quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A psicopatia do império e o sequestro de Maduro

 


O inaceitável sequestro de Maduro veio na esteira do lançamento da Doutrina Trump, que expõe ao mundo a psicopatologia do império.

A superioridade militar estadunidense, usada para sufocar e chantagear quem ousa criticá-lo, foi rápida e fatal. Mas nenhuma guerra, por mais superioridade tecnológica e militar de que disponha um dos lados, pode ser vencida sem um aparato de propaganda e narrativas que prepare o caminho.

Sabemos que a grande mídia latino-americana foi a principal arma de guerra do império estadunidense, secundada pelas sanções e embargos econômicos de décadas à Venezuela. Mas há ainda uma arma de guerra que precede tudo isso, sem a qual o jornalismo mercenário não pode fazer efeito: o estilo de vida, a filosofia pragmática e a economia sustentada pelo império norte-americano que naturalizam e legalizam a psicopatia em larga escala, cujo ápice foi atingido com as práticas neofascistas do governo Trump.


A psicologia de massas como arma de guerra

Não é somente a alta tecnologia militar da máquina psicopática de guerra dos EUA que desarma os radares de caças e mísseis de qualquer país, mas o tipo de propaganda política institucional, o jornalismo neocolonial e a filosofia de vida que torna inútil uma “bateria antiaérea racional” para o povo, fazendo “patriotas” se ajoelharem e prestarem continência à bandeira imperialista estrangeira.

Quando se chega a este estado de coisas é como se um vírus se espalhasse por entre as pessoas, anulando qualquer capacidade e esforço racional, por mais bem montados que sejam.

Nesse sentido, a principal arma de guerra do império estadunidense contra a América Latina não é a bomba atômica, os porta-aviões, a IA, os drones ou o que quer que seja no campo militar, mas a mente do seguidor de Bolsonaro, Milei, Kast e do gusano da Flórida, cuidadosamente cultivada por anos de propaganda neoliberal, a que chamam de “jornalismo”. 

Trata-se do melhor cavalo de Tróia que pode haver, pois entende entreguismo como patriotismo; pirataria, saque e extorsão como desenvolvimento econômico; além de ser imune a todo fato histórico ou argumento racional, celebrando a injustiça como algo digno e desejável. Ela não só antecede as invasões, como prepara o caminho para o ataque estrangeiro, comemorando-o como se fosse um título de Copa do Mundo!


A manipulação egotista da psicologia de massas

Mas como o império, com seus sucessivos governos, aparatos militares e propagandísticos, atacando, invadindo e bombardeando abertamente inúmeros países pelo mundo, consegue esse grau de alienação e subserviência?

A resposta é: com a manipulação egóica dos sentimentos infantis mal compreendidos e mal resolvidos que existem em nós; com a recusa em olhar a realidade de frente e de se posicionar levando em consideração as outras pessoas além do nosso próprio umbigo. Muitos destes sentimentos manipulados são psicopáticos e são capazes de gerar prazeres sadomasoquistas.

O império e sua mídia se especializaram em manipular taras, ódios e medos, dentre os quais o maior de todos é o medo da morte, do fim de si mesmo; isto é, do fim do ego. O império logrou associar na mente de bilhões de pessoas a defesa do próprio ego com a defesa dos interesses estratégicos dos EUA.

Defender os sórdidos interesses econômicos dos EUA soa natural para bilhões de pessoas. Os “homens-bomba” norte-americanos explodem em reações emocionais desequilibradas e intolerantes frente ao menor questionamento político da conjuntura, seja na Venezuela, no Brasil, nos EUA ou no mundo. Esta psicopatia é caracterizada por fazer o indivíduo perder a capacidade de empatia e escuta, bloqueando o cérebro racional para fatos e argumentos bem construídos.

Assim, eles endossam ataques, invasões — como o sequestro de Maduro —, bombardeios, guerras e até mesmo genocídios — como o ocorrido em Gaza.

A psicopatia legalizada pelo império através da mídia e de inúmeras instituições políticas legaliza também a violência simbólica e real, as quais exercem um certo fascínio sobre a psique egocentrada, com fortes tendências sadomasoquistas.

Chegamos ao ponto em que os golpes imperialistas acontecem escancaradamente, rompendo qualquer resquício de direito internacional, onde um presidente psicopata, secundado por ministros psicopatas, podem falar abertamente que “vão controlar o governo e o petróleo da Venezuela”; ou que “este hemisfério é nosso”; ou, ainda, que “o mundo é governado pelas leis de ferro da força bruta” e não serem condenados por milhões de pessoas, mas aplaudidos de pé, com os olhos vidrados pelo fascínio da força primitiva, que desencadeia emoções primitivas.

A maioria destas pessoas que aplaudem de pé, são as mesmas que depois vão rezar a Deus e a Jesus pedindo paz e prosperidade para si e para a família; ou, então, vão reclamar da pobreza e das condições precárias do seu próprio país.

É o triunfo televisionado da estupidez humana!

É um brinde à psicopatia!

É a vitória do império do caos, que impõe a economia política da chantagem e a permanente instabilidade nos outros países — em especial na América Latina e no Oriente Médio — para garantir a sua própria segurança nacional.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Como Jessé pretende ressuscitar a esquerda?

 

Um debate entre Jessé Souza, Rosa Luxemburgo e Florestan Fernandes


O proletariado atingirá o objetivo de sua viagem — sua libertação —
se souber aprender com os próprios erros.
Para o movimento proletário, a autocrítica, uma autocrítica impiedosa,
severa, que vá à raiz das coisas, é o ar e a luz sem os quais ele não pode viver.

(Rosa Luxemburgo — A crise da social-democracia). 

 

           Que a esquerda está morta não há dúvidas. 

Mas de qual esquerda estamos falando?

            Podemos resumir a esquerda a um todo só e, em particular, ao petismo? E o mais importante: podemos abrir mão dos históricos métodos de luta da esquerda no sentido da resistência à dominação dos ricos e poderosos?

            O novo “best-seller” de Jessé “Por que a esquerda morreu? E o que devemos fazer para ressuscitá-la” faz um resgate importante da evolução das correntes políticas deste campo desde o século XIX, porém, deixa várias lacunas e ausências muito perigosas que precisam ser pontuadas.

 

I - Definição de esquerda:

            Para Jessé, ser de esquerda significa apenas lutar pelo controle político sobre o capital.

            É uma definição muito singela e vaga. Por exemplo, a China atual seria “de esquerda” porque controla politicamente o capital — ou, pior ainda, a maioria dos países europeus, incluindo alguns asiáticos, como Coréia do Sul e Japão, também poderiam ser considerados de “esquerda” pelo mesmo critério?

            Jessé não diz que tipo de controle político deveria ser exercido sobre o capital. É, portanto, impreciso.

            Um projeto de esquerda não pode ser resumido ao “controle político do capital” sob pena de fazer com que o debate retroceda para antes do século XIX. Uma noção mais avançada e pertinente sobre o que é “ser de esquerda” deveria abarcar, no mínimo, a necessária compreensão da importância de superar a sociedade capitalista, dando condições para a criação de formas materiais e espirituais desta superação, fazendo com que os trabalhadores e a maioria das pessoas tenham possibilidade de influir sobre a produção econômica, a política, a educação, a cultura, etc., no sentido de possibilitar o surgimento e o desenvolvimento de um ser humano novo, pleno e com condições de autorrealizar-se social e individualmente.

            Dito de outra forma: a esquerda, percebendo que os ricos e endinheirados são conservadores por natureza e, portanto, de “direita”, deve trabalhar pela plena emancipação do ser humano trabalhador e pobre das condições de exploração, ignorância e dependência material e espiritual em que se encontra submetido na esmagadora maioria dos países do mundo. Que o programa da esquerda que visa a edificação de uma nova sociedade crie as condições para que todos sejam capazes de buscar o que realmente são interiormente (self) e, também, se estabeleça relações o mais harmoniosamente possível entre todos os membros da sociedade.

            Retroceder desta noção debatida política e filosoficamente por socialistas, marxistas e anarquistas ao longo do século XIX não é apenas um retrocesso ideológico; ele ajuda a “direita” e os setores conservadores a esconderem a diferença de perspectivas entre um projeto de concentração de riquezas e de poder; e o de emancipação humana e o máximo de igualdade social possível.

            Poderíamos arriscar uma definição de um tipo mais genérico que também possui seus grãos de verdade. A esquerda se preocupa com o outro, em ouví-lo, em levar seus interesses, anseios e medos em consideração (ainda que muitos militantes de esquerda não cheguem nem perto desta atuação prática); enquanto que a direita é mais egoísta, voltada a beneficiar os interesses egotistas acima dos coletivos e sociais, gerando, de uma forma ou outra, uma guerra de todos contra todos. A sociedade capitalista, por sua natureza, beneficia as relações “de direita” às relações de esquerda; isto é: coloca os interesses da economia privada acima dos interesses da economia pública.

***

            Há ainda a diferença entre esquerda reformista e revolucionária, fruto da discussão do movimento operário alemão, cuja principal expoente nesta polêmica foi Rosa Luxemburgo. Para Jessé, tudo isso é passível de ser ignorado através de um rótulo mágico de “controle político sobre o capital”.

            É a esta concepção estreita de esquerda que seu livro se refere do início ao fim. Apesar da falta de precisão neste aspecto, é notório que ele se refere ao PT como o centro da esquerda, sendo as qualificações de reformista ou revolucionária totalmente ignoradas.

            Cabe destacar que o PT não se enquadra neste conceito de “esquerda”, dado que seus governos não chegam nem perto de controlar politicamente o capital, senão que, em última análise, são controlados por ele — a despeito de discursos e declarações por parte de sua militância.

            Toda a esquerda — seja ela reformista, social-democrata ou revolucionária — está morta da mesma forma? Não seria importante diferenciar? 

Apesar desta falha do autor, podemos constatar que a esquerda que se julga revolucionária é refém dos guetos, pois não consegue evoluir e, grande parte dela, espera crescer messianicamente, muitas vezes sofrendo de delírios irreais. De certa forma, por ser quase insignificante em sua agitação e propaganda dogmáticas, pode ser considerada morta também, mas isso não significa que parte da solução para o problema de “ressuscitar” a esquerda esteja num remendo do PT.

            Com relação à esquerda reformista e social-democrata, vale apontar que ela já era um cadáver insepulto desde 1914, conforme afirmou Rosa Luxemburgo. O que o PT fez, em última instância, foi tentar reavivar velhas práticas social-democratas moribundas, há muito criticadas, seja por Rosa, seja por Florestan Fernandes. 

A um partido reformista e social-democrata, como o PT, corresponde uma política e um programa incapaz de denunciar coerentemente a estrutura do sistema do qual torna-se dependente.

 

II - Jessé faz uma breve análise política correta sobre o petismo, mas ela entra em contradição com o restante do livro: 

            Apesar desta confusão de conceitos e definições sobre o que é ser de esquerda, pela primeira vez pudemos ler uma crítica correta de Jessé à atuação política do petismo. 

            Ele escreveu: “ao compartilhar o imaginário elitista dominante na sociedade, o PT se transforma, sabendo ou não — e eu imagino que até hoje não tenha a menor ideia —, em um mero plano B da elite paulista, condenado a meramente administrar o capitalismo periférico com um toque de empatia popular, sem jamais se contrapor a ele e sem ao menos tentar desconstruí-lo” (página 109).

            Esta análise correta, a despeito da inaceitável concessão à “ingenuidade petista”, contradiz a maioria dos livros que escreveu anteriormente. A essência da questão é exatamente esta: o PT se colocou como um mero administrador do capitalismo periférico, dando a este projeto um verniz popular. E neste triste papel acaba sendo um mero plano B da elite paulista.

            Bravo, Jessé!

            Antes tarde do que mais tarde!

            Chegou com um certo atraso à conclusão que a esquerda revolucionária já sustentava, pelo menos, desde 2003, e que Florestan Fernandes já vislumbrava desde… 1988!, quando foi deputado constituinte pelo PT.

            Este reconhecimento tardio se constitui no ponto de partida mais importante para investigarmos a “morte da esquerda”. Porém, desgraçadamente, ele mereceu apenas uma citação passageira em um único parágrafo de um livro que tem 136 páginas!

Jessé ainda escreve, em tom choroso, que: “O PT, a despeito de suas inegáveis contribuições históricas à luta contra a desigualdade no nosso país, jamais percebeu a transcendental importância da luta cultural pelo imaginário social da população. [...] O PT abraça, certamente sem o saber, o imaginário social de seu inimigo de classe: como não percebe a importância da luta cultural na sua inteireza, o PT prescinde de qualquer leitura alternativa da realidade, caindo em um economicismo ingênuo. Comecemos pelo primeiro ponto. Ao cortar qualquer relação com o trabalhismo anterior, o PT se joga, inevitavelmente, nos braços do imaginário da elite paulista, construído, com precisão de alfaiate, para se contrapor ao imaginário inclusivo de Getúlio Vargas” (páginas 104 e 105).

Como um partido que presidiu o país por mais de 3 gestões federais, além de contar com inúmeros governos estaduais e prefeituras, somando mais de 3 milhões de filiados, dezenas de fundações de intelectuais e dirigindo a CUT e centenas de sindicatos espalhados pelo Brasil pode não perceber a importância da “luta cultural pelo imaginário da população”?

            Não seria mais honesto e correto reconhecer que as exigências da sua estratégia política de compor uma permanente frente ampla — sobretudo com parte da elite paulista — o obriga à renunciar a esta disputa, lhe criando mil constrangimentos e empecilhos políticos sob pena de romper a “governabilidade” institucional à qual se submete como se fosse uma exigência divina?

            Se o PT e o movimento dirigido por ele se colocarem em marcha na disputa por uma nova narrativa e um novo imaginário que se contraponha à elite paulista, isso provavelmente resultará em rupturas e choques com grande parte da mentalidade conservadora de sua base social, cultivada a partir de inúmeras ilusões reformistas, pacifistas, empresariais e religiosas (isto é, entrará em rota de colisão com o imaginário criado pela elite paulista). 

Não foi exatamente isso que aconteceu com Vargas em 1930-1932-1954? Não é justamente isso que o petismo tenta evitar com todas as suas forças desde antes de 2003?

Como Jessé renega o marxismo, perde com isso sacadas materialistas importantes, como, por exemplo, a que afirma que a todo poder ideológico corresponde um poder material que lhe dá sustentação. Vargas apenas conseguiu modificar a narrativa e disputar um novo imaginário porque enfrentou os barões paulistas do café na arena da economia e da política através de uma ditadura. É inviável disputar a narrativa e o imaginário nacional se não há disputa e enfrentamento sério no campo econômico e político com o agronegócio, o sistema financeiro e os seus sustentáculos na elite paulista. Ao contrário. O petismo é apoiador direto ou indireto destes setores e espera mudanças pacíficas via eleições e “maiorias” no Congresso Nacional.

Jessé nos deixa, então, paralisados dentro de um círculo vicioso que ele não vê — ou não quer ver? — de que a estratégia e o programa petista desde antes do primeiro mandato de Lula, em 2003, abdicam da disputa pela hegemonia narrativa e o imaginário nacional em nome da “unidade política e institucional” com grande parte da elite nacional, incluso parte da paulista. Se o petismo mexe uma simples peça no sentido de fazer esta disputa, ele sofre com a ameaça de ruptura da frente ampla que construiu por iniciativa própria. E esta simples ameaça pode pôr abaixo todo o frágil castelo de cartas. A burguesia, seja a que está no governo ou a que está na oposição, sabe muito bem desta contradição e joga com ela.

 

III - O grande problema da esquerda para Jessé é a ausência de uma narrativa e de um imaginário nacional alternativo ao da elite paulista:

            De fato não existe uma narrativa e um imaginário nacional alternativo ao da elite paulista para o Brasil. E esta ausência cobra um preço alto. 

Mas seria isto a principal razão para a morte da esquerda? Ou estaria no fato de que a esquerda não consegue traduzir uma política revolucionária para a atualidade, capaz de dialogar, galvanizar e mobilizar amplos setores das massas populares?

            Para compreender esta contradição temos que fazer uma análise da psicologia de massas e de como a direita neofascista consegue fazer isso com muito mais maestria do que a esquerda.

            Jessé faz uma boa reconstrução teórica a respeito desta questão no seu livro, indo desde os laboratórios sociais da propaganda norte-americana de manipulação das massas, passando por outros países do mundo, até chegar ao Brasil. No entanto, Jessé também termina refém de uma contradição que ele não vê — ou não quer ver? — e que é reproduzida por quase toda a esquerda.

            Qual seja: em razão dos refinados métodos de manipulação da psicologia de massas, a maioria dos trabalhadores tem preferido ir à direita do que à esquerda. Não basta, portanto, uma narrativa alternativa, por mais importante que seja — e que de fato não existe, sobretudo por causa da atuação prática do PT, precisando ser construída. Como vimos, isso pressuporia que o PT está disposto a romper suas alianças com parte da elite nacional e paulista; ou, então, que a esquerda revolucionária tem disposição de se reconectar com a realidade e parar de reproduzir dogmas. Mas uma falha parece alimentar a outra e não temos sabido quebrar o círculo vicioso.

            Ainda que a direita neofascista tenha se refinado na psicologia de massas, podendo incentivar o ódio, as taras e as perversões livremente, sem nenhum problema ético; o petismo também tem suas artimanhas nesse campo, mesmo sendo mais moderado e comedido.

            Jessé reconhece que o petismo dá “empatia popular” ao “plano B da elite paulista” e à escravizante tarefa de “administrar o capitalismo periférico”, mas não diz porque isso ocorre. 

Se o petismo ainda tem apelo popular é porque também cultiva ilusões familiares e caras à grande massa, inclusive no campo religioso evangélico. Em outro livro, Jessé reconhece que “os pobres são pragmáticos. Eles percebem a política como um jogo sujo e corrupto dos ricos e querem saber quem, no final das contas, vai ajudá-los de algum modo efetivo” (in A guerra contra o Brasil. Editora Estação Brasil, Rio de Janeiro, 2020 - página 180).

Como construir uma narrativa alternativa ao imaginário nacional que consiga romper com essa conduta “pragmática” do povo e não reforçá-la? Quantos eleitores e sindicatos o petismo perderá caso vá à esquerda, rompendo e se chocando com o imaginário oficial instituído pela elite paulista e sua mídia, bem como questionando o seu “economicismo” mais pragḿatico e rasteiro? Existe honestidade e coragem suficientes no PT para isso?

            Eis o ponto central que Jessé deveria abordar e responder…

 

IV - A “revolução expressiva” e luta habermasiana pela opinião pública:

            Jessé defende que a grande mudança se deu com a “revolução expressiva” dos jovens das décadas de 1960 e 1980, pois colocavam o problema da integralidade do ser humano e não apenas o do homo economicus, produtivista.

            Não há dúvidas de que foram movimentos importantíssimos que abriram vários caminhos não explorados pela esquerda ainda hoje, sendo necessário aprofundar o debate. Mas certamente Jessé dá uma força sobrenatural com contornos milagrosos para estas revoluções. Para podermos apreciá-las como devem ser – isto é, baseado no realismo –, precisamos estudá-las muito além do ufanismo milagroso.

            O mesmo exagero milagroso é feito em nome da disputa – eleitoral – pela esfera da opinião pública. Certamente é outro campo que a esquerda não disputa corretamente, muitas vezes se colocando como papagaio de pirata do discurso oficialista e reforçando estereótipos. No entanto, a psicologia de massas da direita neofascista tem sido muito mais eficaz do que a esquerda pelas razões expostas acima e que serão aprofundadas mais adiante.

            Como o próprio Jessé reconhece, a “revolução expressiva” e o Estado de Bem Estar Social não teriam sido possíveis sem a existência da URSS. Porém, na sua esforçada tentativa de ressuscitar a esquerda, contraditoriamente, Jessé ignora por completo as experiências do “socialismo real”, com toda a sua riqueza de lições, envolvendo bilhões de seres humanos, como se fosse algo passível de ser secundarizado.

            Ele diz, simplesmente, que “as revoluções violentas, como a francesa, de 1789, ou a russa, de 1917, mais tarde foram incapazes de produzir esse aprendizado, com frequência significando a mera substituição de estruturas oligárquicas. O Antigo Regime é restaurado poucos anos depois da Revolução Francesa. E as relações autoritárias da época dos czares retorna à União Soviética sob a forma de uma dominação burocrática. As revoluções de consciência, ao contrário, mudam a forma como o povo percebe e interpreta a vida social como um todo, transformando assim, a partir de dentro, todas as relações sociais” (página 36).

            Tanto a revolução francesa quanto a russa foram filhas de seu tempo histórico. No entanto, também foram revoluções de consciência. Elas moldaram e prepararam o caminho para outras formas de revolução, como a própria “revolução expressiva”, ajudando a formar e a consolidar esferas de opinião pública (mesmo que às avessas) e o perigoso Estado de Bem Estar Social europeu.

            Junto com as “revoluções expressivas” e as formas de assegurar o debate público nas esferas de opinião pública, garantindo direitos em um Estado de Bem Estar Social, é fundamental estudar, conhecer e se preocupar com as instituições surgidas das revoluções socialistas do século XX, as quais Jessé não dá a mínima importância. Ao contrário. A sua fórmula para “ressuscitar a esquerda” pretende que a “revolução expressiva” e de “consciência” sirvam à fins eleitorais para garantir o controle político sobre o capital. 

Da mesma forma ele entende o papel dos sindicatos: uma escola eleitoral para governos ditos “progressistas”.

 

V - O papel dos sindicatos e dos movimentos sociais: 

            Existe um vetor fundamental da luta de classes que seria decisivo na construção de um novo imaginário para o país, ao qual Jessé não apresenta nenhuma crítica: os rumos políticos dos movimentos sindicais e sociais, ambos dirigidos quase que hegemonicamente pelo petismo. 

Como eles não criaram nada alternativo fora do oficialismo político, nem geraram confiança nas massas que “representam”, apenas mais discursos identitários vazios quase como uma sucursal do partido democrata estadunidense no Brasil, serviram simplesmente para garantir eleições petistas e, por isso mesmo, aprofundaram a crise e a “morte da esquerda”.

            Jessé não reconhece aí nenhum problema teórico, político ou estratégico para a esquerda. Talvez seja por isso que ele só fale dos sindicatos do século XIX e do início do XX, mas não esboce nenhuma crítica à atuação do PT no movimento sindical.

            O sindicalismo petista desenvolveu um respeito quase religioso à legalidade, às eleições e às instituições da democracia burguesa, que, quando se sentem ameaçadas, tramam golpes e retiram direitos dos trabalhadores em plena luz do dia. Certamente que se deve observar certas práticas da legalidade para que os sindicatos não sejam cassados burocraticamente e possam existir, mas isso nada tem a ver com cultuar a legalidade, chamando a classe trabalhadora a confiar nela cegamente em todas as circunstâncias, tal como faz o petismo. 

O resultado é a destruição completa da independência de classe e a submissão total da classe trabalhadora ao Estado burguês. Que tipo de imaginário se pode criar no seio do movimento dos trabalhadores deste modo? Não estaria aí uma adaga bem no coração da esquerda para matá-la?

         Na prática de administrar os sindicatos dentro desta estreita legalidade, PT e CUT tratam como inimigos todos aqueles que, de alguma forma, questionam essa legalidade e que reconhecem nela um entrave. Não é necessário ser um gênio em sociologia ou em história para perceber o interesse da classe dominante neste legalismo, que é o meio mais eficaz para controlar movimentos independentes de base.

            O controle burocrático e autoritário dos sindicatos e centrais sindicais pelo petismo impede o surgimento de uma criatividade organizativa, política e ideológica. E onde não há criticidade viva, honesta e ativa, impera a despolitização e a reprodução de rebanho, sem que nenhum debate por um imaginário nacional novo possa se desenvolver com sucesso e se enraizar por entre o povo.

            Se este espírito de rebanho não é o motivo central para a “morte da esquerda”, certamente é outra adaga cravada no seu coração. Nenhuma classe dominante temerá um povo imbecilizado pelas redes sociais, docilizado pela grande mídia, pelos patrões, pela educação pública e domesticado pelos partidos e movimentos de “esquerda” nos sindicatos oficiais.

            A “esquerda revolucionária” também não tem sabido enfrentar o problema, exagerando e desordenando as discussões e palavras de ordem, que degeneram em oposições desonestas, raivosas ou delirantes – ou num misto das três. Por fim, quando existem pessoas com trabalhos de base reais, coerentes e revolucionários, encontram ouvidos moucos das categorias, que optam oportunisticamente por discursos pragmáticos e “economicistas”, como bem reconheceu Jessé no seu outro livro. 

            Pelo visto, para ele, o hegemonismo petista sobre os sindicatos não merece crítica ou sequer atenção. No campo sindical fica patente que a liderança de Lula não é tão exemplar quanto vende no livro.

            Se Lula é um líder melhor do que Bolsonaro e toda a miríade de presidentes brasileiros anteriores – geralmente de direita –, isso não o isenta da paralisia sindical, que é um reflexo de elementos autoritários, oportunistas e muitas vezes místicos com que o petismo exerce o seu poder e o seu imaginário eleitoral estratégico sobre o movimento sindical nacional. O que ele propõe para ressuscitar o sindicalismo brasileiro frente a estes entraves petistas? Ou isso não teria a menor importância para ressuscitar a esquerda?

 

VI - Como elaborar uma política revolucionária que influencie a psicologia de massas no sentido de superar a sua recusa em ir à esquerda e a sua fácil sedução pela direita?

A pergunta correta para tentarmos ressuscitar a esquerda deveria ter esses questionamentos; e a resposta não pode surgir apenas de uma nova narrativa e de um novo imaginário a partir de um único partido político, sem desenvolver uma nova metodologia de trabalho de base para melhorar a atuação sindical e dos movimentos sociais brasileiros, criando raízes verdadeiramente populares e nacionais.

Podemos concordar que a ausência de um imaginário alternativo ao da elite paulista dificulta tudo, mas, como foi dito, parte desta ausência se explica como o resultado da opção política petista: ele não pode construir um imaginário alternativo sem destruir a sua estratégia política de aliança com parte da elite paulista na frente ampla. 

No lugar de preparar uma ruptura “realista”, vemos o PT sempre tentando se demonstrar o mais confiável possível aos aliados, como naquela vez que perdoou as dívidas da Rede Globo ao invés de torná-la uma emissora pública, como sugere Jessé. Seria importante, antes de qualquer coisa, pensarmos se a direção da empresa, que é reconhecidamente golpista em 1964 e 2016, aceitaria esse sonho colorido ou se tramaria novos e piores golpes na iminência de perder tudo. Mas Lula e o PT fizeram pior do que isso: ao invés de enfraquecerem a Rede Globo para torná-la pública, tentaram fazer isso fortalecendo a Rede Record do bispo Macedo, que se tornou uma fortaleza bolsonarista!

            Pode-se concordar também que um grande partido de massas, com influência política governamental, sindical e popular, assumir uma narrativa alternativa à oficial tem um grande peso que é preciso testar e exercer na prática. Muitas organizações da “esquerda revolucionária” desconsideram a importância de uma narrativa bem construída e amplamente exposta. No entanto, é necessário levar em consideração cuidadosamente as questões relacionadas à psicologia de massas e todo histórico sindical petista.

Há uma profunda apatia na classe trabalhadora brasileira fruto de vários fatores, mas, em particular, da utilização demagógica da psicologia de massas pela direita (bolsonarismo, partidos da elite, grande mídia, igrejas evangélicas, etc.), de um lado; e pelo petismo, com toda a sua demagogia sindical e eleitoral, por outro – sendo um o peso da gangorra para o outro. O espírito de rebanho, por exemplo, é cuidadosamente cultivado por ambos os lados nestes discursos oficiais de poder real e simbólico.

         O petismo, por seu turno, propõe uma mudança conservando esse equilíbrio, só que com uma ênfase “popular”. Jessé reconheceu isso tacitamente em seu livro, embora dando uma grande concessão à suposta “ingenuidade petista”. 

É evidente que teremos aí um discurso sedutor, que será a antípoda do discurso da direita oficial, ainda que, por estar dentro da ordem e conciliar com parte da elite nacional, não pode ser capaz de derrotá-la completamente, dado que o seu projeto programático e a sua conduta política é incapaz de resolver os grandes e graves problemas estruturais do país, deixando o caminho livre para novos e piores golpes de Estado por parte do imperialismo estadunidense.

         As palavras de ordem, ações e trabalho de base da esquerda “revolucionária”, por sua vez, soam irreais ou causam pavor na massa humana – em sua maioria não são sequer compreendidos com o mínimo de esforço e interesse. A atuação da esquerda “revolucionária” não desfaz os estragos demagógicos do reformismo petista, nem se preocupa com os desvios internos da massa, já que ela é idealizada messianicamente. 

O trabalho de base desta esquerda não enfrenta as hipocrisias cotidianas dos trabalhadores comuns (até porque os próprios militantes de esquerda não querem enfrentar as suas), sem o quê parece ser impossível ajudá-la a superar as ilusões petistas e direitistas.

         Já os discursos de Lula e do PT soam como “realistas” em contraposição aos da esquerda “revolucionária”. São os únicos que parecem ser “viáveis” (seja pelo peso nos movimentos sindicais e sociais; seja pela carta branca direta ou indireta que lhe é dada pela grande mídia e pela estrutura oficial, beneficiada diretamente por essas ilusões). Essa noção esperançosa de que o PT é o “único viável” reflete a visão utilitária da classe trabalhadora, infectada pela filosofia “pragmatista” estadunidense e Ocidental. 

Dentro desta visão, as eleições são vistas como a “única possibilidade de mudança” – e, para se sanar qualquer dúvida, basta ouvir os comentários nos botequins, nas ruas, nos locais de trabalho e moradia. Sem compreender as ilusões da psicologia de massas e sem realizar um longo trabalho de base que combata o messianismo, o utilitarismo e o pragmatismo presentes no seio da classe trabalhadora, a esquerda revolucionária continuará pregando uma saída “via revolução” que não será compreendida.

         O PT de Lula desponta como a única “esquerda realista” e “possível” porque, a despeito do seu oportunismo descarado, sabe convenientemente levar em consideração elementos da realidade e, sobretudo, as ilusões e esperanças da massa. Já a esquerda “revolucionária” não consegue agir desse modo, pois está cega por um “fanatismo” totalizador; além disso, não consegue estabelecer um trabalho de base coerente, com uma agitação e propaganda que quebre ou sequer arranhe essas ilusões. Talvez aja assim por medo do novo ou mesmo por idealizar a massa, que é vista sempre como ingênua e enganada por “direções traidoras”, sem querer perceber a dialética da interdependência que existe entre “massas enganadas” e “direções traidoras” na psicologia de massas.

            O ativista do movimento negro dos EUA, Kwame Ture, afirmou certa vez que “o capitalismo torna as pessoas burras e depois torna elas arrogantes em sua burrice. Elas não apenas não sabem, como não querem saber”

A grande questão sobre a morte da esquerda que não é enfrentada nem pelo petismo, nem pela esquerda “revolucionária” e nem por Jessé é, justamente, o que Ture escancarou: porque grande parte da massa emburrecida, alienada e manipulada pelo capitalismo “não quer saber”? Por que ela foge de uma agitação e propaganda política que lhe explique o porquê? E ainda: por que ela prefere qualquer embuste “anti sistema” da direita (Trump, Bolsonaro, Marçal, etc.) aos anti sistemas de esquerda? 

É precisamente aí que está a vitória conjuntural da direita neofascista e o seu poder manipulatório sobre a psicologia de massas ao qual a esquerda, seja de que vertente for, sequer têm conseguido arranhar ou mesmo encontrar explicações.

 

VII - As ilusões nos influencers e youtubers de esquerda:

            Frente à morte da esquerda e à paralisia do movimento sindical, temos visto o crescimento exponencial da militância online e dos youtubers que são vistos como redentores de um caminho que não existe. 

Alguns deles, como Jones Manoel, Opera Mundi, Saia da Matrix, Orientação Marxista, Rubonautas, Brasil 247, Alysson Mascaro, ICL, etc. insinuam direta ou indiretamente — não sem a complacência dos partidos e organizações de esquerda — que ganhar seguidores e likes passou a ser confundido com “influência de massas”, quando na verdade é um terreno pantanoso, onde a direita neofascista leva uma grande vantagem. Ainda que seja muito importante disputar ideias no campo virtual, é necessário ter em mente que isso pode se tornar um novo entrave ilusório.

            Por mais seguidores que se tenha, toda esta influência virtual não tem se convertido em movimento de massas, nem em crescimento da consciência de classe por entre a classe trabalhadora; senão que, muitas vezes, fica-se num ping pong online, com pautas histriônicas que mais repelem do que esclarecem, aprofundando a apatia e o distanciamento. E isso é tudo o que a direita neofascista deseja, pois é o seu campo preferencial: o campo da manipulação da psicologia de massas tem sido, por excelência, o virtual e o eleitoral.

            A classe trabalhadora acaba seduzida pelo discurso da direita porque dentro da sua subjetividade individual está presa aos valores do conservadorismo, que a direita neofascista aprendeu a manipular com maestria e a esquerda nem chega perto de enfrentá-los por desconsiderá-los totalmente, uma vez que é cega pelo discurso econômico e objetivista, ignorando os problemas da psicologia de massas. 

A visão mecânica do marxismo só vê qualidades num trabalhador pobre, nunca seus vícios e defeitos. Pensam que estes serão sanados quase que automaticamente por uma “política correta” de uma direção revolucionária (ou pelo voto correto num partido de esquerda, no caso de Jessé). 

Esta dinamização política imposta pelo capitalismo gera ideologias que se disseminam amplamente através das novas formas de tecnologia e comunicação. A intensificação do individualismo impulsiona formas de ver o mundo pelo prisma da autoverdade, do utilitarismo, do hedonismo e do identitarismo burguês. Os próprios meios de criação de ideologias — universidades, escolas, igrejas, grande mídia, redes sociais — desenvolvem formas e técnicas — dentre as quais, cabe destacar hoje as redes sociais — para disseminar estas ideologias e dinâmicas, que, por sua vez, reforçam a terra arrasada na vida real.

Seria importante que os youtubers “de esquerda” voltassem todas as atenções para a organização real e, principalmente, para tentar anular e reverter a manipulação da psicologia de massas. Para isso seria necessário estudá-la com atenção.

            O trabalho penoso, paciencioso, do dia a dia, nos locais de trabalho, enfrentando a patronal, o assédio moral permanente, o descaso, a consciência atrasada fermentada, dentre outros meios, pelas redes sociais, que se converte no desânimo mais atroz, poucas organizações políticas e militantes — sejam reais ou online — enfrentam, pensando poder resolver tudo “pelo alto” com as novas tecnologias e as redes sociais. 

E as organizações reais que existem nos movimentos sociais não querem fazer um balanço e uma reavaliação da sua atuação prática, conformando um terrível círculo vicioso que precisa ser quebrado.

 

VIII - Algumas conclusões: para quê tem que servir a esquerda?

            Muitos pensadores burgueses fazem troça da tentativa dos socialistas de mudarem a sociedade, afirmando que isso é impossível. Para eles, a sociedade tem que ser desigual porque os seres humanos são desiguais. Sendo assim, o pensamento burguês, liberal e de direita “estaria correto” em apostar tudo no individualismo e no egoísmo.

            Por natureza, cada pessoa tem seus próprios gostos e sonhos de realização na vida, ainda que uma grande maioria nem saiba que seus gostos são manipulados pelo consumismo e pela propaganda da indústria cultural. Podemos concordar que não é possível um modelo de felicidade e realização pessoal uniforme e universal, sem o empobrecimento da diversidade humana. Porém, é necessário equilibrar esta discussão apontando que é possível estabelecer pontos de intersecção e confluência – uma espécie de denominador comum – entre as felicidades e realizações humanas.

            As importantes noções desenvolvidas a partir do liberalismo econômico e sustentadas hoje com muitos erros e desvios pela direita, como as demandas de respeito às individualidades, degeneraram e se transformaram em algo profundamente reacionário: o individualismo (que é diferente da individualidade). Há muito tempo que o capitalismo tornou-se disseminador do pior tipo de individualismo, levando a um “salve-se quem puder” e sepultando definitivamente qualquer ganho popular do “crescimento do bolo” a partir do egoísmo e das supostas “vantagens dos interesses econômicos particulares”, como apregoava Adam Smith no passado (isto é, disseminado a partir da realização profissional e dos “sonhos” de cada indivíduo).

            Temos visto o crescimento desenfreado de diversas formas de narcisismo, hedonismo e egotismo estimulados maquiavelicamente pelo capitalismo neoliberal. O mercado joga o tempo todo com as emoções infantis e egocêntricas do indivíduo médio comum. Faz confundir a pior forma de infantilismo egocêntrico com liberalismo econômico (poucos indivíduos deste campo fogem à regra).

            Apesar disso, não é sábio fazer o que faz a maior parte da “esquerda” brasileira jogando o pensamento liberal clássico no lixo como se fosse algo inútil, esquecendo da importante diferença entre individualismo e individualidade. Na sua luta pela revolução socialista, os trabalhadores conscientes precisam acertar contas com o falso liberalismo econômico da direita brasileira e saber incorporar as boas contribuições filosóficas liberais do passado, não apenas para desmascarar os parasitas e aproveitadores atuais, mas para poder incorporá-lo no programa político e econômico de superação do capitalismo com vistas à construção de uma sociedade socialista.

Há que se desenvolver um método de independência individual dentro da massa trabalhadora, sem o quê, qualquer defesa de autodeterminação popular é apenas letra morta. O empreendedorismo individualista-burguês precisa se transformar em “empreendedorismo socialista”, baseado na coletividade. 

Uma melhor distribuição de renda é um pressuposto básico para elevar as condições materiais de uma população massacrada pelos poucos ricos do nosso país e do mundo. Gostos, sonhos, felicidades e realizações pessoais podem ser aperfeiçoados e amadurecidos, indo muito além dos interesses consumistas do mercado e da indústria cultural. Com preocupação política de governos, organizações sociais, sindicatos e sociedade civil, qualquer ser humano pode aprender mais, ser desafiado a mais, e ser estimulado a se tornar melhor em todos os níveis possíveis.

Para isso, é imprescindível possibilitar condições materiais mais dignas a todos – ainda que em níveis distintos, porém, minimamente aceitáveis e humanos. Só citar esta obviedade faz os ricaços e os seus defensores na direita gritarem e rugirem como se fosse o fim do mundo, quando na realidade é o seu começo. Por tudo isso, o socialismo deve continuar sendo o horizonte estratégico de toda a esquerda e, para isso, estudar as experiências do passado e aprender com as lições históricas para fazermos os ajustes necessários à sua evolução teórica e adaptação ao século XXI é fundamental. 

Nesta perspectiva – não levada em consideração por Jessé –, certamente o controle político do capital é muito importante, mas isso não passa de um primeiro passo que não tem como se sustentar a longo prazo sem avançar para uma forma social nova. Faltam ainda o controle operário da produção, a mudança nas instituições políticas e no Estado; a melhoria e modernização das formas de ditadura do proletariado (não entendida como o stalinismo, mas como a Comuna de Paris, Rosa Luxemburgo Lenin e Trotski entendiam); o objetivo desses passos é a elevação do nível material, cultural e emocional das massas.

Jessé traz pontos importantes no seu último livro, mas fica longe de apontar formas de conseguir ressuscitar a esquerda se não leva em consideração o trabalho prático cotidiano junto dos sindicatos, dos movimentos sociais e dos locais de trabalho e estudo mais humildes com todas as suas contradições – e, sobretudo, se ignora o socialismo.

Seria muito importante que uma narrativa alternativa e um novo imaginário nacional fossem levados à prática por um partido de massas, como o PT, visando uma “revolução expressiva”. No entanto, o fato de não existirem é o reflexo material da adaptação petista à ordem institucional burguesa e ao seu arco de alianças. Da mesma forma, a esquerda dita “revolucionária” não consegue criar ou sequer contribuir com esta disputa porque está presa a um dogmatismo obtuso que não leva em consideração o povo como ele é, senão que torna-se desequilibradamente mais agressivo contra o PT para compensar esta ausência fundamental.

É necessário uma análise sóbria da realidade do nosso país, compreendendo as diferentes contribuições programáticas da “esquerda” brasileira, começando desde o petismo, o “comunismo” dos PCs, até a atual “militância revolucionária”, passando pela vertente trabalhista, indo muito além da atual cizânia e discórdias entre a esquerda em nome de um “purismo” inexistente. A mudança social em um país complexo como o Brasil requer que levemos em consideração a contribuição de distintas experiências políticas — ainda que não necessariamente concordemos com elas.

A grande questão para ressuscitá-la, portanto, não é conseguir demonstrar à classe trabalhadora que a pequenina melhora das suas condições de vida se deve aos programas sociais dos governos do PT e não a Jesus; mas, sobretudo, como criar consciência de classe que é, em última análise, a capacidade de acreditar em si mesmo, na sua própria força, na força da coletividade social do seu entorno imediato, do Brasil e da América Latina.

Já afirmamos neste blog que a sociologia de Jessé pode significar um retrocesso em relação a de Florestan Fernandes, para quem “o socialismo comprometido com a democracia burguesa ainda é uma forma de reprodução do sistema capitalista de poder”. (F.Fernandes, Pensamento e ação, o PT e os rumos do socialismo. E.Globo, 2006, página 241).

O recente livro de Jessé parece confirmar o prognóstico deste blog.


*Todas as citações e referências deste texto, com exceção de uma devidamente indicada, foram extraídas de “Por que a esquerda morreu? E o que devemos fazer para ressuscitá-la”, Jessé Souza, Civilização Brasileira, 2025, 1ª edição.




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> Jessé Souza, o pobre de direita e a classe média de esquerda
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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A pirataria contra a Venezuela: um teste de soberania para a América Latina

Os ataques do imperialismo estadunidense à Venezuela, que nunca deram tréguas e agora degeneraram em pirataria sobre os cargueiros de petróleo, trazem à tona o nosso velho dilema continental: queremos ser livres ou não?

Concordemos ou discordemos do “regime bolivariano” liderado por Maduro, não é possível minimizar ou tolerar sob nenhum ponto de vista os ataques ianques contra o país caribenho, nosso irmão de sangue e suor.


A pirataria norte-americana é a expressão do desespero resultante da decadência mundial frente à China e aos BRICS

Frente à sua visível decadência global, o imperialismo estadunidense quer demonstrar força no “seu quintal”, ao mesmo tempo em que trabalha para sabotar o abastecimento de petróleo da China, principal parceiro comercial de quase toda a América Latina. O imperialismo estadunidense não pode mais fazer frente a esta crescente influência chinesa no mundo pelos meios econômicos e políticos “democráticos” e convencionais, por isso apela à pirataria. Os vassalos regionais aplaudem este ataque e torcem, aberta ou secretamente, pela queda do regime venezuelano e a total recolonização de nosso subcontinente; isto é, para a colonização de si mesmos!

Tais vassalos são os corresponsáveis pelo sucesso da doutrinação neoliberal nos países latino americanos e recebem um bom pagamento pelos seus serviços. O principal cavalo de Tróia anti-soberania é a grande mídia nas suas mais distintas esferas. Depois, os partidos e movimentos de direita, sendo seguidos pelos seus apoiadores.

Por anos envenenaram o povo contra o regime da Venezuela, não pelos problemas corretos, mas pelos errados, como, por exemplo, a coragem venezuelana de enfrentar o amo imperialista do norte! Algo inaceitável para os vassalos neocoloniais. A doutrinação neoliberal feita por eles nos obriga a engolir a miséria da corrupta e submissa “democracia liberal” — que na América Latina conhecemos muito bem por condenar milhares de pessoas “democraticamente” ao subemprego, desemprego e à fome — como se fosse uma solução, quando ela não passa de um grilhão de aço.

Como oportunistas empresariais que são, a grande mídia preferia a condução do ataque à Venezuela feita pelo partido democrata, pois ele trabalha usando as armas da “democracia estadunidense” e dos “direitos humanos”, porém, a cobertura jornalística atual tem que lidar com a truculência de Trump, a qual ela vende uma falsa preocupação, embora em seu íntimo esteja feliz com as ações autoritárias e firmes do republicano neofascista. Uma futura gestão democrata irá complementar as ações do “rival” por meios mais “democráticos”, e assim vão dobrando a soberania do nosso subcontinente.

Para além das ações de pirataria — condenada pontualmente por países europeus, como Inglaterra e França —, o governo Trump gasta bilhões de dólares comprando a elite dos países latino-americanos, financiando eleições e dando golpes em governos do nosso subcontinente, incluindo as inúmeras tentativas de golpe e influência eleitoral na Venezuela.

¡YA BASTA!

Quando o poder imperialista hegemônico é ameaçado, o imperialismo viola quaisquer leis do sacrossanto “livre mercado” e dos “direitos humanos”. Como parte de sua estratégia de dominação, isso só foi possível porque houve uma minuciosa preparação por anos de mentiras e distorções midiáticas, uma verdadeira lavagem cerebral neoliberal, que jogou todos os países e a maioria dos povos da América Latina contra a Venezuela por conta do seu “regime político” — que nada mais é do que uma reação, uma tentativa por vezes desesperada e equivocada de soberania popular, fazendo o que pode em condições adversas, frente à dominação absolutista exercida pelos EUA na América Latina — tal como fizeram no século XX e ainda fazem contra Cuba.


Para termos soberania na América Latina é essencial descolonizar o jornalismo, o debate político e a mente do povo!

Uma outra força de quinta coluna está na mente colonizada dos latino americanos, que toleram o discurso midiático contra o “regime ditatorial” de Maduro, mas aceita a violência imperialista estadunidense em forma de embargo, bombardeios, sabotagens e pirataria, não apenas contra a Venezuela, mas a maioria dos países latino-americanos e do mundo que fogem às suas diretrizes “democráticas”.

A ditadura neoliberal imposta pelos EUA e as suas mídias é infinitamente mais nefasta e violenta do que a suposta “ditadura de Maduro”, que, apesar de contradições populares — que não negamos! —, tenta por caminhos tortuosos lutar por sua soberania e pelo direito de definir como utilizar os seus recursos naturais. Sempre foi e sempre será pelo controle do petróleo! O discurso de “narcoterrorismo” é uma piada macabra, pois a elite norte-americana, apoiadora de Trump, dos republicanos e dos democratas, regou e sempre regará os seus banquetes e orgias sexuais com a cocaína produzida na América Latina, tendo a conivência dos governos de plantão, o lucro milionário dos traficantes e o trabalho semi-escravo dos produtores.

O “narcoterrorismo” é o discurso de ocasião para dar uma falsa consciência moral de se estar “fazendo o que é certo”, tal como foi o discurso contra o terrorismo no Afeganistão, as armas químicas no Iraque, os “direitos humanos” na Líbia, “as ditaduras comunistas” na Guatemala, em 1952, e no Brasil, em 1964, para abrir caminho e impor a ditadura capitalista neoliberal disfarçada de “democracia”. 

Aceitar e reproduzir o discurso de narcoterrorismo contra um governo que luta por sua soberania é não entender nada; é se tornar o colonizado feliz, que clama pela colonização do mais forte contra si mesmo, tendo o país saqueado, pirateado, empobrecido voluntariamente, pra depois jogar a culpa pela pobreza sobre o próprio povo, a má sorte ou o alinhamento dos astros! Ou seja, facilita a sucção do monstro imperialista para que fortaleça sua máquina e redobre a sua capacidade de exploração sobre nós mesmos, garantindo o seu desenvolvimento econômico às custas da nossa miséria e subdesenvolvimento!

Existem quintas colunas menores e com menos influência de massas do que a grande mídia, que é a esquerda dita “revolucionária”. Ela comete um “erro” semelhante aos dos agentes midiáticos transformando o regime venezuelano em um problema maior do que as sucessivas agressões imperialistas a um país irmão. Assim, abre caminho para as agressões ininterruptas do imperialismo contra a Venezuela. 

De fato não podemos nunca esquecer o problema do caudilhismo em nosso subcontinente, no entanto, agora devemos nos colocar incondicionalmente contra uma agressão de uma potência estrangeira justamente porque este regime caudilhista tem impedido o imperialismo de colocar suas garras de rapina sobre o petróleo.

Vergonha eterna sobre a diplomacia brasileira, chilena e argentina, que vacilam em apoiar e cerrar fileiras contra essa agressão monstruosa a um país irmão, que, apesar dos pesares, luta!

Países dignos, com vida digna para os seus povos, dependem do enfrentamento e do fim do imperialismo estadunidense, que já demonstrou diversas vezes — e continua demonstrando agora — que necessita desse colonialismo para sobreviver, distorcendo e impondo narrativas pelas suas armas midiáticas que nunca desligam. 

Lembremos do grande Eduardo Galeano!

Emancipemo-nos da escravidão midiática!

De pé, latino-americanos!

Chega de exploração e escravidão!

Apoiemos a Venezuela incondicionalmente contra os EUA: abaixo a colonização do corpo e da mente! 

Que apoiemos o ingresso da Venezuela no Mercosul e nos BRICS visando a conformação de um real mercado comum latino-americano: que se respeitem critérios de multiculturalismo e multipolaridade e não as imposições demagógicas de matriz estadunidense como as instituições da democracia liberal e a manipulação sobre os “direitos humanos”! O ingresso da Venezuela nestes blocos é um sinal de soberania que debilita a ordem mundial imperialista estadunidense; a recusa ao seu ingresso aprofunda o neocolonialismo latino-americano.

Passar no teste de soberania exige temer mais a escravidão e a miséria da ditadura neoliberal impostas aos nossos povos pelos EUA do que o regime de Maduro!


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> Quem se preocupa com a democracia na Venezuela?
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sábado, 20 de dezembro de 2025

O lado B do PPP

Uma prosa-poética-pedagógica (PPP), parafraseando os poemas-pedagógicos de Anton Makarenko, ou, simplesmente, o lado B do PPP



Num belo dia a SMED foi notificada pelo Ministério Público que os documentos dos PPPs das escolas municipais estavam “desatualizados”. Com um formalismo burocrático inigualável, ela colocou em marcha exigências e “ordens de serviço” decretando a necessidade da “atualização” destes documentos em todas as escolas da rede.

Mas a questão central é: pra que serve um PPP?

Sabemos que deve ser o documento que norteia a ação político-pedagógica de qualquer escola. Ou seja, algo de grande importância, mas que nunca sai do papel, soterrados pelas exigências cotidianas e o famoso “apagar de incêndios” que têm o mal costume de nunca seguir projeto algum.

O que sempre ocorre é que nos debates para a construção de um PPP, quando eles ocorrem, falamos e falamos, mas não saímos do lugar, tipo um hamster na rodinha da gaiola.

Não poderia ser diferente, já que não podemos mexer em nada de essencial naquilo que nos angustia profundamente. Acabamos por escrever, então, um documento de ficção, embelezando a distopia do dia a dia.

Analisemos o que não é debatido:

I) As escolas tais como são, são funcionais para o sistema capitalista. Os baixos índices e os maus resultados não podem ser diferentes. É pra ser assim mesmo: sem condições estruturais continuamos produzindo “maus índices” para que continuemos sendo cobrados que precisamos melhorar os índices, mas sem ingerência real sobre nada do que é essencial para poder melhorá-los: grades de horários, currículos, estruturas, verbas “robustas”, metodologia pedagógica; até mesmo a aprovação-reprovação (ou seja, tudo aquilo que, supostamente, a LDB nos garante ingerência e autonomia).

Darcy Ribeiro dizia que não vivemos uma crise na educação, mas um projeto. E tal projeto não pode ser questionado, fazendo parecer que é uma crise.

Dói dizer, mas um projeto político-pedagógico para uma escola de periferia dentro do capitalismo só pode ser reproduzir mão de obra barata, semi-instruída e semi-analfabeta, que mantenha os corpos, os sonhos e a sensibilidade disciplinados, objetificados e aptos a serem permanentemente recolonizados, tal como tem sido a história do país.

O “Político” do segundo P é entendido pelas “autoridades” como uma mera reprodução da estrutura política na qual o país foi fundado: o coronelismo, o voto a cabresto, a diferenciação de classe, típicos da República “Velha” e herdeiros diretos do período colonial. É isto que, em efeito cascata, querem que se reproduza na nossa prática pedagógica. A “autonomia”, “cidadania” e o “livre pensamento” que desejamos para os nossos alunos nos textos dos PPPs devem ser entendidos apenas como um contorcionismo pra caber nesta estrutura política cotidiana.

Um PPP para um país de miseráveis, marcado por uma das maiores desigualdades sociais do mundo, tem de ser escrito com um debate de fome, miserável, faminto por ideias, práticas e autonomia real. Formamos na escola pública subcidadãos, que deverão se conformar com empregos precários e que, principalmente, não questionem a falta de direitos e os desmandos patronais.

Não é assim a maioria dos empregos dos pais dos alunos das escolas periféricas? Da mesma forma que os filhos, os pais também não questionam nada de essencial e são presas fáceis de qualquer discurso de ódio político das redes sociais e da grande mídia (muitas vezes contra si mesmo).

É sobretudo para essa reprodução que a nossa escola tem que continuar servindo, por isso não podemos questionar nenhuma carga horária, grade curricular, formato de aula, reprovação-aprovação, direito de liberação de alunos (mesmo que não tenhamos água, luz ou estando sob um calorão insuportável).

Ou seja, tudo já está pronto no atual formato e prerrogativas da SMED, cabe a nós aplicar como testa-de-ferro, mesmo que sejam “ordens de serviço” e decretos de ocasião que, se não ferem abertamente a legislação, certamente ferem a boa prática pedagógica da qual necessitaríamos ser fiéis. As propostas de “reformas” das mantenedoras nunca levam em consideração as necessidades pedagógicas das comunidades, mas as econômicas neoliberais.

II) Vivemos décadas de neoliberalismo, individualismo, narcisismo e consumismo irresponsável. Aumentou assustadoramente as “doenças psíquicas”, a dependência das tecnologias, da internet, dos likes, dos jogos eletrônicos. O resultado deste tipo de sociedade e do seu sistema educacional é que, no geral, as crianças para quem lecionamos não têm quase nenhuma curiosidade, e o pouco que tem é passageiro. Não conseguem se concentrar por muito tempo, mesmo naquilo que demonstram algum tipo de interesse.

Na curiosidade e nos estudos, a maioria é passiva e “tímida”. Em muitos deles, essa “timidez” é frequentemente mascarada por uma superfície de brincadeiras pesadas, raiva e agressividade. Tudo isso esconde, no fundo, um vazio desprovido de firmeza. E isso por variadas razões individuais e familiares. Grande parte das vezes estas crianças tornam-se cruéis umas com as outras, não demonstrando compaixão pela desgraça alheia, senão que riem e ridicularizam a fraqueza umas das outras.

Sabemos que existem sublimes exceções, mas esta tem sido a nossa realidade diária, cujos PPPs e reformas educacionais de sucessivos governos não podem nem querem entender e enfrentar.

Se queremos falar seriamente em melhora da educação pública é necessário lutar pela redução do número de alunos por turma, para que o nível da qualidade possa subir, tanto quanto se luta por salário ou pelo direito à aposentadoria. Isso deveria ser a condição básica presente em qualquer movimento político, sindical, discurso de “especialista” na mídia e Youtube ou nos textos de um PPP minimamente digno. Mas a patrola da rentabilidade econômica nos faz engolir turmas lotadas com alunos que exigem e precisam de atenção adequada, o que reduz nossa função a de uma creche.

Atender os alunos em suas demandas individuais, sem que elas se “escondam” no caos geral de uma turma com mais de 25 alunos (sendo que muitos deles são laudados), deve aumentar a qualidade do nosso atendimento em uma estrutura precária. Isso, no entanto, se enfrenta com o “projeto” criticado pelo Darcy, cujas “reformas” visam sempre as necessidades de cortes econômicos, e nunca os verdadeiros problemas pedagógicos.

III) A maioria dos estudantes tem se tornado extremamente resistente às aulas, ao processo de aprender e à disciplina escolar mais básica e elementar. O funcionamento do tipo de escola que temos permite tal conduta.

O dia a dia é marcado pela bagunça e má vontade que não sabemos ou não conseguimos enfrentar, uma vez que somos completamente desviados ou desarmados nas “discussões” de (des)alinhamentos, bem como nas poucas e engessadas reuniões pedagógicas e, também, na escassa liberdade de que dispomos para redigir PPPs e encarar a nossa própria realidade sem as imposições draconianas vindas de cima. Dividir para reinar!

A sala de aula se tornou um campo de batalha onde a maioria dos alunos se fecha num acordo tácito de não deixar a aula transcorrer, querendo fugir e se esconder. O resultado é o baixo aprendizado que conhecemos (os projetos são importantes em uma escola de periferia, mas não podem apagar o fato de que a maioria dos alunos saem com problemas de aprendizagem básica e sem se humanizar plenamente).

Talvez este “campo de batalha” seja um dos motivos pelos quais temos fugido e evitado a sala de aula? E, também, tenhamos nos tornado uma categoria campeã de licença-saúde prolongada, onde não enfrentamos as demandas coletivas sindical e coletivamente, mas individualmente?

Saber enfrentar essa má-vontade e resistência coletiva da maioria dos alunos na nossa realidade diária é mil vezes mais importante do que qualquer índice ou prova exógena imposta goela abaixo, que nunca questiona falta de investimento, estrutura e autonomia pedagógica, só cobra que nademos até a outra margem do rio nos atirando nele com as mãos e os pés amarrados.

Por outro lado, existe sim má vontade, corporativismo e autoritarismo por parte de professores, e que tudo isso, da mesma forma, faz mal pra educação pública. No entanto, as secretarias de educação e as “autoridades” não combatem como devem tais problemas, porque tiram partido dele, seja se aproveitando das condições precárias de trabalho e remuneração para chantagear com “horários”, “aposentadoria”, “direitos” e, sobretudo, enfiando uma disciplina burocrática autoritária para que não questionemos “reformas”, PPPs e todo o tipo de normas arbitrárias. Aos que questionam, bem ou mal, paira a pecha de “chatos”, terminando pelo silenciamento, remoção e desligamento. Dividir para reinar, novamente o lema do Império Romano!

Em síntese, usam esses problemas como fantasmas e espantalhos para que não questionemos o projeto geral e nos enquadramos, “felizes” e agradecidos, nele.

Na era da contestação da escala 6x1, estamos sendo permanentemente chantageados com cancelamento de HAFE, recuperação de recessos que não pedimos, post-it sem fim, o que joga um colega contra o outro, culminando na pressão por mais trabalho de simples creche, como se a quantidade de horas fosse mais importante que a qualidade e, por fim, remoções sempre feitas de “forma legal” e “honesta”, para que fiquemos de bem com as nossas consciências, caracterizando uma verdadeira degola burocrática. 

Esta tortura psicológica e corporal só contribui com a piora do desempenho de todos. O objetivo, evidentemente, é controlar o comportamento dos professores, que, por sua vez, consciente ou inconscientemente, despejarão tal descontentamento nos alunos, vivendo uma guerra não-declarada para também moldá-los.

E tudo isso sem poder questionar nada de essencial, mesmo que a legislação fale abundantemente em “autonomia pedagógica”.

IV) Todo o nosso sistema educacional é baseado na meritocracia de notas (ou conceitos), tipo Pavlov, estímulo-resposta. Querem que mudemos a educação para melhor e não podemos questionar isso conforme a nossa própria realidade, nem questionar outras estruturas que certamente influiriam sobre a economia (o verdadeiro pavor dos de cima). E para mudar este sistema não basta apenas escrever um PPP, é necessário que este documento esteja a serviço de mudar uma cultura e os hábitos que vão muito além da escola.

No entanto, esteja certo ou errado, este método de aprovação-reprovação é o que ainda nos resta para ter alguma disciplina dentro de sala de aula neste sistema de educação. Muitos alunos sem as menores condições têm sido empurrados adiante, causando prejuízos para eles, mas não para os ricos e a classe média, que continuarão detentores do capital cultural. 

Antigamente, para reprovar um aluno bastava a palavra do professor, já que é ele que acompanha as turmas o ano inteiro. Certamente alguns professores cometem exageros autoritários ou equívocos em relação a isso, esperando milagres da simples reprovação, a depender da sua concepção pedagógica e visão de mundo, mas isso poderia ser enfrentado com debate e discussão específica, não com a proibição de reprovação via “dossiê robusto” ou dando todas as justificativas deploráveis pela grande mídia, o que torna a indisciplina dos alunos ainda pior, já que proibir tacitamente a reprovação sabota o pouco que resta do mecanismo de disciplina do atual sistema escolar.

V) A LDB diz que os sistemas de ensino assegurarão às unidades escolares públicas de educação básica progressivos graus de autonomia pedagógica e administrativa e de gestão financeira. Isso significa que a escola tem liberdade para elaborar e executar seu projeto político-pedagógico (PPP), planos, metodologias e organização curricular; além de ter autonomia administrativa através da possibilidade de se organizar internamente, distribuir funções, decidir sobre as formas do trabalho escolar.

Ao contrário disso, temos visto a perda gradativa de autonomia pedagógica. 

A escola tem, teoricamente, o poder de decisão sobre como ensinar, se organizar e utilizar recursos para cumprir seus objetivos educacionais. No entanto, nada disso se traduz na realidade do nosso dia a dia em função do engessamento da estrutura do sistema escolar feito pelas mantenedoras, por um lado; e do medo do funcionalismo público e do movimento sindical em enfrentar tal estrutura, por outro.

Ao não exigir a autonomia legal para encarar os problemas pedagógicos, que são muitos, e escrever o nosso PPP neste espírito, ficamos reféns da chantagem e do medo da mantenedora ou, então, temos que concluir forçosamente que estamos inaptos à liberdade, nos conformando rapidamente com tudo o que vem de cima, pronto e pré-definido, nos impondo as diretrizes do que é certo ou errado, terminando por nos fazer reclamar à boca pequena, aqui e acolá, nos cantos da sala dos professores ou nos corredores, e reproduzindo um pavoroso espírito de rebanho que é o sossego e a base de sustentação da estrutura em si.

Dito de outra forma: para que um PPP que interesse às comunidades escolares e não às estruturas coloniais de poder das mantenedoras seja aplicado na prática, temos que superar o modo “aceitação passiva/reclamação como eterna catarse pra nada mudar” e ativar o modo “compromisso coletivo sem egotismos/coragem de enfrentar” (indo muitíssimo além das questões salariais).

Quem realmente se importa com a segunda opção?

É simples e fácil culpar os estragos da extrema direita no poder municipal, como se todo o mal estivesse fora de nós e nenhuma pequena parcela de responsabilidade coubesse a nós e a nossa omissão na resistência frente a uma estrutura que transcende governos de plantão e exige atitudes.

VI) Todos esses problemas encontrados diariamente por nós para começarem a ser solucionados precisam de democracia real, com direitos e deveres, visando possibilitar a real escuta e confiança democrática, acima de egos inflados e projetos pessoais que se confundem com a estrutura de poder vinda de cima.

Democracia real exige responsabilidade. 

Aprender a ouvir e a levar em consideração a opinião divergente é extremamente difícil, e não temos ensinado e aprendido isso. Mais do que isso: democracia real exige enfrentar o fato de que só temos reproduzido — por medo ou interesse pessoal — tudo o que vem de cima, da “mantenedora”, nos dando e dando aos pais e aos alunos os mais diferentes tipos de justificativas nobres e “sensatas”.

A grande questão do pseudo-debate dos PPPs é que em uma sociedade do espetáculo, a vida plástica das fotos e das redes sociais basta para fingir que houve discussão democrática e, portanto, “tudo está certo”. Mas a pergunta permanece: como discutir e implementar um PPP se não temos autonomia para influir sobre quase nada?

Enfrentar esse autoritarismo dos de cima exige análise da realidade, compromisso e responsabilidade. Não podemos fazer tudo sem consequências da ditadura disfarçada em que vivemos, mas também não podemos fazer das tripas coração, embelezando ou minimizando a falta de liberdade e democracia. E é justamente isso que o atual formato de “construção de PPP” quer: dar uma fachada de democracia e autonomia que não existem na prática! Não reconhecer este problema é estrangular a educação e ser funcional ao projeto criticado pelo Darcy.

Devemos partir de uma análise da conjuntura: vivemos num país desigual, fundado sobre a escravidão, a exploração, o voto a cabresto, que foi e é colonizado das mais distintas formas. Enfrentar isso exige ação consciente, um enfrentamento lúcido e coletivo. Se reproduzimos as hipocrisias vindas de cima acriticamente por medo de perder migalhas, queimamos a largada e perdemos antes mesmo de começar.

Como dizia Lima Barreto a mais de 100 anos atrás: “a covardia mental e moral não permite movimentos de independência, ela só quer acompanhadores de procissão que só visam lucros ou salários nos pareceres. Não há entre nós, campo para as grandes batalhas de espírito e inteligência. Tudo aqui é feito com o dinheiro e os títulos. O que é preciso, portanto, é que cada qual respeite a opinião de qualquer, para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino, para a própria felicidade da espécie humana. Entretanto, no Brasil não se quer isso. Procura-se abafar opiniões, para só deixar em campo os desejos dos poderosos e prepotentes”.

Que função mais importante uma educação pública poderia ter senão descolonizar nosso espírito nacional nesta perspectiva criticada pelo Lima?

Que outra serventia poderia ter um PPP em um país como o Brasil?

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