segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O voto nulo pode criar um novo radicalismo no Brasil?

 


O radicalismo no campo político pode ser um elemento fundamental para uma revolução, mas pode também se transformar num empecilho quando ignoramos as probabilidades da vida real. Aí tendemos a cair no equívoco de querer impor ao mundo real aquilo que é racionalmente demonstrado nos nossos “mais corretos” discursos.

Parece que é justamente esse o erro no qual incorre a organização “Revolução Brasileira” (RB — ex-corrente interna do Psol, hoje organização independente). A sua defesa do voto nulo, que poderia ser considerada apenas uma tática para enfrentar o período eleitoral, tem ido muito além disso. A principal justificativa da RB para defender o voto nulo nas eleições de outubro tem a intenção de construção de um “novo radicalismo” no nosso país.

Com relação a esse nobre ideal não há o que se objetar. O arsenal da esquerda está, sem dúvida, defasado; tanto quanto o arsenal do exército brasileiro está defasado em relação aos exércitos imperialistas. No entanto, assim como não se adquire um novo arsenal militar para um exército sem uma preparação prévia, que envolve a criação de condições econômicas, sociais e culturais, além de uma doutrina militar arrojada; da mesma forma, não se cria um novo radicalismo apenas com a força da vontade, aos gritos, sem examinar com cuidado as condições reais da sociedade brasileira e levá-las escrupulosamente em consideração.

Se temos uma excelente análise econômica, mas ignoramos ou menosprezamos outros elementos constitutivos da realidade, como cultura, ânimo e, sobretudo, a psicologia de massas, certamente nos faltará um importante termômetro que não pode ser suprido apenas pelo voluntarismo da suposta “exatidão das nossas análises”.

Do ponto de vista econômico e das suas consequências políticas, a crítica da RB ao petismo e à esquerda institucional (e youtuber) está correta. É esse um dos motivos do ódio da última, às vezes declarado, às vezes escondido atrás de elogios de ocasião, em relação à primeira. Porém, é preciso ver onde essa crítica se torce demais e passa a ser um problema. 


Pode-se criar um novo radicalismo via eleições burguesas?

O ponto alto da análise da conjuntura da RB é, como foi dito, a crítica ao petismo e aos seus governos, corretamente chamados de “liberais de esquerda”. Crítica esta que o ativismo petista e os seus simpatizantes não conseguem responder sem recorrer à ataques pessoais ao principal teórico da RB. A sua crítica tem despertado resistência no ativismo petista, que geralmente quer fazer como a classe média faz em relação aos seus privilégios sociais: não basta só ter privilégios, é necessário também criar uma narrativa que nos deixe bem com a nossa própria consciência frente a estes privilégios. 

No caso de ativistas petistas, trata-se de ficar bem com a sua própria consciência política, mesmo vendo que existem inúmeros problemas nos seus governos e na sua atuação prática. A crítica da RB toca nestas feridas, que são respondidas de forma agressiva por parte de figuras públicas do petismo, do Psol e de suas organizações simpatizantes.

No entanto, a RB transforma a questão eleitoral e o voto nulo em princípios, pois ignora diversos elementos da realidade. Se uma organização ou um ativismo específico fazem críticas aos governos petistas, mas votam neles no primeiro ou no segundo turno, então transformam-se em lulistas e tudo está acabado, como se o voto nas eleições burguesas definisse tudo.

Por exemplo: não interessa mais qual a relação prática entre esse ativismo e o petismo nos demais espectros da realidade, como crítica social, trabalho de base, sindicatos, movimentos sociais, greves, etc. Nem sequer o tipo de propaganda eleitoral que se faz — se é voto crítico, se existe crítica real, se não existe; se existe apologia descarada ou disfarçada, e assim por diante.

O voto contra ou a favor do PT passa a ser a régua de princípio pela qual a RB mede quem é quem. E, a partir daí, se iniciam gritos e contra-gritos, muitas vezes, intolerantes (que não são respondidos de forma muito melhor por parte do petismo e adjacências). Isso não é tratar as eleições burguesas como uma questão de princípio ou, no mínimo, dar à ela um poder muito maior do que aconselham os teóricos que criticaram o cretinismo parlamentar?

O ponto mais fraco e perigoso da análise da RB está no fato de menosprezar a ascensão do neofascismo no cenário brasileiro e internacional, ao ponto de negar a sua existência.

Se, por um lado, sabemos que o petismo se utiliza do discurso de “ameaça fascista” para reforçar tudo o que já faz de conciliador e rebaixado, agora vendido como “necessário”; por outro, ignorar a ascensão de um movimento novo e perigoso contra toda esquerda — incentivado e dirigido pela oligarquia estadunidense — é um erro crasso, pois sem reconhecer a existência deste neofascismo e a sutileza dos seus métodos, será impossível combatê-lo com sucesso.

O “neo” à frente do “fascismo”, formando o termo “neofascismo”, é justamente para demonstrar que não se trata do fascismo clássico dos anos 1930 e 1940, nem que necessariamente o bolsonarismo “fechará o regime”. O neofascismo atual é um movimento criado pelo imperialismo decadente, os EUA e seus satélites, para a manutenção do seu domínio mundial e dos seus mercados, ameaçados por China e Rússia. Assume variadas formas de acordo com os seus interesses geopolíticos. Se assemelha ao fascismo clássico pelo terrorismo de Estado ou pelo terrorismo mercenário seletivo das chacinas policiais, pela xenofobia, racismo e um conservadorismo radical. Como todo fascismo, é um movimento antiproletário e anticomunista. 

Dissemina ódio, preconceito, fake news das formas mais escabrosas, dando justificativas para guerras, assassinatos, ditaduras militares e genocídios, embora possa conviver com as instituições democrático-burguesas num permanente cabo de guerra (o que prende atenção popular e facilita seu trabalho). O neofascismo traz à tona hoje o que os liberais tentaram esconder durante o período das guerras mundiais: a sua similaridade autoritária com o nazi-fascismo. Quando as regras do jogo deixaram de beneficiar o “livre mercado” dos EUA frente à ascensão da China, eles recorreram a todo tipo de sabotagem e intervenção arbitrária (guerra comercial, tarifas artificiais, pirataria, guerra relâmpago, intervenção eleitoral, revoluções coloridas, golpes, etc.). 

Nas décadas de 1930-1940, o liberalismo ianque e europeu vendiam-se como anti-fascistas e anti-autoritários, mas no século XXI, com a decadência do imperialismo estadunidense expressa através do governo Trump, vemos o questionamento das próprias instituições “democráticas” a partir de uma agitação “antissistema” e de uma manipulação emocional da psicologia de massas dos povos do mundo. O discurso a favor da ditadura militar de Bolsonaro e Milei não deixa de conviver com os seus parlamentos burgueses, embora seja sempre uma possibilidade a nos espreitar. É um tipo novo de movimento conservador, pensado justamente para se utilizar dos mecanismos e brechas dessas instituições. Ao se afirmar como “antissitema”, o neofascismo termina por… reforçar o próprio sistema! O bolsonarismo é a aplicação desse neofascismo no Brasil, Trump e Steve Banon são os seus fundadores estadunidenses; Milei é sua versão argentina; Kast, a chilena; Orban a húngara, e assim por diante.

A própria RB faz um recorte de caracterização quando chama o bolsonarismo de “proto fascista”, demonstrando que há sim diferenças entre a direita tradicional e o bolsonarismo, ainda que embrionariamente. Porém, infelizmente não é consequente com o próprio recorte que faz.

É possível, pois, caracterizar a existência do neofascismo na realidade e não prestar apoio político, sindical e prático ao petismo. Esta é, aliás, uma condição teórica importante para a criação de um novo radicalismo que interesse à classe trabalhadora brasileira.


A ausência de uma análise a partir da psicologia de massas

A RB afirma que Lula frauda sistematicamente suas promessas, enquanto que “o alienado” faz o quê? Vota novamente e acredita em Lula, alimentando muitas esperanças. De fato, Lula frauda sistematicamente estas esperanças eleitorais, embora atenda esperanças utilitárias de muita gente, como bolsa família, minha casa minha vida, acesso à universidade, etc. Esperanças, no mais das vezes, identitárias, além de “pragmáticas” para os “pobres”.

Se aliviam o sofrimento imediato — o que ninguém questiona —, sabemos que cria um círculo vicioso permanente que ajuda o sistema a se manter a longo prazo. E, isto sim, deveria ser questionado. O grande problema é: por que as pessoas não questionam?

A RB enche a boca para dizer que os eleitores que votam no bolsonarismo não aguentam mais a hipocrisia do petismo; reconhecendo, também, que a maioria dos 53 milhões de eleitores bolsonaristas, é constituída por trabalhadores. Observação correta, mas que não avança para além do óbvio. Por que quase 53 milhões de trabalhadores estão seduzidos, hipnotizados e fascinados pelo discurso de ódio do “proto fascista” Bolsonaro? Enquanto que outros 50 milhões continuam acreditando em Lula, que “frauda sistematicamente suas promessas”, e quando se irritam com a “hipocrisia petista” vão à direita e não à esquerda revolucionária?

A resposta da RB fala sobre a existência de uma “consciência ingênua” entre as grandes massas. Certamente ela existe. Mas constatar isso não nos faz avançar nenhum centímetro, dado que é óbvio a sua existência. O ponto central é: por que existe uma “consciência ingênua” e por que ela não avança à esquerda?

Este é o ponto exato que precisa ser entendido para que seja possível a criação de um novo radicalismo. Não basta depositar toda a culpa no petismo, pois isso não explica nada, senão que nos deixa presos numa tautologia. A psicologia de massas demonstra que operam nas multidões forças irracionais que, mesmo frente aos melhores discursos econômicos mais bem embasados e racionalizados, terminam por sucumbir ao canto da sereia da invocação das taras, ódios, sadomasoquismos contra a pobreza, a miséria, o “comunismo”, contra si mesmo, dentre outros.

E somente jogar a culpa em cima das “direções reformistas e traidoras”, como é o petismo, não ajuda a esclarecer as reais motivações da massa ir à direita quando “perde a paciência com as hipocrisias petistas”. Por que a massa não perde a paciência com a hipocrisia dos partidos de direita e do bolsonarismo? Com a corrupção bolsonarista? Com a hipocrisia dos pastores evangélicos, dos políticos-coaches, etc? E, quando eventualmente uma parte perde esta paciência, por que ela termina nos braços do petismo?

Em síntese: porque a massa acredita e se mobiliza com os “antissistemas” de direita (tipo Bolsonaro, Marçal, Milei, etc.), mas não dá ouvidos aos antissistemas da RB, do PSTU, da UP, do PCB, da LBI, dentre outros?

Como, então, criar um “novo radicalismo político” no Brasil sem buscar entender os mecanismos e armadilhas da psicologia de massas, que têm se “radicalizado à direita”, apenas invocando o voto nulo, ademais já levantado por muitas pequenas organizações Brasil afora? 

A RB ainda sustenta que “a sociedade brasileira está ultra radicalizada”. Sim. Está ultra radicalizada à direita; e nada acontece à esquerda. Basta observar a postura de muitos trabalhadores frente aos seus sindicatos, nas mobilizações de rua, nos comentários de botequim, de rua, nos ônibus, nas escolas e nas redes sociais, para se tirar uma febre. Tal “radicalização”, que não tem se traduzido em maior mobilização, maior questionamento das burocracias sindicais e políticas, capaz de apontar para a massificação de um partido revolucionário, não pode servir aos interesses históricos dos trabalhadores (o mesmo pode ser dito acerca do voto nulo); em síntese, este tipo de “radicalização” não tem se transformado em situação revolucionária, mas em atos da direita por “deus, pátria e família”; contra a “corrupção do PT” e, até mesmo, “contra o comunismo”.

Infelizmente não basta ter a “melhor análise econômica e política do mundo”, é preciso entender como o neofascismo — assessorado, lembremos, por Steve Banon e Trump — conseguiu criar uma racionalidade às avessas, que vê entreguismo como patriotismo; pirataria, saque e extorsão de si próprio como desenvolvimento econômico; privatização que empobrece a maioria como a “solução”; além de ser imune a todo fato histórico ou argumento racional verificável hoje pela internet ou por fontes relativamente acessíveis, celebrando a injustiça das desigualdades sociais como algo digno e desejável.

Defender os sórdidos interesses econômicos dos EUA soa como algo “natural” para milhões de pessoas em nosso continente. É isso que a propaganda ianque de “nosso hemisfério” trabalha no inconsciente coletivo. Os defensores do capitalismo norte-americano entre os latino-americanos explodem em reações emocionais desequilibradas e intolerantes frente ao menor questionamento político da conjuntura, seja na Venezuela, no Brasil, nos EUA ou no mundo. Vê sempre Venezuela e Cuba como ditaduras, ignorando todo o seu histórico; enquanto que as guerras e sabotagens dos EUA e de Trump são sempre aceitas como “defesa da democracia”. Esta psicopatia é caracterizada por fazer o indivíduo perder a capacidade de empatia e escuta, bloqueando o cérebro racional para fatos e argumentos racionais bem construídos.

O neofascismo e o imperialismo já perceberam que a esquerda, no geral, tende a ser a campeã do discurso racional e “perfeito”. Entretanto, a psicologia de massas é formada por inúmeros fenômenos irracionais que são manipuláveis — isto foi falado há quase um século por Le Bon, Freud, Edward Bernays, Wilhelm Reich, dentre outros, mas solenemente ignorada pela esquerda. Ela é contraditória por natureza: dá valor, simultaneamente, ao esclarecimento e ao mistério; ao pragmatismo e ao transcendental; ao poder e à humildade; à interdependência e à individualidade; dá ouvidos igualmente ao cientificismo e ao misticismo.

Após anos de técnicas testadas e aplicadas via indústria cultural, vemos a situação se deteriorar ainda mais com o surgimento das redes sociais e a engenharia política da Cambridge Analytica — todos eles métodos neofascistas por excelência, aperfeiçoados por Steve Banon e Trump para disseminar ódio e preconceito de classe, culminando na ideia de que é possível imaginar o fim do mundo, mas não o fim do capitalismo. Esta aparente falta de perspectiva tem levado ao adoecimento psíquico em massa, banhado com remédio de tarja preta, aumentando não a mobilização, mas a letargia, o utilitarismo, o individualismo e o egoísmo. Frente a tudo isso, o discurso e o programa racional não se tornaram desnecessários, mas, sim, devem ter os seus limites compreendidos e novas táticas de combate desenvolvidas. 

Ao que tudo indica, o novo radicalismo da RB não leva nada disso em consideração, nem as outras organizações da “esquerda revolucionária” procuram entender a conjuntura fora daquilo que estão acostumadas a repetir “dos clássicos marxistas”, enquanto que o petismo e o oportunismo, no geral, surfam na onda da psicologia de massas, reforçando o polo emocional e manipulável ao seu modo.

O próprio espontaneísmo do século passado se transformou num “espontaneísmo de direita”, conservador. A massa quando se mobiliza, o faz por utilitarismo; e quando organizações de esquerda propõem consignas, programas, palavras de ordem e ações mais radicalizadas, geralmente levando em consideração apenas o racionalismo, terminam isoladas — diferentemente do que acontecia em fins do século XIX e meados do século XX, quando o poder de mobilização estava visivelmente com as organizações proletárias. Todos estes fatos colocam um problema novo — não conhecido por Marx, Engels e Lenin — que obriga a esquerda revolucionária a avançar sozinha, repensando as estratégias e reafiando a navalha com outras pedras de amolar.

Nos últimos meses temos visto as mobilizações bolsonaristas perderem força, mas isso não significa que esta suposta “radicalização da sociedade brasileira” aponte para a esquerda. Ao contrário. Tem muito trabalho de base a ser feito, não para reproduzir cegamente mais do mesmo, mas para entender o que se passa na mente de milhões de trabalhadores e tentar dar respostas criativas e novas a velhos problemas. Sem isso, não há novo radicalismo possível, apenas o fortalecimento do radicalismo de direita — não sem o “polo emocional opositor” tensionado inconscientemente pela esquerda e, obviamente, aproveitado e exagerado conscientemente pelo neofascismo.


Voto nulo é realmente uma campanha de politização se se desconsidera o perigo potencial do neofascismo?

Esta crítica à postura da RB não tem como finalidade desmerecer a sua campanha pelo voto nulo com argumentos inquisitórios, rebaixados, eleitoreiros desesperados, descambando para acusações identitárias, para combater sua crítica à política econômica petista. Não, nada disso!

Já escrevemos em outros artigos que nem o voto nulo, nem o voto crítico são “pecados” em si mesmo, tal como preconizam os “militantes religiosos” em suas diferentes profissões de fé — ainda que possuam consequências práticas em cada conjuntura. A militância que hoje chama voto nulo, por menor que seja, está sempre na luta, no dia a dia, e precisa ser valorizada por isso, sempre! Está tentando buscar um caminho, como todos nós. Execrá-la a partir de ataques pessoais é, também, um desserviço. Existem muitos pontos de verdade nas suas declarações e na sua ânsia de luta que faltam para aqueles que esperam resolver tudo via eleições, parlamento e sindicatos oficiais.

No entanto, não é possível concordar com o fato de haver politização em campanha pelo voto nulo quando se coloca tudo no mesmo balaio de gato, facilitando a velha catarse de simples ódio aos políticos que não nos leva a lugar algum, além de simplesmente ajudar o neofascismo a se camuflar, diminuindo, menosprezando ou mesmo apagando a sua grave ameaça política como se, a despeito de todo o peleguismo petista, fossem exatamente a mesma coisa.

A psicologia de massas do fascismo opera na simplificação e não na complexidade. Diluir tudo no mesmo balaio de gato facilita o trabalho e a agitação tanto do neofascismo quanto do petismo. Parte da politização e da radicalização da massa trabalhadora não está, justamente, no fato de ajudá-la a discernir entre os fenômenos?


Gritos podem substituir a ausência de um partido revolucionário com influência de massas?

Os camaradas da RB ainda dizem que a sua proposta de voto nulo deve ser vista como um protesto consciente contra a podridão do sistema político, contra a continuidade do ultraliberalismo com Flávio ou com Lula. É difícil perceber essa clareza nos votos nulos. Geralmente são um amontoado incoerente e inconsciente de indignação, muitas delas podendo ser, até mesmo, de direita. Evidentemente que existe, também, uma parcela de protesto, mas no momento histórico em que vivemos, sem partido revolucionário e com um “espontaneísmo de direita”, o voto nulo dificilmente terá essa qualidade, mesmo que diversos grupos de militantes gritem de norte a sul tentando politizá-lo. Essa qualidade o voto nulo só teria se fosse chamado por um partido revolucionário com influência de massas — geralmente beirando uma situação revolucionária —, coisa que não existe no momento.

Se houvesse um partido revolucionário com influência de massas, seria possível disputar e politizar o voto nulo. Mas, sem este elemento fundamental, infelizmente ele tende a se transformar numa massa amorfa, que não excede a uma estatística confusa, muitas vezes apenas retomando o ódio contra a política e o próprio país, os partidos no geral, sem apontar para nada.

É por isso que frente à ascensão do neofascismo se torna um uma tática equivocada, o que não anula a importância da crítica da RB aos governos petistas. Nem deve nos tornar sectários, tipo aqueles petistas fanatizados, que querem isolar e chafurdar ainda mais no cretinismo eleitoral contra quem os critica, só rebaixando o debate público ao invés de aprender a elevá-lo. O voto nulo é equivocado neste momento porque além de ser um passo muito maior do que a classe trabalhadora demonstra ter disposição de dar (já que está dividida entre petismo e bolsonarismo), dificulta que a crítica à política econômica e aos governos petistas chegue à sua base e crie raízes. Também não serve de alerta contra o próprio perigo do neofascismo, já que o dilui e o coloca como “igual ao petismo”.

Chamar voto crítico em Lula, por outro lado, não pode significar apenas disseminar ilusões de que ele “pode governar em nome dos trabalhadores”, como fazem muitas organizações, partidos de “esquerda” e ativistas desesperados frente ao bolsonarismo. O governo Lula precisa ser chamado pelo que é: liberal de esquerda; nenhuma crítica ao neofascismo bolsonarista deveria perder essa perspectiva.

No entanto, afirmar que Lula é exatamente igual a Bolsonaro para poder tornar mais crível a tática do “voto nulo” é um desserviço, pois distorce a realidade para dar razão à sua própria política, apagando nuances fundamentais da situação nacional e internacional. Insistir que Lula e Bolsonaro são exatamente iguais não repetiria os erros cometidos na Alemanha de 1930, pré-ascensão do nazismo, quando o Partido Comunista alemão afirmava que a social-democracia era gêmea siamesa do nazismo?

Do ponto de vista macroeconômico, realmente não existem diferenças entre lulismo e bolsonarismo; mas do ponto de vista da psicologia de massas, do dia a dia e das ilusões da sociedade brasileira, existem muitas, que precisam ser observadas se queremos chacoalhar os trabalhadores, para que acordem!

Por exemplo, a política institucional frente ao crime organizado não é a mesma: o bolsonarismo autoriza batalhões assassinos nas periferias, legalizando ditaduras e chacinas contra a pobreza — inclusive isso é parte da sedução do seu eleitorado sádico de classe média; a tímida e claudicante política petista tende a evitar estas chacinas. O bolsonarismo legaliza gabinetes do ódio abertos e ocultos, que disseminam, como um câncer, inúmeros preconceitos neofascistas, de ódio, anticomunistas, anti-povo, etc; o petismo, não. 

Como “primeiro pedagogo do povo brasileiro”, o bolsonarismo ensina o ódio sádico para o povo, cria cortinas de fumaça diárias com tramas escatológicas, escabrosas e nefastas, pavimentando o caminho para o entreguismo total. O petismo realiza um entreguismo parcelado e, por vezes, envergonhado (se não fosse assim, não teria sofrido o golpe do impeachment em 2016). O entreguismo parcelado, certamente, não deve ser exaltado estupidamente como a única política possível — nem disfarçado, tal como fazem os petistas —, mas, tal “diferença” não pode ser descartada, dada a situação de desmobilização e confusão direitista da maioria dos trabalhadores brasileiros.

Além dessas pequenas diferenças, existem outras relacionadas à questão internacional, que é central e define todo o cenário eleitoral nacional: trata-se da disputa mundial entre EUA e China. O petismo aposta nos BRICS e na ascensão mundial da China, ainda que não saiba o que fazer no bloco e também pague muitos tributos como vassalo aos EUA e à própria China; o bolsonarismo, por seu turno, é a correia de transmissão direta dos EUA. Seu surgimento como movimento neofascista é justamente para evitar a ascensão mundial da China, a desdolarização e a expansão e consolidação dos BRICS (basta ver as declarações de Steve Banon acerca disso antes das eleições de 2022 clicando aqui).

Por tudo que foi dito, nestas eleições, nem o “voto crítico” no petismo — a depender da forma como é exposto — é um crime oportunista inafiançável; nem o voto nulo é um redentor dos pecados políticos, capaz de fazer a massa dar um salto na sua consciência e avançar como que num passe de mágicas para um “novo radicalismo” e para a revolução socialista. O melhor seria se atentar aos movimentos da massa trabalhadora brasileira tal como ela é — dividida entre as ilusões petistas e o fascínio pelo bolsonarismo —, discutir questões eleitorais táticas tentando manter as pontes entre as esquerdas para decifrar conjuntamente a esfinge da psicologia de massas do povo, que, da parte da esquerda socialista, ninguém sabe ao certo como compreendê-la.

A crítica apresentada até aqui é válida tanto para os gritos da RB, quanto para as réplica raivosas e histéricas de petistas feitas contra o voto nulo. Elas beiram as raias do próprio método fascista de intimidação e isolamento de quem pensa diferente (basta ver como atuam as burocracias sindicais dirigidas pela CUT e pelo PT contra oposições minoritárias).

Infelizmente não tem sido suficiente apresentar os melhores argumentos e programas racionalizados — por mais importante que sejam —, mas procurar entender as trilhas subterrâneas das paixões humanas, irracionais por natureza; que conformam o elo por onde o neofascismo e o oportunismo puxam os seus cordões. É precisamente aí que a esquerda revolucionária necessita intervir para criar não só um novo radicalismo de esquerda, mas o próprio movimento revolucionário, sem o qual, continuará refém das armadilhas da psicologia de massas do [neo]fascismo em sua eterna gangorra com o oportunismo de esquerda.



Sugestão de leituras que ajudam a elucidar melhor os argumentos apresentados acima:
> O que é o bolsonarismo?
> Eleições 2022: o neofascismo cresce, quais serão os seus possíveis próximos passos?
> Bolsonarismo e peste emocional
> O legado de Wilhelm Reich e o que ele tem a nos ensinar sobre o atual fascismo brasileiro
> “A crise do movimento comunista” ainda não superada: uma resenha crítica do livro de Fernando Claudín
> A perversão incurável do eleitorado bolsonarista
> Ordem e milícias
> Como o economicismo se manifesta hoje?
> O conservadorismo das massas
> Bolsonaro e o apoio do povo
> Quem está por trás de Olavo de Carvalho?
> O povo brasileiro não tem feito história, mas sofrido-a
> Sobre o método do voto crítico
> Voto no PT: redenção ou pecado?
> Sobre como o petismo tende a repetir os métodos do bolsonarismo
> O autoritarismo petista nos sindicatos
> Por que a classe trabalhadora brasileira ainda acredita em Lula?
> Gritar contra os políticos é a catarse social brasileira
> Os méritos e os perigos do identitarismo

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Gritar contra os políticos é a catarse social brasileira

O capitalismo é um sistema que tem grande capacidade de readaptação, apesar de passar por inúmeras crises. Com muita maestria, ele mescla o uso da violência estatal e econômica, física e simbólica, ao ponto de lhe dar vantagens que o colocam sempre à frente das análises das organizações de esquerda em, no mínimo, uma década.

Nos séculos XVIII e XIX, após muita resistência operária, os sindicatos foram cooptados; no final do século XIX e ao longo do XX, foi a vez da cooptação do voto e dos partidos operários através do reformismo. A indústria cultural cooptou corações e mentes pelas emoções cinematográficas e o próprio “comunismo soviético”, dentre outras razões, terminou refém de tamanho poder de atração ao movimento operário mundial.

Atualmente vivemos a cooptação dos chamados “movimentos de opressão”, que, ao transformarem-se em identitarismo, vendem a ideia de “auto emancipação” ao mesmo tempo que ocultam posições individualistas para o benefício não declarado do próprio neoliberalismo. A classe trabalhadora como um todo fica refém da esterilidade, pois suas demandas são cooptadas dia a dia através da manipulação da psicologia de massas nas redes sociais, na indústria cultural ou na canalização do descontentamento para saídas individualistas e utilitárias, resultando num adoecimento e depressão em massa.

Mesmo o ódio da massa contra os políticos e partidos tradicionais é passível de cooptação. Caso contrário, algo já teria ocorrido para mudar essa “podre República burguesa”, uma vez que a quantidade de queixas que se escuta diariamente em relação aos políticos é imensa. Porém, parece que quanto mais queixas há, mais os políticos e partidos se reforçam no poder.

Deve haver algo de errado nessa equação.


A cooptação do descontentamento em relação ao sistema político brasileiro

A grande mídia nacional, assessorada pelos técnicos e ideólogos do imperialismo estadunidense, construíram ao longo das décadas — sobretudo a partir da “nova” República pós-ditadura militar — uma sofisticada engenharia de canalização do descontentamento do nada para lugar nenhum, repletos de “minutos de ódio”, onde se pode xingar livremente políticos, governadores e presidentes, possibilitando uma grande catarse social. No caso brasileiro, a reclamação sem nenhum critério ou consequência tem se tornado parte da dominação de classe do sistema.

As organizações de esquerda se animam. Fazem os prognósticos mais otimistas e preparam agitações em cima desses “descontentamentos” e reclamações diárias sem perceber que elas não passam de uma catarse, já que não saem do lugar e a sua principal consequência é a descrença no próprio país.

Seja através da indústria cultural, filmes, novelas; seja através da grande mídia, com seletividade nas coberturas “jornalísticas”, “debates” políticos ou censuras “democráticas” que silenciam sutilmente; seja através de pequenas concessões salariais e/ou materiais, exaltação de líderes — geralmente identitários — e partidos que se tornam porta-vozes informais da ordem; o sistema vai fazendo cair na sua rede um a um qualquer movimento de resistência.

O seu êxito está na forma em que é feito: invisível e angariando simpatia direta ou indireta por parte da população, que é alimentada por sopas ecléticas vindas do Estado, do mercado, das redes sociais, das filosofias de “trabalho”, de coaches, de igrejas evangélicas. Esta sopa é tomada com gosto, já que o seu tempero “tradicionalista” é bem conhecido: vem de casa e da família, desde que somos criança.

Setores da “esquerda”, por sua vez, não compreendem tal catarse, se empolgam com ciclos criados e tolerados pela própria estrutura institucional burguesa, alimentando esperanças a partir de autopropagandas inconsequentes — sejam elas eleitorais ou não. Como grande parte do arsenal teórico da esquerda brasileira veio da Europa, sendo importado acriticamente, a realidade do país acaba sendo mal interpretada, terminando por nos deixar refém de uma aparência de eterno retorno ao começo.


O imaginário paulista é soberano sobre a mentalidade brasileira

Para chegarmos a este estado de coisas, foi necessário um longo trabalho ideológico dos assessores imperialistas estadunidenses prestado à elite brasileira — sobretudo a paulista, que a erigiu em culto de Estado. A reclamação e o ódio aos políticos faz parte deste “culto” que coloca em funcionamento o regime “democrático” brasileiro e lhes dá aparência de “liberdade”.

A engenharia política criada pela ideologia paulista meritocrática está na vinculação de tudo que se proponha a desenvolver o país e garantir direitos para o povo como “populismo”, remontando à luta contra Vargas — não casualmente, transformada no principal feriado estadual de São Paulo.

Então, qualquer político ou partido que tenha um projeto de desenvolvimento nacional, industrialização, defesa de empresas públicas, direitos trabalhistas e aumento salariais, será visto não como um governo necessário, mas como “populista” e demagogo, reles manipulador da vontade e dos sentimentos do povo. Da mesma forma, será condenado caso tenha um projeto de intervenção política e estatal na economia e no mercado, ao que, será acrescentado o rótulo de “ditador”, tornando-se, assim, um “ditador populista”. Esta inversão de papéis serve perfeitamente para esconder a ditadura invisível do mercado, dos seus oligopólios e monopólios, além dos seus crimes, acobertados e incentivados pela grande mídia.

Mas por acaso não existem políticos e partidos populistas?

Evidentemente que sim. 

Contudo, tratam-se de políticos que apenas prometem e não cumprem nada; ou pior ainda, prometem mundos e fundos e na prática só retiram direitos, deixando o povo na míngua. O objetivo do imaginário paulista contra o “populismo ditatorial varguista” (ou “peronista”, na Argentina) visa plantar uma pulga atrás da orelha preventiva sobre o povo, como se o governante tivesse sempre apenas uma estratégia personalista de poder, exercido geralmente de forma inescrupulosa. Ao passo que o mercado e o setor privado seriam idôneos e corretos, “ensinando o povo a pescar” e “não lhe dando o peixe” — para usar uma expressão muito apreciada pela Faria Lima —, ao contrário do que fazem os “maldosos e inescrupulosos populistas”, ao estilo de Vargas e Perón.

Esse estigma funciona como uma cortina de fumaça para esconder as aberrações oligopólicas do mercado e do setor privado, combatendo antecipadamente todo aquele que tenta lhe enfrentar. Por cima de tudo isso paira a sombra da oligarquia imperialista estadunidense, que aplaude e dá o suporte logístico e ideológico para o seu funcionamento. Quanto mais o mercado vira “livre”, mais gera desigualdades sociais e miséria, obrigando o povo a recorrer ao Estado, que já cria previamente o estigma de “populista” para o governo que tentar minimizar os sofrimentos e a fome da classe trabalhadora, mantendo o círculo vicioso. As instituições políticas brasileiras e a sua grande imprensa operam dentro desta lógica.

No povo é plantada a semente da discórdia contra qualquer mudança pra melhor em sua vida, visto que o populismo supostamente o desvirtuaria e criaria mero clientelismo e dependência estatal. Para sustentar tal distorção, apaga-se todo o passado colonial do país, a escravidão, a sua submissão econômica a partir do lugar que o Brasil ocupa no mercado mundial e, sobretudo, a atuação da sua elite nacional — alcunhada, corretamente, de “a elite do atraso” por Jessé Souza — em conluio com a oligarquia imperialista estadunidense. 

O exemplo mais recente deste mecanismo discursivo foi visto na campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro atacando a singela e rebaixada pauta do fim da escala 6x1 como “um debate populista”. Para o zero um, “o cara tem que ter liberdade de trabalhar o quanto quiser”, como se esta fosse a questão central.

Assim, a primeira barreira é colocada por essa ideologia, que faz o povo condenar como “populista” quem tenta usar os recursos do país para o desenvolvimento… do próprio país! E não como oferenda no altar do insaciável deus-mercado mundial.

A segunda é a que aponta como “ditador” todo aquele que intervenha na economia e no mercado visando evitar as distorções e a ditadura [nem tão] invisível dos oligopólios e trustes. O objetivo está implícito: o poder não pode ser exercido pelo Estado, entendido como forças populares visando o bem coletivo, porque por décadas a ideia de se intervir na economia foi execrada como “ditadura” . A partir desta engenharia ideológica fica garantido, também de forma implícita, que o poder só pode ser exercido por uma única força: o mercado — entendido como o setor privado —, tornado invisível e impessoal, já que suas relações sujas com a política são embaçadas ou mesmo apagadas. A partir daí, toda a corrupção e os males políticos são depositados exclusivamente nos políticos e, em especial, nos políticos “populistas” e no setor público.

Isto não quer dizer que o principal opositor do imaginário paulista, Getúlio Vargas (ou mesmo Juan Perón, na Argentina), não tenha incorrido em demagogias nas disputas políticas e em muitos momentos de seus governos, mas isso não pode significar aceitar o rótulo estigmatizante de “populista” para quem realizou ou pretende realizar ações concretas de melhorias na vida do povo trabalhador utilizando-se do Estado.


A bagunça consentida do regime político brasileiro

O imaginário paulista condena qualquer tipo de “ditadura” para poder sustentar que a democracia liberal é a única possível e, inclusive, que o que existe no Brasil se trata justamente de uma “democracia” (mesmo que opere como uma ditadura econômica de uma minoria sobre a maioria).

O regime político brasileiro, cuja expressão maior é o Congresso Nacional, é funcional para o setor privado (portanto, para o mercado); e disfuncional para o povo e para o país. Ele legaliza e tolera oposições parlamentares desonestas e criminosas, que exageram, blefam e sabotam contra a própria soberania do país em plena luz do dia. Parte fundamental deste sistema está fora da política institucional, situando-se na grande mídia, que opera de forma impessoal e supostamente “imparcial”, podendo exagerar, distorcer e sabotar qualquer medida popular que julgar uma ameaça aos interesses do mercado (leia-se, do setor privado) e aliando-se formal ou informalmente à “oposições políticas” dentro das instituições.

Ao dissociar sutilmente os piores escândalos de corrupção dos profundos interesses econômicos do setor privado e do “livre mercado”, a grande imprensa brasileira vende o mal feito por ela mesma e por seus aliados mercadológicos como culpa exclusiva da “corrupção” de políticos. Isso se dá assim desde o segundo governo de Vargas até os dias atuais.

É evidente que há corrupção na política e no sistema institucional brasileiro. Porém, grande parte dos agentes corruptores estão no setor privado e no mercado, dentre os quais, a própria mídia, que nunca aparecem porque são vendidos como “neutros” e inocentes. 

Assim, o regime brasileiro atual permite uma fabulosa engenharia política: a grande mídia e o setor privado, comandado pelas “forças de mercado”, podem operar livremente, de forma quase invisível, deixando o ônus do desgaste e dos ataques exclusivamente para a política partidária e as instituições. Quem ousa questionar a estrutura de funcionamento do sistema já é previamente tachado de “ditador”.

A bagunça de corrupção, alianças bizarras em nome da “governabilidade”, a permissão de livre funcionamento para oposições e uma imprensa desonesta e criminosa, só podem beneficiar a invisibilidade da sabotagem das “forças do mercado”, que tudo roubam, tudo distorcem, cometendo verdadeiros crimes que vão muito além da corrupção (calúnia, difamação, distorção grosseira da realidade, entreguismo, enriquecimento ilícito, assassinatos, etc.), mas sempre saem ilesas porque a engenharia política faz com que passem despercebidas, sem rosto e, sobretudo, sem coração.

Um parlamento que funciona com pautas bombas sempre que a oposição desejar, com permanentes incitações de ódio e polarização política (desde Vargas e Jango até hoje), seja por parte das “oposições parlamentares” ou pela cobertura “jornalística” da grande mídia, geram inevitavelmente desconfiança e descrença política em quem assiste, mas quase nunca se traduzem em ação concreta, porque existem mecanismos de contenção da indignação na própria mídia (discursos e ideologias), com panos quentes de que “nas próximas eleições será diferente”. Assim, a indignação é direcionada para onde interessa aos poderosos. Isso tudo é reforçado pelos tribunais e polícias, que toleram crimes de colarinho branco e ameaçam reprimir quem se rebelar; e pela própria inoperância da “esquerda” e dos seus sindicatos, que não denunciam este operativo, deixando a luta popular orbitando acriticamente uma estrutura institucional que tolera reclamações sem fim, desde que não se questionem e nem se toquem nos seus pontos chaves.


Vargas e o fechamento do Congresso Nacional: as ditaduras são todas iguais?

A acusação de ditador contra Vargas vem, dentre outras ações — corretas e incorretas —, do fechamento do Congresso Nacional. O debate contemporâneo ignora o fato de que a maior parte das “repúblicas” mundo afora, desde a Roma Antiga, previam mecanismos de ditadura para “colocar ordem na casa” sempre que fosse necessário. Por certo, tal mecanismo é um perigo, dado que a tentação de manter o poder nas mãos do ditador sempre é grande, mas frente a “oposições” sabotadoras, significa uma espécie de remédio disciplinador.

Ainda que pareça contraditório, a noção de “democracia” surgiu no mundo ocidental prenunciada por governos tirânicos que cumpriram uma função de transição. Aristóteles disse que a maioria dos tiranos gregos alcançaram suas posições aliando-se ao povo contra os nobres ricos. Ao forçar uma brecha no governo da aristocracia, permitiu às demais classes consolidar novas forças que posteriormente derrubariam a própria tirania. Isso não ficou restrito à história grega, mas também estendeu-se à romana.

Evidentemente que, para enfrentar as sabotagens “democráticas” de oposições desonestas, não se pode contar com uma ditadura aos moldes do absolutismo monárquico ou dos governos militares latino-americanos do final do século XX, cujo objetivo central sempre foi preservar os privilégios das classes dominantes, mas de uma ditadura disciplinadora, cujos interesses estejam ligados ao povo — seguindo as sugestões marxistas. Uma vez que o poder econômico tende a se tornar incontrolável, nos “parlamentos livres” ele compra deputados, juízes, meios de comunicação e, a partir daí, sabota e direciona o poder político como bem entender, mesmo nas “maiores democracias” do mundo, como EUA e Inglaterra.

Se observarmos a História do Brasil, perceberemos que desde a época de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto — que inauguraram o período republicano do país fechando o Congresso Nacional por considerá-lo “anárquico” — indo até o período de Vargas, o parlamento brasileiro tem sido a expressão do poderio econômico empacando qualquer demanda autenticamente popular. Ainda hoje o Congresso Nacional é um palanque “anárquico” onde imperam interesses não só conflitantes e paralisadores, mas também interesses lesa-pátria. Como tolerá-los sem sabotar o próprio desenvolvimento do país?

Basta ver a bancada da bala, do boi e da Bíblia, que se utilizam dos mecanismos “democráticos” do parlamento para camuflar e esconder o seu entreguismo e as suas ligações mais escusas com o mercado e o setor privado, drenando recursos que poderiam desenvolver o país e aplacar o desespero do povo. Mas simplesmente propor usar os recursos públicos para o desenvolvimento do país e melhorar a condição de vida do povo, como foi dito, é visto como “populismo”.

Como, então, enfrentar uma elite autoritária, que vem da tradição repressiva social de esquartejamento, herdada do império português, sem medidas decididamente duras, que são associadas à “ditadura” pelo setor privado e pelas “forças do mercado”? A sua noção de “democracia” não tem sido, justamente, este ajuntamento “anárquico” e sabotador que se perpetua no Congresso Nacional, vendendo a defesa do país como a defesa dos lucros do mercado internacional e do sistema financeiro? Ou seja, a defesa dos mesmos interesses que comprometem o orçamento público federal e condenam a maior parte do povo do país à miséria?

Em síntese: como classificar como “democrático” um regime parlamentar e “oposições” que mentem, sabotam, intimidam, matam e “esquartejam”, controlando repartições públicas, a mídia e a justiça sem, apelar para um regime de força? A condição para o desenvolvimento e estabilidade econômica do Brasil não estaria senão no fechamento do Congresso Nacional ou, pelo menos, na proibição de determinados tipos de “oposições parlamentares”?

Certamente encontraremos as raízes do atual Congresso Nacional no “parlamentarismo às avessas” do período imperial, que sustentava ações “para inglês ver” e discursos “liberais” e “democráticos” que relativizavam e conviviam com a escravidão africana na prática. Na medida que a “democracia” e os parlamentos se consolidam em diversos países do mundo, a mentira, a sabotagem e os crimes das “oposições” parlamentares, casadas com o tipo de cobertura “jornalística” da grande mídia, transformam-se na própria forma de funcionamento deste regime político-institucional, sem o qual, o sistema emperraria.

Para operar de forma tão nefasta, ele tolera e incentiva reclamações e gritos de ódio contra a política, os governos e os partidos, tornando toda essa energia uma reles fachada de protesto popular, quase uma tradição inócua de nosso país. Ao não levar em consideração a psicologia de massas, as organizações militantes da esquerda “revolucionária” não percebem (ou não querem perceber) que toda essa indignação não passa de uma catarse muito bem controlada — uma autêntica válvula de escape para canalizar a revolta —, terminando por se empolgar nas análises e caracterizações, dando os prognósticos mais confirmadores de sua política e programa “revolucionários” ou, então, caindo no desânimo mais profundo (aqui poderia ser feito um paralelo sobre as diversas caracterizações acerca do voto nulo baseado nesta “indignação”).

O grande dilema continua sendo como entender o que se passa na psicologia das massas e como ir além desta simples catarse…? O neofascismo de Trump, Bolsonaro e Milei já percebeu que é possível se apropriar dela e direcioná-la; fato que a esquerda não consegue impedir ou repetir. Entender o mecanismo disso tudo é uma das principais tarefas dos trabalhadores conscientes neste momento. 

O povo como torcida organizada seduzido permanentemente pelo utilitarismo do dia a dia

Na lógica de funcionamento do regime político brasileiro muitas das reações populares são testadas e, parte delas, já esperadas. O povo é levado a uma indignação seletiva pela cobertura jornalística, pela forma de se “fazer política” e, ao mesmo tempo, à apatia, pela própria mídia, amparada pela indústria cultural, esportiva, além da religião organizada e, sobretudo, pelo utilitarismo consumista, que sempre cria novas necessidades sedutoras (incluso a indústria farmacêutica e depressiva).

A grande mídia cria um vilão — geralmente equivocado ou exagerado —, onde deposita todo o mal, tornando-o um bode expiatório permanente e vivendo em cima desses factóides para esconder ou minimizar o funcionamento das estruturas econômicas. Sem muitas dificuldades o povo tem comprado os engodos. Os “especialistas” criam consensos, incitam ou amenizam os fatos de acordo com os seus interesses ocultos atrás da “imparcialidade”.

Tudo isso é complementado por seduções permanentes feitas através da propaganda, da moda, das novelas, do futebol, das igrejas; e da tentação permanente de enriquecimento fácil, seja pela loteria, pelas bets ou qualquer outra forma funcional ao sistema. Em função de suas muitas necessidades pessoais diárias, que não podem ser solucionadas pelo capitalismo, sem muitas dificuldades, se desenvolve um utilitarismo selvagem nas pessoas do povo, refletindo-se, desde cedo, em alunos da sexta série do ensino fundamental; sem falar que o próprio sistema educacional é levado a reforçar esta lógica de funcionamento, de “ser alguém na vida”, confundida exclusivamente com ter posição social, propriedades e dinheiro. A partir daí, o nível de “verdade”, de debate político e de realidade que o povo é capaz de tolerar torna-se muito baixo.

Os sindicatos, totalmente domesticados, e os movimentos sociais e partidos de “esquerda”, por sua vez, não questionam esse funcionamento, principalmente porque fazem uma agitação em que todo o mal está fora da classe trabalhadora, reproduzindo que tudo está nos políticos, nos partidos e nas “direções traidoras”, o que entra como um elo reforçando a catarse geral. Nenhuma pontinha estaria nos próprios trabalhadores, que quando agem mal é porque são simplesmente “alienados”. O medo de perder votos e influência leva a “esquerda”, portanto, a simplificar a realidade e a renunciar a uma parte importante do seu trabalho de base, que é chacoalhar os trabalhadores para que, além de perceberem as contradições da sociedade capitalista, percebam também as suas próprias (fato que quase ninguém se dispõe), já que uma é continuidade da outra, mesmo que em níveis e intensidades diferentes.

Parte das próprias contradições dos trabalhadores está no seu utilitarismo do dia a dia. Sabemos que a classe trabalhadora passa todo o tipo de necessidades se comparado aos políticos e a classe dominante do país. Mas a esquerda erra quando é condescendente e tolerante com estes desvios, o que só pode reforçar o próprio apreço dos trabalhadores pelo funcionamento do sistema capitalista e das suas instituições políticas, que vendem mais utilitarismos para tentar saciar os antigos. O enriquecimento dos de cima torna-se sofrimento e desespero nos debaixo, que passam a buscar meios de vida de qualquer jeito, ficando reféns do utilitarismo e passando a disseminá-lo também.

Ao entrar na guerra utilitária de todos contra todos no dia a dia, valores fundamentais se perdem, aprofundando as desigualdades sociais e a própria descrença na política e no ser-humano. Assim, o falso discurso moralizador da grande mídia e de muitos políticos — estes sim, a encarnação do populismo, dado que só prometem e não deixam nada — reforça o direcionamento contra inimigos irreais ou exagerados para que o todo siga funcionando normalmente. Pressões geralmente sutis são feitas para direcionar a política econômica dos governos, visando aliviar ou apertar, sempre que uma engrenagem essencial do sistema é ameaçada.

O povo, seduzido pelo utilitarismo que culmina num culto egocêntrico, busca minimizar seus sofrimentos nos prazeres compensatórios da “indústria noturna” da festa, do carnaval e, em última instância, da alienação em geral (seja ela qual for), reforçando a falta de memória ou a tornando seletiva de acordo com aqueles que são tolerantes e podem patrocinar seus “pequenos prazeres” (o que inclui o sadomasoquismo). Assim, é facilmente manipulável no seu ódio, nas suas taras e manias, transformando a gritaria contra os políticos numa catarse inócua; quase que num esporte nacional sem nenhuma consequência real, ao mesmo tempo que sai com uma obediência canina para votar em quem odiava ontem ou, até mesmo, para fazer campanha eleitoral de forma acrítica e rebaixada em troca de algum vintém ou de uma falsa promessa com retorno utilitário.

O xingamento contra os políticos geralmente vê o problema fora de si mesmo — por exemplo: não nota a sua falta de mobilização, seu voto em partidos da ordem e falta de criticidade como parte do problema. Assim, uma energia preciosa é direcionada para fazer o próprio sistema funcionar, dando-lhe uma aparência de “democracia”, já que o povo xinga permanentemente os políticos e os partidos, vendo nisso parte de “liberdades democráticas”, quando não passa de uma válvula de escape que direciona e ajuda a engrenagem a funcionar, garantindo o entreguismo e enviando importantes recursos para fora do Brasil a troco de nada. 

As explosões de ódio tornam-se permanentes em um país cheio de violências, mas nunca direcionadas ao verdadeiro inimigo. Elas torram tempo e energia no trânsito, nas brigas de família, contra os vizinhos, nas comunidades, na fofoquinha ou na agressão e até mesmo transformam-se em assassinatos por desentendimentos banais.

Toda essa fúria — seja contra os políticos ou as mal direcionadas por entre o povo — não tem chegado nem perto de uma transformação popular, tal como já vimos ao longo da história, no sentido de permitir o início da criação de um partido revolucionário ou de uma situação revolucionária. Ao contrário. A indignação facilmente se converte na defesa dos ricos e poderosos de cima (ou, então, é restrita, também utilitariamente, aos governos petistas), terminando por se consumir em prostração, desencanto e depressão em massa que é anestesiada com remédio de tarja preta para que o ciclo siga seu curso.

Os políticos das oposições parlamentares mais corruptas e mafiosas dão exemplos concretos de falta de ética e decoro nas mais simples e singelas declarações (basta ver a bancada ruralista). A sua falta de escrúpulos é uma escola que “educa” centenas de milhares de seguidores que passam a repetir seus métodos truculentos, vistos como naturais e necessários para enriquecer, sem, no entanto, suspeitar que enquanto estes lucram milhões, o seu ódio e a sua falta de escrúpulos contra a política e o país é funcional ao sistema, servindo de catarse contra si mesmo.

Influencers, “bagunça política” e autodepreciação

Se tornou comum ouvir xingamentos à “burrice política” e “má educação” do povo brasileiro. Desde alunos da educação básica, até adultos nas ruas, chegando aos influencers das redes sociais.

Os vários youtubers e influencers que reforçam a autodepreciação do povo brasileiro contra a política, os governos e contra si mesmo, sem buscar as raízes destes problemas, são financiado pelos grandes empresários escondidos por detrás das “oposições parlamentares” ou, então, nas “forças do mercado”. Eles consideram que o povo “é burro”, “manipulado e incurável” (alguns militantes também acham e espalham isso, mas, geralmente, por desespero), sempre diminuindo ou escondendo o problema da concentração de renda, que é estrutural, cuja raiz está no funcionamento do sistema capitalista. 

Da mesma forma, os influencers empresários, que fazem uma novela em torno da “absurda cobrança de impostos” (que geralmente eles sonegam), nunca apresentam um projeto de país justamente porque não se preocupam e não querem um país melhor, dado que a sua riqueza provém justamente desta estrutura de atraso. Por isso, só podem falar de “impostos abusivos”.

Seu projeto, portanto, é precisamente lucrar o máximo que puder e não deixar nenhum fundo para que o país possa se desenvolver, nem trabalhar para que estes fundos sejam realmente usados para isso, combatendo, por exemplo, a roubalheira dos juros da dívida “pública”, nunca auditada. Só reclamam de que tudo se perde na “corrupção”, mas nunca ajudam a combatê-la porque são parte não declarada dela. O mesmo discurso é reproduzido estupidamente por grande parte do povo que não chega a ter nem 1% de sua fortuna.

As oposições parlamentares e políticas que praticam uma oposição criminosa sabotam o debate nacional, além da grande mídia que faz uma cobertura “jornalística” centrada em escândalos, mas nunca nas causas de tanta repetição de tais escândalos, geram uma autodepreciação sadomasoquista que não temos conseguido romper (a própria “esquerda” termina por morder essas iscas e ajudar na autoprisão). Odiando a política, o regime, o presidente e tudo o mais, sem nos mobilizarmos para mudar esse quadro, terminamos inevitavelmente por odiar o próprio país, vendo-se sem perspectiva de mudança pra melhor (como “uma merda”, na linguagem dos alunos da educação básica). 

Se achamos que nosso país “é uma merda”, então não vamos nos opor nem resistir a sua espoliação; sobretudo contra aqueles que o querem vender a troco de nada. Se depreciamos o país quase que diariamente sem pensar no porquê disso tudo, então passamos a nos depreciar também, já que não vivemos no vácuo. A sensação de impotência geral só aumenta — e a quem pode beneficiar uma sensação generalizada de impotência entre os brasileiros?

***

A sociedade Ocidental mantém o centro no ego. Tudo gira em torno dele: propaganda, cobiça, desejo, etc. Ele é o fio condutor pelo qual nos são lançadas inúmeras iscas e, quase sem exceção, somos fisgados. 

Frente a isso, é necessário mecanismos de compensações psicológicas que precisamos compreender. Parte dele está nos xingamentos contra políticos, partidos e governos que não resultam nem em mudanças pessoais, nem em mudanças sociais, mas em violência entre nós mesmos; trabalhador contra trabalhador; irmão contra irmão; latino-americano contra latino-americano; brasileiro contra brasileiro.

A atual fase de desenvolvimento do capitalismo imperialista, sob comando da decadente oligarquia estadunidense, há um enorme peso na manipulação psicossocial que não deveria ser menosprezada por parte da esquerda. Desde as revoluções coloridas, até a intervenção midiática, de ONGs, de think tanks, até a manipulação das redes sociais e à ascensão do neofascismo, que temos visto a mudança da correlação de forças internas nos mais distintos países.

O Brasil não foi exceção.

Junto com a lavagem cerebral, há a criação de uma narrativa que conforte consciências culpadas nos mais distintos níveis, além de um aparato econômico que injeta “ânimo” a partir do mais nefasto utilitarismo e pragmatismo financeiro, tecnológico e pessoal — até mesmo muitos ativistas socialistas compram este pacote completo.

Seria de muito bom tom, portanto, que a esquerda parasse de romantizar (ou, pior ainda, de se aproveitar de) certas posturas equivocadas do povo e passasse a olhar a realidade de frente, por mais amarga que seja. É o primeiro passo para tentar mudá-la para melhor.


Sugestões de leitura com afinidades de conteúdo:
> Os limites do poder 
> As fontes materiais e ideológicas do capitalismo distópico
> O irracionalismo das massas
> O espírito de rebanho: um problema candente a ser enfrentado pelo movimento socialista
> O que é o bolsonarismo?
> Bolsonaro e o apoio do povo
> O conservadorismo das massas
> Bolsonarismo e peste emocional 
> São Paulo: locomotiva puxando vagões vazios ou economia autônoma que se desenvolve às custas do atraso do resto do país?
> A ideologia do livre mercado 
> Como a ideologia de livre mercado derrota a esquerda? 
> Budismo, taoísmo e socialismo

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Como a grande mídia disfarça seu direcionamento político através do discurso de “polarização política”


O "corvo", Carlos Lacerda, da UDN, é o padroeiro da grande mídia brasileira,
arquitetando e amparando golpes políticos e militares desde 1950

O debate político no Brasil sempre foi “polarizado”.

Alguns analistas das grandes emissoras e as suas “reportagens imparciais” fingem preocupação com relação à polarização entre petismo e bolsonarismo, mas isso não é nenhuma novidade.

Toda a forma de fazer política neste país leva à isso, direta ou indiretamente, inclusive a própria cobertura “jornalística” da grande mídia.

Desde os tempos da UDN — criada com o apoio dos EUA para combater o getulismo, passando pelo período da ditadura militar e chegando à República atual, onde o eixo torna-se a disputa entre o petismo e os governos de direita, cujo ápice se deu com o surgimento do bolsonarismo — podemos perceber que os distintos níveis de polarização fazem parte da situação política no Brasil, muito além da “preocupação” da grande mídia.

A pergunta central nunca feita pelos brilhantes analistas políticos do “jornalismo” brasileiro é: quem polariza o debate e por quê?

O principal promotor de “polarização” é a elite do país; isto é, a sua burguesia agro-exportadora e financeira, dependente do mercado mundial, dos dólares norte-americanos e das garantias representadas pelo Estado brasileiro como fiador providencial. Ela resistiu e sempre resistirá a qualquer mudança social que coloque seus interesses em risco ou que sequer os questione (mesmo que timidamente, como faz o petismo). Sempre apoia os planos do imperialismo para o nosso subcontinente justamente porque seus rendimentos provém desta fonte espúria. Parte fundamental dos seus planos está na utilização da indústria cultural para polarizar politicamente a realidade interna dos países latino-americanos, tornando o debate público refém dos mesmos discursos e interesses de sempre — dos EUA e de seus sócios menores em cada país.

Estes interesses se expressam, sobretudo, em oposições políticas e parlamentares profundamente desonestas (que transparecem também no tipo de “jornalismo” da grande mídia, que os amplifica e lhes dá um ar de naturalidade e imparcialidade). Tais oposições e sua grande mídia usam e abusam da retórica sobre “verdade”, “liberdade”, “combate à corrupção”, “interesses do povo brasileiro”, que serve apenas para camuflar uma prática entreguista e anti-patriótica. 

Ao polarizar o debate nacional, elas mantêm a discussão e mesmo as ações dos governos petistas restritos aos limites toleráveis ao mercado e ao sistema, o que impede mudanças profundas e estruturais que enfrentem realmente a espoliação do povo e do país, deixando que o governo cave a própria cova do seu inevitável desgaste político.

O “jornalismo” da grande mídia, por sua vez, ecoando esta estratégia geral, não deixa o debate sair de certos limites, reforçando a falta de memória do povo e alimentando determinadas pautas secundárias quando lhe convém. Ele faz o debate público andar em círculos, nunca indo além das pesquisas eleitorais e dos escândalos de corrupção, sem jamais deixar que se aprofunde a compreensão popular. O discurso político da “polarização” é parte desta estratégia de cansaço que joga as pessoas comuns para longe da política, tapando-as de nojo; sem falar nos elementos secundários que também o alimentam, como as igrejas evangélicas, os campeonatos esportivos, as loterias, as novelas e tudo aquilo que renova diariamente as esperanças de que “agora será diferente”.

Dentro da lógica de “polarização” surgem as tentativas de se vender o falso-novo, como as supostas terceiras vias que apenas reforçam as resistências da velha elite do país em impedir qualquer mudança estrutural. Para comprovar, basta remontar a história do país indo do bolsonarismo até a máfia da UDN e UDR nas décadas de 1950-1960.

Ao tratar o regime político “democrático” com auras de santidade, a grande mídia esconde, apaga, deixa arrefecer os descontentamentos e enaltece a falsa “renovação” eleitoral (não sem a ajuda da esquerda reformista). Fecha os olhos para as maiores distorções feitas pelas oposições parlamentares e pelo “jornalismo”, que, a bem da verdade, são autênticos crimes (sem falar nos praticados pelas ONGs e “associações” patrocinadas nem tão ocultamente pelo imperialismo). 

Neste percurso bizarro, também contam com a complacência direta ou indireta da justiça burguesa. Sem este tipo de funcionamento, a ascensão do bolsonarismo no país e do neofascismo na América Latina e no mundo seria impossível. A estratégia do imperialismo estadunidense conta com toda esta engenharia política, além das instituições “democráticas” oficiais que fingem que não enxergam.


E o petismo? Não foi quem mais contribuiu com a “polarização” quando era oposição?

A grande mídia e as oposições políticas por décadas sustentaram que a única fonte de “polarização” era o petismo. Segundo sua propaganda, se este partido não existisse a sociedade brasileira viveria em paz.

No entanto, a “polarização” política não surge meramente de partidos, discursos parlamentares ou da grande mídia, mas da estrutura absurdamente desigual de nossa sociedade entre os muito ricos e os milhões de miseráveis. Surge, sobretudo, da resistência dos mais ricos à qualquer tipo de mudança estrutural.

Por mais “radicais” que tenham sido os discursos petistas nas décadas de 1980-1990, eles partiam de problemas concretos: desemprego, desigualdade, fome, etc. Teoricamente, o petismo se propunha a enfrentá-las. No entanto, não resolveram nenhum problema estrutural porque, desde Vargas, apostam principalmente na conciliação de classes, gerando um círculo vicioso que só deixa transparecer a própria “polarização”, propositalmente exagerada, de um lado ou de outro, e tendo suas origens escondidas e apagadas.

Certamente que a “polarização” necessita de dois lados para existir, porém, ela sempre tem maior peso e responsabilidade no polo mais forte; isto é, no lado da burguesia, da elite nacional e da oligarquia imperialista, que se esforçam por todos os meios desonestos e sabotadores para manter a hegemonia cultural, o poder e, consequentemente, os seus privilégios, contra atacando qualquer proposta ou discurso de mudança.

A história brasileira atesta que tanto Vargas quanto o PT sempre tentaram construir governos de “conciliação e união nacional”, incluindo um amplo leque de partidos, alguns até mesmo do campo da oposição mais desonesta e sabotadora. Vargas chegou ao ponto de abrigar membros da UDN em seu “governo democrático” (1950-1954) justificando-se com subterfúgios do tipo: “os meus compromissos com o povo superam os meus compromissos partidários”.

O petismo age tal e qual, praticamente repetindo a prática varguista. Basta ver o atual vice de Lula e a composição do petismo com União Brasil e PP, que só anunciaram a saída do governo em fins de 2025; além de unidades eleitorais com o PL em distintos municípios brasileiros. Enquanto Vargas e Lula esforçam-se por criar a “conciliação nacional”, evitando polarizações e tentando pacificar a governabilidade do país, são quase sempre as legendas de aluguel da burguesia e a cobertura “jornalística imparcial” que alimentam e incentivam sem dó nem piedade a polarização política. Ao contrário do varguismo e do petismo, estes setores nunca negociam o que pressentem que lhes é essencial.

Ao contrário!

As classes dominantes usam a mídia, a justiça, a tradição, a força policial e militar, além das ameaças e os terrorismos de estado, de desemprego, de desabastecimento de mercados, até as mentiras mais escandalosas, contando com a certeza da impunidade por todos estes crimes e justificando-se através de discursos “éticos” sobre “liberdade de expressão” e “democracia”.

Usam e abusam, também, da ingenuidade e da malícia do povo (ou de pelo menos, de grande parte dele), alimentando-as. Se aproveitam dos seus maus instintos e depois se vendem como os titãs da virtude, da “verdade”, da “liberdade” e da “democracia”. Para isso, contam com a amnésia do povo, que é seletiva e cultivada cuidadosamente pela grande mídia, pelas igrejas e pela estrutura oficial.

Portanto, quem condena a “polarização” do debate político do Brasil e não reconhece todos esses pequenos “detalhes”, só pode estar querendo esconder a origem e o combustível da própria polarização, apostando na sua eterna continuidade no cenário político nacional e continental, dado que essa situação beneficia infinitamente e garante a “justificativa” para todo o tipo de manobra e sabotagem política, institucional e militar para as classes dominantes.


Sugestões de leitura com afinidades de conteúdo:
> Bolsonaro X Lula
> O “grupo terrorista” Hamas e a mídia mercenária Rede Globo
> Os meios de alienação em massas

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Os EUA foram derrotados no Irã?

Grande parte das organizações de esquerda e muitos analistas geopolíticos divulgam a ideia de que os EUA perderam a guerra contra o Irã. 

Eles se baseiam nas posições contraditórias e, por vezes, “pedindo penico”, de Donald Trump nas suas redes sociais e na grande mídia. No entanto, é válido lembrar que as declarações contraditórias de Trump fazem parte da sua hipnose e enganação a nível da psicologia de massas. Para isso ele é muito bem assessorado.

A interpretação excessivamente otimista dos referidos setores se baseia no pequeno atrito ocorrido entre os EUA e Israel, sobretudo no que diz respeito à continuidade da guerra no Líbano com a tradicional desculpa, amplamente apoiada pela grande mídia comercial, de combater “grupos terroristas”. Antes era a tecla do “grupo terrorista Hamas”; agora é a vez do “grupo extremista Hezbollah”. Alguns grupos de esquerda chegam a afirmar que este triunfo vai além do Irã, sendo uma vitória para todos os povos oprimidos do Oriente Médio e do mundo.

Mas será mesmo que os EUA perderam a guerra?

Como um império em decadência histórica, a estratégia geopolítica do neofascismo não parece se restringir ao cálculo de vitória ou derrota no campo de batalha. Manter o cerco à Rússia e a cisão no Oriente Médio, para que a Eurásia não se consolide sob a união China-Rússia e não possa desenvolver-se pacificamente, parece ser o centro da estratégia estadunidense. E, nesse sentido, o caos regional de guerras eternas de divisão e sabotagem, mesmo que com eventuais derrotas, é uma boa pedida. O Irã é um eixo geopolítico que confere estabilidade ao eixo de desenvolvimento de Rússia e China.

O imperialismo estadunidense vive de colocar lenha na fogueira de pequenas disputas regionais, o que lhe confere o poder de configurar mais ou menos como deseja o tabuleiro geopolítico mundial. O caos regionalizado lhe beneficia.

Além do mais, há os interesses do complexo industrial-militar dos EUA, que lucra trilhões com guerras permanentes, ajudando a manter os índices econômicos do imperialismo ianque em lenta bancarrota. Por fim, retarda-se a queda do petrodólar e ainda ajuda-se a especular com o valor do barril do petróleo e com a própria indústria petrolífera, que se mantém como fonte de energia central da economia ianque.

Tão rápido quanto foi costurado o suposto “acordo de paz”, Trump anuncia no dia 8 de julho que “não vê mais motivo para continuar diálogo com Teerã”, autorizando novos “ataques pesados” ao Irã.

Assim, pode-se ver que a estratégia dos mentores neofascistas é muito mais sádica e cruel do que supõe a comemoração ingênua e esperançosa de boa parte das organizações de esquerda e dos “analistas independentes”.



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