O capitalismo é um sistema que tem grande capacidade de readaptação, apesar de passar por inúmeras crises. Com muita maestria, ele mescla o uso da violência estatal e econômica, física e simbólica, ao ponto de lhe dar vantagens que o colocam sempre à frente das análises das organizações de esquerda em, no mínimo, uma década.
Nos séculos XVIII e XIX, após muita resistência operária, os sindicatos foram cooptados; no final do século XIX e ao longo do XX, foi a vez da cooptação do voto e dos partidos operários através do reformismo. A indústria cultural cooptou corações e mentes pelas emoções cinematográficas e o próprio “comunismo soviético”, dentre outras razões, terminou refém de tamanho poder de atração ao movimento operário mundial.
Atualmente vivemos a cooptação dos chamados “movimentos de opressão”, que, ao transformarem-se em identitarismo, vendem a ideia de “auto emancipação” ao mesmo tempo que ocultam posições individualistas para o benefício não declarado do próprio neoliberalismo. A classe trabalhadora como um todo fica refém da esterilidade, pois suas demandas são cooptadas dia a dia através da manipulação da psicologia de massas nas redes sociais, na indústria cultural ou na canalização do descontentamento para saídas individualistas e utilitárias, resultando num adoecimento e depressão em massa.
Mesmo o ódio da massa contra os políticos e partidos tradicionais é passível de cooptação. Caso contrário, algo já teria ocorrido para mudar essa “podre República burguesa”, uma vez que a quantidade de queixas que se escuta diariamente em relação aos políticos é imensa. Porém, parece que quanto mais queixas há, mais os políticos e partidos se reforçam no poder.
Deve haver algo de errado nessa equação.
A cooptação do descontentamento em relação ao sistema político brasileiro
A grande mídia nacional, assessorada pelos técnicos e ideólogos do imperialismo estadunidense, construíram ao longo das décadas — sobretudo a partir da “nova” República pós-ditadura militar — uma sofisticada engenharia de canalização do descontentamento do nada para lugar nenhum, repletos de “minutos de ódio”, onde se pode xingar livremente políticos, governadores e presidentes, possibilitando uma grande catarse social. No caso brasileiro, a reclamação sem nenhum critério ou consequência tem se tornado parte da dominação de classe do sistema.
As organizações de esquerda se animam. Fazem os prognósticos mais otimistas e preparam agitações em cima desses “descontentamentos” e reclamações diárias sem perceber que elas não passam de uma catarse, já que não saem do lugar e a sua principal consequência é a descrença no próprio país.
Seja através da indústria cultural, filmes, novelas; seja através da grande mídia, com seletividade nas coberturas “jornalísticas”, “debates” políticos ou censuras “democráticas” que silenciam sutilmente; seja através de pequenas concessões salariais e/ou materiais, exaltação de líderes — geralmente identitários — e partidos que se tornam porta-vozes informais da ordem; o sistema vai fazendo cair na sua rede um a um qualquer movimento de resistência.
O seu êxito está na forma em que é feito: invisível e angariando simpatia direta ou indireta por parte da população, que é alimentada por sopas ecléticas vindas do Estado, do mercado, das redes sociais, das filosofias de “trabalho”, de coaches, de igrejas evangélicas. Esta sopa é tomada com gosto, já que o seu tempero “tradicionalista” é bem conhecido: vem de casa e da família, desde que somos criança.
Setores da “esquerda”, por sua vez, não compreendem tal catarse, se empolgam com ciclos criados e tolerados pela própria estrutura institucional burguesa, alimentando esperanças a partir de autopropagandas inconsequentes — sejam elas eleitorais ou não. Como grande parte do arsenal teórico da esquerda brasileira veio da Europa, sendo importado acriticamente, a realidade do país acaba sendo mal interpretada, terminando por nos deixar refém de uma aparência de eterno retorno ao começo.
O imaginário paulista é soberano sobre a mentalidade brasileira
Para chegarmos a este estado de coisas, foi necessário um longo trabalho ideológico dos assessores imperialistas estadunidenses prestado à elite brasileira — sobretudo a paulista, que a erigiu em culto político de Estado. A reclamação e o ódio aos políticos faz parte deste “culto” que coloca em funcionamento o regime “democrático” brasileiro e lhes dá aparência de “liberdade”.
A engenharia política criada pela ideologia paulista meritocrática está na vinculação de tudo que se proponha a desenvolver o país e garantir direitos para o povo como “populismo”, remontando à luta contra Vargas — não casualmente, transformada no principal feriado estadual de São Paulo.
Então, qualquer político ou partido que tenha um projeto de desenvolvimento nacional, industrialização, defesa de empresas públicas, direitos trabalhistas e aumento salariais, será visto não como um governo necessário, mas como “populista” e demagogo, reles manipulador da vontade e dos sentimentos do povo. Da mesma forma, será condenado caso tenha um projeto de intervenção política e estatal na economia e no mercado, ao que, será acrescentado o rótulo de “ditador”, tornando-se, assim, um “ditador populista”. Esta inversão de papéis serve perfeitamente para esconder a ditadura invisível do mercado, dos seus oligopólios e monopólios, além dos seus crimes, acobertados e incentivados pela grande mídia.
Mas por acaso não existem políticos e partidos populistas?
Evidentemente que sim.
Contudo, tratam-se de políticos que apenas prometem e não cumprem nada; ou pior ainda, prometem mundos e fundos e na prática só retiram direitos, deixando o povo na míngua. Ou seja, se elegem e não fazem nada. O objetivo do imaginário paulista contra o “populismo ditatorial varguista” (ou “peronista”, na Argentina) visa plantar uma pulga atrás da orelha preventiva sobre o povo, como se o governante tivesse sempre apenas uma estratégia personalista de poder, exercido geralmente de forma inescrupulosa. Ao passo que o mercado e o setor privado seriam idôneos e corretos, “ensinando o povo a pescar” e “não lhe dando o peixe” — para usar uma expressão muito apreciada pela Faria Lima —, ao contrário do que fazem os “maldosos e inescrupulosos populistas”, ao estilo de Vargas e Perón.
Esse estigma funciona como uma cortina de fumaça para esconder as aberrações oligopólicas do mercado e do setor privado, combatendo antecipadamente todo aquele que tenta lhe enfrentar. Por cima de tudo isso paira a sombra da oligarquia imperialista estadunidense, que aplaude e dá o suporte logístico e ideológico para o seu funcionamento. Quanto mais o mercado vira “livre”, mais gera desigualdades sociais e miséria, obrigando o povo a recorrer ao Estado, que já cria previamente o estigma de “populista” para o governo que tentar minimizar os sofrimentos e a fome da classe trabalhadora, mantendo o círculo vicioso. As instituições políticas brasileiras e a sua grande imprensa só operam dentro desta lógica.
No povo é plantada a semente da discórdia contra qualquer mudança pra melhor em sua vida, visto que o populismo supostamente o desvirtuaria e criaria mero clientelismo e dependência estatal. Para sustentar tal distorção, apaga-se todo o passado colonial do país, a escravidão, a sua submissão econômica a partir do lugar que o Brasil ocupa no mercado capitalista mundial e, sobretudo, a atuação da sua elite nacional — alcunhada, corretamente, de “a elite do atraso” por Jessé Souza — em conluio com a oligarquia imperialista estadunidense.
O exemplo mais recente deste mecanismo discursivo foi visto na campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro atacando a singela e rebaixada pauta do fim da escala 6x1 como “um debate populista”. Para o zero um, “o cara tem que ter liberdade de trabalhar o quanto quiser”, como se esta fosse a questão central.
Assim, a primeira barreira é colocada por essa ideologia, que faz o povo condenar como “populista” quem tenta usar os recursos do país para o desenvolvimento… do próprio país! E não como oferenda no altar do insaciável deus-mercado mundial.
A segunda é a que aponta como “ditador” todo aquele que intervenha na economia e no mercado visando evitar as distorções e a ditadura [nem tão] invisível dos oligopólios e trustes (concentradores de renda e capital). O objetivo está implícito: o poder não pode ser exercido pelo Estado, entendido como forças populares visando o bem coletivo, porque por décadas a ideia de se intervir na economia foi execrada como “ditadura” . A partir desta engenharia ideológica fica garantido, também de forma implícita, que o poder só pode ser exercido por uma única força: o mercado — entendido como o setor privado —, tornado invisível e impessoal, já que suas relações sujas com a política são embaçadas ou mesmo apagadas. A partir daí, toda a corrupção e os males políticos são depositados exclusivamente nos políticos e, em especial, nos políticos “populistas” e, portanto, no setor público.
Isto não quer dizer que o principal opositor do imaginário paulista, Getúlio Vargas (ou mesmo Juan Perón, na Argentina), não tenha incorrido em demagogias nas disputas políticas e em muitos momentos de seus governos, mas isso não pode significar aceitar o rótulo estigmatizante de “populista” para quem realizou ou pretende realizar ações concretas de melhorias na vida do povo trabalhador utilizando-se do Estado.
A bagunça consentida do regime político brasileiro
O imaginário paulista condena qualquer tipo de “ditadura” para poder sustentar que a democracia liberal é a única possível e, inclusive, que o que existe no Brasil se trata justamente de uma “democracia” (mesmo que opere como uma ditadura econômica de uma minoria sobre a maioria).
O regime político brasileiro, cuja expressão maior é o Congresso Nacional, é funcional para o setor privado (portanto, para o mercado); e disfuncional para o povo e para o país. Ele legaliza e tolera oposições parlamentares desonestas e criminosas, que exageram, blefam e sabotam contra a própria soberania do país em plena luz do dia. Parte fundamental deste sistema está fora da política institucional, situando-se na grande mídia, que opera de forma impessoal e supostamente “imparcial”, podendo exagerar, distorcer e sabotar qualquer medida popular que julgar uma ameaça aos interesses do mercado (leia-se, do setor privado) e aliando-se formal ou informalmente à “oposições políticas” dentro das instituições.
Ao dissociar sutilmente os piores escândalos de corrupção dos profundos interesses econômicos do setor privado e do “livre mercado”, a grande imprensa brasileira vende o mal feito por ela mesma e por seus aliados mercadológicos como culpa exclusiva da “corrupção” de políticos. Isso se dá assim desde o segundo governo de Vargas até os dias atuais.
É evidente que há corrupção na política e no sistema institucional brasileiro. Porém, grande parte dos agentes corruptores estão no setor privado e no mercado, dentre os quais, a própria grande mídia, que nunca aparecem porque são vendidos como “neutros” e inocentes.
Assim, o regime brasileiro atual permite uma fabulosa engenharia política: a grande mídia e o setor privado, comandado pelas “forças de mercado”, podem operar livremente, de forma quase invisível, deixando o ônus do desgaste e dos ataques exclusivamente para a política partidária e as instituições. Quem ousa questionar a estrutura de funcionamento do sistema já é previamente tachado de “ditador”.
A bagunça de corrupção, alianças bizarras em nome da “governabilidade”, a permissão de livre funcionamento para oposições e uma imprensa desonesta e criminosa, só podem beneficiar a invisibilidade da sabotagem das “forças do mercado”, que tudo roubam, tudo distorcem, cometendo verdadeiros crimes que vão muito além da corrupção (calúnia, difamação, distorção grosseira da realidade, entreguismo, enriquecimento ilícito, assassinatos, etc.), mas sempre saem ilesas porque a engenharia política faz com que passem despercebidas, sem rosto e, sobretudo, sem coração.
Um parlamento que funciona com pautas bombas sempre que a oposição desejar, com permanentes incitações de ódio e polarização política (desde Vargas e Jango até hoje), seja por parte das “oposições parlamentares” ou pela cobertura “jornalística” da grande mídia, geram inevitavelmente desconfiança e descrença política em quem assiste, mas quase nunca se traduzem em ação concreta, porque existem mecanismos de contenção da indignação na própria mídia (discursos e ideologias), com panos quentes de que “nas próximas eleições será diferente”. Assim, a indignação é direcionada para onde interessa aos poderosos. Isso tudo é reforçado pelos tribunais e polícias, que toleram crimes de colarinho branco e ameaçam reprimir quem se rebelar; e pela própria inoperância da “esquerda” e dos seus sindicatos, que não denunciam este operativo e sequer o reconhecem, deixando a luta popular orbitando acriticamente uma estrutura institucional que tolera reclamações sem fim, desde que não se questionem, nem se toquem nos seus pontos chaves.
Vargas e o fechamento do Congresso Nacional: as ditaduras são todas iguais?
A acusação de ditador contra Vargas vem, dentre outras ações — corretas e incorretas —, do fechamento do Congresso Nacional. O debate contemporâneo ignora o fato de que a maior parte das “repúblicas” mundo afora, desde a Roma Antiga, previam mecanismos de ditadura para “colocar ordem na casa” sempre que fosse necessário. Por certo, tal mecanismo é um perigo, dado que a tentação de manter o poder nas mãos do ditador sempre é grande, mas frente a “oposições” sabotadoras, significa uma espécie de remédio disciplinador.
Ainda que pareça contraditório, a noção de “democracia” surgiu no mundo ocidental prenunciada por governos tirânicos que cumpriram uma função de transição. Aristóteles disse que a maioria dos tiranos gregos alcançaram suas posições aliando-se ao povo contra os nobres ricos. Ao forçar uma brecha no governo da aristocracia, permitiu que as demais classes consolidar novas forças que posteriormente derrubaram a própria tirania. Isso não ficou restrito à história grega, mas estendeu-se, também, à romana.
Evidentemente que, para enfrentar as sabotagens “democráticas” de oposições desonestas, não se pode contar com uma ditadura aos moldes do absolutismo monárquico ou dos governos militares latino-americanos do final do século XX, cujo objetivo central sempre foi preservar os privilégios das classes dominantes, mas de uma ditadura disciplinadora, cujos interesses estejam ligados ao povo — seguindo as sugestões marxistas. Uma vez que o poder econômico tende a se tornar incontrolável, nos “parlamentos livres” ele compra deputados, juízes, meios de comunicação e, a partir daí, sabota e direciona o poder político como bem entender mesmo nas “maiores democracias” do mundo, como EUA e Inglaterra.
Se observarmos a História do Brasil, perceberemos que desde a época de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto — que inauguraram o período republicano do país fechando o Congresso Nacional por considerá-lo “anárquico” — indo até o período de Vargas, o parlamento brasileiro tem sido a expressão do poderio econômico empacando qualquer demanda autenticamente popular. Ainda hoje o Congresso Nacional é um palanque “anárquico” onde imperam interesses não só conflitantes e paralisadores, mas também interesses lesa-pátria. Como tolerá-los sem sabotar o próprio desenvolvimento do país?
Basta ver a bancada da bala, do boi e da Bíblia, que se utilizam dos mecanismos parlamentares para camuflar e esconder o seu entreguismo e as suas ligações mais escusas com o mercado e o setor privado, drenando recursos que poderiam desenvolver o país e aplacar o desespero do povo. Mas simplesmente propor usar os recursos públicos para o desenvolvimento do país e melhorar a condição de vida do povo, como foi dito, é visto como “populismo”.
Como, então, enfrentar uma elite autoritária, que vem da tradição repressiva social de esquartejamento, herdada do império português, sem medidas decididamente duras, que são associadas à “ditadura” pelo setor privado e pelas “forças do mercado”? A sua noção de “democracia” não tem sido, justamente, este ajuntamento “anárquico” e sabotador que se perpetua no Congresso Nacional, vendendo a defesa do país como a defesa dos lucros do mercado internacional e do sistema financeiro? Ou seja, a defesa dos mesmos interesses que comprometem o orçamento público federal e condenam a maior parte do povo do país à miséria?
Em síntese: como classificar como “democrático” um regime parlamentar e “oposições” que mentem, sabotam, intimidam, matam e “esquartejam”, controlando repartições públicas, a mídia e a justiça sem apelar para um regime de força? A condição para o desenvolvimento e estabilidade econômica do Brasil não estaria senão no fechamento do Congresso Nacional ou, pelo menos, na proibição de determinados tipos de “oposições parlamentares”?
Certamente encontramos as raízes do atual Congresso Nacional no “parlamentarismo às avessas” do período imperial, que sustentava ações “para inglês ver” e discursos “liberais” e “democráticos” que relativizavam e conviviam com a escravidão africana na prática. Na medida que a “democracia” e os parlamentos se consolidam em diversos países do mundo, a mentira, a sabotagem e os crimes das “oposições” parlamentares, casadas com o tipo de cobertura “jornalística” da grande mídia, transformam-se na própria forma de funcionamento deste regime político-institucional, sem o qual, o sistema emperraria.
Para operar de forma tão nefasta, ele tolera e incentiva reclamações e gritos de ódio contra a política, os políticos e os partidos, tornando toda essa energia uma reles fachada de protesto popular, quase uma tradição inócua de nosso país. Ao não levar em consideração a psicologia de massas, as organizações militantes da esquerda “revolucionária” não percebem (ou não querem perceber) que toda essa indignação não passa de uma catarse muito bem controlada — uma autêntica válvula de escape para canalizar a revolta —, terminando por se empolgar nas análises e caracterizações — e, inevitavelmente, se enganar —, dando os prognósticos mais confirmadores de sua política e programa “revolucionário” ou, então, caindo no desânimo mais profundo (aqui poderia ser feito um paralelo sobre as diversas caracterizações acerca do voto nulo baseado nesta “indignação”).
O grande dilema continua sendo como entender o que se passa na psicologia das massas e como ir além desta simples catarse…? O neofascismo de Trump, Bolsonaro e Milei já perceberam que é possível se apropriar dela e direcioná-la; fato que a esquerda não consegue impedir ou repetir. Entender o mecanismo disso tudo é uma das principais tarefas dos trabalhadores conscientes
O povo como torcida organizada seduzido permanentemente pelo utilitarismo do dia a dia
Na lógica de funcionamento do regime político brasileiro muitas das reações populares são testadas e, parte delas, já esperadas. O povo é levado a uma indignação seletiva pela cobertura jornalística, pela forma de se “fazer política” e, ao mesmo tempo, à apatia, pela própria mídia, amparada pela indústria cultural, esportiva, além da religião organizada e, sobretudo, pelo utilitarismo consumista, que sempre cria novas necessidades sedutoras (incluso a indústria farmacêutica e depressiva).
A grande mídia cria um vilão — geralmente equivocado ou exagerado —, onde deposita todo o mal, tornando-o um bode expiatório permanentes e vivendo em cima desses factóides para esconder ou minimizar o funcionamento das estruturas econômicas e políticas. Sem muitas dificuldades o povo tem comprado os engodos. Os “especialistas” criam consensos, incitam ou amenizam os fatos de acordo com os seus interesses políticos e econômicos ocultos atrás da “imparcialidade”.
Tudo isso é complementado por seduções permanentes feitas através da propaganda, da moda, das novelas, do futebol, das igrejas; e da tentação permanente de enriquecimento fácil, seja pela loteria, pelas bets ou qualquer outra forma funcional ao sistema. Em função de suas muitas necessidades pessoais diárias, que não podem ser solucionadas pelo capitalismo, sem muitas dificuldades se desenvolve um utilitarismo selvagem nas pessoas do povo, refletindo-se, desde cedo, em alunos da sexta série do ensino fundamental; sem falar que o próprio sistema educacional é levado a reforçar esta lógica de funcionamento, de “ser alguém na vida”, confundida exclusivamente com ter posição social, propriedades e dinheiro. A partir daí, o nível de “verdade”, de debate político e de realidade que o povo é capaz de tolerar torna-se muito baixo.
Os sindicatos, totalmente domesticados, e os movimentos sociais e partidos de “esquerda”, por sua vez, não questionam esse funcionamento, principalmente porque fazem uma agitação em que todo o mal está fora da classe trabalhadora, reproduzindo que tudo está nos políticos, nos partidos e nas “direções traidoras”, o que entra como um elo reforçando a catarse geral. Nenhuma pontinha estaria nos próprios trabalhadores, que quando agem mal é porque são simplesmente “alienados”. O medo de perder votos e influência leva a “esquerda”, portanto, a simplificar a realidade e a renunciar a uma parte importante do seu trabalho de base, que é chacoalhar os trabalhadores para que, além de perceberem as contradições da sociedade capitalista, percebam também as suas próprias (fato que quase ninguém se dispõe), já que uma é continuidade da outra, mesmo que em níveis e intensidades diferentes.
Parte das próprias contradições dos trabalhadores está no seu utilitarismo do dia a dia. Sabemos que a classe trabalhadora passa todo o tipo de necessidades se comparado aos políticos e a classe dominante do país. Mas a esquerda erra quando é condescendente e tolerante com estes desvios, o que só pode reforçar o próprio apreço dos trabalhadores pelo funcionamento do sistema capitalista e das suas instituições políticas, que vendem mais utilitarismos para tentar saciar os antigos. O enriquecimento dos de cima torna-se sofrimento e desespero nos debaixo, que passam a buscar meios de vida de qualquer jeito, ficando reféns do utilitarismo e passando a disseminá-lo também.
Ao entrar na guerra utilitária de todos contra todos no dia a dia, valores fundamentais se perdem, aprofundando as desigualdades sociais e a própria descrença na política e no ser-humano. Assim, o falso discurso moralizador da grande mídia e de muitos políticos — estes sim, a encarnação do populismo, dado que só prometem e não deixam nada — reforça o direcionamento contra inimigos irreais ou exagerados para que o todo siga funcionando normalmente. Pressões geralmente sutis são feitas para direcionar a política econômica dos governos, visando aliviar ou apertar, sempre que uma engrenagem essencial do sistema é ameaçada.
O povo, seduzido pelo utilitarismo que culmina num culto egocêntrico, busca minimizar seus sofrimentos nos prazeres compensatórios da “indústria noturna” da festa, do carnaval e, em última instância, da alienação em geral (seja ela qual for), reforçando a falta de memória ou a tornando seletiva de acordo com aqueles que são tolerantes e podem patrocinar seus “pequenos prazeres” (o que inclui o sadomasoquismo). Assim, é facilmente manipulável no seu ódio, nas suas taras e manias, transformando a gritaria contra os políticos numa catarse inócua; quase que num esporte nacional oficial sem nenhuma consequência real, ao mesmo tempo que sai com uma obediência canina para votar em quem odiava ontem ou, até mesmo, para fazer campanha eleitoral de forma acrítica e rebaixada em troco de algum vintém ou de uma falsa promessa com retorno utilitário.
O xingamento contra os políticos geralmente vê o problema fora de si mesmo — por exemplo: não nota a sua falta de mobilização, seu voto em partidos da ordem e falta de criticidade como parte do problema. Assim, uma energia preciosa é direcionada para fazer o próprio sistema funcionar, dando-lhe uma aparência de “democracia”, já que o povo xinga permanentemente os políticos e os partidos, vendo nisso parte de “liberdades democráticas”, quando não passa de uma válvula de escape que direciona e ajuda a engrenagem a funcionar, garantindo o entreguismo e enviando importantes recursos para fora do Brasil a troco de nada.
As explosões de ódio tornam-se permanentes em um país cheio de violências, mas nunca direcionadas ao verdadeiro inimigo. Elas torram tempo e energia no trânsito, nas brigas de família, contra os vizinhos, nas comunidades, na fofoquinha ou na agressão e até mesmo transformam-se em assassinatos por desentendimentos banais.
Toda essa fúria — seja contra os políticos ou as mal direcionadas por entre o povo — não tem chegado nem perto de uma transformação popular, tal como já vimos ao longo da história, no sentido de permitir o início da criação de um partido revolucionário ou de uma situação revolucionária. Ao contrário. A indignação facilmente se converte na defesa dos ricos e poderosos de cima (ou, então, é restrita, também utilitariamente, aos governos petistas), terminando por se consumir em prostração, desencanto e depressão em massa que é anestesiada com remédio de tarja preta para que o ciclo siga seu curso.
Os políticos das oposições parlamentares mais corruptas e mafiosas dão exemplos concretos de falta de ética e decoro nas mais simples e singelas declarações (basta ver a bancada ruralista). A sua falta de escrúpulos é uma escola que “educa” centenas de milhares de seguidores que passam a repetir seus métodos truculentos, vistos como naturais e necessários para enriquecer, sem, no entanto, suspeitar que enquanto estes lucram milhões, o seu ódio e a sua falta de escrúpulos contra a política e o país é funcional ao sistema, servindo de catarse contra si mesmo.
Influencers, “bagunça política” e autodepreciação
Se tornou comum ouvir xingamentos à “burrice política” e “má educação” do povo brasileiro. Desde alunos da educação básica, até adultos nas ruas, chegando aos influencers das redes sociais.
Os vários youtubers e influencers que reforçam a autodepreciação do povo brasileiro contra a política, os governos e contra si mesmo, sem buscar as raízes destes problemas, são financiado pelos grandes empresários escondidos por detrás das “oposições parlamentares” inconsequentes ou, então, nas “forças do mercado”. Eles consideram que o povo “é burro”, “manipulado”, sempre diminuindo ou escondendo o problema da concentração de renda, que é estrutral, cuja raiz está no funcionamento do sistema capitalista.
Da mesma forma, os influencers empresários, que fazem uma novela em torno da “absurda cobrança de impostos” (que geralmente eles sonegam), nunca apresentam um projeto de país justamente porque não se preocupam e não querem um país melhor, dado que a sua riqueza provém justamente desta estrutura de atraso. Por isso, só podem falar de “impostos abusivos”.
Seu projeto, portanto, é precisamente lucrar o máximo que puder e não deixar nenhum fundo para que o país possa se desenvolver, nem trabalhar para que estes fundos sejam realmente usados para isso, combatendo, por exemplo, a roubalheira dos juros da dívida “pública”, nunca auditada. Só reclamam de que tudo se perde na “corrupção”, mas nunca ajudam a combatê-la porque são parte não declarada dela. O mesmo discurso é reproduzido estupidamente por grande parte do povo que não chega a ter nem 1% de sua fortuna.
As oposições parlamentares e políticas que praticam uma oposição criminosa sabotam o debate nacional, além da grande mídia que faz uma cobertura “jornalística” centrada em escândalos, mas nunca nas causas de tanta repetição de tais escândalos, geram uma autodepreciação sadomasoquista que não temos conseguido romper (a própria “esquerda” termina por morder essas iscas e ajudar na autoprisão). Odiando a política, o regime, o presidente e tudo o mais, sem nos mobilizarmos para mudar esse quadro de coisas (como tem sido a “regra”), terminamos inevitavelmente por odiar o próprio país, vendo-se sem perspectiva de mudança pra melhor (como “uma merda”, na linguagem dos alunos da educação básica).
Se achamos que nosso país “é uma merda”, então não vamos nos opor nem resistir a sua espoliação; sobretudo contra aqueles que o querem vender a troco de nada. Se depreciamos o país quase que diariamente sem pensar no porquê disso tudo, então passamos a nos depreciar também, já que não vivemos no vácuo. A sensação de impotência geral só aumenta — e a quem pode beneficiar uma sensação generalizada de impotência entre os brasileiros?
***
A sociedade Ocidental mantém o centro no ego. Tudo gira em torno dele: propaganda, cobiça, desejo, etc. Ele é o fio condutor pelo qual nos são lançadas inúmeras iscas e, quase sem exceção, somos fisgados. Nenhum sistema econômico anterior na História conseguiu esta façanha de colonizar quase que voluntariamente a psique da classe oprimida. Os escravos e os servos não se rebelavam por medo das consequências e pela estrutura militarizada dos sistemas que lhe oprimiam; no capitalismo, ainda que a repressão também seja sempre um recurso disponível, o aparato ideológico logrou criar inúmeros mecanismos institucionais que contam com o próprio consentimento dos explorados.
Para isso, é necessário mecanismos de compensações psicológicas que precisamos urgentemente compreender. Parte dele está nos xingamentos contra políticos, partidos e governos que não resultam nem em mudanças pessoais, nem em mudanças sociais, mas em violência entre nós mesmos; trabalhador contra trabalhador; irmão contra irmão; latino-americano contra latino-americano; brasileiro contra brasileiro.
A atual fase de desenvolvimento do capitalismo imperialista, sob comando da decadente oligarquia estadunidense, há um enorme peso na manipulação psicossocial que não deveria ser menosprezada por parte da esquerda. Desde as revoluções coloridas, até a intervenção midiática, de ONGs, de think tanks, até a manipulação das redes sociais e à ascensão do neofascismo que temos visto a mudança de correlação de forças internas nos mais distintos países.
O Brasil não foi exceção.
Junto com a lavagem cerebral, há a criação de uma narrativa que conforte consciências culpadas nos mais distintos níveis, além de um aparato econômico que injeta “ânimo” a partir do mais nefasto utilitarismo e pragmatismo financeiro, tecnológico e pessoal — até mesmo muitos ativistas socialistas compram este “pacote completo”.
Seria de muito bom tom, portanto, que a esquerda parasse de romantizar (ou, pior ainda, de se aproveitar de) certas posturas equivocadas do povo e passasse a olhar a realidade de frente, por mais amarga que seja. É o primeiro passo para tentar mudá-la para melhor.
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