quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Como a grande mídia disfarça seu direcionamento político através do discurso de “polarização política”


O "corvo", Carlos Lacerda, da UDN, é o padroeiro da grande mídia brasileira,
arquitetando e amparando golpes políticos e militares desde 1950

O debate político no Brasil sempre foi “polarizado”.

Alguns analistas das grandes emissoras e as suas “reportagens imparciais” fingem preocupação com relação à polarização entre petismo e bolsonarismo, mas isso não é nenhuma novidade.

Toda a forma de fazer política neste país leva à isso, direta ou indiretamente, inclusive a própria cobertura “jornalística” da grande mídia.

Desde os tempos da UDN — criada com o apoio dos EUA para combater o getulismo, passando pelo período da ditadura militar e chegando à República atual, onde o eixo torna-se a disputa entre o petismo e os governos de direita, cujo ápice se deu com o surgimento do bolsonarismo — podemos perceber que os distintos níveis de polarização fazem parte da situação política no Brasil, muito além da “preocupação” da grande mídia.

A pergunta central nunca feita pelos brilhantes analistas políticos do “jornalismo” brasileiro é: quem polariza o debate e por quê?

O principal promotor de “polarização” é a elite do país; isto é, a sua burguesia agro-exportadora e financeira, dependente do mercado mundial, dos dólares norte-americanos e das garantias representadas pelo Estado brasileiro como fiador providencial. Ela resistiu e sempre resistirá a qualquer mudança social que coloque seus interesses em risco ou que sequer os questione (mesmo que timidamente, como faz o petismo). Sempre apoia os planos do imperialismo para o nosso subcontinente justamente porque seus rendimentos provém desta fonte espúria. Parte fundamental dos seus planos está na utilização da indústria cultural para polarizar politicamente a realidade interna dos países latino-americanos, tornando o debate público refém dos mesmos discursos e interesses de sempre — dos EUA e de seus sócios menores em cada país.

Estes interesses se expressam, sobretudo, em oposições políticas e parlamentares profundamente desonestas (que transparecem também no tipo de “jornalismo” da grande mídia, que os amplifica e lhes dá um ar de naturalidade e imparcialidade). Tais oposições e sua grande mídia usam e abusam da retórica sobre “verdade”, “liberdade”, “combate à corrupção”, “interesses do povo brasileiro”, que serve apenas para camuflar uma prática entreguista e anti-patriótica. 

Ao polarizar o debate nacional, elas mantêm a discussão e mesmo as ações dos governos petistas restritos aos limites toleráveis ao mercado e ao sistema, o que impede mudanças profundas e estruturais que enfrentem realmente a espoliação do povo e do país, deixando que o governo cave a própria cova do seu inevitável desgaste político.

O “jornalismo” da grande mídia, por sua vez, ecoando esta estratégia geral, não deixa o debate sair de certos limites, reforçando a falta de memória do povo e alimentando determinadas pautas secundárias quando lhe convém. Ele faz o debate público andar em círculos, nunca indo além das pesquisas eleitorais e dos escândalos de corrupção, sem jamais deixar que se aprofunde a compreensão popular. O discurso político da “polarização” é parte desta estratégia de cansaço que joga as pessoas comuns para longe da política, tapando-as de nojo; sem falar nos elementos secundários que também o alimentam, como as igrejas evangélicas, os campeonatos esportivos, as loterias, as novelas e tudo aquilo que renova diariamente as esperanças de que “agora será diferente”.

Dentro da lógica de “polarização” surgem as tentativas de se vender o falso-novo, como as supostas terceiras vias que apenas reforçam as resistências da velha elite do país em impedir qualquer mudança estrutural. Para comprovar, basta remontar a história do país indo do bolsonarismo até a máfia da UDN e UDR nas décadas de 1950-1960.

Ao tratar o regime político “democrático” com auras de santidade, a grande mídia esconde, apaga, deixa arrefecer os descontentamentos e enaltece a falsa “renovação” eleitoral (não sem a ajuda da esquerda reformista). Fecha os olhos para as maiores distorções feitas pelas oposições parlamentares e pelo “jornalismo”, que, a bem da verdade, são autênticos crimes (sem falar nos praticados pelas ONGs e “associações” patrocinadas nem tão ocultamente pelo imperialismo). 

Neste percurso bizarro, também contam com a complacência direta ou indireta da justiça burguesa. Sem este tipo de funcionamento, a ascensão do bolsonarismo no país e do neofascismo na América Latina e no mundo seria impossível. A estratégia do imperialismo estadunidense conta com toda esta engenharia política, além das instituições “democráticas” oficiais que fingem que não enxergam.


E o petismo? Não foi quem mais contribuiu com a “polarização” quando era oposição?

A grande mídia e as oposições políticas por décadas sustentaram que a única fonte de “polarização” era o petismo. Segundo sua propaganda, se este partido não existisse a sociedade brasileira viveria em paz.

No entanto, a “polarização” política não surge meramente de partidos, discursos parlamentares ou da grande mídia, mas da estrutura absurdamente desigual de nossa sociedade entre os muito ricos e os milhões de miseráveis. Surge, sobretudo, da resistência dos mais ricos à qualquer tipo de mudança estrutural.

Por mais “radicais” que tenham sido os discursos petistas nas décadas de 1980-1990, eles partiam de problemas concretos: desemprego, desigualdade, fome, etc. Teoricamente, o petismo se propunha a enfrentá-las. No entanto, não resolveram nenhum problema estrutural porque, desde Vargas, apostam principalmente na conciliação de classes, gerando um círculo vicioso que só deixa transparecer a própria “polarização”, propositalmente exagerada, de um lado ou de outro, e tendo suas origens escondidas e apagadas.

Certamente que a “polarização” necessita de dois lados para existir, porém, ela sempre tem maior peso e responsabilidade no polo mais forte; isto é, no lado da burguesia, da elite nacional e da oligarquia imperialista, que se esforçam por todos os meios desonestos e sabotadores para manter a hegemonia cultural, o poder e, consequentemente, os seus privilégios, contra atacando qualquer proposta ou discurso de mudança.

A história brasileira atesta que tanto Vargas quanto o PT sempre tentaram construir governos de “conciliação e união nacional”, incluindo um amplo leque de partidos, alguns até mesmo do campo da oposição mais desonesta e sabotadora. Vargas chegou ao ponto de abrigar membros da UDN em seu “governo democrático” (1950-1954) justificando-se com subterfúgios do tipo: “os meus compromissos com o povo superam os meus compromissos partidários”.

O petismo age tal e qual, praticamente repetindo a prática varguista. Basta ver o atual vice de Lula e a composição do petismo com União Brasil e PP, que só anunciaram a saída do governo em fins de 2025; além de unidades eleitorais com o PL em distintos municípios brasileiros. Enquanto Vargas e Lula esforçam-se por criar a “conciliação nacional”, evitando polarizações e tentando pacificar a governabilidade do país, são quase sempre as legendas de aluguel da burguesia e a cobertura “jornalística imparcial” que alimentam e incentivam sem dó nem piedade a polarização política. Ao contrário do varguismo e do petismo, estes setores nunca negociam o que pressentem que lhes é essencial.

Ao contrário!

As classes dominantes usam a mídia, a justiça, a tradição, a força policial e militar, além das ameaças e os terrorismos de estado, de desemprego, de desabastecimento de mercados, até as mentiras mais escandalosas, contando com a certeza da impunidade por todos estes crimes e justificando-se através de discursos “éticos” sobre “liberdade de expressão” e “democracia”.

Usam e abusam, também, da ingenuidade e da malícia do povo (ou de pelo menos, de grande parte dele), alimentando-as. Se aproveitam dos seus maus instintos e depois se vendem como os titãs da virtude, da “verdade”, da “liberdade” e da “democracia”. Para isso, contam com a amnésia do povo, que é seletiva e cultivada cuidadosamente pela grande mídia, pelas igrejas e pela estrutura oficial.

Portanto, quem condena a “polarização” do debate político do Brasil e não reconhece todos esses pequenos “detalhes”, só pode estar querendo esconder a origem e o combustível da própria polarização, apostando na sua eterna continuidade no cenário político nacional e continental, dado que essa situação beneficia infinitamente e garante a “justificativa” para todo o tipo de manobra e sabotagem política, institucional e militar para as classes dominantes.


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