Lula e Trump se encontraram em Washington. A despeito das especulações em contrário de bolsonaristas e da mídia comercial, o encontro ocorreu de forma amigável. Mesmo Trump esforçou-se em parecer uma pessoa decente e respeitosa.
Em se tratando de um encontro diplomático entre dois grandes países da América, não poderia ser diferente. No entanto, o que deveria causar estranheza entre nós é o grande otimismo com que Lula saiu deste encontro e como o vendeu à mídia comercial.
Certamente que um evento diplomático entre grandes países como Brasil e EUA não pode deixar de ocorrer periodicamente, mas a grande questão é que tipo de expectativa se quer gerar nas opiniões públicas nacionais e mundiais com ele?
A ameaça de uma vitória eleitoral do neofascismo em outubro não pode apagar ou constranger uma necessária crítica à conduta do governo Lula e, sobretudo, aos seus discursos contraditórios antes e depois deste encontro.
Lula disse a Trump que os EUA deveriam voltar a ter interesse no Brasil. Ora, os EUA nunca deixaram de ter interesse no Brasil e nem podem deixar de ter, dado o peso geopolítico e econômico do nosso país no mundo e, sobretudo, na América Latina.
A diplomacia de palavras vazias cobra um preço alto ao iludir e ajudar a disfarçar os verdadeiros e únicos interesses dos EUA no Brasil: manter-nos como uma neocolônia, custe o que custar. Será um bom caminho relativizar essa verdade que é tão cristalina?
No entanto, as declarações de Lula pós-encontro com Trump são um problema porque se confrontam com as suas “radicais” declarações nos eventos Mobilização Progressista Global e Democracia Sempre, ocorridos na Espanha em abril, onde exigiu “coerência dos progressistas”; e, também, fez várias críticas a Trump, afirmando que ele pretende governar e ameaçar o mundo inteiro via twitter.
Ainda nestes eventos da Espanha, Lula afirmou que a “extrema direita soube capitalizar as promessas não cumpridas do neoliberalismo, canalizou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras falando das mulheres, dos negros, da população LGBTQIA+, dos imigrantes, ou seja, todas as pessoas mais necessitadas que passaram a ser vítimas do discurso de ódio”.
Também sustentou que “é preciso apontar o dedo para os verdadeiros culpados pela crise sócio-econômica atual que são os poucos bilionários que concentram a maior parte da riqueza mundial, alimentam a falácia da meritocracia, pagam menos impostos ou nada, exploram o trabalhador, destroem a natureza e manipulam os algoritmos”.
Por fim, mas não menos importante, criticou os países que possuem assento permanente no conselho de segurança da ONU afirmando que são verdadeiros “senhores da guerra” que gastam bilhões de dólares em armas que poderiam ser usados para acabar com a fome, resolver o problema energético e o acesso à saúde para toda a população do planeta.
Para Lula, o “sul global” paga contas de guerras que não provocou e mudanças climáticas que não causou, sendo tratado como quintal das grandes potências, sufocadas por tarifas abusivas e dívidas impagáveis. Volta a ser visto como mero fornecedor de matérias-primas.
Em síntese: o encontro diplomático entre Lula e Trump o fez relativizar ou mesmo anular todas essas declarações. Será que não há outros modos de se fazer diplomacia, sendo mais cuidadoso com as palavras?
O discurso de Lula em relação às terras raras anula tudo o que ele vociferou na Espanha e em outras declarações. Ou seja, reforça justamente o Brasil como mero fornecedor de matérias-primas para as grandes potências, incluso os EUA. Deveria haver mais cuidado e reflexão para as declarações diplomáticas, sem o quê, a alma do que é dito termina por indicar um caminho que não é de soberania e dá certos “cheques em branco”.
Segundo Ricardo Zúniga, ex-alto funcionário do governo de Barack Obama, “os Estados Unidos veem o Brasil como o único lugar onde a China pode basicamente paralisar partes da economia [dos EUA], e o Brasil é uma das poucas opções para quebrar o monopólio chinês sobre terras raras”. Isto demonstra, portanto, como os EUA só podem estar totalmente interessados no Brasil, ao contrário do que insinuou Lula. Basta lembrar das declarações de Steve Banon, o guru de Trump, antes das eleições de 2022.
Ainda durante os tarifaços de Trump contra o Brasil, Lula sempre exaltou os “200 anos de boas relações entre EUA e Brasil”. Mas que boas relações são essas em que um lado entra sempre com superávit e outro com déficit? Onde um lado dá golpes militares e parlamentares contra a democracia do país mais frágil? Onde há trama permanente de sabotagens e interferências internas dos mais forte contra o mais fraco, mesmo que Trump tenha dito que não fará isso? Aliás, se os EUA sempre deram golpes no Brasil, isso é algo totalmente confidencial que não pode ser dito publicamente, o que não significa, sob hipótese alguma, que os EUA de fato não irão intervir no Brasil se sentirem “seus interesses prejudicados”. Portanto, vender a ideia de que não intervirão é um desserviço que faz baixar a guarda.
A todo o ativismo petista, que se indigna contra críticas ao presidente Lula — incluso as honestas e muito bem fundamentadas — porque supostamente beneficiam “a eleição da extrema direita”, deveria gastar esta energia para tentar pensar em formas de diplomacia que não faça terra arrasada das declarações ousadas e necessárias já feitas por ele anteriormente.
Ou seja, deveriam tentar ver formas de fazer com que as palavras não sejam vazias, mas que se transformem em atos práticos do dia a dia do governo federal. Esta é a única forma correta de se combater a extrema direita.
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