sábado, 10 de julho de 2021

A linguagem vazia como forma de esconder as relações sociais hipócritas

  

Oi, tudo bem? — diz o porteiro para a dona Maria, que chega para trabalhar num condomínio de luxo do Rio de Janeiro.

        Tudo bem! — responde mecanicamente dona Maria ao porteiro.

        Na verdade, dona Maria vive aflita por inúmeros problemas que não ousa compartilhar com ninguém. Ao contrário do cocheiro do conto do escritor russo, Tchekov[1], que queria falar desesperadamente com qualquer pessoa sobre a morte do seu filho, dona Maria não quer falar com ninguém sobre os seus problemas e aflições, a não ser com alguns de seus familiares que a ignoram.

         Não! A vida de dona Maria não vai nada bem. O filho mais moço está metido com o tráfico de drogas; a filha do meio perdeu o emprego e está em casa, abatida e propensa a se entregar ao primeiro aventureiro que aparecer; e a irmã de dona Maria descobriu que está com câncer de mama em estado avançado. Todos estes pensamentos angustiosos lhe oprimem o peito. Mesmo assim, tal como uma fortaleza inexpugnável, dona Maria vai trabalhar todos os dias, e passa pelo porteiro do condomínio que sempre lhe lança um “tudo bem” matinal.

         Nem dona Maria, nem o porteiro refletem sobre como estes “tudo bens” vão criando uma crosta de gelo nas relações humanas cotidianas. Talvez nenhum dos dois esteja realmente interessado na história de vida e nos problemas individuais de cada um, embora a etiqueta, a moral e os “bons costumes” obriguem que se lance um “tudo bem?”; e a interlocutora responda: “tudo bem!”, mesmo que, na realidade, nada esteja bem.

         Por certo, dona Maria não deveria mandar o porteiro ao diabo por lhe importunar com frases prontas para descargo de sua própria consciência, mas também não podemos relativizar e dizer que se trata de uma simples cordialidade, pois são práticas pré-reflexivas como essas que transformam o nosso cotidiano em prisões mentais, convencionais e sociais, nos familiarizando com a hipocrisia. Por que o “tudo bem?” ao invés de aproximar os dois personagens os afasta e solidifica os problemas de cada um tais como são, criando uma verdadeira cunha entre ambos, solidificando aquela máxima do senso comum de “cada um com seus problemas”?

         Em outras palavras: esta cordialidade do dia-a-dia de todo mundo, baseada em um linguajar vazio, seria algo realmente positivo ou serviria para nos mecanizar e, por isso mesmo, nos desumanizar em dolorosas parcelas diárias?

***

         Num belo edifício do centro da cidade de São Paulo, o seu Vanderlei, dono do apartamento 804, dá de frente com a faxineira bem no meio do saguão de entrada do prédio. Ansioso, embora aparentando uma falsa segurança, Vanderlei dá um “oi” rápido e nervoso para a faxineira, que encontra quase todas as quartas feiras, bem na hora que sai para buscar a filha na faculdade. A faxineira já sabe que seu Vanderlei gosta de um papo. Pela sua condição subalterna em relação a um proprietário do edifício, que se julga superior e com determinados direitos — ainda que todo este pensamento seja processado de forma inconsciente na mente de ambos —, ela termina por se resignar, para de passar o pano no chão e devota sua atenção para o morador. 

         Fruto de uma conjunção de fatores sociais, religiosos e pessoais, seu Vanderlei possui muitos déficits emocionais que o impelem a descarregar sua angústia e frustração em várias pessoas no seu entorno; no caso, a vítima da vez é a faxineira, dada a sua aparente receptividade, escondendo, atrás disso, a falsa percepção de que “gosta dela”. Julga-se bem humorado, de bem com a vida e com a vizinhança ao proceder desta forma, mas, na realidade, a faxineira apenas pensa: “que saco, mais uma vez esse velho vem despejar em mim um monte de problemas, será que ele não tem simancol?”.

         Seu Vanderlei fala recorrentemente da crise do seu casamento, contando detalhes minuciosos que causam certos constrangimentos à sua interlocutora. Ele não se importa. Segue narrando como a crise com sua mulher tem reflexos na sua relação com a filha. Em nenhum momento demonstra o menor interesse sobre a vida da faxineira, seus problemas, suas angústias. O que importa são os seus problemas, exclusivamente.

         Quando a faxineira fecha um pouco o semblante, fazendo feição de retomar a limpeza, seu Vanderlei percebe que já está na hora de seguir. Simplesmente dá tchau e retoma seu caminho em direção à garagem para pegar o seu carro.

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         Nos dois exemplos acima podemos perceber como a linguagem pode ser vazia e cruel, servindo para esconder, confundir ou dissimular sentimentos, levando-nos a uma lenta desumanização diária. No caso da dona Maria, percebemos sua recusa em falar, por receio e medo, ainda que seja obrigada a responder “tudo bem!” e forçar um sorriso para retribuir o do porteiro. No caso do seu Vanderlei — quase o exato oposto — temos uma metralhadora giratória de palavras que, para faxineira, são vazias, uma vez que não existe reciprocidade, mas apenas utilitarismo de ouvidos, energia emocional e paciência alheias. A faxineira, ao invés de se abrir, fecha-se mais e cultiva internamente um sentimento não expresso de desprezo por seu Vanderlei, que entende exatamente o oposto.

         Tais relações baseadas em uma linguagem vazia e desprovida de vida e sentimentos reais, usada basicamente como forma de ação prática na selva do cotidiano, pode ser reproduzida à exaustão. Quem nunca viveu ou viu situações como estas nas mais distintas esferas da vida social? O que tais relações, pautadas por este tipo de linguagem convencional, representam de fato?

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         Poderíamos ainda analisar as relações humanas expressas pelas redes sociais, em geral, e pelo whatsapp, em particular. A empresa XD serviços possui um grupo de whatsapp no qual participam a maioria dos seus funcionários. Com exceção de alguns informes institucionais, a maior parte das mensagens diz respeito apenas a "bom dias”, “boa tardes” e “ boa noites”.

         Quando alguma pessoa está de aniversário, logo os colegas mandam felicitações, acompanhadas de cartões, fotos, emojis e memes; ou então, quando alguém perde um familiar, desaba uma chuva de “meus sentimentos” que toma conta do grupo. Contudo, no cotidiano, grande parte destes “colegas” sequer se falam ou se buscam para saber o que realmente pensam e sentem. Em alguns casos, vemos até ódio e receio contido em relação ao colega que mandamos “felicitações” ou “meus sentimentos”. Nas reuniões de trabalho a maior parte sequer se fala honestamente, olho no olho, e, geralmente, não se preocupam sinceramente com as limitações e os problemas dos outros. 

As reuniões presenciais ou virtuais da empresa são, grosso modo, ambientes empesteados, onde cada participante não apenas não fala o que realmente pensa, como não sai transformado para melhor (ao contrário: a maior parte sai pior do que entrou). Apesar disso, a hipocrisia da etiqueta da “boa educação linguística” não deixa de se fazer presente nas redes sociais. E muita gente age desta forma para ficar bem com a sua própria consciência, não se importando que haja um abismo com a prática do dia-a-dia.

*** 

Um caso parecido acontece nas festas de final de ano. Durante a maior parte do tempo a postura de um indivíduo é medíocre e totalmente descomprometida com o outro, mas chega o Natal e ele enche a boca pra lançar um “feliz natal” ou “feliz ano novo”, como se tivesse realmente alguma preocupação com a vida do outro.

A tese central aqui é que essa etiqueta linguística hipócrita funciona como parte dos mecanismos psicológicos que nos prendem à estrutura oficial da sociedade. Além de ir nos desumanizando, vai lenta e gradualmente nos acostumando a dissociar as palavras dos atos; o discurso da prática; portanto, nos habitua com a hipocrisia até nos tornar hipócritas. Isso facilita o funcionamento do sistema, que necessita desta dissociação, desta etiqueta vazia que asfixia e mata as verdadeiras relações pessoais e sociais.

 

Persona X Self: um breve paralelo com a psicologia junguiana e a filosofia de Schopenhauer

         Carl G. Jung já analisou estas relações sociais do ponto de vista de sua psicologia. Segundo ele, nós teríamos várias instâncias psíquicas que responderiam a determinados estímulos da realidade. A busca de uma vida seria pela nossa individuação, processo doloroso que leva a inúmeros conflitos, mas que proporciona o desenvolvimento da essência da nossa psique, que seria o self — isto é, aquilo que nós somos realmente, sem nenhum tipo de máscaras.

         Já a persona, seria exatamente aquela instância psicológica que entra em contato com a realidade exterior e, portanto, é suscetível a todo o tipo de etiqueta social. Em alguns casos busca por elas desesperadamente. Portanto, faz parte de nós, mas não somos nós exatamente, já que é uma personalidade “descartável”. Quando dona Maria responde automaticamente para o porteiro “tudo bem!”, sem refletir, está se utilizando das diversas máscaras da persona.

         Segundo Clarissa Estés, “a persona não é apenas uma máscara atrás da qual a pessoa se esconde, mas sim, uma presença que encobre a personalidade rotineira. Nesse sentido, a persona ou máscara é um indutor de hierarquia, virtude, caráter e autoridade. A persona é o significante exterior, a manifestação exterior de comando”[2].

         A utilização desses recursos linguísticos vazios é parte essencial da persona, que busca as mais variadas combinações para proteger as fragilidades do nosso ego. Certamente, se algum dia uma pessoa respondesse ao porteiro que “incomoda” dona Maria todas as manhãs de forma a lhe questionar as inseguranças e intenções ocultas por trás dessa linguagem mecânica, o ego do porteiro poderia desmoronar como um castelo de areia. Imaginem agora o que aconteceria se a faxineira resolvesse questionar uma única vírgula dos argumentos sobre a crise conjugal que sustenta toda a construção emocional de seu Vanderlei? Ele também desabaria e provavelmente se tornaria um inimigo mortal da faxineira. Ou ainda: se no grupo de whatsapp o colega respondesse algo como “hoje tu me dá parabéns pelo aniversário, mas quer me ver pelas costas todos os dias” o que aconteceria?

         Parte dessa etiqueta linguística é, portanto, necessária até certo ponto, embora não possa se tornar um sucedâneo das relações humanas, como tem sido a regra na sociedade capitalista, mais baseada na aparência do que na essência. Para o bom funcionamento dessa sociedade, basta que aparentemente tudo ande bem, não importando as consequências de ocultarmos diariamente o que realmente sentimos e o que realmente precisamos falar. Assim, o “tudo bem!” da dona Maria naturaliza que “está tudo bem”, quando na verdade quase nada está realmente bem. Um singelo “oi”, como forma de reconhecimento do outro, seria um bom primeiro passo. A grande questão, no entanto, é que somos educados para a hipocrisia e não para compreendermos os nossos íntimos problemas emocionais e pessoais, bem como os problemas das outras pessoas.

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         Schopenhauer também analisou este recurso psicológico, ao qual batizou de caráter adquirido, em contraposição ao caráter inteligível e ao caráter empírico. 

Para ele, o caráter adquirido só se “obtém no curso da vida, por meio das relações com o mundo; é dele que se fala quando se louva a alguém o ‘ter caráter’ ou quando se lamenta a sua falta. Na verdade poderia crer-se que, desde que o caráter empírico é invariável e consequente consigo mesmo como qualquer fenômeno natural, também o ser humano deveria parecer sempre semelhante a si próprio e permanecer consequente, e que não teria necessidade de criar artificialmente um novo caráter, com a experiência e com a meditação. Entretanto, não é assim, e, embora permaneçamos sempre os mesmos, nem sempre chegamos a nos compreender a nós mesmos; antes, com muita frequência nos desconhecemos até que tenhamos adquirido certo grau do verdadeiro conhecimento de nós mesmos”[3].

Obra de Susano Correa: "homem protegido debaixo de um sorriso bobo".

As relações sociais na sociedade capitalista: o que dá liga à elas?

         A plasticidade das relações humanas na sociedade capitalista, escondida sob mil véus de hipocrisia flagrante, não é precisamente uma novidade. Os autores do Manifesto Comunista, por exemplo, já haviam escrito em 1848 que “a burguesia destruiu todas as relações feudais, patriarcais, idílicas. Rasgou sem misericórdia todos os variados laços feudais que prendiam o ser humano aos seus superiores naturais e não deixou outro laço entre os seres humanos que não o do interesse nu, o do insensível ‘pagamento em dinheiro’. (...) A burguesia despiu da sua aparência sagrada todas as atividades até aqui veneráveis e consideradas com grande reverência. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência em trabalhadores assalariados pagos por ela. A burguesia arrancou à relação familiar o seu comovente véu sentimental e reduziu-a a uma pura relação de dinheiro”[4].

         Já para o escritor francês que descreveu como ninguém as hipócritas relações burguesas de sua época, Honoré de Balzac, “o dinheiro só se torna alguma coisa no momento em que o sentimento deixou de existir”[5].

         Toda a relação de confiança construída na sociedade burguesa se dá em torno do dinheiro e, portanto, sobrepõe-se necessariamente aos sentimentos e às emoções, manipulando-os de forma utilitária. É o dinheiro que desenvolve o poder de definir o que é confiável ou não, bem como o que é normal e o que é anormal. Na sociedade comandada pelo dinheiro, “a propaganda é a alma do negócio” (isto é: a superficialidade aparente se sobrepõe à essência).

         Não existem outras formas de “criar liga” entre os seres humanos nesta sociedade. Tudo é definido por um frio cálculo do que vamos ganhar e do que vamos perder em determinadas relações ou ações. Temos que fazer também um breve cálculo (no mais das vezes inconsciente) do quanto vamos gastar de energia e de dedicação, uma vez que a nossa força de trabalho já pertence ao patrão que a comprou. O quanto perdemos da relação para com outras pessoas, mantendo-nos em uma superficialidade assustadora, é o que determina, na prática, as relações humanas na sociedade capitalista.

         Uma vez que a principal e quase exclusiva relação de confiança da nossa sociedade é o dinheiro, tudo nela se mede pelo que se tem, pelo que ganhamos ou perdemos. Assim, se lucramos com alguma coisa, isso é bom; se perdemos e temos algum prejuízo, isso é ruim. Só que as relações humanas autênticas não se resumem a uma questão comercial. Elas são ricas em possibilidades para as reduzirmos a tão pouco. Já disse o poeta Fernando Pessoa que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. A sociedade burguesa, no entanto, obrigou as pessoas a vender a alma pelo valor monetário mais baixo e utilitarista.

         Se isso não nos mata completamente, vai nos matando um pouquinho todos os dias. Empobrece não apenas a sociedade, mas a riqueza de possibilidades das relações humanas. Assim, não somos educados para desenvolvermos relações francas, sinceras, abertas, sem nenhum tipo de máscaras ou véus. Ao contrário, somos levados a crer que agir com máscaras e dissimuladamente é um princípio básico e elementar. Nossa persona passa a ser a parte central de nossa psique, enquanto que o self é relegado ao isolamento e ao esquecimento. Muita gente morre sem conhecer a si mesmo, tão emaranhados que ficam nas cordas das máscaras que utilizam para sobreviver.

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         Podemos fazer um paralelo desta linguagem hipócrita cotidiana com aquela utilizada pelos economistas no noticiário e nos jornais. O objetivo é obscurecer e não tornar acessível. Fingir que se “cobre” algo, mas na verdade só estão trabalhando para tornar o inaceitável “natural” por intermédio de ideologias escabrosas. Como os jornalistas e os economistas precisam esconder o abismo existente entre a elite burguesa nacional e internacional, de um lado, e a classe média e a classe trabalhadora, do outro, justificando o imoral acúmulo de riquezas e de capital num pólo, baseado no saque de rapina, falam um linguajar “próprio”, que fala, fala, mas não diz nada e esconde tudo.

         Muitas pessoas julgam-se incapazes de entender o noticiário econômico, mas na verdade ele é feito para confundir e justificar a desigualdade e a exploração. Daí provém aquela visão absurda de apenas apontar como central o “crescimento do PIB”, a “alta e baixa nas bolsas de valores do mundo”, bem como o “risco Brasil” e tantos engodos deste gênero. Outra linguagem poderia ser utilizada se interessasse fazer o povo compreender que a sua fome, o seu arrocho salarial e as taxas de juros escorchantes que lhe cobram no cartão de crédito são, na realidade, reflexos de uma política econômica deliberada pelos governos, a mando do mercado e do sistema financeiro internacional.

         Se falta verba para a saúde, a educação e a segurança públicas, isso é resultado da forma de funcionamento baseada na especulação financeira, no sistema da dívida “pública” e numa total desregulamentação do mercado, que deixa o Estado, a política, as leis e a economia completamente à mercê dos abutres da Avenida Paulista, de Wall Street e da City londrina. Um povo sem auto estima, acostumado a achar que o país não presta, que tudo o que é bom “vem de fora” e, ainda por cima, que vai sendo corrompido diariamente por uma linguagem que também não lhe diz nada, pensa que não é capaz de compreender o noticiário econômico. 

A realidade, contudo, é que os economistas e jornalistas aproveitam-se dessa institucionalização formal e informal de uma linguagem que fala, fala, mas não diz nada. Assim, muitas pessoas da classe trabalhadora concluem, erroneamente, que economia é coisa de “gente intelegente”, dos políticos e dos economistas, quando, na realidade, é assunto de todos nós — e de fundamental importância!

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Não é necessário comentar nada sobre a hipocrisia do discurso eleitoral da democracia burguesa, dado que, infelizmente, já se tornou senso comum associar os políticos com a corrupção. Apesar do esforço de reciclar as esperanças nas eleições, levado a cabo pela máquina propagandística e ideológica da grande mídia e do Estado, atingiu tal ponto do senso comum que muitas pessoas se adaptaram a ele por ser uma forma cômoda e ilusória de pensar que a vida pode mudar através do voto em eleições onde o discurso da propaganda eleitoral jamais bate com a prática de governo.

 

A linguagem morta da “esquerda”

         Por entre a militância de “esquerda” o caso é mais grave, pois trata-se de uma parcela da população que tem algum tipo de acesso à cultura e à instrução. O erro começa na ausência de escuta e na imposição de políticas que não foram debatidas com ninguém, à exceção dos organismos internos de cada partido ou direção política e sindical. Uma vez que internamente eles tenham fechado uma linha, apresentam-na como se fosse a “salvação”, à revelia de qualquer confrontação honesta que venha da base de uma categoria ou mesmo do povo.

         Grande parte desta militância transforma a teoria e sua política em dogma religioso. Aí a linguagem passa a ser vazia também. Ela “diz” outra coisa daquilo que aparentemente queria passar; e no campo político diz muito menos do que deveria. No mais das vezes, afasta ou subjuga, ao invés de emancipar. A começar por sua total ausência de crítica e autocrítica sobre a sua prática.

         Dentre vários erros grandes e pequenos (desconsiderando-se as traições abertas), a esquerda tem duas vertentes linguísticas bastante complicadas: 1) a linguagem branda da “esquerda oportunista”, cuja finalidade central é adoçar a classe trabalhadora fazendo-a esperar (seja por uma saída eleitoral, judicial, “sindical”; um “salvador da pátria”, etc.); 2) a linguagem dogmatizada e sectária da suposta “esquerda revolucionária”, que foi assim ironizada por Fernando Claudín: grande parte do movimento comunista ficou marcado por “um espírito sectário e dogmatizante, embalado num verbalismo revolucionário que dissimulava a perda de noção da realidade”[6].

         No primeiro caso se anestesia a classe trabalhadora com falsas esperanças (às vezes com alguma base na realidade, outras tantas simples mentiras deslavadas); no segundo caso a linguagem serve para dar uma aparência de combatividade revolucionária, mas a essência da questão é que se perdeu completamente a noção de realidade e apenas se “massageia” o próprio ego de que “estamos fazendo o que é revolucionário”. Tanto num como noutro caso, a linguagem é uma armadilha que deve ser reconhecida e evitada.

         Para evitarmos armadilhas, devemos observar o fato, a ação e o objeto em si mesmo. Por exemplo: “consciência” e “árvore” são palavras, mas as palavras não são os fatos, as ações e os objetos “em si mesmos”. Devemos observar tudo isso evitando a embriaguez das palavras. O orador pode fazer uma afirmação em palavras, mas se estas não correspondem aos fatos, à sua ação ou ao objeto, tornam-se meras palavras vazias que não correspondem à prática. Nossas mentes estão sujeitas a diversos tipos de pressões e preconceitos: necessidades presentes e futuras, pressões psicológicas, morais, sociais, profissionais, sem falar nos medos, emoções e receios. Por reação, muitas vezes não vemos os fatos, as ações e os objetos, apenas nos contentamos com palavras, que nos anestesiam, mas cobram um preço muito alto logo ali adiante.

         Dentro da mesma lógica, a maioria das organizações de “esquerda” — sobretudo as de cunho oportunista — quando falam em “socialismo” querem dizer “democracia burguesa”; quando falam em “revolução”, estão querendo dizer “pressão parlamentar burguesa” ou “mudança de governo via eleitoral”. Fazem uma misturança de conceitos e termos para esconder uma prática oportunista de conciliação. Com esta atitude não podem responder as distorções da grande mídia e do establishment burguês, que tira toda a vantagem dessas contradições.

         Ultimamente os sindicatos dirigidos pelo oportunismo tem falado em “greve”, mas a sua greve pode casar com trabalho remoto, com “greve de pijama” ou, ainda, com paralisação de 1 dia. Ou seja, é uma forma de tentar acender uma vela pra cada santo, confundindo tudo e desgastando ainda mais a palavra “greve”. Como não tem preocupação com as questões linguísticas e a sua dissociação com a realidade, não vê problema nenhum em fazer agitações que são hipocritamente oportunistas ou que beiram o realismo fantástico esquizofrênico, do que toquem realmente a consciência e o coração da classe trabalhadora — mesmo que seja a longo prazo.

 

Por uma linguagem e relações sociais mais humanizadas!

         Os seres humanos sempre viveram num campo de batalha. Seja pelas necessidades materiais e econômicas com que se defrontaram, seja nas palavras e nas emoções por causa de suas compreensões egocêntricas: primeiro o “eu”, depois os outros. Primeiro meus interesses, minha segurança, meu prazer, meu sucesso, minha posição, meu prestígio, minha corrente política. Na maioria das vezes esse “eu” se identifica com “a pátria”, “a família”, “a doutrina”, “a categoria”, “a classe trabalhadora”, etc. Por meio desse artifício linguístico se tenta dissolver o “eu” e o egocentrismo que o move no meio de supostos interesses coletivos e sociais.

Parte fundamental de uma nova sociedade está em desenvolver relações sinceras, baseadas em outras ligaduras sociais que não o dinheiro e discursos exaltados vazios que escondem a negação da realidade. Contudo, abolir o dinheiro e a demagogia política não serão tarefas simples. Ao contrário. Demandam uma colaboração em larga escala que precisa ser estudada e desenvolvida a partir de experiências concretas. De qualquer forma, não poderá ser uma tarefa inconsciente e espontânea. O capitalismo se desenvolveu semi espontaneamente e, em grande parte, de forma inconsciente, embora sempre exaltando conscientemente a ganância individual. Uma nova sociedade, uma sociedade socialista, ao contrário, deverá ser desenvolvida de forma consciente — o que é, ao mesmo tempo, uma dádiva e uma maldição! Deve, portanto, exaltar novos valores sociais solidários, o que é bem mais difícil, dado os séculos de escravidão, de submissão, de espírito de rebanho, de mentiras e de linguagens vazias.

         Para desenvolvermos relações sociais baseadas numa nova confiança social, precisaremos transformar toda a sociedade numa grande escola, como sugeria Ernesto Che Guevara, levando em consideração a prática sintonizada com o discurso; isto é: que “se entregue a própria pele para demonstrar suas verdades”. O primeiro passo é, sem dúvida, combater as consequências e implicações de uma sociedade baseada no dinheiro, bem como os seus menores reflexos na vida cotidiana da população.

         Outro passo determinante no sentido de construirmos novas relações sociais para uma sociedade socialista é, sem dúvida, não nos assustarmos com as expressões de vida no outro e em nós mesmos. Séculos de cristianismo separaram as nossas emoções mais pessoais e íntimas como “coisas do demônio”, o que transforma sensações absolutamente naturais em algo anti-natural. A era burguesa não foi muito melhor, se aproveitando desses séculos de mecanicismos nas relações sociais e na percepção do mundo, construindo o seu mundo sobre eles.

Além disso, uma sociedade socialista precisa atribuir mais valor à linguagem conectada à prática; e não simplesmente subtrairmos e negarmos as implicações práticas de mentirmos para nós mesmos o tempo todo. Esta sociedade futura deve ter o cuidado de não naturalizar a hipocrisia e o abafamento dos nossos sentimentos mais profundos cotidianamente. Trabalhar consciente e inconscientemente para que o conteúdo seja expresso pela forma; e não que a forma seja usada para apagar ou confundir o conteúdo! Saber levar em consideração o fato de que somos seres contraditórios e que muitas vezes nos desdizemos, sem falar no agravante de estarmos em uma realidade eternamente em movimento — devemos reconhecer, portanto, a importância da autocrítica!

         Enfim, uma nova esquerda com consciência de classe deve trabalhar de forma diligente e honesta para que a linguagem falada e escrita corresponda à nossa prática cotidiana, tornando as palavras estritamente vinculadas ao nosso caráter; e lhes conferir tanto valor quanto possível para que estas sejam capazes de substituir o dinheiro como o elemento central da “confiança” que dá liga às relações sociais.

 

 

Referências


[2] ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos. Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2018 (páginas 114, 115)

[3] SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação. Ediouro (página 58).

[5] Extraído do livro “Pai Goriot”, de Balzac.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

A manipulação é livre — parte II

Manchete do Diário Gaúcho de 30 de junho de 2021: "Te liga! A conta de luz ficará mais cara".

Grande mídia, governo Bolsonaro, Paulo Guedes e os governadores estaduais querem nos fazer acreditar que o aumento na conta de luz de 52% (!) é por causa da “falta de água nos reservatórios”. Falar em falta de chuvas no RS é uma piada de mau gosto e esse jornal salafrário nos aplica essa pra disfarçar os golpes da privatização.

Em abril deste ano, o blog Consciência Proletária denunciou “o escândalo da privatização da CEEE” (10/04). Parte fundamental dos projetos do governo Bolsonaro executados por Paulo Guedes é privatizar a infraestrutura estatal e os recursos públicos.
O projeto neofascista de Trump e Bolsonaro é transformar o Estado no fiador do lucro privado, passando custos de produção para o país (nesse caso, para o povo). Trata-se de uma manobra (já desmascarada no texto sobre a privatização da CEEE): o setor público e o povo pobre continuarão a ser os fiadores do capital privado numa transferência homérica de dinheiro com a finalidade de reestruturar o capitalismo em uma nova fase de acumulação. Sem essa transferência o capital privado não tem como se manter. Este é o centro da atuação do governo Bolsonaro e dos seus ministros.
Onde está a denúncia por parte da "esquerda" e dos sindicatos da ligação dos engodos da "seca" com as privatizações, e destas com os projetos de reestruturação do capitalismo?

quinta-feira, 1 de julho de 2021

O CPERS está se tornando uma força conservadora


*Texto publicado originalmente na página do facebook das Divergências Construtivas, em 14 de junho

Finda mais uma eleição e nada muda no CPERS. Sua orientação política continuará sendo a mesma, tanto na direção central quanto nos núcleos (dada pelo PT, PCdoB, PDT; CUT, CTB). Com razão, uma das principais beneficiárias do resultado eleitoral, a ZH-RBS, comemora: “professores avalizam moderação e negociação”.

         Os votos estão encolhendo. De 2014 até 2021 houve 3 eleições. Em 2014, ao todo, votaram 36.406 pessoas; em 2017, 35.657; em 2021, sendo uma eleição virtual, tivemos apenas 27.207 votos. Ou seja, cerca de 10 mil sócios deixaram de votar – sem falar no grande contingente de não-sócios que não tem o menor desejo de se associar.

         O CPERS realmente tem ensinado “democracia”? Quais vícios impedem o CPERS de “ensinar democracia” e tem, na prática, servido para pós-graduar militantes e correntes em burocracia sindical?

         Seguem alguns fatos para suscitar a reflexão:


         1) O papel central na transformação do CPERS em uma força conservadora cabe à política hegemônica que conduz o sindicato desde sempre: o PT, a CUT e o seu sindicalismo “cidadão”. Durante 2008 e 2014, o PT esteve à frente do governo federal e estadual, o que absorveu e deslocou grande parte da sua militância para o aparato estatal. Como o caminho ficou parcialmente desimpedido, foi possível que houvesse direções das correntes que hoje se dizem “oposição” (como as forças que compunha a chapa “Novo Rumo”). Durante esse período, nada de essencial foi modificado dentro do CPERS.

         Uma vez que o PT sofreu o golpe do impeachment e o governo Tarso foi derrotado eleitoralmente pelos aliados nacionais, como o MDB, todos os quadros políticos absorvidos pelas tarefas de administração do Estado puderam retornar para a disputa sindical; e, obviamente, deram uma ênfase especial ao CPERS, que é o maior sindicato estadual e um dos maiores da América Latina.

         Desde então, a militância petista concentra sua energia no controle do CPERS, reforçando sua política de décadas, baseada na ligação com os sócios aposentados (e, em alguns casos, na sua manipulação direta). Esta “nova orientação” política de retomar os sindicatos foi explícita após o impeachment. O petismo tem cumprido nos sindicatos o mesmo papel que os “pelegos” ligados aos governos militares cumpriram no final da ditadura. Ou seja, se esforçam para conter o surgimento de um novo movimento sindical, procurando manter hegemonia total sobre o sindicalismo e os movimentos sociais brasileiros.

 

         2) O sindicalismo do CPERS – pautado pela referência petista – é baseado no “correntismo”; isto é, as correntes sindicais fecham os seus acordos políticos e só depois estes são apresentados às instâncias sindicais. Os ativistas independentes ficam à mercê dos acordões entre as correntes, que decidem, indicam, escrevem e falam em quase todas as esferas como se fosse “a categoria”. Quando algumas instâncias sindicais contrariam determinada deliberação das correntes hegemônicas, as primeiras são sumariamente ignoradas.

         A princípio não é problema se organizar em uma corrente ou partido. O problema é que o CPERS tem funcionado apenas com base nesses conchavos, no aparelhamento e a maioria esmagadora das correntes sustenta um programa político e um sindicalismo eleitoreiro, reformista e/ou dogmático.

         Como já foi dito, o sindicalismo hegemônico é o do petismo – repetido tacitamente pela maioria das correntes sindicais, inclusive de outros partidos, já que é o modus operandi reconhecido pelo aparato. Este sindicalismo funciona dentro dos estreitos limites da democracia dos ricos e trabalha por levar nossa categoria a aceita-la passivamente. Tudo gira em torno do calendário eleitoral e da “importância” de eleger governos petistas (ou de outros partidos reformistas, como o Psol). Ele não gera consciência de classe, nem aumenta a combatividade da base.

         Para dar um singelo exemplo de como esse sindicalismo funciona, destacamos o novo golpe dado contra os educadores de Porto Alegre pelo governo Leite e Melo, que estão ávidos por mexer no direito à meia passagem de ônibus (restrito aos professores, já que exclui absurdamente os funcionários de escola, que nunca possuíram este “direito”). O que fez o CPERS? O mesmo de sempre: foi “cobrar explicações” do governo e da SEDUC. Sim! É exatamente assim que eles vendem a sua “atuação sindical” nas redes sociais: como se isso fosse a resolução do problema! Enquanto isso a prefeitura retira o nosso direito em conluio com o governo estadual sem nenhum tipo de resistência.

         Vivemos um tempo em que nenhum governo admite os seus ataques, feitos, na maioria das vezes, nas entrelinhas. Ao sindicato cabe interpretá-los e denunciá-los, com a finalidade de pressioná-lo pela base para expor suas contradições flagrantes. Esta é a única forma de que o governo “explique” algo ou volte atrás. “Exigir explicação” não apenas reforça as artimanhas dos ataques dos governos, como fortalece aquele jogo nefasto de empurra-empurra entre governo, SEDUC e CREs, que só serve para não responsabilizar ninguém e deixar que a patrola dos ataques sigam livremente o seu curso.

         O sindicalismo reformista e burocrático do CPERS – que se consolidou como uma força conservadora – não apenas reforça essa farsa toda, a hipocrisia social, dos governos e da grande mídia, como mantém a base da categoria numa condição de “filha”, que espera tudo dos pais, cujo protagonismo é negado ou mistificado.

        

         3) As eleições do CPERS são marcadas pelo “grenalismo” (sim, isso mesmo, pelo fanatismo da principal disputa de futebol do RS). Se a minha camisa é vermelha, então torço para o vermelho, mesmo que ele apresente um futebol medíocre; o mesmo vale para a camisa azul. A tradição e a torcida são as únicas coisas que importam.

         No CPERS isso se traduz como parte do “correntismo”: se minha corrente, que tem meus amigos e conhecidos, diz para votar na chapa X ou Y, eu voto na chapa indicada, independentemente da política que essa corrente apresente para o sindicato (muitas das quais colocaram o CPERS na situação deplorável em que se encontra). No futebol isso é, apesar de condenável, bastante compreensível; num sindicato e na política, não.

         Depois das eleições, quando tudo seguirá igual e piorando, se lançam numa reclamação sem fim como se essa postura grenalista não tivesse nada a ver com este triste quadro e a responsabilidade fosse única e exclusivamente do CPERS in abstracto.

 

         4) Parte dos problemas do CPERS está expresso nas eleições, que são viciadas e marcadas pelo burocratismo, formalismo e o malfadado “grenalismo”. O debate é, portanto, viciado e pouco serve para mudar posições ou esclarecer qualquer divergência. A comissão eleitoral é indicada pelas correntes através das quatro paredes do Conselho Geral.

         Há, ao contrário do que indicou Paulo Freire, um distanciamento cada vez maior entre o que se fala e o que se faz – e isso demonstrou ser importante para pouquíssimas pessoas, infelizmente.

         A pedagogia freiriana também é lembrada só nos discursos, mas negada e abafada pela prática cotidiana. Vemos no dia-a-dia apenas a pedagogia da dependência, da patrola das posições minoritárias, da fala imposta pelas maiorias oficiais e da não-escuta. Não existe o menor esforço de empatia para quem prega um “CPERS unido e forte”, bem como para as demais forças majoritárias que dizem “ouvir a base”.

         A reeleição das chapas tradicionais para a direção central e para os núcleos reforçará essa prática sindical, pautada por uma cultura nefasta de hipocrisia e condescendência com sucessivas práticas autoritárias e “democrático-formais”.

 

         5) As supostas “oposições” pensam que todo o erro se concentra apenas na direção central e que sua política é correta, nada tendo a ver com a sua reeleição. Muito da “preferência” pela atual direção central foi consequência de uma política inconsequente apresentada pela “Novo Rumo” e pela “Muda CPERS” – esta última, a bem da verdade, sendo quase uma extensão da direção central.

         Logo após uma derrota (com alguns traços de tragédia), a reação típica é procurar um culpado, porque não aguentamos viver com coisas que não têm sentido e explicação: “se a ‘oposição’ tivesse saído unificada...”; “se tivéssemos feito tal tipo de campanha...”; “se isso..., se aquilo...”. Encontrar alguém para culpar cria uma falsa sensação de não ser necessário avaliar nenhum dos nossos erros, já que eles, supostamente, estariam apenas “fora de nós”.

         Não se muda uma orientação política de um sindicato tão grande se diferenciando nas questões secundárias, como, por exemplo, a data para a deflagração de uma greve; ou se devemos decretar uma greve sanitária ou não; bem como propondo sempre ações radicalizadas descontextualizadas e descoladas da massa da categoria. O que uma oposição real precisa fazer é se lançar em uma luta decidida contra a atual cultura sindical e todas as suas consequências, como o funcionamento antidemocrático do “correntismo”, os acordos de bastidores, a ausência de democracia das instâncias (que funcionam através do conchavo das correntes), a prática da não-escuta, a hipocrisia cotidiana de uma falsa agitação e autopropaganda, o programa reformista, a conivência com o burocratismo, etc.

         Nada disso é feito pelas “oposições”, que ao forçarem diferenciações artificialmente, na verdade só ajudam a consolidar as posições das correntes da direção central e, em alguns casos, ainda lhe conferem algum ar de “respeitabilidade”. Conhecer a sua própria escuridão é o melhor método para lidar com a escuridão dos outros. É impossível alguém liderar à altura uma grande causa sem compreender a essência profunda da natureza humana; alguém que faz do sindicalismo e das suas ideias objeto de compra e venda, moeda de troca com farsantes, vendilhões de toda a espécie e cúmplices da hipocrisia cotidiana. Sem valores elevados é incoerente professar ideais elevados.

         E o CPERS tem feito exatamente isso.

 

         6) A nossa participação disputando o 38º núcleo serviu para contribuir com esse tipo de debate. Apresentamos um outro caminho, dentro de nossas debilidades materiais e pessoais, mas sempre primando por um caminho com independência e consciência de classe. Poetizamos o percurso porque criticamos duramente, mas sem perder a ternura jamais.

         Agradecemos calorosamente os 49 votos, sem cabresto e amiguismo, que apostaram num projeto totalmente novo e independente, de respeito às divergências para construir conjuntamente. Aqui as divergências – honestas e fraternas – são aceitas, ao contrário de como recebem a maioria esmagadora das correntes dirigentes do CPERS, que entendem “unidade” como monolitismo sem críticas. Para nós podem ser o cimento que ergue novas construções e o combustível para a formação teórica.

         Se, por acaso, alguém não concordar com este balanço e quiser divergir para construir um caminho realmente novo, que aponte as falhas de nossas análises e que se manifeste (honesta e cordialmente), entrando no debate sem medo, de peito aberto e coração estreleiro. O debate franco, honesto e olho-no-olho, sem tergiversações e máscaras, é artigo em falta dentro do nosso sindicato. Já está mais do que na hora de incentivá-lo.

         

segunda-feira, 28 de junho de 2021

A "queda" de Ricardo Salles e sua relação com o "fora Bolsonaro"

"Caiu" Ricardo Salles, o ministro da destruição do meio ambiente. Assume Joaquim Álvaro Pereira Leite, um ruralista histórico que atua junto ao governo Bolsonaro desde julho de 2019 como diretor do Departamento Florestal, integrando a Secretaria da [rapinagem da] Amazônia. Integrou também o Conselho da Sociedade Rural Brasileira desde 1996 e foi parte da bancada reacionária do Congresso Nacional (a que reúne os ruralistas, a evangélica e a da bala...), além de ter sido membro da direção de empresas com inúmeros interesses na floresta amazônica.
Sem estrutura de poder e governo alternativo, quem entra no lugar de Salles é outro membro do agronegócio, com os mesmos interesses que o do antecessor. Ou seja, alguém que vai continuar a destruição do meio ambiente, das terras indígenas e das comunidades quilombolas.
O mesmo problema se passa com o "fora Bolsonaro". Se cair Bolsonaro, a classe trabalhadora tem condições de colocar um poder alternativo no lugar de todo o seu governo, bem como das instituições que o sustentaram e o sustentam? Sem responder a isso o "fora Bolsonaro" continua sendo uma aventura inconsequente, pra extravasar descontentamentos, mas que mudará a situação do país tanto quanto a "caída" de Ricardo Salles.
Nada substitui o trabalho de base, a formação teórica, a agitação e a propaganda conectadas com a realidade concreta e as principais lições da teoria revolucionária (tudo o que a "esquerda" se recusa a fazer), sem falar no questionamento acerca das instituições políticas do país, que também precisam ser "colocadas pra fora" para que possamos construir outras em seu lugar. De resto, apenas transformamos o espontaneísmo em teoria e damos provas de um desespero manifesto.

Introdução ao pensamento de Frantz Fanon

Segue uma excelente explanação introdutória ao pensamento de Frantz Fanon, por Deivison Nkosi.



sexta-feira, 25 de junho de 2021

A manipulação é livre!

O Jornal Nacional de 21 de junho noticia as grosserias de Bolsonaro contra uma repórter. A reportagem afirma que ele desrespeita a liberdade de imprensa e a "democracia".

Engraçado.
Bolsonaro é o resultado do golpe de 2016, que teve como pivô chave a Rede Globo. Não é de hoje que o "presidente" age desta maneira. Esse cinismo do jornalismo burguês em geral, e da Globo em particular, é assustador. Os seus prejuízos ideológicos no imaginário do povo são incalculáveis. O papel da Rede Globo é a de feitora moderna: a escravidão da classe trabalhadora e do país depende desses tipos de construções de "informação", que não tem compromisso com nada, a não ser com a manutenção do seu status quo.
A Rede Globo é tão responsável à agressão da repórter quanto Bolsonaro. Assim como entende por "democracia" essa lambança que ajuda a fazer no país sempre que seus interesses econômicos são prejudicados.
Na mesma edição do jornal nos é "informado" que as acusações contra Lula na operação Zelotes foram arquivadas por "falta de provas". O jornalismo militante da Rede Globo não deu trégua até assegurar que Lula não pudesse concorrer. Agora que é necessário preparar a "transição democrática", começa a falar mansinho novamente (o que reforça a tese central do texto lançado em maio por este blog, "Bolsonaro X Lula"). Não há nenhuma sombra de "autocrítica" desta emissora que, ao invés de "fábrica de sonhos", é uma fábrica de "golpes de Estado" e de manipulação desavergonhada (com certa conivência do próprio povo... porque vamos e venhamos: já dá pra perceber a podridão se a gente se esforçar um pouquinho!).
***
É assustador que a Rede Globo, o seu jornalismo militante e grande parte da classe média "esqueçam" seus crimes políticos tão levianamente.
Caiu definitivamente a máscara do golpe orquestrado pela Lava-Jato e por Sérgio Moro. O STF — com um atraso bastante conveniente — reconheceu a manipulação dos processos contra Lula. Não era uma grande dificuldade percebê-la, uma vez que alguns setores sociais denunciaram o esquema no momento em que ocorriam; ao contrário de amplos setores do PT — como o próprio Fernando Haddad, que covardemente afirmou confiar na Lava-Jato em pleno JN durante a campanha eleitoral de 2018; além da maioria do PSOL e do PSTU, que também foram vanguarda na defesa desta operação farsante.
Os slogans infames de "acabar com a corrupção" e de "mudança" eram visivelmente cínicos, mas os setores da classe média — que se julgam eticamente perfeitos e sem máculas — se negaram a ver e hoje, com raríssimas exceções, se negam a reconhecer a manipulação.
A Rede Globo e o JN, que noticiam hoje o veredicto do STF como se não tivessem nada a ver com esta farsa e com a manipulação descarada da opinião pública brasileira sobre a "imparcialidade" de Moro nos julgamentos contra Lula, contam com a anuência do povo, que quer seguir assistindo a tudo isso como se fosse a novela das oito e procurando alguém para "culpar".
O mais revoltante, triste e abjeto — ao mesmo tempo! — é como amplos setores da classe média fingem que está "tudo bem", que não tem nada a ver com esta farsa política de proporções internacionais. De nada adianta cair a máscara se estas pessoas viram a cara pra não ver — tudo para continuar fingindo que são eticamente perfeitas e corretas, quando na realidade seu interior está cheio de cobiça e de outras tantas imundícies.
O que não deveria nos assustar — embora nos assuste — é que a Rede Globo e o JN sabem que podem sustentar qualquer barbaridade que quiserem, já que a classe média e amplos setores populares sofrem de "cegueira voluntária" e não olharão o que está por trás da máscara caída.
De tanto ódio que sentiam da figura de Lula, agora tem que engolir que o juiz que o julgou foi totalmente parcial. Como não possuem ética alguma a despeito dos seus discursos de ocasião, apenas virarão a página e tocarão suas vidas ainda se julgando superiores e os campeões da justiça e da moralidade.
Os séculos de iniquidade da história brasileira e latino-americana vivem exatamente neste tipo de conduta!
***
Aflige um pouco — embora também não devesse nos afligir — como desmascarar esta classe média e a Rede Globo para os poucos setores que ainda possuem algum tipo de honestidade. Que tipo de agitação e propaganda, de discurso, de contatos, de narrativas são necessários?
Aí devemos lembrar que a "esquerda" (sobretudo nos sindicatos que dirige) também age da mesma forma que a classe média: não conhece autocrítica alguma, pensa que está "lutando" contra algo de forma correta e se julga eticamente perfeita!
Porém, há que se lembrar que a luta sindical e social que dirigem contra o bolsonarismo é uma farsa e que, infelizmente, ela se recusa a ver e a reconhecer as limitações, os erros, os autoritarismos, os egocentrismos dos seus "mitos" e os ódios mal resolvidos dentro de si mesma que, diga-se de passagem, são bem evidentes...

terça-feira, 22 de junho de 2021

Atenção Porto Alegre: o monopólio das empresas de ônibus quer mais um aumento!

🛑🚎🚌💸📢🗣️
Conseguindo ser ainda pior do que o esperado, em Porto Alegre o COMTU aprovou o aumento da passagem de ônibus no seu valor total sugerido: de 14,3%. O que significaria um aumento da passagem de 4,55 para o valor de 5,20 (muito acima da inflação!). Falta, agora, apenas a decisão da prefeitura para que o aumento aconteça.
O prefeito, Sebastião Melo (MDB e comparsas), disse que não assinará esse aumento.
📍 NO ENTANTO, em contra partida, quando apresenta como "solução" a ideia de que para não aumentar a passagem seria necessária a retirada dos cobradores dos ônibus, causando demissões em massa e prejudicando outras famílias. Chantageia, também, com privatização da Carris e a retirada de direitos, com o corte das isenções. Como se isso fosse uma solução para o problema. Tensionando e forçando a barra para que privatizem a Carris, que transporta em dias úteis mais de 230 mil pessoas e é a empresa mais antiga do país em transporte coletivo. 🤔⁉️❌🔥
⚠️ A Carris NÃO dá prejuízo! A Carris dá lucro!!! ⚠️
🚨 Além disso, a prefeitura tensiona retirar d@s professores de escola pública o direito ao meio passe. Direito esse que deveria ir além d@s professores, para @s funcionári@s de escola!💥
Mais uma vez colocam a classe trabalhadora entre a guilhotina e a espada para pagarmos a crise dos ricos!⚔️😳🗡️
🧐 (Lembrando que o salário da população ainda não foi atualizado e que o auxílio emergencial foi reduzido).
Todas essas medidas para manter os lucros das empresas que exploram o transporte público.💱❌💰
✳️ Outras medidas deveriam ser feitas se o pensamento fosse para a melhoria do transporte público da capital, como a ampliação dos transportes alternativos, (como os metrôs e trens por ex.) Mas o interesse central gira sempre em torno de manter o monopólio das empresas privadas do transporte "público" e o seu lucro para poucos. Enquanto isso, a população sofre com os aumentos ininterruptos.
É necessário, ainda, denunciar duas coisas:
👁️‍🗨️ O monopólio da notícia, que além de fazer com que informações como esta, que tem impacto direto sobre as nossas vidas e das famílias de POA, não sejam amplamente divulgadas por todos meios de comunicação, IMPÕE a ideia de que as privatizações resolvem e de que os custos devem ser passados aos usuários, como se não houvessem diversas isenções empresariais e privilégios de bancos e empresas para serem mexidos!
⁉️ E onde está quem deveria chamar mobilização? Onde estão os sindicatos e os partidos que dizem representar a classe trabalhadora e a própria classe trabalhadora? 🎯
Porto Alegre, 16 de junho de 2021.