quarta-feira, 8 de julho de 2026

Os EUA foram derrotados no Irã?

Grande parte das organizações de esquerda e muitos analistas geopolíticos divulgam a ideia de que os EUA perderam a guerra contra o Irã. 

Eles se baseiam nas posições contraditórias e, por vezes, “pedindo penico”, de Donald Trump nas suas redes sociais e na grande mídia. No entanto, é válido lembrar que as declarações contraditórias de Trump fazem parte da sua hipnose e enganação a nível da psicologia de massas. Para isso ele é muito bem assessorado.

A interpretação excessivamente otimista dos referidos setores se baseia no pequeno atrito ocorrido entre os EUA e Israel, sobretudo no que diz respeito à continuidade da guerra no Líbano com a tradicional desculpa, amplamente apoiada pela grande mídia comercial, de combater “grupos terroristas”. Antes era a tecla do “grupo terrorista Hamas”; agora é a vez do “grupo extremista Hezbollah”. Alguns grupos de esquerda chegam a afirmar que este triunfo vai além do Irã, sendo uma vitória para todos os povos oprimidos do Oriente Médio e do mundo.

Mas será mesmo que os EUA perderam a guerra?

Como um império em decadência histórica, a estratégia geopolítica do neofascismo não parece se restringir ao cálculo de vitória ou derrota no campo de batalha. Manter o cerco à Rússia e a cisão no Oriente Médio, para que a Eurásia não se consolide sob a união China-Rússia e não possa desenvolver-se pacificamente, parece ser o centro da estratégia estadunidense. E, nesse sentido, o caos regional de guerras eternas de divisão e sabotagem, mesmo que com eventuais derrotas, é uma boa pedida. O Irã é um eixo geopolítico que confere estabilidade ao eixo de desenvolvimento de Rússia e China.

O imperialismo estadunidense vive de colocar lenha na fogueira de pequenas disputas regionais, o que lhe confere o poder de configurar mais ou menos como deseja o tabuleiro geopolítico mundial. O caos regionalizado lhe beneficia.

Além do mais, há os interesses do complexo industrial-militar dos EUA, que lucra trilhões com guerras permanentes, ajudando a manter os índices econômicos do imperialismo ianque em lenta bancarrota. Por fim, retarda-se a queda do petrodólar e ainda ajuda-se a especular com o valor do barril do petróleo e com a própria indústria petrolífera, que se mantém como fonte de energia central da economia ianque.

Tão rápido quanto foi costurado o suposto “acordo de paz”, Trump anuncia no dia 8 de julho que “não vê mais motivo para continuar diálogo com Teerã”, autorizando novos “ataques pesados” ao Irã.

Assim, pode-se ver que a estratégia dos mentores neofascistas é muito mais sádica e cruel do que supõe a comemoração ingênua e esperançosa de boa parte das organizações de esquerda e dos “analistas independentes”.



Sugestões de leitura com afinidades de conteúdo:
> A guerra contra o Irã e a decadência do imperialismo estadunidense
> O “grupo terrorista” Hamas e a mídia mercenária Rede Globo

sábado, 13 de junho de 2026

Voto no PT: redenção ou pecado?



Curtindo a serrinha na segunda-feira
Enchi minha cara de cachaça
Mas fiquei contrariado, cumpadre
Não encontrei o restante da massa
(do samba: “Prazer da serrinha”)

As eleições brasileiras se aproximam em uma conjuntura marcada pela decadência dos EUA, com ameaça de guerras internacionais e um projeto sinistro de recolonização da América Latina por parte do imperialismo estadunidense a partir de um discurso de combate ao “narcoterrorismo” de facções criminosas brasileiras e latino-americanas.

Ao invés de repetirmos as velhas fórmulas, seria mais importante redimensionar a nossa reflexão. Os debates eleitorais e suas respectivas acusações se repetem tanto porque tem faltado o ator principal: o movimento de massas. Sem ele, ficamos refém do calendário eleitoral e dos aparatos políticos (sejam eles legendas ou sindicatos) que geram forças gravitacionais que são impossíveis de ignorar se pretendemos ter uma política com base na realidade.

A visível decadência dos EUA frente a ascensão mundial da China, leva o imperialismo estadunidense a uma ofensiva caótica em diversas frentes. Mesmo sendo ameaçado de derrota militar no Irã, aos EUA interessa gerar o caos geopolítico em algumas regiões, enquanto em outras toma a ofensiva direta, como no caso da América Latina (Venezuela, Cuba; intervenção e financiamento de eleições presidenciais em distintos países do continente).

Enquanto vemos o dólar ser questionado como a moeda hegemônica, China e Rússia reafirmam sua aliança estratégica visando neutralizar a ofensiva norte-americana. Quanto mais perde terreno na Eurásia, mais o imperialismo ianque procura retomar o terreno ameaçado pela crescente influência chinesa na América Latina e na Europa.

É neste contexto mundial que as eleições brasileiras serão realizadas.

A melhor denúncia ou propaganda “revolucionária” não encontra penetração na grande massa, nem aumenta a expressão numérica das organizações socialistas. E isso vem ocorrendo há décadas. Certamente pesa o fato da propaganda ideológica feita 24h por mídias nacionais, internacionais e universitárias contra o “comunismo” pós restauração do capitalismo, além do oportunismo dos partidos e sindicatos de massas. Mas isso não explica tudo.

O único caso de aumento significativo de influência sobre a massa nas últimas décadas foi o próprio PT, às custas, como sabemos, de uma adaptação ao regime democrático-burguês que lhe amarra as mãos e os pés — e frente o crescimento da direita neofascista, criada e tolerada pelo próprio sistema.

É com estas ilusões que precisamos debater não apenas uma política eleitoral dentro deste contexto nacional e internacional complexo, mas a própria renovação da atuação teórica e prática das organizações de esquerda.

O problema, contudo, é que vivemos em uma permanente Torre de Babel, num diálogo de surdos egocêntrico onde imperam fórmulas políticas que beiram o dogmatismo religioso, seja do lado “moderado”, seja do lado “radical”.


Eleições burguesas: sempre uma guerra do fim do mundo entre as esquerdas

Não há dúvidas de que a eleição da direita bolsonarista é um problema sério, com consequências catastróficas para a classe trabalhadora do Brasil e da América Latina. Significa não apenas a submissão neocolonial completa do Brasil ao imperialismo estadunidense, como um respiro para a sua decadência histórica às custas dos nossos recursos naturais e da exploração do nosso povo. O engodo da vez é o “combate ao narcoterrorismo”, que vem sendo trabalhado diariamente por boa parte da grande mídia.

A militância petista, no entanto, transforma qualquer crítica ao PT numa heresia, deixando Lula numa posição de “grande líder inquestionável”, o que entra como elo na manutenção desta gangorra dentro do sistema capitalista brasileiro. Para esta militância, Lula tem um “cheque em branco” para fazer o que bem entender: alianças, rebaixamento de programas e discursos, contorcionismos teóricos e discursivos. Tudo está perdoado de antemão e quem critica ou vota diferente deve ser excomungado porque “apoia a direita”.

Se por um lado votar no PT “evita a vitória da direita”, por outro, condena o futuro governo de “esquerda” a uma margem de manobra muito restrita para qualquer mudança real, pois o deixa semi-petrificado em razão do leque de alianças em nome da “governabilidade”. O que fazer durante o mandato de Lula para ir além? Sobre isso não falam uma palavra, nem se preocupam com este tipo de questionamento.

No outro extremo, temos a esquerda “revolucionária”, que condena o voto no PT como um pecado oportunista, independentemente de qualquer justificativa ou atuação prática de quem o faz. Contudo, a questão fundamental não debatida por este setor é o grande ausente: o movimento de massas!

A classe trabalhadora não tem se mobilizado a ponto de oferecer uma perspectiva diferente de luta, infelizmente. Nem mesmo ocorre aqui as mobilizações que acontecem atualmente na Bolívia. É triste constatar isso, mas é necessário se não queremos perder o contato com a realidade.

O problema é complexo e vai muito além do desgaste proporcionado pelo PT, dado que a massa trabalhadora tem sido impenetrável à propaganda revolucionária, por menor que seja — e no Brasil, a despeito dos modestos recursos das organizações da esquerda revolucionária, existem agitações e propagandas feitas em distintos níveis e locais, mas que não obtém o mesmo resultado das agitações da direita neofascista e evangélica. Portanto, quando falamos de mobilização, a massa tem oscilado apenas entre a extrema direita e o petismo.

Para “punir o PT”, a massa trabalhadora tem ido à direita (ou parte dela fica no lugar de onde nunca saiu, no campo conservador). Acredita apenas no “antissistema” de direita, enquanto que os inúmeros antissistemas de esquerda sequer a conseguem sensibilizar. Um dos motivos da insensibilidade da massa para com a esquerda “revolucionária” é a sua propaganda abstrata e descolada da realidade, repleta de números e dados racionalmente “perfeitos”, mas tendo pouco apelo com o que de fato se passa ao seu redor; além do desprezo ao debate da psicologia de massas.

Pesa também a propaganda reacionária contra o socialismo e o “comunismo” como resultado dos anos de “restauração do capitalismo” na ex-URSS, ao qual esta esquerda também não soube e não sabe responder a altura, de forma criativa, aprofundando-se na abstração e no doutrinarismo.

Ela tenta aplicar no Brasil a receita soviética, tal e qual, sem compreender as características próprias do país, do seu povo, da sua cultura, das suas ilusões, desconsiderando totalmente o novo debate posto a partir da ascensão mundial da China, que venceu parcialmente o capitalismo neoliberal dos EUA no campo da eficiência tecnológica e nas próprias leis de mercado. Além disso, há no nosso país uma forte herança colonial, que faz com que o povo, para ganhar a vida, desenvolva uma mentalidade utilitarista que se submete consciente ou inconscientemente ao explorador. o Brasil foi construído a partir de um estrutura de fora para dentro, repleto de mecanismos institucionais que impõem a chantagem da governabilidade, com possibilidades reais de sabotagem e paralisia. Somente o apoio organizado da maioria do povo em forma “ditatorial” pode possibilitar um enfrentamento à elite nacional, que não tolera oposições estruturais.

Estamos perto disso?

Nenhum pouco!

Se por um lado sabemos que se depender do petismo isso nunca acontecerá, dado o seu culto à democracia [neo]liberal burguesa; por outro, estamos muito distantes disso porque grande parte do povo trabalhador se divide entre apoiar o reformismo petista ou o “conservadorismo” bolsonarista. Não há nenhuma tendência atual que possa servir de ponto de apoio para uma política revolucionária independente e firme, o que embola todo o meio de campo do tabuleiro político da luta de classes nacional.

Esta é a triste realidade da nossa conjuntura que não deveria ser ignorada ou maquiada com discursos de profissão de fé. Tampouco se pode mudá-la com gritos histriônicos de lideranças isoladas, que apresentam as mais “rigorosas análises teóricas”, “perfeitas”, repleta das verdades mais ardentes, mas que não tem tido o menor apelo popular capaz de tocar o coração e a mente do povo.

O que tais análises “rigorosas” não observam é a dinâmica das massas, que são sempre tratadas como algo sem vontade, em “estado bruto”, bastando vir uma liderança de “vilões inescrupulosos” para enganá-las totalmente. É uma visão idealizada sobre elas e sobre o seu próprio papel “libertador”. Às massas cabe sim algum tipo de escolha pessoal entre o bolsonarismo ou o petismo que precisa ser levado em consideração se queremos realmente entendê-las e não apenas nos vendermos como a “direção perfeita” e predestinada. Para a maior parte da massa é muito mais difícil viver na verdade do que na mentira que nos conforta.

Ao contrário do capitalismo do século XIX e XX, que cooptava partidos, sindicatos e lideranças, o capitalismo neoliberal do século XXI foi além e desenvolveu mecanismos psicológicos de cooptação de pautas de reivindicações, esterilizando-as e criando mil dificuldades e confusões na mente de milhões de trabalhadores no Brasil e no mundo. A esquerda em seus diferentes níveis e tonalidades não tem conseguido enfrentar esta nova formulação do capitalismo, que estereliza as reivindicações e mantém a classe trabalhadora sob controle, em parte tendo sua própria condescendência e, como consequência, fazendo-a cair num profundo desânimo, injetando-lhe depressão em massa. Em grande medida o sistema logrou fazer com que as pessoas tolerem as suas péssimas condições de vida pela exposição contínua a elas, sendo reforçadas e blindadas pela indústria cultural, pelas redes sociais, por sucessivos estímulos estéticos, morais e da religião organizada que o degrada moralmente e atrofia suas emoções, embaçando sua visão racional. 

Daí a conclusão de que não temos visto rebeliões espontâneas que apontem perspectivas de se construir o poder proletário, mas depressão e desânimo em massa, banhados por remédios de tarja preta, além de outras formas ilusórias de não encarar a realidade.

Barco navegando ou afundando?

A psicologia de massas do neofascismo não é compreendida e não tem contraponto nas candidaturas da esquerda “revolucionária”, que só faz mais do mesmo e espera resultados diferentes

O neofascismo tem jogado pesado. 

Seus ideólogos e engenheiros políticos — sendo Steve Banon o mais perigoso — manipulam as emoções, taras e ódios da massa e conquistam novas hegemonias sobre elas. Parte desta manipulação é embasada no próprio conservadorismo das massas, criada na disciplina familiar e religiosa das tradições do país. 

Marx e Engels foram grandes teóricos, mas como já alertavam no seu tempo, não possuem respostas para tudo. Reconhecendo a importância das suas contribuições, precisamos avançar sozinhos. O primeiro passo é redimensionar a análise partindo dos avanços científicos referentes ao nosso tempo e das contribuições posteriores a eles — fato recomendado pelo próprio Engels, mas nunca observado com a devida seriedade.

Enquanto o petismo nos deixa reféns do arco de alianças e do permanente rebaixamento programático é a única possibilidade eleitoral de massas viável ao bolsonarismo. E assim será enquanto a esquerda não der um passo decisivo para reorganizar o seu arsenal teórico, metodológico, de trabalho de base, estético e moral do dia a dia. 

Já se disse que fazer tudo exatamente igual e esperar resultados diferentes é loucura. E é exatamente isso que a esquerda “revolucionária” tem feito na esperança de que as “massas despertem”, mas com medo de avançar para conclusões que a faça se olhar no seu próprio espelho profundo. Portanto, no seu dia a dia não é revolucionária, mas conservadora e tradicionalista, repetindo dogmas e fórmulas.

Parte desta esquerda “revolucionária” novamente lança suas candidaturas próprias (PSTU, PCO, UP) que não têm conseguido nenhuma penetração real na massa. E isso se repete por diversas eleições — o que, por si só, deveria fazê-los tirar algumas conclusões, mas que, desgraçadamente, não o fazem. Caso estivesse no caminho correto de “despertar a massa”, teriam algum resultado diferente, como por exemplo: de 1% saltariam para 5 ou 10%. Ou então, conseguiriam solapar lentamente a influência social e sindical petista, avançando para um princípio de influência sobre o movimento de massas, vencendo o utilitarismo e o oportunismo da massa petista e cutista, apontando para a auto organização dos trabalhadores como alternativa real de poder. Porém, nada disso ocorre, senão que se aprofunda o oposto.

O que vemos, então, é mais uma profissão de fé do que um trabalho político que leve em consideração o real movimento da conjuntura. No fim das contas, no primeiro turno essas candidaturas não atingem nem 1% e depois, no segundo turno, terminam votando “criticamente” no PT ou “votando nulo”. Pior do que isso, a sua influência não cresce nem indiretamente.

Além das candidaturas oficiais da esquerda “revolucionária”, existem ainda diversos agrupamentos que chamam voto nulo em quase todas as eleições, tal como um princípio político do qual acreditam depender a sua redenção ou condenação pecaminosa, ignorando deliberadamente o discurso e a atuação prática de quem vota criticamente no PT ou mesmo as formas concretas de se atingir uma base real. Os anuladores convictos mais “realistas” fazem menção ao crescimento do número de votos nulos e brancos das últimas eleições, entretanto, ignoram que é uma massa disforme que não se traduz em luta por diversas razões, sequer apontando realmente para uma auto organização além das eleições. Também ignoram ou diminuem os retrocessos políticos visíveis de uma vitória da extrema direita. Sem tal alerta não é possível educar politicamente a massa e o próprio eleitorado petista. Tende, portanto, a nivelar tudo, aumentando a confusão e facilitando a vida das direções petistas e paulistas, que se vendem como as únicas “realistas”.

Se por um lado, o argumento de que voto nulo pode significar o aumento da chance da vitória da direita, por outro, ele esconde perfeitamente a política conciliadora do petismo no dia a dia, o que gera becos sem saídas e o eterno retorno eleitoral do petismo versus “as direitas”. Então, o eixo da disputa entre esquerda eleitoreira e “revolucionária” não deveria se dar preferencialmente no terreno eleitoral, que é pantanoso e incerto.

Nem o voto nulo, nem o voto crítico são “pecados” em si mesmo, tal como preconizam os “militantes religiosos” em suas diferentes profissões de fé — ainda que possuam consequências práticas em cada conjuntura. Toda crítica deveria depender do tipo de política que se leva no dia a dia, bem como o discurso e a prática com que se sustentam; além da busca de novas formas de trabalho de base, estética, auto-organização, relação entre militantes, movimentos sociais e as pessoas da massa, que sejam menos egocêntricas, dogmáticas e/ou oportunistas, sendo confirmadas pela capacidade de gerar confiança e não mais ojeriza.

A grande questão é: a massa não tem rompido a sua letargia e não tem saído da condição de torcida organizada. Os discursos redentores da esquerda “revolucionária” não conseguem tirá-la do seu estado catatônico. Quem capitaliza a sua indignação tem sido a direita neofascista, porque aprendeu a manipular seu conservadorismo congênito, que não pode ser combatido com programas, práticas e discursos do século XIX. O petismo, por sua vez, não tem como vencer o neofascismo a longo prazo, mas ser simplesmente um breve hiato entre um governo de direita e outro. Bastaria dizer à militância petista que, caso Lula vença as eleições deste ano, após este mandato — que deve ser o seu último —, estaremos novamente “largados à própria sorte”.

O duro balanço que devemos fazer é que nenhuma organização das esquerdas tem sabido injetar ânimo nos trabalhadores no espírito revolucionário, nem estes têm saído de sua condição passiva espontaneamente, como acontecia no passado, dado que a indústria cultural e os métodos refinados de manipulação da psicologia de massas conseguem deixá-la inerte, catatônica e depressiva. O que deveríamos fazer para além de nos atolarmos em divergências secundárias — tipo as de cunho eleitoral —, é justamente investigar como o capitalismo conseguiu neutralizar a psicologia de massas, torná-la dependente e depressiva e, sobretudo, como quebrar essa “neutralização”.

Parte do sucesso da direita neofascista e do capitalismo neoliberal na cooptação de reivindicações populares está na confusão sinistra que faz na mente de milhões de trabalhadores, ao ponto de que esta já não sabe mais ao certo quem é “herói ou vilão”, “antissistema ou pró-sistema”, “certo ou errado”. E ao invés de entender tais dilemas, o discurso da esquerda “revolucionária” nas eleições e da esquerda moderada no dia a dia aprofunda esta confusão.

Assim como o povo trabalhador perde a paciência e se rebela, ele tem demonstrado fontes inesgotáveis de passividade, buscando direções (candidatos, partidos, sindicatos, etc.) que alimentem suas ilusões na “inocência” de uma saída fácil e negociada, onde não haja conflitos. Já as organizações da esquerda “revolucionária” julgam que se trata apenas de um “alinhamento de astros”; qual seja: o despertar da raiva popular com a sua política revolucionária “perfeita”. Não percebe que a construção dessa política — para ser real — precisa se chocar cotidianamente com o atraso do “povo-público”, tipo torcida organizada, não lhe perdoando os “escorregões inocentes” que expressam o seu desejo de ser eternamente uma criança a espera de um paizinho para fugir às suas responsabilidades sociais, não restringindo as suas críticas apenas às direções políticas e sindicais. 

Para que a esquerda revolucionária possa crescer, precisa encarar o fato de que as coisas não são como parecem ser nos “manuais teóricos” (sobretudo para aqueles que leem teoria revolucionária como um dogma religioso) e nos nossos desejos pessoais, geralmente confundidos com a realidade.


Enfrentar a realidade histórica do povo brasileiro tal como ele é

Tanto aqueles que entendem o voto em Lula como sendo uma redenção e a condenação do voto nulo como pecado — ou vice-versa —, numa verdadeira guerra do fim do mundo entre as esquerdas, não têm levado em consideração a apatia das massas e uma análise renovada da realidade brasileira e mundial. O resultado só pode ser o aprofundamento de um ping-pong entre a esquerda social-democrata, tipo PT, e a direita neofascista; com a mídia burguesa e alguns partidos do centrão tentando emplacar uma terceira via da direita “moderada”.

O que temos que explicar é: porque as massas são facilmente seduzidas pelo neofascismo com discursos “contra a corrupção” do PT feito por notórios corruptos ou por discursos “anti sistemas” feito por defensores descarados do sistema vigente? Enquanto que o discurso das organizações de esquerda feito nos locais de trabalho, estudo e moradia tem pouquíssimo apelo para se transformar num movimento de massas. O que se passa em sua mente e no seu coração?

A principal arma do imperialismo estadunidense contra a América Latina não tem sido a bomba atômica, os porta-aviões, a IA, os drones ou o que quer que seja no campo militar, mas a mente do seguidor de Bolsonaro, Milei, Kast e do gusano da Flórida, cuidadosamente cultivada por anos de propaganda neoliberal, a que chamam de “jornalismo”. Trata-se do melhor cavalo de Tróia que pode haver, pois conseguiu criar uma racionalidade às avessas, que vê entreguismo como patriotismo; pirataria, saque e extorsão de si próprio como desenvolvimento econômico; privatização que empobrece a maioria como a “solução”; além de ser imune a todo fato histórico ou argumento racional verificável hoje pela internet ou por fontes relativamente acessíveis, celebrando a injustiça das desigualdades sociais como algo digno e desejável.

Defender os sórdidos interesses econômicos dos EUA soa como algo “natural” para milhões de pessoas em nosso continente. É isso que a propaganda ianque de “nosso hemisfério” trabalha no inconsciente coletivo. Os defensores do capitalismo norte-americano entre os latino-americanos explodem em reações emocionais desequilibradas e intolerantes frente ao menor questionamento político da conjuntura, seja na Venezuela, no Brasil, nos EUA ou no mundo. Esta psicopatia é caracterizada por fazer o indivíduo perder a capacidade de empatia e escuta, bloqueando o cérebro racional para fatos e argumentos bem construídos.

A memória e o debate racional exposto de forma impecável de nada vale frente ao estado psicológico criado pela intervenção da direita neofascista via redes sociais e amparada pelo pano de fundo feito pelo “jornalismo” da grande mídia. Por exemplo: a maquinação dos EUA no golpe de 64, a falácia das armas químicas no Iraque, os discursos de apoio à “democracia” que se convertem em intervenções autoritárias e ao apoio político de inúmeras ditaduras mundo afora; os incontáveis casos de corrupção dos partidos de direita; ou o apoio petista às reformas neoliberais — tipo da Previdência e diversas PPPs —, os escandalosos acordos regionais e nacionais do PT com a decrépita oligarquia brasileira, além do apoio descarado ao agronegócio e ao sistema financeiro, absurdamente não valem de nada nesta discussão, que não tem ido além do nível superficial das emoções mais primitivas. 

Ganha quem grita mais e traz mais fatos bizarros à tona — no caso bolsonarista —; ou toca mais o coração dos trabalhadores com histórias tristes de superações individualistas das “pessoas comuns”, sempre lembrando da mãe — como é o caso de Lula. Nunca chegamos aos debates macroeconômicos que podem colocar em debate as mudanças estruturais que o país realmente precisa. E não basta apontar a “consciência ingênua” do povo; há que se entender como ela funciona e, sobretudo, porque o povo opta por ela.

Manter a coesão de suas bases sociais requer este tipo de conduta, de um lado ou de outro. É isso que precisamos entender e superar. Muitas organizações militantes da esquerda “revolucionária” gritam e atacam pessoalmente as pessoas de ambos os lados, mas enfrentar o grave problema da manipulação da psicologia de massas não deve nunca ir pelo caminho da humilhação, chamando de gado, ou descambando para o xingamento nu e cru. Tal tipo de “enfrentamento” só pode intensificar o problema, jogando as pessoas novamente nos braços de suas antigas “direções”.

O petismo (secundado por Psol e PCdoB, seus satélites “naturais”) tem a vantagem de levar muitos elementos da realidade do Brasil e do mundo em consideração, ainda que sacrifiquem tudo no altar do desespero utilitário e oportunista da “governabilidade”. A esquerda “revolucionária” deveria admitir que o petismo expressa bem a mentalidade da massa de trabalhadores brasileiros, que busca por um “paizinho” ao invés de enfrentar a sua dura condição de vida. Vê-la como ela é e não como “deveria ser”, é um importante primeiro passo.

PT, PCdoB e Psol levantam bandeiras que conseguem ter algum apelo popular, mas não dão passos além dessa superficialidade porque temem à morte perder influência eleitoral e sindical. Assim sendo, trabalham no sentido de manter a massa tal como ela é — é justamente daí que provêm a sua influência de massas. Lula sabe falar o que o povo consegue e quer ouvir, sem nunca elevar a tônica para além daquilo que é aceitável na diferenciação superficial que as eleições e o sistema permitem.

Parte desta retórica com capacidade de capturar pautas populares e desviá-las para si mesmo vem do identitarismo, presente tanto no petismo quanto em muitas candidaturas da esquerda “revolucionária”, além de agrupamentos de militantes. Existe um beco sem saída neste enfrentamento da “esquerda identitária” com a direita neofascista, que se especializou em polarizar estas políticas na mente de milhões com um debate que serve perfeitamente para esconder as verdadeiras questões econômicas e políticas que podem mudar o país e o mundo: mexer no sistema financeiro, no poder econômico e político do agronegócio e de São Paulo sobre a federação, na exploração capitalista e sua crescente degradação das relações sociais. O petismo aceita o duelo identitário inócuo, mas que possui grande apelo popular, e com isso ajuda a embaçar o quadro geral, vendendo-se como “esquerda”, como “progressistas”, mesmo que no campo econômico não enfrenta quase nenhuma mazela real.

Isso não quer dizer que não exista machismo, racismo e homofobia na sociedade atual, mas eles têm sido exageradamente utilizados como cortina de fumaça para trancar outras pautas de discussão que provavelmente teriam maior repercussão sobre a consciência de classe.

Dado que o Brasil foi um país formado do exterior para o interior, gerando um Estado correspondente nesta função de controlar sua população, o debate internacional inevitavelmente acaba sendo preponderante, uma vez que nada muda aqui sem um enfrentamento decidido à hegemonia dos EUA sobre o nosso país e o nosso subcontinente. Atualmente apenas duas candidaturas têm apelo de massas para tocar nessa questão: a bolsonarista, que abre uma avenida neocolonial para embotar as consciências de amplas parcelas da massa, garantindo a sua servidão voluntária, deixando um saldo de difícil reconstrução; e a petista que, ainda que não impeça o neocolonialismo, gera algum tipo de dificuldade momentânea e conjuntural ao imperialismo, já que facilita a aproximação com a China, causando pavor e desespero na Casa Branca.

Os EUA estão em decadência histórica. Isso é o que marca toda a atual conjuntura e, particularmente, as eleições de 2026. O BRICS representa o olho do furacão e tem papel importante no aceleramento ou retardamento desta decadência. Sabemos que o BRICS é um bloco geopolítico cheio de contradições perigosas, mas sem enfrentá-lo e pautar a sua discussão é o mesmo que ignorar um dos focos centrais da atual conjuntura e ajudar, direta ou indiretamente, os planos do imperialismo para o Brasil. Dada a apatia da classe trabalhadora brasileira e a situação internacional, seria importante procurar minar o imperialismo hegemônico, tirando o Brasil de sua área de influência e tensionando pelo desenrolar de uma nova configuração mundial, ainda que ela esteja longe de ser a ideal para a classe trabalhadora internacional.

É natural, portanto, que para acelerar a libertação das amarras do imperialismo ianque em decadência histórica e não tendo um movimento de massas atualmente — que não pode ser criado da noite para o dia —, é necessário apostar em uma conjuntura internacional mais favorável com os elementos que existem na realidade e não criados pela doutrinação de nossa propaganda pautada pelo século XIX ou XX. Se não queremos viver de denúncias vagas, apenas esperando pela volta do socialismo soviético das décadas de 1930-1940, tal qual se espera a segunda volta do messias, é importante atualizar a leitura de mundo e das demandas deste início do século XXI. Do contrário, é deixar o petismo livre das críticas concretas que possuam algum tipo de contato com a realidade.

O PT, embora seja pivô nessa aliança geopolítica, pretende uma submissão acrítica à China. O bolsonarismo, ao contrário, representa a sabotagem e destruição do bloco, conforme os interesses estratégicos dos EUA. A “esquerda revolucionária”, por sua vez, condena totalmente o bloco, como faz com quase todas as outras pautas, ignorando que é a única realidade “progressiva” possível no momento que possa acelerar a derrota do imperialismo estadunidense. 

Por tudo isso é necessário abordá-lo e incentivá-lo de um ponto de vista que interesse aos trabalhadores e ao povo brasileiro (ou seja, se seremos só manipulados pelos interesses econômicos chineses ou se tentaremos intervir nele com clareza onde há possibilidade real para isso) ou se ficaremos alheios.

No entanto, como atuar nele? O que exigir, o que apoiar e o que denunciar? Este é um debate que se abre apenas a partir da possibilidade de permanência nele, fato que não existirá caso o ignoremos.

A esquerda “revolucionária” denuncia o PT com base em pautas que soam completamente distante da massa trabalhadora, que não tem apelo diário e, tampouco, são compreendidas; às vezes até mesmo hostilizadas.

Ainda que não devamos cair no erro sectário-oportunista dos petistas de execrar quem vota nulo — pois estes setores estão sempre na luta —, é preciso reconhecer que as candidaturas da esquerda “revolucionária” ou os adeptos do voto nulo sugerem pular etapas sem ter condições para isso, baseado-se, como sempre, numa profissão de fé que não se traduz em movimento de massas organizado e que não tem sido capaz de tocar a massa bolsonarista, nem a petista. Em seu violento radicalismo, tornam-se obstinados em impor com gritos ao mundo real o que é logicamente demonstrado nos seus discursos.

Não podemos pular etapas e avançarmos para pautas socialistas, despertando progressivamente a classe trabalhadora, sem entrarmos em contato com o mundo real e a massa tal como ela é. Por diversas razões que ainda precisamos debater para entender, a esquerda “revolucionária” tem ficado cada vez mais isolada.


Redimensionar a esquerda: apostar na criatividade em todos os níveis

É provável que despertar a massa requeira um redimensionamento do debate e a procura por novas formas de atuação, educação política e não a repetição ritualística do “comunismo” soviético. O debate sobre a psicologia de massas precisa ser complementado por novas formas de organização correspondentes que combatam o espírito de rebanho, o egocentrismo de organizações e dirigentes, gerando a confiança capaz de fazer os trabalhadores assumirem seu lugar na sociedade e na construção de uma outra sociedade, valorizando o debate racional coletivo. É fundamental estar aberto para ouvir e perceber o outro no dia a dia, sem ter como perspectiva a mera vantagem — seja o ganho pessoal, coletivo, cooptação para a organização para se continuar fazendo o mesmo de sempre, etc.

Superar a “consciência atrasada” dos trabalhadores requer o enfrentamento ao seu modo de vida, à sua falta de coerência e de compaixão no cotidiano entre irmãos trabalhadores, em relação a mesquinhez das necessidades cotidianas. Isso não pode ser feito por partidos e organizações egocêntricas e oportunistas, que só as reforçam ao invés de combatê-las.

A luta por uma nova sociedade pressupõe irmos além das questões meramente econômicas. Redimensionar as perspectivas da esquerda significa relembrar que em última instância lutamos pela emancipação humana e que isso pressupõe o direito de ser quem se é; isto é, o direito a individuação — isso nos é negado pela moral social, pela família tradicional, pelo autoritarismo dos locais de trabalho, pela polícia e mesmo por muitas organizações de “esquerda”.

Os problemas de redimensionamento e recriação da esquerda transcendem as eleições de 2026. Por isso é importante pensar além do “dogmatismo religioso” político-eleitoral imediatista que ela inspira, seja de um lado… ou de outro. A grande questão continua sendo ir muito além das eleições (voto acrítico, crítico ou nulo): trata-se de como descobrir e abrir caminho para o espírito de revolta consciente no povo brasileiro, fato que nenhuma das esquerdas tem conseguido realizar… ou mesmo compreender!



Sugestões de leitura com afinidades de conteúdo:
> Eleições 2022: Dez pontos para reflexão sobre o “plano Lula de governo”
> Eleições 2022: Por um voto crítico em Lula
> Eleições 2022: o neofascismo cresce! Quais serão seus possíveis próximos passos?
> Por que a classe trabalhadora brasileira ainda acredita em Lula?
> São Paulo: locomotiva puxando vagões vazios ou economia autônoma que se desenvolve às custas do atraso do resto do país?
> Sobre o método do voto crítico
> O neofascismo não foi derrotado
> Bolsonaro X Lula

domingo, 10 de maio de 2026

A diplomacia das palavras vazias

 


Lula e Trump se encontraram em Washington. A despeito das especulações em contrário de bolsonaristas e da mídia comercial, o encontro ocorreu de forma amigável. Mesmo Trump esforçou-se em parecer uma pessoa decente e respeitosa.

Em se tratando de um encontro diplomático entre dois grandes países da América, não poderia ser diferente. No entanto, o que deveria causar estranheza entre nós é o grande otimismo com que Lula saiu deste encontro e como o vendeu à mídia comercial.

Certamente que um evento diplomático entre grandes países como Brasil e EUA não pode deixar de ocorrer periodicamente, mas a grande questão é que tipo de expectativa se quer gerar nas opiniões públicas nacionais e mundiais com ele?

A ameaça de uma vitória eleitoral do neofascismo em outubro não pode apagar ou constranger uma necessária crítica à conduta do governo Lula e, sobretudo, aos seus discursos contraditórios antes e depois deste encontro.

Lula disse a Trump que os EUA deveriam voltar a ter interesse no Brasil. Ora, os EUA nunca deixaram de ter interesse no Brasil e nem podem deixar de ter, dado o peso geopolítico e econômico do nosso país no mundo e, sobretudo, na América Latina.

A diplomacia de palavras vazias cobra um preço alto ao iludir e ajudar a disfarçar os verdadeiros e únicos interesses dos EUA no Brasil: manter-nos como uma neocolônia, custe o que custar. Será um bom caminho relativizar essa verdade que é tão cristalina?

No entanto, as declarações de Lula pós-encontro com Trump são um problema porque se confrontam com as suas radicais declarações nos eventos Mobilização Progressista Global e Democracia Sempre, ocorridos na Espanha em abril, onde exigiu “coerência dos progressistas”; e, também, fez várias críticas a Trump, afirmando que ele pretende governar e ameaçar o mundo inteiro via twitter.

Ainda nestes eventos da Espanha, Lula afirmou que a “extrema direita soube capitalizar as promessas não cumpridas do neoliberalismo, canalizou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras falando das mulheres, dos negros, da população LGBTQIA+, dos imigrantes, ou seja, todas as pessoas mais necessitadas que passaram a ser vítimas do discurso de ódio”.

Também sustentou que “é preciso apontar o dedo para os verdadeiros culpados pela crise sócio-econômica atual que são os poucos bilionários que concentram a maior parte da riqueza mundial, alimentam a falácia da meritocracia, pagam menos impostos ou nada, exploram o trabalhador, destroem a natureza e manipulam os algoritmos”.

Por fim, mas não menos importante, criticou os países que possuem assento permanente no conselho de segurança da ONU afirmando que são verdadeiros “senhores da guerra” que gastam bilhões de dólares em armas que poderiam ser usados para acabar com a fome, resolver o problema energético e o acesso à saúde para toda a população do planeta.

Para Lula, o “sul global” paga contas de guerras que não provocou e mudanças climáticas que não causou, sendo tratado como quintal das grandes potências, sufocadas por tarifas abusivas e dívidas impagáveis. Volta a ser visto como mero fornecedor de matérias-primas.

Em síntese: o encontro diplomático entre Lula e Trump o fez relativizar ou mesmo anular todas essas declarações. Será que não há outros modos de se fazer diplomacia, sendo mais cuidadoso com as palavras?

O discurso de Lula em relação às terras raras anula tudo o que ele vociferou na Espanha e em outras declarações. Ou seja, reforça justamente o Brasil como mero fornecedor de matérias-primas para as grandes potências, incluso os EUA. Deveria haver mais cuidado e reflexão para as declarações diplomáticas, sem o quê, a alma do que é dito termina por indicar um caminho que não é de soberania e dá certos “cheques em branco”.

Segundo Ricardo Zúniga, ex-alto funcionário do governo de Barack Obama, “os Estados Unidos veem o Brasil como o único lugar onde a China pode basicamente paralisar partes da economia [dos EUA], e o Brasil é uma das poucas opções para quebrar o monopólio chinês sobre terras raras”. Isto demonstra, portanto, como os EUA só podem estar totalmente interessados no Brasil, ao contrário do que insinuou Lula. Basta lembrar das declarações de Steve Banon, o guru de Trump, antes das eleições de 2022.

Ainda durante os tarifaços de Trump contra o Brasil, Lula sempre exaltou os “200 anos de boas relações entre EUA e Brasil”. Mas que boas relações são essas em que um lado entra sempre com superávit e outro com déficit? Onde um lado dá golpes militares e parlamentares contra a democracia do país mais frágil? Onde há trama permanente de sabotagens e interferências internas dos mais forte contra o mais fraco, mesmo que Trump tenha dito que não fará isso? Aliás, se os EUA sempre deram golpes no Brasil, isso é algo totalmente confidencial que não pode ser dito publicamente, o que não significa, sob hipótese alguma, que os EUA de fato não irão intervir no Brasil se sentirem “seus interesses prejudicados”. Portanto, vender a ideia de que não intervirão é um desserviço que faz baixar a guarda.

A todo o ativismo petista, que se indigna contra críticas ao presidente Lula — incluso as honestas e muito bem fundamentadas — porque supostamente beneficiam “a eleição da extrema direita”, deveria gastar esta energia para tentar pensar em formas de diplomacia que não faça terra arrasada das declarações ousadas e necessárias já feitas por ele anteriormente.

Ou seja, deveriam tentar ver formas de fazer com que as palavras não sejam vazias, mas que se transformem em atos práticos do dia a dia do governo federal. Esta é a única forma correta de se combater a extrema direita.


Sugestões de leitura com afinidades de conteúdo:
> Eleições 2022: o neofascismo cresce! Quais serão seus possíveis próximos passos?

quinta-feira, 16 de abril de 2026

A guerra contra o Irã e a decadência do imperialismo estadunidense

 

Os principais analistas geopolíticos do mundo afirmam que o Irã está vencendo a guerra contra os EUA e Israel.

Eles afirmam isso em razão das inúmeras bravatas de Trump, expressas nas suas declarações públicas, além dos avanços e recuos de porta-aviões na região e tentativas meio desesperadas de “negociações de paz” para abrir o estreito de Ormuz.

No entanto, é possível perceber que o imperialismo estadunidense não pode agir de outra forma que não essa. E que, mesmo perdendo conjunturalmente a guerra, ele ganha a longo prazo com o caos geral que ele mesmo cria. Isso se passa tanto no caso do Irã, quanto no da Ucrânia.

Como está perdendo peso econômico para China a cada ano que passa, o imperialismo ianque compensa os prejuízos a partir dos ganhos do complexo industrial-militar, compartilhado com Israel, além de outras vantagens imediatas na luta geopolítica pelo isolamento de Rússia e China dentro da área euroasiática. Gerando o caos no mercado e na região, dificulta o desenvolvimento e a consolidação das novas potências mundiais.

O caso da Ucrânia foi ilustrativo: a guerra está praticamente ganha pela Rússia, mas os EUA conseguiram desestabilizar a região, a credibilidade da Rússia no mundo Ocidental e, sobretudo, minar a dependência europeia do gás russo, colocando como “alternativa” as empresas de gás ianques. Ganhos secundários, que criam uma situação caótica, ceifam milhares de vidas, mas que retardam o ocaso do império estadunidense.

A guerra contra o Irã é mais um exemplo, porém, tem sido mais impopular tanto dentro quanto fora dos EUA. No entanto, a máquina midiática do Ocidente, que conta com decisivo apoio na grande mídia brasileira, consegue distorcer narrativas e sustentar esta política internacional do imperialismo ianque. Aproveitando-se livremente das declarações trumpistas, sem nenhum compromisso com coerência e memória, as suas reportagens “imparciais” são, no geral, aceitas pela opinião pública ocidental, o que inclui a brasileira.


A grande mídia burguesa e a guerra contra o Irã

A instituição do caos pelo imperialismo ianque conta com o apoio da mentalidade doentia e amnésica criada na opinião pública ocidental — e mesmo mundial — por anos de “jornalismo” mercenário, sustentando qualquer narrativa distorcida e grotesca que justifique a aplicação da “democracia” estadunidense pelo mundo. Agora, por exemplo, a grande mídia e os porta-vozes da Casa Branca centram na narrativa distracionista sobre destruir o programa nuclear iraniano, quando as “armas de destruição em massa” do Iraque, por exemplo, jamais foram encontradas. A mudança de foco discursivo serve perfeitamente para maquiar as atuais dificuldades militares dos EUA e centra-se na tentativa de moralizar a opinião pública ocidental no medo contra um suposto uso de armas nucleares por parte do Irã, escondendo o monopólio estadunidense e israelense de arsenais atômicos na região e, também, o fato do governo dos EUA ter sido o único a utilizá-lo contra outro país.

Esta maleabilidade narrativa, criada com o decisivo apoio do braço midiático de EUA, Israel e da grande mídia brasileira no mundo Ocidental, permite criar uma cortina de fumaça para que ambos países possam costurar rapidamente novas alianças regionais e mundiais, além de estratégias mais mirabolantes de longo prazo, que procure retardar a decadência histórica do imperialismo ianque.

Se esta decadência é, até certo ponto, inevitável, ela também acaba sendo postergada às custas da destruição de países inteiros, de infraestruturas econômicas e políticas, de capitais — algo que faz parte do funcionamento do próprio capitalismo — e de inúmeras vidas mundo afora. Tudo isso impede ou, pelo menos, cria empecilhos e dificuldades para a ascensão do novo bloco hegemônico de poder, liderado, como sabemos, pela China. Dada a mente psicopática de quem está à frente do império estadunidense e do enclave bélico israelense, não se pode descartar a hipótese de catástrofes militares que levem à extinção da humanidade.


O caos criado pela guerra imperialista é a estratégia

Como máquinas de guerra, o imperialismo ianque e o Estado de Israel não podem agir de outra forma para manter a sua hegemonia regional e global, misturando diversas táticas como espionagem, sabotagem, “revoluções coloridas”, infiltrações, atos terroristas (a partir dos seus próprios Estados nacionais ou de grupos mercenários), até guerras diretas ou “terceirizadas”. 

Para isso, as bases militares norte-americanas espalhadas legal e ilegalmente ao redor do mundo, mas, em especial, no Oriente Médio, são instrumentos essenciais a serviço desta estratégia. Todos esses fatores servem perfeitamente como formas de intervenção político-militar do Estado [profundo] ianque no “livre mercado” internacional.

O primeiro ganhador desta guerra é, sem dúvida, o complexo industrial-militar estadunidense e sionista, que lucram bilhões com a venda de armamento e de tecnologia. Na esteira deste complexo, que é a base do deep state norte-americano, vêm os governos destes países, que mexem no tabuleiro geopolítico da eurásia e trabalham para implodir as “novas” relações econômicas internacionais lideradas por China e Rússia. 

Quem ganha, em segundo lugar, são as empresas transnacionais dos EUA de petróleo e gás, já que se beneficiam das declarações de Trump dando tréguas e falando em “negociações de paz”. Elas sabem, portanto, os melhores momentos das altas e baixas do mercado de energia e do dólar para fazer investimentos ou transações comerciais. Como a situação é contraditória e, não poderia ser de outro modo, outras empresas e países também se beneficiam secundariamente, como é o caso da Rússia.

O bloqueio do estreito de Ormuz, por exemplo, atinge Israel, os países da Ásia e da Europa, aliados dos EUA, mas atinge, também, a China. Administrar a sua decadência histórica requer ações que inevitavelmente possuem efeitos colaterais para si e para aliados eventuais. 

De qualquer forma, dada a sua natureza, um imperialismo em decadência com visíveis contornos psicopáticos não pode agir de outra maneira e, nesses casos, sempre se correm riscos. A grande questão é que os estrategistas do MAGA (isto é, do neofascismo) calculam os lucros e prejuízo e fazem suas apostas. A decadência do imperialismo estadunidense, contudo, não será de uma hora para a outra, podendo levar décadas. Ainda assim, provavelmente, continuará a exercer influências mundiais como um imperialismo secundário, tal como ocorre hoje com Inglaterra e outros países europeus.

Portanto, não podem ser analisados como uma “derrota estrondosa” do imperialismo, como se escuta e lê por aí, porque todas as suas ações a partir de agora partem destes cálculos contraditórios. Uma parcela fundamental dos seus esforços de guerra é para evitar a substituição do petrodólar como medida de valor hegemônico internacional, ainda que, contraditoriamente, acabe acelerando o processo de substituição do dólar contra a sua própria vontade. Mas, como se disse, esta guerra vai muito além da questão do controle sobre o petróleo iraniano.


Os efeitos da guerra contra o Irã no Brasil

Em razão dos anos em que o dólar foi hegemônico no mundo, o imperialismo ianque é especialista em repassar quaisquer custos para a periferia do mercado mundial. Quem paga esta conta é sempre a classe trabalhadora brasileira e da periferia do mercado mundial, já que suas elites nacionais são as sócias menores, diretas ou indiretas, do imperialismo.

Os governos de Michel Temer (MDB) e de Bolsonaro/Paulo Guedes (PL), seguindo os dogmas neoliberais de seus amos do norte — em especial os da Escola de Chicago —, privatizaram refinarias, os postos da BR distribuidora e, também, acabaram com os subsídios estatais para produção de fertilizantes, resultando num descontrole sobre a especulação e os preços, facilitando a vida do empresariado nacional e, sobretudo, internacional na hora de passar o aumento dos custos da cadeia produtiva do petrodólar para o povo.

Lembram da tentativa do governo Temer de nivelar o preço interno do petróleo e da gasolina com o preço internacional do barril de petróleo? Já pensaram nos estragos que isso causaria numa conjuntura como a atual? O jornalismo mercenário da grande mídia nacional nada fale sobre o tema.

Tudo isso aumenta a necessidade do aprofundamento do debate anti-neoliberal entre o povo, além de repensar todas as estratégias da esquerda — sobretudo no campo sindical, onde o petismo segue sendo um estorvo.

Os custos da guerra contra o Irã terão impactos sobre as eleições e intensificarão os fantasmas vindos da direita e da “esquerda”. Se não podemos baixar a guarda por um segundo frente às tentativas da direita neofascista, que trabalha, tal qual os seus amos do norte, para criar narrativas e embustes que lhe garantam o retorno ao poder; também não se pode comprar acriticamente o conto de fadas da “esquerda” que, de uma forma ou outra, serve como gangorra neste círculo vicioso eleitoral que o sistema capitalista criou.

Os EUA e Israel podem até perder conjunturalmente a guerra contra o Irã, mas a sua estratégia de longo prazo para postergar e dificultar a sua decadência histórica ganha espaço e fôlego quando reforçam o caos geopolítico permanente, baseado nas guerras eternas que enriquecem e empoderam a pequena elite da burguesia neofascista estadunidense e israelita e saciam a sede de sadomasoquismo do seu mórbido séquito de classe média.



Sugestões de leitura com afinidades de conteúdo:
> As forças destrutivas do capitalismo
> Coronavírus, crise capitalista e o princípio do declínio do império norte-americano

quinta-feira, 26 de março de 2026

O que o escândalo de corrupção do Banco Master poderia ensinar ao povo, mas não ensina?

O escândalo do Banco Master, liderado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, deixa claro, para quem tiver olhos para ver, como opera o sistema financeiro e o próprio capitalismo no nosso país.

Desde o judiciário, passando pela grande mídia e o crime organizado, estourando, como sempre, nos políticos — sobretudo nos de direita —, o escândalo é a expressão do funcionamento do sistema capitalista, o que liga a luz de alerta para a grande mídia na hora de fazer a sua “cobertura jornalística”. Poucas vezes vemos estourar escândalos de corrupção protagonizados por banqueiros, mas todos sabemos — ou deveríamos saber — que é assim que funciona a dívida pública e o sistema financeiro: se salva a bancarrota privada a partir do dinheiro público, que, por sua vez, endivida o país e empobrece largas camadas populares.

As grandes emissoras — tendo a Globo à frente — se desdobram num contorcionismo brutal para tentar livrar a cara do sistema, como se fosse o caso isolado de um banqueiro inescrupuloso e maldoso, além de jogar com os nomes políticos de ocasião, inclusive tentando culpabilizar indivíduos que não estavam diretamente envolvidos. Seria bastante visível e pedagógico para o povão perceber que se trata de uma forma de roubalheira institucionalizada, que segue operando neste exato momento de outras formas, com outros atores, sendo esta uma das causas da pobreza de milhões de brasileiros.

No entanto, a noção política do senso comum, cultivada há anos pela doutrinação da mídia comercial, por noções sociológicas equivocadas das universidades e das organizações militantes de esquerda, além da própria estrutura da psiquê coletiva da grande massa, impedem de se tirar tais conclusões, o que facilita o trabalho da grande mídia em manter a dominação de classe.

Qual é, enfim, o senso comum que embaça a visão do povo?

Até hoje a mídia e a ideologia burguesa lograram imputar a corrupção apenas à política e ao setor público. O setor privado é sempre visto como idôneo e confiável. Isso significa que, por diversas razões, o povo não enxerga a corrupção do Banco Master como a forma do capitalismo operar, que é uma expressão da libertinagem dos empresários e do setor privado, que só então, procurando meios de se “legalizar”, terminam por corromper os políticos.

O que a mídia burguesa — e a inoperância e o dogmatismo da agitação e da propaganda por parte da esquerda — consegue fazer valer é reforçar a noção de que a corrupção é um caso isolado que está quase que exclusivamente na política e nos políticos — isto é, no setor público, no Estado, nos governos — e quase nunca no sistema financeiro, no mercado, no setor privado — dito em poucas palavras: no funcionamento do capitalismo!

Este é o grande trunfo ideológico da grande mídia burguesa que a esquerda não se atenta e não combate, senão que o reforça, deixando uma avenida livre para a manipulação e a confusão. Este associação automática de corrupção ao público e ao político; e da virtude e da eficiência ao privado e ao mercado é parte indissociável do imaginário e da narrativa nacional que embota a consciência do povo brasileiro — não sem a sua própria adesão voluntária a ele numa falsa esperança de enriquecer para não precisar mais trabalhar e não ser mais tão humilhado.

O povo brasileiro, doutrinado por décadas no neoliberalismo midiático e por séculos nesta narrativa liberal, olha os grandes empresários e banqueiros com ares de simpatia, e são mesmo até capazes de lhes imputar algum tipo de isenção nestes escândalos, voltando seus olhos, sua raiva e sua atenção controladora apenas para os políticos, como se não houvesse estreita relação entre todos estes atores — sendo os primeiros os responsáveis por controlar e corromper os segundos.

Temos, então, um duplo serviço ideológico: 1) se livra a cara do setor privado e do próprio capitalismo, que é visto como idôneo e “justo”; 2) cria-se ojeriza no povo pela política e pela própria atuação política, vista apenas como campo de proliferação da corrupção, o que deixa o caminho livre para a perpetuação dos mesmos de sempre.

Como parte desta compreensão brota das simpatias do próprio povo para com o setor privado, se tornaria ainda mais importante uma intervenção ideológica cirúrgica da esquerda sobre tal tipo de mentalidade. 

E se alguém por acaso tem algum tipo de dúvida quanto a esta tese, que saia na rua conversando sobre o caso Master com qualquer pessoa nas paradas, nos ônibus, nos botequins, nas escolas de periferia ou nos locais de trabalho, que facilmente poderá confirmá-la…


Sugestões de leitura com afinidades de conteúdo:
> O povo brasileiro não tem feito história, mas sofrido-a
> Afinal, o pobre de direita existe ou não?
> A autoestima do povo brasileiro e a estratégia revolucionária
> Por que a classe trabalhadora brasileira ainda acredita em Lula?

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Conversa mole dos capitalistas chineses não pode levar ao comunismo



Quando Deng Xiaoping realizou as reformas de abertura ao mercado e ao Ocidente na China, ele disse:

“Conversa mole não vai levar nosso programa de modernização a parte alguma. [...] Certos camaradas nossos tratam ainda de fazer metafísica entre as relações da política com a economia, entre revolução e produção. [...] Eles não falam a não ser em política, eles não dizem nada de economia: eles falam apenas em revolução e não em produção”.

Pois bem, hoje a China se tornou o principal polo econômico de ciência e tecnologia do mundo ao ponto de mudar a balança geopolítica a seu favor. Segundo Deng, a chave para atingir a modernização era o desenvolvimento de ciência e tecnologia.

Esse assombroso avanço das forças produtivas desbancou gradualmente o poderio econômico e político dos EUA no mercado internacional e a tal da modernização, tão almejada pelo Partido Comunista chinês, foi — ou está sendo — atingida. Portanto, até o ponto de transformar a China na principal potência mundial, Deng estava correto.

           Mas e o socialismo e o comunismo?

Só temos escutado a China falando de ciência, tecnologia e modernização. E os outros princípios do socialismo? Controle operário [ou proletário] da produção? Socialização das principais decisões políticas e econômicas do poder “comunista”? Onde está a conformação de novas relações sociais e de uma nova psicologia de massas capaz de fazer a classe trabalhadora assumir gradativamente o comando e o poder real?

Pode-se contra-argumentar que ainda é cedo, pois as condições ainda não estão maduras.

Mas onde estão os embriões? Para onde apontam a política e a economia geral não só na China, mas, também, nos países dos BRICS para a criação dessas condições?

A conversa mole dos “camaradas” hoje fala apenas em “modernização” e não em controle operário da produção ou novas relações sociais.

Se fala em “erradicar a pobreza extrema”, mas ainda há pobreza e ausência de poder; se fala em “sociedade moderadamente próspera” e não mais em “mudar as relações sociais”; se fala em uma “nova classe média” e não mais em classe trabalhadora. Onde, então, se trabalha no sentido da socialização dos meios de produção, do controle proletário da produção e de novas relações sociais, mais humanizadas e menos mercantilizadas e consumistas?


***


Guardadas as devidas proporções, talvez o mesmo tenha se passado com o “socialismo do século XXI” venezuelano.

As mobilizações populares não se concretizaram em novos canais sociais de administração pública de poder real, de cultura, de educação, nem em novas relações sociais entre as pessoas. O que o chavismo fez foi dividir um pouco menos desigualmente a riqueza oriunda da renda do petróleo através de programas sociais. Nem mesmo vimos por lá o boom de ciência e tecnologia que a China vivenciou.

Ou seja, “modernizou” a sociedade do ponto de vista do acesso ao consumo — e, ainda assim, de forma muito restrita, diferentemente da China, pois o imperialismo estadunidense dificultou o consumo através do embargo e de sanções econômicas ao país caribenho —, porém, o imaginário social, as relações humanas e institucionais continuaram operando de um ponto de vista burguês e de classe média. Permaneceram, portanto, como presas fáceis das iscas capitalistas, inclusive dependendo da tecnologia estadunidense de combustível extrativista fóssil — tal como o Brasil também depende.

De um modo geral, não se viu e não se vê na Venezuela e na China o enfrentamento aos problemas e dilemas da psicologia de massas, que fica refém da manipulação das taras, dos ódios, da cobiça e do sadomasoquismo por parte do conservadorismo ou da extrema direita, que operam a partir das redes sociais e das mídias a serviço do imperialismo — sobretudo na Venezuela, pois o governo chinês exerce controle sobre as redes sociais e as mídias ocidentais que sabidamente trabalham para desestabilizar e sabotar os países, quando assim o desejam.


***


Para além da modernização das forças produtivas, o socialismo precisa criar condições para a individuação das pessoas, possibilitando a maturidade emocional e evitando que a sociedade crie em escala industrial pessoas narcisistas, egocêntricas, voltadas a si mesmas e incapazes de perceber o outro, a dor do outro, mantendo, portanto, as relações mercantis e utilitárias do capitalismo. Se somos capazes de criar uma sociedade que comporte pessoas maduras, podemos criar relações sociais mais verdadeiras e mais livres, sem a necessidade de se criar subterfúgios para explorar outrem e subordiná-los aos nossos interesses pessoais mais utilitários e mesquinhos.

A verdadeira liberdade não é se fazer tudo o que se quer, mas é estar livre das influências inconscientes perniciosas.

Sem a individuação e a maturidade emocional interior o comunismo é impossível, pois somente se pode atingir um estágio evolutivo social sem estado e classes sociais — e, portanto, atingir um estágio de plena democracia, isto é, sem lideranças — se a massa humana for capaz de pensar por conta e risco e superar sua condição de rebanho, que é sempre passível de ser manipulada para que os ricos e poderosos joguem uns contra os outros.

Aqui vale relembrar a luta teórica de Rosa Luxemburgo contra a social-democracia alemã, quando esta, através do seu jornal Vorwärts [Avante!], tentou assassinar espiritualmente a revolução erguendo de novo diante da massa aquele quadro de bronze que há milênios a burguesia e toda a classe dominante opõem aos oprimidos e no qual está escrito: “vocês não estão maduros; vocês nunca poderão sê-lo, é uma ‘impossibilidade intrínseca’; vocês precisam de dirigentes; nós somos os dirigentes” (extraído do texto As massas “imaturas”).

Onde e quando, portanto, pararemos de nos conformar com “conversa mole” restrita à ciência e tecnologia e procuraremos assentar as bases para um novo desenvolvimento pessoal que caminhe no sentido de novas relações humanas, menos egocêntricas, narcisistas e utilitárias, e mais recíprocas, coletivas, autênticas e com real poder decisório e democrático sobre a política e toda a sociedade?

Um povo só começa a ser povo quando cada singularidade necessita categoricamente ser plural. E é precisamente a necessidade de ser plural que leva a nos buscarmos, vermos as caras, os medos e as ousadias, entendendo que quando ajudamos os outros a superar o seu próprio sofrimento, isto nos ajuda a superarmos o nosso. E o poder político — ainda mais os autointitulados “socialistas” e “comunistas”  precisam trabalhar impreterivelmente nesse sentido.

A principal vitória do socialismo — para além da industrialização, da eliminação do analfabetismo, do desenvolvimento da tecnologia e de condições materiais básicas para o proletariado — estará na sua capacidade de formar adultos com caráter, socialmente auto-suficientes do ponto de vista intelectual e emocional (mas sempre ligados entre si pelos interesses gerais da sociedade e respeitando os ciclos da natureza), para que estes possam educar as crianças no mesmo sentido. Neste esforço, a compreensão sobre o papel do trabalho e da sua necessidade social é fundamental, bem como a luta contra o irracionalismo das massas e o seu espírito de rebanho.


Sugestões de leitura com afinidades de conteúdo:
A ascensão mundial da China
Socialismo com características chinesas ou capitalismo de Estado?
A ética confucionista e o espírito do novo capitalismo chinês

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A psicopatia do império e o sequestro de Maduro

 


O inaceitável sequestro de Maduro veio na esteira do lançamento da Doutrina Trump, que expõe ao mundo a psicopatologia do império.

A superioridade militar estadunidense, usada para sufocar e chantagear quem ousa criticá-lo, foi rápida e fatal. Mas nenhuma guerra, por mais superioridade tecnológica e militar de que disponha um dos lados, pode ser vencida sem um aparato de propaganda e narrativas que prepare o caminho.

Sabemos que a grande mídia latino-americana foi a principal arma de guerra do império estadunidense, secundada pelas sanções e embargos econômicos de décadas à Venezuela. Mas há ainda uma arma de guerra que precede tudo isso, sem a qual o jornalismo mercenário não pode fazer efeito: o estilo de vida, a filosofia pragmática e a economia sustentada pelo império norte-americano que naturalizam e legalizam a psicopatia em larga escala, cujo ápice foi atingido com as práticas neofascistas do governo Trump.


A psicologia de massas como arma de guerra

Não é somente a alta tecnologia militar da máquina psicopática de guerra dos EUA que desarma os radares de caças e mísseis de qualquer país, mas o tipo de propaganda política institucional, o jornalismo neocolonial e a filosofia de vida que torna inútil uma “bateria antiaérea racional” para o povo, fazendo “patriotas” se ajoelharem e prestarem continência à bandeira imperialista estrangeira.

Quando se chega a este estado de coisas é como se um vírus se espalhasse por entre as pessoas, anulando qualquer capacidade e esforço racional, por mais bem montados que sejam.

Nesse sentido, a principal arma de guerra do império estadunidense contra a América Latina não é a bomba atômica, os porta-aviões, a IA, os drones ou o que quer que seja no campo militar, mas a mente do seguidor de Bolsonaro, Milei, Kast e do gusano da Flórida, cuidadosamente cultivada por anos de propaganda neoliberal, a que chamam de “jornalismo”. 

Trata-se do melhor cavalo de Tróia que pode haver, pois entende entreguismo como patriotismo; pirataria, saque e extorsão como desenvolvimento econômico; além de ser imune a todo fato histórico ou argumento racional, celebrando a injustiça como algo digno e desejável. Ela não só antecede as invasões, como prepara o caminho para o ataque estrangeiro, comemorando-o como se fosse um título de Copa do Mundo!


A manipulação egotista da psicologia de massas

Mas como o império, com seus sucessivos governos, aparatos militares e propagandísticos, atacando, invadindo e bombardeando abertamente inúmeros países pelo mundo, consegue esse grau de alienação e subserviência?

A resposta é: com a manipulação egóica dos sentimentos infantis mal compreendidos e mal resolvidos que existem em nós; com a recusa em olhar a realidade de frente e de se posicionar levando em consideração as outras pessoas além do nosso próprio umbigo. Muitos destes sentimentos manipulados são psicopáticos e são capazes de gerar prazeres sadomasoquistas.

O império e sua mídia se especializaram em manipular taras, ódios e medos, dentre os quais o maior de todos é o medo da morte, do fim de si mesmo; isto é, do fim do ego. O império logrou associar na mente de bilhões de pessoas a defesa do próprio ego com a defesa dos interesses estratégicos dos EUA.

Defender os sórdidos interesses econômicos dos EUA soa natural para bilhões de pessoas. Os “homens-bomba” norte-americanos explodem em reações emocionais desequilibradas e intolerantes frente ao menor questionamento político da conjuntura, seja na Venezuela, no Brasil, nos EUA ou no mundo. Esta psicopatia é caracterizada por fazer o indivíduo perder a capacidade de empatia e escuta, bloqueando o cérebro racional para fatos e argumentos bem construídos.

Assim, eles endossam ataques, invasões — como o sequestro de Maduro —, bombardeios, guerras e até mesmo genocídios — como o ocorrido em Gaza.

A psicopatia legalizada pelo império através da mídia e de inúmeras instituições políticas legaliza também a violência simbólica e real, as quais exercem um certo fascínio sobre a psique egocentrada, com fortes tendências sadomasoquistas.

Chegamos ao ponto em que os golpes imperialistas acontecem escancaradamente, rompendo qualquer resquício de direito internacional, onde um presidente psicopata, secundado por ministros psicopatas, podem falar abertamente que “vão controlar o governo e o petróleo da Venezuela”; ou que “este hemisfério é nosso”; ou, ainda, que “o mundo é governado pelas leis de ferro da força bruta” e não serem condenados por milhões de pessoas, mas aplaudidos de pé, com os olhos vidrados pelo fascínio da força primitiva, que desencadeia emoções primitivas.

A maioria destas pessoas que aplaudem de pé, são as mesmas que depois vão rezar a Deus e a Jesus pedindo paz e prosperidade para si e para a família; ou, então, vão reclamar da pobreza e das condições precárias do seu próprio país.

É o triunfo televisionado da estupidez humana!

É um brinde à psicopatia!

É a vitória do império do caos, que impõe a economia política da chantagem e a permanente instabilidade nos outros países — em especial na América Latina e no Oriente Médio — para garantir a sua própria segurança nacional.