domingo, 16 de março de 2025

Quanto a ideologia do livre mercado deve a Von Mises?

 


Os homens parecem perto de descobrir que o egoísmo do indivíduo,
do grupo ou das massas foi, em todos os tempos, a alavanca do movimento histórico;
mas, ao mesmo tempo, ninguém se incomoda com esta descoberta,
mas decreta: o egoísmo deve ser nosso deus.
Com esta nova crença se está prestes a construir, com clara intenção,
a história futura do egoísmo; deve apenas ser um egoísmo prudente,
que se obriga a algumas restrições a fim de manter-se de forma duradoura,
que justamente por isso estuda a história, para tomar conhecimento
do egoísmo imprudente.
(Nietzsche)


A televisão, a grande mídia, as universidades e as escolas atuais nos ensinam que vivemos sob uma economia de “livre mercado”; que democracia é sinônimo de capitalismo e livre mercado é igual à liberdade individual.

         No entanto, o livre mercado deixou de existir com o surgimento do capitalismo imperialista, no final do século XIX. Ele gestou mega empresas transnacionais que detêm o controle de ramos inteiros do mercado, definindo preços e políticas econômicas. Hoje, portanto, o “livre mercado” não passa de uma ideologia que justifica e faz apologia deste atual estágio do capitalismo.

A ideologia do “livre mercado” foi forjando-se e atualizando-se ao longo do século XX e atingiu o seu ápice na década de 1990, com a queda do muro de Berlim, a restauração do capitalismo na ex-União Soviética e nos países do leste europeu (fato que a mídia Ocidental procura gravar na mente do povo como o “colapso do comunismo”), seguido pela aplicação do neoliberalismo por diversos governos ocidentais.

         Os idealizadores da política neoliberal foram os principais teóricos do upgrade nesta ideologia, lhes dando os atuais contornos estéticos; todos eles, como sabemos, formados pela Escola de Chicago (os chamados Chicago Boys). Um dos principais inspiradores desta Escola foi Ludwig Von Mises (1881-1973), um ferrenho adversário do socialismo.

 

Economia e ética

É inegável que ao longo do seu desenvolvimento histórico o capitalismo desenvolveu amplamente a técnica produtiva e incrementou diversas formas de criação de riqueza. Porém, seu objetivo final é sempre o enriquecimento individual. Ou seja, a acumulação privada! 

O mundo deste início de século XXI é marcado pelo fato, conhecido por todos, de que 1% de bilionários detém quase ⅔ de toda a riqueza produzida no mundo, enquanto mais de 2 bilhões de seres humanos vivem com menos de 1 dólar por dia. Estes dados são reconhecidos até mesmo pelo fórum de Davos, que reúne anualmente a nata da burguesia do planeta.

Este mecanismo de funcionamento econômico é o responsável por gerar esta disparidade tão grande entre ricos e pobres. Como as contradições são gigantes e não passam despercebidas sequer pelas crianças, é preciso acionar uma legião de escritores, professores, jornalistas, youtubers e economistas para mistificar e justificar a realidade que favorece exclusivamente os mais ricos, deixando todo o restante das pessoas como escravas assalariadas ou sem perspectivas.

         Todas as formas de tentar minimizar as imagens cotidianas de fome, miséria, prostituição e pobreza generalizada nas grandes cidades é, antes de tudo, uma questão ética. É um problema de reconhecimento da realidade social da maior parte dos países do mundo sob o regime capitalista. Como podemos julgar que “dá certo” um sistema que deixa mais da metade da população mundial pobre?

Negar um fato evidente no dia a dia é um problema de corrupção moral e ideológica.

         Para tentar esconder e maquiar estas contradições visíveis, o exército de ideólogos burgueses abre fogo com todo o tipo de ideologias: “livre mercado”, meritocracia, supremacismos, racismos, xenofobia anti imigrante, ódios sadomasoquistas e egotistas! E dentre estes, podemos destacar os economistas burgueses, que seriam merecedores não de um Prêmio Nobel, mas de um Oscar.

         O que escrevem, falam e veiculam todos os dias na grande mídia é um grande teatro de ficção, que conta com atuação de protagonistas e coadjuvantes que comovem e inspiram. Recorrem a todo tipo de estratagemas e se escondem atrás da “impessoalidade” do mercado, que seria algo tão natural, quanto o Sol, a Lua, a chuva ou “deus”. 

Toda ideologia necessita de alguns grãos de verdade, senão não seriam críveis. Por isso, o ideólogo burguês que vive na era imperialista que vai conseguir mais capitais investidos em suas análises é aquele que consegue se utilizar de muitos grãos de verdade para semear um campo de mentiras ou de distorções convincentes com mais sucesso. 

Dentre estes, cabe destacar o economista austríaco, mas que fez escola nos EUA, L. Von Mises. Ele escreveu diversos textos para refutar o socialismo. Na sua época, o socialismo estava em franca ascensão e expansão pelo mundo através da recém formada União Soviética, o que causava espanto e pavor em todos os grandes endinheirados e conservadores do mundo. Von Mises lutou no campo ideológico contra o socialismo da mesma forma que os empresários financiaram governos e golpes militares contra movimentos e países que julgavam “socialistas”.

Eles “confundem” ética com sucesso nos negócios; realidade com interesses pessoais; riqueza com propriedade privada.

 

O cálculo econômico em uma comunidade socialista

         Von Mises pensou ter refutado o socialismo quando centrou sua crítica sobre a impossibilidade de cálculo econômico em uma “comunidade” socialista.

         Muitas críticas de Von Mises eram pertinentes e poderiam ter sido aproveitadas pelos socialistas se houvesse capacidade de pensar de um ponto de vista mais equilibrado. Evidentemente que Von Mises pretende fazer terra arrasada do socialismo, afirmando se tratar de um sistema econômico que leva à abolição da racionalidade econômica e  que seria inviável sob todos os pontos de vista.

         Mais do que isso!

         Von Mises e seus seguidores afirmam, com a Bíblia na mão, que “o socialismo destrói a importância praxiológica do tempo e anula a singularíssima contribuição teleológica da humanidade para o universo”. Ou seja, em resumo, o socialismo extinguiria a humanidade, quando vemos diariamente que é o capitalismo (isto é, o “livre mercado”) que ameaça a continuidade da existência humana.

         A afirmação acima é o cúmulo daquilo que Marx e Engels zombavam dos capitalistas no século XIX, dizendo que estes entendiam o fim do capitalismo como o fim do mundo. E de fato é o fim do mundo de vida boa e de poder para eles!

         Von Mises, então, tenta demonstrar que não se pode economizar se não há cálculo econômico em uma sociedade que aboliu a propriedade privada. Para ele, qualquer medida que nos afaste da propriedade privada dos meios de produção e do uso do dinheiro, nos afasta também da racionalidade econômica. Ou seja, só há racionalidade se há uso de dinheiro e… propriedade privada!

         Mises ainda profetiza que “pela natureza” do socialismo, a administração terá de renunciar à valoração dos meios de produção, já que eles seriam de propriedade social. A noção da “natureza” do socialismo para Mises já está dada: não há dinheiro e, consequentemente, não há possibilidade de valorar e avaliar meios de produção. A administração não poderia transformar esse valor numa expressão comum de um preço monetário.

         Como se os meios de produção de propriedade social e estatal não pudessem ser valorados e avaliados de nenhuma outra forma, incluindo a matemática e a dos preços!

         Estas conclusões são muito esquisitas e pobres. Não seria reduzir a capacidade crítica humana a um mero joguete dos interesses egoístas dos grandes capitalistas, afirmando o fim de tudo o que existe quando na realidade com isso se ameaça apenas o fim dos multibilionários?

 

Von Mises entende socialismo como os planos quinquenais soviéticos

         Apesar de tudo, Von Mises não tira suas conclusões do nada. De fato havia a União Soviética, que funcionava a partir de planos quinquenais estabelecidos pelo supremo conselho econômico, no qual, em última análise, reinava Stalin, soberano; e os seus sucessores.

         Nesse ponto ele tem certa razão. Aí estão os “grãos de verdade” da sua ideologia.

         Homem algum pode dominar todas as possibilidades de produção econômica, inúmeras que são, de modo a estar em posição de fazer juízos de valor imediatamente evidentes, sem a ajuda da ação de compra e venda mais ou menos espontânea que ocorre no mercado. Ou seja, sem a atuação de dados econômicos objetivos que estão além de qualquer planejamento possível a não ser que aprendamos a prever o futuro em todos os seus detalhes subjetivos.

         Independentemente de quão bem informados estejam os administradores socialistas, suas propostas de planos econômicos, para as quais os planejadores centrais supostamente devem ajustar os parâmetros de preço do sistema, emergem de um conjunto arbitrário de diretrizes dos próprios planejadores e da própria economia real, e não da concorrência entre proprietários privados de meios de produção e do “mercado espontâneo”, que se encarna nas demandas e ofertas surgidas das pessoas com dinheiro e mercadorias ou seja, nas trocas que ocorrem cotidianamente.

         Esta crítica de Mises podia ter alguma validade para o caso da União Soviética e o seu planejamento burocrático, que desconsiderava o mercado russo, praticamente inexistente. Mesmo sua crítica à NEP russa do início dos anos 1920 é restrita e pobre, dado que não tirou nenhuma lição dela e simplesmente resume socialismo como a aplicação dos planos econômicos soviéticos.

         Porém, chegou a década de 1970 e Deng Xiaoping assumiu o poder na China, dando início a uma nova experiência econômica em larga escala. A experiência chinesa coloca outras questões acerca das possibilidades de transição ao socialismo.

         Isso não quer dizer que a China atual esteja a caminho do socialismo ou do comunismo não, o que vigora lá é uma espécie de capitalismo de Estado , mas esta experiência social e histórica abre brechas para preenchermos as lacunas da teoria socialista e, sobretudo, para respondermos às críticas de Von Mises.

 

Von Mises: o principal teórico do neoliberalismo

O capitalismo de Estado e o “livre mercado”

         O socialismo é um sistema econômico a ser construído, não sendo possível criá-lo através de uma receita de bolo. A sua ideologia é apenas o indicador do caminho, não uma verdade a ser levada ao pé da letra. 

Existem apontamentos de Marx e Engels que são importantes para chegarmos até ele, mas não são infalíveis. Lenin já alertava que eles não tinham resposta para tudo e que precisávamos avançar por conta própria. Todos os grandes teóricos marxistas afirmaram que o socialismo deveria incorporar os elementos positivos das formações econômicas históricas anteriores.

         Mais do que isso: o socialismo nasceria do próprio capitalismo!

         Não se trata da simples “reforma do mercado”, mantendo o restante da sociedade e sua estrutura política; trata-se de uma transformação revolucionária geral, embora conservando o que há de positivo em cada formação econômica anterior e dando passos seguros na construção de uma nova.

         É por isso que ignorar mecanismos econômicos desenvolvidos pelos modos de produção ao longo da história para a construção socialista, reduzindo-a ao planejamento supremo central, é o mesmo que inviabilizá-lo ou deixá-lo no campo da “utopia”. 

O planejamento estatal não pode fazer, nem prever tudo. Há certas tendências espontâneas nas relações econômicas que o mercado responde melhor e que são indispensáveis. Da mesma forma, o mercado desregulado e baseado na “mão invisível” gera o caos e o acúmulo absurdo de riquezas para poucos e miséria para a maioria. Assim, deve haver uma formação econômica mista, intermediária entre o capitalismo e o socialismo, que talvez seja o capitalismo de Estado (termo cunhado por Lenin durante os debates sobre a NEP).

Do contrário, seria o mesmo que tentar tirar uma sociedade socialista pronta da cartola. Desta forma desconsideraríamos totalmente os elementos positivos da formação econômica anterior, bem como a herança cultural e social do passado. Portanto, seria o mesmo que criar o socialismo “do nada”.

         Por tudo isso, o mercado capitalista não pode ser suprimido sem que as condições para que uma formação econômica socialista real seja criada. Dito de outra forma: o socialismo precisa incorporar os aspectos progressivos do capitalismo e os seus mecanismos econômicos, como o mercado, mas sem que este seja “livre” (no sentido que os neoliberais e a sua ideologia o entendem). Ele deve ser remodelado e regulamentado – o que pressupõe, inevitavelmente, a manutenção durante um período de transição, de determinados setores privados.

         A ideologia do livre mercado vem justamente para combater todo tipo de regulamentação econômica, acusando de ditatorial ou “socialista” qualquer movimentação nesse sentido. Tornou-se, assim, o absolutismo contemporâneo que grita contra as “ditaduras do Estado” para disfarçar o seu próprio poder autoritário. Para esta ideologia não importa em que sentido caminham os governos, mas basta que criem leis ou interfiram no mercado para regulamentá-lo que se abre a artilharia pesada de um exército de jornalistas, economistas, pastores, policiais e soldados contra as “ditaduras dos governos, do Estado e do comunismo”.

         Assim, os multimilionários podem dormir tranquilos.

 

A ideologia de livre mercado e o Estado como fiador do lucro privado

Enquanto o mercado mundial sob hegemonia norte-americana impõe uma subserviência política e econômica aos países semicoloniais, ao que, chamamos de neoliberalismo, o capitalismo asiático, que tem crescido bastante, mescla elementos de mercado com planejamento estatal, ao que, chamamos de capitalismo de Estado.

         Insistimos que o movimento socialista precisa utilizar-se do mercado para esta transição, dado que ele não é uma instituição exclusivamente capitalista, mas, antes de tudo, um mecanismo econômico. Depende da orientação que lhe é dada – isto é, depende da sua regulamentação pelos poderes públicos e sociais. O desenvolvimento dos países asiáticos – e mesmo dos europeus ou dos EUA – aponta para uma tendência mista de desenvolvimento, baseada nas forças do mercado e no planejamento estatal e governamental. Estes “agentes associados” constituem indiscutivelmente o vetor de definição das condições de desenvolvimento da indústria e da produção de forma geral neste início de século XXI.

         Assim, a crítica de Von Mises sobre a inexistência de cálculo econômico é refutada pela prática das experiências econômicas socialistas do século XX. A China e os demais países orientais vão jogar o jogo do mercado mundial, por isso dão uma orientação que não vai além do capitalismo de Estado, tanto internamente quanto externamente. 

Contudo, isso tem dado resultados: a economia de “livre mercado” dos EUA tem perdido cada vez mais competitividade para o capitalismo de Estado chinês. O dinamismo econômico se deslocou para a Ásia Oriental, fonte dos principais déficits estadunidenses. A China segue tendo enormes superávits comerciais mesmo com a Casa Branca movendo mundos e fundos para frear Pequim.

         Como se dará a transição do capitalismo de Estado para o socialismo é o que precisaremos descobrir a partir da regulamentação do mercado e o desenvolvimento futuro que se abrirá desta prática econômica. Certamente estes métodos precisarão ser complementados por outros, de cunho revolucionário, de regulamentação social e de psicologia de massas (“complementos” que não existem na China de hoje).

         Desta forma, fica respondida, na prática, a crítica de Von Mises de que a transição ao socialismo alteraria todos os dados econômicos de tal modo que um elo com o estado final em que se encontrava a “economia competitiva anterior”, isto é, o capitalismo, é algo impossível. O elo transicional é o próprio capitalismo de Estado, que deverá mudar globalmente a orientação da política econômica em comparação à ideologia neoliberal de livre mercado.

         Ao contrário do que é pregado pelos jornalistas e economistas mercenários, o neoliberalismo e o que ele entende por “livre mercado” não abrem mão nenhum centímetro do Estado. Pelo contrário: todo este discurso é para esconder o fato de que o Estado deve ser o fiador do lucro privado, de onde o empresariado tira as garantias para a sua produção às custas dos investimentos sociais e do desenvolvimento geral dos países.

         A riqueza gerada pela sociedade é drenada para os multimilionários e seus bancos que, evidentemente, vão cantar hinos e loas aos “benefícios incomparáveis” do “livre mercado”. E a ideologia do livre mercado termina por reduzir e condicionar todo o debate econômico e político àquilo que reproduz e sustenta sua riqueza.

         E segundo Mises e seus seguidores, terminar com esta forma de sociedade desigual e desumana seria o mesmo que anular a singularíssima contribuição teleológica da humanidade para o universo.

         Que pobreza de argumentos… e de espírito!

 

Livre mercado significa a defesa das liberdades individuais?

         A ideologia de livre mercado vende a ideia de que defender a liberdade individual é o mesmo que defender o livre mercado e a propriedade privada. Basta fazer uma observação social simples para perceber que não é assim

         Se por um lado deve haver liberdade para poder gastar o dinheiro que se ganha e a riqueza que se acumula, por outro, deve haver um limite ético perante uma sociedade que se torna absurdamente desigual.

         Reparem a vida de um desempregado. 

Ele está praticamente anulado pela sociedade, pois não pode consumir, ficando totalmente à mercê de conseguir qualquer fonte de renda ou mesmo de esmolas (com a sedução permanente do crime). Os trabalhadores pobres também não têm dinheiro suficiente para alugar a casa que quiserem ou comprarem o que lhes falta. Muitas vezes dependem de serviços públicos débeis e precários.

Todos os grandes programas de TV, coachs, as suas propagandas e loterias mexem e induzem os “sonhos” individuais, sem demonstrar que é pra poucos.

Mesmo o direito de ir e vir é inexistente para milhões de trabalhadores, seja para viajar para os países ricos visando tentar ganhar a vida, seja para fazer turismo, ou mesmo dentro do seu próprio país, com limitações para áreas turísticas, urbanas e bairros nobres, que são privilégio dos endinheirados.

O livre mercado, portanto, é para poucos. A grande esmagadora maioria apenas consome a ideologia da “liberdade”, que é cada vez mais reforçada pela grande mídia, youtubers e pela direita neofascista.

O liberalismo burguês clássico reconhece a importância das liberdades individuais (religiosa, sexual, artística, política e intelectual). Os “liberais” da direita neofascista brasileira atacam as liberdades individuais, pois interferem na religião e na opção sexual das pessoas, professando valores retrógrados e de violência, mesmo se dizendo santos praticantes do cristianismo. Misturam conceitos que para o liberalismo clássico seriam vistos como incompatíveis. Defender o liberalismo econômico deveria, teoricamente, estar em sintonia com a defesa das liberdades individuais.

No entanto, os defensores da ideologia do “livre mercado” usam o conservadorismo católico e religioso das pessoas para ocultar o debate econômico, como se fosse tudo a mesma coisa, ao mesmo tempo em que defendem veladamente a sua agenda econômica. E qualquer pessoa que se oponha a esta salada de frutas é acusada de ser “comunista” e, consequentemente, ser contra as “liberdades individuais”.

Eis como funciona a ideologia de “livre mercado” por entre as pessoas comuns no Brasil.

 

A “impessoalidade” do mercado

         Diferentemente dos governos e do Estado que, frente a uma crise respondem com nomes, partidos e instituições, o mercado é uma instituição impessoal, pela qual aparentemente ninguém responde – principalmente quando entra em crise e quebra. A partir daí funciona não só com a “mão invisível”, mas com o corpo inteiro.

         Quem aumenta o dólar? 

Quem perde ou ganha confiança? 

Qual banco paga pelos prejuízos causados a milhões de pessoas? 

O que acontece com as agências “classificadoras de risco” (leia-se: grandes bancos) quando erram em suas análises?

         “Ninguém” nos diz e tudo fica por isso mesmo.

         Aqui existe um parentesco das “vontades do mercado” com a “ira de deus”. Nenhuma pessoa sabe ao certo como elas se expressarão, mas qualquer evento ruim pode ser atribuído a estas “vontades caprichosas” e “fúrias incontroláveis” às quais, os meros mortais, devem só se submeter, preferencialmente sem questionar.

         Ou seja, os grandes empresários e oligopólios podem fazer o que bem entender escondidos atrás da impessoalidade do mercado. Eles podem ainda reclamar medidas de “auxílio” financeiro de governos e tesouros públicos quando quebram, mas quando essas instituições, empresas públicas e governos entram em crise, quebram ou caem por ações da “mão invisível” do mercado e das suas bolsas de valores, nenhum mercado os resgata, logo surgindo as “soluções” propostas pelo próprio mercado.

         A ideologia do “livre mercado”, impessoal e ardilosa, encontra-se consolidada na sociedade civil e é hegemônica perante os meios intelectuais e sociais. Ela se esconde atrás de argumentos, justificativas e “reportagens” técnicas e “imparciais”, as quais somos submetidos pela indústria cultural e midiática cerca de 24h por dia.

 

Arte de @joaogarin_

Para onde a ideologia de “livre mercado” nos leva? 

Um mercado desregulamentado nada tem a ver com liberdade. Ao contrário! Facilita a acumulação de capital para os multimilionários, de um lado, e de misérias e ilusões para os pobres, de outro. Além disso, procura mexer permanentemente com a ganância dos mais pobres, iludindo-os de que poderão se tornar ricos. Quanto mais riqueza acumulada para poucos, mais liberdade estes poucos terão às custas de pobreza e opressão para a esmagadora maioria.

Como não poderia deixar de ser, muita riqueza acumulada num pólo e a pobreza se proliferando por todos os outros pólos gera descontentamento e violência social, que precisam ser mascarados e justificados como algo que “nada tem a ver” com a estrutura social resultante do “livre mercado”. A resposta dada pelos meios de comunicação e demais instituições do capitalismo são sempre de índole individual.

A política conservadora não consegue fazer frente ao discurso e movimentos de “esquerda”, então apela para o radicalismo fanatizante, que desemboca no neofascismo atual. Os métodos de “debate” dos defensores da ideologia do “livre mercado” vão se tornando imorais, emocionais e paranoicos. Isto é, todos dispositivos psíquicos movidos por gatilhos infantis e emocionais.

Seus principais líderes políticos como o bolsonarismo, o MBL, Nicolas Ferreira, o Brasil Paralelo, etc., tornaram-se mestres na arte de manipular emoções infantis de “pessoas comuns” e ocultar os níveis de privilégios e exploração do “livre mercado” – na verdade, como vimos, do capitalismo imperialista. As contradições produzidas pelo neoliberalismo são muito grandes para não serem percebidas, por isso essa direita neofascista se especializou em métodos refinados de distorção da realidade, que misturam “auto-verdade”, pós-modernismo, sadomasoquismo e egotismo. A distorção e indigência teórica são supridas pela gritaria, pela distorção grosseira e pela manipulação paranoica de memórias e valores conservadores.

Além disso, esta ideologia liquida permanentemente qualquer finalidade social para a economia, tornando-a um instrumento nas mãos dos ricos e voltada somente para os ricos, deixando os pobres consumindo discursos e “boas intenções”.

Se a “esquerda” quiser ter um futuro, precisa aprender a trazer a público esta ideologia para desmascará-la perante os olhos da multidão em um trabalho de Sísifo permanente; precisa superar também o debate restrito a modelos abstratos de socialismo que remontam os anos 30 do século passado.

Se não formos capazes de fazer isso, não só não conseguiremos rebater as críticas de Von Mises, dos Chicago Boys e dos neofascistas, como deixaremos a ideologia do livre mercado operar livre, leve e solta, disfarçada e atuando das mais distintas maneiras.

 

> Este artigo usou como base o livro:

MISES, Ludwig Von. O cálculo econômico em uma comunidade socialista. LVM Editora, São Paulo, 2017.


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

O depósito de crianças

 

Muitas vezes me pegava pensando no que fazíamos de errado na escola pública.
Qual pedagogia utilizar? Como melhorar nossa relação com os alunos? Então, era massacrado em uma aula para os pequenos, onde acabávamos muitas vezes como inimigos, sem nos entender.
Onde estava o erro? Onde era preciso melhorar?
Certamente não se tratava apenas de um erro, mas de vários. No entanto, começou a ficar consciente em mim a precariedade das nossas salas de aula perante o clima e o fardo que é carregar tudo isso "em nome dos governos", sendo atormentado por eles permanentemente com descontos e demissão.
Dar aula para o Ensino Fundamental num calor como esse, em salas que não estão preparadas, é um crime lesa pátria. Só o fato de entrar numa sala que parece um forno de 45°C é deseducativo! Não estamos educando os alunos, mas formatando-os para aceitar qualquer coisa, assim como nós, professores, aceitamos.
Para a prefeitura de Porto Alegre (e em muitos casos, no Estado também) lhes interessa apenas o serviço de creche. Ou seja, se seguramos os alunos durante o turno da matrícula, custe o que custar! Não interessam as condições, não interessa o calor insuportável, não interessa o que se passa e o que fica!
Interessa vender a ideia para os pais que os filhos estão em sala de aula e "seguros". É por isso que em grande parte o "debate eleitoral" se resume a propor "escola em tempo integral", para consolidar e piorar a condição da escola municipal (e de algumas estaduais) como creche. É por usar as escolas como creches, sem se preocupar com qualidade, que os governos de norte a sul encurtam as férias docentes e usam como dogma a inviolabilidade dos 200 dias letivos.
Eu não aceito essa condição. E luto contra ela. Os alunos, sentindo-se numa prisão sem sentido, não entendem, e passam, então, a odiar os professores, consciente ou inconscientemente, e a "negociar". E se "negocia" com eles para formatá-los, já que a sua arma é a indisciplina e a bagunça. Ah, como se negocia!
Muito me indisponho com alunos, colegas e direções, que direta ou indiretamente, aceitam essa condição. Luto, sobretudo, contra a orientação política e econômica dos governos que criam escolas cuja finalidade principal é fingir que ensina algo, quando, na realidade, só funciona como uma creche bem pobre.
Esta é a engrenagem do sistema que cabe à escola pública. É precisamente esta engrenagem que precisamos mudar se queremos, de fato, mudar a escola pública pra melhor.

Carta ao prefeito de Porto Alegre e à sua Secretaria de Educação

Cartaz do sindicato dos professores do RJ com uma campanha
que deveria ser adotado pelos sindicatos do magistério público do RS

 

Porto Alegre, 25 de fevereiro de 2025
36°C

Caro prefeito de Porto Alegre e meus colegas na Secretaria de Educação, eu me chamo Lucas e sou professor na rede municipal de ensino desde 2023.
Trabalho na EMEF Heitor Villa-Lobos, que fica na Lomba do Pinheiro. A nossa escola tem uma infraestrutura bem defasada e quando faz muito calor, como que tem feito em fevereiro, março e dezembro, fica insuportável trabalhar e, até certo ponto, impossível ensinar e aprender, pois o nosso cérebro diminui a capacidade de raciocínio. Em situações de calor extremo o cérebro tira energia do que considera supérfluo, como concentração e raciocínio, para tentar aliviar o desconforto. O nível de estresse das turmas aumenta muito e fica impossível estudar. Não há como atender a nenhuma exigência de aprendizagem e o nível do IDEB inevitavelmente cai.
Nossas escolas são extremamente desconfortáveis. Elas não estão preparadas para o nível de calor que faz atualmente. Os ventiladores não dão conta. Por que existem condições nos shoppings, nos bancos, nos tribunais, e nas prefeituras, mas não na escola pública?
A maioria dos alunos tem origem humilde. São queridos e gente muito boa. Eles e nós estamos sendo torturados e massacrados em dias como estes. É desumano! É uma afronta aos direitos humanos!
Se não tivermos condições de ter ar condicionado, então as aulas precisam ser suspensas até que as condições climáticas se tornem mais amenas.
Todos os meus alunos pedem para o prefeito e o secretário de educação virem ter a experiência de passar um turno da tarde num dia quente como o que estamos acostumados a suportar.
Sejam mais humanos!
Sejam mais empáticos!
Obrigado pela atenção e lhes aguardamos com as portas abertas para que entendam na pele qual é a nossa real situação!

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

A ditadura invisível

A “democracia” capitalista esconde ditaduras nos locais de trabalho


Como está a democracia no teu local de trabalho?

Te escutam? 

Levam em consideração as tuas demandas e sentimentos ou só te dão mais trabalho e metas, com um olhar intimidador para te deixar quieto e submisso?

Que tipo de autoritarismo não reconhecido se exerce por meio do poder econômico de comando das chefias nos locais de trabalho, estudo e moradia na nossa “sociedade democrática”?

 

         Muito se grita contra as ditaduras na grande mídia e nas redes sociais: Venezuela, Cuba, Coreia do Norte, China, Nicarágua, Irã, etc.

         Os grandes meios de comunicação comercial e seus porta-vozes nos partidos de direita não perdem uma chance de contrapor estas “terríveis” ditaduras “comunistas” às supostas democracias ocidentais, das quais eles seriam, supostamente, os mais santos representantes.

         Então, pela lógica apresentada nos noticiários, podemos quase sempre concluir que o regime político e econômico de países como o Brasil, os EUA e a Argentina seria quase perfeito. 

Para a democracia burguesa não importa se o povo tem ou não tem ingerência democrática sobre a conduta dos eleitos, os ministros, a composição dos governos, os juízes, administradores das empresas privadas, as empresas estatais e os demais funcionários públicos, bem como sobre a tirania do mercado. Não se importa também se o povo não consegue interferir em nada que mude realmente os rumos das políticas econômicas ou pedagógicas aplicadas em todo o território nacional.

 

 

E o que dizer, então, do nosso local de trabalho?

A “democracia” aplicada na maioria dos países hoje não passa de uma monarquia disfarçada: temos o direito de eleger “um rei” para um mandato específico. Nada mais!

         Depois o mercado, “anonimamente”, dita o que está certo ou errado e todos temos que nos curvar e dizer amém. É como um filho mimado: ninguém pode contrariá-lo para não zangá-lo ainda mais. Ou seria ele um deus em fúria que castiga quem o questiona?

         Seja como for, não há democracia se não podemos interferir no mercado visando melhorar as condições de vida e de trabalho da maioria das pessoas e somos levados a temer qualquer espirro que ele dê. Escondem o autoritarismo e a tirania da política atrás das “reações do mercado” e praticam um permanente terrorismo midiático em cima disso.

 

A grande pergunta que nunca deve ser esquecida é: como cada regime político trata os seus trabalhadores nos locais de trabalho, estudo e moradia?

Este é o termômetro que devemos usar para medir, de fato, a existência e a qualidade da democracia. As pessoas podem falar o que pensam nos seus locais de trabalho sem sofrer nenhum tipo de represália? Podem opinar sobre metas, escalas, horários ou qualquer outra questão que diga respeito ao seu destino profissional? Ou, se ao contrário, simplesmente são obrigados, às vezes abertamente e outras tantas vezes sutilmente, a se calar e a aceitar o que a chefia manda, baixando a cabeça com medo do desemprego?

Muitos levam esses problemas não debatidos entalados na garganta pra casa, descarregam na família, nos amigos ou nos vizinhos. Por vezes pode se transformar em alcoolismo, depressão ou outros transtornos. 

Se não há liberdade de crítica no local de trabalho, não há democracia! Nesse caso, poder escolher um presidente através do voto torna-se uma mera formalidade que não muda quase nada na realidade cotidiana de milhões de trabalhadores, assim como se assustar com as supostas “ditaduras comunistas” dos outros países serve como uma luva para esconder a ditadura no cotidiano do nosso país.

 

Saber se existe democracia real no dia a dia, nos locais de trabalho, estudo e moradia, não significa saber se podemos opinar no sentido de “não trabalhar”, isto é, de não cumprirmos o nosso dever, mas, sim, se somos ouvidos, se nossas demandas são levadas em consideração; se há discussão livre e disposição real das chefias em ouvir e tentar fazer o melhor juntos, até a preocupação verdadeira com a divisão dos lucros e resultados.

Ou se, ao contrário, tudo vira motivo para censura, repulsão, intriga, remoção, chantagens, fofoca ou demissão. Sabemos que no Brasil contemporâneo a maioria esmagadora das empresas privadas e, até mesmo das públicas, seguem este último caso. 

Como são nos outros países? Melhores?

O capitalismo se sustenta na ditadura disfarçada dos locais de trabalho. Na maioria das empresas ele precisa do assédio moral permanente, aberto ou disfarçado, e do medo como forma de funcionamento. Em geral, por serem pobres, os trabalhadores só podem se submeter a essa situação Enquanto isso, os jornais da grande mídia nos dizem que vivemos numa democracia.

Nesse sentido, não se pode apontar quase nenhuma diferença substancial no dia a dia entre “as ditaduras” da Venezuela, Cuba, China, Coréia do Norte e Irã e os “democráticos” Brasil, EUA e Argentina.

Se falamos em “liberdade individual”, então ela precisa ser plena. Não basta eu poder organizar protestos em nível de sociedade civil e ter direito formal de voto, mas sim se sou ouvido e acolhido sinceramente no meu local de trabalho, estudo e moradia. Fato que decididamente na maioria dos lugares não acontece.

Além disso, a democracia não pode ser apenas no restrito campo do voto para o poder executivo e legislativo. Ela precisa ser também uma democracia no campo econômico, com permanente socialização da riqueza e o controle sobre a tirania do mercado, para criar condições materiais mais equânimes. 

Só assim a gente pode começar a falar em democracia.

 

Criticar a democracia capitalista Ocidental não significa desconsiderar o autoritarismo das sociedades orientais.

Significa reconhecer que enquanto não houver democracia nos locais de trabalho, estudo e moradia, não há democracia real, mas autoritarismo e usurpação do direito de dispor de suas liberdades individuais em muitos níveis. O autoritarismo dos locais de trabalho desencadeia uma violência que não é obrigatoriamente física, mas, na maioria das vezes, moral e simbólica; e o fato de estar nestes campos não significa que não causem profundos transtornos psíquicos e emocionais para fazer o povo aceitar a sua miséria.

Este é o regime da escravidão assalariada! Ele nunca é levado em conta pelos meios de comunicação e o setor empresarial afirma ser impossível funcionar de outra forma.

Todas as distorções e mentiras ideológicas estão encaixadas e concatenadas para fazer o sistema funcionar.

 

A grande questão é que querem te fazer crer que vivemos no paraíso democrático da Terra se comparado às “ditaduras de outros países” que você, no geral, nem sabe realmente o que se passa; e, portanto, não precisaríamos reclamar das instituições políticas e da situação do nosso próprio país.

Ou seja, o capitalismo te domina pela ilusão de enriquecimento, pelo medo e ignorância, enquanto mantém a mais completa ditadura sobre os locais de trabalho para os ricos continuarem lucrando e os pobres “precisando trabalhar”. Assim, exaltamos nossa própria pobreza e acreditamos viver na “democracia” onde existe um autoritarismo cotidiano, que somos levados a crer que é “democracia”.

Por isso repito a pergunta do início: como está a democracia no local em que você trabalha?


Post-Scriptum: o que grandes pensadores já escreveram sobre o mesmo tema?

 

         “A versão oficial é que todos temos direitos e vivemos numa democracia. Outros desafortunados que não são livres como nós têm que viver em Estados policiais. Tais vítimas obedecem a ordens, por mais arbitrárias que sejam, ou sofrem as consequências. As autoridades as mantêm sob vigilância regular. Burocratas do Estado controlam até os menores detalhes do dia-a-dia. Os funcionários que as oprimem respondem apenas a seus superiores públicos ou particulares. De qualquer forma, a discordância e a desobediência são punidas. Informantes relatam tudo regularmente às autoridades. Tudo isso deve ser muito ruim.

E é mesmo, embora não seja nada mais do que uma descrição do local de trabalho contemporâneo. Os liberais, conservadores e libertários que lamentam pelo totalitarismo são fingidos e hipócritas. Há mais liberdade em qualquer ditadura moderadamente ‘desestalinizada’ do que num local de trabalho americano normal. Num escritório ou numa fábrica, encontra-se numa prisão ou num mosteiro. De fato, Foucault e outros demonstraram: prisões e fábricas foram criadas mais ou menos ao mesmo tempo, e seus operadores conscientemente emprestaram as técnicas de controle uns dos outros. Um trabalhador é um escravo em meio período. O chefe diz quando ele deve chegar, quando deve ir embora e o que deve fazer durante a jornada. Ele diz quanto trabalho alguém deve fazer e com que rapidez. Tem liberdade para levar seu controle a extremos humilhantes, regulamentando, se assim o desejar, o que alguém deve vestir ou com que frequência deve ir ao banheiro. Com poucas exceções, pode demitir alguém por qualquer motivo, ou sem motivo. Põe dedo-duros e supervisores para espionar as pessoas e acumula um dossiê para cada empregado. Retrucar é chamado de ‘insubordinação’, como se o trabalhador fosse uma criança malcriada, e não só leva à demissão da pessoa, como também impede que ela obtenha seguro-desemprego. (...)

O sistema de dominação humilhante que descrevi rege mais da metade das horas de vigília da maioria das mulheres e da grande maioria dos homens há décadas, durante a maior parte da sua vida. Para certos fins, não é muito enganador chamar nosso sistema de democracia, capitalismo ou — melhor ainda — industrialismo, mas seus verdadeiros nomes são fascismo de fábrica e oligarquia de escritório. Quem disser que essas pessoas são ‘livres’ está mentindo ou é burro”.

Bob Black

 

         “O trabalhador só se sente consigo mesmo fora do trabalho, enquanto que no trabalho se sente fora de si. Ele está em casa quando não trabalha, quando trabalha não está em casa. Seu trabalho, por isso, não é voluntário, mas constrangido, é trabalho forçado. Por isso, não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio de satisfazer necessidades exteriores a ele mesmo. A estranheza do trabalho revela sua forma pura no fato de que, desde que não exista nenhuma coerção física ou outra qualquer, foge-se dele como se fosse uma peste”.

Karl Marx

 

         “No fundo agora se sente… que um tal trabalho é a melhor polícia, pois detém qualquer um e sabe impedir fortemente o desenvolvimento da razão, da voluptuosidade e do desejo de independência”.

Friedrich Nietzsche



“Quase todo mundo passa a maior parte da sua vida vivendo em um sistema totalitário. Isso se chama ter um emprego. Quando você tem um emprego, está totalmente sob controle dos donos das empresas. Eles determinam o que você veste, quando pode ir ao banheiro, o que você faz. A simples ideia de contrato de trabalho é basicamente vender a si mesmo para a servidão. São como governos privados mais totalitários do que os governos propriamente ditos. (...) Eles não podem te matar, mas podem controlar tudo o que você faz. (...) Sua escolha é entre passar fome ou se vender para uma tirania. Muito liberal, não é?"

Noam Chomski