O resultado do 1º turno e o crescimento eleitoral da candidatura de Flávio Bolsonaro expressam a essência da manipulação da psicologia de massas.
Com a ascensão mundial do bloco liderado por China e Rússia, os EUA não podem mais tolerar o “jogo limpo” das instituições liberais, sua legislação e o “livre” mercado. Assim, as big techs (google, whatsapp, instagram, facebook, etc.) entram em campo para direcionar o debate, insuflar maiorias pelas emoções primitivas e reforçar bolhas intransponíveis. A psicologia de massas cria o cenário político que tolera e impulsiona pautas neofascistas.
Orientados pela engenharia política da Casa Branca (cujo principal expoente é Steve Banon e Donald Trump), vivemos uma antirracionalidade. A realidade se inverte na cabeça dos bolsonaristas, onde entreguismo torna-se “patriotismo”; subdesenvolvimento, privatização, manutenção das maiores taxas de juros do mundo e a eterna dependência dos EUA são vendidos como “desenvolvimento”; participar de escândalos de corrupção é visto como “combate a corrupção”; e ter vínculo com o crime organizado significa a melhora da segurança pública. O STF é visto como politizado e não-imparcial para melhor se poder justificar a proposta de intervenção em seu interior conforme interesses políticos e militantes do bolsonarismo.
Para esconder o total controle sobre os privilégios, o neofascismo apela para métodos de manipulação das emoções, como sadomasoquismo, raiva, ódio, infantilidades egoicas, onde se apaga a fonte de tanta maldade e o flerte com a pulsão de morte. Os políticos neofascistas se utilizam deste método nefasto, se dizendo “antissistema” para melhor sustentar o sistema do qual depende os seus privilégios e o da elite que representa, o capitalismo em avançado estado de concentração de riqueza para uma minoria. A elite deste sistema — principalmente nos países imperialistas — não quer negociar nenhum privilégio, por isso vai administrando as inúmeras crises sociais, econômicas e ambientais resultantes. E para isso, a manipulação das crenças autoafirmativas e de autoverdade são os pilares fundamentais de sua engenharia política.
É com este tipo de psicologia inversa, centrada no ego, que a pauta de segurança se torna central em um país marcado por diversos tipos de violência e impunidade para os ricos. Se apaga a relação entre desigualdade social e segurança pública, como se uma coisa nada tivesse a ver com a outra.
Quem é que incentiva o crime organizado senão os próprios vendedores de armas ligados ao complexo industrial-militar dos EUA, de um lado; e a miséria, o desemprego e a falta de perspectivas de um país dependente economicamente, que não se industrializa e nem procura receitas próprias para se desenvolver, repleto de favelas controladas pelas milícias do tráfico ligadas a políticos, por igrejas evangélicas e pelo utilitarismo mercadológico, de outro?
A mentalidade do upside down bolsonarista condena denúncias gravíssimas de direitos, de violência e assassinatos como “vitimização” (o tal do “mimimi”), mas não poupa palavras e lágrimas de crocodilo para se fazer de vítima quando são colocados numa sinuca de bico. Faz parte do seu show de manipulação emocional. A grande questão que causa espanto e comoção (ou pelo menos deveria) é: como eles conseguem inverter tudo na mente de milhões de brasileiros?
É justamente aí que entra a engenharia política neofascista de Trump e Banon. A “racionalidade” bolsonarista está baseada na manipulação da psicologia de massas onde o irracional passa a ser visto como racional, moralmente correto e aceitável. Isso é possível porque os agentes publicitários e políticos do neofascismo sabem manipular o cérebro emocional para eclipsar e anular o racional.
Além de uma agitação sadomasoquista por parte das principais lideranças bolsonaristas servir de combustível no qual centenas de milhares de mentes ardem como fogo em brasa, o neopentecostalismo complementa a liga de aço fanatizando, normalizando e alimentando a conduta inconsciente de criança mimada, egocêntrica, que não pode ser contrariada, presente no eleitorado bolsonarista. A partir daí há apenas cegueira para o que está fora da bolha e aceitação daquilo que vem do “líder”, do “mito”, do “messias”; ao mesmo tempo que se faz ouvidos moucos para qualquer outra advertência advinda da racionalidade.
Como esta engenharia de manipulação neofascista da psicologia de massas não é observada com o devido cuidado pelas diferentes esferas da esquerda, ela tende a se espalhar e a se infiltrar nas suas próprias fileiras, que acabam por servir como um pólo opositor que reforça e alimenta involuntariamente o próprio neofascismo (seja em que vertente for).
O petismo como gatilho para o cérebro emocional bolsonarista
O movimento neofascista, cuja expressão latino americana se dá nos governos dos bolsonaros e de Milei, não surgiu por acaso, mas é o reflexo de anos de monitoramento político da região, seja através da sabotagem aos governos “progressistas”, tendo o chavizta e o cubano à frente; seja através dos moderados governos petistas. Banon já admitiu que estudou Lula com atenção por anos — diferente da “esquerda”, que não se dedica a estudar a psicologia de massas.
Assim, o “irracionalismo” bolsonarista é uma reação ao tipo de militância petista, já estudada por parte da cúpula do movimento neofascista, cujas pautas de agitação servem como combustível para reforçar aberta ou sutilmente as convicções bolsonaristas. Muitas retóricas se repetem, apenas invertendo o vetor de indignação moral e dos impactos psicológicos, embolando todo meio de campo.
O governo de Lula não teve uma grande mudança estrutural, seja na macroeconomia ou na atuação política a partir do seu arco de alianças com a velha elite nacional. Ele não enfrentou com dureza as questões estruturais, como as taxas de juros e o rombo permanente da dívida pública, seguindo refém do rentismo, o que tem pioras inevitáveis nas áreas sociais. Muito disso se deve ao medo do governo de ser acusado de “ditador” por parte da grande mídia e das “oposições” políticas burguesas, fazendo com que ele não ouse mexer na estrutura econômica, o que inviabiliza qualquer mudança real, como, por exemplo, investir em ciência e tecnologia para diminuir a dependência tecnológica das big techs, demonstrando, na prática, que a soberania é apenas uma palavra sem consequências práticas.
As declarações de Lula na grande mídia, na ONU e nos encontros internacionais, ao invés de enfrentar a estrutura política, institucional e midiática, acaba por lhe dar crédito. Segundo ele, a “democracia” no Brasil é plena e a sua mídia exerceria a “liberdade de imprensa”, quando na realidade a “democracia” praticada pelas oposições parlamentares é destrutiva, sabotadora; e o jornalismo das grandes emissoras não passa de militância neoliberal que descamba para a censura extraoficial e para o golpismo sempre que se sente ameaçado. E isto é assim, no mínimo, desde a época de Vargas.
Como se isso tudo já não bastasse, o petismo também reforça o egocentrismo em torno de uma figura central, que faz sua base de massas resumir programa e movimentos sociais ao apoio passivo de uma biografia pessoal.
As pautas “progressistas” dos governos petistas seguem reféns do identitarismo woke, o que, a despeito de lhe garantir um amplo suporte eleitoral — sendo aclamado também pela Rede Globo —, é um verdadeiro presente ao neofascismo, dado que é deste tipo de cortina de fumaça que ele se alimenta nos embates norte-americanos entre democratas e republicanos para melhor esconder e minimizar as questões econômicas centrais. Além disso, o movimento sindical segue semi-paralisado, com as mesmas pautas de sempre, totalmente vazio de enfrentamento e iniciativa real, dado que vegeta sob o controle de burocracias sindicais inoperantes e meramente eleitoreiras. O seu sindicalismo é burocrático, rotineiro e não tem sido capaz de empolgar as bases sociais. Quem questiona a preponderância do identitarismo woke ou da inoperância das burocracias sindicais, sofre com ataques bem semelhantes ao neofascismo bolsonarista e a própria expulsão branda dos sindicatos e dos movimentos que ele dirige.
Desta forma, o grande trabalho de base que poderia ser feito em inúmeras categorias Brasil afora, segue refém de pautas identitárias que ficam num ping-pong inócuo com o neofascismo, cujo objetivo é exatamente este: disfarçar ou esconder completamente sua agenda econômica entreguista.
A fórmula petista é a mesma de sempre, que já se demonstrou catastrófica: quanto mais pressionado por achar que vai perder o poder, mais cede ao mercado e ao setor privado através de alianças políticas com a velha elite do país, alimentando o círculo vicioso sem fim de golpes e distorções midiáticas, nunca questionando uma vírgula da sua prática política e sindical. A busca desesperada do petismo pelo reconhecimento da legalidade institucional burguesa — o que é uma das características de sua história política — passa a ser uma prisão que é utilizada pela direita neofascista contra ele mesmo. Grande parte da força do bolsonarismo provém do utilitarismo da militância petista que julga estar sempre no caminho correto (para confirmar basta dar uma olhada no movimento sindical que dirige).
Quem poderia auxiliar neste caminho é a esquerda “revolucionária”, de tradição “marxista”. No entanto, infelizmente não é isso que ela tem feito.
A esquerda “revolucionária” como fogo de palha para acender fogueiras alheias
A maior parte das organizações da esquerda “revolucionária” faz a mesma avaliação de sempre: o problema está exclusivamente no petismo, que é a direção hegemônica do movimento de massas e tem uma conduta “traidora”. Como grande parte desta esquerda sofre de um materialismo vulgar, tende a menosprezar as questões de psicologia de massas como expressão de “idealismo” sem entender o que realmente está em jogo. Ela ainda acredita que basta agitar palavras de ordem radicais para “acender a indignação das massas” que sofrem e passam fome, sem observar a sua psicologia.
Toda a sua mística — quase religiosa — depende desta ascensão de massas pela esquerda, que não tem vindo, a não ser pela direita. Ao invés de se perguntar por que isso ocorre, ela prefere fazer leituras bizarras e até mesmo ingênuas de “punição ao petismo” sem querer entender o porquê de a massa acreditar e se mobilizar apenas com os “antissistemas” de direita (tipo Bolsonaro, Marçal, Milei, etc.), ao mesmo tempo que esvazia, foge e condena os fóruns, movimentos e discussões dos antissistemas de esquerda.
Ou seja, uma tarefa teórica fundamental do momento em que vivemos é entender por que a massa trabalhadora abraça com grande facilidade as candidaturas e pautas de direita, mas resiste e rechaça as pautas de esquerda? O que acontece com ela? O que se passa com a “indignação” da massa?
Manipulada pelo seu conservadorismo interior, fruto de uma estrutura familiar religiosa e tradicionalista, seja nos EUA, no Brasil, na Argentina ou no mundo, as suas movimentações perderam o caráter espontâneo do século XIX e XX. Sem indignação semi-espontânea das massas, como acontecia no passado, e sem canalizá-la contra quem a explora, não há revolução possível. A grande vitória da direita neofascista foi justamente se apoderar da indignação popular “contra o sistema”, piorando a confusão e a fazendo defender a estrutura que lhe explora e empobrece.
Pelos manuais teóricos, a ação das massas, impulsionada por anos de fome e traição de promessas políticas e eleitorais, deveria ir para além do PT, da CUT e dos sindicatos oficiais, atropelando-os pela esquerda, no caminho da auto iniciativa e das demandas socialistas. Porém, não é isso que acontece.
Se é certo que uma massa “educada” pelo PT no utilitarismo e pragmatismo dos pequenos ganhos, acreditando em mudanças sociais sem risco e violência revolucionária, por um lado; e por décadas de jornalismo midiático neoliberal e uma estrutura opressiva mercadológica e estatal, por outro, termina como refém da direita, já não é tão correto naturalizar o seu fascínio pelas pautas, programas e partidos da direita neofascista como sendo exclusivamente uma “punição ao PT”. Assim, ela oscila do lulismo para o bolsonarismo; e do bolsonarismo para o lulismo, sem querer sair do estágio de crianças que dependem de um paizinho.
O que a esquerda “revolucionária” não quer, portanto, é ver os problemas na condução moral e prática das massas trabalhadoras, optando pelo lado opressor, levando, dentro de si mesma, um pouco dos desejos de senhor de escravos. Ela adere, então, a uma cegueira voluntária, já que perceber o óbvio lhe colocaria problemas teóricos novos, para os quais os manuais não tem resposta, aumentando a sensação de terror e de vazio.
A esquerda “revolucionária” termina assim por se dividir entre aqueles que reproduzem os dogmas e esperam passivamente a onda revolucionária redentora, que tem vindo quase sempre pela direita. E a outra ala que se desespera e xinga a massa de “gado”, “burra” e outras preciosidades do gênero, sem saber ou sequer se preocupar em desenvolver um novo trabalho de base sério, capaz de lhe tocar o coração e criticar o seu utilitarismo pessoal, terminando por colocar fogo de palha no incêndio da direita neofascista ou na lareira petista.
Assim tem caminhado a esquerda brasileira.
O triunfo do viralatismo é o alto imposto pago ao império moribundo
Apoiado por uma ampla engenharia logística do imperialismo trumpista, o bolsonarismo cresceu e ameaça vencer o petismo no segundo turno eleitoral. Mesmo havendo possibilidade de fraude nas urnas eletrônicas e problemas de manipulação descarada de pesquisas e campanhas eleitorais — como já apontaram alguns analistas e debates nas redes a partir da “cooperação” do TSE com a Starlink, empresa de Elon Musk —, o fato é que existe amplo apoio eleitoral à candidatura de Flávio, fruto de todo o processo descrito até aqui.
A intervenção dos EUA não foi explícita, como se esperava, mas silenciosa, a partir das big techs, do financiamento de bilhões de dólares e da manipulação da psicologia de massas. Até mesmo a relíquia do partido “Missão” (neonazista) de Renan Santos reconhece.
Porém, a possível vitória de Flávio Bolsonaro no 2º turno não pode ser vista apenas com explicações apenas “fora de nós”, mas, sobretudo, deve exigir também um exame de consciência, de práticas políticas, sindicais e dos nossos valores mais arraigados, que resulte em uma reflexão de como atuar de forma diferente daqui para a frente, sobretudo levando escrupulosamente em consideração a psicologia de massas.
A vitória eleitoral do bolsonarismo não significará, necessariamente, o fechamento do regime político por uma ditadura militar, tal como apontam muitas análises de esquerda. Sabemos que, como se tratam de fanáticos e apologistas de ditaduras militares e de torturadores, é sempre uma possibilidade a nos espreitar. No entanto, não é assim que tem funcionado os governos neofascistas mundo afora. Nem mesmo no governo de Jair Bolsonaro foi assim.
Uma característica fundamental do fascismo clássico, não reconhecida pela esquerda “revolucionária”, está, segundo Wilhelm Reich, na manipulação da psicologia de massas. O neofascismo, por sua vez, representa o aperfeiçoamento desta manipulação. Ele pode conviver com instituições democrático-burguesas, aproveitando-se delas e “denunciando” suas falhas, vivendo da manipulação das redes sociais em conluio com as big techs. Banon já alertou que basta dar “um rosto razoável para o populismo de direita [leia-se, neofascismo] e você se elege”. Assim, os golpes militares não são mais dados com tanques e soldados na rua, mas conquistando “maiorias democraticamente”.
Como o bolsonarismo possivelmente não fechará o regime — pelo menos não de forma explícita —, ele fará demagogia dizendo que defende a democracia, diferente dos seus opositores que apoiam “ditaduras comunistas”, como na Venezuela, ao mesmo tempo em que trabalha para sabotar as instituições por dentro, além de direcionar a mídia e a opinião pública a partir de ataques políticos e declarações escatológicas, criando diversas cortinas de fumaça. Já nas periferias e favelas certamente ocorrerá um regime militar informal, baseado na torturas e na legalização indireta de chacinas protagonizadas por “batalhões especiais”, servindo de propaganda sádica para a sua base eleitoral de classe média.
Em síntese, a eleição de Flávio Bolsonaro causaria um prejuízo incalculável para o Brasil em todas as esferas: política, econômica, social, cultural, religiosa, moral, humana, com ou sem fechamento do regime. É o preço que o Brasil pagará sem nada dever, tal como sempre fez em sua história. É o ajustamento da nossa economia às contas em déficit de um império em decadência histórica. É o coroamento das mentiras sobre o “livre mercado”!
Já o bolsonarismo ser entendido como “patriotismo” por milhões de pessoas é o triunfo do viralatismo e, consequentemente, da política dos EUA. Escondendo-o atrás da propaganda de “mudança”, a sua vitória significará a eterna submissão brasileira aos EUA e a condenação do povo a se pensar e se sentir pequeno. É verdade que a elite brasileira sempre foi vira-lata e acabava por impor essa condição indiretamente ao povo, mas, com a atual manipulação da psicologia das massas, chegaremos ao ponto de transformar esta condição numa raivosa militância que só aprofundará a cegueira coletiva, a miséria (material e moral) do povo e a insegurança social generalizada.
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