O radicalismo no campo político pode ser um elemento fundamental para uma revolução, mas pode também se transformar num empecilho quando ignoramos as probabilidades da vida real. Aí tendemos a cair no equívoco de querer impor ao mundo real aquilo que é racionalmente demonstrado nos nossos “mais corretos” discursos.
Parece que é justamente esse o erro no qual incorre a organização “Revolução Brasileira” (RB — ex-corrente interna do Psol, hoje organização independente). A sua defesa do voto nulo, que poderia ser considerada apenas uma tática para enfrentar o período eleitoral, tem ido muito além disso. A principal justificativa da RB para defender o voto nulo nas eleições de outubro tem a intenção de construção de um “novo radicalismo” no nosso país.
Com relação a esse nobre ideal não há o que se objetar. O arsenal da esquerda está, sem dúvida, defasado; tanto quanto o arsenal do exército brasileiro está defasado em relação aos exércitos imperialistas. No entanto, assim como não se adquire um novo arsenal militar para um exército sem uma preparação prévia, que envolve a criação de condições econômicas, sociais e culturais, além de uma doutrina militar arrojada; da mesma forma, não se cria um novo radicalismo apenas com a força da vontade, aos gritos, sem examinar com cuidado as condições reais da sociedade brasileira e levá-las escrupulosamente em consideração.
Se temos uma excelente análise econômica, mas ignoramos ou menosprezamos outros elementos constitutivos da realidade, como cultura, ânimo e, sobretudo, a psicologia de massas, certamente nos faltará um importante termômetro que não pode ser suprido apenas pelo voluntarismo da suposta “exatidão das nossas análises”.
Do ponto de vista econômico e das suas consequências políticas, a crítica da RB ao petismo e à esquerda institucional (e youtuber) está correta. É esse um dos motivos do ódio da última, às vezes declarado, às vezes escondido atrás de elogios de ocasião, em relação à primeira. Porém, é preciso ver onde essa crítica se torce demais e passa a ser um problema.
Pode-se criar um novo radicalismo via eleições burguesas?
O ponto alto da análise da conjuntura da RB é, como foi dito, a crítica ao petismo e aos seus governos, corretamente chamados de “liberais de esquerda”. Crítica esta que o ativismo petista e os seus simpatizantes não conseguem responder sem recorrer à ataques pessoais ao principal teórico da RB. A sua crítica tem despertado resistência no ativismo petista, que geralmente quer fazer como a classe média faz em relação aos seus privilégios sociais: não basta só ter privilégios, é necessário também criar uma narrativa que nos deixe bem com a nossa própria consciência frente a estes privilégios.
No caso de ativistas petistas, trata-se de ficar bem com a sua própria consciência política, mesmo vendo que existem inúmeros problemas nos seus governos e na sua atuação prática. A crítica da RB toca nestas feridas, que são respondidas de forma agressiva por parte de figuras públicas do petismo, do Psol e de suas organizações simpatizantes.
No entanto, a RB transforma a questão eleitoral e o voto nulo em princípios, pois ignora diversos elementos da realidade. Se uma organização ou um ativismo específico fazem críticas aos governos petistas, mas votam neles no primeiro ou no segundo turno, então transformam-se em lulistas e tudo está acabado, como se o voto nas eleições burguesas definisse tudo.
Por exemplo: não interessa mais qual a relação prática entre esse ativismo e o petismo nos demais espectros da realidade, como crítica social, trabalho de base, sindicatos, movimentos sociais, greves, etc. Nem sequer o tipo de propaganda eleitoral que se faz — se é voto crítico, se existe crítica real, se não existe; se existe apologia descarada ou disfarçada, e assim por diante.
O voto contra ou a favor do PT passa a ser a régua de princípio pela qual a RB mede quem é quem. E, a partir daí, se iniciam gritos e contra-gritos, muitas vezes, intolerantes (que não são respondidos de forma muito melhor por parte do petismo e adjacências). Isso não é tratar as eleições burguesas como uma questão de princípio ou, no mínimo, dar à ela um poder muito maior do que aconselham os teóricos que criticaram o cretinismo parlamentar?
O ponto mais fraco e perigoso da análise da RB está no fato de menosprezar a ascensão do neofascismo no cenário brasileiro e internacional, ao ponto de negar a sua existência.
Se, por um lado, sabemos que o petismo se utiliza do discurso de “ameaça fascista” para reforçar tudo o que já faz de conciliador e rebaixado, agora vendido como “necessário”; por outro, ignorar a ascensão de um movimento novo e perigoso contra toda esquerda — incentivado e dirigido pela oligarquia estadunidense — é um erro crasso, pois sem reconhecer a existência deste neofascismo e a sutileza dos seus métodos, será impossível combatê-lo com sucesso.
O “neo” à frente do “fascismo”, formando o termo “neofascismo”, é justamente para demonstrar que não se trata do fascismo clássico dos anos 1930 e 1940, nem que necessariamente o bolsonarismo “fechará o regime” — dado que isso não tem sido necessário. O neofascismo atual é um movimento criado pelo imperialismo decadente, os EUA e seus satélites, para a manutenção do seu domínio mundial e dos seus mercados, ameaçados por China e Rússia. Assume variadas formas de acordo com os seus interesses geopolíticos. Se assemelha ao fascismo clássico pelo terrorismo de Estado ou pelo terrorismo mercenário seletivo das chacinas policiais, pela xenofobia, racismo e um conservadorismo radical. Como todo fascismo, é um movimento antiproletário e anticomunista.
Dissemina ódio, preconceito, fake news das formas mais escabrosas, dando justificativas para guerras, assassinatos, ditaduras militares e genocídios, embora possa conviver com as instituições democrático-burguesas num permanente cabo de guerra (o que prende atenção popular e facilita seu trabalho). O neofascismo traz à tona hoje o que os liberais tentaram esconder durante o período das guerras mundiais: a sua similaridade autoritária com o nazi-fascismo. Quando as regras do jogo deixaram de beneficiar o “livre mercado” dos EUA frente à ascensão da China, eles recorreram a todo tipo de sabotagem e intervenção arbitrária (guerra comercial, tarifas artificiais, pirataria, guerra relâmpago, intervenção eleitoral, revoluções coloridas, golpes, etc.).
Nas décadas de 1930-1940, o liberalismo ianque e europeu vendiam-se como anti-fascistas e anti-autoritários, mas no século XXI, com a decadência do imperialismo estadunidense expressa através do governo Trump, vemos o questionamento das próprias instituições “democráticas” a partir de uma agitação “antissistema” e de uma manipulação emocional da psicologia de massas dos povos do mundo. O discurso a favor da ditadura militar de Bolsonaro e Milei não deixa de conviver com os seus parlamentos burgueses, embora seja sempre uma possibilidade a nos espreitar. É um tipo novo de movimento conservador, pensado justamente para se utilizar dos mecanismos e brechas dessas instituições. Ao se afirmar como “antissitema”, o neofascismo termina por… reforçar o sistema! O bolsonarismo é a aplicação desse neofascismo no Brasil, Trump e Steve Banon são os seus fundadores estadunidenses; Milei é sua versão argentina; Kast, a chilena; Orban a húngara, e assim por diante.
A própria RB faz um recorte de caracterização quando chama o bolsonarismo de “proto fascista”, demonstrando que há sim diferenças entre a direita tradicional e o bolsonarismo, ainda que embrionariamente. Porém, infelizmente não é consequente com o próprio recorte que faz.
É possível, pois, caracterizar a existência do neofascismo na realidade e não prestar apoio político, sindical e prático ao petismo. Esta é, aliás, uma condição teórica importante para a criação de um novo radicalismo que interesse à classe trabalhadora brasileira.
A ausência de uma análise a partir da psicologia de massas
A RB afirma que Lula frauda sistematicamente suas promessas, enquanto que “o alienado” faz o quê? Vota novamente e acredita em Lula, alimentando muitas esperanças. De fato, Lula frauda sistematicamente estas esperanças eleitorais, embora atenda esperanças utilitárias de muita gente, como bolsa família, minha casa minha vida, acesso à universidade, etc. Esperanças, no mais das vezes, identitárias, além de “pragmáticas” para os “pobres”.
Se aliviam o sofrimento imediato — o que ninguém questiona —, sabemos que cria um círculo vicioso permanente que ajuda o sistema a se manter a longo prazo. E, isto sim, deveria ser questionado. O grande problema é: por que as pessoas não questionam?
A RB enche a boca para dizer que os eleitores que votam no bolsonarismo não aguentam mais a hipocrisia do petismo; reconhecendo, também, que a maioria dos 53 milhões de eleitores bolsonaristas, é constituída por trabalhadores. Observação correta, mas que não avança para além do óbvio. Por que quase 53 milhões de trabalhadores estão seduzidos, hipnotizados e fascinados pelo discurso de ódio do “proto fascista” bolsonarista? Enquanto que outros 50 milhões continuam acreditando em Lula, que “frauda sistematicamente suas promessas”, e quando se irritam com a “hipocrisia petista” vão à direita e não à esquerda revolucionária?
A resposta da RB fala sobre a existência de uma “consciência ingênua” entre as grandes massas. Certamente ela existe. Mas constatar isso não nos faz avançar nenhum centímetro, dado que é óbvio a sua existência. O ponto central é: por que existe uma “consciência ingênua” e por que ela não avança à esquerda?
Este é o ponto exato que precisa ser entendido para que seja possível a criação de um novo radicalismo. Não basta depositar toda a culpa no petismo, pois isso não explica nada, senão que nos faz ficar preso numa tautologia. A psicologia de massas demonstra que operam nas multidões forças irracionais que, mesmo frente aos melhores discursos econômicos mais bem embasados e racionalizados, terminam por sucumbir ao canto da sereia da invocação das taras, ódios, sadomasoquismos contra a pobreza, a miséria, o “comunismo”, contra si mesmo, dentre outros.
E somente jogar a culpa em cima das “direções reformistas e traidoras”, como é o petismo, não ajuda a esclarecer as reais motivações da massa ir à direita quando “perde a paciência com as hipocrisias petistas”. Por que a massa não perde a paciência com a hipocrisia dos partidos de direita e do bolsonarismo? Com a corrupção bolsonarista? Com a hipocrisia dos pastores evangélicos, dos políticos-coaches, etc? E, quando eventualmente uma parte perde esta paciência, por que ela termina nos braços do petismo?
Em síntese: porque a massa acredita e se mobiliza com os “antissistemas” de direita (tipo Bolsonaro, Marçal, Milei, etc.), mas não dá ouvidos aos antissistemas da RB, do PSTU, da UP, do PCB, da LBI, dentre outros?
Como, então, criar um “novo radicalismo político” no Brasil sem buscar entender os mecanismos e armadilhas da psicologia de massas, que têm se “radicalizado à direita”, apenas invocando o voto nulo, ademais já levantado por muitas pequenas organizações Brasil afora?
A RB ainda sustenta que “a sociedade brasileira está ultra radicalizada”. Sim. Está ultra radicalizada à direita; e nada acontece à esquerda. Basta observar a postura de muitos trabalhadores frente aos seus sindicatos, nas mobilizações de rua, nos comentários de botequim, de rua, nos ônibus, nas escolas e nas redes sociais, para se tirar uma febre. Tal “radicalização”, que não tem se traduzido em maior mobilização, maior questionamento das burocracias sindicais e políticas, capaz de apontar para a massificação de um partido revolucionário, não pode servir aos interesses históricos dos trabalhadores (o mesmo pode ser dito acerca do voto nulo); em síntese, este tipo de “radicalização” não tem se transformado em situação revolucionária, mas em atos da direita por “deus, pátria e família”; contra a “corrupção do PT” e, até mesmo, “contra o comunismo”.
Infelizmente não basta ter a “melhor análise econômica e política do mundo”, é preciso entender como o neofascismo — assessorado, lembremos, por Steve Banon e Trump — conseguiu criar uma racionalidade às avessas, que vê entreguismo como patriotismo; pirataria, saque e extorsão de si próprio como desenvolvimento econômico; privatização que empobrece a maioria como a “solução”; além de ser imune a todo fato histórico ou argumento racional verificável hoje pela internet ou por fontes relativamente acessíveis, celebrando a injustiça das desigualdades sociais como algo digno e desejável.
Defender os sórdidos interesses econômicos dos EUA soa como algo “natural” para milhões de pessoas em nosso continente. É isso que a propaganda ianque de “nosso hemisfério” trabalha no inconsciente coletivo. Os defensores do capitalismo norte-americano entre os latino-americanos explodem em reações emocionais desequilibradas e intolerantes frente ao menor questionamento político da conjuntura, seja na Venezuela, no Brasil, nos EUA ou no mundo. Vê sempre Venezuela e Cuba como ditaduras, ignorando todo o seu histórico; enquanto que as guerras e sabotagens dos EUA e de Trump são aceitas sempre como “defesa da democracia”. Esta psicopatia é caracterizada por fazer o indivíduo perder a capacidade de empatia e escuta, bloqueando o cérebro racional para fatos e argumentos racionais bem construídos.
O neofascismo e o imperialismo já perceberam que a esquerda, no geral, tende a ser a campeã do discurso racional e “perfeito”. Entretanto, a psicologia de massas é formada por inúmeros fenômenos irracionais que são manipuláveis — isto foi falado há quase um século por Le Bon, Freud, Edward Bernays, Wilhelm Reich, dentre outros. Ela contraditória por natureza: dá valor, simultaneamente, ao esclarecimento e ao mistério; ao pragmatismo e ao transcendental; ao poder e à humildade; à interdependência e à individualidade; dá ouvidos igualmente ao cientificismo e ao misticismo.
Após anos de técnicas testadas e aplicadas via indústria cultural, vemos a situação se deteriorar ainda mais com o surgimento das redes sociais e a engenharia política da Cambridge Analytica — todos eles métodos neofascistas por excelência, aperfeiçoados por Steve Banon e Trump para disseminar ódio e preconceito de classe, culminando na ideia de que é possível imaginar o fim do mundo, mas não o fim do capitalismo. Esta aparente falta de perspectiva tem levado ao adoecimento psíquico em massa, banhado com remédio de tarja preta, aumentando não a mobilização, mas a letargia, o utilitarismo, o individualismo e o egoísmo. Frente a tudo isso, o discurso e o programa racional não se tornaram desnecessários, mas, sim, devem ter os seus limites compreendidos e novas táticas de combate desenvolvidas.
Ao que tudo indica, o novo radicalismo da RB não leva nada disso em consideração, nem as outras organizações da “esquerda revolucionária” procuram entender a conjuntura fora daquilo que estão acostumadas a repetir “dos clássicos marxistas”, enquanto que o petismo e o oportunismo, no geral, surfam na onda da psicologia de massas, reforçando o polo emocional e manipulável ao seu modo.
O próprio espontaneísmo do século passado se transformou num “espontaneísmo de direita”, conservador. A massa quando se mobiliza, o faz por utilitarismo; e quando organizações de esquerda propõem consignas, programas, palavras de ordem e ações mais radicalizadas, geralmente levando em consideração apenas o racionalismo, terminam isoladas — diferentemente do que acontecia em fins do século XIX e meados do século XX, quando o poder de mobilização estava visivelmente com as organizações proletárias. Todos estes fatos colocam um problema novo — não conhecido por Marx, Engels e Lenin — que obriga a esquerda revolucionária a avançar sozinha, repensando as estratégias e reafiando a navalha com outras pedras de amolar.
Nos últimos meses temos visto as mobilizações bolsonaristas perderem força, mas isso não significa que esta suposta “radicalização da sociedade brasileira” aponte para a esquerda. Ao contrário. Tem muito trabalho de base a ser feito, não para reproduzir cegamente mais do mesmo, mas para entender o que se passa na mente de milhões de trabalhadores e tentar dar respostas criativas e novas a velhos problemas. Sem isso, não há novo radicalismo possível, apenas o fortalecimento do radicalismo de direita — não sem o “polo emocional opositor” tensionado inconscientemente pela esquerda e, obviamente, aproveitado e exagerado conscientemente pelo neofascismo.
Voto nulo é realmente uma campanha de politização se se desconsidera o perigo potencial do neofascismo?
Esta crítica à postura da RB não tem como finalidade desmerecer a sua campanha pelo voto nulo com argumentos inquisitórios, rebaixados, eleitoreiros desesperados, descambando para acusações identitárias, para combater sua crítica à política econômica petista. Não, nada disso!
Já escrevemos em outros artigos que nem o voto nulo, nem o voto crítico são “pecados” em si mesmo, tal como preconizam os “militantes religiosos” em suas diferentes profissões de fé — ainda que possuam consequências práticas em cada conjuntura. A militância que hoje chama voto nulo, por menor que seja, está sempre na luta, no dia a dia, e precisa ser valorizada por isso, sempre! Está tentando buscar um caminho, como todos nós. Execrá-la a partir de ataques pessoais é, também, um desserviço. Existem muitos pontos de verdade nas suas declarações e na sua ânsia de luta que faltam para aqueles que esperam resolver tudo via eleições, parlamento e sindicatos oficiais.
No entanto, não é possível concordar com o fato de haver politização em campanha pelo voto nulo quando se coloca tudo no mesmo balaio de gato, facilitando a velha catarse de simples ódio aos políticos que não nos leva a lugar algum, além de simplesmente ajudar o neofascismo a se camuflar, diminuindo, menosprezando ou mesmo apagando a sua grave ameaça política como se, a despeito de todo o peleguismo petista, fossem exatamente a mesma coisa.
A psicologia de massas do fascismo opera na simplificação e não na complexidade. Diluir tudo no mesmo balaio de gato facilita o trabalho e a agitação tanto do neofascismo quanto do petismo. Parte da politização e da radicalização da massa trabalhadora não está, justamente, no fato de ajudá-la a discernir entre os fenômenos?
Gritos podem substituir a ausência de um partido revolucionário com influência de massas?
Os camaradas da RB ainda dizem que a sua proposta de voto nulo deve ser vista como um protesto consciente contra a podridão do sistema político, contra a continuidade do ultraliberalismo com Flávio ou com Lula. É difícil perceber essa clareza nos votos nulos. Geralmente são um amontoado incoerente e inconsciente de indignação, muitas delas podendo ser, até mesmo, de direita. Evidentemente que existe, também, uma parcela de protesto, mas no momento histórico em que vivemos, sem partido revolucionário e com um “espontaneísmo de direita”, o voto nulo dificilmente terá essa qualidade, mesmo que diversos grupos de militantes gritem de norte a sul tentando politizá-lo. Essa qualidade o voto nulo só teria se fosse chamado por um partido revolucionário com influência de massas — geralmente beirando uma situação revolucionária —, coisa que não existe no momento.
Se houvesse um partido revolucionário com influência de massas, seria possível disputar e politizar o voto nulo. Mas, sem este elemento fundamental, infelizmente ele tende a se transformar numa massa amorfa, que não excede a uma estatística confusa, muitas vezes apenas retomando o ódio contra a política e o próprio país, os partidos no geral, sem apontar para nada.
É por isso que frente à ascensão do neofascismo se torna um uma tática equivocada, o que não anula a importância da crítica da RB aos governos petistas. Nem deve nos tornar sectários, tipo aqueles petistas fanatizados, que querem isolar e chafurdar ainda mais no cretinismo eleitoral contra quem os critica, só rebaixando o debate público ao invés de aprender a elevá-lo. O voto nulo é equivocado neste momento porque além de ser um passo muito maior do que a classe trabalhadora demonstra ter disposição de dar (já que está dividida entre petismo e bolsonarismo), dificulta que a crítica à política econômica e aos governos petistas chegue à sua base e crie raízes. Também não serve de alerta contra o próprio perigo do neofascismo, já que o dilui e o coloca como “igual ao petismo”.
Chamar voto crítico em Lula, por outro lado, não pode significar apenas disseminar ilusões de que ele “pode governar em nome dos trabalhadores”, como fazem muitas organizações, partidos de “esquerda” e ativistas desesperados frente ao bolsonarismo. O governo Lula precisa ser chamado pelo que é: liberal de esquerda; nenhuma crítica ao neofascismo bolsonarista deveria perder essa perspectiva.
No entanto, afirmar que Lula é exatamente igual a Bolsonaro para poder tornar mais crível a tática do “voto nulo” é um desserviço, pois distorce a realidade para dar razão à sua própria política, apagando nuances fundamentais da situação nacional e internacional. Insistir que Lula e Bolsonaro são exatamente iguais não repetiria os erros cometidos na Alemanha de 1930, pré-ascensão do nazismo, quando o Partido Comunista alemão afirmava que a social-democracia era gêmea siamesa do nazismo?
Do ponto de vista macroeconômico, realmente não existem diferenças entre lulismo e bolsonarismo; mas do ponto de vista da psicologia de massas, do dia a dia e das ilusões da sociedade brasileira, existem muitas, que precisam ser observadas se queremos chacoalhar os trabalhadores, para que acordem!
Por exemplo, a política institucional frente ao crime organizado não é a mesma: o bolsonarismo autoriza batalhões assassinos nas periferias, legalizando ditaduras e chacinas contra a pobreza — inclusive isso é parte da sedução do seu eleitorado sádico de classe média; a tímida e claudicante política petista tende a evitar estas chacinas. O bolsonarismo legaliza gabinetes do ódio abertos e ocultos, que disseminam, como um câncer, inúmeros preconceitos neofascistas, de ódio, anticomunistas, anti-povo, etc; o petismo, não.
Como “primeiro pedagogo do povo brasileiro”, o bolsonarismo ensina o ódio sádico para o povo, cria cortinas de fumaça diárias com tramas escatológicas, escabrosas e nefastas, pavimentando o caminho para o entreguismo total. O petismo realiza um entreguismo parcelado e, por vezes, envergonhado (se não fosse assim, não teria sofrido o golpe do impeachment contra Dilma em 2016). O entreguismo parcelado, certamente, não deve ser exaltado estupidamente como a única política possível — nem disfarçado, tal como fazem os petistas —, mas, tal “diferença” não pode ser descartada, dada a situação de desmobilização e confusão direitista da maioria dos trabalhadores brasileiros.
Além dessas pequenas diferenças, existem outras relacionadas à questão internacional, que é central e define todo o cenário eleitoral nacional: trata-se da disputa mundial estadunidense e chinesa. O petismo aposta nos BRICS e na ascensão mundial da China, ainda que não saiba o que fazer no bloco e também pague muitos tributos como vassalo aos EUA e à própria China; o bolsonarismo, por seu turno, é a correia de transmissão direta dos EUA. Seu surgimento como movimento neofascista é justamente para evitar a ascensão mundial da China, a desdolarização e a expansão e consolidação dos BRICS (basta ver as declarações de Steve Banon acerca disso antes das eleições de 2022 clicando aqui).
Por tudo que foi dito, nestas eleições, nem o “voto crítico” no petismo — a depender da forma como é exposto — é um crime oportunista inafiançável; nem o voto nulo é um redentor dos pecados políticos, capaz de fazer a massa dar um salto na sua consciência e avançar como que num passe de mágicas para um “novo radicalismo” e para a revolução socialista. O melhor seria se atentar aos movimentos da massa trabalhadora brasileira tal como ela é — dividida entre as ilusões petistas e o fascínio pelo bolsonarismo —, discutir questões eleitorais táticas tentando manter as pontes entre as esquerdas para decifrar conjuntamente a esfinge da psicologia de massas do povo, que, da parte da esquerda socialista, ninguém sabe ao certo como compreendê-la.
A crítica apresentada até aqui é válida tanto para os gritos da RB, quanto para as réplica raivosas e histéricas de petistas feitas contra o voto nulo. Elas beiram as raias do próprio método fascista de intimidação e isolamento de quem pensa diferente (basta ver como atuam as burocracias sindicais dirigidas pela CUT e pelo PT contra oposições minoritárias).
Infelizmente não tem sido suficiente apresentar os melhores argumentos e programas racionalizados — por mais importante que sejam —, mas procurar entender as trilhas subterrâneas das paixões humanas, irracionais por natureza; que conformam o elo por onde o neofascismo e o oportunismo puxam os seus cordões. É precisamente aí que a esquerda revolucionária necessita intervir para criar não só um novo radicalismo de esquerda, mas o próprio movimento revolucionário, sem o qual, continuará refém das armadilhas da psicologia de massas do [neo]fascismo em sua eterna gangorra com o oportunismo de esquerda.
Sugestão de leituras que ajudam a elucidar melhor os argumentos apresentados acima:
> O que é o bolsonarismo?
> Eleições 2022: o neofascismo cresce, quais serão os seus possíveis próximos passos?
> Bolsonarismo e peste emocional
> O legado de Wilhelm Reich e o que ele tem a nos ensinar sobre o atual fascismo brasileiro
> “A crise do movimento comunista” ainda não superada: uma resenha crítica do livro de Fernando Claudín
> A perversão incurável do eleitorado bolsonarista
> Ordem e milícias
> Como o economicismo se manifesta hoje?
> O conservadorismo das massas
> Bolsonaro e o apoio do povo
> Quem está por trás de Olavo de Carvalho?
> O povo brasileiro não tem feito história, mas sofrido-a
> Sobre o método do voto crítico
> Voto no PT: redenção ou pecado?
> Sobre como o petismo tende a repetir os métodos do bolsonarismo
> O autoritarismo petista nos sindicatos
> Por que a classe trabalhadora brasileira ainda acredita em Lula?
> Gritar contra os políticos é a catarse social brasileira
> Os méritos e os perigos do identitarismo

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