quinta-feira, 26 de março de 2026

O que o escândalo de corrupção do Banco Master poderia ensinar ao povo, mas não ensina?

O escândalo do Banco Master, liderado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, deixa claro, para quem tiver olhos para ver, como opera o sistema financeiro e o próprio capitalismo no nosso país.

Desde o judiciário, passando pela grande mídia e o crime organizado, estourando, como sempre, nos políticos — sobretudo nos de direita —, o escândalo é a expressão do funcionamento do sistema capitalista, o que liga a luz de alerta para a grande mídia na hora de fazer a sua “cobertura jornalística”. Poucas vezes vemos estourar escândalos de corrupção protagonizados por banqueiros, mas todos sabemos — ou deveríamos saber — que é assim que funciona a dívida pública e o sistema financeiro: se salva a bancarrota privada a partir do dinheiro público, que, por sua vez, endivida o país e empobrece largas camadas populares.

As grandes emissoras — tendo a Globo à frente — se desdobram num contorcionismo brutal para tentar livrar a cara do sistema, como se fosse o caso isolado de um banqueiro inescrupuloso e maldoso, além de jogar com os nomes políticos de ocasião, inclusive tentando culpabilizar indivíduos que não estavam diretamente envolvidos. Seria bastante visível e pedagógico para o povão perceber que se trata de uma forma de roubalheira institucionalizada, que segue operando neste exato momento de outras formas, com outros atores, sendo esta uma das causas da pobreza de milhões de brasileiros.

No entanto, a noção política do senso comum, cultivada há anos pela doutrinação da mídia comercial, por noções sociológicas equivocadas das universidades e das organizações militantes de esquerda, além da própria estrutura da psiquê coletiva da grande massa, impedem de se tirar tais conclusões, o que facilita o trabalho da grande mídia em manter a dominação de classe.

Qual é, enfim, o senso comum que embaça a visão do povo?

Até hoje a mídia e a ideologia burguesa lograram imputar a corrupção apenas à política e ao setor público. O setor privado é sempre visto como idôneo e confiável. Isso significa que, por diversas razões, o povo não enxerga a corrupção do Banco Master como a forma do capitalismo operar, que é uma expressão da libertinagem dos empresários e do setor privado, que só então, procurando meios de se “legalizar”, terminam por corromper os políticos.

O que a mídia burguesa — e a inoperância e o dogmatismo da agitação e da propaganda por parte da esquerda — consegue fazer valer é reforçar a noção de que a corrupção é um caso isolado que está quase que exclusivamente na política e nos políticos — isto é, no setor público, no Estado, nos governos — e quase nunca no sistema financeiro, no mercado, no setor privado — dito em poucas palavras: no funcionamento do capitalismo!

Este é o grande trunfo ideológico da grande mídia burguesa que a esquerda não se atenta e não combate, senão que o reforça, deixando uma avenida livre para a manipulação e a confusão. Este associação automática de corrupção ao público e ao político; e da virtude e da eficiência ao privado e ao mercado é parte indissociável do imaginário e da narrativa nacional que embota a consciência do povo brasileiro — não sem a sua própria adesão voluntária a ele numa falsa esperança de enriquecer para não precisar mais trabalhar e não ser mais tão humilhado.

O povo brasileiro, doutrinado por décadas no neoliberalismo midiático e por séculos nesta narrativa liberal, olha os grandes empresários e banqueiros com ares de simpatia, e são mesmo até capazes de lhes imputar algum tipo de isenção nestes escândalos, voltando seus olhos, sua raiva e sua atenção controladora apenas para os políticos, como se não houvesse estreita relação entre todos estes atores — sendo os primeiros os responsáveis por controlar e corromper os segundos.

Temos, então, um duplo serviço ideológico: 1) se livra a cara do setor privado e do próprio capitalismo, que é visto como idôneo e “justo”; 2) cria-se ojeriza no povo pela política e pela própria atuação política, vista apenas como campo de proliferação da corrupção, o que deixa o caminho livre para a perpetuação dos mesmos de sempre.

Como parte desta compreensão brota das simpatias do próprio povo para com o setor privado, se tornaria ainda mais importante uma intervenção ideológica cirúrgica da esquerda sobre tal tipo de mentalidade. 

E se alguém por acaso tem algum tipo de dúvida quanto a esta tese, que saia na rua conversando sobre o caso Master com qualquer pessoa nas paradas, nos ônibus, nos botequins, nas escolas de periferia ou nos locais de trabalho, que facilmente poderá confirmá-la…

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