quinta-feira, 16 de abril de 2026

A guerra contra o Irã e a decadência do imperialismo estadunidense

 

Os principais analistas geopolíticos do mundo afirmam que o Irã está vencendo a guerra contra os EUA e Israel.

Eles afirmam isso em razão das inúmeras bravatas de Trump, expressas nas suas declarações públicas, além dos avanços e recuos de porta-aviões na região e tentativas meio desesperadas de “negociações de paz” para abrir o estreito de Ormuz.

No entanto, é possível perceber que o imperialismo estadunidense não pode agir de outra forma que não essa. E que, mesmo perdendo conjunturalmente a guerra, ele ganha a longo prazo com o caos geral que ele mesmo cria. Isso se passa tanto no caso do Irã, quanto no da Ucrânia.

Como está perdendo peso econômico para China a cada ano que passa, o imperialismo ianque compensa os prejuízos a partir dos ganhos do complexo industrial-militar, compartilhado com Israel, além de outras vantagens imediatas na luta geopolítica pelo isolamento de Rússia e China dentro da área euroasiática. Gerando o caos no mercado e na região, dificulta o desenvolvimento e a consolidação das novas potências mundiais.

O caso da Ucrânia foi ilustrativo: a guerra está praticamente ganha pela Rússia, mas os EUA conseguiram desestabilizar a região, a credibilidade da Rússia no mundo Ocidental e, sobretudo, minar a dependência europeia do gás russo, colocando como “alternativa” as empresas de gás ianques. Ganhos secundários, que criam uma situação caótica, ceifam milhares de vidas, mas que retardam o ocaso do império estadunidense.

A guerra contra o Irã é mais um exemplo, porém, tem sido mais impopular tanto dentro quanto fora dos EUA. No entanto, a máquina midiática do Ocidente, que conta com decisivo apoio na grande mídia brasileira, consegue distorcer narrativas e sustentar esta política internacional do imperialismo ianque. Aproveitando-se livremente das declarações trumpistas, sem nenhum compromisso com coerência e memória, as suas reportagens “imparciais” são, no geral, aceitas pela opinião pública ocidental, o que inclui a brasileira.


A grande mídia burguesa e a guerra contra o Irã

A instituição do caos pelo imperialismo ianque conta com o apoio da mentalidade doentia e amnésica criada na opinião pública ocidental — e mesmo mundial — por anos de “jornalismo” mercenário, sustentando qualquer narrativa distorcida e grotesca que justifique a aplicação da “democracia” estadunidense pelo mundo. Agora, por exemplo, a grande mídia e os porta-vozes da Casa Branca centram na narrativa distracionista sobre destruir o programa nuclear iraniano, quando as “armas de destruição em massa” do Iraque, por exemplo, jamais foram encontradas. A mudança de foco discursivo serve perfeitamente para maquiar as atuais dificuldades militares dos EUA e centra-se na tentativa de moralizar a opinião pública ocidental no medo contra um suposto uso de armas nucleares por parte do Irã, escondendo o monopólio estadunidense e israelense de arsenais atômicos na região e, também, o fato do governo dos EUA ter sido o único a utilizá-lo contra outro país.

Esta maleabilidade narrativa, criada com o decisivo apoio do braço midiático de EUA, Israel e da grande mídia brasileira no mundo Ocidental, permite criar uma cortina de fumaça para que ambos países possam costurar rapidamente novas alianças regionais e mundiais, além de estratégias mais mirabolantes de longo prazo, que procure retardar a decadência histórica do imperialismo ianque.

Se esta decadência é, até certo ponto, inevitável, ela também acaba sendo postergada às custas da destruição de países inteiros, de infraestruturas econômicas e políticas, de capitais — algo que faz parte do funcionamento do próprio capitalismo — e de inúmeras vidas mundo afora. Tudo isso impede ou, pelo menos, cria empecilhos e dificuldades para a ascensão do novo bloco hegemônico de poder, liderado, como sabemos, pela China. Dada a mente psicopática de quem está à frente do império estadunidense e do enclave bélico israelense, não se pode descartar a hipótese de catástrofes militares que levem à extinção da humanidade.


O caos criado pela guerra imperialista é a estratégia

Como máquinas de guerra, o imperialismo ianque e o Estado de Israel não podem agir de outra forma para manter a sua hegemonia regional e global, misturando diversas táticas como espionagem, sabotagem, “revoluções coloridas”, infiltrações, atos terroristas (a partir dos seus próprios Estados nacionais ou de grupos mercenários), até guerras diretas ou “terceirizadas”. 

Para isso, as bases militares norte-americanas espalhadas legal e ilegalmente ao redor do mundo, mas, em especial, no Oriente Médio, são instrumentos essenciais a serviço desta estratégia. Todos esses fatores servem perfeitamente como formas de intervenção político-militar do Estado [profundo] ianque no “livre mercado” internacional.

O primeiro ganhador desta guerra é, sem dúvida, o complexo industrial-militar estadunidense e sionista, que lucram bilhões com a venda de armamento e de tecnologia. Na esteira deste complexo, que é a base do deep state norte-americano, vêm os governos destes países, que mexem no tabuleiro geopolítico da eurásia e trabalham para implodir as “novas” relações econômicas internacionais lideradas por China e Rússia. 

Quem ganha, em segundo lugar, são as empresas transnacionais dos EUA de petróleo e gás, já que se beneficiam das declarações de Trump dando tréguas e falando em “negociações de paz”. Elas sabem, portanto, os melhores momentos das altas e baixas do mercado de energia e do dólar para fazer investimentos ou transações comerciais. Como a situação é contraditória e, não poderia ser de outro modo, outras empresas e países também se beneficiam secundariamente, como é o caso da Rússia.

O bloqueio do estreito de Ormuz, por exemplo, atinge Israel, os países da Ásia e da Europa, aliados dos EUA, mas atinge, também, a China. Administrar a sua decadência histórica requer ações que inevitavelmente possuem efeitos colaterais para si e para aliados eventuais. 

De qualquer forma, dada a sua natureza, um imperialismo em decadência com visíveis contornos psicopáticos não pode agir de outra maneira e, nesses casos, sempre se correm riscos. A grande questão é que os estrategistas do MAGA (isto é, do neofascismo) calculam os lucros e prejuízo e fazem suas apostas. A decadência do imperialismo estadunidense, contudo, não será de uma hora para a outra, podendo levar décadas. Ainda assim, provavelmente, continuará a exercer influências mundiais como um imperialismo secundário, tal como ocorre hoje com Inglaterra e outros países europeus.

Portanto, não podem ser analisados como uma “derrota estrondosa” do imperialismo, como se escuta e lê por aí, porque todas as suas ações a partir de agora partem destes cálculos contraditórios. Uma parcela fundamental dos seus esforços de guerra é para evitar a substituição do petrodólar como medida de valor hegemônico internacional, ainda que, contraditoriamente, acabe acelerando o processo de substituição do dólar contra a sua própria vontade. Mas, como se disse, esta guerra vai muito além da questão do controle sobre o petróleo iraniano.


Os efeitos da guerra contra o Irã no Brasil

Em razão dos anos em que o dólar foi hegemônico no mundo, o imperialismo ianque é especialista em repassar quaisquer custos para a periferia do mercado mundial. Quem paga esta conta é sempre a classe trabalhadora brasileira e da periferia do mercado mundial, já que suas elites nacionais são as sócias menores, diretas ou indiretas, do imperialismo.

Os governos de Michel Temer (MDB) e de Bolsonaro/Paulo Guedes (PL), seguindo os dogmas neoliberais de seus amos do norte — em especial os da Escola de Chicago —, privatizaram refinarias, os postos da BR distribuidora e, também, acabaram com os subsídios estatais para produção de fertilizantes, resultando num descontrole sobre a especulação e os preços, facilitando a vida do empresariado nacional e, sobretudo, internacional na hora de passar o aumento dos custos da cadeia produtiva do petrodólar para o povo.

Lembram da tentativa do governo Temer de nivelar o preço interno do petróleo e da gasolina com o preço internacional do barril de petróleo? Já pensaram nos estragos que isso causaria numa conjuntura como a atual? O jornalismo mercenário da grande mídia nacional nada fale sobre o tema.

Tudo isso aumenta a necessidade do aprofundamento do debate anti-neoliberal entre o povo, além de repensar todas as estratégias da esquerda — sobretudo no campo sindical, onde o petismo segue sendo um estorvo.

Os custos da guerra contra o Irã terão impactos sobre as eleições e intensificarão os fantasmas vindos da direita e da “esquerda”. Se não podemos baixar a guarda por um segundo frente às tentativas da direita neofascista, que trabalha, tal qual os seus amos do norte, para criar narrativas e embustes que lhe garantam o retorno ao poder; também não se pode comprar acriticamente o conto de fadas da “esquerda” que, de uma forma ou outra, serve como gangorra neste círculo vicioso eleitoral que o sistema capitalista criou.

Os EUA e Israel podem até perder conjunturalmente a guerra contra o Irã, mas a sua estratégia de longo prazo para postergar e dificultar a sua decadência histórica ganha espaço e fôlego quando reforçam o caos geopolítico permanente, baseado nas guerras eternas que enriquecem e empoderam a pequena elite da burguesia neofascista estadunidense e israelita e saciam a sede de sadomasoquismo do seu mórbido séquito de classe média.



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