sábado, 13 de junho de 2026

Voto no PT: redenção ou pecado?



Curtindo a serrinha na segunda-feira
Enchi minha cara de cachaça
Mas fiquei contrariado, cumpadre
Não encontrei o restante da massa
(do samba: “Prazer da serrinha”)

As eleições brasileiras se aproximam em uma conjuntura marcada pela decadência dos EUA, com ameaça de guerras internacionais e um projeto sinistro de recolonização da América Latina por parte do imperialismo estadunidense a partir de um discurso de combate ao “narcoterrorismo” de facções criminosas brasileiras e latino-americanas.

Ao invés de repetirmos as velhas fórmulas, seria mais importante redimensionar a nossa reflexão. Os debates eleitorais e suas respectivas acusações se repetem tanto porque tem faltado o ator principal: o movimento de massas. Sem ele, ficamos refém do calendário eleitoral e dos aparatos políticos (sejam eles legendas ou sindicatos) que geram forças gravitacionais que são impossíveis de ignorar se pretendemos ter uma política com base na realidade.

A visível decadência dos EUA frente a ascensão mundial da China, leva o imperialismo estadunidense a uma ofensiva caótica em diversas frentes. Mesmo sendo ameaçado de derrota militar no Irã, aos EUA interessa gerar o caos geopolítico em algumas regiões, enquanto em outras toma a ofensiva direta, como no caso da América Latina (Venezuela, Cuba; intervenção e financiamento de eleições presidenciais em distintos países do continente).

Enquanto vemos o dólar ser questionado como a moeda hegemônica, China e Rússia reafirmam sua aliança estratégica visando neutralizar a ofensiva norte-americana. Quanto mais perde terreno na Eurásia, mais o imperialismo ianque procura retomar o terreno ameaçado pela crescente influência chinesa na América Latina e na Europa.

É neste contexto mundial que as eleições brasileiras serão realizadas.

A melhor denúncia ou propaganda “revolucionária” não encontra penetração na grande massa, nem aumenta a expressão numérica das organizações socialistas. E isso vem ocorrendo há décadas. Certamente pesa o fato da propaganda ideológica feita 24h por mídias nacionais, internacionais e universitárias contra o “comunismo” pós restauração do capitalismo, além do oportunismo dos partidos e sindicatos de massas. Mas isso não explica tudo.

O único caso de aumento significativo de influência sobre a massa nas últimas décadas foi o próprio PT, às custas, como sabemos, de uma adaptação ao regime democrático-burguês que lhe amarra as mãos e os pés — e frente o crescimento da direita neofascista, criada e tolerada pelo próprio sistema.

É com estas ilusões que precisamos debater não apenas uma política eleitoral dentro deste contexto nacional e internacional complexo, mas a própria renovação da atuação teórica e prática das organizações de esquerda.

O problema, contudo, é que vivemos em uma permanente Torre de Babel, num diálogo de surdos egocêntrico onde imperam fórmulas políticas que beiram o dogmatismo religioso, seja do lado “moderado”, seja do lado “radical”.


Eleições burguesas: sempre uma guerra do fim do mundo entre as esquerdas

Não há dúvidas de que a eleição da direita bolsonarista é um problema sério, com consequências catastróficas para a classe trabalhadora do Brasil e da América Latina. Significa não apenas a submissão neocolonial completa do Brasil ao imperialismo estadunidense, como um respiro para a sua decadência histórica às custas dos nossos recursos naturais e da exploração do nosso povo. O engodo da vez é o “combate ao narcoterrorismo”, que vem sendo trabalhado diariamente por boa parte da grande mídia.

A militância petista, no entanto, transforma qualquer crítica ao PT numa heresia, deixando Lula numa posição de “grande líder inquestionável”, o que entra como elo na manutenção desta gangorra dentro do sistema capitalista brasileiro. Para esta militância, Lula tem um “cheque em branco” para fazer o que bem entender: alianças, rebaixamento de programas e discursos, contorcionismos teóricos e discursivos. Tudo está perdoado de antemão e quem critica ou vota diferente deve ser excomungado porque “apoia a direita”.

Se por um lado votar no PT “evita a vitória da direita”, por outro, condena o futuro governo de “esquerda” a uma margem de manobra muito restrita para qualquer mudança real, pois o deixa semi-petrificado em razão do leque de alianças em nome da “governabilidade”. O que fazer durante o mandato de Lula para ir além? Sobre isso não falam uma palavra, nem se preocupam com este tipo de questionamento.

No outro extremo, temos a esquerda “revolucionária”, que condena o voto no PT como um pecado oportunista, independentemente de qualquer justificativa ou atuação prática de quem o faz. Contudo, a questão fundamental não debatida por este setor é o grande ausente: o movimento de massas!

A classe trabalhadora não tem se mobilizado a ponto de oferecer uma perspectiva diferente de luta, infelizmente. Nem mesmo ocorre aqui as mobilizações que acontecem atualmente na Bolívia. É triste constatar isso, mas é necessário se não queremos perder o contato com a realidade.

O problema é complexo e vai muito além do desgaste proporcionado pelo PT, dado que a massa trabalhadora tem sido impenetrável à propaganda revolucionária, por menor que seja — e no Brasil, a despeito dos modestos recursos das organizações da esquerda revolucionária, existem agitações e propagandas feitas em distintos níveis e locais, mas que não obtém o mesmo resultado das agitações da direita neofascista e evangélica. Portanto, quando falamos de mobilização, a massa tem oscilado apenas entre a extrema direita e o petismo.

Para “punir o PT”, a massa trabalhadora tem ido à direita (ou parte dela fica no lugar de onde nunca saiu, no campo conservador). Acredita apenas no “antissistema” de direita, enquanto que os inúmeros antissistemas de esquerda sequer a conseguem sensibilizar. Um dos motivos da insensibilidade da massa para com a esquerda “revolucionária” é a sua propaganda abstrata e descolada da realidade, repleta de números e dados racionalmente “perfeitos”, mas tendo pouco apelo com o que de fato se passa ao seu redor; além do desprezo ao debate da psicologia de massas.

Pesa também a propaganda reacionária contra o socialismo e o “comunismo” como resultado dos anos de “restauração do capitalismo” na ex-URSS, ao qual esta esquerda também não soube e não sabe responder a altura, de forma criativa, aprofundando-se na abstração e no doutrinarismo.

Ela tenta aplicar no Brasil a receita soviética, tal e qual, sem compreender as características próprias do país, do seu povo, da sua cultura, das suas ilusões, desconsiderando totalmente o novo debate posto a partir da ascensão mundial da China, que venceu parcialmente o capitalismo neoliberal dos EUA no campo da eficiência tecnológica e nas próprias leis de mercado. Além disso, há no nosso país uma forte herança colonial, que faz com que o povo, para ganhar a vida, desenvolva uma mentalidade utilitarista que se submete consciente ou inconscientemente ao explorador. o Brasil foi construído a partir de um estrutura de fora para dentro, repleto de mecanismos institucionais que impõem a chantagem da governabilidade, com possibilidades reais de sabotagem e paralisia. Somente o apoio organizado da maioria do povo em forma “ditatorial” pode possibilitar um enfrentamento à elite nacional, que não tolera oposições estruturais.

Estamos perto disso?

Nenhum pouco!

Se por um lado sabemos que se depender do petismo isso nunca acontecerá, dado o seu culto à democracia [neo]liberal burguesa; por outro, estamos muito distantes disso porque grande parte do povo trabalhador se divide entre apoiar o reformismo petista ou o “conservadorismo” bolsonarista. Não há nenhuma tendência atual que possa servir de ponto de apoio para uma política revolucionária independente e firme, o que embola todo o meio de campo do tabuleiro político da luta de classes nacional.

Esta é a triste realidade da nossa conjuntura que não deveria ser ignorada ou maquiada com discursos de profissão de fé. Tampouco se pode mudá-la com gritos histriônicos de lideranças isoladas, que apresentam as mais “rigorosas análises teóricas”, “perfeitas”, repleta das verdades mais ardentes, mas que não tem tido o menor apelo popular capaz de tocar o coração e a mente do povo.

O que tais análises “rigorosas” não observam é a dinâmica das massas, que são sempre tratadas como algo sem vontade, em “estado bruto”, bastando vir uma liderança de “vilões inescrupulosos” para enganá-las totalmente. É uma visão idealizada sobre elas e sobre o seu próprio papel “libertador”. Às massas cabe sim algum tipo de escolha pessoal entre o bolsonarismo ou o petismo que precisa ser levado em consideração se queremos realmente entendê-las e não apenas nos vendermos como a “direção perfeita” e predestinada. Para a maior parte da massa é muito mais difícil viver na verdade do que na mentira que nos conforta.

Ao contrário do capitalismo do século XIX e XX, que cooptava partidos, sindicatos e lideranças, o capitalismo neoliberal do século XXI foi além e desenvolveu mecanismos psicológicos de cooptação de pautas de reivindicações, esterilizando-as e criando mil dificuldades e confusões na mente de milhões de trabalhadores no Brasil e no mundo. A esquerda em seus diferentes níveis e tonalidades não tem conseguido enfrentar esta nova formulação do capitalismo, que estereliza as reivindicações e mantém a classe trabalhadora sob controle, em parte tendo sua própria condescendência e, como consequência, fazendo-a cair num profundo desânimo, injetando-lhe depressão em massa. Em grande medida o sistema logrou fazer com que as pessoas tolerem as suas péssimas condições de vida pela exposição contínua a elas, sendo reforçadas e blindadas pela indústria cultural, pelas redes sociais, por sucessivos estímulos estéticos, morais e da religião organizada que o degrada moralmente e atrofia suas emoções, embaçando sua visão racional. 

Daí a conclusão de que não temos visto rebeliões espontâneas que apontem perspectivas de se construir o poder proletário, mas depressão e desânimo em massa, banhados por remédios de tarja preta, além de outras formas ilusórias de não encarar a realidade.

Barco navegando ou afundando?

A psicologia de massas do neofascismo não é compreendida e não tem contraponto nas candidaturas da esquerda “revolucionária”, que só faz mais do mesmo e espera resultados diferentes

O neofascismo tem jogado pesado. 

Seus ideólogos e engenheiros políticos — sendo Steve Banon o mais perigoso — manipulam as emoções, taras e ódios da massa e conquistam novas hegemonias sobre elas. Parte desta manipulação é embasada no próprio conservadorismo das massas, criada na disciplina familiar e religiosa das tradições do país. 

Marx e Engels foram grandes teóricos, mas como já alertavam no seu tempo, não possuem respostas para tudo. Reconhecendo a importância das suas contribuições, precisamos avançar sozinhos. O primeiro passo é redimensionar a análise partindo dos avanços científicos referentes ao nosso tempo e das contribuições posteriores a eles — fato recomendado pelo próprio Engels, mas nunca observado com a devida seriedade.

Enquanto o petismo nos deixa reféns do arco de alianças e do permanente rebaixamento programático é a única possibilidade eleitoral de massas viável ao bolsonarismo. E assim será enquanto a esquerda não der um passo decisivo para reorganizar o seu arsenal teórico, metodológico, de trabalho de base, estético e moral do dia a dia. 

Já se disse que fazer tudo exatamente igual e esperar resultados diferentes é loucura. E é exatamente isso que a esquerda “revolucionária” tem feito na esperança de que as “massas despertem”, mas com medo de avançar para conclusões que a faça se olhar no seu próprio espelho profundo. Portanto, no seu dia a dia não é revolucionária, mas conservadora e tradicionalista, repetindo dogmas e fórmulas.

Parte desta esquerda “revolucionária” novamente lança suas candidaturas próprias (PSTU, PCO, UP) que não têm conseguido nenhuma penetração real na massa. E isso se repete por diversas eleições — o que, por si só, deveria fazê-los tirar algumas conclusões, mas que, desgraçadamente, não o fazem. Caso estivesse no caminho correto de “despertar a massa”, teriam algum resultado diferente, como por exemplo: de 1% saltariam para 5 ou 10%. Ou então, conseguiriam solapar lentamente a influência social e sindical petista, avançando para um princípio de influência sobre o movimento de massas, vencendo o utilitarismo e o oportunismo da massa petista e cutista, apontando para a auto organização dos trabalhadores como alternativa real de poder. Porém, nada disso ocorre, senão que se aprofunda o oposto.

O que vemos, então, é mais uma profissão de fé do que um trabalho político que leve em consideração o real movimento da conjuntura. No fim das contas, no primeiro turno essas candidaturas não atingem nem 1% e depois, no segundo turno, terminam votando “criticamente” no PT ou “votando nulo”. Pior do que isso, a sua influência não cresce nem indiretamente.

Além das candidaturas oficiais da esquerda “revolucionária”, existem ainda diversos agrupamentos que chamam voto nulo em quase todas as eleições, tal como um princípio político do qual acreditam depender a sua redenção ou condenação pecaminosa, ignorando deliberadamente o discurso e a atuação prática de quem vota criticamente no PT ou mesmo as formas concretas de se atingir uma base real. Os anuladores convictos mais “realistas” fazem menção ao crescimento do número de votos nulos e brancos das últimas eleições, entretanto, ignoram que é uma massa disforme que não se traduz em luta por diversas razões, sequer apontando realmente para uma auto organização além das eleições. Também ignoram ou diminuem os retrocessos políticos visíveis de uma vitória da extrema direita. Sem tal alerta não é possível educar politicamente a massa e o próprio eleitorado petista. Tende, portanto, a nivelar tudo, aumentando a confusão e facilitando a vida das direções petistas e paulistas, que se vendem como as únicas “realistas”.

Se por um lado, o argumento de que voto nulo pode significar o aumento da chance da vitória da direita, por outro, ele esconde perfeitamente a política conciliadora do petismo no dia a dia, o que gera becos sem saídas e o eterno retorno eleitoral do petismo versus “as direitas”. Então, o eixo da disputa entre esquerda eleitoreira e “revolucionária” não deveria se dar preferencialmente no terreno eleitoral, que é pantanoso e incerto.

Nem o voto nulo, nem o voto crítico são “pecados” em si mesmo, tal como preconizam os “militantes religiosos” em suas diferentes profissões de fé — ainda que possuam consequências práticas em cada conjuntura. Toda crítica deveria depender do tipo de política que se leva no dia a dia, bem como o discurso e a prática com que se sustentam; além da busca de novas formas de trabalho de base, estética, auto-organização, relação entre militantes, movimentos sociais e as pessoas da massa, que sejam menos egocêntricas, dogmáticas e/ou oportunistas, sendo confirmadas pela capacidade de gerar confiança e não mais ojeriza.

A grande questão é: a massa não tem rompido a sua letargia e não tem saído da condição de torcida organizada. Os discursos redentores da esquerda “revolucionária” não conseguem tirá-la do seu estado catatônico. Quem capitaliza a sua indignação tem sido a direita neofascista, porque aprendeu a manipular seu conservadorismo congênito, que não pode ser combatido com programas, práticas e discursos do século XIX. O petismo, por sua vez, não tem como vencer o neofascismo a longo prazo, mas ser simplesmente um breve hiato entre um governo de direita e outro. Bastaria dizer à militância petista que, caso Lula vença as eleições deste ano, após este mandato — que deve ser o seu último —, estaremos novamente “largados à própria sorte”.

O duro balanço que devemos fazer é que nenhuma organização das esquerdas tem sabido injetar ânimo nos trabalhadores no espírito revolucionário, nem estes têm saído de sua condição passiva espontaneamente, como acontecia no passado, dado que a indústria cultural e os métodos refinados de manipulação da psicologia de massas conseguem deixá-la inerte, catatônica e depressiva. O que deveríamos fazer para além de nos atolarmos em divergências secundárias — tipo as de cunho eleitoral —, é justamente investigar como o capitalismo conseguiu neutralizar a psicologia de massas, torná-la dependente e depressiva e, sobretudo, como quebrar essa “neutralização”.

Parte do sucesso da direita neofascista e do capitalismo neoliberal na cooptação de reivindicações populares está na confusão sinistra que faz na mente de milhões de trabalhadores, ao ponto de que esta já não sabe mais ao certo quem é “herói ou vilão”, “antissistema ou pró-sistema”, “certo ou errado”. E ao invés de entender tais dilemas, o discurso da esquerda “revolucionária” nas eleições e da esquerda moderada no dia a dia aprofunda esta confusão.

Assim como o povo trabalhador perde a paciência e se rebela, ele tem demonstrado fontes inesgotáveis de passividade, buscando direções (candidatos, partidos, sindicatos, etc.) que alimentem suas ilusões na “inocência” de uma saída fácil e negociada, onde não haja conflitos. Já as organizações da esquerda “revolucionária” julgam que se trata apenas de um “alinhamento de astros”; qual seja: o despertar da raiva popular com a sua política revolucionária “perfeita”. Não percebe que a construção dessa política — para ser real — precisa se chocar cotidianamente com o atraso do “povo-público”, tipo torcida organizada, não lhe perdoando os “escorregões inocentes” que expressam o seu desejo de ser eternamente uma criança a espera de um paizinho para fugir às suas responsabilidades sociais, não restringindo as suas críticas apenas às direções políticas e sindicais. 

Para que a esquerda revolucionária possa crescer, precisa encarar o fato de que as coisas não são como parecem ser nos “manuais teóricos” (sobretudo para aqueles que leem teoria revolucionária como um dogma religioso) e nos nossos desejos pessoais, geralmente confundidos com a realidade.


Enfrentar a realidade histórica do povo brasileiro tal como ele é

Tanto aqueles que entendem o voto em Lula como sendo uma redenção e a condenação do voto nulo como pecado — ou vice-versa —, numa verdadeira guerra do fim do mundo entre as esquerdas, não têm levado em consideração a apatia das massas e uma análise renovada da realidade brasileira e mundial. O resultado só pode ser o aprofundamento de um ping-pong entre a esquerda social-democrata, tipo PT, e a direita neofascista; com a mídia burguesa e alguns partidos do centrão tentando emplacar uma terceira via da direita “moderada”.

O que temos que explicar é: porque as massas são facilmente seduzidas pelo neofascismo com discursos “contra a corrupção” do PT feito por notórios corruptos ou por discursos “anti sistemas” feito por defensores descarados do sistema vigente. Enquanto que o discurso das organizações de esquerda feito nos locais de trabalho, estudo e moradia tem pouquíssimo apelo para se transformar num movimento de massas. O que se passa em sua mente?

A principal arma do imperialismo estadunidense contra a América Latina não tem sido a bomba atômica, os porta-aviões, a IA, os drones ou o que quer que seja no campo militar, mas a mente do seguidor de Bolsonaro, Milei, Kast e do gusano da Flórida, cuidadosamente cultivada por anos de propaganda neoliberal, a que chamam de “jornalismo”. Trata-se do melhor cavalo de Tróia que pode haver, pois conseguiu criar uma racionalidade às avessas, que vê entreguismo como patriotismo; pirataria, saque e extorsão de si próprio como desenvolvimento econômico; privatização que empobrece a si própria e a sociedade que o circunda como a “solução”; além de ser imune a todo fato histórico ou argumento racional verificável hoje pela internet ou por fontes relativamente acessíveis, celebrando a injustiça das desigualdades sociais como algo digno e desejável.

Defender os sórdidos interesses econômicos dos EUA soa como algo “natural” para milhões de pessoas em nosso continente. É isso que a propaganda ianque de “nosso hemisfério” trabalha no inconsciente coletivo. Os defensores do capitalismo norte-americano entre os latino-americanos explodem em reações emocionais desequilibradas e intolerantes frente ao menor questionamento político da conjuntura, seja na Venezuela, no Brasil, nos EUA ou no mundo. Esta psicopatia é caracterizada por fazer o indivíduo perder a capacidade de empatia e escuta, bloqueando o cérebro racional para fatos e argumentos bem construídos.

A memória e o debate racional exposto de forma impecável de nada vale frente ao estado psicológico criado pela intervenção da direita neofascista via redes sociais e amparada pelo pano de fundo feito pelo “jornalismo” da grande mídia. Por exemplo: a maquinação dos EUA no golpe de 64, a falácia das armas químicas no Iraque, os discursos de apoio à “democracia” que se convertem em intervenções autoritárias e ao apoio político de inúmeras ditaduras mundo afora; os incontáveis casos de corrupção dos partidos de direita; ou o apoio petista às reformas neoliberais — tipo da Previdência e diversas PPPs —, os escandalosos acordos regionais e nacionais do PT com a decrépita oligarquia brasileira, além do apoio descarado ao agronegócio e ao sistema financeiro, absurdamente não valem de nada nesta discussão, que não tem ido além do nível superficial das emoções mais primitivas. 

Ganha quem grita mais e traz mais fatos bizarros à tona — no caso bolsonarista —; ou toca mais o coração dos trabalhadores com histórias tristes de superações individualistas das “pessoas comuns”, sempre lembrando da mãe — como é o caso de Lula. Nunca chegamos aos debates macroeconômicos que podem colocar em debate as mudanças estruturais que o país realmente precisa. E não basta apontar a “consciência ingênua” do povo; há que se entender como ela funciona e, sobretudo, porque o povo opta por ela.

Manter a coesão de suas bases sociais requer este tipo de conduta, de um lado ou de outro. É isso que precisamos entender e superar. Muitas organizações militantes da esquerda “revolucionária” gritam e atacam pessoalmente as pessoas de ambos os lados, mas enfrentar o grave problema da manipulação da psicologia de massas não deve nunca ir pelo caminho da humilhação, chamando de gado, ou descambando para o xingamento nu e cru. Tal tipo de “enfrentamento” só pode intensificar o problema, jogando as pessoas novamente nos braços de suas antigas “direções”.

O petismo (secundado por Psol e PCdoB, seus satélites “naturais”) tem a vantagem de levar muitos elementos da realidade do Brasil e do mundo em consideração, ainda que sacrifiquem tudo no altar do desespero utilitário e oportunista da “governabilidade”. A esquerda “revolucionária” deveria admitir que o petismo expressa bem a mentalidade da massa de trabalhadores brasileiros, que busca por um “paizinho” ao invés de enfrentar a sua dura condição de vida. Vê-la como ela é e não como “deveria ser”, é um importante primeiro passo.

PT, PCdoB e Psol levantam bandeiras que conseguem ter algum apelo popular, mas não dão passos além dessa superficialidade porque temem à morte perder influência eleitoral e sindical. Assim sendo, trabalham no sentido de manter a massa tal como ela é — é justamente daí que provêm a sua influência de massas. Lula sabe falar o que o povo consegue e quer ouvir, sem nunca elevar a tônica para além daquilo que é aceitável na diferenciação superficial que as eleições e o sistema permitem.

Parte desta retórica com capacidade de capturar pautas populares e desviá-las para si mesmo vem do identitarismo, presente tanto no petismo quanto em muitas candidaturas da esquerda “revolucionária”, além de agrupamentos de militantes. Existe um beco sem saída neste enfrentamento da “esquerda identitária” com a direita neofascista, que se especializou em polarizar estas políticas na mente de milhões com um debate que serve perfeitamente para esconder as verdadeiras questões econômicas e políticas que podem mudar o país e o mundo: mexer no sistema financeiro, no poder econômico e político do agronegócio e de São Paulo sobre a federação, na exploração capitalista e sua crescente degradação das relações sociais. O petismo aceita o duelo identitário inócuo, mas que possui grande apelo popular, e com isso ajuda a embaçar o quadro geral, vendendo-se como “esquerda”, como “progressistas”, mesmo que no campo econômico não enfrenta quase nenhuma mazela real.

Isso não quer dizer que não exista machismo, racismo e homofobia na sociedade atual, mas eles têm sido exageradamente utilizados como cortina de fumaça para trancar outras pautas de discussão que provavelmente teriam maior repercussão sobre a consciência de classe.

Dado que o Brasil foi um país formado do exterior para o interior, gerando um Estado correspondente nesta função de controlar sua população, o debate internacional inevitavelmente acaba sendo preponderante, uma vez que nada muda aqui sem um enfrentamento decidido à hegemonia dos EUA sobre o nosso país e o nosso subcontinente. Atualmente apenas duas candidaturas têm apelo de massas para tocar nessa questão: a bolsonarista, que abre uma avenida neocolonial para embotar as consciências de amplas parcelas da massa, garantindo a sua servidão voluntária, deixando um saldo de difícil reconstrução; e a petista que, ainda que não impeça o neocolonialismo, gera algum tipo de dificuldade momentânea e conjuntural ao imperialismo, já que facilita a aproximação com a China, causando pavor e desespero na Casa Branca.

Os EUA estão em decadência histórica. Isso é o que marca toda a atual conjuntura e, particularmente, as eleições de 2026. O BRICS representa o olho do furacão e tem papel importante no aceleramento ou retardamento desta decadência. Sabemos que o BRICS é um bloco geopolítico cheio de contradições perigosas, mas sem enfrentá-lo e pautar a sua discussão é o mesmo que ignorar um dos focos centrais da atual conjuntura e ajudar, direta ou indiretamente, os planos do imperialismo para o Brasil. Dada a apatia da classe trabalhadora brasileira e a situação internacional, seria importante procurar minar o imperialismo hegemônico, tirando o Brasil de sua área de influência e tensionando pelo desenrolar de uma nova configuração mundial, ainda que ela esteja longe de ser a ideal para a classe trabalhadora internacional.

É natural, portanto, que para acelerar a libertação das amarras do imperialismo ianque em decadência histórica e não tendo um movimento de massas atualmente — que não pode ser criado da noite para o dia —, é necessário apostar em uma conjuntura internacional mais favorável com os elementos que existem na realidade e não criados pela doutrinação de nossa propaganda pautada pelo século XIX ou XX. Se não queremos viver de denúncias vagas, apenas esperando pela volta do socialismo soviético das décadas de 1930-1940, tal qual se espera a segunda volta do messias, é importante atualizar a leitura de mundo e das demandas deste início do século XXI. Do contrário, é deixar o petismo livre das críticas concretas que possuam algum tipo de contato com a realidade.

O PT, embora seja pivô nessa aliança geopolítica, pretende uma submissão acrítica à China. O bolsonarismo, ao contrário, representa a sabotagem e destruição do bloco, conforme os interesses estratégicos dos EUA. A “esquerda revolucionária”, por sua vez, condena totalmente o bloco, como faz com quase todas as outras pautas, ignorando que é a única realidade “progressiva” possível no momento que possa acelerar a derrota do imperialismo estadunidense. 

Por tudo isso é necessário abordá-lo e incentivá-lo de um ponto de vista que interesse aos trabalhadores e ao povo brasileiro (ou seja, se seremos só manipulados pelos interesses econômicos chineses ou se tentaremos intervir nele com clareza onde há possibilidade real para isso) ou se ficaremos alheios.

No entanto, como atuar nele? O que exigir, o que apoiar e o que denunciar? Este é um debate que se abre apenas a partir da possibilidade de permanência nele, fato que não existirá caso o ignoremos.

A esquerda “revolucionária” denuncia o PT com base em pautas que soam completamente distante da massa trabalhadora, que não tem apelo diário e, tampouco, são compreendidas; às vezes até mesmo hostilizadas.

Ainda que não devamos cair no erro sectário-oportunista dos petistas de execrar quem vota nulo — pois estes setores estão sempre na luta —, é preciso reconhecer que as candidaturas da esquerda “revolucionária” ou os adeptos do voto nulo sugerem pular etapas sem ter condições para isso, baseado-se, como sempre, numa profissão de fé que não se traduz em movimento de massas organizado e que não tem sido capaz de tocar a massa bolsonarista, nem a petista. Em seu violento radicalismo, tornam-se obstinados em impor com gritos ao mundo real o que é logicamente demonstrado nos seus discursos.

Não podemos pular etapas e avançarmos para pautas socialistas, despertando progressivamente a classe trabalhadora, sem entrarmos em contato com o mundo real e a massa tal como ela é. Por diversas razões que ainda precisamos debater para entender, a esquerda “revolucionária” tem ficado cada vez mais isolada.


Redimensionar a esquerda: apostar na criatividade em todos os níveis

É provável que despertar a massa requeira um redimensionamento do debate e a procura por novas formas de atuação, educação política e não a repetição ritualística do “comunismo” soviético. O debate sobre a psicologia de massas precisa ser complementado por novas formas de organização correspondentes que combatam o espírito de rebanho, o egocentrismo de organizações e dirigentes, gerando a confiança capaz de fazer os trabalhadores assumirem seu lugar na sociedade e na construção de uma outra sociedade, valorizando o debate racional coletivo. É fundamental estar aberto para ouvir e perceber o outro no dia a dia, sem ter como perspectiva a mera vantagem — seja o ganho pessoal, coletivo, cooptação para a organização para se continuar fazendo o mesmo de sempre, etc.

Superar a “consciência atrasada” dos trabalhadores requer o enfrentamento ao seu modo de vida, à sua falta de coerência e de compaixão no cotidiano entre irmãos trabalhadores, em relação a mesquinhez das necessidades cotidianas. Isso não pode ser feito por partidos e organizações egocêntricas e oportunistas, que só as reforçam ao invés de combatê-las.

A luta por uma nova sociedade pressupõe irmos além das questões meramente econômicas. Redimensionar as perspectivas da esquerda significa relembrar que em última instância lutamos pela emancipação humana e que isso pressupõe o direito de ser quem se é; isto é, o direito a individuação — isso nos é negado pela moral social, pela família tradicional, pelo autoritarismo dos locais de trabalho, pela polícia e mesmo por muitas organizações de “esquerda”.

Os problemas de redimensionamento e recriação da esquerda transcendem as eleições de 2026. Por isso é importante pensar além do “dogmatismo religioso” político-eleitoral imediatista que ela inspira, seja de um lado… ou de outro. A grande questão continua sendo ir muito além das eleições (voto acrítico, crítico ou nulo): trata-se de como descobrir e abrir caminho para o espírito de revolta consciente no povo brasileiro, fato que nenhuma das esquerdas tem conseguido realizar… ou mesmo compreender!



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domingo, 10 de maio de 2026

A diplomacia das palavras vazias

 


Lula e Trump se encontraram em Washington. A despeito das especulações em contrário de bolsonaristas e da mídia comercial, o encontro ocorreu de forma amigável. Mesmo Trump esforçou-se em parecer uma pessoa decente e respeitosa.

Em se tratando de um encontro diplomático entre dois grandes países da América, não poderia ser diferente. No entanto, o que deveria causar estranheza entre nós é o grande otimismo com que Lula saiu deste encontro e como o vendeu à mídia comercial.

Certamente que um evento diplomático entre grandes países como Brasil e EUA não pode deixar de ocorrer periodicamente, mas a grande questão é que tipo de expectativa se quer gerar nas opiniões públicas nacionais e mundiais com ele?

A ameaça de uma vitória eleitoral do neofascismo em outubro não pode apagar ou constranger uma necessária crítica à conduta do governo Lula e, sobretudo, aos seus discursos contraditórios antes e depois deste encontro.

Lula disse a Trump que os EUA deveriam voltar a ter interesse no Brasil. Ora, os EUA nunca deixaram de ter interesse no Brasil e nem podem deixar de ter, dado o peso geopolítico e econômico do nosso país no mundo e, sobretudo, na América Latina.

A diplomacia de palavras vazias cobra um preço alto ao iludir e ajudar a disfarçar os verdadeiros e únicos interesses dos EUA no Brasil: manter-nos como uma neocolônia, custe o que custar. Será um bom caminho relativizar essa verdade que é tão cristalina?

No entanto, as declarações de Lula pós-encontro com Trump são um problema porque se confrontam com as suas radicais declarações nos eventos Mobilização Progressista Global e Democracia Sempre, ocorridos na Espanha em abril, onde exigiu “coerência dos progressistas”; e, também, fez várias críticas a Trump, afirmando que ele pretende governar e ameaçar o mundo inteiro via twitter.

Ainda nestes eventos da Espanha, Lula afirmou que a “extrema direita soube capitalizar as promessas não cumpridas do neoliberalismo, canalizou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras falando das mulheres, dos negros, da população LGBTQIA+, dos imigrantes, ou seja, todas as pessoas mais necessitadas que passaram a ser vítimas do discurso de ódio”.

Também sustentou que “é preciso apontar o dedo para os verdadeiros culpados pela crise sócio-econômica atual que são os poucos bilionários que concentram a maior parte da riqueza mundial, alimentam a falácia da meritocracia, pagam menos impostos ou nada, exploram o trabalhador, destroem a natureza e manipulam os algoritmos”.

Por fim, mas não menos importante, criticou os países que possuem assento permanente no conselho de segurança da ONU afirmando que são verdadeiros “senhores da guerra” que gastam bilhões de dólares em armas que poderiam ser usados para acabar com a fome, resolver o problema energético e o acesso à saúde para toda a população do planeta.

Para Lula, o “sul global” paga contas de guerras que não provocou e mudanças climáticas que não causou, sendo tratado como quintal das grandes potências, sufocadas por tarifas abusivas e dívidas impagáveis. Volta a ser visto como mero fornecedor de matérias-primas.

Em síntese: o encontro diplomático entre Lula e Trump o fez relativizar ou mesmo anular todas essas declarações. Será que não há outros modos de se fazer diplomacia, sendo mais cuidadoso com as palavras?

O discurso de Lula em relação às terras raras anula tudo o que ele vociferou na Espanha e em outras declarações. Ou seja, reforça justamente o Brasil como mero fornecedor de matérias-primas para as grandes potências, incluso os EUA. Deveria haver mais cuidado e reflexão para as declarações diplomáticas, sem o quê, a alma do que é dito termina por indicar um caminho que não é de soberania e dá certos “cheques em branco”.

Segundo Ricardo Zúniga, ex-alto funcionário do governo de Barack Obama, “os Estados Unidos veem o Brasil como o único lugar onde a China pode basicamente paralisar partes da economia [dos EUA], e o Brasil é uma das poucas opções para quebrar o monopólio chinês sobre terras raras”. Isto demonstra, portanto, como os EUA só podem estar totalmente interessados no Brasil, ao contrário do que insinuou Lula. Basta lembrar das declarações de Steve Banon, o guru de Trump, antes das eleições de 2022.

Ainda durante os tarifaços de Trump contra o Brasil, Lula sempre exaltou os “200 anos de boas relações entre EUA e Brasil”. Mas que boas relações são essas em que um lado entra sempre com superávit e outro com déficit? Onde um lado dá golpes militares e parlamentares contra a democracia do país mais frágil? Onde há trama permanente de sabotagens e interferências internas dos mais forte contra o mais fraco, mesmo que Trump tenha dito que não fará isso? Aliás, se os EUA sempre deram golpes no Brasil, isso é algo totalmente confidencial que não pode ser dito publicamente, o que não significa, sob hipótese alguma, que os EUA de fato não irão intervir no Brasil se sentirem “seus interesses prejudicados”. Portanto, vender a ideia de que não intervirão é um desserviço que faz baixar a guarda.

A todo o ativismo petista, que se indigna contra críticas ao presidente Lula — incluso as honestas e muito bem fundamentadas — porque supostamente beneficiam “a eleição da extrema direita”, deveria gastar esta energia para tentar pensar em formas de diplomacia que não faça terra arrasada das declarações ousadas e necessárias já feitas por ele anteriormente.

Ou seja, deveriam tentar ver formas de fazer com que as palavras não sejam vazias, mas que se transformem em atos práticos do dia a dia do governo federal. Esta é a única forma correta de se combater a extrema direita.


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quinta-feira, 16 de abril de 2026

A guerra contra o Irã e a decadência do imperialismo estadunidense

 

Os principais analistas geopolíticos do mundo afirmam que o Irã está vencendo a guerra contra os EUA e Israel.

Eles afirmam isso em razão das inúmeras bravatas de Trump, expressas nas suas declarações públicas, além dos avanços e recuos de porta-aviões na região e tentativas meio desesperadas de “negociações de paz” para abrir o estreito de Ormuz.

No entanto, é possível perceber que o imperialismo estadunidense não pode agir de outra forma que não essa. E que, mesmo perdendo conjunturalmente a guerra, ele ganha a longo prazo com o caos geral que ele mesmo cria. Isso se passa tanto no caso do Irã, quanto no da Ucrânia.

Como está perdendo peso econômico para China a cada ano que passa, o imperialismo ianque compensa os prejuízos a partir dos ganhos do complexo industrial-militar, compartilhado com Israel, além de outras vantagens imediatas na luta geopolítica pelo isolamento de Rússia e China dentro da área euroasiática. Gerando o caos no mercado e na região, dificulta o desenvolvimento e a consolidação das novas potências mundiais.

O caso da Ucrânia foi ilustrativo: a guerra está praticamente ganha pela Rússia, mas os EUA conseguiram desestabilizar a região, a credibilidade da Rússia no mundo Ocidental e, sobretudo, minar a dependência europeia do gás russo, colocando como “alternativa” as empresas de gás ianques. Ganhos secundários, que criam uma situação caótica, ceifam milhares de vidas, mas que retardam o ocaso do império estadunidense.

A guerra contra o Irã é mais um exemplo, porém, tem sido mais impopular tanto dentro quanto fora dos EUA. No entanto, a máquina midiática do Ocidente, que conta com decisivo apoio na grande mídia brasileira, consegue distorcer narrativas e sustentar esta política internacional do imperialismo ianque. Aproveitando-se livremente das declarações trumpistas, sem nenhum compromisso com coerência e memória, as suas reportagens “imparciais” são, no geral, aceitas pela opinião pública ocidental, o que inclui a brasileira.


A grande mídia burguesa e a guerra contra o Irã

A instituição do caos pelo imperialismo ianque conta com o apoio da mentalidade doentia e amnésica criada na opinião pública ocidental — e mesmo mundial — por anos de “jornalismo” mercenário, sustentando qualquer narrativa distorcida e grotesca que justifique a aplicação da “democracia” estadunidense pelo mundo. Agora, por exemplo, a grande mídia e os porta-vozes da Casa Branca centram na narrativa distracionista sobre destruir o programa nuclear iraniano, quando as “armas de destruição em massa” do Iraque, por exemplo, jamais foram encontradas. A mudança de foco discursivo serve perfeitamente para maquiar as atuais dificuldades militares dos EUA e centra-se na tentativa de moralizar a opinião pública ocidental no medo contra um suposto uso de armas nucleares por parte do Irã, escondendo o monopólio estadunidense e israelense de arsenais atômicos na região e, também, o fato do governo dos EUA ter sido o único a utilizá-lo contra outro país.

Esta maleabilidade narrativa, criada com o decisivo apoio do braço midiático de EUA, Israel e da grande mídia brasileira no mundo Ocidental, permite criar uma cortina de fumaça para que ambos países possam costurar rapidamente novas alianças regionais e mundiais, além de estratégias mais mirabolantes de longo prazo, que procure retardar a decadência histórica do imperialismo ianque.

Se esta decadência é, até certo ponto, inevitável, ela também acaba sendo postergada às custas da destruição de países inteiros, de infraestruturas econômicas e políticas, de capitais — algo que faz parte do funcionamento do próprio capitalismo — e de inúmeras vidas mundo afora. Tudo isso impede ou, pelo menos, cria empecilhos e dificuldades para a ascensão do novo bloco hegemônico de poder, liderado, como sabemos, pela China. Dada a mente psicopática de quem está à frente do império estadunidense e do enclave bélico israelense, não se pode descartar a hipótese de catástrofes militares que levem à extinção da humanidade.


O caos criado pela guerra imperialista é a estratégia

Como máquinas de guerra, o imperialismo ianque e o Estado de Israel não podem agir de outra forma para manter a sua hegemonia regional e global, misturando diversas táticas como espionagem, sabotagem, “revoluções coloridas”, infiltrações, atos terroristas (a partir dos seus próprios Estados nacionais ou de grupos mercenários), até guerras diretas ou “terceirizadas”. 

Para isso, as bases militares norte-americanas espalhadas legal e ilegalmente ao redor do mundo, mas, em especial, no Oriente Médio, são instrumentos essenciais a serviço desta estratégia. Todos esses fatores servem perfeitamente como formas de intervenção político-militar do Estado [profundo] ianque no “livre mercado” internacional.

O primeiro ganhador desta guerra é, sem dúvida, o complexo industrial-militar estadunidense e sionista, que lucram bilhões com a venda de armamento e de tecnologia. Na esteira deste complexo, que é a base do deep state norte-americano, vêm os governos destes países, que mexem no tabuleiro geopolítico da eurásia e trabalham para implodir as “novas” relações econômicas internacionais lideradas por China e Rússia. 

Quem ganha, em segundo lugar, são as empresas transnacionais dos EUA de petróleo e gás, já que se beneficiam das declarações de Trump dando tréguas e falando em “negociações de paz”. Elas sabem, portanto, os melhores momentos das altas e baixas do mercado de energia e do dólar para fazer investimentos ou transações comerciais. Como a situação é contraditória e, não poderia ser de outro modo, outras empresas e países também se beneficiam secundariamente, como é o caso da Rússia.

O bloqueio do estreito de Ormuz, por exemplo, atinge Israel, os países da Ásia e da Europa, aliados dos EUA, mas atinge, também, a China. Administrar a sua decadência histórica requer ações que inevitavelmente possuem efeitos colaterais para si e para aliados eventuais. 

De qualquer forma, dada a sua natureza, um imperialismo em decadência com visíveis contornos psicopáticos não pode agir de outra maneira e, nesses casos, sempre se correm riscos. A grande questão é que os estrategistas do MAGA (isto é, do neofascismo) calculam os lucros e prejuízo e fazem suas apostas. A decadência do imperialismo estadunidense, contudo, não será de uma hora para a outra, podendo levar décadas. Ainda assim, provavelmente, continuará a exercer influências mundiais como um imperialismo secundário, tal como ocorre hoje com Inglaterra e outros países europeus.

Portanto, não podem ser analisados como uma “derrota estrondosa” do imperialismo, como se escuta e lê por aí, porque todas as suas ações a partir de agora partem destes cálculos contraditórios. Uma parcela fundamental dos seus esforços de guerra é para evitar a substituição do petrodólar como medida de valor hegemônico internacional, ainda que, contraditoriamente, acabe acelerando o processo de substituição do dólar contra a sua própria vontade. Mas, como se disse, esta guerra vai muito além da questão do controle sobre o petróleo iraniano.


Os efeitos da guerra contra o Irã no Brasil

Em razão dos anos em que o dólar foi hegemônico no mundo, o imperialismo ianque é especialista em repassar quaisquer custos para a periferia do mercado mundial. Quem paga esta conta é sempre a classe trabalhadora brasileira e da periferia do mercado mundial, já que suas elites nacionais são as sócias menores, diretas ou indiretas, do imperialismo.

Os governos de Michel Temer (MDB) e de Bolsonaro/Paulo Guedes (PL), seguindo os dogmas neoliberais de seus amos do norte — em especial os da Escola de Chicago —, privatizaram refinarias, os postos da BR distribuidora e, também, acabaram com os subsídios estatais para produção de fertilizantes, resultando num descontrole sobre a especulação e os preços, facilitando a vida do empresariado nacional e, sobretudo, internacional na hora de passar o aumento dos custos da cadeia produtiva do petrodólar para o povo.

Lembram da tentativa do governo Temer de nivelar o preço interno do petróleo e da gasolina com o preço internacional do barril de petróleo? Já pensaram nos estragos que isso causaria numa conjuntura como a atual? O jornalismo mercenário da grande mídia nacional nada fale sobre o tema.

Tudo isso aumenta a necessidade do aprofundamento do debate anti-neoliberal entre o povo, além de repensar todas as estratégias da esquerda — sobretudo no campo sindical, onde o petismo segue sendo um estorvo.

Os custos da guerra contra o Irã terão impactos sobre as eleições e intensificarão os fantasmas vindos da direita e da “esquerda”. Se não podemos baixar a guarda por um segundo frente às tentativas da direita neofascista, que trabalha, tal qual os seus amos do norte, para criar narrativas e embustes que lhe garantam o retorno ao poder; também não se pode comprar acriticamente o conto de fadas da “esquerda” que, de uma forma ou outra, serve como gangorra neste círculo vicioso eleitoral que o sistema capitalista criou.

Os EUA e Israel podem até perder conjunturalmente a guerra contra o Irã, mas a sua estratégia de longo prazo para postergar e dificultar a sua decadência histórica ganha espaço e fôlego quando reforçam o caos geopolítico permanente, baseado nas guerras eternas que enriquecem e empoderam a pequena elite da burguesia neofascista estadunidense e israelita e saciam a sede de sadomasoquismo do seu mórbido séquito de classe média.



Sugestões de leitura com afinidades de conteúdo:
> As forças destrutivas do capitalismo
> Coronavírus, crise capitalista e o princípio do declínio do império norte-americano

quinta-feira, 26 de março de 2026

O que o escândalo de corrupção do Banco Master poderia ensinar ao povo, mas não ensina?

O escândalo do Banco Master, liderado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, deixa claro, para quem tiver olhos para ver, como opera o sistema financeiro e o próprio capitalismo no nosso país.

Desde o judiciário, passando pela grande mídia e o crime organizado, estourando, como sempre, nos políticos — sobretudo nos de direita —, o escândalo é a expressão do funcionamento do sistema capitalista, o que liga a luz de alerta para a grande mídia na hora de fazer a sua “cobertura jornalística”. Poucas vezes vemos estourar escândalos de corrupção protagonizados por banqueiros, mas todos sabemos — ou deveríamos saber — que é assim que funciona a dívida pública e o sistema financeiro: se salva a bancarrota privada a partir do dinheiro público, que, por sua vez, endivida o país e empobrece largas camadas populares.

As grandes emissoras — tendo a Globo à frente — se desdobram num contorcionismo brutal para tentar livrar a cara do sistema, como se fosse o caso isolado de um banqueiro inescrupuloso e maldoso, além de jogar com os nomes políticos de ocasião, inclusive tentando culpabilizar indivíduos que não estavam diretamente envolvidos. Seria bastante visível e pedagógico para o povão perceber que se trata de uma forma de roubalheira institucionalizada, que segue operando neste exato momento de outras formas, com outros atores, sendo esta uma das causas da pobreza de milhões de brasileiros.

No entanto, a noção política do senso comum, cultivada há anos pela doutrinação da mídia comercial, por noções sociológicas equivocadas das universidades e das organizações militantes de esquerda, além da própria estrutura da psiquê coletiva da grande massa, impedem de se tirar tais conclusões, o que facilita o trabalho da grande mídia em manter a dominação de classe.

Qual é, enfim, o senso comum que embaça a visão do povo?

Até hoje a mídia e a ideologia burguesa lograram imputar a corrupção apenas à política e ao setor público. O setor privado é sempre visto como idôneo e confiável. Isso significa que, por diversas razões, o povo não enxerga a corrupção do Banco Master como a forma do capitalismo operar, que é uma expressão da libertinagem dos empresários e do setor privado, que só então, procurando meios de se “legalizar”, terminam por corromper os políticos.

O que a mídia burguesa — e a inoperância e o dogmatismo da agitação e da propaganda por parte da esquerda — consegue fazer valer é reforçar a noção de que a corrupção é um caso isolado que está quase que exclusivamente na política e nos políticos — isto é, no setor público, no Estado, nos governos — e quase nunca no sistema financeiro, no mercado, no setor privado — dito em poucas palavras: no funcionamento do capitalismo!

Este é o grande trunfo ideológico da grande mídia burguesa que a esquerda não se atenta e não combate, senão que o reforça, deixando uma avenida livre para a manipulação e a confusão. Este associação automática de corrupção ao público e ao político; e da virtude e da eficiência ao privado e ao mercado é parte indissociável do imaginário e da narrativa nacional que embota a consciência do povo brasileiro — não sem a sua própria adesão voluntária a ele numa falsa esperança de enriquecer para não precisar mais trabalhar e não ser mais tão humilhado.

O povo brasileiro, doutrinado por décadas no neoliberalismo midiático e por séculos nesta narrativa liberal, olha os grandes empresários e banqueiros com ares de simpatia, e são mesmo até capazes de lhes imputar algum tipo de isenção nestes escândalos, voltando seus olhos, sua raiva e sua atenção controladora apenas para os políticos, como se não houvesse estreita relação entre todos estes atores — sendo os primeiros os responsáveis por controlar e corromper os segundos.

Temos, então, um duplo serviço ideológico: 1) se livra a cara do setor privado e do próprio capitalismo, que é visto como idôneo e “justo”; 2) cria-se ojeriza no povo pela política e pela própria atuação política, vista apenas como campo de proliferação da corrupção, o que deixa o caminho livre para a perpetuação dos mesmos de sempre.

Como parte desta compreensão brota das simpatias do próprio povo para com o setor privado, se tornaria ainda mais importante uma intervenção ideológica cirúrgica da esquerda sobre tal tipo de mentalidade. 

E se alguém por acaso tem algum tipo de dúvida quanto a esta tese, que saia na rua conversando sobre o caso Master com qualquer pessoa nas paradas, nos ônibus, nos botequins, nas escolas de periferia ou nos locais de trabalho, que facilmente poderá confirmá-la…


Sugestões de leitura com afinidades de conteúdo:
> O povo brasileiro não tem feito história, mas sofrido-a
> Afinal, o pobre de direita existe ou não?
> A autoestima do povo brasileiro e a estratégia revolucionária
> Por que a classe trabalhadora brasileira ainda acredita em Lula?

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Conversa mole dos capitalistas chineses não pode levar ao comunismo



Quando Deng Xiaoping realizou as reformas de abertura ao mercado e ao Ocidente na China, ele disse:

“Conversa mole não vai levar nosso programa de modernização a parte alguma. [...] Certos camaradas nossos tratam ainda de fazer metafísica entre as relações da política com a economia, entre revolução e produção. [...] Eles não falam a não ser em política, eles não dizem nada de economia: eles falam apenas em revolução e não em produção”.

Pois bem, hoje a China se tornou o principal polo econômico de ciência e tecnologia do mundo ao ponto de mudar a balança geopolítica a seu favor. Segundo Deng, a chave para atingir a modernização era o desenvolvimento de ciência e tecnologia.

Esse assombroso avanço das forças produtivas desbancou gradualmente o poderio econômico e político dos EUA no mercado internacional e a tal da modernização, tão almejada pelo Partido Comunista chinês, foi — ou está sendo — atingida. Portanto, até o ponto de transformar a China na principal potência mundial, Deng estava correto.

           Mas e o socialismo e o comunismo?

Só temos escutado a China falando de ciência, tecnologia e modernização. E os outros princípios do socialismo? Controle operário [ou proletário] da produção? Socialização das principais decisões políticas e econômicas do poder “comunista”? Onde está a conformação de novas relações sociais e de uma nova psicologia de massas capaz de fazer a classe trabalhadora assumir gradativamente o comando e o poder real?

Pode-se contra-argumentar que ainda é cedo, pois as condições ainda não estão maduras.

Mas onde estão os embriões? Para onde apontam a política e a economia geral não só na China, mas, também, nos países dos BRICS para a criação dessas condições?

A conversa mole dos “camaradas” hoje fala apenas em “modernização” e não em controle operário da produção ou novas relações sociais.

Se fala em “erradicar a pobreza extrema”, mas ainda há pobreza e ausência de poder; se fala em “sociedade moderadamente próspera” e não mais em “mudar as relações sociais”; se fala em uma “nova classe média” e não mais em classe trabalhadora. Onde, então, se trabalha no sentido da socialização dos meios de produção, do controle proletário da produção e de novas relações sociais, mais humanizadas e menos mercantilizadas e consumistas?


***


Guardadas as devidas proporções, talvez o mesmo tenha se passado com o “socialismo do século XXI” venezuelano.

As mobilizações populares não se concretizaram em novos canais sociais de administração pública de poder real, de cultura, de educação, nem em novas relações sociais entre as pessoas. O que o chavismo fez foi dividir um pouco menos desigualmente a riqueza oriunda da renda do petróleo através de programas sociais. Nem mesmo vimos por lá o boom de ciência e tecnologia que a China vivenciou.

Ou seja, “modernizou” a sociedade do ponto de vista do acesso ao consumo — e, ainda assim, de forma muito restrita, diferentemente da China, pois o imperialismo estadunidense dificultou o consumo através do embargo e de sanções econômicas ao país caribenho —, porém, o imaginário social, as relações humanas e institucionais continuaram operando de um ponto de vista burguês e de classe média. Permaneceram, portanto, como presas fáceis das iscas capitalistas, inclusive dependendo da tecnologia estadunidense de combustível extrativista fóssil — tal como o Brasil também depende.

De um modo geral, não se viu e não se vê na Venezuela e na China o enfrentamento aos problemas e dilemas da psicologia de massas, que fica refém da manipulação das taras, dos ódios, da cobiça e do sadomasoquismo por parte do conservadorismo ou da extrema direita, que operam a partir das redes sociais e das mídias a serviço do imperialismo — sobretudo na Venezuela, pois o governo chinês exerce controle sobre as redes sociais e as mídias ocidentais que sabidamente trabalham para desestabilizar e sabotar os países, quando assim o desejam.


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Para além da modernização das forças produtivas, o socialismo precisa criar condições para a individuação das pessoas, possibilitando a maturidade emocional e evitando que a sociedade crie em escala industrial pessoas narcisistas, egocêntricas, voltadas a si mesmas e incapazes de perceber o outro, a dor do outro, mantendo, portanto, as relações mercantis e utilitárias do capitalismo. Se somos capazes de criar uma sociedade que comporte pessoas maduras, podemos criar relações sociais mais verdadeiras e mais livres, sem a necessidade de se criar subterfúgios para explorar outrem e subordiná-los aos nossos interesses pessoais mais utilitários e mesquinhos.

A verdadeira liberdade não é se fazer tudo o que se quer, mas é estar livre das influências inconscientes perniciosas.

Sem a individuação e a maturidade emocional interior o comunismo é impossível, pois somente se pode atingir um estágio evolutivo social sem estado e classes sociais — e, portanto, atingir um estágio de plena democracia, isto é, sem lideranças — se a massa humana for capaz de pensar por conta e risco e superar sua condição de rebanho, que é sempre passível de ser manipulada para que os ricos e poderosos joguem uns contra os outros.

Aqui vale relembrar a luta teórica de Rosa Luxemburgo contra a social-democracia alemã, quando esta, através do seu jornal Vorwärts [Avante!], tentou assassinar espiritualmente a revolução erguendo de novo diante da massa aquele quadro de bronze que há milênios a burguesia e toda a classe dominante opõem aos oprimidos e no qual está escrito: “vocês não estão maduros; vocês nunca poderão sê-lo, é uma ‘impossibilidade intrínseca’; vocês precisam de dirigentes; nós somos os dirigentes” (extraído do texto As massas “imaturas”).

Onde e quando, portanto, pararemos de nos conformar com “conversa mole” restrita à ciência e tecnologia e procuraremos assentar as bases para um novo desenvolvimento pessoal que caminhe no sentido de novas relações humanas, menos egocêntricas, narcisistas e utilitárias, e mais recíprocas, coletivas, autênticas e com real poder decisório e democrático sobre a política e toda a sociedade?

Um povo só começa a ser povo quando cada singularidade necessita categoricamente ser plural. E é precisamente a necessidade de ser plural que leva a nos buscarmos, vermos as caras, os medos e as ousadias, entendendo que quando ajudamos os outros a superar o seu próprio sofrimento, isto nos ajuda a superarmos o nosso. E o poder político — ainda mais os autointitulados “socialistas” e “comunistas”  precisam trabalhar impreterivelmente nesse sentido.

A principal vitória do socialismo — para além da industrialização, da eliminação do analfabetismo, do desenvolvimento da tecnologia e de condições materiais básicas para o proletariado — estará na sua capacidade de formar adultos com caráter, socialmente auto-suficientes do ponto de vista intelectual e emocional (mas sempre ligados entre si pelos interesses gerais da sociedade e respeitando os ciclos da natureza), para que estes possam educar as crianças no mesmo sentido. Neste esforço, a compreensão sobre o papel do trabalho e da sua necessidade social é fundamental, bem como a luta contra o irracionalismo das massas e o seu espírito de rebanho.


Sugestões de leitura com afinidades de conteúdo:
A ascensão mundial da China
Socialismo com características chinesas ou capitalismo de Estado?
A ética confucionista e o espírito do novo capitalismo chinês

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A psicopatia do império e o sequestro de Maduro

 


O inaceitável sequestro de Maduro veio na esteira do lançamento da Doutrina Trump, que expõe ao mundo a psicopatologia do império.

A superioridade militar estadunidense, usada para sufocar e chantagear quem ousa criticá-lo, foi rápida e fatal. Mas nenhuma guerra, por mais superioridade tecnológica e militar de que disponha um dos lados, pode ser vencida sem um aparato de propaganda e narrativas que prepare o caminho.

Sabemos que a grande mídia latino-americana foi a principal arma de guerra do império estadunidense, secundada pelas sanções e embargos econômicos de décadas à Venezuela. Mas há ainda uma arma de guerra que precede tudo isso, sem a qual o jornalismo mercenário não pode fazer efeito: o estilo de vida, a filosofia pragmática e a economia sustentada pelo império norte-americano que naturalizam e legalizam a psicopatia em larga escala, cujo ápice foi atingido com as práticas neofascistas do governo Trump.


A psicologia de massas como arma de guerra

Não é somente a alta tecnologia militar da máquina psicopática de guerra dos EUA que desarma os radares de caças e mísseis de qualquer país, mas o tipo de propaganda política institucional, o jornalismo neocolonial e a filosofia de vida que torna inútil uma “bateria antiaérea racional” para o povo, fazendo “patriotas” se ajoelharem e prestarem continência à bandeira imperialista estrangeira.

Quando se chega a este estado de coisas é como se um vírus se espalhasse por entre as pessoas, anulando qualquer capacidade e esforço racional, por mais bem montados que sejam.

Nesse sentido, a principal arma de guerra do império estadunidense contra a América Latina não é a bomba atômica, os porta-aviões, a IA, os drones ou o que quer que seja no campo militar, mas a mente do seguidor de Bolsonaro, Milei, Kast e do gusano da Flórida, cuidadosamente cultivada por anos de propaganda neoliberal, a que chamam de “jornalismo”. 

Trata-se do melhor cavalo de Tróia que pode haver, pois entende entreguismo como patriotismo; pirataria, saque e extorsão como desenvolvimento econômico; além de ser imune a todo fato histórico ou argumento racional, celebrando a injustiça como algo digno e desejável. Ela não só antecede as invasões, como prepara o caminho para o ataque estrangeiro, comemorando-o como se fosse um título de Copa do Mundo!


A manipulação egotista da psicologia de massas

Mas como o império, com seus sucessivos governos, aparatos militares e propagandísticos, atacando, invadindo e bombardeando abertamente inúmeros países pelo mundo, consegue esse grau de alienação e subserviência?

A resposta é: com a manipulação egóica dos sentimentos infantis mal compreendidos e mal resolvidos que existem em nós; com a recusa em olhar a realidade de frente e de se posicionar levando em consideração as outras pessoas além do nosso próprio umbigo. Muitos destes sentimentos manipulados são psicopáticos e são capazes de gerar prazeres sadomasoquistas.

O império e sua mídia se especializaram em manipular taras, ódios e medos, dentre os quais o maior de todos é o medo da morte, do fim de si mesmo; isto é, do fim do ego. O império logrou associar na mente de bilhões de pessoas a defesa do próprio ego com a defesa dos interesses estratégicos dos EUA.

Defender os sórdidos interesses econômicos dos EUA soa natural para bilhões de pessoas. Os “homens-bomba” norte-americanos explodem em reações emocionais desequilibradas e intolerantes frente ao menor questionamento político da conjuntura, seja na Venezuela, no Brasil, nos EUA ou no mundo. Esta psicopatia é caracterizada por fazer o indivíduo perder a capacidade de empatia e escuta, bloqueando o cérebro racional para fatos e argumentos bem construídos.

Assim, eles endossam ataques, invasões — como o sequestro de Maduro —, bombardeios, guerras e até mesmo genocídios — como o ocorrido em Gaza.

A psicopatia legalizada pelo império através da mídia e de inúmeras instituições políticas legaliza também a violência simbólica e real, as quais exercem um certo fascínio sobre a psique egocentrada, com fortes tendências sadomasoquistas.

Chegamos ao ponto em que os golpes imperialistas acontecem escancaradamente, rompendo qualquer resquício de direito internacional, onde um presidente psicopata, secundado por ministros psicopatas, podem falar abertamente que “vão controlar o governo e o petróleo da Venezuela”; ou que “este hemisfério é nosso”; ou, ainda, que “o mundo é governado pelas leis de ferro da força bruta” e não serem condenados por milhões de pessoas, mas aplaudidos de pé, com os olhos vidrados pelo fascínio da força primitiva, que desencadeia emoções primitivas.

A maioria destas pessoas que aplaudem de pé, são as mesmas que depois vão rezar a Deus e a Jesus pedindo paz e prosperidade para si e para a família; ou, então, vão reclamar da pobreza e das condições precárias do seu próprio país.

É o triunfo televisionado da estupidez humana!

É um brinde à psicopatia!

É a vitória do império do caos, que impõe a economia política da chantagem e a permanente instabilidade nos outros países — em especial na América Latina e no Oriente Médio — para garantir a sua própria segurança nacional.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Como Jessé pretende ressuscitar a esquerda?

 

Um debate entre Jessé Souza, Rosa Luxemburgo e Florestan Fernandes


O proletariado atingirá o objetivo de sua viagem — sua libertação —
se souber aprender com os próprios erros.
Para o movimento proletário, a autocrítica, uma autocrítica impiedosa,
severa, que vá à raiz das coisas, é o ar e a luz sem os quais ele não pode viver.

(Rosa Luxemburgo — A crise da social-democracia). 

 

           Que a esquerda está morta não há dúvidas. 

Mas de qual esquerda estamos falando?

            Podemos resumir a esquerda a um todo só e, em particular, ao petismo? E o mais importante: podemos abrir mão dos históricos métodos de luta da esquerda no sentido da resistência à dominação dos ricos e poderosos?

            O novo “best-seller” de Jessé “Por que a esquerda morreu? E o que devemos fazer para ressuscitá-la” faz um resgate importante da evolução das correntes políticas deste campo desde o século XIX, porém, deixa várias lacunas e ausências muito perigosas que precisam ser pontuadas.

 

I - Definição de esquerda:

            Para Jessé, ser de esquerda significa apenas lutar pelo controle político sobre o capital.

            É uma definição muito singela e vaga. Por exemplo, a China atual seria “de esquerda” porque controla politicamente o capital — ou, pior ainda, a maioria dos países europeus, incluindo alguns asiáticos, como Coréia do Sul e Japão, também poderiam ser considerados de “esquerda” pelo mesmo critério?

            Jessé não diz que tipo de controle político deveria ser exercido sobre o capital. É, portanto, impreciso.

            Um projeto de esquerda não pode ser resumido ao “controle político do capital” sob pena de fazer com que o debate retroceda para antes do século XIX. Uma noção mais avançada e pertinente sobre o que é “ser de esquerda” deveria abarcar, no mínimo, a necessária compreensão da importância de superar a sociedade capitalista, dando condições para a criação de formas materiais e espirituais desta superação, fazendo com que os trabalhadores e a maioria das pessoas tenham possibilidade de influir sobre a produção econômica, a política, a educação, a cultura, etc., no sentido de possibilitar o surgimento e o desenvolvimento de um ser humano novo, pleno e com condições de autorrealizar-se social e individualmente.

            Dito de outra forma: a esquerda, percebendo que os ricos e endinheirados são conservadores por natureza e, portanto, de “direita”, deve trabalhar pela plena emancipação do ser humano trabalhador e pobre das condições de exploração, ignorância e dependência material e espiritual em que se encontra submetido na esmagadora maioria dos países do mundo. Que o programa da esquerda que visa a edificação de uma nova sociedade crie as condições para que todos sejam capazes de buscar o que realmente são interiormente (self) e, também, se estabeleça relações o mais harmoniosamente possível entre todos os membros da sociedade.

            Retroceder desta noção debatida política e filosoficamente por socialistas, marxistas e anarquistas ao longo do século XIX não é apenas um retrocesso ideológico; ele ajuda a “direita” e os setores conservadores a esconderem a diferença de perspectivas entre um projeto de concentração de riquezas e de poder; e o de emancipação humana e o máximo de igualdade social possível.

            Poderíamos arriscar uma definição de um tipo mais genérico que também possui seus grãos de verdade. A esquerda se preocupa com o outro, em ouví-lo, em levar seus interesses, anseios e medos em consideração (ainda que muitos militantes de esquerda não cheguem nem perto desta atuação prática); enquanto que a direita é mais egoísta, voltada a beneficiar os interesses egotistas acima dos coletivos e sociais, gerando, de uma forma ou outra, uma guerra de todos contra todos. A sociedade capitalista, por sua natureza, beneficia as relações “de direita” às relações de esquerda; isto é: coloca os interesses da economia privada acima dos interesses da economia pública.

***

            Há ainda a diferença entre esquerda reformista e revolucionária, fruto da discussão do movimento operário alemão, cuja principal expoente nesta polêmica foi Rosa Luxemburgo. Para Jessé, tudo isso é passível de ser ignorado através de um rótulo mágico de “controle político sobre o capital”.

            É a esta concepção estreita de esquerda que seu livro se refere do início ao fim. Apesar da falta de precisão neste aspecto, é notório que ele se refere ao PT como o centro da esquerda, sendo as qualificações de reformista ou revolucionária totalmente ignoradas.

            Cabe destacar que o PT não se enquadra neste conceito de “esquerda”, dado que seus governos não chegam nem perto de controlar politicamente o capital, senão que, em última análise, são controlados por ele — a despeito de discursos e declarações por parte de sua militância.

            Toda a esquerda — seja ela reformista, social-democrata ou revolucionária — está morta da mesma forma? Não seria importante diferenciar? 

Apesar desta falha do autor, podemos constatar que a esquerda que se julga revolucionária é refém dos guetos, pois não consegue evoluir e, grande parte dela, espera crescer messianicamente, muitas vezes sofrendo de delírios irreais. De certa forma, por ser quase insignificante em sua agitação e propaganda dogmáticas, pode ser considerada morta também, mas isso não significa que parte da solução para o problema de “ressuscitar” a esquerda esteja num remendo do PT.

            Com relação à esquerda reformista e social-democrata, vale apontar que ela já era um cadáver insepulto desde 1914, conforme afirmou Rosa Luxemburgo. O que o PT fez, em última instância, foi tentar reavivar velhas práticas social-democratas moribundas, há muito criticadas, seja por Rosa, seja por Florestan Fernandes. 

A um partido reformista e social-democrata, como o PT, corresponde uma política e um programa incapaz de denunciar coerentemente a estrutura do sistema do qual torna-se dependente.

 

II - Jessé faz uma breve análise política correta sobre o petismo, mas ela entra em contradição com o restante do livro: 

            Apesar desta confusão de conceitos e definições sobre o que é ser de esquerda, pela primeira vez pudemos ler uma crítica correta de Jessé à atuação política do petismo. 

            Ele escreveu: “ao compartilhar o imaginário elitista dominante na sociedade, o PT se transforma, sabendo ou não — e eu imagino que até hoje não tenha a menor ideia —, em um mero plano B da elite paulista, condenado a meramente administrar o capitalismo periférico com um toque de empatia popular, sem jamais se contrapor a ele e sem ao menos tentar desconstruí-lo” (página 109).

            Esta análise correta, a despeito da inaceitável concessão à “ingenuidade petista”, contradiz a maioria dos livros que escreveu anteriormente. A essência da questão é exatamente esta: o PT se colocou como um mero administrador do capitalismo periférico, dando a este projeto um verniz popular. E neste triste papel acaba sendo um mero plano B da elite paulista.

            Bravo, Jessé!

            Antes tarde do que mais tarde!

            Chegou com um certo atraso à conclusão que a esquerda revolucionária já sustentava, pelo menos, desde 2003, e que Florestan Fernandes já vislumbrava desde… 1988!, quando foi deputado constituinte pelo PT.

            Este reconhecimento tardio se constitui no ponto de partida mais importante para investigarmos a “morte da esquerda”. Porém, desgraçadamente, ele mereceu apenas uma citação passageira em um único parágrafo de um livro que tem 136 páginas!

Jessé ainda escreve, em tom choroso, que: “O PT, a despeito de suas inegáveis contribuições históricas à luta contra a desigualdade no nosso país, jamais percebeu a transcendental importância da luta cultural pelo imaginário social da população. [...] O PT abraça, certamente sem o saber, o imaginário social de seu inimigo de classe: como não percebe a importância da luta cultural na sua inteireza, o PT prescinde de qualquer leitura alternativa da realidade, caindo em um economicismo ingênuo. Comecemos pelo primeiro ponto. Ao cortar qualquer relação com o trabalhismo anterior, o PT se joga, inevitavelmente, nos braços do imaginário da elite paulista, construído, com precisão de alfaiate, para se contrapor ao imaginário inclusivo de Getúlio Vargas” (páginas 104 e 105).

Como um partido que presidiu o país por mais de 3 gestões federais, além de contar com inúmeros governos estaduais e prefeituras, somando mais de 3 milhões de filiados, dezenas de fundações de intelectuais e dirigindo a CUT e centenas de sindicatos espalhados pelo Brasil pode não perceber a importância da “luta cultural pelo imaginário da população”?

            Não seria mais honesto e correto reconhecer que as exigências da sua estratégia política de compor uma permanente frente ampla — sobretudo com parte da elite paulista — o obriga à renunciar a esta disputa, lhe criando mil constrangimentos e empecilhos políticos sob pena de romper a “governabilidade” institucional à qual se submete como se fosse uma exigência divina?

            Se o PT e o movimento dirigido por ele se colocarem em marcha na disputa por uma nova narrativa e um novo imaginário que se contraponha à elite paulista, isso provavelmente resultará em rupturas e choques com grande parte da mentalidade conservadora de sua base social, cultivada a partir de inúmeras ilusões reformistas, pacifistas, empresariais e religiosas (isto é, entrará em rota de colisão com o imaginário criado pela elite paulista). 

Não foi exatamente isso que aconteceu com Vargas em 1930-1932-1954? Não é justamente isso que o petismo tenta evitar com todas as suas forças desde antes de 2003?

Como Jessé renega o marxismo, perde com isso sacadas materialistas importantes, como, por exemplo, a que afirma que a todo poder ideológico corresponde um poder material que lhe dá sustentação. Vargas apenas conseguiu modificar a narrativa e disputar um novo imaginário porque enfrentou os barões paulistas do café na arena da economia e da política através de uma ditadura. É inviável disputar a narrativa e o imaginário nacional se não há disputa e enfrentamento sério no campo econômico e político com o agronegócio, o sistema financeiro e os seus sustentáculos na elite paulista. Ao contrário. O petismo é apoiador direto ou indireto destes setores e espera mudanças pacíficas via eleições e “maiorias” no Congresso Nacional.

Jessé nos deixa, então, paralisados dentro de um círculo vicioso que ele não vê — ou não quer ver? — de que a estratégia e o programa petista desde antes do primeiro mandato de Lula, em 2003, abdicam da disputa pela hegemonia narrativa e o imaginário nacional em nome da “unidade política e institucional” com grande parte da elite nacional, incluso parte da paulista. Se o petismo mexe uma simples peça no sentido de fazer esta disputa, ele sofre com a ameaça de ruptura da frente ampla que construiu por iniciativa própria. E esta simples ameaça pode pôr abaixo todo o frágil castelo de cartas. A burguesia, seja a que está no governo ou a que está na oposição, sabe muito bem desta contradição e joga com ela.

 

III - O grande problema da esquerda para Jessé é a ausência de uma narrativa e de um imaginário nacional alternativo ao da elite paulista:

            De fato não existe uma narrativa e um imaginário nacional alternativo ao da elite paulista para o Brasil. E esta ausência cobra um preço alto. 

Mas seria isto a principal razão para a morte da esquerda? Ou estaria no fato de que a esquerda não consegue traduzir uma política revolucionária para a atualidade, capaz de dialogar, galvanizar e mobilizar amplos setores das massas populares?

            Para compreender esta contradição temos que fazer uma análise da psicologia de massas e de como a direita neofascista consegue fazer isso com muito mais maestria do que a esquerda.

            Jessé faz uma boa reconstrução teórica a respeito desta questão no seu livro, indo desde os laboratórios sociais da propaganda norte-americana de manipulação das massas, passando por outros países do mundo, até chegar ao Brasil. No entanto, Jessé também termina refém de uma contradição que ele não vê — ou não quer ver? — e que é reproduzida por quase toda a esquerda.

            Qual seja: em razão dos refinados métodos de manipulação da psicologia de massas, a maioria dos trabalhadores tem preferido ir à direita do que à esquerda. Não basta, portanto, uma narrativa alternativa, por mais importante que seja — e que de fato não existe, sobretudo por causa da atuação prática do PT, precisando ser construída. Como vimos, isso pressuporia que o PT está disposto a romper suas alianças com parte da elite nacional e paulista; ou, então, que a esquerda revolucionária tem disposição de se reconectar com a realidade e parar de reproduzir dogmas. Mas uma falha parece alimentar a outra e não temos sabido quebrar o círculo vicioso.

            Ainda que a direita neofascista tenha se refinado na psicologia de massas, podendo incentivar o ódio, as taras e as perversões livremente, sem nenhum problema ético; o petismo também tem suas artimanhas nesse campo, mesmo sendo mais moderado e comedido.

            Jessé reconhece que o petismo dá “empatia popular” ao “plano B da elite paulista” e à escravizante tarefa de “administrar o capitalismo periférico”, mas não diz porque isso ocorre. 

Se o petismo ainda tem apelo popular é porque também cultiva ilusões familiares e caras à grande massa, inclusive no campo religioso evangélico. Em outro livro, Jessé reconhece que “os pobres são pragmáticos. Eles percebem a política como um jogo sujo e corrupto dos ricos e querem saber quem, no final das contas, vai ajudá-los de algum modo efetivo” (in A guerra contra o Brasil. Editora Estação Brasil, Rio de Janeiro, 2020 - página 180).

Como construir uma narrativa alternativa ao imaginário nacional que consiga romper com essa conduta “pragmática” do povo e não reforçá-la? Quantos eleitores e sindicatos o petismo perderá caso vá à esquerda, rompendo e se chocando com o imaginário oficial instituído pela elite paulista e sua mídia, bem como questionando o seu “economicismo” mais pragḿatico e rasteiro? Existe honestidade e coragem suficientes no PT para isso?

            Eis o ponto central que Jessé deveria abordar e responder…

 

IV - A “revolução expressiva” e luta habermasiana pela opinião pública:

            Jessé defende que a grande mudança se deu com a “revolução expressiva” dos jovens das décadas de 1960 e 1980, pois colocavam o problema da integralidade do ser humano e não apenas o do homo economicus, produtivista.

            Não há dúvidas de que foram movimentos importantíssimos que abriram vários caminhos não explorados pela esquerda ainda hoje, sendo necessário aprofundar o debate. Mas certamente Jessé dá uma força sobrenatural com contornos milagrosos para estas revoluções. Para podermos apreciá-las como devem ser – isto é, baseado no realismo –, precisamos estudá-las muito além do ufanismo milagroso.

            O mesmo exagero milagroso é feito em nome da disputa – eleitoral – pela esfera da opinião pública. Certamente é outro campo que a esquerda não disputa corretamente, muitas vezes se colocando como papagaio de pirata do discurso oficialista e reforçando estereótipos. No entanto, a psicologia de massas da direita neofascista tem sido muito mais eficaz do que a esquerda pelas razões expostas acima e que serão aprofundadas mais adiante.

            Como o próprio Jessé reconhece, a “revolução expressiva” e o Estado de Bem Estar Social não teriam sido possíveis sem a existência da URSS. Porém, na sua esforçada tentativa de ressuscitar a esquerda, contraditoriamente, Jessé ignora por completo as experiências do “socialismo real”, com toda a sua riqueza de lições, envolvendo bilhões de seres humanos, como se fosse algo passível de ser secundarizado.

            Ele diz, simplesmente, que “as revoluções violentas, como a francesa, de 1789, ou a russa, de 1917, mais tarde foram incapazes de produzir esse aprendizado, com frequência significando a mera substituição de estruturas oligárquicas. O Antigo Regime é restaurado poucos anos depois da Revolução Francesa. E as relações autoritárias da época dos czares retorna à União Soviética sob a forma de uma dominação burocrática. As revoluções de consciência, ao contrário, mudam a forma como o povo percebe e interpreta a vida social como um todo, transformando assim, a partir de dentro, todas as relações sociais” (página 36).

            Tanto a revolução francesa quanto a russa foram filhas de seu tempo histórico. No entanto, também foram revoluções de consciência. Elas moldaram e prepararam o caminho para outras formas de revolução, como a própria “revolução expressiva”, ajudando a formar e a consolidar esferas de opinião pública (mesmo que às avessas) e o perigoso Estado de Bem Estar Social europeu.

            Junto com as “revoluções expressivas” e as formas de assegurar o debate público nas esferas de opinião pública, garantindo direitos em um Estado de Bem Estar Social, é fundamental estudar, conhecer e se preocupar com as instituições surgidas das revoluções socialistas do século XX, as quais Jessé não dá a mínima importância. Ao contrário. A sua fórmula para “ressuscitar a esquerda” pretende que a “revolução expressiva” e de “consciência” sirvam à fins eleitorais para garantir o controle político sobre o capital. 

Da mesma forma ele entende o papel dos sindicatos: uma escola eleitoral para governos ditos “progressistas”.

 

V - O papel dos sindicatos e dos movimentos sociais: 

            Existe um vetor fundamental da luta de classes que seria decisivo na construção de um novo imaginário para o país, ao qual Jessé não apresenta nenhuma crítica: os rumos políticos dos movimentos sindicais e sociais, ambos dirigidos quase que hegemonicamente pelo petismo. 

Como eles não criaram nada alternativo fora do oficialismo político, nem geraram confiança nas massas que “representam”, apenas mais discursos identitários vazios quase como uma sucursal do partido democrata estadunidense no Brasil, serviram simplesmente para garantir eleições petistas e, por isso mesmo, aprofundaram a crise e a “morte da esquerda”.

            Jessé não reconhece aí nenhum problema teórico, político ou estratégico para a esquerda. Talvez seja por isso que ele só fale dos sindicatos do século XIX e do início do XX, mas não esboce nenhuma crítica à atuação do PT no movimento sindical.

            O sindicalismo petista desenvolveu um respeito quase religioso à legalidade, às eleições e às instituições da democracia burguesa, que, quando se sentem ameaçadas, tramam golpes e retiram direitos dos trabalhadores em plena luz do dia. Certamente que se deve observar certas práticas da legalidade para que os sindicatos não sejam cassados burocraticamente e possam existir, mas isso nada tem a ver com cultuar a legalidade, chamando a classe trabalhadora a confiar nela cegamente em todas as circunstâncias, tal como faz o petismo. 

O resultado é a destruição completa da independência de classe e a submissão total da classe trabalhadora ao Estado burguês. Que tipo de imaginário se pode criar no seio do movimento dos trabalhadores deste modo? Não estaria aí uma adaga bem no coração da esquerda para matá-la?

         Na prática de administrar os sindicatos dentro desta estreita legalidade, PT e CUT tratam como inimigos todos aqueles que, de alguma forma, questionam essa legalidade e que reconhecem nela um entrave. Não é necessário ser um gênio em sociologia ou em história para perceber o interesse da classe dominante neste legalismo, que é o meio mais eficaz para controlar movimentos independentes de base.

            O controle burocrático e autoritário dos sindicatos e centrais sindicais pelo petismo impede o surgimento de uma criatividade organizativa, política e ideológica. E onde não há criticidade viva, honesta e ativa, impera a despolitização e a reprodução de rebanho, sem que nenhum debate por um imaginário nacional novo possa se desenvolver com sucesso e se enraizar por entre o povo.

            Se este espírito de rebanho não é o motivo central para a “morte da esquerda”, certamente é outra adaga cravada no seu coração. Nenhuma classe dominante temerá um povo imbecilizado pelas redes sociais, docilizado pela grande mídia, pelos patrões, pela educação pública e domesticado pelos partidos e movimentos de “esquerda” nos sindicatos oficiais.

            A “esquerda revolucionária” também não tem sabido enfrentar o problema, exagerando e desordenando as discussões e palavras de ordem, que degeneram em oposições desonestas, raivosas ou delirantes – ou num misto das três. Por fim, quando existem pessoas com trabalhos de base reais, coerentes e revolucionários, encontram ouvidos moucos das categorias, que optam oportunisticamente por discursos pragmáticos e “economicistas”, como bem reconheceu Jessé no seu outro livro. 

            Pelo visto, para ele, o hegemonismo petista sobre os sindicatos não merece crítica ou sequer atenção. No campo sindical fica patente que a liderança de Lula não é tão exemplar quanto vende no livro.

            Se Lula é um líder melhor do que Bolsonaro e toda a miríade de presidentes brasileiros anteriores – geralmente de direita –, isso não o isenta da paralisia sindical, que é um reflexo de elementos autoritários, oportunistas e muitas vezes místicos com que o petismo exerce o seu poder e o seu imaginário eleitoral estratégico sobre o movimento sindical nacional. O que ele propõe para ressuscitar o sindicalismo brasileiro frente a estes entraves petistas? Ou isso não teria a menor importância para ressuscitar a esquerda?

 

VI - Como elaborar uma política revolucionária que influencie a psicologia de massas no sentido de superar a sua recusa em ir à esquerda e a sua fácil sedução pela direita?

A pergunta correta para tentarmos ressuscitar a esquerda deveria ter esses questionamentos; e a resposta não pode surgir apenas de uma nova narrativa e de um novo imaginário a partir de um único partido político, sem desenvolver uma nova metodologia de trabalho de base para melhorar a atuação sindical e dos movimentos sociais brasileiros, criando raízes verdadeiramente populares e nacionais.

Podemos concordar que a ausência de um imaginário alternativo ao da elite paulista dificulta tudo, mas, como foi dito, parte desta ausência se explica como o resultado da opção política petista: ele não pode construir um imaginário alternativo sem destruir a sua estratégia política de aliança com parte da elite paulista na frente ampla. 

No lugar de preparar uma ruptura “realista”, vemos o PT sempre tentando se demonstrar o mais confiável possível aos aliados, como naquela vez que perdoou as dívidas da Rede Globo ao invés de torná-la uma emissora pública, como sugere Jessé. Seria importante, antes de qualquer coisa, pensarmos se a direção da empresa, que é reconhecidamente golpista em 1964 e 2016, aceitaria esse sonho colorido ou se tramaria novos e piores golpes na iminência de perder tudo. Mas Lula e o PT fizeram pior do que isso: ao invés de enfraquecerem a Rede Globo para torná-la pública, tentaram fazer isso fortalecendo a Rede Record do bispo Macedo, que se tornou uma fortaleza bolsonarista!

            Pode-se concordar também que um grande partido de massas, com influência política governamental, sindical e popular, assumir uma narrativa alternativa à oficial tem um grande peso que é preciso testar e exercer na prática. Muitas organizações da “esquerda revolucionária” desconsideram a importância de uma narrativa bem construída e amplamente exposta. No entanto, é necessário levar em consideração cuidadosamente as questões relacionadas à psicologia de massas e todo histórico sindical petista.

Há uma profunda apatia na classe trabalhadora brasileira fruto de vários fatores, mas, em particular, da utilização demagógica da psicologia de massas pela direita (bolsonarismo, partidos da elite, grande mídia, igrejas evangélicas, etc.), de um lado; e pelo petismo, com toda a sua demagogia sindical e eleitoral, por outro – sendo um o peso da gangorra para o outro. O espírito de rebanho, por exemplo, é cuidadosamente cultivado por ambos os lados nestes discursos oficiais de poder real e simbólico.

         O petismo, por seu turno, propõe uma mudança conservando esse equilíbrio, só que com uma ênfase “popular”. Jessé reconheceu isso tacitamente em seu livro, embora dando uma grande concessão à suposta “ingenuidade petista”. 

É evidente que teremos aí um discurso sedutor, que será a antípoda do discurso da direita oficial, ainda que, por estar dentro da ordem e conciliar com parte da elite nacional, não pode ser capaz de derrotá-la completamente, dado que o seu projeto programático e a sua conduta política é incapaz de resolver os grandes e graves problemas estruturais do país, deixando o caminho livre para novos e piores golpes de Estado por parte do imperialismo estadunidense.

         As palavras de ordem, ações e trabalho de base da esquerda “revolucionária”, por sua vez, soam irreais ou causam pavor na massa humana – em sua maioria não são sequer compreendidos com o mínimo de esforço e interesse. A atuação da esquerda “revolucionária” não desfaz os estragos demagógicos do reformismo petista, nem se preocupa com os desvios internos da massa, já que ela é idealizada messianicamente. 

O trabalho de base desta esquerda não enfrenta as hipocrisias cotidianas dos trabalhadores comuns (até porque os próprios militantes de esquerda não querem enfrentar as suas), sem o quê parece ser impossível ajudá-la a superar as ilusões petistas e direitistas.

         Já os discursos de Lula e do PT soam como “realistas” em contraposição aos da esquerda “revolucionária”. São os únicos que parecem ser “viáveis” (seja pelo peso nos movimentos sindicais e sociais; seja pela carta branca direta ou indireta que lhe é dada pela grande mídia e pela estrutura oficial, beneficiada diretamente por essas ilusões). Essa noção esperançosa de que o PT é o “único viável” reflete a visão utilitária da classe trabalhadora, infectada pela filosofia “pragmatista” estadunidense e Ocidental. 

Dentro desta visão, as eleições são vistas como a “única possibilidade de mudança” – e, para se sanar qualquer dúvida, basta ouvir os comentários nos botequins, nas ruas, nos locais de trabalho e moradia. Sem compreender as ilusões da psicologia de massas e sem realizar um longo trabalho de base que combata o messianismo, o utilitarismo e o pragmatismo presentes no seio da classe trabalhadora, a esquerda revolucionária continuará pregando uma saída “via revolução” que não será compreendida.

         O PT de Lula desponta como a única “esquerda realista” e “possível” porque, a despeito do seu oportunismo descarado, sabe convenientemente levar em consideração elementos da realidade e, sobretudo, as ilusões e esperanças da massa. Já a esquerda “revolucionária” não consegue agir desse modo, pois está cega por um “fanatismo” totalizador; além disso, não consegue estabelecer um trabalho de base coerente, com uma agitação e propaganda que quebre ou sequer arranhe essas ilusões. Talvez aja assim por medo do novo ou mesmo por idealizar a massa, que é vista sempre como ingênua e enganada por “direções traidoras”, sem querer perceber a dialética da interdependência que existe entre “massas enganadas” e “direções traidoras” na psicologia de massas.

            O ativista do movimento negro dos EUA, Kwame Ture, afirmou certa vez que “o capitalismo torna as pessoas burras e depois torna elas arrogantes em sua burrice. Elas não apenas não sabem, como não querem saber”

A grande questão sobre a morte da esquerda que não é enfrentada nem pelo petismo, nem pela esquerda “revolucionária” e nem por Jessé é, justamente, o que Ture escancarou: porque grande parte da massa emburrecida, alienada e manipulada pelo capitalismo “não quer saber”? Por que ela foge de uma agitação e propaganda política que lhe explique o porquê? E ainda: por que ela prefere qualquer embuste “anti sistema” da direita (Trump, Bolsonaro, Marçal, etc.) aos anti sistemas de esquerda? 

É precisamente aí que está a vitória conjuntural da direita neofascista e o seu poder manipulatório sobre a psicologia de massas ao qual a esquerda, seja de que vertente for, sequer têm conseguido arranhar ou mesmo encontrar explicações.

 

VII - As ilusões nos influencers e youtubers de esquerda:

            Frente à morte da esquerda e à paralisia do movimento sindical, temos visto o crescimento exponencial da militância online e dos youtubers que são vistos como redentores de um caminho que não existe. 

Alguns deles, como Jones Manoel, Opera Mundi, Saia da Matrix, Orientação Marxista, Rubonautas, Brasil 247, Alysson Mascaro, ICL, etc. insinuam direta ou indiretamente — não sem a complacência dos partidos e organizações de esquerda — que ganhar seguidores e likes passou a ser confundido com “influência de massas”, quando na verdade é um terreno pantanoso, onde a direita neofascista leva uma grande vantagem. Ainda que seja muito importante disputar ideias no campo virtual, é necessário ter em mente que isso pode se tornar um novo entrave ilusório.

            Por mais seguidores que se tenha, toda esta influência virtual não tem se convertido em movimento de massas, nem em crescimento da consciência de classe por entre a classe trabalhadora; senão que, muitas vezes, fica-se num ping pong online, com pautas histriônicas que mais repelem do que esclarecem, aprofundando a apatia e o distanciamento. E isso é tudo o que a direita neofascista deseja, pois é o seu campo preferencial: o campo da manipulação da psicologia de massas tem sido, por excelência, o virtual e o eleitoral.

            A classe trabalhadora acaba seduzida pelo discurso da direita porque dentro da sua subjetividade individual está presa aos valores do conservadorismo, que a direita neofascista aprendeu a manipular com maestria e a esquerda nem chega perto de enfrentá-los por desconsiderá-los totalmente, uma vez que é cega pelo discurso econômico e objetivista, ignorando os problemas da psicologia de massas. 

A visão mecânica do marxismo só vê qualidades num trabalhador pobre, nunca seus vícios e defeitos. Pensam que estes serão sanados quase que automaticamente por uma “política correta” de uma direção revolucionária (ou pelo voto correto num partido de esquerda, no caso de Jessé). 

Esta dinamização política imposta pelo capitalismo gera ideologias que se disseminam amplamente através das novas formas de tecnologia e comunicação. A intensificação do individualismo impulsiona formas de ver o mundo pelo prisma da autoverdade, do utilitarismo, do hedonismo e do identitarismo burguês. Os próprios meios de criação de ideologias — universidades, escolas, igrejas, grande mídia, redes sociais — desenvolvem formas e técnicas — dentre as quais, cabe destacar hoje as redes sociais — para disseminar estas ideologias e dinâmicas, que, por sua vez, reforçam a terra arrasada na vida real.

Seria importante que os youtubers “de esquerda” voltassem todas as atenções para a organização real e, principalmente, para tentar anular e reverter a manipulação da psicologia de massas. Para isso seria necessário estudá-la com atenção.

            O trabalho penoso, paciencioso, do dia a dia, nos locais de trabalho, enfrentando a patronal, o assédio moral permanente, o descaso, a consciência atrasada fermentada, dentre outros meios, pelas redes sociais, que se converte no desânimo mais atroz, poucas organizações políticas e militantes — sejam reais ou online — enfrentam, pensando poder resolver tudo “pelo alto” com as novas tecnologias e as redes sociais. 

E as organizações reais que existem nos movimentos sociais não querem fazer um balanço e uma reavaliação da sua atuação prática, conformando um terrível círculo vicioso que precisa ser quebrado.

 

VIII - Algumas conclusões: para quê tem que servir a esquerda?

            Muitos pensadores burgueses fazem troça da tentativa dos socialistas de mudarem a sociedade, afirmando que isso é impossível. Para eles, a sociedade tem que ser desigual porque os seres humanos são desiguais. Sendo assim, o pensamento burguês, liberal e de direita “estaria correto” em apostar tudo no individualismo e no egoísmo.

            Por natureza, cada pessoa tem seus próprios gostos e sonhos de realização na vida, ainda que uma grande maioria nem saiba que seus gostos são manipulados pelo consumismo e pela propaganda da indústria cultural. Podemos concordar que não é possível um modelo de felicidade e realização pessoal uniforme e universal, sem o empobrecimento da diversidade humana. Porém, é necessário equilibrar esta discussão apontando que é possível estabelecer pontos de intersecção e confluência – uma espécie de denominador comum – entre as felicidades e realizações humanas.

            As importantes noções desenvolvidas a partir do liberalismo econômico e sustentadas hoje com muitos erros e desvios pela direita, como as demandas de respeito às individualidades, degeneraram e se transformaram em algo profundamente reacionário: o individualismo (que é diferente da individualidade). Há muito tempo que o capitalismo tornou-se disseminador do pior tipo de individualismo, levando a um “salve-se quem puder” e sepultando definitivamente qualquer ganho popular do “crescimento do bolo” a partir do egoísmo e das supostas “vantagens dos interesses econômicos particulares”, como apregoava Adam Smith no passado (isto é, disseminado a partir da realização profissional e dos “sonhos” de cada indivíduo).

            Temos visto o crescimento desenfreado de diversas formas de narcisismo, hedonismo e egotismo estimulados maquiavelicamente pelo capitalismo neoliberal. O mercado joga o tempo todo com as emoções infantis e egocêntricas do indivíduo médio comum. Faz confundir a pior forma de infantilismo egocêntrico com liberalismo econômico (poucos indivíduos deste campo fogem à regra).

            Apesar disso, não é sábio fazer o que faz a maior parte da “esquerda” brasileira jogando o pensamento liberal clássico no lixo como se fosse algo inútil, esquecendo da importante diferença entre individualismo e individualidade. Na sua luta pela revolução socialista, os trabalhadores conscientes precisam acertar contas com o falso liberalismo econômico da direita brasileira e saber incorporar as boas contribuições filosóficas liberais do passado, não apenas para desmascarar os parasitas e aproveitadores atuais, mas para poder incorporá-lo no programa político e econômico de superação do capitalismo com vistas à construção de uma sociedade socialista.

Há que se desenvolver um método de independência individual dentro da massa trabalhadora, sem o quê, qualquer defesa de autodeterminação popular é apenas letra morta. O empreendedorismo individualista-burguês precisa se transformar em “empreendedorismo socialista”, baseado na coletividade. 

Uma melhor distribuição de renda é um pressuposto básico para elevar as condições materiais de uma população massacrada pelos poucos ricos do nosso país e do mundo. Gostos, sonhos, felicidades e realizações pessoais podem ser aperfeiçoados e amadurecidos, indo muito além dos interesses consumistas do mercado e da indústria cultural. Com preocupação política de governos, organizações sociais, sindicatos e sociedade civil, qualquer ser humano pode aprender mais, ser desafiado a mais, e ser estimulado a se tornar melhor em todos os níveis possíveis.

Para isso, é imprescindível possibilitar condições materiais mais dignas a todos – ainda que em níveis distintos, porém, minimamente aceitáveis e humanos. Só citar esta obviedade faz os ricaços e os seus defensores na direita gritarem e rugirem como se fosse o fim do mundo, quando na realidade é o seu começo. Por tudo isso, o socialismo deve continuar sendo o horizonte estratégico de toda a esquerda e, para isso, estudar as experiências do passado e aprender com as lições históricas para fazermos os ajustes necessários à sua evolução teórica e adaptação ao século XXI é fundamental. 

Nesta perspectiva – não levada em consideração por Jessé –, certamente o controle político do capital é muito importante, mas isso não passa de um primeiro passo que não tem como se sustentar a longo prazo sem avançar para uma forma social nova. Faltam ainda o controle operário da produção, a mudança nas instituições políticas e no Estado; a melhoria e modernização das formas de ditadura do proletariado (não entendida como o stalinismo, mas como a Comuna de Paris, Rosa Luxemburgo, Lenin e Trotski entendiam); o objetivo desses passos é a elevação do nível material, cultural e emocional das massas.

Jessé traz pontos importantes no seu último livro, mas fica longe de apontar formas de conseguir ressuscitar a esquerda se não leva em consideração o trabalho prático cotidiano junto dos sindicatos, dos movimentos sociais e dos locais de trabalho e estudo mais humildes com todas as suas contradições – e, sobretudo, se ignora o socialismo.

Seria muito importante que uma narrativa alternativa e um novo imaginário nacional fossem levados à prática por um partido de massas, como o PT, visando uma “revolução expressiva”. No entanto, o fato de não existirem é o reflexo material da adaptação petista à ordem institucional burguesa e ao seu arco de alianças. Da mesma forma, a esquerda dita “revolucionária” não consegue criar ou sequer contribuir com esta disputa porque está presa a um dogmatismo obtuso que não leva em consideração o povo como ele é, senão que torna-se desequilibradamente mais agressivo contra o PT para compensar esta ausência fundamental.

É necessário uma análise sóbria da realidade do nosso país, compreendendo as diferentes contribuições programáticas da “esquerda” brasileira, começando desde o petismo, o “comunismo” dos PCs, até a atual “militância revolucionária”, passando pela vertente trabalhista, indo muito além da atual cizânia e discórdias entre a esquerda em nome de um “purismo” inexistente. A mudança social em um país complexo como o Brasil requer que levemos em consideração a contribuição de distintas experiências políticas — ainda que não necessariamente concordemos com elas.

A grande questão para ressuscitá-la, portanto, não é conseguir demonstrar à classe trabalhadora que a pequenina melhora das suas condições de vida se deve aos programas sociais dos governos do PT e não a Jesus; mas, sobretudo, como criar consciência de classe que é, em última análise, a capacidade de acreditar em si mesmo, na sua própria força, na força da coletividade social do seu entorno imediato, do Brasil e da América Latina.

Já afirmamos neste blog que a sociologia de Jessé pode significar um retrocesso em relação a de Florestan Fernandes, para quem “o socialismo comprometido com a democracia burguesa ainda é uma forma de reprodução do sistema capitalista de poder”. (F.Fernandes, Pensamento e ação, o PT e os rumos do socialismo. E.Globo, 2006, página 241).

O recente livro de Jessé parece confirmar o prognóstico deste blog.


*Todas as citações e referências deste texto, com exceção de uma devidamente indicada, foram extraídas de “Por que a esquerda morreu? E o que devemos fazer para ressuscitá-la”, Jessé Souza, Civilização Brasileira, 2025, 1ª edição.




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