeno nos serão necessárias — principalmente para
evitar receitas decoradas que ignoram a vida viva e a realidade atual, nos
levando a becos sem saída.
Por isso, o trocadilho correto com a frase de Carville para explicar o
fenômeno do pobre de direita seria: “é a manipulação da psicologia de massas,
estúpido!”.
Onde os pólos da crítica de Jessé e do PSTU se encontram e tangenciam as
questões essenciais
A crítica do PSTU a
Jessé não se preocupa com a seguinte questão: por que a experiência com o
petismo levou as massas brasileiras à direita e não à esquerda?
Dito de outra forma:
após a experiência dos governos petistas, por que a grande massa não vota nulo
ou se recusa a acreditar em qualquer candidato, mas acredita e vota em embustes
que se dizem antissistema, como Trump, Bolsonaro e Marçal?
Ou seja, o grande problema para nos debruçarmos seria por que a massa da
classe trabalhadora prefere os “antissistema” de direita — uma contradição em
termos — do que os antissistema de esquerda. As nossas investigações
sociológicas deveriam nos responder por que eles crescem exponencialmente hoje,
enquanto a esquerda reformista se despedaça e a esquerda revolucionária cai no
gueto?
Seria apenas por causa de dinheiro, tempo de TV e cesta básica? Se a resposta
for positiva, então a revolução está irremediavelmente condenada. Se negamos a
existência do pobre de direita, então não temos nem sequer por que começar a
pensar sobre o assunto.
Em entrevista recente ao canal de Reinaldo de Azevedo, Jessé Souza
afirmou que “o pobre de direita é exatamente o cara que é manipulado na sua
vulnerabilidade social”.
Ora, se não há nenhuma margem de vontade individual no pobre de direita,
então a mudança eleitoral — no caso de Jessé — e a revolução — no caso do PSTU
— estão mais uma vez irremediavelmente condenadas.
Certamente há alienação por entre a classe trabalhadora e manipulação da
sua vulnerabilidade social por parte da burguesia, das suas mídias, igrejas,
etc., mas elas não são absolutas. Portanto, não estão desprovidas de um mínimo de
vontade e opção individual.
O culto da autoridade é a negação do entendimento. O desejo de não sofrer — plantado na mente de milhões de pessoas pela propaganda, pela tentativa de “se tornar rico”, pelos “líderes” e pelas religiões organizadas —, como se isso, no geral, fosse possível, assegura a aceitação da exploração de si mesmo. A porta para se auto-enganar é aberta pelo próprio pobre de direita.
Na mesma entrevista, Jessé conclui que “ninguém explicou pra ele quem o deixou pobre”. Ou seja, o problema da existência do pobre de direita, segundo Jessé, seria o fato de que não houve uma explicação sociológica convincente que lhe demonstrasse quem o explora. Ora, a esquerda revolucionária faz isso o tempo inteiro! — tudo bem que nem sempre o faz da maneira correta, pois muitas vezes é dogmática e tacanha, mas nem todos os trabalhos de base feitos por ela Brasil afora são desprezíveis. Há uma opção, metade consciente, metade inconsciente — seja por razões religiosas de influência evangélica, a teologia da prosperidade, ou por desejo individual de enriquecimento, reconhecimento, fama, etc. —, que faz o pobre de direita fechar os olhos a qualquer explicação sobre quem o deixa pobre.
Eles percebem e se indignam apenas contra a "corrupção da esquerda”, mas quase nunca contra a corrupção da direita, que foi, primeiro, disfarçada e, depois, normalizada e aceita. No fim o pobre de direita acha que todo mundo é corrupto e o que importa é tentar garantir o seu, num terrível “salve-se quem puder”, acreditando, de fato, em quem grita mais forte e alto em coisas que lhe são infantilmente familiares! — e, obviamente, endosse e espelhe as suas pequenas corrupções no dia a dia, com a família, os vizinhos, nas pequenas vantagens inúteis do cotidiano, como fila, trânsito, troco, relação com o outro, etc.
Como explicar a situação política para quem não quer entender? É este,
precisamente, o drama que enfrentamos atualmente. Aqui as paralelas das
críticas do PSTU à tese de Jessé se encontram. O problema todo, segundo Jessé,
estaria na narrativa petista, que não encontrou o eixo sociológico correto para
tocar a massa; ou, então, está, segundo o PSTU, exclusivamente nas “direções
traidoras” que lhes impedem de agir “corretamente” e de decidir quem lhes indica o
“caminho certo”.
Nada, ou quase nada,
cabe às responsabilidades dos pobres de direita, que podem reclamar livremente
sem responder pelos seus atos, por menor importância que isso tenha no jogo de
poder social como um todo.
Se é certo que não
podemos generalizar o pobre de direita, dado que nem todos os pobres são
conservadores e adeptos da direita neofascista, também não podemos fechar os
olhos para o seu crescimento exponencial e a sua coesão social, apesar das
profundas diferenças que existem entre si. Nem situar o problema exclusivamente
na narrativa ou na “esquerda capitalista”.
Parte importante da
compreensão e do enfrentamento ao problema do pobre de direita está no fato de não lhe debitarmos suas devidas responsabilidades sociais, que nunca lhe são
apresentadas.
Pobre de direita e a classe média de esquerda
Quando falamos do
“pobre de direita” como uma categoria sociológica, não podemos esquecer de
olhar para o fenômeno da “classe média de esquerda” como outra categoria
importante, em estreita relação com a primeira.
A “esquerda
capitalista” não existiria sem esta base social ampla e também difusa, mas que
não deixa de exercer influência sobre os movimentos sociais e, consequentemente,
de polarizar com os “pobres de direita”.
A militância petista
e a sua base de apoio político se estendem pelas inúmeras burocracias sindicais
espalhadas pelo país, pelo funcionalismo público e por uma classe média que se
sente representada pelas ações, políticas e o programa do PT, que não ameaçam a
atual estrutura social e na qual não veem maiores problemas. Sabemos que as
burocracias sindicais são ávidas por manter suas condições de vida,
reconhecidamente superiores às da classe trabalhadora. Quando contrariadas
politicamente ou derrotadas eleitoralmente, partem para o ataque. O que as
burocracias sindicais e a classe média entendem por “pobre de direita” diz mais
respeito à si mesma e à sua condição social privilegiada do que à uma análise sociológica
séria, que vise a uma mudança de postura.
Ironicamente
apelidada de “esquerda caviar”, grande parte desta militância, simpatizantes da
“esquerda” e a sua base social vivem nos bares e na boemia, muitas vezes
expressando um caráter identitário pelo viés do partido democrata
estadunidense, ignorando completamente uma política classista e socialista,
embora goste de vender uma imagem de progressistas. Não há escuta, mas busca
pela confirmação de suas posições políticas e indignação com contrariedade.
Sua prática é de culto às lideranças e políticas supostamente
progressistas — um verdadeiro culto de imagens que não tem, muitas vezes,
expressão prática concreta e nenhum vestígio de socialismo. Muitas destas
lideranças são acadêmicas, não tendo nenhuma relação direta com a vida dos
milhões de “pobres de direita”, nem com suas demandas reais.
Tal como os pobres de
direita fazem ao buscar no julgamento conservador e na religião evangélica
(dentre outras) a expiação moral da sua prática cotidiana para a própria
consciência em relação aos vizinhos e colegas, a classe média de esquerda
também visa a expiação de sua prática a partir de uma suposta consciência
“socialista” e de “esquerda”, sem nenhuma reverberação nas suas atitudes e
relações cotidianas. Nesse sentido, a crítica de Paulo Galo tem razão (“a
esquerda playboy é o problema, não o pobre de direita”), ainda que ele incorra
nos erros de PSTU e Jessé, já debatidos anteriormente.
O resultado é que a
classe média de esquerda gosta sim de xingar os pobres de direita sem entender
a sua gênese e, sobretudo, piorando a situação ao invés de ajudar a resolver o
problema. Se xingar mutuamente não pode resolver a questão, nem explicar a
realidade, mas obscurece-la.
Como vimos,
reconhecer o problema da existência do pobre de direita não significa,
necessariamente, xingá-lo; tampouco generalizá-lo entre a classe trabalhadora.
Independentemente de como chamamos essa categoria social, se não debatermos
francamente e não entendermos o problema da psicologia de massas e do egotismo
das sociedades capitalistas — fatos que são exploradas pela direita neofascista
na sua prática cotidiana de manipular e criar enormes contingentes de pobres de
direita —, as questões não respondidas, a despeito dos esforços sociológicos de
Jessé Souza e da crítica do PSTU, seguirão… bem como, o crescimento político da
própria direita neofascista!
segunda-feira, 18 de novembro de 2024
Afinal, o pobre de direita existe ou não?
Um debate apaixonado se desenrola atualmente no Brasil: o “pobre de direita” existe ou não?
Uns dizem se tratar de um erro, porque os trabalhadores necessariamente devem ser alienados para que o sistema não se exploda. Portanto, um “pobre de direita” seria uma obviedade, uma tautologia, pois toda a sociedade de classes necessita de ideologias e de alienação. Gente deste campo de raciocínio argumenta que quem pensa na existência de “pobre de direita” só pode ser playboy, principalmente daquele tipo de militante de “esquerda” que tem aos montes nas universidades e que, portanto, não conhece “a realidade das periferias”.
Outros dizem que o “pobre de direita” existe e que tem decidido as eleições e o futuro do país. A partir daí, estes militantes, organizações e partidos exigem uma série de medidas para que os pobres deixem de estar nesta condição — um novo “trabalho de base”, uma nova forma de educação política, etc. — e, a cada resultado de eleição, passam a xingá-los e humilhá-los mais enfaticamente.
Muitos intelectuais também apresentam suas justificativas, teses e livros, que pipocam de um canto e de outro para explicar o fenômeno.
Sejam a favor ou contra a existência do pobre de direita, todos os campos apresentam alguma parcela de razão. Muitos têm boas contribuições e sacadas para se pensar a respeito da existência ou não do pobre de direita, embora com conclusões limitadoras porque querem explicar tudo e excluir totalmente o raciocínio oposto.
Afinal de contas, quem tem razão?
O desespero frente às derrotas eleitorais e à ascensão do neofascismo
Após a ascensão da direita neofascista e as eleições municipais de 2024 no Brasil, as cabeças batem e se quebram para tentar entender o fenômeno. Por que a mobilização da direita tem ganhado mais adeptos e votos do que as da esquerda?
Como um fenômeno complexo, em um país complexo, o “pobre de direita” não pode ter uma explicação única e singela.
As respostas que são reflexo do desespero eleitoral e do medo frente a ascensão do neofascismo não podem explicar o fenômeno do pobre de direita porque justamente estão condicionadas pelo desespero e pelo medo. Suas premissas e seus objetivos com a elucidação do fenômeno são, da mesma forma, limitados.
O pobre de direita não nasce isolado em si mesmo, mas também é o resultado de um processo social. Aqueles que têm como objetivo central as eleições, portanto, querem encontrar uma resposta para resolver seus anseios eleitorais, sem pensar sobre a sua própria conduta e sem querer se incomodar.
Trabalho de base, formação política e o petismo
Lula e o PT falam em “educação política” como forma de evitar a ascensão da direita neofascista, porém, não falam nada sobre a atuação conservadora e retrógrada do PT nos sindicatos e nos movimentos sociais.
Trabalho de base e educação política realmente são muito importantes e necessários, mas é importante se perguntar qual tipo de trabalho de base e qual tipo de educação política é capaz de vencer o conservadorismo e o irracionalismo presentes em uma mente conservadora de uma pessoa pobre?
Certamente a conciliação petista com a direita e o seu arco de alianças dificultam esta educação política e criam dúvidas insanáveis, que deixam os pobres como alvos fáceis de quem quer atacar os governos petistas. Mas nem toda a culpa é do PT, ainda que uma parcela enorme — não reconhecida e nunca aceita pelo partido — o seja.
Nesse caso, o discurso que reconhece o pobre de direita é uma forma do petismo se desvencilhar das necessárias e não feitas autocríticas, nem de buscar um novo curso para a sua política geral, o seu “pragmático” arco de alianças e, sobretudo, para os sindicatos.
Isto é, tiram a parte da culpa que lhes cabe e jogam no outro!
O erro dos setores à esquerda do PT
Contudo, mesmo que o petismo exagere a existência do pobre de direita para evitar sua autocrítica e o reconhecimento de suas irresponsabilidades políticas, isso não significa que o fenômeno não exista. Os setores à esquerda do PT negam a existência do pobre de direita porque isso fere a sua visão de mundo, baseada num certo dogmatismo da teoria marxista.
O pensamento marxista apoia-se numa noção de que o progresso político, cultural e psicológico (emocional) acompanha mais ou menos espontaneamente a evolução econômica. Todo o projeto revolucionário depende da tomada de consciência e mudança de atitude “dos pobres”. Contudo, as experiências “socialistas” do século XX demonstraram na prática que não é tão simples assim. A questão econômica é importante e até mesmo determinante, porém, sem uma intervenção consciente sobre as questões psicológicas, sempre perderemos para a direita, que a tem utilizado ardilosamente com grande êxito.
Os ativistas de esquerda que vão além do PT tratam a questão da seguinte forma: os pobres de direita são simplesmente trabalhadores alienados e enganados por direções traidoras! A eles não caberia responsabilidade alguma, mas apenas aos pelegos e traidores!
Certamente existem inúmeras “direções traidoras” e pelegas, que tentam acalmar e desviar o espírito de revolta por entre a classe trabalhadora, mas isso também não explica tudo, nem chega à essência da questão, porque evita perceber cada trabalhador em sua subjetividade e individualidade. Isto é, deturpa, amputa ou ignora uma parte importante da realidade.
Eles insistem que, em razão das inúmeras necessidades materiais não satisfeitas pelo capitalismo, os trabalhadores aceitariam coisas singelas, como cestas básicas, sacos de arroz, feijão, telhas, empregos precários, etc. em troca de votos e apoio político. Apontam que a direita seria mais ágil e pragmática, sabendo fazer um “trabalho de base” que a esquerda não faz.
Tudo isso existe, de fato, mas a questão a ser enfrentada é: por que a maioria dos trabalhadores venderia seu destino por tão pouco?
Sabemos que uma dura realidade material, de carestia de vida e miséria, levam os pobres a se vender. E a direita, mais ardilosa e “atenta” a isso, se aproveita.
A realidade material precária e o medo de perecer pela fome certamente influenciam o surgimento dos pobres de direita. No entanto, nem todos os trabalhadores são “comprados” com cestas básicas. Centenas de milhares deles votam e apoiam a direita sem receber absolutamente nada, apenas influenciados pelo espírito de rebanho. Portanto, a realidade material explica parte do problema, mas a sua generalização irrestrita também não ajuda a desvendar o mistério por trás do pobre de direita.
A esquerda “revolucionária” que vai além do PT ainda afirma a todo pulmão que o problema é que o petismo e seus satélites políticos não radicalizam o discurso. Por isso a direita levaria vantagem, já que “canalizaria” o ódio que os trabalhadores e pobres têm contra o sistema e não compreendem, nem conseguem expressá-lo.
Porém, há algo no ar que faz com que o pobre de direita opte pelo discurso de direita e rejeite o de esquerda — e é exatamente isso que precisamos entender!
Ainda que a maioria do trabalho de base feito pela esquerda no Brasil hoje em dia seja equivocado ou oportunista, nem todos são desprezíveis. Existem muitos camaradas fazendo discussões importantes nos movimentos sociais e sindicatos, promovendo debates e diversas formas de educação política, mas terminam sempre isolados frente ao menor movimento da direita (seja na forma “política”, ou na forma de religião evangélica).
Mesmo estando adaptado e se mostrando “viável”, o petismo não consegue competir em pé de igualdade com a direita porque sempre perderá no “radicalismo” demagógico e aparece como sendo o responsável por um longo período de governo que vai de 2003 até 2016. Isto é, seria o próprio “sistema”, pelo menos, deste período até o momento. A direita se mostra mais decidida e radical no discurso moral e conservador, inclusive “contra o sistema” e a “corrupção generalizada”, que é compreendido mais rapidamente por qualquer pessoal e, por isso mesmo, mais fácil de manipular.
O discurso pacificador, “responsável” e “republicano” do petismo soa como uma forma de continuidade do sistema, que pessoas “de bem” como Bolsonaro e Marçal supostamente vão enfrentar sem piedade. A mente do pobre de direita que não tem formação política facilmente compra gato por lebre.
Mas ainda não chegamos ao cerne do problema, pois até aqui ainda parece que os pobres de direita ficam isentos de qualquer responsabilidade e seriam pessoas enganadas por direções maléficas e diabólicas, sejam de direita ou de “esquerda”.
O conservadorismo das periferias
A classe trabalhadora tem sido seduzida pelo discurso da direita porque dentro da sua subjetividade individual está presa aos valores do conservadorismo, que a direita neofascista aprendeu a manipular com maestria e a esquerda nem chega perto de enfrentá-los por desconsiderá-los totalmente, uma vez que é cega pelo discurso econômico e objetivista.
A ideia de que apenas um “novo trabalho” de base, mais honesto e verdadeiro, vá despertar o pobre de direita do seu sono profundo e da sua ingenuidade e estupidez que parecem não ter fim, somada a uma mudança abrupta de conjuntura que fará ele despertar quase que espontaneamente, é um tanto problemática porque ignora a massa trabalhadora tal como ela é, com seus irracionalismos, sadomasoquismos, perversões, taras, ganâncias, etc. E se desconsideramos a massa tal como ela é, então teremos problemas para formular uma política e uma visão de mundo que efetivamente consiga interferir sobre a realidade.
Basta dizer que a direita neofascista não ignora essas contradições interiores da massa e os leva muito ardilosamente em consideração. Aí está uma das fontes de sua vantagem atual sobre a “esquerda”. A menor agitação evangélica em uma comunidade desbanca o melhor trabalho político de uma organização de esquerda. A questão, portanto, é entender o poder do irracional/emocional sobre o racional.
Mesmo nas piores condições de vida, como as das periferias brasileiras, também se vê formação e disputas egóicas, que não levam a lugar algum, mas apenas dividem e dão tranquilidade, poder e “fama” a poucos. Para muita gente pobre, de periferia, isso infelizmente basta. O discurso individualista, de enriquecimento egotista e pessoal tem tido muito mais audiência do que o discurso radicalizado de esquerda, que visa o social e a mudança estrutural para todos.
A visão mecânica do marxismo só vê qualidades num trabalhador pobre, nunca seus vícios e defeitos. Pensam que estes serão sanados quase que automaticamente por uma “política correta” de uma direção revolucionária (ou pelo voto correto num partido de esquerda).
A existência de uma pessoa pressupõe, pelo menos, duas dimensões que, embora separadas, se influenciam reciprocamente. Para um suposto pobre de direita, a dimensão objetiva, social, coletiva, aparece como distante, separada dele e dificilmente influenciável por ele próprio. Este é o campo da política e da classe social que ele faz parte, mas que, geralmente, não quer se reconhecer nele. Atingir a consciência de classe pressupõe compreender que esse campo não é apenas influenciável, mas é determinante na vida de todos nós.
A outra dimensão é a esfera individual, subjetiva, onde entram os elementos de vida e morte, família e amigos, os ganhos ou perdas pessoais, sentimentos e traumas, prazer e dor, etc. É nesta dimensão que vive a maioria das pessoas e, portanto, é o habitat natural do “pobre de direita”. Na sua visão, essa esfera é a determinante, já que dificilmente ele a supera em nome de uma visão mais objetiva e universalista. É esta esfera que é manipulada politicamente com grande êxito pela direita neofascista, impedindo-o de ir além e o prendendo-o à consciência individualista e conservadora.
Mais do que isso, a direita faz terrorismo psicológico dando a entender que é esta esfera que será destruída pelo “comunismo” e pela “esquerda”. Para a direita neofascista não há problemas éticos em mentir, exagerar e trapacear. Ao contrário, é parte da sua natureza. Ela se especializou em manipulação da psicologia de massas a partir da grande mídia, das igrejas e, sobretudo, dos algoritmos das redes sociais.
No entanto, é preciso saber o que veicular ou espionar nessas tecnologias para de fato exercer uma influência de massas. Esta manipulação não seria eficaz se ela não se especializasse em psicologia de massas. Isto é, se não estudasse e não instruísse seus adeptos mais conscientes das formas de exercer manipulação sobre a psicologia das massas a partir das suas emoções mais primitivas.
Uma das características do discurso do fascismo e do neofascismo é o apelo ao irracionalismo, o exagero fantástico e a paranoia conspiradora. Há anos que o debate vem sendo rebaixado até chegarmos ao terraplanismo. Vivemos uma época de “diálogo de surdos”, com posições já predefinidas e com permanentes bombardeios emocionais e de ódio a favor ou contra, onde a racionalidade dos “melhores argumentos” conta muito pouco.
A mídia e a estrutura oficial da sociedade burguesa não deixa possibilidade de debates racionais; mas apenas pequenos factóides, em sua maioria, irreais, baseados em ataques pessoais. Colocando este tipo de bloqueio emocional nas discussões, se cria ambientes para “lacrar”, “mitar” e evitar qualquer discussão real. Como, no geral, a direita neofascista perde o debate para os argumentos racionais da “esquerda”, ela só pode apelar para moralismos ou para a incitação emocional aberta de ódio, sadomasoquismo e paranoia.
Uma vez que a esquerda não sai do campo objetivo, ela termina por desconsiderar que há vontades individuais no pobre de direita e, portanto, deixa de analisar e influenciar os interesses e a dinâmica da sua esfera pessoal. Centra-se apenas nas direções e, portanto, no campo objetivo que não atinge as subjetividades, que seguem blindadas pela direita neofascista e pelas igrejas.
Certamente há alienação por entre a classe trabalhadora, mas ela não é absoluta. Portanto, não está desprovida de um mínimo de vontade e opção individual.
A massa trabalhadora tem oscilado entre uma direção reformista (petista) e a direita, mas não tem ido à esquerda, no sentido revolucionário do termo. É precisamente isso que temos que entender para poder começar a explicar e enfrentar o fenômeno do pobre de direita.
A manipulação egoica é fundamental para gerar o pobre de direita
As sociedades capitalistas estimulam e cultuam o ego.
As propagandas, os mecanismos de premiação e reconhecimento, o malfadado “ser alguém na vida”, a moda, a fama e o sucesso — tudo isso infla o ego e cria condições para manipulá-lo.
A indústria cultural, a grande mídia e as redes sociais moldam e criam uma nova personalidade individual, que têm reflexos na coletividade. Um dos principais meios de manipulação e coesão social das noções conservadoras é o ódio sadomasoquista, presente em todos nós.
Falar em deus, pátria e família é muito mais compreensível e caro ao pobre conservador, egocêntrico, carente de fama e dinheiro, do que um necessário programa comunista e socialista, cheio de dados e racionalizações objetivas que apelam para uma sociedade mais igualitária. A religião e a família são coisas do seu dia a dia, que lhe são extremamente caras. A pátria pode não ser tão próxima, mas lhe é familiar e também tem apelo emocional. Estes slogans abrem o caminho para legitimar o julgamento moral sobre as “propostas da esquerda” — que supostamente não se preocuparia com isso — e, também, lhes dão parâmetros para entrar no debate e aparentemente entendê-lo. Dentro desta escala de valores o pobre de direita tem um norte para julgar e “argumentar”, lhe garantindo o suposto direito de se sentir melhor e “mais correto” do que os outros.
Refém do utilitarismo, do falso hedonismo (na verdade sadomasoquismo) e do pragmatismo — todas ideologias cultivadas cuidadosamente pelo capitalismo distópico —, quando alguém critica ou combate o discurso neofascista de “deus, pátria e família”, contra a “corrupção petista” e a “liberdade como sinônimo de propriedade”, o pobre de direita sente-se ultrajado e atacado pessoalmente. Tudo isso é reforçado diariamente de inúmeras formas pela grande mídia e pelas igrejas evangélicas que pipocam por todas as periferias brasileiras.
Disso não se deve compreender que o discurso ou o programa socialista são desnecessários ou inconvenientes. Ao contrário. É justamente ele que precisamos renovar e encontrar novas formas de torná-lo próximo e familiar às pessoas. Ao contrário do que quer e faz a esquerda petista, isso não significa rebaixar o discurso, torná-lo esvaziado de sentido prático, e nos adaptarmos à sociedade oficial. A questão é que, em muitos casos, se fará necessário um choque com o pobre de direita, no sentido de acordá-lo. Tudo o que a esquerda oportunista mais teme é se tornar impopular, por isso evita qualquer tipo de choque.
Para além do oportunismo, não temos sabido quebrar o discurso da direita neofascista porque o pobre de direita não quer abdicar dos seus valores conservadores e reacionários em nome do coletivo. Eis o drama!
Combater o atraso do pobre de direita é uma tarefa por natureza impopular. Quem tem a coragem necessária e o caminho correto para essa tarefa hoje em dia?
A maioria do povo pobre simpatiza com Bolsonaro, Pablo Marçal, Elon Musk, Neymar Jr. e a direita em geral porque comunga com eles certas noções e valores de acumulação de riquezas e de códigos morais tradicionais. É por isso que o homem comum se sente mais próximo de bilionários do que de militantes com consciência de classe e que, de fato, são parte da sua classe social, embora com um discurso e uma estética que lhe causa repulsa.
O homem como “chefe de família” — já que não pode mandar na arbitrariedade dos governos, dos bancos, da polícia ou do local de trabalho, quer compensar em casa ou na rua, nas mulheres e nos filhos, nos vizinhos ou nas prostitutas, agredindo-os todos se necessário for —; algumas mulheres também não veem nenhum problema em se colocar nessas condições.
Portanto, o povo pobre que apoia a direita, em última análise, simpatiza com essa posição de poder e hierarquia. Não que tenha ou possa a vir a ter poder real na sociedade, mas porque intimamente aspira a isso. Quer acreditar nessa ilusão e até se empolga com as suas supostas possibilidades.
O discurso e a prática da “esquerda” (sobretudo da autointitulada revolucionária) não o toca, porque esse “chefe de família” não quer dividir, não quer um outro tipo de sociedade que acabe com “essa espécie de sonho de ser um milionário” que ele compartilha, não quer outro tipo de sociedade que faça a gente ver o outro e divida a riqueza com ele porque ninguém o olha nesta que existe e nem divide riqueza alguma com ele, mas que mantenha e defenda a fortuna e as propriedades que futuramente talvez possa vir a ter, para que ele também possa vir a ser reconhecido, aclamado, respeitado, servido.
Assim funciona, pensa e sente todo o seu sistema de ética e moral — e a direita neofascista e seus ideólogos sabem muito bem disso.
Como enfrentar o problema do pobre de direita?
Não temos uma resposta pra isso, embora saibamos que o primeiro passo é procurar olhar a realidade sem ilusões ou esperanças infundadas.
Começar a compreender os problemas da manipulação da psicologia de massas é um importante primeiro passo para enfrentar o problema. O segundo, talvez seja compreender a importância de superar o egocentrismo nas nossas relações sociais. A esquerda deveria ser a primeira a caminhar nesse sentido, desenvolvendo novas formas de organização, relação, de acolhimento e de escuta; e não ser uma micro reprodução da direita, querendo galgar postos e cargos como um fim em si mesmo, que gera um círculo vicioso sem fim.
Precisamos hoje de mergulhadores, heróis do aprofundamento, e não mestres da negação; precisamos de mentores da maturidade e não pessoas que aprofundem a infantilização das massas, sendo impopulares se necessário for. Isso custa um alto preço político que nenhuma organização de esquerda quer pagar.
Aprender a ouvir sinceramente, estar presente de corpo e alma junto das pessoas e saber onde e quando contrariá-las é, talvez, parte deste importante primeiro passo; mas combater o próprio egotismo para mudar a si mesmo (interior-subjetivo), como igualmente importante para mudar o mundo (exterior-objetivo), é decisivo.
Mesmo que no momento não tenhamos uma solução capaz de enfrentar o fenômeno da generalização do pobre de direita, uma questão certamente é fundamental: o exemplo que a militância dá nas suas relações pessoais cotidianas. O autoexame, o autoaperfeiçoamento, a sinceridade e humanidade no trato com o outro abrem caminhos de escuta e diálogo; a vaidade, a liderança conquistada pela bajulação e demagogia tem vida curta e prepara o caminho contra si próprio.
Parte do drama da luta atual é essa: contra a degeneração da sociedade de classes, a sua vaidade egotista e os desvios sadomasoquistas, devemos contrapor o humanismo, a solidariedade de classe e a compaixão pelo exemplo.
Certamente muitas lacunas ficam abertas nesta tentativa de elucidar o fenômeno do pobre de direita. Porém, há um mérito: não ignorar o problema que é flagrante para quem tiver olhos pra ver e ouvidos pra ouvir.