As eleições brasileiras se aproximam em uma conjuntura marcada pela decadência dos EUA, com ameaça de guerras internacionais e um projeto sinistro de recolonização da América Latina por parte do imperialismo estadunidense a partir de um discurso de combate ao “narcoterrorismo” de facções criminosas brasileiras e latino-americanas.
Ao invés de repetirmos as velhas fórmulas, seria mais importante redimensionar a nossa reflexão. Os debates eleitorais e suas respectivas acusações se repetem tanto porque tem faltado o ator principal: o movimento de massas. Sem ele, ficamos refém do calendário eleitoral e dos aparatos políticos (sejam eles legendas ou sindicatos) que geram forças gravitacionais que são impossíveis de ignorar se pretendemos ter uma política com base na realidade.
A visível decadência dos EUA frente a ascensão mundial da China, leva o imperialismo estadunidense a uma ofensiva caótica em diversas frentes. Mesmo sendo ameaçado de derrota militar no Irã, aos EUA interessa gerar o caos geopolítico em algumas regiões, enquanto em outras toma a ofensiva direta, como no caso da América Latina (Venezuela, Cuba; intervenção e financiamento de eleições presidenciais em distintos países do continente).
Enquanto vemos o dólar ser questionado como a moeda hegemônica, China e Rússia reafirmam sua aliança estratégica visando neutralizar a ofensiva norte-americana. Quanto mais perde terreno na Eurásia, mais o imperialismo ianque procura retomar o terreno ameaçado pela crescente influência chinesa na América Latina e na Europa.
É neste contexto mundial que as eleições brasileiras serão realizadas.
A melhor denúncia ou propaganda “revolucionária” não encontra penetração na grande massa, nem aumenta a expressão numérica das organizações socialistas. E isso vem ocorrendo há décadas. Certamente pesa o fato da propaganda ideológica feita 24h por mídias nacionais, internacionais e universitárias contra o “comunismo” pós restauração do capitalismo, além do oportunismo dos partidos e sindicatos de massas. Mas isso não explica tudo.
O único caso de aumento significativo de influência sobre a massa nas últimas décadas foi o próprio PT, às custas, como sabemos, de uma adaptação ao regime democrático-burguês que lhe amarra as mãos e os pés — e frente o crescimento da direita neofascista, criada e tolerada pelo próprio sistema.
É com estas ilusões que precisamos debater não apenas uma política eleitoral dentro deste contexto nacional e internacional complexo, mas a própria renovação da atuação teórica e prática das organizações de esquerda.
O problema, contudo, é que vivemos em uma permanente Torre de Babel, num diálogo de surdos egocêntrico onde imperam fórmulas políticas que beiram o dogmatismo religioso, seja do lado “moderado”, seja do lado “radical”.
Eleições burguesas: sempre uma guerra do fim do mundo entre as esquerdas
Não há dúvidas de que a eleição da direita bolsonarista é um problema sério, com consequências catastróficas para a classe trabalhadora do Brasil e da América Latina. Significa não apenas a submissão neocolonial completa do Brasil ao imperialismo estadunidense, como um respiro para a sua decadência histórica às custas dos nossos recursos naturais e da exploração do nosso povo. O engodo da vez é o “combate ao narcoterrorismo”, que vem sendo trabalhado diariamente por boa parte da grande mídia.
A militância petista, no entanto, transforma qualquer crítica ao PT numa heresia, deixando Lula numa posição de “grande líder inquestionável”, o que entra como elo na manutenção desta gangorra dentro do sistema capitalista brasileiro. Para esta militância, Lula tem um “cheque em branco” para fazer o que bem entender: alianças, rebaixamento de programas e discursos, contorcionismos teóricos e discursivos. Tudo está perdoado de antemão e quem critica ou vota diferente deve ser excomungado porque “apoia a direita”.
Se por um lado votar no PT “evita a vitória da direita”, por outro, condena o futuro governo de “esquerda” a uma margem de manobra muito restrita para qualquer mudança real, pois o deixa semi-petrificado em razão do leque de alianças em nome da “governabilidade”. O que fazer durante o mandato de Lula para ir além? Sobre isso não falam uma palavra, nem se preocupam com este tipo de questionamento.
No outro extremo, temos a esquerda “revolucionária”, que condena o voto no PT como um pecado oportunista, independentemente de qualquer justificativa ou atuação prática de quem o faz. Contudo, a questão fundamental não debatida por este setor é o grande ausente: o movimento de massas!
A classe trabalhadora não tem se mobilizado a ponto de oferecer uma perspectiva diferente de luta, infelizmente. Nem mesmo ocorre aqui as mobilizações que acontecem atualmente na Bolívia. É triste constatar isso, mas é necessário se não queremos perder o contato com a realidade.
O problema é complexo e vai muito além do desgaste proporcionado pelo PT, dado que a massa trabalhadora tem sido impenetrável à propaganda revolucionária, por menor que seja — e no Brasil, a despeito dos modestos recursos das organizações da esquerda revolucionária, existem agitações e propagandas feitas em distintos níveis e locais, mas que não obtém o mesmo resultado das agitações da direita neofascista e evangélica. Portanto, quando falamos de mobilização, a massa tem oscilado apenas entre a extrema direita e o petismo.
Para “punir o PT”, a massa trabalhadora tem ido à direita (ou parte dela fica no lugar de onde nunca saiu, no campo conservador). Acredita apenas no “antissistema” de direita, enquanto que os inúmeros antissistemas de esquerda sequer a conseguem sensibilizar. Um dos motivos da insensibilidade da massa para com a esquerda “revolucionária” é a sua propaganda abstrata e descolada da realidade, repleta de números e dados racionalmente “perfeitos”, mas tendo pouco apelo com o que de fato se passa ao seu redor; além do desprezo ao debate da psicologia de massas.
Pesa também a propaganda reacionária contra o socialismo e o “comunismo” como resultado dos anos de “restauração do capitalismo” na ex-URSS, ao qual esta esquerda também não soube e não sabe responder a altura, de forma criativa, aprofundando-se na abstração e no doutrinarismo.
Ela tenta aplicar no Brasil a receita soviética, tal e qual, sem compreender as características próprias do país, do seu povo, da sua cultura, das suas ilusões, desconsiderando totalmente o novo debate posto a partir da ascensão mundial da China, que venceu parcialmente o capitalismo neoliberal dos EUA no campo da eficiência tecnológica e nas próprias leis de mercado. Além disso, há no nosso país uma forte herança colonial, que faz com que o povo, para ganhar a vida, desenvolva uma mentalidade utilitarista que se submete consciente ou inconscientemente ao explorador. o Brasil foi construído a partir de um estrutura de fora para dentro, repleto de mecanismos institucionais que impõem a chantagem da governabilidade, com possibilidades reais de sabotagem e paralisia. Somente o apoio organizado da maioria do povo em forma “ditatorial” pode possibilitar um enfrentamento à elite nacional, que não tolera oposições estruturais.
Estamos perto disso?
Nenhum pouco!
Se por um lado sabemos que se depender do petismo isso nunca acontecerá, dado o seu culto à democracia [neo]liberal burguesa; por outro, estamos muito distantes disso porque grande parte do povo trabalhador se divide entre apoiar o reformismo petista ou o “conservadorismo” bolsonarista. Não há nenhuma tendência atual que possa servir de ponto de apoio para uma política revolucionária independente e firme, o que embola todo o meio de campo do tabuleiro político da luta de classes nacional.
Esta é a triste realidade da nossa conjuntura que não deveria ser ignorada ou maquiada com discursos de profissão de fé. Tampouco se pode mudá-la com gritos histriônicos de lideranças isoladas, que apresentam as mais “rigorosas análises teóricas”, “perfeitas”, repleta das verdades mais ardentes, mas que não tem tido o menor apelo popular capaz de tocar o coração e a mente do povo.
O que tais análises “rigorosas” não observam é a dinâmica das massas, que são sempre tratadas como algo sem vontade, em “estado bruto”, bastando vir uma liderança de “vilões inescrupulosos” para enganá-las totalmente. É uma visão idealizada sobre elas e sobre o seu próprio papel “libertador”. Às massas cabe sim algum tipo de escolha pessoal entre o bolsonarismo ou o petismo que precisa ser levado em consideração se queremos realmente entendê-las e não apenas nos vendermos como a “direção perfeita” e predestinada. Para a maior parte da massa é muito mais difícil viver na verdade do que na mentira que nos conforta.
Ao contrário do capitalismo do século XIX e XX, que cooptava partidos, sindicatos e lideranças, o capitalismo neoliberal do século XXI foi além e desenvolveu mecanismos psicológicos de cooptação de pautas de reivindicações, esterilizando-as e criando mil dificuldades e confusões na mente de milhões de trabalhadores no Brasil e no mundo. A esquerda em seus diferentes níveis e tonalidades não tem conseguido enfrentar esta nova formulação do capitalismo, que estereliza as reivindicações e mantém a classe trabalhadora sob controle, em parte tendo sua própria condescendência e, como consequência, fazendo-a cair num profundo desânimo, injetando-lhe depressão em massa. Em grande medida o sistema logrou fazer com que as pessoas tolerem as suas péssimas condições de vida pela exposição contínua a elas, sendo reforçadas e blindadas pela indústria cultural, pelas redes sociais, por sucessivos estímulos estéticos, morais e da religião organizada que o degrada moralmente e atrofia suas emoções, embaçando sua visão racional.
Daí a conclusão de que não temos visto rebeliões espontâneas que apontem perspectivas de se construir o poder proletário, mas depressão e desânimo em massa, banhados por remédios de tarja preta, além de outras formas ilusórias de não encarar a realidade.
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A psicologia de massas do neofascismo não é compreendida e não tem contraponto nas candidaturas da esquerda “revolucionária”, que só faz mais do mesmo e espera resultados diferentes
O neofascismo tem jogado pesado.
Seus ideólogos e engenheiros políticos — sendo Steve Banon o mais perigoso — manipulam as emoções, taras e ódios da massa e conquistam novas hegemonias sobre elas. Parte desta manipulação é embasada no próprio conservadorismo das massas, criada na disciplina familiar e religiosa das tradições do país.
Marx e Engels foram grandes teóricos, mas como já alertavam no seu tempo, não possuem respostas para tudo. Reconhecendo a importância das suas contribuições, precisamos avançar sozinhos. O primeiro passo é redimensionar a análise partindo dos avanços científicos referentes ao nosso tempo e das contribuições posteriores a eles — fato recomendado pelo próprio Engels, mas nunca observado com a devida seriedade.
Enquanto o petismo nos deixa reféns do arco de alianças e do permanente rebaixamento programático é a única possibilidade eleitoral de massas viável ao bolsonarismo. E assim será enquanto a esquerda não der um passo decisivo para reorganizar o seu arsenal teórico, metodológico, de trabalho de base, estético e moral do dia a dia.
Já se disse que fazer tudo exatamente igual e esperar resultados diferentes é loucura. E é exatamente isso que a esquerda “revolucionária” tem feito na esperança de que as “massas despertem”, mas com medo de avançar para conclusões que a faça se olhar no seu próprio espelho profundo. Portanto, no seu dia a dia não é revolucionária, mas conservadora e tradicionalista, repetindo dogmas e fórmulas.
Parte desta esquerda “revolucionária” novamente lança suas candidaturas próprias (PSTU, PCO, UP) que não têm conseguido nenhuma penetração real na massa. E isso se repete por diversas eleições — o que, por si só, deveria fazê-los tirar algumas conclusões, mas que, desgraçadamente, não o fazem. Caso estivesse no caminho correto de “despertar a massa”, teriam algum resultado diferente, como por exemplo: de 1% saltariam para 5 ou 10%. Ou então, conseguiriam solapar lentamente a influência social e sindical petista, avançando para um princípio de influência sobre o movimento de massas, vencendo o utilitarismo e o oportunismo da massa petista e cutista, apontando para a auto organização dos trabalhadores como alternativa real de poder. Porém, nada disso ocorre, senão que se aprofunda o oposto.
O que vemos, então, é mais uma profissão de fé do que um trabalho político que leve em consideração o real movimento da conjuntura. No fim das contas, no primeiro turno essas candidaturas não atingem nem 1% e depois, no segundo turno, terminam votando “criticamente” no PT ou “votando nulo”. Pior do que isso, a sua influência não cresce nem indiretamente.
Além das candidaturas oficiais da esquerda “revolucionária”, existem ainda diversos agrupamentos que chamam voto nulo em quase todas as eleições, tal como um princípio político do qual acreditam depender a sua redenção ou condenação pecaminosa, ignorando deliberadamente o discurso e a atuação prática de quem vota criticamente no PT ou mesmo as formas concretas de se atingir uma base real. Os anuladores convictos mais “realistas” fazem menção ao crescimento do número de votos nulos e brancos das últimas eleições, entretanto, ignoram que é uma massa disforme que não se traduz em luta por diversas razões, sequer apontando realmente para uma auto organização além das eleições. Também ignoram ou diminuem os retrocessos políticos visíveis de uma vitória da extrema direita. Sem tal alerta não é possível educar politicamente a massa e o próprio eleitorado petista. Tende, portanto, a nivelar tudo, aumentando a confusão e facilitando a vida das direções petistas e paulistas, que se vendem como as únicas “realistas”.
Se por um lado, o argumento de que voto nulo pode significar o aumento da chance da vitória da direita, por outro, ele esconde perfeitamente a política conciliadora do petismo no dia a dia, o que gera becos sem saídas e o eterno retorno eleitoral do petismo versus “as direitas”. Então, o eixo da disputa entre esquerda eleitoreira e “revolucionária” não deveria se dar preferencialmente no terreno eleitoral, que é pantanoso e incerto.
Nem o voto nulo, nem o voto crítico são “pecados” em si mesmo, tal como preconizam os “militantes religiosos” em suas diferentes profissões de fé — ainda que possuam consequências práticas em cada conjuntura. Toda crítica deveria depender do tipo de política que se leva no dia a dia, bem como o discurso e a prática com que se sustentam; além da busca de novas formas de trabalho de base, estética, auto-organização, relação entre militantes, movimentos sociais e as pessoas da massa, que sejam menos egocêntricas, dogmáticas e/ou oportunistas, sendo confirmadas pela capacidade de gerar confiança e não mais ojeriza.
A grande questão é: a massa não tem rompido a sua letargia e não tem saído da condição de torcida organizada. Os discursos redentores da esquerda “revolucionária” não conseguem tirá-la do seu estado catatônico. Quem capitaliza a sua indignação tem sido a direita neofascista, porque aprendeu a manipular seu conservadorismo congênito, que não pode ser combatido com programas, práticas e discursos do século XIX. O petismo, por sua vez, não tem como vencer o neofascismo a longo prazo, mas ser simplesmente um breve hiato entre um governo de direita e outro. Bastaria dizer à militância petista que, caso Lula vença as eleições deste ano, após este mandato — que deve ser o seu último —, estaremos novamente “largados à própria sorte”.
O duro balanço que devemos fazer é que nenhuma organização das esquerdas tem sabido injetar ânimo nos trabalhadores no espírito revolucionário, nem estes têm saído de sua condição passiva espontaneamente, como acontecia no passado, dado que a indústria cultural e os métodos refinados de manipulação da psicologia de massas conseguem deixá-la inerte, catatônica e depressiva. O que deveríamos fazer para além de nos atolarmos em divergências secundárias — tipo as de cunho eleitoral —, é justamente investigar como o capitalismo conseguiu neutralizar a psicologia de massas, torná-la dependente e depressiva e, sobretudo, como quebrar essa “neutralização”.
Parte do sucesso da direita neofascista e do capitalismo neoliberal na cooptação de reivindicações populares está na confusão sinistra que faz na mente de milhões de trabalhadores, ao ponto de que esta já não sabe mais ao certo quem é “herói ou vilão”, “antissistema ou pró-sistema”, “certo ou errado”. E ao invés de entender tais dilemas, o discurso da esquerda “revolucionária” nas eleições e da esquerda moderada no dia a dia aprofunda esta confusão.
Assim como o povo trabalhador perde a paciência e se rebela, ele tem demonstrado fontes inesgotáveis de passividade, buscando direções (candidatos, partidos, sindicatos, etc.) que alimentem suas ilusões na “inocência” de uma saída fácil e negociada, onde não haja conflitos. Já as organizações da esquerda “revolucionária” julgam que se trata apenas de um “alinhamento de astros”; qual seja: o despertar da raiva popular com a sua política revolucionária “perfeita”. Não percebe que a construção dessa política — para ser real — precisa se chocar cotidianamente com o atraso do “povo-público”, tipo torcida organizada, não lhe perdoando os “escorregões inocentes” que expressam o seu desejo de ser eternamente uma criança a espera de um paizinho para fugir às suas responsabilidades sociais, não restringindo as suas críticas apenas às direções políticas e sindicais.
Para que a esquerda revolucionária possa crescer, precisa encarar o fato de que as coisas não são como parecem ser nos “manuais teóricos” (sobretudo para aqueles que leem teoria revolucionária como um dogma religioso) e nos nossos desejos pessoais, geralmente confundidos com a realidade.
Enfrentar a realidade histórica do povo brasileiro tal como ele é
Tanto aqueles que entendem o voto em Lula como sendo uma redenção e a condenação do voto nulo como pecado — ou vice-versa —, numa verdadeira guerra do fim do mundo entre as esquerdas, não têm levado em consideração a apatia das massas e uma análise renovada da realidade brasileira e mundial. O resultado só pode ser o aprofundamento de um ping-pong entre a esquerda social-democrata, tipo PT, e a direita neofascista; com a mídia burguesa e alguns partidos do centrão tentando emplacar uma terceira via da direita “moderada”.
O que temos que explicar é: porque as massas são facilmente seduzidas pelo neofascismo com discursos “contra a corrupção” do PT feito por notórios corruptos ou por discursos “anti sistemas” feito por defensores descarados do sistema vigente. Enquanto que o discurso das organizações de esquerda feito nos locais de trabalho, estudo e moradia tem pouquíssimo apelo para se transformar num movimento de massas. O que se passa em sua mente?
A principal arma do imperialismo estadunidense contra a América Latina não tem sido a bomba atômica, os porta-aviões, a IA, os drones ou o que quer que seja no campo militar, mas a mente do seguidor de Bolsonaro, Milei, Kast e do gusano da Flórida, cuidadosamente cultivada por anos de propaganda neoliberal, a que chamam de “jornalismo”. Trata-se do melhor cavalo de Tróia que pode haver, pois conseguiu criar uma racionalidade às avessas, que vê entreguismo como patriotismo; pirataria, saque e extorsão de si próprio como desenvolvimento econômico; privatização que empobrece a si própria e a sociedade que o circunda como a “solução”; além de ser imune a todo fato histórico ou argumento racional verificável hoje pela internet ou por fontes relativamente acessíveis, celebrando a injustiça das desigualdades sociais como algo digno e desejável.
Defender os sórdidos interesses econômicos dos EUA soa como algo “natural” para milhões de pessoas em nosso continente. É isso que a propaganda ianque de “nosso hemisfério” trabalha no inconsciente coletivo. Os defensores do capitalismo norte-americano entre os latino-americanos explodem em reações emocionais desequilibradas e intolerantes frente ao menor questionamento político da conjuntura, seja na Venezuela, no Brasil, nos EUA ou no mundo. Esta psicopatia é caracterizada por fazer o indivíduo perder a capacidade de empatia e escuta, bloqueando o cérebro racional para fatos e argumentos bem construídos.
A memória e o debate racional exposto de forma impecável de nada vale frente ao estado psicológico criado pela intervenção da direita neofascista via redes sociais e amparada pelo pano de fundo feito pelo “jornalismo” da grande mídia. Por exemplo: a maquinação dos EUA no golpe de 64, a falácia das armas químicas no Iraque, os discursos de apoio à “democracia” que se convertem em intervenções autoritárias e ao apoio político de inúmeras ditaduras mundo afora; os incontáveis casos de corrupção dos partidos de direita; ou o apoio petista às reformas neoliberais — tipo da Previdência e diversas PPPs —, os escandalosos acordos regionais e nacionais do PT com a decrépita oligarquia brasileira, além do apoio descarado ao agronegócio e ao sistema financeiro, absurdamente não valem de nada nesta discussão, que não tem ido além do nível superficial das emoções mais primitivas.
Ganha quem grita mais e traz mais fatos bizarros à tona — no caso bolsonarista —; ou toca mais o coração dos trabalhadores com histórias tristes de superações individualistas das “pessoas comuns”, sempre lembrando da mãe — como é o caso de Lula. Nunca chegamos aos debates macroeconômicos que podem colocar em debate as mudanças estruturais que o país realmente precisa. E não basta apontar a “consciência ingênua” do povo; há que se entender como ela funciona e, sobretudo, porque o povo opta por ela.
Manter a coesão de suas bases sociais requer este tipo de conduta, de um lado ou de outro. É isso que precisamos entender e superar. Muitas organizações militantes da esquerda “revolucionária” gritam e atacam pessoalmente as pessoas de ambos os lados, mas enfrentar o grave problema da manipulação da psicologia de massas não deve nunca ir pelo caminho da humilhação, chamando de gado, ou descambando para o xingamento nu e cru. Tal tipo de “enfrentamento” só pode intensificar o problema, jogando as pessoas novamente nos braços de suas antigas “direções”.
O petismo (secundado por Psol e PCdoB, seus satélites “naturais”) tem a vantagem de levar muitos elementos da realidade do Brasil e do mundo em consideração, ainda que sacrifiquem tudo no altar do desespero utilitário e oportunista da “governabilidade”. A esquerda “revolucionária” deveria admitir que o petismo expressa bem a mentalidade da massa de trabalhadores brasileiros, que busca por um “paizinho” ao invés de enfrentar a sua dura condição de vida. Vê-la como ela é e não como “deveria ser”, é um importante primeiro passo.
PT, PCdoB e Psol levantam bandeiras que conseguem ter algum apelo popular, mas não dão passos além dessa superficialidade porque temem à morte perder influência eleitoral e sindical. Assim sendo, trabalham no sentido de manter a massa tal como ela é — é justamente daí que provêm a sua influência de massas. Lula sabe falar o que o povo consegue e quer ouvir, sem nunca elevar a tônica para além daquilo que é aceitável na diferenciação superficial que as eleições e o sistema permitem.
Parte desta retórica com capacidade de capturar pautas populares e desviá-las para si mesmo vem do identitarismo, presente tanto no petismo quanto em muitas candidaturas da esquerda “revolucionária”, além de agrupamentos de militantes. Existe um beco sem saída neste enfrentamento da “esquerda identitária” com a direita neofascista, que se especializou em polarizar estas políticas na mente de milhões com um debate que serve perfeitamente para esconder as verdadeiras questões econômicas e políticas que podem mudar o país e o mundo: mexer no sistema financeiro, no poder econômico e político do agronegócio e de São Paulo sobre a federação, na exploração capitalista e sua crescente degradação das relações sociais. O petismo aceita o duelo identitário inócuo, mas que possui grande apelo popular, e com isso ajuda a embaçar o quadro geral, vendendo-se como “esquerda”, como “progressistas”, mesmo que no campo econômico não enfrenta quase nenhuma mazela real.
Isso não quer dizer que não exista machismo, racismo e homofobia na sociedade atual, mas eles têm sido exageradamente utilizados como cortina de fumaça para trancar outras pautas de discussão que provavelmente teriam maior repercussão sobre a consciência de classe.
Dado que o Brasil foi um país formado do exterior para o interior, gerando um Estado correspondente nesta função de controlar sua população, o debate internacional inevitavelmente acaba sendo preponderante, uma vez que nada muda aqui sem um enfrentamento decidido à hegemonia dos EUA sobre o nosso país e o nosso subcontinente. Atualmente apenas duas candidaturas têm apelo de massas para tocar nessa questão: a bolsonarista, que abre uma avenida neocolonial para embotar as consciências de amplas parcelas da massa, garantindo a sua servidão voluntária, deixando um saldo de difícil reconstrução; e a petista que, ainda que não impeça o neocolonialismo, gera algum tipo de dificuldade momentânea e conjuntural ao imperialismo, já que facilita a aproximação com a China, causando pavor e desespero na Casa Branca.
Os EUA estão em decadência histórica. Isso é o que marca toda a atual conjuntura e, particularmente, as eleições de 2026. O BRICS representa o olho do furacão e tem papel importante no aceleramento ou retardamento desta decadência. Sabemos que o BRICS é um bloco geopolítico cheio de contradições perigosas, mas sem enfrentá-lo e pautar a sua discussão é o mesmo que ignorar um dos focos centrais da atual conjuntura e ajudar, direta ou indiretamente, os planos do imperialismo para o Brasil. Dada a apatia da classe trabalhadora brasileira e a situação internacional, seria importante procurar minar o imperialismo hegemônico, tirando o Brasil de sua área de influência e tensionando pelo desenrolar de uma nova configuração mundial, ainda que ela esteja longe de ser a ideal para a classe trabalhadora internacional.
É natural, portanto, que para acelerar a libertação das amarras do imperialismo ianque em decadência histórica e não tendo um movimento de massas atualmente — que não pode ser criado da noite para o dia —, é necessário apostar em uma conjuntura internacional mais favorável com os elementos que existem na realidade e não criados pela doutrinação de nossa propaganda pautada pelo século XIX ou XX. Se não queremos viver de denúncias vagas, apenas esperando pela volta do socialismo soviético das décadas de 1930-1940, tal qual se espera a segunda volta do messias, é importante atualizar a leitura de mundo e das demandas deste início do século XXI. Do contrário, é deixar o petismo livre das críticas concretas que possuam algum tipo de contato com a realidade.
O PT, embora seja pivô nessa aliança geopolítica, pretende uma submissão acrítica à China. O bolsonarismo, ao contrário, representa a sabotagem e destruição do bloco, conforme os interesses estratégicos dos EUA. A “esquerda revolucionária”, por sua vez, condena totalmente o bloco, como faz com quase todas as outras pautas, ignorando que é a única realidade “progressiva” possível no momento que possa acelerar a derrota do imperialismo estadunidense.
Por tudo isso é necessário abordá-lo e incentivá-lo de um ponto de vista que interesse aos trabalhadores e ao povo brasileiro (ou seja, se seremos só manipulados pelos interesses econômicos chineses ou se tentaremos intervir nele com clareza onde há possibilidade real para isso) ou se ficaremos alheios.
No entanto, como atuar nele? O que exigir, o que apoiar e o que denunciar? Este é um debate que se abre apenas a partir da possibilidade de permanência nele, fato que não existirá caso o ignoremos.
A esquerda “revolucionária” denuncia o PT com base em pautas que soam completamente distante da massa trabalhadora, que não tem apelo diário e, tampouco, são compreendidas; às vezes até mesmo hostilizadas.
Ainda que não devamos cair no erro sectário-oportunista dos petistas de execrar quem vota nulo — pois estes setores estão sempre na luta —, é preciso reconhecer que as candidaturas da esquerda “revolucionária” ou os adeptos do voto nulo sugerem pular etapas sem ter condições para isso, baseado-se, como sempre, numa profissão de fé que não se traduz em movimento de massas organizado e que não tem sido capaz de tocar a massa bolsonarista, nem a petista. Em seu violento radicalismo, tornam-se obstinados em impor com gritos ao mundo real o que é logicamente demonstrado nos seus discursos.
Não podemos pular etapas e avançarmos para pautas socialistas, despertando progressivamente a classe trabalhadora, sem entrarmos em contato com o mundo real e a massa tal como ela é. Por diversas razões que ainda precisamos debater para entender, a esquerda “revolucionária” tem ficado cada vez mais isolada.
Redimensionar a esquerda: apostar na criatividade em todos os níveis
É provável que despertar a massa requeira um redimensionamento do debate e a procura por novas formas de atuação, educação política e não a repetição ritualística do “comunismo” soviético. O debate sobre a psicologia de massas precisa ser complementado por novas formas de organização correspondentes que combatam o espírito de rebanho, o egocentrismo de organizações e dirigentes, gerando a confiança capaz de fazer os trabalhadores assumirem seu lugar na sociedade e na construção de uma outra sociedade, valorizando o debate racional coletivo. É fundamental estar aberto para ouvir e perceber o outro no dia a dia, sem ter como perspectiva a mera vantagem — seja o ganho pessoal, coletivo, cooptação para a organização para se continuar fazendo o mesmo de sempre, etc.
Superar a “consciência atrasada” dos trabalhadores requer o enfrentamento ao seu modo de vida, à sua falta de coerência e de compaixão no cotidiano entre irmãos trabalhadores, em relação a mesquinhez das necessidades cotidianas. Isso não pode ser feito por partidos e organizações egocêntricas e oportunistas, que só as reforçam ao invés de combatê-las.
A luta por uma nova sociedade pressupõe irmos além das questões meramente econômicas. Redimensionar as perspectivas da esquerda significa relembrar que em última instância lutamos pela emancipação humana e que isso pressupõe o direito de ser quem se é; isto é, o direito a individuação — isso nos é negado pela moral social, pela família tradicional, pelo autoritarismo dos locais de trabalho, pela polícia e mesmo por muitas organizações de “esquerda”.
Os problemas de redimensionamento e recriação da esquerda transcendem as eleições de 2026. Por isso é importante pensar além do “dogmatismo religioso” político-eleitoral imediatista que ela inspira, seja de um lado… ou de outro. A grande questão continua sendo ir muito além das eleições (voto acrítico, crítico ou nulo): trata-se de como descobrir e abrir caminho para o espírito de revolta consciente no povo brasileiro, fato que nenhuma das esquerdas tem conseguido realizar… ou mesmo compreender!
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