Quando Deng Xiaoping realizou as reformas de abertura ao mercado e ao Ocidente na China, ele disse:
“Conversa mole não vai levar nosso programa de modernização a parte alguma. [...] Certos camaradas nossos tratam ainda de fazer metafísica entre as relações da política com a economia, entre revolução e produção. [...] Eles não falam a não ser em política, eles não dizem nada de economia: eles falam apenas em revolução e não em produção”.
Pois bem, hoje a China se tornou o principal polo econômico de ciência e tecnologia do mundo ao ponto de mudar a balança geopolítica a seu favor. Segundo Deng, a chave para atingir a modernização era o desenvolvimento de ciência e tecnologia.
Esse assombroso avanço das forças produtivas desbancou gradualmente o poderio econômico e político dos EUA no mercado internacional e a tal da modernização, tão almejada pelo Partido Comunista chinês, foi — ou está sendo — atingida. Portanto, até o ponto de transformar a China na principal potência mundial, Deng estava correto.
Mas e o socialismo e o comunismo?
Só temos escutado a China falando de ciência, tecnologia e modernização. E os outros princípios do socialismo? Controle operário [ou proletário] da produção? Socialização das principais decisões políticas e econômicas do poder “comunista”? Onde está a conformação de novas relações sociais e de uma nova psicologia de massas capaz de fazer a classe trabalhadora assumir gradativamente o comando e o poder real?
Pode-se contra-argumentar que ainda é cedo, pois as condições ainda não estão maduras.
Mas onde estão os embriões? Para onde apontam a política e a economia geral não só na China, mas, também, nos países dos BRICS para a criação dessas condições?
A conversa mole dos “camaradas” hoje fala apenas em “modernização” e não em controle operário da produção ou novas relações sociais.
Se fala em “erradicar a pobreza extrema”, mas ainda há pobreza e ausência de poder; se fala em “sociedade moderadamente próspera” e não mais em “mudar as relações sociais”; se fala em uma “nova classe média” e não mais em classe trabalhadora. Onde, então, se trabalha no sentido da socialização dos meios de produção, do controle proletário da produção e de novas relações sociais, mais humanizadas e menos mercantilizadas e consumistas?
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Guardadas as devidas proporções, talvez o mesmo tenha se passado com o “socialismo do século XXI” venezuelano.
As mobilizações populares não se concretizaram em novos canais sociais de administração pública de poder real, de cultura, de educação, nem em novas relações sociais entre as pessoas. O que o chavismo fez foi dividir um pouco menos desigualmente a riqueza oriunda da renda do petróleo através de programas sociais. Nem mesmo vimos por lá o boom de ciência e tecnologia que a China vivenciou.
Ou seja, “modernizou” a sociedade do ponto de vista do acesso ao consumo — e, ainda assim, de forma muito restrita, diferentemente da China, pois o imperialismo estadunidense dificultou o consumo através do embargo e de sanções econômicas ao país caribenho —, porém, o imaginário social, as relações humanas e institucionais continuaram operando de um ponto de vista burguês e de classe média. Permaneceram, portanto, como presas fáceis das iscas capitalistas, inclusive dependendo da tecnologia estadunidense de combustível extrativista fóssil — tal como o Brasil também depende.
De um modo geral, não se viu e não se vê na Venezuela e na China o enfrentamento aos problemas e dilemas da psicologia de massas, que fica refém da manipulação das taras, dos ódios, da cobiça e do sadomasoquismo por parte do conservadorismo ou da extrema direita, que operam a partir das redes sociais e das mídias a serviço do imperialismo — sobretudo na Venezuela, pois o governo chinês exerce controle sobre as redes sociais e as mídias ocidentais que sabidamente trabalham para desestabilizar e sabotar os países, quando assim o desejam.
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Para além da modernização das forças produtivas, o socialismo precisa criar condições para a individuação das pessoas, possibilitando a maturidade emocional e evitando que a sociedade crie em escala industrial pessoas narcisistas, egocêntricas, voltadas a si mesmas e incapazes de perceber o outro, a dor do outro, mantendo, portanto, as relações mercantis e utilitárias do capitalismo. Se somos capazes de criar uma sociedade que comporte pessoas maduras, podemos criar relações sociais mais verdadeiras e mais livres, sem a necessidade de se criar subterfúgios para explorar outrem e subordiná-los aos nossos interesses pessoais mais utilitários e mesquinhos.
A verdadeira liberdade não é se fazer tudo o que se quer, mas é estar livre das influências inconscientes perniciosas.
Sem a individuação e a maturidade emocional interior o comunismo é impossível, pois somente se pode atingir um estágio evolutivo social sem estado e classes sociais — e, portanto, atingir um estágio de plena democracia, isto é, sem lideranças — se a massa humana for capaz de pensar por conta e risco e superar sua condição de rebanho, que é sempre passível de ser manipulada para que os ricos e poderosos joguem uns contra os outros.
Aqui vale relembrar a luta teórica de Rosa Luxemburgo contra a social-democracia alemã, quando esta, através do seu jornal Vorwärts [Avante!], tentou assassinar espiritualmente a revolução erguendo de novo diante da massa aquele quadro de bronze que há milênios a burguesia e toda a classe dominante opõem aos oprimidos e no qual está escrito: “vocês não estão maduros; vocês nunca poderão sê-lo, é uma ‘impossibilidade intrínseca’; vocês precisam de dirigentes; nós somos os dirigentes” (extraído do texto As massas “imaturas”).
Onde e quando, portanto, pararemos de nos conformar com “conversa mole” restrita à ciência e tecnologia e procuraremos assentar as bases para um novo desenvolvimento pessoal que caminhe no sentido de novas relações humanas, menos egocêntricas, narcisistas e utilitárias, e mais recíprocas, coletivas, autênticas e com real poder decisório e democrático sobre a política e toda a sociedade?
Um povo só começa a ser povo quando cada singularidade necessita categoricamente ser plural. E é precisamente a necessidade de ser plural que leva a nos buscarmos, vermos as caras, os medos e as ousadias, entendendo que quando ajudamos os outros a superar o seu próprio sofrimento, isto nos ajuda a superarmos o nosso. E o poder político — ainda mais os autointitulados “socialistas” e “comunistas” — precisam trabalhar impreterivelmente nesse sentido.
A principal vitória do socialismo — para além da industrialização, da eliminação do analfabetismo, do desenvolvimento da tecnologia e de condições materiais básicas para o proletariado — estará na sua capacidade de formar adultos com caráter, socialmente auto-suficientes do ponto de vista intelectual e emocional (mas sempre ligados entre si pelos interesses gerais da sociedade e respeitando os ciclos da natureza), para que estes possam educar as crianças no mesmo sentido. Neste esforço, a compreensão sobre o papel do trabalho e da sua necessidade social é fundamental, bem como a luta contra o irracionalismo das massas e o seu espírito de rebanho.
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