segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Afinal, o pobre de direita existe ou não?

 


Um debate apaixonado se desenrola atualmente no Brasil: o “pobre de direita” existe ou não?

Uns dizem se tratar de um erro, porque os trabalhadores necessariamente devem ser alienados para que o sistema não se exploda. Portanto, um “pobre de direita” seria uma obviedade, uma tautologia, pois toda a sociedade de classes necessita de ideologias e de alienação. Gente deste campo de raciocínio argumenta que quem pensa na existência de “pobre de direita” só pode ser playboy, principalmente daquele tipo de militante de “esquerda” que tem aos montes nas universidades e que, portanto, não conhece “a realidade das periferias”.

Outros dizem que o “pobre de direita” existe e que tem decidido as eleições e o futuro do país. A partir daí, estes militantes, organizações e partidos exigem uma série de medidas para que os pobres deixem de estar nesta condição — um novo “trabalho de base”, uma nova forma de educação política, etc. — e, a cada resultado de eleição, passam a xingá-los e humilhá-los mais enfaticamente.

Muitos intelectuais também apresentam suas justificativas, teses e livros, que pipocam de um canto e de outro para explicar o fenômeno.

Sejam a favor ou contra a existência do pobre de direita, todos os campos apresentam alguma parcela de razão. Muitos têm boas contribuições e sacadas para se pensar a respeito da existência ou não do pobre de direita, embora com conclusões limitadoras porque querem explicar tudo e excluir totalmente o raciocínio oposto.

Afinal de contas, quem tem razão?


O desespero frente às derrotas eleitorais e à ascensão do neofascismo

Após a ascensão da direita neofascista e as eleições municipais de 2024 no Brasil, as cabeças batem e se quebram para tentar entender o fenômeno. Por que a mobilização da direita tem ganhado mais adeptos e votos do que as da esquerda?

Como um fenômeno complexo, em um país complexo, o “pobre de direita” não pode ter uma explicação única e singela.

As respostas que são reflexo do desespero eleitoral e do medo frente a ascensão do neofascismo não podem explicar o fenômeno do pobre de direita porque justamente estão condicionadas pelo desespero e pelo medo. Suas premissas e seus objetivos com a elucidação do fenômeno são, da mesma forma, limitados. 

O pobre de direita não nasce isolado em si mesmo, mas também é o resultado de um processo social. Aqueles que têm como objetivo central as eleições, portanto, querem encontrar uma resposta para resolver seus anseios eleitorais, sem pensar sobre a sua própria conduta e sem querer se incomodar.


Trabalho de base, formação política e o petismo

Lula e o PT falam em “educação política” como forma de evitar a ascensão da direita neofascista, porém, não falam nada sobre a atuação conservadora e retrógrada do PT nos sindicatos e nos movimentos sociais. 

Trabalho de base e educação política realmente são muito importantes e necessários, mas é importante se perguntar qual tipo de trabalho de base e qual tipo de educação política é capaz de vencer o conservadorismo e o irracionalismo presentes em uma mente conservadora de uma pessoa pobre?

Certamente a conciliação petista com a direita e o seu arco de alianças dificultam esta educação política e criam dúvidas insanáveis, que deixam os pobres como alvos fáceis de quem quer atacar os governos petistas. Mas nem toda a culpa é do PT, ainda que uma parcela enorme — não reconhecida e nunca aceita pelo partido — o seja. 

Nesse caso, o discurso que reconhece o pobre de direita é uma forma do petismo se desvencilhar das necessárias e não feitas autocríticas, nem de buscar um novo curso para a sua política geral, o seu “pragmático” arco de alianças e, sobretudo, para os sindicatos.

Isto é, tiram a parte da culpa que lhes cabe e jogam no outro!


O erro dos setores à esquerda do PT

Contudo, mesmo que o petismo exagere a existência do pobre de direita para evitar sua autocrítica e o reconhecimento de suas irresponsabilidades políticas, isso não significa que o fenômeno não exista. Os setores à esquerda do PT negam a existência do pobre de direita porque isso fere a sua visão de mundo, baseada num certo dogmatismo da teoria marxista. 

O pensamento marxista apoia-se numa noção de que o progresso político, cultural e psicológico (emocional) acompanha mais ou menos espontaneamente a evolução econômica. Todo o projeto revolucionário depende da tomada de consciência e mudança de atitude “dos pobres”. Contudo, as experiências “socialistas” do século XX demonstraram na prática que não é tão simples assim. A questão econômica é importante e até mesmo determinante, porém, sem uma intervenção consciente sobre as questões psicológicas, sempre perderemos para a direita, que a tem utilizado ardilosamente com grande êxito.

Os ativistas de esquerda que vão além do PT tratam a questão da seguinte forma: os pobres de direita são simplesmente trabalhadores alienados e enganados por direções traidoras! A eles não caberia responsabilidade alguma, mas apenas aos pelegos e traidores!

Certamente existem inúmeras “direções traidoras” e pelegas, que tentam acalmar e desviar o espírito de revolta por entre a classe trabalhadora, mas isso também não explica tudo, nem chega à essência da questão, porque evita perceber cada trabalhador em sua subjetividade e individualidade. Isto é, deturpa, amputa ou ignora uma parte importante da realidade.

Eles insistem que, em razão das inúmeras necessidades materiais não satisfeitas pelo capitalismo, os trabalhadores aceitariam coisas singelas, como cestas básicas, sacos de arroz, feijão, telhas, empregos precários, etc. em troca de votos e apoio político. Apontam que a direita seria mais ágil e pragmática, sabendo fazer um “trabalho de base” que a esquerda não faz.

Tudo isso existe, de fato, mas a questão a ser enfrentada é: por que a maioria dos trabalhadores venderia seu destino por tão pouco? 

Sabemos que uma dura realidade material, de carestia de vida e miséria, levam os pobres a se vender. E a direita, mais ardilosa e “atenta” a isso, se aproveita. 

A realidade material precária e o medo de perecer pela fome certamente influenciam o surgimento dos pobres de direita. No entanto, nem todos os trabalhadores são “comprados” com cestas básicas. Centenas de milhares deles votam e apoiam a direita sem receber absolutamente nada, apenas influenciados pelo espírito de rebanho. Portanto, a realidade material explica parte do problema, mas a sua generalização irrestrita também não ajuda a desvendar o mistério por trás do pobre de direita.

A esquerda “revolucionária” que vai além do PT ainda afirma a todo pulmão que o problema é que o petismo e seus satélites políticos não radicalizam o discurso. Por isso a direita levaria vantagem, já que “canalizaria” o ódio que os trabalhadores e pobres têm contra o sistema e não compreendem, nem conseguem expressá-lo.

Porém, há algo no ar que faz com que o pobre de direita opte pelo discurso de direita e rejeite o de esquerda — e é exatamente isso que precisamos entender! 

Ainda que a maioria do trabalho de base feito pela esquerda no Brasil hoje em dia seja equivocado ou oportunista, nem todos são desprezíveis. Existem muitos camaradas fazendo discussões importantes nos movimentos sociais e sindicatos, promovendo debates e diversas formas de educação política, mas terminam sempre isolados frente ao menor movimento da direita (seja na forma “política”, ou na forma de religião evangélica).

Mesmo estando adaptado e se mostrando “viável”, o petismo não consegue competir em pé de igualdade com a direita porque sempre perderá no “radicalismo” demagógico e aparece como sendo o responsável por um longo período de governo que vai de 2003 até 2016. Isto é, seria o próprio “sistema”, pelo menos, deste período até o momento. A direita se mostra mais decidida e radical no discurso moral e conservador, inclusive “contra o sistema” e a “corrupção generalizada”, que é compreendido mais rapidamente por qualquer pessoal e, por isso mesmo, mais fácil de manipular.

O discurso pacificador, “responsável” e “republicano” do petismo soa como uma forma de continuidade do sistema, que pessoas “de bem” como Bolsonaro e Marçal supostamente vão enfrentar sem piedade. A mente do pobre de direita que não tem formação política facilmente compra gato por lebre.

Mas ainda não chegamos ao cerne do problema, pois até aqui ainda parece que os pobres de direita ficam isentos de qualquer responsabilidade e seriam pessoas enganadas por direções maléficas e diabólicas, sejam de direita ou de “esquerda”.


O conservadorismo das periferias

A classe trabalhadora tem sido seduzida pelo discurso da direita porque dentro da sua subjetividade individual está presa aos valores do conservadorismo, que a direita neofascista aprendeu a manipular com maestria e a esquerda nem chega perto de enfrentá-los por desconsiderá-los totalmente, uma vez que é cega pelo discurso econômico e objetivista.

A ideia de que apenas um “novo trabalho” de base, mais honesto e verdadeiro, vá despertar o pobre de direita do seu sono profundo e da sua ingenuidade e estupidez que parecem não ter fim, somada a uma mudança abrupta de conjuntura que fará ele despertar quase que espontaneamente, é um tanto problemática porque ignora a massa trabalhadora tal como ela é, com seus irracionalismos, sadomasoquismos, perversões, taras, ganâncias, etc. E se desconsideramos a massa tal como ela é, então teremos problemas para formular uma política e uma visão de mundo que efetivamente consiga interferir sobre a realidade.

Basta dizer que a direita neofascista não ignora essas contradições interiores da massa e os leva muito ardilosamente em consideração. Aí está uma das fontes de sua vantagem atual sobre a “esquerda”. A menor agitação evangélica em uma comunidade desbanca o melhor trabalho político de uma organização de esquerda. A questão, portanto, é entender o poder do irracional/emocional sobre o racional.

Mesmo nas piores condições de vida, como as das periferias brasileiras, também se vê formação e disputas egóicas, que não levam a lugar algum, mas apenas dividem e dão tranquilidade, poder e “fama” a poucos. Para muita gente pobre, de periferia, isso infelizmente basta. O discurso individualista, de enriquecimento egotista e pessoal tem tido muito mais audiência do que o discurso radicalizado de esquerda, que visa o social e a mudança estrutural para todos.

A visão mecânica do marxismo só vê qualidades num trabalhador pobre, nunca seus vícios e defeitos. Pensam que estes serão sanados quase que automaticamente por uma “política correta” de uma direção revolucionária (ou pelo voto correto num partido de esquerda). 

A existência de uma pessoa pressupõe, pelo menos, duas dimensões que, embora separadas, se influenciam reciprocamente. Para um suposto pobre de direita, a dimensão objetiva, social, coletiva, aparece como distante, separada dele e dificilmente influenciável por ele próprio. Este é o campo da política e da classe social que ele faz parte, mas que, geralmente, não quer se reconhecer nele. Atingir a consciência de classe pressupõe compreender que esse campo não é apenas influenciável, mas é determinante na vida de todos nós.

A outra dimensão é a esfera individual, subjetiva, onde entram os elementos de vida e morte, família e amigos, os ganhos ou perdas pessoais, sentimentos e traumas, prazer e dor, etc. É nesta dimensão que vive a maioria das pessoas e, portanto, é o habitat natural do “pobre de direita”. Na sua visão, essa esfera é a determinante, já que dificilmente ele a supera em nome de uma visão mais objetiva e universalista. É esta esfera que é manipulada politicamente com grande êxito pela direita neofascista, impedindo-o de ir além e o prendendo-o à consciência individualista e conservadora.

Mais do que isso, a direita faz terrorismo psicológico dando a entender que é esta esfera que será destruída pelo “comunismo” e pela “esquerda”. Para a direita neofascista não há problemas éticos em mentir, exagerar e trapacear. Ao contrário, é parte da sua natureza. Ela se especializou em manipulação da psicologia de massas a partir da grande mídia, das igrejas e, sobretudo, dos algoritmos das redes sociais.

No entanto, é preciso saber o que veicular ou espionar nessas tecnologias para de fato exercer uma influência de massas. Esta manipulação não seria eficaz se ela não se especializasse em psicologia de massas. Isto é, se não estudasse e não instruísse seus adeptos mais conscientes das formas de exercer manipulação sobre a psicologia das massas a partir das suas emoções mais primitivas.

Uma das características do discurso do fascismo e do neofascismo é o apelo ao irracionalismo, o exagero fantástico e a paranoia conspiradora. Há anos que o debate vem sendo rebaixado até chegarmos ao terraplanismo. Vivemos uma época de “diálogo de surdos”, com posições já predefinidas e com permanentes bombardeios emocionais e de ódio a favor ou contra, onde a racionalidade dos “melhores argumentos” conta muito pouco.

A mídia e a estrutura oficial da sociedade burguesa não deixa possibilidade de debates racionais; mas apenas pequenos factóides, em sua maioria, irreais, baseados em ataques pessoais. Colocando este tipo de bloqueio emocional nas discussões, se cria ambientes para “lacrar”, “mitar” e evitar qualquer discussão real. Como, no geral, a direita neofascista perde o debate para os argumentos racionais da “esquerda”, ela só pode apelar para moralismos ou para a incitação emocional aberta de ódio, sadomasoquismo e paranoia.

 Uma vez que a esquerda não sai do campo objetivo, ela termina por desconsiderar que há vontades individuais no pobre de direita e, portanto, deixa de analisar e influenciar os interesses e a dinâmica da sua esfera pessoal. Centra-se apenas nas direções e, portanto, no campo objetivo que não atinge as subjetividades, que seguem blindadas pela direita neofascista e pelas igrejas.

Certamente há alienação por entre a classe trabalhadora, mas ela não é absoluta. Portanto, não está desprovida de um mínimo de vontade e opção individual. 

A massa trabalhadora tem oscilado entre uma direção reformista (petista) e a direita, mas não tem ido à esquerda, no sentido revolucionário do termo. É precisamente isso que temos que entender para poder começar a explicar e enfrentar o fenômeno do pobre de direita.


A manipulação egoica é fundamental para gerar o pobre de direita

As sociedades capitalistas estimulam e cultuam o ego.

As propagandas, os mecanismos de premiação e reconhecimento, o malfadado “ser alguém na vida”, a moda, a fama e o sucesso — tudo isso infla o ego e cria condições para manipulá-lo.

A indústria cultural, a grande mídia e as redes sociais moldam e criam uma nova personalidade individual, que têm reflexos na coletividade. Um dos principais meios de manipulação e coesão social das noções conservadoras é o ódio sadomasoquista, presente em todos nós.

Falar em deus, pátria e família é muito mais compreensível e caro ao pobre conservador, egocêntrico, carente de fama e dinheiro, do que um necessário programa comunista e socialista, cheio de dados e racionalizações objetivas que apelam para uma sociedade mais igualitária. A religião e a família são coisas do seu dia a dia, que lhe são extremamente caras. A pátria pode não ser tão próxima, mas lhe é familiar e também tem apelo emocional. Estes slogans abrem o caminho para legitimar o julgamento moral sobre as “propostas da esquerda” — que supostamente não se preocuparia com isso — e, também, lhes dão parâmetros para entrar no debate e aparentemente entendê-lo. Dentro desta escala de valores o pobre de direita tem um norte para julgar e “argumentar”, lhe garantindo o suposto direito de se sentir melhor e “mais correto” do que os outros.

Refém do utilitarismo, do falso hedonismo (na verdade sadomasoquismo) e do pragmatismo — todas ideologias cultivadas cuidadosamente pelo capitalismo distópico —, quando alguém critica ou combate o discurso neofascista de “deus, pátria e família”, contra a “corrupção petista” e a “liberdade como sinônimo de propriedade”, o pobre de direita sente-se ultrajado e atacado pessoalmente. Tudo isso é reforçado diariamente de inúmeras formas pela grande mídia e pelas igrejas evangélicas que pipocam por todas as periferias brasileiras.

Disso não se deve compreender que o discurso ou o programa socialista são desnecessários ou inconvenientes. Ao contrário. É justamente ele que precisamos renovar e encontrar novas formas de torná-lo próximo e familiar às pessoas. Ao contrário do que quer e faz a esquerda petista, isso não significa rebaixar o discurso, torná-lo esvaziado de sentido prático, e nos adaptarmos à sociedade oficial. A questão é que, em muitos casos, se fará necessário um choque com o pobre de direita, no sentido de acordá-lo. Tudo o que a esquerda oportunista mais teme é se tornar impopular, por isso evita qualquer tipo de choque.

Para além do oportunismo, não temos sabido quebrar o discurso da direita neofascista porque o pobre de direita não quer abdicar dos seus valores conservadores e reacionários em nome do coletivo. Eis o drama!

Combater o atraso do pobre de direita é uma tarefa por natureza impopular. Quem tem a coragem necessária e o caminho correto para essa tarefa hoje em dia?

A maioria do povo pobre simpatiza com Bolsonaro, Pablo Marçal, Elon Musk, Neymar Jr. e a direita em geral porque comunga com eles certas noções e valores de acumulação de riquezas e de códigos morais tradicionais. É por isso que o homem comum se sente mais próximo de bilionários do que de militantes com consciência de classe e que, de fato, são parte da sua classe social, embora com um discurso e uma estética que lhe causa repulsa.

O homem como “chefe de família” — já que não pode mandar na arbitrariedade dos governos, dos bancos, da polícia ou do local de trabalho, quer compensar em casa ou na rua, nas mulheres e nos filhos, nos vizinhos ou nas prostitutas, agredindo-os todos se necessário for —; algumas mulheres também não veem nenhum problema em se colocar nessas condições.

Portanto, o povo pobre que apoia a direita, em última análise, simpatiza com essa posição de poder e hierarquia. Não que tenha ou possa a vir a ter poder real na sociedade, mas porque intimamente aspira a isso. Quer acreditar nessa ilusão e até se empolga com as suas supostas possibilidades.

O discurso e a prática da “esquerda” (sobretudo da autointitulada revolucionária) não o toca, porque esse “chefe de família” não quer dividir, não quer um outro tipo de sociedade que acabe com “essa espécie de sonho de ser um milionário” que ele compartilha, não quer outro tipo de sociedade que faça a gente ver o outro e divida a riqueza com ele porque ninguém o olha nesta que existe e nem divide riqueza alguma com ele, mas que mantenha e defenda a fortuna e as propriedades que futuramente talvez possa vir a ter, para que ele também possa vir a ser reconhecido, aclamado, respeitado, servido.

Assim funciona, pensa e sente todo o seu sistema de ética e moral — e a direita neofascista e seus ideólogos sabem muito bem disso.


Como enfrentar o problema do pobre de direita?

Não temos uma resposta pra isso, embora saibamos que o primeiro passo é procurar olhar a realidade sem ilusões ou esperanças infundadas.

Começar a compreender os problemas da manipulação da psicologia de massas é um importante primeiro passo para enfrentar o problema. O segundo, talvez seja compreender a importância de superar o egocentrismo nas nossas relações sociais. A esquerda deveria ser a primeira a caminhar nesse sentido, desenvolvendo novas formas de organização, relação, de acolhimento e de escuta; e não ser uma micro reprodução da direita, querendo galgar postos e cargos como um fim em si mesmo, que gera um círculo vicioso sem fim.

Precisamos hoje de mergulhadores, heróis do aprofundamento, e não mestres da negação; precisamos de mentores da maturidade e não pessoas que aprofundem a infantilização das massas, sendo impopulares se necessário for. Isso custa um alto preço político que nenhuma organização de esquerda quer pagar.

Aprender a ouvir sinceramente, estar presente de corpo e alma junto das pessoas e saber onde e quando contrariá-las é, talvez, parte deste importante primeiro passo; mas combater o próprio egotismo para mudar a si mesmo (interior-subjetivo), como igualmente importante para mudar o mundo (exterior-objetivo), é decisivo.

Mesmo que no momento não tenhamos uma solução capaz de enfrentar o fenômeno da generalização do pobre de direita, uma questão certamente é fundamental: o exemplo que a militância dá nas suas relações pessoais cotidianas. O autoexame, o autoaperfeiçoamento, a sinceridade e humanidade no trato com o outro abrem caminhos de escuta e diálogo; a vaidade, a liderança conquistada pela bajulação e demagogia tem vida curta e prepara o caminho contra si próprio.

Parte do drama da luta atual é essa: contra a degeneração da sociedade de classes, a sua vaidade egotista e os desvios sadomasoquistas, devemos contrapor o humanismo, a solidariedade de classe e a compaixão pelo exemplo.

Certamente muitas lacunas ficam abertas nesta tentativa de elucidar o fenômeno do pobre de direita. Porém, há um mérito: não ignorar o problema que é flagrante para quem tiver olhos pra ver e ouvidos pra ouvir.


terça-feira, 5 de novembro de 2024

O povo brasileiro não tem feito história, mas sofrido-a!

 

Os preguiçosos não fazem história
sofrem-na
(Kropotkin)

Quem tem coração de Zumbi
não aceita cortar cana
Cansou de sonhar com emprego
no prédio da Força Sindical
(O rei da montanha - Facção Central)

A história ensina, mas não tem alunos
(Antonio Gramsci)

 

A tônica da história do povo brasileiro — sobretudo neste início de século XXI — tem sido a da mais amarga indiferença às mudanças sociais da sua própria realidade. Se contenta com migalhas pessoais e familiares, de salários, títulos ocos e discursos eleitorais, ao invés de dar atenção às questões essenciais.

         Muitas vozes indignadas gritarão injúrias contra essa afirmação e invocarão “as inúmeras rebeliões do povo brasileiro ao longo da história”, além dos “diversos quilombos espalhados pelo território nacional”.

         Nada a objetar!

         Tudo isso é verdadeiro e muito importante. Porém, não pode esconder o fato de que temos sido irresponsáveis com a condução da nossa própria história. 

Parece que por aqui a inércia histórica tem sido a regra e a tendência a nos desresponsabilizar pelas medidas que são necessárias tomar para enfrentar o fato de sermos um país campeão em desigualdade social. Ninguém dos que mais precisam quer tomar a frente de nada e preferem esperar as chefias, as “lideranças” e os candidatos, sejam eles quem forem. 

O que pode nos obrigar a assumir nosso papel histórico se não nós mesmos?

Temos visto uma predisposição do povo e dos trabalhadores a colocar na frente das exigências políticas, sociais, sindicais, pedagógicas, etc., qualquer desculpa pessoal ou de impossibilidade de mudança, como se essas exigências não tivessem a menor importância e não interferissem diretamente sobre a nossa própria vida pessoal, gerando um círculo vicioso infernal. 

A nossa tendência tem sido a de evitar os confrontos, choques de ideias e tomada de posições visando preservar o emprego, a vida e os equilíbrios precários. Também fazemos vistas grossas a inúmeros problemas éticos e de conduta de muita gente por entre o povo.

 

         Lima Barreto, um exímio conhecedor da realidade e da mentalidade do povo brasileiro durante a República Velha (1889-1930), pintou com suas palavras, a mais de 100 anos atrás, o seguinte quadro: 

A covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos de independência; ela só quer acompanhadores de procissão, que só visam lucros ou salários nos pareceres (Crônica “Elogio da morte”, publicada no jornal Marginália, em 19 de outubro de 1918).

Passados quase cem anos do fim da República Velha e, assustadoramente, esta descrição pouco se modificou.

 

O lucro tem sido predatório e, em sua maioria, sem nenhum escrúpulo. Uma reprodução — sob uma base capitalista — do que foi o período colonial do país. Tira-se vantagem em tudo; privatizam-se e entregam-se recursos estratégicos sem nenhum retorno pro povo e nem mesmo para a cadeia produtiva empresarial; não há preocupação social alguma. Tudo isso supostamente “assustaria o setor privado” e o que toda a mídia comercial e o setor empresarial ordenam é silenciar qualquer crítica ou exigência — ou as taxam de “anacrônicas” e atrasadas.

Por entre as classes exploradas não temos visto uma disposição de espírito muito melhor. Ao contrário: todos querem tirar vantagem à sua maneira.

Os funcionários públicos, em sua maioria, preocupam-se apenas ou prioritariamente com salários, posições, estabilidade e aposentadoria. No geral, se calam perante qualquer enfrentamento mais sério sempre que a realidade o exige — inclusive sobre o seu local de trabalho. O seu pensamento político não incomoda e, sobretudo, não arrisca, a não ser que seus interesses profissionais, salariais e de carreira sejam questionados — o que pode resultar se só nos mobilizamos pelos nossos próprios interesses mais imediatos?

Ora, resultará naquela poesia atribuída a Bertold Brecht, de que como eu não me importei com ninguém, ninguém se importará comigo.

A classe trabalhadora e os marginalizados sociais, chantageados e seduzidos pelo imediatismo e pela falta de quase tudo, tornam-se, muitas vezes, reacionários, conservadores — numa palavra: bolsonaristas (outros, mais “progressistas”, se tornam petistas, também esperando alguma benesse material por via eleitoral passiva). Pensam que vão conseguir alguma coisa por dentro da própria estrutura. Qualquer voz que destoe desta esperança é ouvida com má vontade ou mesmo com hostilidade.

Perceber a sua situação deplorável exige sensibilidade e mudança interior. Poucos estão dispostos a isso.

A truculência, a grosseria e a indiferença — além da picuinha contra vizinhos, colegas e desconhecidos — tem sido preferido ao enfrentamento e à mudança da postura ética cotidiana.

 

Lima prossegue na sua crítica:

Não há, entre nós, campo para as grandes batalhas de espírito e inteligência. Tudo aqui é feito com o dinheiro e os títulos. A agitação de uma ideia não repercute na massa e quando esta sabe que se trata de contrariar uma pessoa poderosa, trata o agitador como louco (Idem).

 

O herói brasileiro cultuado pela história oficial tem sido o militar sem realizações e façanhas reais, mas repleto de autoritarismos e títulos ocos. Já o povo, mais ou menos espontaneamente, prefere cultuar como herói o jogador de futebol sem caráter e o cantor de música com refrão vazio ou de baixo calão, da mesma forma sem caráter, mas que consegue colar na mente de quem o escuta pela mídia tradicional e redes sociais. É a fuga pelo prazer barato, do cotidiano mais imediatista, que se transforma em dor e sofrimento pavorosos, cujas origens são apagadas e esquecidas.

Quando se tenta apresentar o nome de um herói autêntico que morreu pela liberdade, seja numa aula de escola pública, num livro ou numa agitação de rua, o povo age com indiferença, má vontade para ouvir ou mesmo hostilidade.

 

Por fim, Lima Barreto conclui:

O que é preciso, portanto, é que cada qual respeite a opinião de qualquer, para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino, para a própria felicidade da espécie humana

Entretanto, no Brasil, não se quer isso. Procura-se abafar opiniões, para só deixar em campo os desejos dos poderosos e prepotentes.

Os órgãos de publicidade por onde se podiam elas revelar, são fechados e não aceitam nada que os possa lesar (Idem).

 

Esta opinião de Lima, escrita há mais de 100 anos atrás, continua absolutamente vigente.

A esquerda não quer entender que aqui (e também em grande parte do mundo) a agitação de ideias, palavras de ordem, programas revolucionários não repercute na massa. O que encontra eco são gritos como “deus, pátria e família”, “em defesa da propriedade” (que a maioria não tem, nem nunca terá, mas almeja ter e acredita, quase como uma crença religiosa, que um dia terá) e a “defesa da fortuna dos bilionários”, que dão a ilusão de que um dia os pobres também poderão ter a sua própria fortuna.

Aqui impera a mentalidade dos eleitores malufistas, que afirmavam: “Não acho que Maluf seja nenhum santo, mas, pelo menos, quando chega lá, ele faz. Não é isso que a gente quer?”.

Por estas terras brasileiras não encontramos interesse em ética, em procurar encontrar o caminho justo para a política, para a educação pública, para a sociedade, a economia e as relações do cotidiano.

No seio do povo, desde a mais tenra idade, o que se quer é tirar vantagem (aqui a “lei de Gerson” repercute). Poderíamos se conformar com esta desgraceira e fazer o “elogio da morte”, como fez Lima. Ou, ainda, tentar encontrar um “caminho fácil” através de saídas eleitoreiras e oportunistas, como o petismo e grande parte da esquerda nos brinda, para dialogar com a massa nesses seus atrasos horripilantes.

A grande questão, contudo, é tentar encontrar um caminho que de alguma forma toque o coração da massa, que a consiga tirá-la dessa condição oportunista e utilitarista profunda, aprendida dos extratos sociais superiores, que prefere se colocar na condição de “seguidora de procissão” e espectadora passiva da realidade do país e do mundo — tipo torcida organizada.

Como impera entre nós a crença de que “tudo o que é bom vem de fora”, num terrível espírito de vira-lata, então, nos resta esperar que as principais mudanças venham de fora e sejam impostas ao país, cabendo uma expectativa de público que assiste a uma novela ou uma torcida que torce pelo bom desempenho do seu time.

Mesmo nas piores condições de vida, como as das periferias brasileiras, também se vê formação e disputas egóicas, que não levam a lugar algum, mas apenas dividem e dão tranquilidade e “fama” a poucos. Para muita gente pobre, de periferia, isso infelizmente basta.

Não se preocupar com isso, não querer ver e não dar atenção a este fato, torna o “trabalho de base” mais dedicado nas comunidades algo inócuo, porque pode reforçar o utilitarismo ao invés da construção de um novo ser humano.

 

De que servirá nos auto iludirmos ou sermos por demais complacentes com o povo?

Para encontrar uma “saída” para o impasse é preciso olhar a realidade de frente, sem medo de tirar as conclusões mais duras e preocupantes. Esse é o único caminho que pode ajudar a encontrarmos novas respostas e ações.

Um bom primeiro passo seria as organizações de esquerda começarem a se investigar a si mesmas, suas posturas, vaidades e desejos egocêntricos. Criando uma nova conduta exterior, partindo do interior, quem sabe comecemos a constranger realmente as condutas equivocadas do povo brasileiro?