domingo, 11 de outubro de 2026

As eleições brasileiras e a psicologia de massas

 

O resultado do 1º turno e o crescimento eleitoral da candidatura de Flávio Bolsonaro expressam a essência da manipulação da psicologia de massas.

Com a ascensão mundial do bloco liderado por China e Rússia, os EUA não podem mais tolerar o “jogo limpo” das instituições liberais, sua legislação e o “livre” mercado. Assim, as big techs (google, whatsapp, instagram, facebook, etc.) entram em campo para direcionar o debate, insuflar maiorias pelas emoções primitivas e reforçar bolhas intransponíveis. A psicologia de massas cria o cenário político que tolera e impulsiona pautas neofascistas.

Orientados pela engenharia política da Casa Branca (cujo principal expoente é Steve Banon e Donald Trump), vivemos uma antirracionalidade. A realidade se inverte na cabeça dos bolsonaristas, onde entreguismo torna-se “patriotismo”; subdesenvolvimento, privatização, manutenção das maiores taxas de juros do mundo e a eterna dependência dos EUA são vendidos como “desenvolvimento”; participar de escândalos de corrupção é visto como “combate a corrupção”; e ter vínculo com o crime organizado significa a melhora da segurança pública. O STF é visto como politizado e não-imparcial para melhor se poder justificar a proposta de intervenção em seu interior conforme interesses políticos e militantes do bolsonarismo.

Para esconder o total controle sobre os privilégios, o neofascismo apela para métodos de manipulação das emoções, como sadomasoquismo, raiva, ódio, infantilidades egoicas, onde se apaga a fonte de tanta maldade e o flerte com a pulsão de morte. Os políticos neofascistas se utilizam deste método nefasto, se dizendo “antissistema” para melhor sustentar o sistema do qual depende os seus privilégios e o da elite que representa, o capitalismo em avançado estado de concentração de riqueza para uma minoria. A elite deste sistema — principalmente nos países imperialistas — não quer negociar nenhum privilégio, por isso vai administrando as inúmeras crises sociais, econômicas e ambientais resultantes. E para isso, a manipulação das crenças autoafirmativas e de autoverdade são os pilares fundamentais de sua engenharia política.

É com este tipo de psicologia inversa, centrada no ego, que a pauta de segurança se torna central em um país marcado por diversos tipos de violência e impunidade para os ricos. Se apaga a relação entre desigualdade social e segurança pública, como se uma coisa nada tivesse a ver com a outra. 

Quem é que incentiva o crime organizado senão os próprios vendedores de armas ligados ao complexo industrial-militar dos EUA, de um lado; e a miséria, o desemprego e a falta de perspectivas de um país dependente economicamente, que não se industrializa e nem procura receitas próprias para se desenvolver, repleto de favelas controladas pelas milícias do tráfico ligadas a políticos, por igrejas evangélicas e pelo utilitarismo mercadológico, de outro?

A mentalidade do upside down bolsonarista condena denúncias gravíssimas de direitos, de violência e assassinatos como “vitimização” (o tal do “mimimi”), mas não poupa palavras e lágrimas de crocodilo para se fazer de vítima quando são colocados numa sinuca de bico. Faz parte do seu show de manipulação emocional. A grande questão que causa espanto e comoção (ou pelo menos deveria) é: como eles conseguem inverter tudo na mente de milhões de brasileiros?

É justamente aí que entra a engenharia política neofascista de Trump e Banon. A “racionalidade” bolsonarista está baseada na manipulação da psicologia de massas onde o irracional passa a ser visto como racional, moralmente correto e aceitável. Isso é possível porque os agentes publicitários e políticos do neofascismo sabem manipular o cérebro emocional para eclipsar e anular o racional.

Além de uma agitação sadomasoquista por parte das principais lideranças bolsonaristas servir de combustível no qual centenas de milhares de mentes ardem como fogo em brasa, o neopentecostalismo complementa a liga de aço fanatizando, normalizando e alimentando a conduta inconsciente de criança mimada, egocêntrica, que não pode ser contrariada, presente no eleitorado bolsonarista. A partir daí há apenas cegueira para o que está fora da bolha e aceitação daquilo que vem do “líder”, do “mito”, do “messias”; ao mesmo tempo que se faz ouvidos moucos para qualquer outra advertência advinda da racionalidade.

Como esta engenharia de manipulação neofascista da psicologia de massas não é observada com o devido cuidado pelas diferentes esferas da esquerda, ela tende a se espalhar e a se infiltrar nas suas próprias fileiras, que acabam por servir como um pólo opositor que reforça e alimenta involuntariamente o próprio neofascismo (seja em que vertente for).


O petismo como gatilho para o cérebro emocional bolsonarista

O movimento neofascista, cuja expressão latino americana se dá nos governos dos bolsonaros e de Milei, não surgiu por acaso, mas é o reflexo de anos de monitoramento político da região, seja através da sabotagem aos governos “progressistas”, tendo o chavizta e o cubano à frente; seja através dos moderados governos petistas. Banon já admitiu que estudou Lula com atenção por anos — diferente da “esquerda”, que não se dedica a estudar a psicologia de massas.

Assim, o “irracionalismo” bolsonarista é uma reação ao tipo de militância petista, já estudada por parte da cúpula do movimento neofascista, cujas pautas de agitação servem como combustível para reforçar aberta ou sutilmente as convicções bolsonaristas. Muitas retóricas se repetem, apenas invertendo o vetor de indignação moral e dos impactos psicológicos, embolando todo meio de campo.

O governo de Lula não teve uma grande mudança estrutural, seja na macroeconomia ou na atuação política a partir do seu arco de alianças com a velha elite nacional. Ele não enfrentou com dureza as questões estruturais, como as taxas de juros e o rombo permanente da dívida pública, seguindo refém do rentismo, o que tem pioras inevitáveis nas áreas sociais. Muito disso se deve ao medo do governo de ser acusado de “ditador” por parte da grande mídia e das “oposições” políticas burguesas, fazendo com que ele não ouse mexer na estrutura econômica, o que inviabiliza qualquer mudança real, como, por exemplo, investir em ciência e tecnologia para diminuir a dependência tecnológica das big techs, demonstrando, na prática, que a soberania é apenas uma palavra sem consequências práticas.

As declarações de Lula na grande mídia, na ONU e nos encontros internacionais, ao invés de enfrentar a estrutura política, institucional e midiática, acaba por lhe dar crédito. Segundo ele, a “democracia” no Brasil é plena e a sua mídia exerceria a “liberdade de imprensa”, quando na realidade a “democracia” praticada pelas oposições parlamentares é destrutiva, sabotadora; e o jornalismo das grandes emissoras não passa de militância neoliberal que descamba para a censura extraoficial e para o golpismo sempre que se sente ameaçado. E isto é assim, no mínimo, desde a época de Vargas. 

Como se isso tudo já não bastasse, o petismo também reforça o egocentrismo em torno de uma figura central, que faz sua base de massas resumir programa e movimentos sociais ao apoio passivo de uma biografia pessoal.

As pautas “progressistas” dos governos petistas seguem reféns do identitarismo woke, o que, a despeito de lhe garantir um amplo suporte eleitoral — sendo aclamado também pela Rede Globo —, é um verdadeiro presente ao neofascismo, dado que é deste tipo de cortina de fumaça que ele se alimenta nos embates norte-americanos entre democratas e republicanos para melhor esconder e minimizar as questões econômicas centrais. Além disso, o movimento sindical segue semi-paralisado, com as mesmas pautas de sempre, totalmente vazio de enfrentamento e iniciativa real, dado que vegeta sob o controle de burocracias sindicais inoperantes e meramente eleitoreiras. O seu sindicalismo é burocrático, rotineiro e não tem sido capaz de empolgar as bases sociais. Quem questiona a preponderância do identitarismo woke ou da inoperância das burocracias sindicais, sofre com ataques bem semelhantes ao neofascismo bolsonarista e a própria expulsão branda dos sindicatos e dos movimentos que ele dirige.

Desta forma, o grande trabalho de base que poderia ser feito em inúmeras categorias Brasil afora, segue refém de pautas identitárias que ficam num ping-pong inócuo com o neofascismo, cujo objetivo é exatamente este: disfarçar ou esconder completamente sua agenda econômica entreguista.

A fórmula petista é a mesma de sempre, que já se demonstrou catastrófica: quanto mais pressionado por achar que vai perder o poder, mais cede ao mercado e ao setor privado através de alianças políticas com a velha elite do país, alimentando o círculo vicioso sem fim de golpes e distorções midiáticas, nunca questionando uma vírgula da sua prática política e sindical. A busca desesperada do petismo pelo reconhecimento da legalidade institucional burguesa — o que é uma das características de sua história política — passa a ser uma prisão que é utilizada pela direita neofascista contra ele mesmo. Grande parte da força do bolsonarismo provém do utilitarismo da militância petista que julga estar sempre no caminho correto (para confirmar basta dar uma olhada no movimento sindical que dirige).

Quem poderia auxiliar neste caminho é a esquerda “revolucionária”, de tradição “marxista”. No entanto, infelizmente não é isso que ela tem feito.


A esquerda “revolucionária” como fogo de palha para acender fogueiras alheias

A maior parte das organizações da esquerda “revolucionária” faz a mesma avaliação de sempre: o problema está exclusivamente no petismo, que é a direção hegemônica do movimento de massas e tem uma conduta “traidora”. Como grande parte desta esquerda sofre de um materialismo vulgar, tende a menosprezar as questões de psicologia de massas como expressão de “idealismo” sem entender o que realmente está em jogo. Ela ainda acredita que basta agitar palavras de ordem radicais para “acender a indignação das massas” que sofrem e passam fome, sem observar a sua psicologia.

Toda a sua mística — quase religiosa — depende desta ascensão de massas pela esquerda, que não tem vindo, a não ser pela direita. Ao invés de se perguntar por que isso ocorre, ela prefere fazer leituras bizarras e até mesmo ingênuas de “punição ao petismo” sem querer entender o porquê de a massa acreditar e se mobilizar apenas com os “antissistemas” de direita (tipo Bolsonaro, Marçal, Milei, etc.), ao mesmo tempo que esvazia, foge e condena os fóruns, movimentos e discussões dos antissistemas de esquerda.

Ou seja, uma tarefa teórica fundamental do momento em que vivemos é entender por que a massa trabalhadora abraça com grande facilidade as candidaturas e pautas de direita, mas resiste e rechaça as pautas de esquerda? O que acontece com ela? O que se passa com a “indignação” da massa? 

Manipulada pelo seu conservadorismo interior, fruto de uma estrutura familiar religiosa e tradicionalista, seja nos EUA, no Brasil, na Argentina ou no mundo, as suas movimentações perderam o caráter espontâneo do século XIX e XX. Sem indignação semi-espontânea das massas, como acontecia no passado, e sem canalizá-la contra quem a explora, não há revolução possível. A grande vitória da direita neofascista foi justamente se apoderar da indignação popular “contra o sistema”, piorando a confusão e a fazendo defender a estrutura que lhe explora e empobrece.

Pelos manuais teóricos, a ação das massas, impulsionada por anos de fome e traição de promessas políticas e eleitorais, deveria ir para além do PT, da CUT e dos sindicatos oficiais, atropelando-os pela esquerda, no caminho da auto iniciativa e das demandas socialistas. Porém, não é isso que acontece.

Se é certo que uma massa “educada” pelo PT no utilitarismo e pragmatismo dos pequenos ganhos, acreditando em mudanças sociais sem risco e violência revolucionária, por um lado; e por décadas de jornalismo midiático neoliberal e uma estrutura opressiva mercadológica e estatal, por outro, termina como refém da direita, já não é tão correto naturalizar o seu fascínio pelas pautas, programas e partidos da direita neofascista como sendo exclusivamente uma “punição ao PT”. Assim, ela oscila do lulismo para o bolsonarismo; e do bolsonarismo para o lulismo, sem querer sair do estágio de crianças que dependem de um paizinho.

O que a esquerda “revolucionária” não quer, portanto, é ver os problemas na condução moral e prática das massas trabalhadoras, optando pelo lado opressor, levando, dentro de si mesma, um pouco dos desejos de senhor de escravos. Ela adere, então, a uma cegueira voluntária, já que perceber o óbvio lhe colocaria problemas teóricos novos, para os quais os manuais não tem resposta, aumentando a sensação de terror e de vazio.

A esquerda “revolucionária” termina assim por se dividir entre aqueles que reproduzem os dogmas e esperam passivamente a onda revolucionária redentora, que tem vindo quase sempre pela direita. E a outra ala que se desespera e xinga a massa de “gado”, “burra” e outras preciosidades do gênero, sem saber ou sequer se preocupar em desenvolver um novo trabalho de base sério, capaz de lhe tocar o coração e criticar o seu utilitarismo pessoal, terminando por colocar fogo de palha no incêndio da direita neofascista ou na lareira petista.

Assim tem caminhado a esquerda brasileira.


O triunfo do viralatismo é o alto imposto pago ao império moribundo

Apoiado por uma ampla engenharia logística do imperialismo trumpista, o bolsonarismo cresceu e ameaça vencer o petismo no segundo turno eleitoral. Mesmo havendo possibilidade de fraude nas urnas eletrônicas e problemas de manipulação descarada de pesquisas e campanhas eleitorais — como já apontaram alguns analistas e debates nas redes a partir da “cooperação” do TSE com a Starlink, empresa de Elon Musk —, o fato é que existe amplo apoio eleitoral à candidatura de Flávio, fruto de todo o processo descrito até aqui.

A intervenção dos EUA não foi explícita, como se esperava, mas silenciosa, a partir das big techs, do financiamento de bilhões de dólares e da manipulação da psicologia de massas. Até mesmo a relíquia do partido “Missão” (neonazista) de Renan Santos reconhece.

Porém, a possível vitória de Flávio Bolsonaro no 2º turno não pode ser vista apenas com explicações apenas “fora de nós”, mas, sobretudo, deve exigir também um exame de consciência, de práticas políticas, sindicais e dos nossos valores mais arraigados, que resulte em uma reflexão de como atuar de forma diferente daqui para a frente, sobretudo levando escrupulosamente em consideração a psicologia de massas.

A vitória eleitoral do bolsonarismo não significará, necessariamente, o fechamento do regime político por uma ditadura militar, tal como apontam muitas análises de esquerda. Sabemos que, como se tratam de fanáticos e apologistas de ditaduras militares e de torturadores, é sempre uma possibilidade a nos espreitar. No entanto, não é assim que tem funcionado os governos neofascistas mundo afora. Nem mesmo no governo de Jair Bolsonaro foi assim. 

Uma característica fundamental do fascismo clássico, não reconhecida pela esquerda “revolucionária”, está, segundo Wilhelm Reich, na manipulação da psicologia de massas. O neofascismo, por sua vez, representa o aperfeiçoamento desta manipulação. Ele pode conviver com instituições democrático-burguesas, aproveitando-se delas e “denunciando” suas falhas, vivendo da manipulação das redes sociais em conluio com as big techs. Banon já alertou que basta dar “um rosto razoável para o populismo de direita [leia-se, neofascismo] e você se elege”. Assim, os golpes militares não são mais dados com tanques e soldados na rua, mas conquistando “maiorias democraticamente”.

Como o bolsonarismo possivelmente não fechará o regime — pelo menos não de forma explícita —, ele fará demagogia dizendo que defende a democracia, diferente dos seus opositores que apoiam “ditaduras comunistas”, como na Venezuela, ao mesmo tempo em que trabalha para sabotar as instituições por dentro, além de direcionar a mídia e a opinião pública a partir de ataques políticos e declarações escatológicas, criando diversas cortinas de fumaça. Já nas periferias e favelas certamente ocorrerá um regime militar informal, baseado na torturas e na legalização indireta de chacinas protagonizadas por “batalhões especiais”, servindo de propaganda sádica para a sua base eleitoral de classe média.

Em síntese, a eleição de Flávio Bolsonaro causaria um prejuízo incalculável para o Brasil em todas as esferas: política, econômica, social, cultural, religiosa, moral, humana, com ou sem fechamento do regime. É o preço que o Brasil pagará sem nada dever, tal como sempre fez em sua história. É o ajustamento da nossa economia às contas em déficit de um império em decadência histórica. É o coroamento das mentiras sobre o “livre mercado”!

Já o bolsonarismo ser entendido como “patriotismo” por milhões de pessoas é o triunfo do viralatismo e, consequentemente, da política dos EUA. Escondendo-o atrás da propaganda de “mudança”, a sua vitória significará a eterna submissão brasileira aos EUA e a condenação do povo a se pensar e se sentir pequeno. É verdade que a elite brasileira sempre foi vira-lata e acabava por impor essa condição indiretamente ao povo, mas, com a atual manipulação da psicologia das massas, chegaremos ao ponto de transformar esta condição numa raivosa militância que só aprofundará a cegueira coletiva, a miséria (material e moral) do povo e a insegurança social generalizada.



Sugestões de leitura com afinidades de conteúdo:

> O que é o bolsonarismo?

> Eleições 2022: o neofascismo cresce, quais serão os seus possíveis próximos passos?

> Bolsonarismo e peste emocional

> O legado de Wilhelm Reich e o que ele tem a nos ensinar sobre o atual fascismo brasileiro

> O espírito de rebanho: um problema candente a ser enfrentado pelo movimento socialista

> Gritar contra os políticos é a catarse social brasileira

> Voto no PT: redenção ou pecado?

> O neofascismo não foi derrotado!

> Como a grande mídia disfarça seu direcionamento político através do discurso de “polarização política”

> O autoritarismo petista nos sindicatos

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A utilização política da crise do STF: louvor, corrupção e manipulação

 

Está em curso no Brasil mais uma intervenção eleitoral estadunidense. A bola da vez é o STF.

A fórmula é antiga e conhecida de quem acompanha a História do Brasil e da América Latina: a partir dos gritos contra a “corrupção” se cria um pânico moral para tensionar uma instituição e toda a opinião pública. A principal arma de guerra dos EUA e dos seus vassalos brasileiros — a família Bolsonaro e os seus partidos satélites — não são drones, IA ou porta-aviões, mas a psicologia de massas.

No entanto, a manipulação da psicologia de massas necessita da criação de um cenário onde o direcionamento seja possível. Sem cibersegurança não há segurança nacional; e como sabemos desde os grampos contra Dilma, denunciados por Snowden, o Brasil é um país auto exposto. Tudo aponta para a construção deste cenário no caso do STF, que se tornou o “arquirrival” do bolsonarismo e, por tabela, dos EUA, sobretudo pela condenação de Bolsonaro pelos “atos golpistas” do 8 de janeiro de 2023.

Quando falamos que se tornou “arquirrival” do bolsonarismo, isso significa que passou a ser apoiado — ou mesmo, idolatrado, em alguns casos mais bizarros — pelo petismo e seus satélites. Há um fio de continuidade no caso Master envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, o ministro Alexandre de Moraes e a sua esposa, que está sendo explorado agora, gerando desconforto por entre a militância petista.

Não foi uma mera casualidade, portanto, que os holofotes de parte da grande mídia, do movimento neofascista nacional e internacional tenha recaído justamente sobre o STF em meio à campanha eleitoral, sobretudo se observamos a atuação de André Mendonça, o ministro indicado por Bolsonaro. O objetivo é, sem dúvida, tentar demonstrar a condenação do ex-presidente como uma injustiça movida por “corrupção”, transformando-a numa bandeira de mobilização de massas para o neofascismo que justifique não apenas atos de sabotagem, mas também abra precedentes para novos golpes.

A ideia aparente é fazer o governo Lula sangrar, o que já rendeu dividendos eleitorais: caiu alguns pontos percentuais em comparação a Flávio e em muitas pesquisas já aparece na segunda colocação. Se o tensionamento político contra o STF não render uma vitória eleitoral, deixa a porta aberta para organizar novos distúrbios e preparar possíveis golpes. Era necessário criar algum farrapo de narrativa que conseguisse incitar e manter a chama do ódio neofascista acesa, dado que vinha visivelmente arrefecendo. E essa desculpa surgiu agora — e como sempre — com a narrativa moralizante “contra a corrupção” do STF que levou à “condenação injusta” de Bolsonaro.

Por acaso o que foi revelado é alguma novidade frente ao que já se sabia anteriormente ou seria mera eventualidade que o tensionamento se torne cada vez mais forte e repetitivo com a aproximação de outubro?

E é aqui que a “magia” neofascista na manipulação da psicologia de massas entra em campo: de uma família totalmente atolada na corrupção, conforme atestam as inúmeras provas coletadas no telefone de Vorcaro, ela se torna a paladina da moral que será capaz de “enfrentar o sistema”, a “corrupção do PT” e o próprio STF. Ou seja, uma total inversão de valores na qual a própria esquerda — seja em que vertente for — não consegue responder.


A “esquerda” e o STF

A experiência histórica no Brasil nos demonstra que o STF sempre foi uma instituição burguesa, voltada contra os interesses dos trabalhadores. O petismo, ao tentar disputá-la, nomeou magistrados e também o defendeu de muitos ataques políticos, somando-se, portanto, à blindagem ideológica dada a esta instituição pelos demais partidos burgueses e pela grande mídia.

Porém, o neofascismo ascendeu ao poder mundial e nacional, desnudando uma divisão na decadente elite norte-americana. O ultraliberalismo de Trump e Bolsonaro demonstrou, mais do que nunca, a comunhão entre o liberalismo e o [neo]fascismo. Quase todos os “acordos de cavalheiros” que existiam tacitamente nas instituições burguesas foram questionados pelo neofascismo, incluindo os formalismos da grande mídia, que passaram a ser “denunciados” quando confrontavam um interesse trumpista ou bolsonarista.

O STF quis perceber isso tarde demais. Escondidos sob o escudo “nobre” da “liberdade de expressão” — isto é, um suposto princípio liberal —, o neofascismo espalhou como uma metralhadora giratória todo o tipo de preconceitos que, a bem da verdade, se houvéssemos aprendido algo com a história da ascensão do nazi-fascismo europeu, jamais poderiam ser toleradas.

Lembremos de algumas delas: Bolsonaro sempre falou contra o Congresso Nacional (em entrevista, disse que o fecharia através de um golpe, pois não funciona); exaltou torturadores da ditadura e a própria ditadura em inúmeros programas, o que, por si só, atentaria contra as instituições da democracia burguesa; em muitas entrevistas para a grande mídia defendeu milícias e grupos de extermínio para “disciplinar a pobreza”, ameaçando legalizá-las.

Portanto, Bolsonaro deveria ter sido impedido de concorrer pelo STF-STE já em 2018, porque todas as suas declarações prévias possuíam teor fascista, muitas delas contra as instituições e de apologia à ditadura militar brasileira. Sequer lhe foi aplicada qualquer medida disciplinar ou pedido de retratação pública.

Possivelmente por medo de sofrerem críticas de que eram contra a “liberdade de expressão” — ou, então, por motivos bem menos nobres não declarados —, STF e Rede Globo pagaram pra ver e deixaram o monstro crescer. Ele se elegeu e começou um trabalho de desorganização das instituições e dos seus acordos tácitos, além de sabotagens, que ameaçam certas continuidades institucionais (incluindo o próprio tipo de trabalho exercido pela mídia burguesa, ao estilo da Rede Globo). Tudo isso, como se pode saber se houver coragem, amparado pela engenharia política de Trump e Banon.

O resultado foi a consolidação do movimento neofascista no Brasil, a manipulação da opinião pública, a permanente queda de braço com o STF e a mídia tradicional que não rezava toda a sua cartilha, até… a tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023!

Esta tentativa foi o resultado óbvio da evolução de tudo isso, que deveria ter sido impedido pelo STF-STE — se fossem sérios — já em 2018. Bastava olhar o mundo! O mesmo pode ser dito em relação às atuais candidaturas de Flávio Bolsonaro ou de Renan Santos (MBL/Missão), por exemplo.

Não agindo previamente, o STF deixou para agir quando o ovo da serpente já estava chocado e com 4 anos de vida! A prisão de Jair Bolsonaro é justificada quase que exclusivamente pelo 8 de janeiro, a qual, tanto ele quanto Flávio, refutam, afirmando se tratar de uma “perseguição política” e “fraude”, dado que supostamente se tratavam apenas de “pobres coitados”, “velhinhos desarmados”, enquanto que Bolsonaro estaria muito distante de Brasília naquele momento, o que demonstraria a sua “inocência”. A lógica jurídica fica muito rasa ao ignorar todo o histórico de declarações e atuações dos bolsonaros.

Grande parte da esquerda respirou aliviada quando saiu a condenação do ex-presidente, sem perceber as incongruências. Muitos transformaram Alexandre de Moraes — um agente de uma instituição burguesa — em herói. O nível político da massa brasileira, a cobertura “jornalística” da grande mídia e o tipo de debate teórico do petismo não permitem ir além. Tudo isso foi um prato cheio para que o imperialismo e seus agentes neofascistas, especializados na manipulação da psicologia de massas, agora lancem mão de um ataque fulminante contra o STF, visando a sabotagem da possível reeleição de Lula.


As instituições burguesas e a Rede Globo

O grande fiel da balança nessa “crise” parece ser a Rede Globo. Dentre as instituições burguesas brasileiras, talvez a mais forte seja ela. Não houve nenhum golpe no Brasil que não tenha passado pelo seu apoio direto ou indireto. Até o presente momento, ela demonstra não ter aderido abertamente à intentona golpista, criando um empecilho importante e vivendo um impasse.

Se ela volta a ser protagonista de mais um golpe estadunidense contra o Brasil, terminará por sofrer com um futuro governo Flávio Bolsonaro, que lhe criaria muitos problemas que vão de pautas atravessadas, grosserias nos mais distintos níveis, passando pelo questionamento das “boas práticas” da “democracia” liberal até o eventual cancelamento da concessão (não esqueçamos que Jair Bolsonaro chegou a ameaçar a Globo com isso, algo que o petismo jamais ousou); ou segue apoiando, às vezes, sutilmente, às vezes descaradamente, o lulismo; e se queimando com os seus amigos norte-americanos mais radicais e com parte da elite do atraso brasileiro, dentre as quais, um dos seus principais patrocinadores, o agronegócio.

Além disso, a Rede Globo balança para o lado do lulismo porque este demonstra uma subserviência canina inesgotável às instituições democrático-burguesas brasileiras — coisa que o bolsonarismo não faz —, lhe garantindo generosas verbas governamentais publicitárias, tendendo a se alinhar mais com as pautas do partido democrata estadunidense, como o identitarismo, a quem a Globo dá indisfarçável apoio, pois já percebeu o seu poder de desagregação e sabotagem do movimento operário mundial e nacional.

Dá pra sentir ares de “operação lava-jato” pelo ar. Sem a Globo, no entanto, falta um ator fundamental. Ela resistirá à tentação? O mais provável é que deva estar recebendo propostas indecorosas e avaliando lucros e prejuízos…


O imperialismo ianque não brinca em serviço

O que muitos analistas e militantes da esquerda enxergam como a ruína e o fim da República burguesa brasileira, é mais uma crise institucional de um sistema cheio de rachaduras e contradições por lidar com tantas desigualdades sociais e políticas. Provavelmente ela continuará funcionando como sempre funcionou, distorcendo, empurrando com a barriga e atropelando o debate de possíveis soluções, agravando — é verdade — a sua degeneração. 

Mas isso não estaria em total evidência agora se a ala neofascista do imperialismo estadunidense não tivesse autorizado colocar o dedo na ferida para desestabilizar as eleições brasileiras. Dado a situação de organização, o nível de consciência da classe trabalhadora brasileira e o tensionamento do movimento neofascista, muito dificilmente esta “putrefação” da República burguesa sairá do controle tomando um rumo que interesse ao proletariado.

A eleição brasileira é crucial para o projeto estadunidense de recolonização total da América Latina, o qual, necessita do Brasil como peça chave. A despeito de toda a conciliação de classes petista, o projeto de Trump requer um governo fantoche e de um entreguismo total.

O atual discurso do governo Trump de que o Brasil “fracassa no combate ao narcoterrorismo” complementa a campanha contra o STF, cavando possibilidades de intervencionismo. Essa acusação é tão esdrúxula quando lembramos que o bolsonarismo é a própria expressão das relações mais escusas com o crime organizado, mas que de nada vale para alertar uma base social fanatizada e totalmente doente, que aceita o que lhe ditam os líderes e vomita os moralismos mais vulgares para lhes garantir uma “boa consciência”.

A vitória eleitoral de Flávio Bolsonaro — ou a sua subida ao poder via golpe de Estado — significaria a sabotagem da aproximação do Brasil com a China, Rússia e com os BRICS. Além do quê, faz retroceder o processo de desdolarização em curso, garantindo não apenas as “terras raras”, os demais recursos naturais do nosso país, muita força de trabalho barata, mas a subserviência total aos ditames que vêm do norte.

As instituições da democracia burguesa brasileira permitem uma “liberdade de expressão” que sustente o [neo]fascismo, a incitação ao ódio, a defesa do entreguismo e o fim da soberania nacional. Portanto, tolera e legaliza a sabotagem contra si mesma. O petismo, por sua vez, aceita acriticamente todas as sentenças dadas por estas mesmas instituições.

O imperialismo estadunidense só pode aplaudir e agradecer… 

É por isso que a esquerda precisa ser cuidadosa na sua análise, agitação e propaganda em relação à “crise” do STF para não se tornar linha auxiliar do imperialismo ianque, tal como um dos seus setores — de triste memória — se tornou durante o golpe contra o governo Dilma em 2016, julgando estar nas portas da revolução!


Sugestões de leitura com afinidades de conteúdo:

> O que o escândalo de corrupção do Banco Master poderia ensinar ao povo, mas não ensina? 

> O que é o bolsonarismo?

> Eleições 2022: o neofascismo cresce, quais serão os seus possíveis próximos passos?

> Bolsonarismo e peste emocional

> O legado de Wilhelm Reich e o que ele tem a nos ensinar sobre o atual fascismo brasileiro

> Gritar contra os políticos é a catarse social brasileira

> Voto no PT: redenção ou pecado?

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O voto nulo pode criar um novo radicalismo no Brasil?

 


O radicalismo no campo político pode ser um elemento fundamental para uma revolução, mas pode também se transformar num empecilho quando ignoramos as probabilidades da vida real. Aí tendemos a cair no equívoco de querer impor ao mundo real aquilo que é racionalmente demonstrado nos nossos “mais corretos” discursos.

Parece que é justamente esse o erro no qual incorre a organização “Revolução Brasileira” (RB — ex-corrente interna do Psol, hoje organização independente). A sua defesa do voto nulo, que poderia ser considerada apenas uma tática para enfrentar o período eleitoral, tem ido muito além disso. A principal justificativa da RB para defender o voto nulo nas eleições de outubro tem a intenção de construção de um “novo radicalismo” no nosso país.

Com relação a esse nobre ideal não há o que se objetar. O arsenal da esquerda está, sem dúvida, defasado; tanto quanto o arsenal do exército brasileiro está defasado em relação aos exércitos imperialistas. No entanto, assim como não se adquire um novo arsenal militar para um exército sem uma preparação prévia, que envolve a criação de condições econômicas, sociais e culturais, além de uma doutrina militar arrojada; da mesma forma, não se cria um novo radicalismo apenas com a força da vontade, aos gritos, sem examinar com cuidado as condições reais da sociedade brasileira e levá-las escrupulosamente em consideração.

Se temos uma excelente análise econômica, mas ignoramos ou menosprezamos outros elementos constitutivos da realidade, como cultura, ânimo e, sobretudo, a psicologia de massas, certamente nos faltará um importante termômetro que não pode ser suprido apenas pelo voluntarismo da suposta “exatidão das nossas análises”.

Do ponto de vista econômico e das suas consequências políticas, a crítica da RB ao petismo e à esquerda institucional (e youtuber) está correta. É esse um dos motivos do ódio da última, às vezes declarado, às vezes escondido atrás de elogios de ocasião, em relação à primeira. Porém, é preciso ver onde essa crítica se torce demais e passa a ser um problema. 


Pode-se criar um novo radicalismo via eleições burguesas?

O ponto alto da análise da conjuntura da RB é, como foi dito, a crítica ao petismo e aos seus governos, corretamente chamados de “liberais de esquerda”. Crítica esta que o ativismo petista e os seus simpatizantes não conseguem responder sem recorrer à ataques pessoais ao principal teórico da RB. A sua crítica tem despertado resistência no ativismo petista, que geralmente quer fazer como a classe média faz em relação aos seus privilégios sociais: não basta só ter privilégios, é necessário também criar uma narrativa que nos deixe bem com a nossa própria consciência frente a estes privilégios. 

No caso de ativistas petistas, trata-se de ficar bem com a sua própria consciência política, mesmo vendo que existem inúmeros problemas nos seus governos e na sua atuação prática. A crítica da RB toca nestas feridas, que são respondidas de forma agressiva por parte de figuras públicas do petismo, do Psol e de suas organizações simpatizantes.

No entanto, a RB transforma a questão eleitoral e o voto nulo em princípios, pois ignora diversos elementos da realidade. Se uma organização ou um ativismo específico fazem críticas aos governos petistas, mas votam neles no primeiro ou no segundo turno, então transformam-se em lulistas e tudo está acabado, como se o voto nas eleições burguesas definisse tudo.

Por exemplo: não interessa mais qual a relação prática entre esse ativismo e o petismo nos demais espectros da realidade, como crítica social, trabalho de base, sindicatos, movimentos sociais, greves, etc. Nem sequer o tipo de propaganda eleitoral que se faz — se é voto crítico, se existe crítica real, se não existe; se existe apologia descarada ou disfarçada, e assim por diante.

O voto contra ou a favor do PT passa a ser a régua de princípio pela qual a RB mede quem é quem. E, a partir daí, se iniciam gritos e contra-gritos, muitas vezes, intolerantes (que não são respondidos de forma muito melhor por parte do petismo e adjacências). Isso não é tratar as eleições burguesas como uma questão de princípio ou, no mínimo, dar à ela um poder muito maior do que aconselham os teóricos que criticaram o cretinismo parlamentar?

O ponto mais fraco e perigoso da análise da RB está no fato de menosprezar a ascensão do neofascismo no cenário brasileiro e internacional, ao ponto de negar a sua existência.

Se, por um lado, sabemos que o petismo se utiliza do discurso de “ameaça fascista” para reforçar tudo o que já faz de conciliador e rebaixado, agora vendido como “necessário”; por outro, ignorar a ascensão de um movimento novo e perigoso contra toda esquerda — incentivado e dirigido pela oligarquia estadunidense — é um erro crasso, pois sem reconhecer a existência deste neofascismo e a sutileza dos seus métodos, será impossível combatê-lo com sucesso.

O “neo” à frente do “fascismo”, formando o termo “neofascismo”, é justamente para demonstrar que não se trata do fascismo clássico dos anos 1930 e 1940, nem que necessariamente o bolsonarismo “fechará o regime”. O neofascismo atual é um movimento criado pelo imperialismo decadente, os EUA e seus satélites, para a manutenção do seu domínio mundial e dos seus mercados, ameaçados por China e Rússia. Assume variadas formas de acordo com os seus interesses geopolíticos. Se assemelha ao fascismo clássico pelo terrorismo de Estado ou pelo terrorismo mercenário seletivo das chacinas policiais, pela xenofobia, racismo e um conservadorismo radical. Como todo fascismo, é um movimento antiproletário e anticomunista. 

Dissemina ódio, preconceito, fake news das formas mais escabrosas, dando justificativas para guerras, assassinatos, ditaduras militares e genocídios, embora possa conviver com as instituições democrático-burguesas num permanente cabo de guerra (o que prende atenção popular e facilita seu trabalho). O neofascismo traz à tona hoje o que os liberais tentaram esconder durante o período das guerras mundiais: a sua similaridade autoritária com o nazi-fascismo. Quando as regras do jogo deixaram de beneficiar o “livre mercado” dos EUA frente à ascensão da China, eles recorreram a todo tipo de sabotagem e intervenção arbitrária (guerra comercial, tarifas artificiais, pirataria, guerra relâmpago, intervenção eleitoral, revoluções coloridas, golpes, etc.). 

Nas décadas de 1930-1940, o liberalismo ianque e europeu vendiam-se como anti-fascistas e anti-autoritários, mas no século XXI, com a decadência do imperialismo estadunidense expressa através do governo Trump, vemos o questionamento das próprias instituições “democráticas” a partir de uma agitação “antissistema” e de uma manipulação emocional da psicologia de massas dos povos do mundo. O discurso a favor da ditadura militar de Bolsonaro e Milei não deixa de conviver com os seus parlamentos burgueses, embora seja sempre uma possibilidade a nos espreitar. É um tipo novo de movimento conservador, pensado justamente para se utilizar dos mecanismos e brechas dessas instituições. Ao se afirmar como “antissitema”, o neofascismo termina por… reforçar o próprio sistema! O bolsonarismo é a aplicação desse neofascismo no Brasil, Trump e Steve Banon são os seus fundadores estadunidenses; Milei é sua versão argentina; Kast, a chilena; Orban a húngara, e assim por diante.

A própria RB faz um recorte de caracterização quando chama o bolsonarismo de “proto fascista”, demonstrando que há sim diferenças entre a direita tradicional e o bolsonarismo, ainda que embrionariamente. Porém, infelizmente não é consequente com o próprio recorte que faz.

É possível, pois, caracterizar a existência do neofascismo na realidade e não prestar apoio político, sindical e prático ao petismo. Esta é, aliás, uma condição teórica importante para a criação de um novo radicalismo que interesse à classe trabalhadora brasileira.


A ausência de uma análise a partir da psicologia de massas

A RB afirma que Lula frauda sistematicamente suas promessas, enquanto que “o alienado” faz o quê? Vota novamente e acredita em Lula, alimentando muitas esperanças. De fato, Lula frauda sistematicamente estas esperanças eleitorais, embora atenda esperanças utilitárias de muita gente, como bolsa família, minha casa minha vida, acesso à universidade, etc. Esperanças, no mais das vezes, identitárias, além de “pragmáticas” para os “pobres”.

Se aliviam o sofrimento imediato — o que ninguém questiona —, sabemos que cria um círculo vicioso permanente que ajuda o sistema a se manter a longo prazo. E, isto sim, deveria ser questionado. O grande problema é: por que as pessoas não questionam?

A RB enche a boca para dizer que os eleitores que votam no bolsonarismo não aguentam mais a hipocrisia do petismo; reconhecendo, também, que a maioria dos 53 milhões de eleitores bolsonaristas, é constituída por trabalhadores. Observação correta, mas que não avança para além do óbvio. Por que quase 53 milhões de trabalhadores estão seduzidos, hipnotizados e fascinados pelo discurso de ódio do “proto fascista” Bolsonaro? Enquanto que outros 50 milhões continuam acreditando em Lula, que “frauda sistematicamente suas promessas”, e quando se irritam com a “hipocrisia petista” vão à direita e não à esquerda revolucionária?

A resposta da RB fala sobre a existência de uma “consciência ingênua” entre as grandes massas. Certamente ela existe. Mas constatar isso não nos faz avançar nenhum centímetro, dado que é óbvio a sua existência. O ponto central é: por que existe uma “consciência ingênua” e por que ela não avança à esquerda?

Este é o ponto exato que precisa ser entendido para que seja possível a criação de um novo radicalismo. Não basta depositar toda a culpa no petismo, pois isso não explica nada, senão que nos deixa presos numa tautologia. A psicologia de massas demonstra que operam nas multidões forças irracionais que, mesmo frente aos melhores discursos econômicos mais bem embasados e racionalizados, terminam por sucumbir ao canto da sereia da invocação das taras, ódios, sadomasoquismos contra a pobreza, a miséria, o “comunismo”, contra si mesmo, dentre outros.

E somente jogar a culpa em cima das “direções reformistas e traidoras”, como é o petismo, não ajuda a esclarecer as reais motivações da massa ir à direita quando “perde a paciência com as hipocrisias petistas”. Por que a massa não perde a paciência com a hipocrisia dos partidos de direita e do bolsonarismo? Com a corrupção bolsonarista? Com a hipocrisia dos pastores evangélicos, dos políticos-coaches, etc? E, quando eventualmente uma parte perde esta paciência, por que ela termina nos braços do petismo?

Em síntese: porque a massa acredita e se mobiliza com os “antissistemas” de direita (tipo Bolsonaro, Marçal, Milei, etc.), mas não dá ouvidos aos antissistemas da RB, do PSTU, da UP, do PCB, da LBI, dentre outros?

Como, então, criar um “novo radicalismo político” no Brasil sem buscar entender os mecanismos e armadilhas da psicologia de massas, que têm se “radicalizado à direita”, apenas invocando o voto nulo, ademais já levantado por muitas pequenas organizações Brasil afora? 

A RB ainda sustenta que “a sociedade brasileira está ultra radicalizada”. Sim. Está ultra radicalizada à direita; e nada acontece à esquerda. Basta observar a postura de muitos trabalhadores frente aos seus sindicatos, nas mobilizações de rua, nos comentários de botequim, de rua, nos ônibus, nas escolas e nas redes sociais, para se tirar uma febre. Tal “radicalização”, que não tem se traduzido em maior mobilização, maior questionamento das burocracias sindicais e políticas, capaz de apontar para a massificação de um partido revolucionário, não pode servir aos interesses históricos dos trabalhadores (o mesmo pode ser dito acerca do voto nulo); em síntese, este tipo de “radicalização” não tem se transformado em situação revolucionária, mas em atos da direita por “deus, pátria e família”; contra a “corrupção do PT” e, até mesmo, “contra o comunismo”.

Infelizmente não basta ter a “melhor análise econômica e política do mundo”, é preciso entender como o neofascismo — assessorado, lembremos, por Steve Banon e Trump — conseguiu criar uma racionalidade às avessas, que vê entreguismo como patriotismo; pirataria, saque e extorsão de si próprio como desenvolvimento econômico; privatização que empobrece a maioria como a “solução”; além de ser imune a todo fato histórico ou argumento racional verificável hoje pela internet ou por fontes relativamente acessíveis, celebrando a injustiça das desigualdades sociais como algo digno e desejável.

Defender os sórdidos interesses econômicos dos EUA soa como algo “natural” para milhões de pessoas em nosso continente. É isso que a propaganda ianque de “nosso hemisfério” trabalha no inconsciente coletivo. Os defensores do capitalismo norte-americano entre os latino-americanos explodem em reações emocionais desequilibradas e intolerantes frente ao menor questionamento político da conjuntura, seja na Venezuela, no Brasil, nos EUA ou no mundo. Vê sempre Venezuela e Cuba como ditaduras, ignorando todo o seu histórico; enquanto que as guerras e sabotagens dos EUA e de Trump são sempre aceitas como “defesa da democracia”. Esta psicopatia é caracterizada por fazer o indivíduo perder a capacidade de empatia e escuta, bloqueando o cérebro racional para fatos e argumentos bem construídos.

O neofascismo e o imperialismo já perceberam que a esquerda, no geral, tende a ser a campeã do discurso racional e “perfeito”. Entretanto, a psicologia de massas é formada por inúmeros fenômenos irracionais que são manipuláveis — isto foi falado há quase um século por Le Bon, Freud, Edward Bernays, Wilhelm Reich, dentre outros, mas solenemente ignorada pela esquerda. Ela é contraditória por natureza: dá valor, simultaneamente, ao esclarecimento e ao mistério; ao pragmatismo e ao transcendental; ao poder e à humildade; à interdependência e à individualidade; dá ouvidos igualmente ao cientificismo e ao misticismo.

Após anos de técnicas testadas e aplicadas via indústria cultural, vemos a situação se deteriorar ainda mais com o surgimento das redes sociais e a engenharia política da Cambridge Analytica — todos eles métodos neofascistas por excelência, aperfeiçoados por Steve Banon e Trump para disseminar ódio e preconceito de classe, culminando na ideia de que é possível imaginar o fim do mundo, mas não o fim do capitalismo. Esta aparente falta de perspectiva tem levado ao adoecimento psíquico em massa, banhado com remédio de tarja preta, aumentando não a mobilização, mas a letargia, o utilitarismo, o individualismo e o egoísmo. Frente a tudo isso, o discurso e o programa racional não se tornaram desnecessários, mas, sim, devem ter os seus limites compreendidos e novas táticas de combate desenvolvidas. 

Ao que tudo indica, o novo radicalismo da RB não leva nada disso em consideração, nem as outras organizações da “esquerda revolucionária” procuram entender a conjuntura fora daquilo que estão acostumadas a repetir “dos clássicos marxistas”, enquanto que o petismo e o oportunismo, no geral, surfam na onda da psicologia de massas, reforçando o polo emocional e manipulável ao seu modo.

O próprio espontaneísmo do século passado se transformou num “espontaneísmo de direita”, conservador. A massa quando se mobiliza, o faz por utilitarismo; e quando organizações de esquerda propõem consignas, programas, palavras de ordem e ações mais radicalizadas, geralmente levando em consideração apenas o racionalismo, terminam isoladas — diferentemente do que acontecia em fins do século XIX e meados do século XX, quando o poder de mobilização estava visivelmente com as organizações proletárias. Todos estes fatos colocam um problema novo — não conhecido por Marx, Engels e Lenin — que obriga a esquerda revolucionária a avançar sozinha, repensando as estratégias e reafiando a navalha com outras pedras de amolar.

Nos últimos meses temos visto as mobilizações bolsonaristas perderem força, mas isso não significa que esta suposta “radicalização da sociedade brasileira” aponte para a esquerda. Ao contrário. Tem muito trabalho de base a ser feito, não para reproduzir cegamente mais do mesmo, mas para entender o que se passa na mente de milhões de trabalhadores e tentar dar respostas criativas e novas a velhos problemas. Sem isso, não há novo radicalismo possível, apenas o fortalecimento do radicalismo de direita — não sem o “polo emocional opositor” tensionado inconscientemente pela esquerda e, obviamente, aproveitado e exagerado conscientemente pelo neofascismo.


Voto nulo é realmente uma campanha de politização se se desconsidera o perigo potencial do neofascismo?

Esta crítica à postura da RB não tem como finalidade desmerecer a sua campanha pelo voto nulo com argumentos inquisitórios, rebaixados, eleitoreiros desesperados, descambando para acusações identitárias, para combater sua crítica à política econômica petista. Não, nada disso!

Já escrevemos em outros artigos que nem o voto nulo, nem o voto crítico são “pecados” em si mesmo, tal como preconizam os “militantes religiosos” em suas diferentes profissões de fé — ainda que possuam consequências práticas em cada conjuntura. A militância que hoje chama voto nulo, por menor que seja, está sempre na luta, no dia a dia, e precisa ser valorizada por isso. Está tentando buscar um caminho, como todos nós. Execrá-la a partir de ataques pessoais é, também, um desserviço. Existem muitos pontos de verdade nas suas declarações e na sua ânsia de luta que faltam para aqueles que esperam resolver tudo via eleições, parlamento e sindicatos oficiais.

No entanto, não é possível concordar com o fato de haver politização em campanha pelo voto nulo quando se coloca tudo no mesmo balaio de gato, facilitando a velha catarse de simples ódio aos políticos que não nos leva a lugar algum, além de simplesmente ajudar o neofascismo a se camuflar, diminuindo, menosprezando ou mesmo apagando a sua grave ameaça política como se, a despeito de todo o peleguismo petista, fossem exatamente a mesma coisa.

A psicologia de massas do fascismo opera na simplificação e não na complexidade. Diluir tudo no mesmo balaio de gato facilita o trabalho e a agitação tanto do neofascismo quanto do petismo. Parte da politização e da radicalização da massa trabalhadora não está, justamente, no fato de ajudá-la a discernir entre os fenômenos?


Gritos podem substituir a ausência de um partido revolucionário com influência de massas?

Os camaradas da RB ainda dizem que a sua proposta de voto nulo deve ser vista como um protesto consciente contra a podridão do sistema político, contra a continuidade do ultraliberalismo com Flávio ou com Lula. É difícil perceber essa clareza nos votos nulos. Geralmente são um amontoado incoerente e inconsciente de indignação, muitas delas podendo ser, até mesmo, de direita. Evidentemente que existe, também, uma parcela de protesto, mas no momento histórico em que vivemos, sem partido revolucionário e com um “espontaneísmo de direita”, o voto nulo dificilmente terá essa qualidade, mesmo que diversos grupos de militantes gritem de norte a sul tentando politizá-lo. Essa qualidade o voto nulo só teria se fosse chamado por um partido revolucionário com influência de massas — geralmente beirando uma situação revolucionária —, coisa que não existe no momento.

Se houvesse um partido revolucionário com influência de massas, seria possível disputar e politizar o voto nulo. Mas, sem este elemento fundamental, infelizmente ele tende a se transformar numa massa amorfa, que não excede a uma estatística confusa, muitas vezes apenas retomando o ódio contra a política e o próprio país, os partidos no geral, sem apontar para nada.

É por isso que frente à ascensão do neofascismo se torna um uma tática equivocada, o que não anula a importância da crítica da RB aos governos petistas. Nem deve nos tornar sectários, tipo aqueles petistas fanatizados, que querem isolar e chafurdar ainda mais no cretinismo eleitoral contra quem os critica, só rebaixando o debate público ao invés de aprender a elevá-lo. O voto nulo é equivocado neste momento porque além de ser um passo muito maior do que a classe trabalhadora demonstra ter disposição de dar (já que está dividida entre petismo e bolsonarismo), dificulta que a crítica à política econômica e aos governos petistas chegue à sua base e crie raízes. Também não serve de alerta contra o próprio perigo do neofascismo, já que o dilui e o coloca como “igual ao petismo”.

Chamar voto crítico em Lula, por outro lado, não pode significar apenas disseminar ilusões de que ele “pode governar em nome dos trabalhadores”, como fazem muitas organizações, partidos de “esquerda” e ativistas desesperados frente ao bolsonarismo. O governo Lula precisa ser chamado pelo que é: liberal de esquerda; nenhuma crítica ao neofascismo bolsonarista deveria perder essa perspectiva.

No entanto, afirmar que Lula é exatamente igual a Bolsonaro para poder tornar mais crível a tática do “voto nulo” é um desserviço, pois distorce a realidade para dar razão à sua própria política, apagando nuances fundamentais da situação nacional e internacional. Insistir que Lula e Bolsonaro são exatamente iguais não repetiria os erros cometidos na Alemanha de 1930, pré-ascensão do nazismo, quando o Partido Comunista alemão afirmava que a social-democracia era gêmea siamesa do nazismo?

Do ponto de vista macroeconômico, realmente não existem diferenças entre lulismo e bolsonarismo; mas do ponto de vista da psicologia de massas, do dia a dia e das ilusões da sociedade brasileira, existem muitas, que precisam ser observadas se queremos chacoalhar os trabalhadores, para que acordem!

Por exemplo, a política institucional frente ao crime organizado não é a mesma: o bolsonarismo autoriza batalhões assassinos nas periferias, legalizando ditaduras e chacinas contra a pobreza — inclusive isso é parte da sedução do seu eleitorado sádico de classe média; a tímida e claudicante política petista tende a evitar estas chacinas. O bolsonarismo legaliza gabinetes do ódio abertos e ocultos, que disseminam, como um câncer, inúmeros preconceitos neofascistas, de ódio, anticomunistas, anti-povo, etc; o petismo, não. 

Como “primeiro pedagogo do povo brasileiro”, o bolsonarismo ensina o ódio sádico para o povo, cria cortinas de fumaça diárias com tramas escatológicas, escabrosas e nefastas, pavimentando o caminho para o entreguismo total. O petismo realiza um entreguismo parcelado e, por vezes, envergonhado (se não fosse assim, não teria sofrido o golpe do impeachment em 2016). O entreguismo parcelado, certamente, não deve ser exaltado estupidamente como a única política possível — nem disfarçado, tal como fazem os petistas —, mas, tal “diferença” não pode ser descartada, dada a situação de desmobilização e confusão direitista da maioria dos trabalhadores brasileiros.

Além dessas pequenas diferenças, existem outras relacionadas à questão internacional, que é central e define todo o cenário eleitoral nacional: trata-se da disputa mundial entre EUA e China. O petismo aposta nos BRICS e na ascensão mundial da China, ainda que não saiba o que fazer no bloco e também pague muitos tributos como vassalo aos EUA e à própria China; o bolsonarismo, por seu turno, é a correia de transmissão direta dos EUA. Seu surgimento como movimento neofascista é justamente para evitar a ascensão mundial da China, a desdolarização e a expansão e consolidação dos BRICS (basta ver as declarações de Steve Banon acerca disso antes das eleições de 2022 clicando aqui).

Por tudo que foi dito, nestas eleições, nem o “voto crítico” no petismo — a depender da forma como é exposto — é um crime oportunista inafiançável; nem o voto nulo é um redentor dos pecados políticos, capaz de fazer a massa dar um salto na sua consciência e avançar como que num passe de mágicas para um “novo radicalismo” e para a revolução socialista. O melhor seria se atentar aos movimentos da massa trabalhadora brasileira tal como ela é — dividida entre as ilusões petistas e o fascínio pelo bolsonarismo —, discutir questões eleitorais táticas tentando manter as pontes entre as esquerdas para decifrar conjuntamente a esfinge da psicologia de massas do povo, que, da parte da esquerda socialista, ninguém sabe ao certo como compreendê-la.

A crítica apresentada até aqui é válida tanto para os gritos da RB, quanto para as réplica raivosas e histéricas de petistas feitas contra o voto nulo. Elas beiram as raias do próprio método fascista de intimidação e isolamento de quem pensa diferente (basta ver como atuam as burocracias sindicais dirigidas pela CUT e pelo PT contra oposições minoritárias).

Infelizmente não tem sido suficiente apresentar os melhores argumentos e programas racionalizados — por mais importante que sejam —, mas procurar entender as trilhas subterrâneas das paixões humanas, irracionais por natureza; que conformam o elo por onde o neofascismo e o oportunismo puxam os seus cordões. É precisamente aí que a esquerda revolucionária necessita intervir para criar não só um novo radicalismo de esquerda, mas o próprio movimento revolucionário, sem o qual, continuará refém das armadilhas da psicologia de massas do [neo]fascismo em sua eterna gangorra com o oportunismo de esquerda.



Sugestão de leituras que ajudam a elucidar melhor os argumentos apresentados acima:
> O que é o bolsonarismo?
> Eleições 2022: o neofascismo cresce, quais serão os seus possíveis próximos passos?
> Bolsonarismo e peste emocional
> O legado de Wilhelm Reich e o que ele tem a nos ensinar sobre o atual fascismo brasileiro
> “A crise do movimento comunista” ainda não superada: uma resenha crítica do livro de Fernando Claudín
> A perversão incurável do eleitorado bolsonarista
> Ordem e milícias
> Como o economicismo se manifesta hoje?
> O conservadorismo das massas
> Bolsonaro e o apoio do povo
> Quem está por trás de Olavo de Carvalho?
> O povo brasileiro não tem feito história, mas sofrido-a
> Sobre o método do voto crítico
> Voto no PT: redenção ou pecado?
> Sobre como o petismo tende a repetir os métodos do bolsonarismo
> O autoritarismo petista nos sindicatos
> Por que a classe trabalhadora brasileira ainda acredita em Lula?
> Gritar contra os políticos é a catarse social brasileira
> Os méritos e os perigos do identitarismo