terça-feira, 1 de setembro de 2026

Gritar contra os políticos é a catarse social brasileira

O capitalismo é um sistema que tem grande capacidade de readaptação, apesar de passar por inúmeras crises. Com muita maestria, ele mescla o uso da violência estatal e econômica, física e simbólica, ao ponto de lhe dar vantagens que o colocam sempre à frente das análises das organizações de esquerda em, no mínimo, uma década.

Nos séculos XVIII e XIX, após muita resistência operária, os sindicatos foram cooptados; no final do século XIX e ao longo do XX, foi a vez da cooptação do voto e dos partidos operários através do reformismo. A indústria cultural cooptou corações e mentes pelas emoções cinematográficas e o próprio “comunismo soviético”, dentre outras razões, terminou refém de tamanho poder de atração ao movimento operário mundial.

Atualmente vivemos a cooptação dos chamados “movimentos de opressão”, que, ao transformarem-se em identitarismo, vendem a ideia de “auto emancipação” ao mesmo tempo que ocultam posições individualistas para o benefício não declarado do próprio neoliberalismo. A classe trabalhadora como um todo fica refém da esterilidade, pois suas demandas são cooptadas dia a dia através da manipulação da psicologia de massas nas redes sociais, na indústria cultural ou na canalização do descontentamento para saídas individualistas e utilitárias, resultando num adoecimento e depressão em massa.

Mesmo o ódio da massa contra os políticos e partidos tradicionais é passível de cooptação. Caso contrário, algo já teria ocorrido para mudar essa “podre República burguesa”, uma vez que a quantidade de queixas que se escuta diariamente em relação aos políticos é imensa. Porém, parece que quanto mais queixas há, mais os políticos e partidos se reforçam no poder.

Deve haver algo de errado nessa equação.


A cooptação do descontentamento em relação ao sistema político brasileiro

A grande mídia nacional, assessorada pelos técnicos e ideólogos do imperialismo estadunidense, construíram ao longo das décadas — sobretudo a partir da “nova” República pós-ditadura militar — uma sofisticada engenharia de canalização do descontentamento do nada para lugar nenhum, repletos de “minutos de ódio”, onde se pode xingar livremente políticos, governadores e presidentes, possibilitando uma grande catarse social. No caso brasileiro, a reclamação sem nenhum critério ou consequência tem se tornado parte da dominação de classe do sistema.

As organizações de esquerda se animam. Fazem os prognósticos mais otimistas e preparam agitações em cima desses “descontentamentos” e reclamações diárias sem perceber que elas não passam de uma catarse, já que não saem do lugar e a sua principal consequência é a descrença no próprio país.

Seja através da indústria cultural, filmes, novelas; seja através da grande mídia, com seletividade nas coberturas “jornalísticas”, “debates” políticos ou censuras “democráticas” que silenciam sutilmente; seja através de pequenas concessões salariais e/ou materiais, exaltação de líderes — geralmente identitários — e partidos que se tornam porta-vozes informais da ordem; o sistema vai fazendo cair na sua rede um a um qualquer movimento de resistência.

O seu êxito está na forma em que é feito: invisível e angariando simpatia direta ou indireta por parte da população, que é alimentada por sopas ecléticas vindas do Estado, do mercado, das redes sociais, das filosofias de “trabalho”, de coaches, de igrejas evangélicas. Esta sopa é tomada com gosto, já que o seu tempero “tradicionalista” é bem conhecido: vem de casa e da família, desde que somos criança.

Setores da “esquerda”, por sua vez, não compreendem tal catarse, se empolgam com ciclos criados e tolerados pela própria estrutura institucional burguesa, alimentando esperanças a partir de autopropagandas inconsequentes — sejam elas eleitorais ou não. Como grande parte do arsenal teórico da esquerda brasileira veio da Europa, sendo importado acriticamente, a realidade do país acaba sendo mal interpretada, terminando por nos deixar refém de uma aparência de eterno retorno ao começo.


O imaginário paulista é soberano sobre a mentalidade brasileira

Para chegarmos a este estado de coisas, foi necessário um longo trabalho ideológico dos assessores imperialistas estadunidenses prestado à elite brasileira — sobretudo a paulista, que a erigiu em culto de Estado. A reclamação e o ódio aos políticos faz parte deste “culto” que coloca em funcionamento o regime “democrático” brasileiro e lhes dá aparência de “liberdade”.

A engenharia política criada pela ideologia paulista meritocrática está na vinculação de tudo que se proponha a desenvolver o país e garantir direitos para o povo como “populismo”, remontando à luta contra Vargas — não casualmente, transformada no principal feriado estadual de São Paulo.

Então, qualquer político ou partido que tenha um projeto de desenvolvimento nacional, industrialização, defesa de empresas públicas, direitos trabalhistas e aumento salariais, será visto não como um governo necessário, mas como “populista” e demagogo, reles manipulador da vontade e dos sentimentos do povo. Da mesma forma, será condenado caso tenha um projeto de intervenção política e estatal na economia e no mercado, ao que, será acrescentado o rótulo de “ditador”, tornando-se, assim, um “ditador populista”. Esta inversão de papéis serve perfeitamente para esconder a ditadura invisível do mercado, dos seus oligopólios e monopólios, além dos seus crimes, acobertados e incentivados pela grande mídia.

Mas por acaso não existem políticos e partidos populistas?

Evidentemente que sim. 

Contudo, tratam-se de políticos que apenas prometem e não cumprem nada; ou pior ainda, prometem mundos e fundos e na prática só retiram direitos, deixando o povo na míngua. O objetivo do imaginário paulista contra o “populismo ditatorial varguista” (ou “peronista”, na Argentina) visa plantar uma pulga atrás da orelha preventiva sobre o povo, como se o governante tivesse sempre apenas uma estratégia personalista de poder, exercido geralmente de forma inescrupulosa. Ao passo que o mercado e o setor privado seriam idôneos e corretos, “ensinando o povo a pescar” e “não lhe dando o peixe” — para usar uma expressão muito apreciada pela Faria Lima —, ao contrário do que fazem os “maldosos e inescrupulosos populistas”, ao estilo de Vargas e Perón.

Esse estigma funciona como uma cortina de fumaça para esconder as aberrações oligopólicas do mercado e do setor privado, combatendo antecipadamente todo aquele que tenta lhe enfrentar. Por cima de tudo isso paira a sombra da oligarquia imperialista estadunidense, que aplaude e dá o suporte logístico e ideológico para o seu funcionamento. Quanto mais o mercado vira “livre”, mais gera desigualdades sociais e miséria, obrigando o povo a recorrer ao Estado, que já cria previamente o estigma de “populista” para o governo que tentar minimizar os sofrimentos e a fome da classe trabalhadora, mantendo o círculo vicioso. As instituições políticas brasileiras e a sua grande imprensa operam dentro desta lógica.

No povo é plantada a semente da discórdia contra qualquer mudança pra melhor em sua vida, visto que o populismo supostamente o desvirtuaria e criaria mero clientelismo e dependência estatal. Para sustentar tal distorção, apaga-se todo o passado colonial do país, a escravidão, a sua submissão econômica a partir do lugar que o Brasil ocupa no mercado mundial e, sobretudo, a atuação da sua elite nacional — alcunhada, corretamente, de “a elite do atraso” por Jessé Souza — em conluio com a oligarquia imperialista estadunidense. 

O exemplo mais recente deste mecanismo discursivo foi visto na campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro atacando a singela e rebaixada pauta do fim da escala 6x1 como “um debate populista”. Para o zero um, “o cara tem que ter liberdade de trabalhar o quanto quiser”, como se esta fosse a questão central.

Assim, a primeira barreira é colocada por essa ideologia, que faz o povo condenar como “populista” quem tenta usar os recursos do país para o desenvolvimento… do próprio país! E não como oferenda no altar do insaciável deus-mercado mundial.

A segunda é a que aponta como “ditador” todo aquele que intervenha na economia e no mercado visando evitar as distorções e a ditadura [nem tão] invisível dos oligopólios e trustes. O objetivo está implícito: o poder não pode ser exercido pelo Estado, entendido como forças populares visando o bem coletivo, porque por décadas a ideia de se intervir na economia foi execrada como “ditadura” . A partir desta engenharia ideológica fica garantido, também de forma implícita, que o poder só pode ser exercido por uma única força: o mercado — entendido como o setor privado —, tornado invisível e impessoal, já que suas relações sujas com a política são embaçadas ou mesmo apagadas. A partir daí, toda a corrupção e os males políticos são depositados exclusivamente nos políticos e, em especial, nos políticos “populistas” e, em especial, no setor público.

Isto não quer dizer que o principal opositor do imaginário paulista, Getúlio Vargas (ou mesmo Juan Perón, na Argentina), não tenha incorrido em demagogias nas disputas políticas e em muitos momentos de seus governos, mas isso não pode significar aceitar o rótulo estigmatizante de “populista” para quem realizou ou pretende realizar ações concretas de melhorias na vida do povo trabalhador utilizando-se do Estado.


A bagunça consentida do regime político brasileiro

O imaginário paulista condena qualquer tipo de “ditadura” para poder sustentar que a democracia liberal é a única possível e, inclusive, que o que existe no Brasil se trata justamente de uma “democracia” (mesmo que opere como uma ditadura econômica de uma minoria sobre a maioria).

O regime político brasileiro, cuja expressão maior é o Congresso Nacional, é funcional para o setor privado (portanto, para o mercado); e disfuncional para o povo e para o país. Ele legaliza e tolera oposições parlamentares desonestas e criminosas, que exageram, blefam e sabotam contra a própria soberania do país em plena luz do dia. Parte fundamental deste sistema está fora da política institucional, situando-se na grande mídia, que opera de forma impessoal e supostamente “imparcial”, podendo exagerar, distorcer e sabotar qualquer medida popular que julgar uma ameaça aos interesses do mercado (leia-se, do setor privado) e aliando-se formal ou informalmente à “oposições políticas” dentro das instituições.

Ao dissociar sutilmente os piores escândalos de corrupção dos profundos interesses econômicos do setor privado e do “livre mercado”, a grande imprensa brasileira vende o mal feito por ela mesma e por seus aliados mercadológicos como culpa exclusiva da “corrupção” de políticos. Isso se dá assim desde o segundo governo de Vargas até os dias atuais.

É evidente que há corrupção na política e no sistema institucional brasileiro. Porém, grande parte dos agentes corruptores estão no setor privado e no mercado, dentre os quais, a própria mídia, que nunca aparecem porque são vendidos como “neutros” e inocentes. 

Assim, o regime brasileiro atual permite uma fabulosa engenharia política: a grande mídia e o setor privado, comandado pelas “forças de mercado”, podem operar livremente, de forma quase invisível, deixando o ônus do desgaste e dos ataques exclusivamente para a política partidária e as instituições. Quem ousa questionar a estrutura de funcionamento do sistema já é previamente tachado de “ditador”.

A bagunça de corrupção, alianças bizarras em nome da “governabilidade”, a permissão de livre funcionamento para oposições e uma imprensa desonesta e criminosa, só podem beneficiar a invisibilidade da sabotagem das “forças do mercado”, que tudo roubam, tudo distorcem, cometendo verdadeiros crimes que vão muito além da corrupção (calúnia, difamação, distorção grosseira da realidade, entreguismo, enriquecimento ilícito, assassinatos, etc.), mas sempre saem ilesas porque a engenharia política faz com que passem despercebidas, sem rosto e, sobretudo, sem coração.

Um parlamento que funciona com pautas bombas sempre que a oposição desejar, com permanentes incitações de ódio e polarização política (desde Vargas e Jango até hoje), seja por parte das “oposições parlamentares” ou pela cobertura “jornalística” da grande mídia, geram inevitavelmente desconfiança e descrença política em quem assiste, mas quase nunca se traduzem em ação concreta, porque existem mecanismos de contenção da indignação na própria mídia (discursos e ideologias), com panos quentes de que “nas próximas eleições será diferente”. Assim, a indignação é direcionada para onde interessa aos poderosos. Isso tudo é reforçado pelos tribunais e polícias, que toleram crimes de colarinho branco e ameaçam reprimir quem se rebelar; e pela própria inoperância da “esquerda” e dos seus sindicatos, que não denunciam este operativo e sequer o reconhecem, deixando a luta popular orbitando acriticamente uma estrutura institucional que tolera reclamações sem fim, desde que não se questionem, nem se toquem nos seus pontos chaves.


Vargas e o fechamento do Congresso Nacional: as ditaduras são todas iguais?

A acusação de ditador contra Vargas vem, dentre outras ações — corretas e incorretas —, do fechamento do Congresso Nacional. O debate contemporâneo ignora o fato de que a maior parte das “repúblicas” mundo afora, desde a Roma Antiga, previam mecanismos de ditadura para “colocar ordem na casa” sempre que fosse necessário. Por certo, tal mecanismo é um perigo, dado que a tentação de manter o poder nas mãos do ditador sempre é grande, mas frente a “oposições” sabotadoras, significa uma espécie de remédio disciplinador.

Ainda que pareça contraditório, a noção de “democracia” surgiu no mundo ocidental prenunciada por governos tirânicos que cumpriram uma função de transição. Aristóteles disse que a maioria dos tiranos gregos alcançaram suas posições aliando-se ao povo contra os nobres ricos. Ao forçar uma brecha no governo da aristocracia, permitiu às demais classes consolidar novas forças que posteriormente derrubariam a própria tirania. Isso não ficou restrito à história grega, mas também estendeu-se à romana.

Evidentemente que, para enfrentar as sabotagens “democráticas” de oposições desonestas, não se pode contar com uma ditadura aos moldes do absolutismo monárquico ou dos governos militares latino-americanos do final do século XX, cujo objetivo central sempre foi preservar os privilégios das classes dominantes, mas de uma ditadura disciplinadora, cujos interesses estejam ligados ao povo — seguindo as sugestões marxistas. Uma vez que o poder econômico tende a se tornar incontrolável, nos “parlamentos livres” ele compra deputados, juízes, meios de comunicação e, a partir daí, sabota e direciona o poder político como bem entender, mesmo nas “maiores democracias” do mundo, como EUA e Inglaterra.

Se observarmos a História do Brasil, perceberemos que desde a época de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto — que inauguraram o período republicano do país fechando o Congresso Nacional por considerá-lo “anárquico” — indo até o período de Vargas, o parlamento brasileiro tem sido a expressão do poderio econômico empacando qualquer demanda autenticamente popular. Ainda hoje o Congresso Nacional é um palanque “anárquico” onde imperam interesses não só conflitantes e paralisadores, mas também interesses lesa-pátria. Como tolerá-los sem sabotar o próprio desenvolvimento do país?

Basta ver a bancada da bala, do boi e da Bíblia, que se utilizam dos mecanismos “democráticos” do parlamento para camuflar e esconder o seu entreguismo e as suas ligações mais escusas com o mercado e o setor privado, drenando recursos que poderiam desenvolver o país e aplacar o desespero do povo. Mas simplesmente propor usar os recursos públicos para o desenvolvimento do país e melhorar a condição de vida do povo, como foi dito, é visto como “populismo”.

Como, então, enfrentar uma elite autoritária, que vem da tradição repressiva social de esquartejamento, herdada do império português, sem medidas decididamente duras, que são associadas à “ditadura” pelo setor privado e pelas “forças do mercado”? A sua noção de “democracia” não tem sido, justamente, este ajuntamento “anárquico” e sabotador que se perpetua no Congresso Nacional, vendendo a defesa do país como a defesa dos lucros do mercado internacional e do sistema financeiro? Ou seja, a defesa dos mesmos interesses que comprometem o orçamento público federal e condenam a maior parte do povo do país à miséria?

Em síntese: como classificar como “democrático” um regime parlamentar e “oposições” que mentem, sabotam, intimidam, matam e “esquartejam”, controlando repartições públicas, a mídia e a justiça sem, apelar para um regime de força? A condição para o desenvolvimento e estabilidade econômica do Brasil não estaria senão no fechamento do Congresso Nacional ou, pelo menos, na proibição de determinados tipos de “oposições parlamentares”?

Certamente encontraremos as raízes do atual Congresso Nacional no “parlamentarismo às avessas” do período imperial, que sustentava ações “para inglês ver” e discursos “liberais” e “democráticos” que relativizavam e conviviam com a escravidão africana na prática. Na medida que a “democracia” e os parlamentos se consolidam em diversos países do mundo, a mentira, a sabotagem e os crimes das “oposições” parlamentares, casadas com o tipo de cobertura “jornalística” da grande mídia, transformam-se na própria forma de funcionamento deste regime político-institucional, sem o qual, o sistema emperraria.

Para operar de forma tão nefasta, ele tolera e incentiva reclamações e gritos de ódio contra a política, os governos e os partidos, tornando toda essa energia uma reles fachada de protesto popular, quase uma tradição inócua de nosso país. Ao não levar em consideração a psicologia de massas, as organizações militantes da esquerda “revolucionária” não percebem (ou não querem perceber) que toda essa indignação não passa de uma catarse muito bem controlada — uma autêntica válvula de escape para canalizar a revolta —, terminando por se empolgar nas análises e caracterizações, dando os prognósticos mais confirmadores de sua política e programa “revolucionário” ou, então, caindo no desânimo mais profundo (aqui poderia ser feito um paralelo sobre as diversas caracterizações acerca do voto nulo baseado nesta “indignação”).

O grande dilema continua sendo como entender o que se passa na psicologia das massas e como ir além desta simples catarse…? O neofascismo de Trump, Bolsonaro e Milei já percebeu que é possível se apropriar dela e direcioná-la; fato que a esquerda não consegue impedir ou repetir. Entender o mecanismo disso tudo é uma das principais tarefas dos trabalhadores conscientes neste momento. 

O povo como torcida organizada seduzido permanentemente pelo utilitarismo do dia a dia

Na lógica de funcionamento do regime político brasileiro muitas das reações populares são testadas e, parte delas, já esperadas. O povo é levado a uma indignação seletiva pela cobertura jornalística, pela forma de se “fazer política” e, ao mesmo tempo, à apatia, pela própria mídia, amparada pela indústria cultural, esportiva, além da religião organizada e, sobretudo, pelo utilitarismo consumista, que sempre cria novas necessidades sedutoras (incluso a indústria farmacêutica e depressiva).

A grande mídia cria um vilão — geralmente equivocado ou exagerado —, onde deposita todo o mal, tornando-o um bode expiatório permanente e vivendo em cima desses factóides para esconder ou minimizar o funcionamento das estruturas econômicas e políticas. Sem muitas dificuldades o povo tem comprado os engodos. Os “especialistas” criam consensos, incitam ou amenizam os fatos de acordo com os seus interesses políticos e econômicos ocultos atrás da “imparcialidade”.

Tudo isso é complementado por seduções permanentes feitas através da propaganda, da moda, das novelas, do futebol, das igrejas; e da tentação permanente de enriquecimento fácil, seja pela loteria, pelas bets ou qualquer outra forma funcional ao sistema. Em função de suas muitas necessidades pessoais diárias, que não podem ser solucionadas pelo capitalismo, sem muitas dificuldades se desenvolve um utilitarismo selvagem nas pessoas do povo, refletindo-se, desde cedo, em alunos da sexta série do ensino fundamental; sem falar que o próprio sistema educacional é levado a reforçar esta lógica de funcionamento, de “ser alguém na vida”, confundida exclusivamente com ter posição social, propriedades e dinheiro. A partir daí, o nível de “verdade”, de debate político e de realidade que o povo é capaz de tolerar torna-se muito baixo.

Os sindicatos, totalmente domesticados, e os movimentos sociais e partidos de “esquerda”, por sua vez, não questionam esse funcionamento, principalmente porque fazem uma agitação em que todo o mal está fora da classe trabalhadora, reproduzindo que tudo está nos políticos, nos partidos e nas “direções traidoras”, o que entra como um elo reforçando a catarse geral. Nenhuma pontinha estaria nos próprios trabalhadores, que quando agem mal é porque são simplesmente “alienados”. O medo de perder votos e influência leva a “esquerda”, portanto, a simplificar a realidade e a renunciar a uma parte importante do seu trabalho de base, que é chacoalhar os trabalhadores para que, além de perceberem as contradições da sociedade capitalista, percebam também as suas próprias (fato que quase ninguém se dispõe), já que uma é continuidade da outra, mesmo que em níveis e intensidades diferentes.

Parte das próprias contradições dos trabalhadores está no seu utilitarismo do dia a dia. Sabemos que a classe trabalhadora passa todo o tipo de necessidades se comparado aos políticos e a classe dominante do país. Mas a esquerda erra quando é condescendente e tolerante com estes desvios, o que só pode reforçar o próprio apreço dos trabalhadores pelo funcionamento do sistema capitalista e das suas instituições políticas, que vendem mais utilitarismos para tentar saciar os antigos. O enriquecimento dos de cima torna-se sofrimento e desespero nos debaixo, que passam a buscar meios de vida de qualquer jeito, ficando reféns do utilitarismo e passando a disseminá-lo também.

Ao entrar na guerra utilitária de todos contra todos no dia a dia, valores fundamentais se perdem, aprofundando as desigualdades sociais e a própria descrença na política e no ser-humano. Assim, o falso discurso moralizador da grande mídia e de muitos políticos — estes sim, a encarnação do populismo, dado que só prometem e não deixam nada — reforça o direcionamento contra inimigos irreais ou exagerados para que o todo siga funcionando normalmente. Pressões geralmente sutis são feitas para direcionar a política econômica dos governos, visando aliviar ou apertar, sempre que uma engrenagem essencial do sistema é ameaçada.

O povo, seduzido pelo utilitarismo que culmina num culto egocêntrico, busca minimizar seus sofrimentos nos prazeres compensatórios da “indústria noturna” da festa, do carnaval e, em última instância, da alienação em geral (seja ela qual for), reforçando a falta de memória ou a tornando seletiva de acordo com aqueles que são tolerantes e podem patrocinar seus “pequenos prazeres” (o que inclui o sadomasoquismo). Assim, é facilmente manipulável no seu ódio, nas suas taras e manias, transformando a gritaria contra os políticos numa catarse inócua; quase que num esporte nacional sem nenhuma consequência real, ao mesmo tempo que sai com uma obediência canina para votar em quem odiava ontem ou, até mesmo, para fazer campanha eleitoral de forma acrítica e rebaixada em troco de algum vintém ou de uma falsa promessa com retorno utilitário.

O xingamento contra os políticos geralmente vê o problema fora de si mesmo — por exemplo: não nota a sua falta de mobilização, seu voto em partidos da ordem e falta de criticidade como parte do problema. Assim, uma energia preciosa é direcionada para fazer o próprio sistema funcionar, dando-lhe uma aparência de “democracia”, já que o povo xinga permanentemente os políticos e os partidos, vendo nisso parte de “liberdades democráticas”, quando não passa de uma válvula de escape que direciona e ajuda a engrenagem a funcionar, garantindo o entreguismo e enviando importantes recursos para fora do Brasil a troco de nada. 

As explosões de ódio tornam-se permanentes em um país cheio de violências, mas nunca direcionadas ao verdadeiro inimigo. Elas torram tempo e energia no trânsito, nas brigas de família, contra os vizinhos, nas comunidades, na fofoquinha ou na agressão e até mesmo transformam-se em assassinatos por desentendimentos banais.

Toda essa fúria — seja contra os políticos ou as mal direcionadas por entre o povo — não tem chegado nem perto de uma transformação popular, tal como já vimos ao longo da história, no sentido de permitir o início da criação de um partido revolucionário ou de uma situação revolucionária. Ao contrário. A indignação facilmente se converte na defesa dos ricos e poderosos de cima (ou, então, é restrita, também utilitariamente, aos governos petistas), terminando por se consumir em prostração, desencanto e depressão em massa que é anestesiada com remédio de tarja preta para que o ciclo siga seu curso.

Os políticos das oposições parlamentares mais corruptas e mafiosas dão exemplos concretos de falta de ética e decoro nas mais simples e singelas declarações (basta ver a bancada ruralista). A sua falta de escrúpulos é uma escola que “educa” centenas de milhares de seguidores que passam a repetir seus métodos truculentos, vistos como naturais e necessários para enriquecer, sem, no entanto, suspeitar que enquanto estes lucram milhões, o seu ódio e a sua falta de escrúpulos contra a política e o país é funcional ao sistema, servindo de catarse contra si mesmo.

Influencers, “bagunça política” e autodepreciação

Se tornou comum ouvir xingamentos à “burrice política” e “má educação” do povo brasileiro. Desde alunos da educação básica, até adultos nas ruas, chegando aos influencers das redes sociais.

Os vários youtubers e influencers que reforçam a autodepreciação do povo brasileiro contra a política, os governos e contra si mesmo, sem buscar as raízes destes problemas, são financiado pelos grandes empresários escondidos por detrás das “oposições parlamentares” inconsequentes ou, então, nas “forças do mercado”. Eles consideram que o povo “é burro”, “manipulado e incurável” (alguns militantes também acham e espalham isso, mas, geralmente, por desespero), sempre diminuindo ou escondendo o problema da concentração de renda, que é estrutural, cuja raiz está no funcionamento do sistema capitalista. 

Da mesma forma, os influencers empresários, que fazem uma novela em torno da “absurda cobrança de impostos” (que geralmente eles sonegam), nunca apresentam um projeto de país justamente porque não se preocupam e não querem um país melhor, dado que a sua riqueza provém justamente desta estrutura de atraso. Por isso, só podem falar de “impostos abusivos”.

Seu projeto, portanto, é precisamente lucrar o máximo que puder e não deixar nenhum fundo para que o país possa se desenvolver, nem trabalhar para que estes fundos sejam realmente usados para isso, combatendo, por exemplo, a roubalheira dos juros da dívida “pública”, nunca auditada. Só reclamam de que tudo se perde na “corrupção”, mas nunca ajudam a combatê-la porque são parte não declarada dela. O mesmo discurso é reproduzido estupidamente por grande parte do povo que não chega a ter nem 1% de sua fortuna.

As oposições parlamentares e políticas que praticam uma oposição criminosa sabotam o debate nacional, além da grande mídia que faz uma cobertura “jornalística” centrada em escândalos, mas nunca nas causas de tanta repetição de tais escândalos, geram uma autodepreciação sadomasoquista que não temos conseguido romper (a própria “esquerda” termina por morder essas iscas e ajudar na autoprisão). Odiando a política, o regime, o presidente e tudo o mais, sem nos mobilizarmos para mudar esse quadro de coisas (como tem sido a “regra”), terminamos inevitavelmente por odiar o próprio país, vendo-se sem perspectiva de mudança pra melhor (como “uma merda”, na linguagem dos alunos da educação básica). 

Se achamos que nosso país “é uma merda”, então não vamos nos opor nem resistir a sua espoliação; sobretudo contra aqueles que o querem vender a troco de nada. Se depreciamos o país quase que diariamente sem pensar no porquê disso tudo, então passamos a nos depreciar também, já que não vivemos no vácuo. A sensação de impotência geral só aumenta — e a quem pode beneficiar uma sensação generalizada de impotência entre os brasileiros?

***

A sociedade Ocidental mantém o centro no ego. Tudo gira em torno dele: propaganda, cobiça, desejo, etc. Ele é o fio condutor pelo qual nos são lançadas inúmeras iscas e, quase sem exceção, somos fisgados. 

Frente a isso, é necessário mecanismos de compensações psicológicas que precisamos urgentemente compreender. Parte dele está nos xingamentos contra políticos, partidos e governos que não resultam nem em mudanças pessoais, nem em mudanças sociais, mas em violência entre nós mesmos; trabalhador contra trabalhador; irmão contra irmão; latino-americano contra latino-americano; brasileiro contra brasileiro.

A atual fase de desenvolvimento do capitalismo imperialista, sob comando da decadente oligarquia estadunidense, há um enorme peso na manipulação psicossocial que não deveria ser menosprezada por parte da esquerda. Desde as revoluções coloridas, até a intervenção midiática, de ONGs, de think tanks, até a manipulação das redes sociais e à ascensão do neofascismo, que temos visto a mudança de correlação de forças internas nos mais distintos países.

O Brasil não foi exceção.

Junto com a lavagem cerebral, há a criação de uma narrativa que conforte consciências culpadas nos mais distintos níveis, além de um aparato econômico que injeta “ânimo” a partir do mais nefasto utilitarismo e pragmatismo financeiro, tecnológico e pessoal — até mesmo muitos ativistas socialistas compram este “pacote completo”.

Seria de muito bom tom, portanto, que a esquerda parasse de romantizar (ou, pior ainda, de se aproveitar de) certas posturas equivocadas do povo e passasse a olhar a realidade de frente, por mais amarga que seja. É o primeiro passo para tentar mudá-la para melhor.


Sugestões de leitura com afinidades de conteúdo:
> Os limites do poder 
> As fontes materiais e ideológicas do capitalismo distópico
> O irracionalismo das massas
> O espírito de rebanho: um problema candente a ser enfrentado pelo movimento socialista
> O que é o bolsonarismo?
> Bolsonaro e o apoio do povo
> O conservadorismo das massas
> Bolsonarismo e peste emocional 
> São Paulo: locomotiva puxando vagões vazios ou economia autônoma que se desenvolve às custas do atraso do resto do país?
> A ideologia do livre mercado 
> Como a ideologia de livre mercado derrota a esquerda? 
> Budismo, taoísmo e socialismo

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Como a grande mídia disfarça seu direcionamento político através do discurso de “polarização política”


O "corvo", Carlos Lacerda, da UDN, é o padroeiro da grande mídia brasileira,
arquitetando e amparando golpes políticos e militares desde 1950

O debate político no Brasil sempre foi “polarizado”.

Alguns analistas das grandes emissoras e as suas “reportagens imparciais” fingem preocupação com relação à polarização entre petismo e bolsonarismo, mas isso não é nenhuma novidade.

Toda a forma de fazer política neste país leva à isso, direta ou indiretamente, inclusive a própria cobertura “jornalística” da grande mídia.

Desde os tempos da UDN — criada com o apoio dos EUA para combater o getulismo, passando pelo período da ditadura militar e chegando à República atual, onde o eixo torna-se a disputa entre o petismo e os governos de direita, cujo ápice se deu com o surgimento do bolsonarismo — podemos perceber que os distintos níveis de polarização fazem parte da situação política no Brasil, muito além da “preocupação” da grande mídia.

A pergunta central nunca feita pelos brilhantes analistas políticos do “jornalismo” brasileiro é: quem polariza o debate e por quê?

O principal promotor de “polarização” é a elite do país; isto é, a sua burguesia agro-exportadora e financeira, dependente do mercado mundial, dos dólares norte-americanos e das garantias representadas pelo Estado brasileiro como fiador providencial. Ela resistiu e sempre resistirá a qualquer mudança social que coloque seus interesses em risco ou que sequer os questione (mesmo que timidamente, como faz o petismo). Sempre apoia os planos do imperialismo para o nosso subcontinente justamente porque seus rendimentos provém desta fonte espúria. Parte fundamental dos seus planos está na utilização da indústria cultural para polarizar politicamente a realidade interna dos países latino-americanos, tornando o debate público refém dos mesmos discursos e interesses de sempre — dos EUA e de seus sócios menores em cada país.

Estes interesses se expressam, sobretudo, em oposições políticas e parlamentares profundamente desonestas (que transparecem também no tipo de “jornalismo” da grande mídia, que os amplifica e lhes dá um ar de naturalidade e imparcialidade). Tais oposições e sua grande mídia usam e abusam da retórica sobre “verdade”, “liberdade”, “combate à corrupção”, “interesses do povo brasileiro”, que serve apenas para camuflar uma prática entreguista e anti-patriótica. 

Ao polarizar o debate nacional, elas mantêm a discussão e mesmo as ações dos governos petistas restritos aos limites toleráveis ao mercado e ao sistema, o que impede mudanças profundas e estruturais que enfrentem realmente a espoliação do povo e do país, deixando que o governo cave a própria cova do seu inevitável desgaste político.

O “jornalismo” da grande mídia, por sua vez, ecoando esta estratégia geral, não deixa o debate sair de certos limites, reforçando a falta de memória do povo e alimentando determinadas pautas secundárias quando lhe convém. Ele faz o debate público andar em círculos, nunca indo além das pesquisas eleitorais e dos escândalos de corrupção, sem jamais deixar que se aprofunde a compreensão popular. O discurso político da “polarização” é parte desta estratégia de cansaço que joga as pessoas comuns para longe da política, tapando-as de nojo; sem falar nos elementos secundários que também o alimentam, como as igrejas evangélicas, os campeonatos esportivos, as loterias, as novelas e tudo aquilo que renova diariamente as esperanças de que “agora será diferente”.

Dentro da lógica de “polarização” surgem as tentativas de se vender o falso-novo, como as supostas terceiras vias que apenas reforçam as resistências da velha elite do país em impedir qualquer mudança estrutural. Para comprovar, basta remontar a história do país indo do bolsonarismo até a máfia da UDN e UDR nas décadas de 1950-1960.

Ao tratar o regime político “democrático” com auras de santidade, a grande mídia esconde, apaga, deixa arrefecer os descontentamentos e enaltece a falsa “renovação” eleitoral (não sem a ajuda da esquerda reformista). Fecha os olhos para as maiores distorções feitas pelas oposições parlamentares e pelo “jornalismo”, que, a bem da verdade, são autênticos crimes (sem falar nos praticados pelas ONGs e “associações” patrocinadas nem tão ocultamente pelo imperialismo). 

Neste percurso bizarro, também contam com a complacência direta ou indireta da justiça burguesa. Sem este tipo de funcionamento, a ascensão do bolsonarismo no país e do neofascismo na América Latina e no mundo seria impossível. A estratégia do imperialismo estadunidense conta com toda esta engenharia política, além das instituições “democráticas” oficiais que fingem que não enxergam.


E o petismo? Não foi quem mais contribuiu com a “polarização” quando era oposição?

A grande mídia e as oposições políticas por décadas sustentaram que a única fonte de “polarização” era o petismo. Segundo sua propaganda, se este partido não existisse a sociedade brasileira viveria em paz.

No entanto, a “polarização” política não surge meramente de partidos, discursos parlamentares ou da grande mídia, mas da estrutura absurdamente desigual de nossa sociedade entre os muito ricos e os milhões de miseráveis. Surge, sobretudo, da resistência dos mais ricos à qualquer tipo de mudança estrutural.

Por mais “radicais” que tenham sido os discursos petistas nas décadas de 1980-1990, eles partiam de problemas concretos: desemprego, desigualdade, fome, etc. Teoricamente, o petismo se propunha a enfrentá-las. No entanto, não resolveram nenhum problema estrutural porque, desde Vargas, apostam principalmente na conciliação de classes, gerando um círculo vicioso que só deixa transparecer a própria “polarização”, propositalmente exagerada, de um lado ou de outro, e tendo suas origens escondidas e apagadas.

Certamente que a “polarização” necessita de dois lados para existir, porém, ela sempre tem maior peso e responsabilidade no polo mais forte; isto é, no lado da burguesia, da elite nacional e da oligarquia imperialista, que se esforçam por todos os meios desonestos e sabotadores para manter a hegemonia cultural, o poder e, consequentemente, os seus privilégios, contra atacando qualquer proposta ou discurso de mudança.

A história brasileira atesta que tanto Vargas quanto o PT sempre tentaram construir governos de “conciliação e união nacional”, incluindo um amplo leque de partidos, alguns até mesmo do campo da oposição mais desonesta e sabotadora. Vargas chegou ao ponto de abrigar membros da UDN em seu “governo democrático” (1950-1954) justificando-se com subterfúgios do tipo: “os meus compromissos com o povo superam os meus compromissos partidários”.

O petismo age tal e qual, praticamente repetindo a prática varguista. Basta ver o atual vice de Lula e a composição do petismo com União Brasil e PP, que só anunciaram a saída do governo em fins de 2025; além de unidades eleitorais com o PL em distintos municípios brasileiros. Enquanto Vargas e Lula esforçam-se por criar a “conciliação nacional”, evitando polarizações e tentando pacificar a governabilidade do país, são quase sempre as legendas de aluguel da burguesia e a cobertura “jornalística imparcial” que alimentam e incentivam sem dó nem piedade a polarização política. Ao contrário do varguismo e do petismo, estes setores nunca negociam o que pressentem que lhes é essencial.

Ao contrário!

As classes dominantes usam a mídia, a justiça, a tradição, a força policial e militar, além das ameaças e os terrorismos de estado, de desemprego, de desabastecimento de mercados, até as mentiras mais escandalosas, contando com a certeza da impunidade por todos estes crimes e justificando-se através de discursos “éticos” sobre “liberdade de expressão” e “democracia”.

Usam e abusam, também, da ingenuidade e da malícia do povo (ou de pelo menos, de grande parte dele), alimentando-as. Se aproveitam dos seus maus instintos e depois se vendem como os titãs da virtude, da “verdade”, da “liberdade” e da “democracia”. Para isso, contam com a amnésia do povo, que é seletiva e cultivada cuidadosamente pela grande mídia, pelas igrejas e pela estrutura oficial.

Portanto, quem condena a “polarização” do debate político do Brasil e não reconhece todos esses pequenos “detalhes”, só pode estar querendo esconder a origem e o combustível da própria polarização, apostando na sua eterna continuidade no cenário político nacional e continental, dado que essa situação beneficia infinitamente e garante a “justificativa” para todo o tipo de manobra e sabotagem política, institucional e militar para as classes dominantes.


Sugestões de leitura com afinidades de conteúdo:
> Bolsonaro X Lula
> O “grupo terrorista” Hamas e a mídia mercenária Rede Globo
> Os meios de alienação em massas

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Os EUA foram derrotados no Irã?

Grande parte das organizações de esquerda e muitos analistas geopolíticos divulgam a ideia de que os EUA perderam a guerra contra o Irã. 

Eles se baseiam nas posições contraditórias e, por vezes, “pedindo penico”, de Donald Trump nas suas redes sociais e na grande mídia. No entanto, é válido lembrar que as declarações contraditórias de Trump fazem parte da sua hipnose e enganação a nível da psicologia de massas. Para isso ele é muito bem assessorado.

A interpretação excessivamente otimista dos referidos setores se baseia no pequeno atrito ocorrido entre os EUA e Israel, sobretudo no que diz respeito à continuidade da guerra no Líbano com a tradicional desculpa, amplamente apoiada pela grande mídia comercial, de combater “grupos terroristas”. Antes era a tecla do “grupo terrorista Hamas”; agora é a vez do “grupo extremista Hezbollah”. Alguns grupos de esquerda chegam a afirmar que este triunfo vai além do Irã, sendo uma vitória para todos os povos oprimidos do Oriente Médio e do mundo.

Mas será mesmo que os EUA perderam a guerra?

Como um império em decadência histórica, a estratégia geopolítica do neofascismo não parece se restringir ao cálculo de vitória ou derrota no campo de batalha. Manter o cerco à Rússia e a cisão no Oriente Médio, para que a Eurásia não se consolide sob a união China-Rússia e não possa desenvolver-se pacificamente, parece ser o centro da estratégia estadunidense. E, nesse sentido, o caos regional de guerras eternas de divisão e sabotagem, mesmo que com eventuais derrotas, é uma boa pedida. O Irã é um eixo geopolítico que confere estabilidade ao eixo de desenvolvimento de Rússia e China.

O imperialismo estadunidense vive de colocar lenha na fogueira de pequenas disputas regionais, o que lhe confere o poder de configurar mais ou menos como deseja o tabuleiro geopolítico mundial. O caos regionalizado lhe beneficia.

Além do mais, há os interesses do complexo industrial-militar dos EUA, que lucra trilhões com guerras permanentes, ajudando a manter os índices econômicos do imperialismo ianque em lenta bancarrota. Por fim, retarda-se a queda do petrodólar e ainda ajuda-se a especular com o valor do barril do petróleo e com a própria indústria petrolífera, que se mantém como fonte de energia central da economia ianque.

Tão rápido quanto foi costurado o suposto “acordo de paz”, Trump anuncia no dia 8 de julho que “não vê mais motivo para continuar diálogo com Teerã”, autorizando novos “ataques pesados” ao Irã.

Assim, pode-se ver que a estratégia dos mentores neofascistas é muito mais sádica e cruel do que supõe a comemoração ingênua e esperançosa de boa parte das organizações de esquerda e dos “analistas independentes”.



Sugestões de leitura com afinidades de conteúdo:
> A guerra contra o Irã e a decadência do imperialismo estadunidense
> O “grupo terrorista” Hamas e a mídia mercenária Rede Globo

sábado, 13 de junho de 2026

Voto no PT: redenção ou pecado?



Curtindo a serrinha na segunda-feira
Enchi minha cara de cachaça
Mas fiquei contrariado, cumpadre
Não encontrei o restante da massa
(do samba: “Prazer da serrinha”)

As eleições brasileiras se aproximam em uma conjuntura marcada pela decadência dos EUA, com ameaça de guerras internacionais e um projeto sinistro de recolonização da América Latina por parte do imperialismo estadunidense a partir de um discurso de combate ao “narcoterrorismo” de facções criminosas brasileiras e latino-americanas.

Ao invés de repetirmos as velhas fórmulas, seria mais importante redimensionar a nossa reflexão. Os debates eleitorais e suas respectivas acusações se repetem tanto porque tem faltado o ator principal: o movimento de massas. Sem ele, ficamos refém do calendário eleitoral e dos aparatos políticos (sejam eles legendas ou sindicatos) que geram forças gravitacionais que são impossíveis de ignorar se pretendemos ter uma política com base na realidade.

A visível decadência dos EUA frente a ascensão mundial da China, leva o imperialismo estadunidense a uma ofensiva caótica em diversas frentes. Mesmo sendo ameaçado de derrota militar no Irã, aos EUA interessa gerar o caos geopolítico em algumas regiões, enquanto em outras toma a ofensiva direta, como no caso da América Latina (Venezuela, Cuba; intervenção e financiamento de eleições presidenciais em distintos países do continente).

Enquanto vemos o dólar ser questionado como a moeda hegemônica, China e Rússia reafirmam sua aliança estratégica visando neutralizar a ofensiva norte-americana. Quanto mais perde terreno na Eurásia, mais o imperialismo ianque procura retomar o terreno ameaçado pela crescente influência chinesa na América Latina e na Europa.

É neste contexto mundial que as eleições brasileiras serão realizadas.

A melhor denúncia ou propaganda “revolucionária” não encontra penetração na grande massa, nem aumenta a expressão numérica das organizações socialistas. E isso vem ocorrendo há décadas. Certamente pesa o fato da propaganda ideológica feita 24h por mídias nacionais, internacionais e universitárias contra o “comunismo” pós restauração do capitalismo, além do oportunismo dos partidos e sindicatos de massas. Mas isso não explica tudo.

O único caso de aumento significativo de influência sobre a massa nas últimas décadas foi o próprio PT, às custas, como sabemos, de uma adaptação ao regime democrático-burguês que lhe amarra as mãos e os pés — e frente o crescimento da direita neofascista, criada e tolerada pelo próprio sistema.

É com estas ilusões que precisamos debater não apenas uma política eleitoral dentro deste contexto nacional e internacional complexo, mas a própria renovação da atuação teórica e prática das organizações de esquerda.

O problema, contudo, é que vivemos em uma permanente Torre de Babel, num diálogo de surdos egocêntrico onde imperam fórmulas políticas que beiram o dogmatismo religioso, seja do lado “moderado”, seja do lado “radical”.


Eleições burguesas: sempre uma guerra do fim do mundo entre as esquerdas

Não há dúvidas de que a eleição da direita bolsonarista é um problema sério, com consequências catastróficas para a classe trabalhadora do Brasil e da América Latina. Significa não apenas a submissão neocolonial completa do Brasil ao imperialismo estadunidense, como um respiro para a sua decadência histórica às custas dos nossos recursos naturais e da exploração do nosso povo. O engodo da vez é o “combate ao narcoterrorismo”, que vem sendo trabalhado diariamente por boa parte da grande mídia.

A militância petista, no entanto, transforma qualquer crítica ao PT numa heresia, deixando Lula numa posição de “grande líder inquestionável”, o que entra como elo na manutenção desta gangorra dentro do sistema capitalista brasileiro. Para esta militância, Lula tem um “cheque em branco” para fazer o que bem entender: alianças, rebaixamento de programas e discursos, contorcionismos teóricos e discursivos. Tudo está perdoado de antemão e quem critica ou vota diferente deve ser excomungado porque “apoia a direita”.

Se por um lado votar no PT “evita a vitória da direita”, por outro, condena o futuro governo de “esquerda” a uma margem de manobra muito restrita para qualquer mudança real, pois o deixa semi-petrificado em razão do leque de alianças em nome da “governabilidade”. O que fazer durante o mandato de Lula para ir além? Sobre isso não falam uma palavra, nem se preocupam com este tipo de questionamento.

No outro extremo, temos a esquerda “revolucionária”, que condena o voto no PT como um pecado oportunista, independentemente de qualquer justificativa ou atuação prática de quem o faz. Contudo, a questão fundamental não debatida por este setor é o grande ausente: o movimento de massas!

A classe trabalhadora não tem se mobilizado a ponto de oferecer uma perspectiva diferente de luta, infelizmente. Nem mesmo ocorre aqui as mobilizações que acontecem atualmente na Bolívia. É triste constatar isso, mas é necessário se não queremos perder o contato com a realidade.

O problema é complexo e vai muito além do desgaste proporcionado pelo PT, dado que a massa trabalhadora tem sido impenetrável à propaganda revolucionária, por menor que seja — e no Brasil, a despeito dos modestos recursos das organizações da esquerda revolucionária, existem agitações e propagandas feitas em distintos níveis e locais, mas que não obtém o mesmo resultado das agitações da direita neofascista e evangélica. Portanto, quando falamos de mobilização, a massa tem oscilado apenas entre a extrema direita e o petismo.

Para “punir o PT”, a massa trabalhadora tem ido à direita (ou parte dela fica no lugar de onde nunca saiu, no campo conservador). Acredita apenas no “antissistema” de direita, enquanto que os inúmeros antissistemas de esquerda sequer a conseguem sensibilizar. Um dos motivos da insensibilidade da massa para com a esquerda “revolucionária” é a sua propaganda abstrata e descolada da realidade, repleta de números e dados racionalmente “perfeitos”, mas tendo pouco apelo com o que de fato se passa ao seu redor; além do desprezo ao debate da psicologia de massas.

Pesa também a propaganda reacionária contra o socialismo e o “comunismo” como resultado dos anos de “restauração do capitalismo” na ex-URSS, ao qual esta esquerda também não soube e não sabe responder a altura, de forma criativa, aprofundando-se na abstração e no doutrinarismo.

Ela tenta aplicar no Brasil a receita soviética, tal e qual, sem compreender as características próprias do país, do seu povo, da sua cultura, das suas ilusões, desconsiderando totalmente o novo debate posto a partir da ascensão mundial da China, que venceu parcialmente o capitalismo neoliberal dos EUA no campo da eficiência tecnológica e nas próprias leis de mercado. Além disso, há no nosso país uma forte herança colonial, que faz com que o povo, para ganhar a vida, desenvolva uma mentalidade utilitarista que se submete consciente ou inconscientemente ao explorador. o Brasil foi construído a partir de um estrutura de fora para dentro, repleto de mecanismos institucionais que impõem a chantagem da governabilidade, com possibilidades reais de sabotagem e paralisia. Somente o apoio organizado da maioria do povo em forma “ditatorial” pode possibilitar um enfrentamento à elite nacional, que não tolera oposições estruturais.

Estamos perto disso?

Nenhum pouco!

Se por um lado sabemos que se depender do petismo isso nunca acontecerá, dado o seu culto à democracia [neo]liberal burguesa; por outro, estamos muito distantes disso porque grande parte do povo trabalhador se divide entre apoiar o reformismo petista ou o “conservadorismo” bolsonarista. Não há nenhuma tendência atual que possa servir de ponto de apoio para uma política revolucionária independente e firme, o que embola todo o meio de campo do tabuleiro político da luta de classes nacional.

Esta é a triste realidade da nossa conjuntura que não deveria ser ignorada ou maquiada com discursos de profissão de fé. Tampouco se pode mudá-la com gritos histriônicos de lideranças isoladas, que apresentam as mais “rigorosas análises teóricas”, “perfeitas”, repleta das verdades mais ardentes, mas que não tem tido o menor apelo popular capaz de tocar o coração e a mente do povo.

O que tais análises “rigorosas” não observam é a dinâmica das massas, que são sempre tratadas como algo sem vontade, em “estado bruto”, bastando vir uma liderança de “vilões inescrupulosos” para enganá-las totalmente. É uma visão idealizada sobre elas e sobre o seu próprio papel “libertador”. Às massas cabe sim algum tipo de escolha pessoal entre o bolsonarismo ou o petismo que precisa ser levado em consideração se queremos realmente entendê-las e não apenas nos vendermos como a “direção perfeita” e predestinada. Para a maior parte da massa é muito mais difícil viver na verdade do que na mentira que nos conforta.

Ao contrário do capitalismo do século XIX e XX, que cooptava partidos, sindicatos e lideranças, o capitalismo neoliberal do século XXI foi além e desenvolveu mecanismos psicológicos de cooptação de pautas de reivindicações, esterilizando-as e criando mil dificuldades e confusões na mente de milhões de trabalhadores no Brasil e no mundo. A esquerda em seus diferentes níveis e tonalidades não tem conseguido enfrentar esta nova formulação do capitalismo, que estereliza as reivindicações e mantém a classe trabalhadora sob controle, em parte tendo sua própria condescendência e, como consequência, fazendo-a cair num profundo desânimo, injetando-lhe depressão em massa. Em grande medida o sistema logrou fazer com que as pessoas tolerem as suas péssimas condições de vida pela exposição contínua a elas, sendo reforçadas e blindadas pela indústria cultural, pelas redes sociais, por sucessivos estímulos estéticos, morais e da religião organizada que o degrada moralmente e atrofia suas emoções, embaçando sua visão racional. 

Daí a conclusão de que não temos visto rebeliões espontâneas que apontem perspectivas de se construir o poder proletário, mas depressão e desânimo em massa, banhados por remédios de tarja preta, além de outras formas ilusórias de não encarar a realidade.

Barco navegando ou afundando?

A psicologia de massas do neofascismo não é compreendida e não tem contraponto nas candidaturas da esquerda “revolucionária”, que só faz mais do mesmo e espera resultados diferentes

O neofascismo tem jogado pesado. 

Seus ideólogos e engenheiros políticos — sendo Steve Banon o mais perigoso — manipulam as emoções, taras e ódios da massa e conquistam novas hegemonias sobre elas. Parte desta manipulação é embasada no próprio conservadorismo das massas, criada na disciplina familiar e religiosa das tradições do país. 

Marx e Engels foram grandes teóricos, mas como já alertavam no seu tempo, não possuem respostas para tudo. Reconhecendo a importância das suas contribuições, precisamos avançar sozinhos. O primeiro passo é redimensionar a análise partindo dos avanços científicos referentes ao nosso tempo e das contribuições posteriores a eles — fato recomendado pelo próprio Engels, mas nunca observado com a devida seriedade.

Enquanto o petismo nos deixa reféns do arco de alianças e do permanente rebaixamento programático é a única possibilidade eleitoral de massas viável ao bolsonarismo. E assim será enquanto a esquerda não der um passo decisivo para reorganizar o seu arsenal teórico, metodológico, de trabalho de base, estético e moral do dia a dia. 

Já se disse que fazer tudo exatamente igual e esperar resultados diferentes é loucura. E é exatamente isso que a esquerda “revolucionária” tem feito na esperança de que as “massas despertem”, mas com medo de avançar para conclusões que a faça se olhar no seu próprio espelho profundo. Portanto, no seu dia a dia não é revolucionária, mas conservadora e tradicionalista, repetindo dogmas e fórmulas.

Parte desta esquerda “revolucionária” novamente lança suas candidaturas próprias (PSTU, PCO, UP) que não têm conseguido nenhuma penetração real na massa. E isso se repete por diversas eleições — o que, por si só, deveria fazê-los tirar algumas conclusões, mas que, desgraçadamente, não o fazem. Caso estivesse no caminho correto de “despertar a massa”, teriam algum resultado diferente, como por exemplo: de 1% saltariam para 5 ou 10%. Ou então, conseguiriam solapar lentamente a influência social e sindical petista, avançando para um princípio de influência sobre o movimento de massas, vencendo o utilitarismo e o oportunismo da massa petista e cutista, apontando para a auto organização dos trabalhadores como alternativa real de poder. Porém, nada disso ocorre, senão que se aprofunda o oposto.

O que vemos, então, é mais uma profissão de fé do que um trabalho político que leve em consideração o real movimento da conjuntura. No fim das contas, no primeiro turno essas candidaturas não atingem nem 1% e depois, no segundo turno, terminam votando “criticamente” no PT ou “votando nulo”. Pior do que isso, a sua influência não cresce nem indiretamente.

Além das candidaturas oficiais da esquerda “revolucionária”, existem ainda diversos agrupamentos que chamam voto nulo em quase todas as eleições, tal como um princípio político do qual acreditam depender a sua redenção ou condenação pecaminosa, ignorando deliberadamente o discurso e a atuação prática de quem vota criticamente no PT ou mesmo as formas concretas de se atingir uma base real. Os anuladores convictos mais “realistas” fazem menção ao crescimento do número de votos nulos e brancos das últimas eleições, entretanto, ignoram que é uma massa disforme que não se traduz em luta por diversas razões, sequer apontando realmente para uma auto organização além das eleições. Também ignoram ou diminuem os retrocessos políticos visíveis de uma vitória da extrema direita. Sem tal alerta não é possível educar politicamente a massa e o próprio eleitorado petista. Tende, portanto, a nivelar tudo, aumentando a confusão e facilitando a vida das direções petistas e paulistas, que se vendem como as únicas “realistas”.

Se por um lado, o argumento de que voto nulo pode significar o aumento da chance da vitória da direita, por outro, ele esconde perfeitamente a política conciliadora do petismo no dia a dia, o que gera becos sem saídas e o eterno retorno eleitoral do petismo versus “as direitas”. Então, o eixo da disputa entre esquerda eleitoreira e “revolucionária” não deveria se dar preferencialmente no terreno eleitoral, que é pantanoso e incerto.

Nem o voto nulo, nem o voto crítico são “pecados” em si mesmo, tal como preconizam os “militantes religiosos” em suas diferentes profissões de fé — ainda que possuam consequências práticas em cada conjuntura. Toda crítica deveria depender do tipo de política que se leva no dia a dia, bem como o discurso e a prática com que se sustentam; além da busca de novas formas de trabalho de base, estética, auto-organização, relação entre militantes, movimentos sociais e as pessoas da massa, que sejam menos egocêntricas, dogmáticas e/ou oportunistas, sendo confirmadas pela capacidade de gerar confiança e não mais ojeriza.

A grande questão é: a massa não tem rompido a sua letargia e não tem saído da condição de torcida organizada. Os discursos redentores da esquerda “revolucionária” não conseguem tirá-la do seu estado catatônico. Quem capitaliza a sua indignação tem sido a direita neofascista, porque aprendeu a manipular seu conservadorismo congênito, que não pode ser combatido com programas, práticas e discursos do século XIX. O petismo, por sua vez, não tem como vencer o neofascismo a longo prazo, mas ser simplesmente um breve hiato entre um governo de direita e outro. Bastaria dizer à militância petista que, caso Lula vença as eleições deste ano, após este mandato — que deve ser o seu último —, estaremos novamente “largados à própria sorte”.

O duro balanço que devemos fazer é que nenhuma organização das esquerdas tem sabido injetar ânimo nos trabalhadores no espírito revolucionário, nem estes têm saído de sua condição passiva espontaneamente, como acontecia no passado, dado que a indústria cultural e os métodos refinados de manipulação da psicologia de massas conseguem deixá-la inerte, catatônica e depressiva. O que deveríamos fazer para além de nos atolarmos em divergências secundárias — tipo as de cunho eleitoral —, é justamente investigar como o capitalismo conseguiu neutralizar a psicologia de massas, torná-la dependente e depressiva e, sobretudo, como quebrar essa “neutralização”.

Parte do sucesso da direita neofascista e do capitalismo neoliberal na cooptação de reivindicações populares está na confusão sinistra que faz na mente de milhões de trabalhadores, ao ponto de que esta já não sabe mais ao certo quem é “herói ou vilão”, “antissistema ou pró-sistema”, “certo ou errado”. E ao invés de entender tais dilemas, o discurso da esquerda “revolucionária” nas eleições e da esquerda moderada no dia a dia aprofunda esta confusão.

Assim como o povo trabalhador perde a paciência e se rebela, ele tem demonstrado fontes inesgotáveis de passividade, buscando direções (candidatos, partidos, sindicatos, etc.) que alimentem suas ilusões na “inocência” de uma saída fácil e negociada, onde não haja conflitos. Já as organizações da esquerda “revolucionária” julgam que se trata apenas de um “alinhamento de astros”; qual seja: o despertar da raiva popular com a sua política revolucionária “perfeita”. Não percebe que a construção dessa política — para ser real — precisa se chocar cotidianamente com o atraso do “povo-público”, tipo torcida organizada, não lhe perdoando os “escorregões inocentes” que expressam o seu desejo de ser eternamente uma criança a espera de um paizinho para fugir às suas responsabilidades sociais, não restringindo as suas críticas apenas às direções políticas e sindicais. 

Para que a esquerda revolucionária possa crescer, precisa encarar o fato de que as coisas não são como parecem ser nos “manuais teóricos” (sobretudo para aqueles que leem teoria revolucionária como um dogma religioso) e nos nossos desejos pessoais, geralmente confundidos com a realidade.


Enfrentar a realidade histórica do povo brasileiro tal como ele é

Tanto aqueles que entendem o voto em Lula como sendo uma redenção e a condenação do voto nulo como pecado — ou vice-versa —, numa verdadeira guerra do fim do mundo entre as esquerdas, não têm levado em consideração a apatia das massas e uma análise renovada da realidade brasileira e mundial. O resultado só pode ser o aprofundamento de um ping-pong entre a esquerda social-democrata, tipo PT, e a direita neofascista; com a mídia burguesa e alguns partidos do centrão tentando emplacar uma terceira via da direita “moderada”.

O que temos que explicar é: porque as massas são facilmente seduzidas pelo neofascismo com discursos “contra a corrupção” do PT feito por notórios corruptos ou por discursos “anti sistemas” feito por defensores descarados do sistema vigente? Enquanto que o discurso das organizações de esquerda feito nos locais de trabalho, estudo e moradia tem pouquíssimo apelo para se transformar num movimento de massas. O que se passa em sua mente e no seu coração?

A principal arma do imperialismo estadunidense contra a América Latina não tem sido a bomba atômica, os porta-aviões, a IA, os drones ou o que quer que seja no campo militar, mas a mente do seguidor de Bolsonaro, Milei, Kast e do gusano da Flórida, cuidadosamente cultivada por anos de propaganda neoliberal, a que chamam de “jornalismo”. Trata-se do melhor cavalo de Tróia que pode haver, pois conseguiu criar uma racionalidade às avessas, que vê entreguismo como patriotismo; pirataria, saque e extorsão de si próprio como desenvolvimento econômico; privatização que empobrece a maioria como a “solução”; além de ser imune a todo fato histórico ou argumento racional verificável hoje pela internet ou por fontes relativamente acessíveis, celebrando a injustiça das desigualdades sociais como algo digno e desejável.

Defender os sórdidos interesses econômicos dos EUA soa como algo “natural” para milhões de pessoas em nosso continente. É isso que a propaganda ianque de “nosso hemisfério” trabalha no inconsciente coletivo. Os defensores do capitalismo norte-americano entre os latino-americanos explodem em reações emocionais desequilibradas e intolerantes frente ao menor questionamento político da conjuntura, seja na Venezuela, no Brasil, nos EUA ou no mundo. Esta psicopatia é caracterizada por fazer o indivíduo perder a capacidade de empatia e escuta, bloqueando o cérebro racional para fatos e argumentos bem construídos.

A memória e o debate racional exposto de forma impecável de nada vale frente ao estado psicológico criado pela intervenção da direita neofascista via redes sociais e amparada pelo pano de fundo feito pelo “jornalismo” da grande mídia. Por exemplo: a maquinação dos EUA no golpe de 64, a falácia das armas químicas no Iraque, os discursos de apoio à “democracia” que se convertem em intervenções autoritárias e ao apoio político de inúmeras ditaduras mundo afora; os incontáveis casos de corrupção dos partidos de direita; ou o apoio petista às reformas neoliberais — tipo da Previdência e diversas PPPs —, os escandalosos acordos regionais e nacionais do PT com a decrépita oligarquia brasileira, além do apoio descarado ao agronegócio e ao sistema financeiro, absurdamente não valem de nada nesta discussão, que não tem ido além do nível superficial das emoções mais primitivas. 

Ganha quem grita mais e traz mais fatos bizarros à tona — no caso bolsonarista —; ou toca mais o coração dos trabalhadores com histórias tristes de superações individualistas das “pessoas comuns”, sempre lembrando da mãe — como é o caso de Lula. Nunca chegamos aos debates macroeconômicos que podem colocar em debate as mudanças estruturais que o país realmente precisa. E não basta apontar a “consciência ingênua” do povo; há que se entender como ela funciona e, sobretudo, porque o povo opta por ela.

Manter a coesão de suas bases sociais requer este tipo de conduta, de um lado ou de outro. É isso que precisamos entender e superar. Muitas organizações militantes da esquerda “revolucionária” gritam e atacam pessoalmente as pessoas de ambos os lados, mas enfrentar o grave problema da manipulação da psicologia de massas não deve nunca ir pelo caminho da humilhação, chamando de gado, ou descambando para o xingamento nu e cru. Tal tipo de “enfrentamento” só pode intensificar o problema, jogando as pessoas novamente nos braços de suas antigas “direções”.

O petismo (secundado por Psol e PCdoB, seus satélites “naturais”) tem a vantagem de levar muitos elementos da realidade do Brasil e do mundo em consideração, ainda que sacrifiquem tudo no altar do desespero utilitário e oportunista da “governabilidade”. A esquerda “revolucionária” deveria admitir que o petismo expressa bem a mentalidade da massa de trabalhadores brasileiros, que busca por um “paizinho” ao invés de enfrentar a sua dura condição de vida. Vê-la como ela é e não como “deveria ser”, é um importante primeiro passo.

PT, PCdoB e Psol levantam bandeiras que conseguem ter algum apelo popular, mas não dão passos além dessa superficialidade porque temem à morte perder influência eleitoral e sindical. Assim sendo, trabalham no sentido de manter a massa tal como ela é — é justamente daí que provêm a sua influência de massas. Lula sabe falar o que o povo consegue e quer ouvir, sem nunca elevar a tônica para além daquilo que é aceitável na diferenciação superficial que as eleições e o sistema permitem.

Parte desta retórica com capacidade de capturar pautas populares e desviá-las para si mesmo vem do identitarismo, presente tanto no petismo quanto em muitas candidaturas da esquerda “revolucionária”, além de agrupamentos de militantes. Existe um beco sem saída neste enfrentamento da “esquerda identitária” com a direita neofascista, que se especializou em polarizar estas políticas na mente de milhões com um debate que serve perfeitamente para esconder as verdadeiras questões econômicas e políticas que podem mudar o país e o mundo: mexer no sistema financeiro, no poder econômico e político do agronegócio e de São Paulo sobre a federação, na exploração capitalista e sua crescente degradação das relações sociais. O petismo aceita o duelo identitário inócuo, mas que possui grande apelo popular, e com isso ajuda a embaçar o quadro geral, vendendo-se como “esquerda”, como “progressistas”, mesmo que no campo econômico não enfrente quase nenhuma mazela real.

Isso não quer dizer que não exista machismo, racismo e homofobia na sociedade atual, mas eles têm sido exageradamente utilizados como cortina de fumaça para trancar outras pautas de discussão que provavelmente teriam maior repercussão sobre a consciência de classe.

Dado que o Brasil foi um país formado do exterior para o interior, gerando um Estado correspondente nesta função de controlar sua população, o debate internacional inevitavelmente acaba sendo preponderante, uma vez que nada muda aqui sem um enfrentamento decidido à hegemonia dos EUA sobre o nosso país e o nosso subcontinente. Atualmente apenas duas candidaturas têm apelo de massas para tocar nessa questão: a bolsonarista, que abre uma avenida neocolonial para embotar as consciências de amplas parcelas da massa, garantindo a sua servidão voluntária, deixando um saldo de difícil reconstrução; e a petista que, ainda que não impeça o neocolonialismo, gera algum tipo de dificuldade momentânea e conjuntural ao imperialismo, já que facilita a aproximação com a China, causando pavor e desespero na Casa Branca.

Os EUA estão em decadência histórica. Isso é o que marca toda a atual conjuntura e, particularmente, as eleições de 2026. O BRICS representa o olho do furacão e tem papel importante no aceleramento ou retardamento desta decadência. Sabemos que o BRICS é um bloco geopolítico cheio de contradições perigosas, mas sem enfrentá-lo e pautar a sua discussão é o mesmo que ignorar um dos focos centrais da atual conjuntura e ajudar, direta ou indiretamente, os planos do imperialismo para o Brasil. Dada a apatia da classe trabalhadora brasileira e a situação internacional, seria importante procurar minar o imperialismo hegemônico, tirando o Brasil de sua área de influência e tensionando pelo desenrolar de uma nova configuração mundial, ainda que ela esteja longe de ser a ideal para a classe trabalhadora internacional.

É natural, portanto, que para acelerar a libertação das amarras do imperialismo ianque em decadência histórica e não tendo um movimento de massas atualmente — que não pode ser criado da noite para o dia —, é necessário apostar em uma conjuntura internacional mais favorável com os elementos que existem na realidade e não criados pela doutrinação de nossa propaganda pautada pelo século XIX ou XX. Se não queremos viver de denúncias vagas, apenas esperando pela volta do socialismo soviético das décadas de 1930-1940, tal qual se espera a segunda volta do messias, é importante atualizar a leitura de mundo e das demandas deste início do século XXI. Do contrário, é deixar o petismo livre das críticas concretas que possuam algum tipo de contato com a realidade.

O PT, embora seja pivô nessa aliança geopolítica, pretende uma submissão acrítica à China. O bolsonarismo, ao contrário, representa a sabotagem e destruição do bloco, conforme os interesses estratégicos dos EUA. A “esquerda revolucionária”, por sua vez, condena totalmente o bloco, como faz com quase todas as outras pautas, ignorando que é a única realidade “progressiva” possível no momento que possa acelerar a derrota do imperialismo estadunidense. 

Por tudo isso é necessário abordá-lo e incentivá-lo de um ponto de vista que interesse aos trabalhadores e ao povo brasileiro (ou seja, se seremos só manipulados pelos interesses econômicos chineses ou se tentaremos intervir nele com clareza onde há possibilidade real para isso) ou se ficaremos alheios.

No entanto, como atuar nele? O que exigir, o que apoiar e o que denunciar? Este é um debate que se abre apenas a partir da possibilidade de permanência nele, fato que não existirá caso o ignoremos.

A esquerda “revolucionária” denuncia o PT com base em pautas que soam completamente distante da massa trabalhadora, que não tem apelo diário e, tampouco, são compreendidas; às vezes até mesmo hostilizadas.

Ainda que não devamos cair no erro sectário-oportunista dos petistas de execrar quem vota nulo — pois estes setores estão sempre na luta —, é preciso reconhecer que as candidaturas da esquerda “revolucionária” ou os adeptos do voto nulo sugerem pular etapas sem ter condições para isso, baseado-se, como sempre, numa profissão de fé que não se traduz em movimento de massas organizado e que não tem sido capaz de tocar a massa bolsonarista, nem a petista. Em seu violento radicalismo, tornam-se obstinados em impor com gritos ao mundo real o que é logicamente demonstrado nos seus discursos.

Não podemos pular etapas e avançarmos para pautas socialistas, despertando progressivamente a classe trabalhadora, sem entrarmos em contato com o mundo real e a massa tal como ela é. Por diversas razões que ainda precisamos debater para entender, a esquerda “revolucionária” tem ficado cada vez mais isolada.


Redimensionar a esquerda: apostar na criatividade em todos os níveis

É provável que despertar a massa requeira um redimensionamento do debate e a procura por novas formas de atuação, educação política e não a repetição ritualística do “comunismo” soviético. O debate sobre a psicologia de massas precisa ser complementado por novas formas de organização correspondentes que combatam o espírito de rebanho, o egocentrismo de organizações e dirigentes, gerando a confiança capaz de fazer os trabalhadores assumirem seu lugar na sociedade e na construção de uma outra sociedade, valorizando o debate racional coletivo. É fundamental estar aberto para ouvir e perceber o outro no dia a dia, sem ter como perspectiva a mera vantagem — seja o ganho pessoal, coletivo, cooptação para a organização para se continuar fazendo o mesmo de sempre, etc.

Superar a “consciência atrasada” dos trabalhadores requer o enfrentamento ao seu modo de vida, à sua falta de coerência e de compaixão no cotidiano entre irmãos trabalhadores, em relação a mesquinhez das necessidades ordinárias. Isso não pode ser feito por partidos e organizações egocêntricas e oportunistas, que só as reforçam ao invés de combatê-las.

A luta por uma nova sociedade pressupõe irmos além das questões meramente econômicas. Redimensionar as perspectivas da esquerda significa relembrar que em última instância lutamos pela emancipação humana e que isso pressupõe o direito de ser quem se é; isto é, o direito a individuação — isso nos é negado pela moral social, pela família tradicional, pelo autoritarismo dos locais de trabalho, pela polícia e mesmo por muitas organizações de “esquerda”.

Os problemas de redimensionamento e recriação da esquerda transcendem as eleições de 2026. Por isso é importante pensar além do “dogmatismo religioso” político-eleitoral imediatista que ela inspira, seja de um lado… ou de outro. A grande questão continua sendo ir muito além das eleições (voto acrítico, crítico ou nulo): trata-se de como descobrir e abrir caminho para o espírito de revolta consciente no povo brasileiro, fato que nenhuma das esquerdas tem conseguido realizar… ou mesmo compreender!



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