sexta-feira, 15 de setembro de 2023
Quero ser um homem!
sexta-feira, 1 de setembro de 2023
Desdolarização, yuanização e os BRICS
> A Europa está sentindo um pouquinho o gosto do próprio veneno: por séculos colonizou outros continentes e obrigava seus povos a praticarem uma economia contra si mesmos. Hoje, com a guerra na Ucrânia e por pressão dos EUA, aplica sanções econômicas contra si própria, arruinando a sua indústria e diversos setores econômicos internos. Resta saber quem fará os EUA provar do próprio veneno?
> A desdolarização, cantada em versos e prosas pelos analistas pró-BRICS, e que tem, sem dúvidas, elementos progressistas, está começando a ficar mais clara: o dólar estadunidense será gradativamente substituído pelo yuan como moeda preferencial nas transações comerciais internacionais (inclusive há a possibilidade real de mediar relações comerciais entre Brasil e Argentina — por isso a investida dos EUA e da burguesia argentina na candidatura do delinquente Milei, que repetirá Bolsonaro).
> O mais preocupante é que os analistas pró-BRICS não enxergam nenhum problema na troca do dólar pelo yuan, o que continuarão defendendo não se tratar de modo algum de um "novo imperialismo multipolar". A partir daí, serão invocadas as "bulas papais" de "estratégias de transição", "táticas pontuais", e um longo etc.
> Lula, coitado, na cúpula de Johanesburgo tentou defender uma "moeda comum para os BRICS", na vã tentativa de manter a independência dos gigantes do bloco. A resposta será dada pela realidade, marcada pela inevitável dinâmica econômica dos gigantes, em especial da força gravitacional da economia chinesa, que suga tudo a sua volta como um buraco negro (e sem necessidade de intervenção militar).
terça-feira, 22 de agosto de 2023
Relacionamento aberto: entre a emancipação e o hedonismo
sábado, 5 de agosto de 2023
Os limites do poder
O senso comum das pessoas pensa, com certa razão, que o
poder pode solucionar todos os problemas da sociedade. Os marxistas e os
leninistas das mais distintas tendências lutam pelo poder, afirmando, também
com certa razão, que “fora do poder, tudo é ilusão”, o que corrobora com a
ideia geral do senso comum no âmbito da militância.
Se queremos
mudar a sociedade e, sobretudo, conservar essas mudanças, certamente teremos
que enfrentar o problema do poder. No
entanto, até para que possamos usá-lo da maneira mais eficaz e saudável
possível, evitando os erros e os vícios do passado, que ainda sobrevivem dentro
da inércia histórica, é importante refletir sobre sua natureza e seus limites.
Para o
comunista, cineasta e pensador italiano, Paolo Pasolini, "estar no poder significa dispor dos instrumentos do poder".
Correto. É por isso que a militância socialista luta pelo poder, cuja
finalidade é remodelar e reestruturar a sociedade de acordo com novos
princípios. Porém, não significa apenas dispor dos instrumentos do poder.
Significa, também, enfrentar os problemas
e os limites do poder, como, por exemplo, disciplinar a massa,
enfrentado-se com o seu senso comum mais atrasado e com a sua ausência de
interesse por seus deveres, uma vez que, ultimamente, só tem se lembrado de
exigir os direitos.
Muita gente,
dentro e fora da militância de esquerda, pensa que basta chegar ao poder para
que a mentalidade e as ações da massa se readequem espontaneamente e “se
resolvam por si mesma”, pelo simples fato do surgimento de um “novo poder” –
supostamente de caráter proletário. As experiências revolucionárias do século
XX não demonstraram isso. Grande parte dos militantes de esquerda insinua, de
uma forma ou outra, que pode existir um trabalho de base perfeito, ou a
construção de alianças que redundem numa tomada do poder que seja a expressão
acabada e universal dos desejos e anseios da massa — como se a massa não fosse
contraditória e repleta de problemas internos. Os métodos da “ditadura do
proletariado” precisam ponderar onde e quando atuar e intervir, pois a depender
de determinados métodos e ações pode dificultar o seu desenvolvimento ou até
mesmo jogá-la nos braços da burguesia, uma vez que a sua mentalidade alienada a
faz desejar, grande parte do tempo, o mesmo que a classe dominante.
As camadas
mais populares da massa também precisam amadurecer, demonstrando algum tipo de
vontade coerente e progressista, por menor que seja, aprendendo a se colocar no
lugar do governo para também desenvolver a capacidade de pensar dentro da
lógica dos "problemas de poder". Caso contrário, viveremos eternamente
como crianças dependentes, que são acostumadas a exigir sem ter em
contrapartida algum tipo de dever para com esse poder ou, no mínimo, para com a
sociedade.
Quando o
governo tem um caráter de classe — no caso, quando se tratam de governos burgueses
— há uma direção política e econômica bem nítida que termina segregando a
sociedade e contribuindo para a manutenção da pobreza, mesmo em meio a algum
tipo de fartura. No caso de um governo socialista, que pretende mudar o sistema
e fazer o oposto, cabe refletirmos sobre os limites do poder.
Os governos,
no geral, não agem no vazio. Escolhem sempre entre alternativas e, portanto, estão
submetidos a restrições que são decorrentes, muitas vezes, de escassez de
recursos, de valores sociais incompatíveis com certas escolhas, com interesses
de outros países e de grupos sociais, de flutuações do nível de atividade
econômica mundial, de mudança nos padrões de produção e de avanços
tecnológicos, dentre outros.
A ação de
governo (e de poder) consiste, essencialmente, em tomar decisões, em escolher
entre alternativas reais, e toda a
escolha inevitavelmente cria descontentamento. Mesmo entre a classe
trabalhadora, que em razão de inúmeras heranças da sociedade capitalista, pode
não entender tais escolhas e até mesmo se colocar politicamente contrários a um
possível governo revolucionário em distintas oportunidades. A simples repressão
a estes possíveis descontentamentos gera consequências desfavoráveis e danosas
— às vezes irreversíveis.
É necessário
educar a mente popular — o senso comum — sobre os problemas do poder. Tratá-lo
como mágico ou místico, capaz de resolver todos os problemas com uma varinha de
condão, é o que faz com que as pessoas sejam presas fáceis do rebaixado e
conveniente discurso político que reduz tudo à corrupção. É muito importante demonstrar
que os governos não agem no vazio, mas que existem condições e limites, mesmo
para os governos mais bem “equipados” e posicionados.
A postura
infantil só critica, exige tudo e desconsidera todos esses problemas. Ela não
pode criar uma massa com uma consciência realista, que seja base de apoio e
sustentação de uma profunda mudança social, como um governo socialista, por
exemplo. É muito importante levar tudo isso em consideração para podermos desenvolver
um novo trabalho político e social de base que seja correspondente aos limites reais
do poder, para que este não seja mais uma fonte de ilusões, nem de espera por “soluções
milagrosas”.
terça-feira, 11 de julho de 2023
Que tipo de mundo multipolar os BRICS podem criar?
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| Os BRICS ainda na época de Dilma Roussef, hoje presidente do seu banco oficial |
Os
profetas do mundo multipolar anunciam a aurora dos novos tempos com a mesma
intensidade que os economistas, ideólogos e jornalistas do velho mundo
hegemonista anglo-saxão tentam esconder os crimes e sabotagens do imperialismo
estadunidense, em decadência histórica.
Entre uns e outros, estamos nós,
simples trabalhadores, alguns com consciência de classe, outros milhares sem,
que tentam se situar num mar de disputas por vezes irracionais e falsas.
Tendemos a simpatizar com os BRICS
(bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) por serem
supostamente economias em desenvolvimento, antigas colônias da Europa, se
contrapondo ao mundo dominado pelo imperialismo anglo-saxão (dito “Ocidental”).
Certamente o mundo atual, dominado pelo
capitalismo estadunidense é desprezível por ser cruel, desigual, desumano e
violento; o que nos coloca a necessidade de superá-lo se queremos, de fato, um
mundo mais humanizado e melhor. Porém, a questão inevitável é: o que vem em seu
lugar? Rússia e China – as principais lideranças do bloco dos BRICS –, dada a
natureza dos seus governos, sempre minimizada ou mesmo glorificada pelos seus
apoiadores acríticos, podem conduzir o mundo para a multipolaridade? Se sim,
como? No que, precisamente, ela consiste?
Esta multipolaridade poderá substituir
com êxito a hegemonia estadunidense ou apenas criará uma outra “hegemonia
multipolar”, com uns poucos “polos” a mais e uma grande periferia com pequenas
elites econômicas dominantes de uma maioria de pessoas miseráveis? Isto é:
conseguirão criar um mundo melhor do que o existente ou apenas novas formas de
dominação, mais refinadas e sutis? Tal mundo multipolar conseguirá reintroduzir
valores humanos e socialistas na economia e na sociedade ou apenas modificarão e
refinarão as formas de capitalismo?
Os bilionários do Partido
Comunista chinês e a oligarquia russa dão as diretrizes do “mundo multipolar”
Ainda que como latino-americanos
tenhamos certa simpatia pela crise hegemônica dos EUA, a desdolarização e o fim
deste verdadeiro “império do caos”, uma vez que o seu “desenvolvimento” é
garantido pelo nosso subdesenvolvimento, a multipolaridade proposta por China e
Rússia é dúbia e possivelmente não nos reserve nada além de comércio
internacional em suposto pé de igualdade – o que é, no mínimo, questionável,
pois desde já a China tem interesse nas matérias-primas brasileiras,
latino-americanas e africanas. Dividirão eles seus segredos tecnológicos e
industriais com a periferia do sistema?
Os profetas do mundo multipolar (nomeadamente:
Elias Jabbour, Pepe Escobar, a TV 247 e intelectuais ligados ao PT e ao PCdoB),
ainda que denunciem corretamente muitos dos crimes do imperialismo
estadunidense e inglês, tornam-se ufanistas e, por isso, não podem deixar de
cometer exageros e equívocos. Até que ponto o “sul global” – tão judiado e
massacrado pelo imperialismo “atlanticista” – não é uma estratégia de sedução
por parte de governos com interesses geopolíticos bem definidos, como os que
possuem os “bilionários comunistas” do Partido Comunista chinês (PCC) e os
oligarcas russos? Como o “mundo multipolar” pode ser apresentado tendo apenas uma ou duas capitais, como Pequim e Moscou?
Pepe Escobar, talvez o mais destacado
destes “profetas”, explicou como chegar ao mundo multipolar nas conferências
promovidas pela TV 247 em sua visita ao Brasil: “vai depender da opinião
pública dos países dos BRICS estar empenhada em apoiar as decisões de suas
elites político-econômicas”. Então bastaria a população de cada um dos países do
bloco apoiar suas elites para garantir a chegada à nova ordem mundial, dentro
de uns 10 ou 15 anos. Tudo isso soa como um estranho conselho que serve
perfeitamente como apoio político aos “bilionários comunistas” da China e aos
oligarcas russos – isto é, suas respectivas burguesias muito bem disfarçadas de
“elites progressistas”, que lideram o processo que já está em curso.
Além disso, Pepe Escobar é enfático ao
dizer que o objetivo do PCC não tem como centro o desenvolvimento e os
interesses da classe trabalhadora chinesa, mas os da classe média. Mesmo admitindo
os vários motins quase diários de operários chineses contra suas péssimas
condições de trabalho, Pepe não se incomoda, nem se constrange com tais
objetivos, e ainda afirma que o governo de Xi Jinping visa conscientemente a
transformação da China em um “país de classe média” – no Brasil e nos EUA temos
uma noção bastante preocupante de como pensa e age esta classe. Então, o que
pode resultar deste mundo multipolar? Por que os profetas do mundo multipolar
não problematizam estas questões?
O ódio e o rechaço à ordem mundial
hegemonizada pelos EUA é compreensível, mas ela não pode, nem deve nos cegar.
Manter a lucidez é uma das condições para a consciência de classe e para a
construção de um mundo novo.
Os BRICS e a guerra da
Ucrânia
Parte da disputa entre o bloco liderado
pelo imperialismo estadunidense e os BRICS se dá na guerra da Ucrânia. Nela
Pepe Escobar sustentou em diversas oportunidades uma visão um tanto exagerada
das vitórias russas.
Não há nada a objetar em relação às
suas denúncias acerca dos crimes cometidos pelos EUA, OTAN e seu complexo
militar-industrial, que se utilizam da vida do povo ucraniano como moeda de troca,
enquanto fingem lágrimas de crocodilo por ele em frente às câmeras da grande
mídia internacional. Porém, há um flagrante exagero de “salvação do mundo” a
partir de uma suposta vitória russa por parte dele e de muitos setores da
esquerda. Para os trabalhadores do mundo – e para o povo ucraniano e russo em
particular – não há perspectiva alguma de futuro. A destruição será
devastadora, tanto material quanto emocional. Isso não significa desconsiderar
a importância da vitória da oligarquia
russa sobre o complexo militar-industrial dos EUA, mas aqui novamente não
podemos nos cegar.
Mesmo que o jornalismo praticado por
Pepe Escobar seja necessário e muito importante como contraponto fundamental à
mídia oficial comandada pelos EUA, há que se ter certos cuidados. Em suas lives na TV 247, durante mais de um ano, Pepe Escobar superestimou as vitórias russas e subestimou o estrago feito pelos
EUA no mercado de gás europeu, bem como na consciência da opinião pública
mundial. Os objetivos norte-americanos não são necessariamente ou
prioritariamente militares.
Mesmo que a vitória militar da Ucrânia
sobre a Rússia não aconteça – o que é o mais provável; e o próprio governo e o
complexo industrial-militar ianque sabem disso – vários objetivos geopolíticos
estratégicos imediatos foram atingidos pelos EUA (Pepe Escobar só agora, em
meados de junho de 2023, reconhece isso).
São eles:
1) Obrigar a Rússia a sair da toca e se
mostrar ao mundo, o que serve como base para a campanha midiática diária do
imperialismo estadunidense e inglês. Como se pode ver, o governo Biden está se
lixando para a vida do povo ucraniano. Se necessário for, manterá a guerra até
a destruição completa da Ucrânia ou até a última gota de sangue ucraniana para
obrigar que a Rússia “se mostre” (isto é, saia da defensiva e vá para a
ofensiva).
2) Sabotagem e destruição da crescente
hegemonia econômica russa sobre o setor energético da Europa, o que sabota
também mais ou menos diretamente a influência chinesa, que vinha em sua esteira.
Ainda que isso tenha sido compensado pelo ingresso no gigantesco mercado
interno chinês em substituição ao europeu.
3) O caos econômico, que é a
especialidade econômica do imperialismo norte-americano, polariza a geopolítica
e propicia condições para se selarem alianças políticas e militares. Força
países europeus a aumentaram o antagonismo com a Rússia, levando, em contrapartida,
a uma aproximação com os EUA. Quanto mais tempo a guerra durar, melhor para a
política de caos sustentada pelos EUA. Além disso, nos últimos dias o governo
Biden estreitou laços com a Índia, para inviabilizar ou, pelo menos, dificultar
a vida interna e o funcionamento dos BRICS. Sabe-se que China e Índia mantém
diversos pontos e zonas de conflito e os EUA buscam explorar isso, além de pequenas
e grandes provocações em relação à Taiwan.
***
Nas viagens internacionais do primeiro
semestre de 2023, Lula sofreu várias críticas por suas declarações sobre a
guerra da Ucrânia. Ele disse, corretamente, que os EUA e a União Europeia (UE)
não querem parar com o conflito; e que a Ucrânia era tão responsável pela
guerra quanto a Rússia.
Por ter pronunciado tais declarações,
singelas e óbvias para quem observa seriamente a guerra, sofreu uma enxurrada
de ataques de todos os lados: grande mídia, governos de outros países (todos
tendo grandes interesses na continuidade da guerra), diplomatas, “especialistas”,
etc. Ataques, em sua maioria, parciais, de gente interessada e financiada
direta ou indiretamente pelos EUA, pois desta guerra depende a sua atual
estratégia geopolítica. A enxurrada de ataques midiáticos piorou com a visita
do ministro das relações exteriores russo Sergei Lavrov à Brasília em abril de
2023.
A situação do Brasil frente
aos BRICS e o futuro do país no bloco
Nas questões de política internacional,
como a guerra da Ucrânia, Lula até chegou a ladrar como um cão de caça, mas
dada a estreitíssima margem de manobra que sobra para aqueles que pretendem
jogar o jogo das instituições democrático-burguesas (ditas “republicanas”),
logo viu-se com a coleira curta. A voz grossa e rouca foi ficando baixinha,
quase fininha e inaudível. Mudou a tônica, começando por condenar a “violação
da integridade territorial” da Ucrânia pela Rússia, o que também é uma
realidade, mas “esqueceu” de contrabalançar esta afirmação com a necessária
lembrança de que a Ucrânia é financiada e armada por OTAN-EUA-UE, cujo objetivo
central é provocar a Rússia – e este é o ponto
central da atual guerra. Desmascarar parcialmente e diplomaticamente não
contribui para o seu fim. Para de fato acelerar o seu fim é necessário
escancarar suas verdadeiras raízes e interesses. Foi com esse método que a 1ª
Guerra Mundial foi encerrada. Como sempre, para isso há que se ter coragem e
estar disposto a pagar um preço demasiado caro (preço este que o governo Lula
não quer pagar).
Em nenhum dos países que compõe os
BRICS há mais vulnerabilidade e possibilidade de se perder o poder do que no
Brasil (talvez na África do Sul, por ser tão semicolonial quanto o Brasil). A
continuidade do Brasil nos BRICS depende, essencialmente, dos governos de
orientação petista. Uma eventual eleição ou golpe de um governo neofascista ou da direita tradicional
tende a sabotar as ações do Brasil no bloco ou, então, a fazê-lo agir como
cavalo de Tróia, mesmo que parte da elite nacional ligada ao agronegócio esteja
interessadíssima em manter boas relações com a China.
Ainda que os governos petistas se
perpetuem por mais algumas gestões e o bloco aprofunde suas relações, inclusive
a partir da desdolarização, no Brasil não há uma perspectiva de desenvolvimento
econômico que não tenha o agronegócio como centro, o atendimento preferencial
dos interesses de suas respectivas classes médias nacionais e o consumismo predatório
como meta final.
Talvez a ascensão de China e Rússia
como futuras lideranças globais, ainda que mantenham um discurso de falsa
modéstia de “não quererem ser hegemônicas”, reflita um processo histórico inevitável
e irreversível. O problema, no entanto, é vender tal ideia como sendo resultado
de uma evolução “socialista” ou como uma grande novidade progressista, capaz de
humanizar o mundo atual e elevá-lo muito além do que é hoje o mundo
hegemonizado pelos EUA.
As tendências atuais e
futuras dos BRICS
Em essência, os BRICS não apresentam
nenhuma proposta multipolar que vá além de uma utilização do capitalismo
estatal, com suposta cooperação internacional baseado num suposto comércio
“ganha-ganha”, que não dá nenhuma garantia ou apresenta alguma tendência real
de se transformar em uma economia socialista, a não ser o fato de se apoiar no
desenvolvimento a partir do Estado e do suposto
controle de setores do mercado.
Hoje há uma grande unidade política entre
os governos de China e Rússia – secundados pelos demais membros dos BRICS –
porque estão enfrentando diretamente o poder ianque, mas ela se manterá uma vez
atingido o “mundo multipolar”? No momento em que o imperialismo estadunidense e
inglês for superado, as rusgas, contendas e disputas entre os bilionários
chineses e a oligarquia russa, da qual Putin é um dos principais expoentes,
tenderão a sair das sombras.
Mais ainda: poderão eles promover um
mundo sem guerras, mais humanizado, equânime e integrado, mantendo-se dentro
das regras do jogo capitalista (embora “multipolarizado”)? Frente à
desdolarização, as moedas serão também multipolares ou o rublo e o yuan aceitarão
dividir as preferências com outras pelas transações comerciais internacionais?
É isto que devemos nos perguntar sempre que ouvimos as profecias sobre os BRICS
e o seu “mundo multipolar” em nascimento. Evitar ilusões é o melhor meio de se
ingressar nele.
terça-feira, 13 de junho de 2023
Dogmatismo e omissões do movimento socialista em relação ao sexo e à religiosidade humana
Certa vez, o socialista inglês Perry Anderson escreveu:
“O socialismo não haveria de ‘resolver todos os problemas da raça humana’ – de fato, da trindade proposta por Trotski, de ‘fome, sexo e morte’, ele só poderia oferecer alívio para a primeira. Além da classe, os seres humanos ainda deveriam sofrer culpa e dor, e sentir o desconforto das restrições da civilização sobre impulsos instintivos” (in Perry Anderson, “Afinidades seletivas”, Boitempo Ed. 2002, São Paulo – página 153).
É engraçado e curioso que a militância
atual ainda professe que o socialismo seja capaz de resolver todos os problemas da raça humana, se
negando a perceber que sexo e morte (assuntos ligados à psique, emoções
irracionais e à religiosidade humana) são pontos determinantes no dia-a-dia de
todas as pessoas comuns – isto é, são assuntos importantíssimos e decisivos no
cotidiano da classe trabalhadora – aos quais, para sermos honestos, não há
resposta.
A burguesia, sua mídia, seus ideólogos
e religiosos certamente se aperceberam destas lacunas “esquecidas” pela
militância socialista. O fascismo clássico das décadas de 1930 e 1940, bem como
o neofascismo idealizado por Steve
Bannon e Donald Trump, se baseiam justamente nestes pontos negligenciados pela
“esquerda”, sempre muito ocupada em expor a importância exclusiva da
expropriação dos meios de produção como forma de solucionar automaticamente
todos os problemas da humanidade.
Muitas vezes uma questão subjetiva
torna-se determinante para intervir e modificar uma situação objetiva. Querer
apenas mudar os meios de produção da economia (situação objetiva) e ignorar ou
renegar questões como a influência do sexo, da psicologia de massas, do medo do
sofrimento e da morte, além da compreensão fundamental que o sentimento
religioso possui para a conduta cotidiana da classe trabalhadora (situações
subjetivas), significa repetir os erros da construção socialista do século XX –
o que só pode redundar, na melhor das hipóteses, numa triste reedição do stalinismo...
***
Ignorar a religiosidade humana,
tratando-a como mero delírio digno de ser desprezado, nos fecha para sentimentos antropológicos fundamentais
que movem o ser humano há milênios. Aqui, obviamente, nos referimos ao
sentimento do “numinoso” e não à exploração da fé popular e do medo individual
protagonizado pelas religiões organizadas.
O sentimento numinoso é um estado de
espírito absolutamente único da psique humana, que sente ou está consciente de
alguma coisa misteriosa, terrível, aterrorizadora e/ou sagrada. Ele está
relacionado também ao temor e à ira divina (seja de que espécie for – inclusive
a suposta “ira de uma natureza mística” ou de um “universo” que possui vontade
própria). É a consciência de que não somos nada e de que deus, o divino ou o “universo”
é tudo; é uma sensação de “certeza” acerca da eternidade. Tal sensação é quase
que exclusivamente sentida pela psique de pessoas espiritualizadas, sendo muito
difícil a sua descrição em palavras.
Existem inúmeras lacunas no
conhecimento humano. Como sabemos, a ciência não explica tudo; e nem teria
condições de fazê-lo, já que ela corresponde a um estágio específico da
evolução humana. Uma vez que não sabemos tudo, praticamente qualquer
experiência, fato ou objeto encerram algo de desconhecido. Assim, se falamos da
totalidade da experiência, o termo “totalidade” só pode referir-se à sua parte
consciente. E como não podemos dizer que nossa experiência abarca a totalidade
da realidade ou do objeto, é evidente que a totalidade absoluta necessariamente
deverá conter uma parte não experimentada ou conhecida.
O que supre provisoriamente as lacunas
deixadas pela ciência é a intuição e a imaginação. As religiões organizadas se
escondem e se constroem atrás deste sentimento numinoso e intuitivo. É também a
partir dela que cientistas como Albert Einstein e Fritjof Capra pretendem
construir novos modelos científicos. O menosprezo da intuição e da imaginação é
um empecilho para a continuidade do desenvolvimento da ciência. Em suas
notáveis obras, O Ponto de Mutação e
o Tao da Física, Capra explica
detalhadamente tais ideias. Já para Einstein,
“a imaginação é mais importante que o conhecimento”, uma vez que “o conhecimento é limitado, enquanto que a
imaginação abraça o mundo inteiro, estimulando o progresso” do conhecimento
e da ciência.
Nesse sentido, os mitos e as crenças, quando
observados com bastante cuidado e critério, ajudam a mente coletiva humana a
evoluir por caminhos inexplorados ou mesmo ignorados; isto é, ajudam a
desbravar, a partir da imaginação e intuição numinosa, as inevitáveis lacunas
deixadas pelo pensamento científico – para que posteriormente sejam criticadas,
reafirmadas ou superadas.
Por tudo isso, é muito importante
renovar o pensamento marxista através de uma prática teórica semelhante à
proposta por Capra nos livros citados.
***
O marxismo está marcado pelo “espírito
do século XIX” – em especial, pelo cientificismo positivista, que ignora ou
mesmo menospreza o sentimento religioso como coisa inútil, ao mesmo tempo em
que ele próprio sofre de influências religiosas e míticas ocultas. Há uma forte
presença religiosa e messiânica mitológica no marxismo, no geral, não admitida
pelos militantes socialistas – mas que preenche esta “necessidade” humana
dentro deles, mesmo que a maioria se declare ateísta.
Se observarmos os estudos
antropológicos acerca dos mitos antigos e modernos, de diferentes povos e
regiões, perceberemos uma influência anímica muito forte na cultura humana,
mesmo nas ditas “civilizadas” e “educadas cientificamente”. Até certo ponto
isto é natural, pois reflete milênios de crenças e ritos que não poderiam ser
extirpados do inconsciente coletivo e, tampouco, da mente dos ditos “gênios da
ciência humana”.
Os mitos de escatologia e cosmogonia,
de fim e recomeço de novas eras, estão visivelmente presentes no pensamento
marxista, como os “fins dos mundos antigos” para a cosmogonia de novos mundos:
isto é, o fim de uma humanidade, para o surgimento de uma nova humanidade, que
seria virtualmente perfeita. Um povo nativo asiático, por exemplo, acredita que
após o fim do mundo, surgirá uma nova humanidade, que viverá em condições
paradisíacas. Nessas condições não haveria mais enfermidades, nem velhice e nem
morte.
Qualquer semelhança com o “mundo novo”
e a “nova humanidade” perfeita (ou semi perfeita) que nascerá depois da
revolução socialista segundo a visão de muitos militantes não é mera
coincidência. Trata-se da espera por um mundo purificado de todo o mal, no qual
a história irá reencontrar sua consumação. Compreender isso não significa, de forma
alguma, abrir mão do projeto socialista de transformação social, mas apenas
olhá-lo com uma lente que lhe seja mais adequada, evitando exageros ufanistas,
permeados de heranças mitológicas.
A questão é que muitas tensões da
história, bem como as contradições da existência, são parte indissociável da
vida, da sociedade e da condição humana e, enquanto tal, podem ser
compreendidas e, talvez, minimizadas,
mas não podem ser completamente abolidas.
***
Até que ponto as teorias socialistas e
os militantes não esperam uma sociedade perfeita? Tipo um paraíso sobre a
terra?
Mesmo em uma sociedade socialista, poderemos
viver sem nenhum tipo de dor? Ou uma evolução humana que ocorra sem sofrimento?
Adolescentes e adultos poderão não se sentir sozinhos no seu lento e pavoroso
processo de individuação? Casais não mais sofrerão ao se separarem? Ou os
relacionamentos serão perfeitos e sem nenhum tipo de crise? As famílias viverão
numa eterna harmonia, sem conflitos? Tudo isso se alinhará automaticamente,
como que numa espécie de alinhamentos de astros, após a socialização dos meios
de produção, ou teremos de enfrentar tais desafios inescapavelmente?
A experiência russa, chinesa e cubana
demonstra que não se deu desta forma. As heranças psicológicas seguiram vivas e
atuantes. O socialismo e os socialistas querem acabar com as dores e os
sofrimentos decorrentes da miséria capitalista, mas até que ponto isso não se
confunde com acabar com toda a dor e o sofrimento humano (seja ele emocional,
psíquico ou espiritual)? Os diversos tipos de sofrimento humano não seguiriam
existindo como parte da tortuosa evolução humana?
A socialização dos meios de produção
pode diminuir “as dores do parto”, mas não pode erradica-las totalmente, porque
é através das escolhas que nos tornamos humanos e descobrimos o nosso senso
pessoal de significado. É preciso coragem para enfrentar diretamente os nossos
estados emocionais, entendê-los, para, assim, dialogar com eles. Nos atoleiros
da alma existem o significado e o chamado para a ampliação da consciência. Esta
tarefa, no mais das vezes, individual, não pode ser cumprida automaticamente
pela socialização dos meios de produção, nem por decretos governamentais. A
adoção do socialismo como regime social é um ato político e econômico
fundamental que ajuda a dar suporte para todos estes processos individuais, mas
naturalmente não pode resolver tudo. É a orientação educacional e a prática
social que podem transformar a sociedade numa grande escola, capaz de dar
suporte e apoio nesta inevitável luta emocional que se desencadeia dentro de
cada um de nós.
De qualquer forma, as coragens
individuais para enfrentar a si mesmo é algo muito subjetivo e, portanto, deve
ter um cuidado especial, cujo menosprezo por parte da esquerda em geral como
coisas “idealistas” custa um preço demasiado caro. Após a revolução, os seres
humanos continuarão morrendo e renascendo, seja biologicamente, psíquica ou
“espiritualmente” (entendido aqui como ciclos emocionais e de gerações). Neste
processo há uma dor inextinguível, pois a transformação e a evolução exigem um
sacrifício de dores emocionais, hormonais e, por vezes, traumáticas, que
demandam muita energia. O prazer é um contrabalanço a estes dores, mas não pode
ser usado como um antídoto pra tudo (tampouco o desenvolvimento das forças
produtivas, tecnológicas, pode resolver todos os problemas subjetivos, uma vez
que a natureza humana também desenvolve necessidades culturais praticamente
inesgotáveis sempre em mudança).
No amor, por exemplo, que é um campo
por excelência subjetivo e pessoal, existem muitas “receitas” do que se fazer,
do que é “certo” ou “errado”: “não seja possessivo”, “não seja tóxico”,
“respeite os limites”, etc. Mas o que geralmente se exige para o amor é
humanamente irreal. Seria quase um amor para deuses e semi deuses, não para
humanos; muito mais preocupados com o pró forma do que com a realidade concreta
de cada pessoa.
Sem querer fazer apologia à condutas
equivocadas, brutais, violentas ou omissas (machistas, em essência), que muitas
vezes são ocasionadas pelo desespero e sofrimento, bem como pela inexistente
educação emocional e sexual, os seres humanos são totalmente falíveis e
produzem inevitavelmente dor.
O mesmo se passa em outros campos
sociais, intelectuais e emocionais da vida diária humana. O debate sobre a psicologia de massas e os desconfortos
das restrições da civilização sobre impulsos instintivos ainda precisará ser
muito debatido e refletido pelo movimento socialista, para muito além das
questões técnicas e econômicas (objetivas). O primeiro passo é reconhecê-las
como importantes para, em seguida debatê-las, honesta e fraternalmente.
sexta-feira, 5 de maio de 2023
Os Estados nacionais subordinados às big techs
terça-feira, 25 de abril de 2023
Para onde estão nos levando os valores sociais e educacionais do capitalismo?
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| A entrada da escola, em Santa Catarina, após o comunicado sobre os atentados |
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