terça-feira, 28 de junho de 2016

João Amazonas e o seu papel nefasto como “teórico” stalinista

Antes de responder o texto de João Amazonas, intitulado “O Trotsquismo, Corrente Política Contra-Revolucionária”, há que se perguntar a validade de tal ação, uma vez que ele foi escrito com a única finalidade de caluniar e confundir. Nele não há nenhuma tentativa honesta de esclarecer divergências, mas apenas difamações, calúnias e distorções; utilização de citações descontextualizadas; em suma, baseia-se no método típico do stalinismo, tal como o conhecemos ao longo da história da URSS. A resposta para a pergunta acima de “por que responder?” é a que segue: para que as pessoas honestas que não conhecem a fundo a história da URSS e do movimento operário possam refletir.
            Por se tratar de uma polêmica com o stalinismo há que se colocar luvas especiais para se mexer em lixo tóxico. O escritor do texto, João Amazonas, foi um dos principais fundadores e dirigentes do PCdoB, racha do PCB e um partido reconhecidamente defensor do stalinismo. Ele se coloca, portanto, como um teórico do stalinismo. Mas é preciso perguntar, também, que tipo de teoria defende o stalinismo? O stalinismo nunca teve uma teoria propriamente dita, mas um amontoado de dogmas e receitas pré-estabelecidas, defendidas ou abandonadas segundo as conveniências da burocracia dirigente da URSS e endossadas pelo cassetete e as prisões da polícia política do stalinismo, a KGB.
Pode-se destacar a teoria do “socialismo em um só país” e da “revolução por etapas” como tipicamente stalinistas, as quais foram contrapostas à teoria da Revolução Permanente, de Trotsky. A “revolução por etapas” é a continuidade lógica do pensamento evolucionista vulgar, de Edward Berstein, principal mentor do reformismo socialista; e também encontrava-se presente no movimento operário russo através dos mencheviques. A teoria do “socialismo em um só país” é, possivelmente, a sua teoria típica, reflexo direto da preservação dos interesses da burocracia soviética, cujo topo encontrava-se ocupado por Stalin. Foi uma forma que os burocratas do aparato encontraram para justificar a política de não expansão da revolução para o resto do mundo e, sobretudo, a sabotagem de inúmeros processos revolucionários que se desencadearam em diversos países (China, Alemanha, França, Inglaterra, Espanha, etc.) como reflexo direto ou indireto da revolução russa. A teoria do “socialismo em um só país”, que sob o governo de Kruschev e Brejnev tornou-se a política de “coexistência pacífica com o imperialismo”, é, por sua própria natureza, visceralmente anti-marxista. Rompe não apenas com Marx, mas com o pensamento de Lenin, que desde os primeiros momentos da revolução russa colocou a necessária perspectiva do triunfo da revolução em outros países, sobretudo nos países da Europa.
Amazonas procura apresentar Stálin como continuador da política de Marx, Engels e Lenin, mas, como se vê, isso está bem longe da verdade. Não foi apenas na questão internacional – que não é nada desprezível – que Stalin rompe com a continuidade do pensamento marxista, mas em relação a outros assuntos não menos importantes, como a questão do Estado. O stalinismo sustentou que, ao contrário do que apregoava Lenin, Marx e Engels, o Estado não só não deveria desaparecer, como precisava se fortalecer! E quanto mais ele se fortalecesse, inclusive prendendo, perseguindo e assassinando opositores, mais ele contribuiria para o “desenvolvimento do socialismo”. Tamanha contradição com o pensamento marxista denota apenas que o stalinismo estava interessado em defender os privilégios da burocracia soviética, que se sobrepunha totalmente aos trabalhadores soviéticos e necessitava do fortalecimento descomunal do Estado.
A política, teoria e método do stalinismo (somados à pressão internacional) foram os responsáveis por levar URSS e o leste europeu à restauração do capitalismo. Tal possibilidade já havia sido prevista por Trotsky na década de 1930. João Amazonas viveu para ver a restauração, porém, nunca se auto criticou por defender tal política e propagar tal método. Da mesma forma o PCdoB. Aliás, em pleno século 21 João Amazonas (até sua morte) e o PCdoB não apenas não se autocriticaram, como seguiram defendendo as distorções e falsificações do stalinismo. São incuráveis! O caminho para se cometer os mesmos erros e atrocidades segue perigosamente aberto.

Teórico malogrado ou falsificador consciente?
Os ataques furiosos de João Amazonas contra Trotsky denotam um profundo desconhecimento sobre a teoria trotskista. Seria isso fruto da ignorância ou da falsificação? Nos dois casos trata-se de um crime. Caso seja ignorância, como pode sair criticando um pensamento político sem conhecê-lo? Caso se trate de falsificação consciente é a expressão de sua má fé e da tentativa de desmoralizar o trotskismo porque na realidade ele representa uma profunda ameaça às suas pretensões políticas.
João Amazonas foi a principal liderança do PCdoB. Não pode ser considerado um sujeito ignorante. Muito antes pelo contrário: trata-se de uma pessoa muito inteligente e capaz. Além disso, todo o histórico do stalinismo – falsificações de documentos, fotos, arquivos, livros; prisões, perseguições, repressões, julgamentos forjados, assassinatos – dá a firmeza para garantir que se trata, portanto, de ataques baseados na falsificação consciente e na má fé.
Vejamos um exemplo: “Na teoria da Revolução Permanente Trotsky nega as etapas da revolução e a construção do socialismo num só país, introduz o aventurismo no plano da revolução mundial”. João Amazonas, além de desconhecer o que Trotsky defende sobre as etapas da revolução, classifica o internacionalismo proletário como um “aventurismo”. Somente um burocrata empedernido pode pensar de tal forma. Assassina, seguindo os passos de Stalin, a bandeira de Marx e Engels expressa no Manifesto Comunista: “os proletários não tem pátria; proletários de todos os países uni-vos”. É uma ruptura radical com o pensamento marxista que somente cegos incorrigíveis ou parasitas que vivem do aparato podem não ver. Para Amazonas expandir a revolução para outros países e construir a federação internacional de países socialistas é “aventurismo”. Lenin, Marx e Engels são, neste mesmo sentido, “aventuristas” tal como Trotsky.
Sobre a primeira afirmação de que “Trotsky negaria as etapas da revolução”, apenas explicita a tentativa de desqualificar a teoria da Revolução Permanente com falsos argumentos. Ela demonstrava que, na época imperialista, o cumprimento das tarefas democráticas da revolução burguesa (reforma agrária, fim dos restos coloniais, criação de uma verdadeira república democrática) conduzia diretamente à revolução proletária e à ditadura do proletariado, que colocam as tarefas socialistas na ordem do dia. Isso se dá desta forma porque estamos na época imperialista – já bem caracterizada por Lenin –, onde somente atacando a propriedade privada burguesa – isto é, os grandes monopólios industriais, o capital financeiro – poderemos resolver as questões “democráticas” mais básicas e elementares.
Na nossa época o grande capital imperialista domina todos os países. Não existem mais monarquias absolutistas ou vestígios de feudalismo. Todas as formas econômicas atrasadas estão plenamente integradas ao capitalismo. A independência nacional e a luta anti-imperialista estão relacionadas não só com a expulsão militar do imperialismo, mas também com a expropriação das multinacionais, que é uma tarefa socialista. Quem juntou as “etapas” da revolução não foi Trotsky, mas a realidade histórica. Separar as etapas da revolução na época imperialista é ter demonstrado não só profunda ignorância sobre o pensamento de Marx e Lenin, mas, sobretudo, ignorar toda a experiência da revolução russa, que demonstrou, na prática, que somente o proletariado no poder pôde resolver as tarefas burguesas “democráticas” retardatárias, como a queda da monarquia czarista, por exemplo; ao mesmo tempo que foi obrigado a ir aplicando medidas socialistas. Renegar a teoria da Revolução Permanente é renegar as Teses de Abril, de Lenin. Condenar Trotsky de querer “negar etapas da revolução” é, da mesma forma, condenar Lenin na prática revolucionária de 1917.
Outra mentira requentada por Amazonas afirma que “Trotsky não acreditava no campesinato em um país de camponeses como era a Rússia. Trotsky desmontou esta falsificação em diversas oportunidades. Na sua teoria da Revolução Permanente – sobretudo se referindo à Rússia e aos países atrasados – nunca afirmou tal coisa. Apenas disse que os camponeses devem estar subordinados politicamente ao proletariado, que é a classe mais dinâmica da sociedade moderna. Os camponeses não possuem programa ou partido próprio. Por sua própria natureza ou seguem a burguesia, ou seguem o proletariado. Neste sentido, pela lógica da teoria da Revolução Permanente, o partido revolucionário do proletariado deveria ter uma atenção especial em levantar as reivindicações do camponeses no sentido de lhe garantir o apoio, mas sempre lembrando da necessidade de que a hegemonia proletária prevaleça nesta aliança.
Toda a baboseira restante defendida por Amazonas, de que Trotsky supostamente defenderia uma “revolução simultânea internacional” é outro blefe. Trotsky dizia que: “o socialismo não pode ser realizado na arena mundial não estando seus elementos e pontos de apoio preparados em países isolados”, que não necessariamente terão revoluções simultâneas. O que Amazonas quer esconder com toda essa verborragia contra o internacionalismo proletário é o caráter patriótico e, portanto, pequeno-burguês, do stalinismo e de todas as suas variantes. Da mesma forma, quer esconder que o medo da burocracia stalinista em defender a expansão da revolução proletária aos outros países esconde os seus interesses conservadores e mesquinhos de manter o seu próprio poder enquanto casta na URSS.
Amazonas ainda sustenta que Trotsky afirmava que “a revolução não poderia acontecer nos países atrasados” uma vez que defendia que a Rússia precisaria inevitavelmente do apoio do proletariado europeu, mais experiente e mais bem armado de tecnologia do que o russo. Neste aspecto Trotsky não defende nada além do que defendia Lenin e, para isto, basta olhar as declarações de Lenin sobre a necessidade de ajuda dos operários europeus ao proletariado russo sublevado. Foi por isso que ambos esperaram insistentemente pela revolução européia, que não veio, num primeiro momento em razão das traições da social-democracia reformista; num segundo, por causa das traições do stalinismo.

As traições internacionais do stalinismo
A tentativa dos falsificadores stalinistas, onde Amazonas se enquadra, é mostrar Trotsky como um lunático, defensor de uma expansão da revolução socialista pelo mundo sem condições e de forma inconsequente. Na falta de argumentos para se contrapor ao trotskismo, se apela ao senso comum, ao ódio, à distorção e à falsificação aberta.
Trotsky denunciou todas as traições da orientação internacional stalinista no momento concreto em que aconteciam. Uma vez que a burocracia stalinista tomou o poder e o consolidou a partir do terror e da perseguição, começaram as orientações políticas desastrosas, que prepararam inúmeras derrotas (todas elas denunciadas pelos trotskistas).
Algumas delas são: traição à revolução chinesa, onde a burocracia stalinista orientou o ingresso do PC chinês no partido burguês conhecido como Kuomitang; logo depois, no seu giro “ultra esquerdista”, a burocracia stalinista tencionou os comunistas chineses a tentarem uma revolução sem condições, o que terminou num banho de sangue e o triunfo completo do Kuomitang sobre os comunistas (a revolução chinesa só triunfaria em 1949 com a ruptura da orientação oficial da URSS); relação amistosa com a burocracia sindical inglesa e orientação equivocada para a greve geral na Inglaterra de 1925; traição à revolução espanhola que lutava contra a ascensão do fascismo, inclusive se negando a fornecer armas ao campo republicano; política desastrosa de isolamento do PC alemão, o que auxiliou na ascensão do nazismo na Alemanha; política desastrosa de apoio à burguesia brasileira, liderada naquele momento por Getúlio Vargas e, posteriormente, aposta no aventureirismo de uma quartelada, conhecida como Intentona Comunista (isto é, uma tentativa de se fazer uma revolução sem condições); divisão do proletariado alemão com as potências imperialistas através da partilha da Alemanha e da construção do muro de Berlim (é possível “socialismo em meio país”?); na revolução grega do pós-guerra (entre 1944 e 1949), o stalinismo atuou junto ao imperialismo britânico para conter o processo revolucionário, como parte dos acordos internacionais de Ialta e Potsdam; na Iugoslávia, Stalin tentou desarmar e frear os partisans liderados por Tito, inclusive obrigando-os a se submeter ao governo monárquico que estava exilado na Grã-Bretanha; e, por fim, a extinção da Internacional Comunista em 1943 a pedido dos imperialismos “aliados” durante a Segunda Guerra Mundial, num esforço de “paralisar” a luta de classes em cada um dos países capitalistas para supostamente “facilitar” a luta contra o nazi-fascismo.
Se é certo que o internacionalismo proletário não se manifesta apenas pela existência de uma internacional socialista, como afirma Amazonas, também é certo que o crime de Stalin ao dissolver a Internacional Comunista fundada pelos bolcheviques em 1918 é uma demonstração dos seus serviços espúrios prestados ao imperialismo capitalista, sobretudo ao norte-americano (fato comemorado pelo NY Times na época).

Falsificações sobre a concepção de partido revolucionário de Trotsky
           Na questão do partido revolucionário novamente temos uma falsificação sobre o legado trotskista. Amazonas afirma que Trotsky teria uma concepção espontaneísta de partido. Não há nada mais longe da verdade. O Programa de Transição – documento fundador da IV Internacional – afirma que “a crise da humanidade é a crise de direção revolucionária”; isto é, da inexistência de um partido revolucionário capaz de conduzir o proletariado ao poder. No prólogo da A História da Revolução Russa, Trotsky afirma: “O traço característico mais indiscutível das revoluções é a intervenção direta das massas nos acontecimentos históricos. Sem uma organização dirigente [isto é, de um partido revolucionário], a energia das massas se volatilizaria como o vapor não encerrado em caldeiras com bombas de pistão”. Estas são as características marcantes de toda a obra de Trotsky. Sua batalha pela construção da IV Internacional reflete a sua luta por uma direção política internacional aos trabalhadores. Todo o seu pensamento está permeado da tradição leninista de construir uma organização política que crie as condições para dirigir as lutas espontâneas dos trabalhadores no sentido da tomada de poder através de uma revolução socialista. Trotsky nunca perdeu, nem por um segundo, a importância decisiva do papel subjetivo no processo revolucionário. Sendo assim, esta afirmação não passa de uma nova falsificação.
            Amazonas, por sua vez, não satisfeito em distorcer a concepção trotskista de partido, parte para ofensiva e afirma: “Lênin enfatizou que o partido do proletariado, para cumprir sua missão, tem de ser monolítico, disciplinado, vanguarda organizada da classe operária”. Lenin defendia um partido disciplinado e de vanguarda, mas nunca disse que o partido deveria ser monolítico. Quem disse tamanha asneira foi Stálin e os seus cães de guarda da burocracia. Defensores do centralismo burocrático, numa estrutura vertical e piramidal, o partido defendido pelo stalinismo não passa de uma espécie de servidão coletiva ao “guia genial dos povos”. As iniciativas individuais são totalmente controladas e os militantes de base educados à servir um dirigente, que serve a outro, que por sua vez serve ao comitê central e, por fim, ao “guia genial dos povos”, Stalin. Esta caricatura grotesca e autoritária nada tem a ver com o partido proposto por Lenin e Trotsky, baseado no centralismo democrático, onde o debate dos congressos, dos núcleos de base, a iniciativa individual dos militantes, dentro do programa proposto, é importante e decisiva para o êxito da revolução.
            O PCdoB, que apesar de hoje ser um partido social-democrata, mantém muitos traços do stalinismo “clássico”. Por exemplo: na greve do magistério gaúcho, em junho de 2016, militantes de base que votaram pela continuidade do movimento grevista junto com os núcleos do sindicato, foram centralizados pela cúpula do partido em razão dos acordos firmados na direção. À base coube o papel patético de seguir acriticamente o que mandavam os “chefes”. Eis o resumo do que é o partido stalinista e o seu monolitismo, que não tem absolutamente nada de leninista. É isto que entendem por “unidade”: a cúpula manda e a base obedece. Dentre todos os mecanismos nefastos utilizados nestes procedimentos, ainda se destacam as bajulações, a despolitização, a desinformação, a falsificação, os ataques pessoais aos oposicionistas, o baixo nível teórico.
Esta lógica se repete nas centrais sindicais, nos sindicatos, no movimento estudantil e em todos os setores onde possuem trabalho político. Ao mesmo tempo em que a estrutura partidária é monolítica, autoritária e dogmática, os movimentos são educados no economicismo mais rasteiro. Uma prática alimenta a outra. Vejam a atuação sindical e política da CTB, da UJS, da UNE, da UBES – entidades e corrente dirigidas pelo PCdoB. Quem defende o reformismo e o economicismo hoje? A política trotskista ou a stalinista?

Trotsky nunca foi leninista?
            Todos sabem que Trotsky foi um dos principais dirigentes da Revolução Russa de 1917 ao lado de Lenin. Mesmo toda a falsificação de fotos, livros, documentos e arquivos por parte do stalinismo não foi capaz de apagar este fato inquestionável. Autores como John Reed, Victor Serge e tantos outros não deixam nenhuma margem para dúvidas.
            Lenin foi o grande organizador e teórico do partido bolchevique. Suas Teses de Abril rearmaram ideologicamente os trabalhadores em sua luta contra o czarismo e a burguesia. Mas Trotsky não fica atrás. Como presidente do soviete de Petrogrado, principal dirigente do Comitê Militar Revolucionário – órgão da insurreição que dirigiu a revolução com o apoio e o consentimento de Lenin –; organizador e inspirador do Exército Vermelho, Trotsky teve papel determinante em todo o processo revolucionário. E onde estava Stalin? Em março de 1917, como redator chefe do Pravda, estava apoiando o governo provisório de Kerensky. Isto é, seguiu a linha política dos mencheviques. Sempre nos bastidores e de forma silenciosa, Stalin ia seguindo os passos de Lenin, mas nunca se posicionando abertamente.
            Amazonas afirma que Trotsky e os trotskistas nunca apresentaram divergências com Lenin, mas apenas com Stalin. Isto é outra distorção. Trotsky em suas obras sempre demonstrou que teve muitas divergências com Lenin. Divergências estas que foram totalmente exploradas pela burocracia stalinista para tentar vender Trotsky como “anti-leninista”. Na sua autobiografia e em muitas outras obras, Trotsky explica o conteúdo real destas divergências com Lenin, que foram totalmente superadas a partir dos acontecimentos históricos, que levaram Trotsky a aderir ao partido bolchevique, em 1917, com a total aprovação de Lenin, que chegou a dizer: “desde que Trotsky entrou no partido, não houve melhor bolchevique do que ele”.
            O curioso é que o stalinismo sempre se utiliza das mesmas divergências entre Lenin e Trotsky no ano de 1911, quando o último ainda tinha ilusões na unificação do POSDR e, especialmente, entre a fração menchevique e bolchevique. Nos anos seguintes, e sobretudo após a revolução, Trotsky sempre se auto criticou sobre tal conduta, superando-a na teoria e na prática. Lenin e Trotsky tiveram muitas divergências, mas muito mais convergências que os aproximaram decisivamente para dirigir a revolução em 1917 e para preparar o combate à burocracia soviética. Lamentavelmente, Lenin morreu antes deste combate decisivo.
João Amazonas ainda tenta confundir a militância requentando o velho embate sobre a questão dos sindicatos na URSS, que separou os dois revolucionários taticamente, em 1920. Logo após o término da guerra civil, Trotsky defendia a militarização dos sindicatos e a nomeação dos seus dirigentes pelo governo soviético. A ideia de militarização dos sindicatos era semelhante ao que Trotsky fez com as milícias operárias da Revolução de 1917, transformando-as no Exército Vermelho, vencedora da guerra civil. Outro efeito com essa medida seria possível afastar agitadores irresponsáveis por sindicalistas preocupados com a produção. Porém, essa proposta gozou de ampla antipatia entre os dirigentes sindicais e parte do partido, sendo usada anos mais tarde contra Trotsky pelo stalinismo.
Lenin corretamente o criticou. Neste polêmica, escreveu: “Repito, a divergência efetiva não consiste de modo algum no que pensa o camarada Trotsky, mas no problema de como ganhar as massas, no problema de como abordá-las, de como nos ligarmos com elas”. No mesmo texto, Lenin salienta que: “No programa de nosso Partido já assinalamos que nosso Estado é operário com uma deformação burocrática”. Ou seja, os sindicatos deveriam ser autônomos e ligados diretamente à sua base industrial de representação para lutar contra possíveis excessos por parte deste “Estado operário com uma deformação burocrática”.
Lenin criticou Trotsky pelos seus erros; o stalinismo, escarafunchando divergências antigas e utilizando-as fora de contexto, critica Trotsky pelos seus acertos. Não há nenhuma linha de continuidade entre essas críticas. O mais engraçado nisso tudo é que Amazonas critica a “militarização dos sindicatos” quando se trata de Trotsky, mas nunca se opôs à “militarização” e à nomeação burocrática desde cima por parte de Stalin e dos seus sucessores, não apenas dos dirigentes dos sindicatos, mas dos membros para a presidência dos sovietes, para as empresas estatais, para os principais cargos do exército.

Sobre as citações fora de contexto
            No texto de Amazonas, lemos uma citação de Trotsky completamente descontextualizada sobre o México. Trata-se da tentativa de discutir a situação política mexicana sob a presidência do populista Lázaro Cárdenas (uma espécie de Getúlio Vargas mexicano). A citação é a seguinte: “Os autores do programa querem construir completamente o capitalismo de Estado, num período de seis anos. Mas uma coisa é nacionalizar as empresas existentes e, outra, criar novas empresas com meios limitados e num terreno virgem. A história conheceu um exemplo de indústria criada sob a supervisão do Estado: a URSS. Mas foi preciso uma revolução socialista. (...) No México não temos uma revolução socialista, o país é pobre. Nestas circunstâncias, seria quase um suicídio fechar as portas ao capital estrangeiro. Para construir o capitalismo de Estado, é preciso o capital”.
Logo a seguir, fazendo uma interpretação patética, Amazonas afirma que: “como não havia uma revolução socialista no México, o jeito era construir o capitalismo de Estado com recursos do capital alienígena que, afinal, acabou submetendo o México, vizinho dos Estados Unidos, aos banqueiros norte-americanos”.
            Dá náuseas ter que responder uma tentativa vil e mesquinha de denegrir a imagem do velho revolucionário utilizando-se deste tipo de embuste. Neste texto, Trotsky fazia uma análise do plano sexenal no México, o que seria uma cópia mal feita dos planos econômicos da URSS, numa tentativa de Cárdenas em aplicar uma espécie de “capitalismo de estado”. No trecho selecionado capciosamente pelo falsificador Amazonas, Trotsky ressaltava especificamente as limitações deste plano, justamente por não ter existido no México nenhuma revolução socialista. Neste mesmo texto, Trotsky fala que “Em uma sociedade onde prevalece a propriedade privada, é impossível que o governo conduza a vida econômica de acordo com um ‘plano’”. Mas Amazonas, patético e sagaz, tenta iludir os desavisados de que Trotsky supostamente havia aberto mão da revolução socialista e aderido ao “capital alienígena”. Para conseguir “incriminar” Trotsky, Amazonas vai escarafunchar novamente textos específicos, descontextualizando-os completamente. É desta forma bastante original que o stalinismo tenta vender Trotsky como “agente do imperialismo norte-americano”. Não há nada mais patético e deprimente. Este velho método stalinista, amplamente utilizado nos Processos de Moscou, que deveria corar de vergonha qualquer indivíduo que conheça a história, é utilizado desavergonhadamente por Amazonas.

Os “trotskistas” e Trotsky
            Na sua busca desesperada para tentar desmoralizar Trotsky, Amazonas se utiliza, indistintamente da “teoria” de certos “trotskistas” que renegaram os princípios do trotskismo. Ele escreve que “não é acidental que os trotskistas vejam em cada movimento mais combativo das massas, ou nas crises políticas, o imediato e automático surgimento da revolução”. Os autênticos trotskistas concordam que um “movimento mais combativo das massas” ou “crises políticas” não levam automaticamente ao surgimento de revoluções. Porém, muitos ditos “trotskistas” acham que sim. E aí reside um grave desvio espontaneísta explorado pelo ágil Amazonas. É preciso ressaltar a profunda diferença entre o trotskismo de Trotsky e o “trotskismo” de PT, PSTU, PSOL e afins.
Nomeadamente, Amazonas cita Nahuel Moreno; um velho dirigente argentino, fundador do MAS e da LIT, e teórico reivindicado por PSOL (CST, MES e outros) e PSTU. Moreno renegou a essência da teoria da Revolução Permanente, a política sobre frente única, bem como realizou uma tentativa desastrosa de “atualizar” o Programa de Transição, que na verdade não passou de uma forma de renegá-lo. Para Moreno, qualquer “movimento mais combativo das massas” ou revolta é tratada como uma “revolução”, sendo, portanto, um espontaneísta da pior estirpe. A teoria morenista de que ainda é possível existir “revoluções democráticas”, não apenas o torna um revisionista sem princípios do trotskismo, como o aproxima da teoria stalinista da “revolução por etapas”, só que com outro nome e outros métodos. Amazonas tenta atribuir o espontaneísmo reformista e etapista de Moreno a Trotsky. Mas entre ambos há um abismo.
Amazonas ainda tenta insinuar que Kruschev tem alguma influência trotskista, mas isso também está muito longe da verdade. Criticar Stalin leva automática e oportunisticamente os acéfalos stalinistas a colocarem o rótulo de “trotskista”. Logo, Stálin é como um “deus” que nunca pode ser criticado. As denúncias dos crimes de Stálin, feitas por Kruschev no XX Congresso do PCUS, não tem absolutamente nada de “trotskismo”, ainda que ajudem a comprovar o que Trotsky defendeu e sustentou sobre o stalinismo. Kruschev, que foi nomeado e escolhido por Stalin entre uma rede de inúmeros burocratas a seu serviço, denunciou os crimes do stalinismo, mas não rompeu com a sua política ou sua “teoria”. Continuou condenando e perseguindo os adeptos do trotskismo. Sob a égide de Kruschev, a teoria do “socialismo em um só país” transformou-se em “coexistência pacífica com o imperialismo”. As traições ao movimento operário internacional continuaram até a invasão militar do leste europeu pelos tanques soviéticos.

A tática do entrismo e o PT
            Muito assustado com a tática do “entrismo” preconizada por Trotsky nos anos 1930 – sobretudo pelo fato de diversos grupos trotskistas terem a utilizado na fundação do PT, na década de 1980 –, João Amazonas vê nela uma grave “degeneração” e “deslealdade”. Porém, na política e nos métodos do stalinismo não há nada de degenerado ou desleal. Trotsky realmente defendeu esta política na tentativa de disputar internamento os grandes partidos socialistas da Europa Ocidental, na tentativa de ganhar os seus setores combativos e lutar contra os reacionários. Queria acelerar crises e rupturas. Tratava-se do futuro da primeira experiência socialista, a URSS, que estava de pé como um estandarte permanente de luta contra o capitalismo e ameaçada por diversas potências internacionais. Os partidos socialistas europeus caminhavam lentamente, influenciando decisivamente o movimento operário de cada país do velho continente no sentido do reformismo. Eram táticas específicas e pontuais para alguns casos da Europa.
            Em um contexto diferente se deu o entrismo no PT, que certamente seguiu a influência desta tática específica preconizada por Trotsky, mas não para defender os mesmos princípios e o mesmo programa. É justamente esta tática que desencadeou o ódio de Amazonas e, possivelmente, tenha sido a razão de ter escrito o texto caluniador. Muitas dessas correntes ditas “trotskistas” já romperam com o PT, embora algumas (como “O trabalho”), ainda permaneçam lá. Cabe ressaltar que estas correntes eram e são, essencialmente, revisionistas do trotskismo nas suas questões fundamentais. Fato totalmente ignorado por Amazonas. Também é importante frisar que trotskismo nunca defendeu um partido de tendências, descentralizado, tal como é o PT, PSOL e outros. Esta interpretação de Amazonas é sua; e somente sua.
           
Conclusões
            Muitas questões ainda poderiam ser ditas. Responder falsificadores e caluniadores é uma tarefa muito árdua, pois reconstruir os estragos feitos é sempre mais difícil do que destruir. Cabe ressaltar que Trotsky nada tinha de pessimista, tal como tenta induzir o “otimista” Amazonas. Pelo contrário: mesmo perseguido e caluniado por todo um aparato estatal degenerado, seguiu firme e forte, defendendo a revolução socialista, propagandeando o legado da Revolução de Outubro de 1917, ajudando os trabalhadores de diversos países a construírem suas ferramentas de luta, seus partidos revolucionários. Para Amazonas, falar a verdade, “por mais amarga que seja”, é pessimismo. Educado numa tradição stalinista, ele prefere dourar a pílula para não perder influência política e bajular sua “base”. Em suma, trata-se da velha utilização da demagogia barata, que não combina com falar a verdade doa a quem doer.
            João Amazonas ainda tenta dizer que Trotsky foi “rejeitado” pelo povo soviético. Lamentavelmente, o stalinista brasileiro tenta justificar os crimes de Stalin cometidos não apenas contra Trotsky, mas contra uma geração de militantes trotskistas dentro e fora da URSS, novamente se utilizando de mentiras. O fato de Stalin ter banido Trotsky para Alma-Ata e depois para Constantinopla, e não ter conseguido assassiná-lo abertamente dentro da URSS, tal como fez com Bukharin, Kamenev e Zinoviev, é a prova de que ele era um estandarte vivo, fundador e chefe do Exército Vermelho, teórico reconhecido. Durante muitos anos a foto de Trotsky era levantada ao lado da de Lenin nas manifestações de rua. Foi preciso uma gigantesca lavagem cerebral, a falsificação de fotos, arquivos e documentos, somada a uma brutal repressão, para que Stalin conseguisse banir o velho revolucionário de solo soviético. É esta campanha criminosa que Amazonas e o PCdoB seguiram realizando. Os militantes da juventude do PCdoB, a UJS, cantam palavras de ordem para os militantes trotskistas nos congressos da UNE e da UBES, “reivindicando” o assassinato de Trotsky por Stalin. Não apenas não sentem vergonha, como estão dispostos a cometer os mesmos crimes.
            Apesar da grande consternação que os trotskistas sentem ao ver tamanha maquinação e mentiras que não se respaldam em um único fato histórico, é compreensível o motivo porque agem desta forma: a obra de Trotsky é um estandarte de luta contra as burocracias políticas ditas “socialistas” que desmascara todo o papel nefasto cumprido por elas tanto dentro dos seus respectivos países, quanto na luta de classes internacional. Da mesma forma, todas as organizações e partidos de “esquerda” que levantam o nome de Stálin sem corar de vergonha, encontram-se desmascaradas e desarmadas perante tal denúncia. Só restam os seus métodos autênticos da calúnia e difamação!
O desafio para os caluniadores stalinistas continua sendo responder uma única crítica trotskista:
1) É possível socialismo em um só país, a revolução por etapas, o apoio às burguesias nacionais dos países de terceiro mundo? Isso seria um passo para o socialismo ou uma forma camuflada de levar os países ditos “socialistas” a restaurarem o capitalismo?
2) As frentes populares foram uma tática política correta ou de conciliação de classes, eleitoreira e degenerada, que levou inúmeros partidos comunistas a liquidarem sua independência de classe e a sustentarem a burguesia dos seus respectivos países, se adaptando à democracia burguesa?
3) O papel cumprido pela política de Stálin na revolução chinesa, alemã, espanhola, brasileira, na greve geral francesa de 1936, e em tantos outros lugares, foi correto – ajudando a desencadear e vencer revoluções – ou uma forma de enterrá-las, criando um vácuo que debilitou e destruiu as suas respectivas vanguardas proletárias durante anos e algumas irremediavelmente até hoje?
4) A burocracia política de Stálin à frente do Estado Soviético, logo após usurpar o poder político do autêntico Partido Bolchevique e a soberania dos Sovietes, levou ao triunfo do socialismo na União Soviética – como a máquina de calúnias propagandeava aos quatro cantos – ou levou ao emperramento econômico e, posteriormente, à restauração do capitalismo?
5) Que posição tomam os atuais caluniadores de Trotsky sobre os Processos de Moscou que assassinaram toda a velha guarda do Partido Bolchevique; bem como, qual a sua posição sobre os inúmeros militantes trotskistas delatados, presos, torturados e mortos pelo stalinismo não apenas na Rússia, mas também na Europa?
Muitas outras questões como estas poderiam ser levantadas e certamente ficariam no ar, envoltas por um silêncio constrangedor. Antes de tentarem enlamear o nome do grande revolucionário com calúnias e distorções, os pigmeus stalinistas, chafurdando na própria lama que criaram em volta de si, precisam responder a estas perguntas.
Fora do socialismo não há perspectiva para a humanidade. Para que consigamos voltar a propagandear o socialismo e colocá-lo como perspectiva no horizonte dos trabalhadores, precisamos compreender o que foi o stalinismo, para superá-lo definitivamente. E para que possamos voltar a propagandeá-lo é preciso revitalizá-lo aos olhos do proletariado, limpar o seu nome enlameado pelos crimes de Stalin. Nesse sentido, não há possibilidade de socialismo fora da perspectiva que o trotskismo traçou.
            O aparato stalinista não conseguiu apagar Trotsky e a sua obra da história. Estes venceram pela força do seu programa, da sua teoria, das suas ideias, do seu legado. Os trabalhadores conscientes sobre a história do movimento operário não devem deixar que esta máquina de calúnias continue impune. Todas as mentiras, calúnias e distorções devem ser respondidas com uma crítica a ferro e fogo, demonstrando qual é o nível moral do stalinismo e o que ele representou para a luta pelo socialismo.
A eles responderemos em alto e bom som: falsificadores stalinistas, empenhados até hoje em caluniar o trotskismo, não passarão!



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