sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Quero ser um homem!

 

Quero ser um Homem!
Não basta aprender a se limpar
É necessário poder se encarar no espelho
e saber que se fez o melhor que pôde
A separação da mãe, da outra, do outro
existe e não há o que possa ser feito para impedir
senão entender, chorar, cair e se levantar
A vida exige!
E o verdadeiro Homem atende.
Entende.
Quero ser um Homem
Que encare, limpe e cure as próprias feridas, sem precisar machucar ninguém
Que seja sensível e forte
Forte e sensível
Que saiba acolher o seu feminino
e amar o feminino como um Homem
Quero ser um Homem
Que diante da solidão profunda
não trema, nem recue
Como se intimidasse sozinho
um exército de 100.000 homens
Que seja capaz de tirar dela
tudo o que há para se tirar, aprender, evoluir
Que diante da traição
não esmoreça, nem desanime
siga com a cabeça erguida
o peito aberto
e o coração estreleiro
Que chore o que for necessário
mas saiba se levantar
mesmo diante da pior queda
da pior depressão
do pior cenário cinzento
E grite:
"Eu estou aqui, diacho, firme e forte,
vivo e pulsante!"
Que a força e a sensibilidade não me abandonem
e se redobrem
para que eu possa olhar no espelho
e nos olhos dos outros homens e mulheres que me cercam
e dizer:
"eu sou um Homem"
"um homem corajoso e honrado"
"eu sobrevivi à noite arcaica".

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Desdolarização, yuanização e os BRICS

> A Europa está sentindo um pouquinho o gosto do próprio veneno: por séculos colonizou outros continentes e obrigava seus povos a praticarem uma economia contra si mesmos. Hoje, com a guerra na Ucrânia e por pressão dos EUA, aplica sanções econômicas contra si própria, arruinando a sua indústria e diversos setores econômicos internos. Resta saber quem fará os EUA provar do próprio veneno?

> A desdolarização, cantada em versos e prosas pelos analistas pró-BRICS, e que tem, sem dúvidas, elementos progressistas, está começando a ficar mais clara: o dólar estadunidense será gradativamente substituído pelo yuan como moeda preferencial nas transações comerciais internacionais (inclusive há a possibilidade real de mediar relações comerciais entre Brasil e Argentina — por isso a investida dos EUA e da burguesia argentina na candidatura do delinquente Milei, que repetirá Bolsonaro).

> O mais preocupante é que os analistas pró-BRICS não enxergam nenhum problema na troca do dólar pelo yuan, o que continuarão defendendo não se tratar de modo algum de um "novo imperialismo multipolar". A partir daí, serão invocadas as "bulas papais" de "estratégias de transição", "táticas pontuais", e um longo etc.

> Lula, coitado, na cúpula de Johanesburgo tentou defender uma "moeda comum para os BRICS", na vã tentativa de manter a independência dos gigantes do bloco. A resposta será dada pela realidade, marcada pela inevitável dinâmica econômica dos gigantes, em especial da força gravitacional da economia chinesa, que suga tudo a sua volta como um buraco negro (e sem necessidade de intervenção militar).

terça-feira, 22 de agosto de 2023

Relacionamento aberto: entre a emancipação e o hedonismo

 

Os tempos atuais trazem uma imensa gama de "novidades emancipatórias".
O questionamento do casamento no seu atual formato monogâmico talvez seja uma das mais destacadas.
Na internet e nos livros existem tantas receitas, orientações, "lacrações", ordens, palavra de ordens, ideologias, mantras e tantras do que deve ser feito para se evoluir, crescer, "entender a vida", "parar de sofrer", "dissolver o eu", que seria até engraçado (com um olhar de bom-humor) se não fosse um pouco trágico.
A enxurrada dessas "receitas" e orientações gera também o caos e pode bem servir para confundir, piorando a sensação de desespero e desamparo.
***
Na questão do casamento não monogâmico, isto é, do "relacionamento aberto" (dentre outros assuntos), podemos citar a famosa máxima de Gramsci: "a crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Neste interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem".
Cita-se especificamente o caso do "relacionamento aberto" porque é um dos elementos importantes da composição de uma nova sociedade, evitando julgamentos destrutivos e trabalhando para a superação da moral atual. O fato de muitas pessoas (e, principalmente, muitos militantes) propagarem e supostamente já praticarem o "relacionamento aberto" não significa que estejam necessariamente construindo uma nova forma de relacionamento "socialista", revolucionária ou, simplesmente, novas formas mais saudáveis de se relacionar.
Tudo tem que ser examinado com muito cuidado e critério, principalmente no trato entre si e no grau de autonomia emocional e real que desenvolve nas pessoas envolvidas.
Em muitos casos ocorre a infiltração de pensamentos, sentimentos e utilitarismos burgueses, dado que vivemos no capitalismo em decomposição selvagem e bárbara. Se não temos o "novo nascido" — ou sequer em vias de nascimento visível —, muito provavelmente esta modalidade de relacionamento pode ser infiltrada por motivações narcisistas, hedonistas e utilitaristas; muitas vezes se escondendo atrás de justificativas "modernas", "progressistas", "socialistas", "marxistas".
Não há relacionamento aberto possível sem se preocupar com o outro; sem ser sensível com suas demandas e tempos; sem paciência e, sobretudo, sem que o entorno, a sociedade, a moral, o julgamento alheio, estejam se modificando para melhor (por menor que seja o passo adiante).
É necessário, sobretudo, a autorreflexão, auto reconhecimento e maturidade — artigos raros, em especial, a última, uma vez que a sociedade capitalista, suas instituições, mídias e religiões organizadas, infantilizam as massas de seres humanos, injetando-lhe incontáveis doses diárias de hedonismo e narcisismo egocêntrico, como forma de dominação e submissão.

sábado, 5 de agosto de 2023

Os limites do poder


Quando morreu a consciência do povo
falou-se em autoridade do governo
e lealdade dos cidadãos
(Lao Tsé)

            O senso comum das pessoas pensa, com certa razão, que o poder pode solucionar todos os problemas da sociedade. Os marxistas e os leninistas das mais distintas tendências lutam pelo poder, afirmando, também com certa razão, que “fora do poder, tudo é ilusão”, o que corrobora com a ideia geral do senso comum no âmbito da militância.

         Se queremos mudar a sociedade e, sobretudo, conservar essas mudanças, certamente teremos que enfrentar o problema do poder. No entanto, até para que possamos usá-lo da maneira mais eficaz e saudável possível, evitando os erros e os vícios do passado, que ainda sobrevivem dentro da inércia histórica, é importante refletir sobre sua natureza e seus limites.

         Para o comunista, cineasta e pensador italiano, Paolo Pasolini, "estar no poder significa dispor dos instrumentos do poder". Correto. É por isso que a militância socialista luta pelo poder, cuja finalidade é remodelar e reestruturar a sociedade de acordo com novos princípios. Porém, não significa apenas dispor dos instrumentos do poder. Significa, também, enfrentar os problemas e os limites do poder, como, por exemplo, disciplinar a massa, enfrentado-se com o seu senso comum mais atrasado e com a sua ausência de interesse por seus deveres, uma vez que, ultimamente, só tem se lembrado de exigir os direitos.

         Muita gente, dentro e fora da militância de esquerda, pensa que basta chegar ao poder para que a mentalidade e as ações da massa se readequem espontaneamente e “se resolvam por si mesma”, pelo simples fato do surgimento de um “novo poder” – supostamente de caráter proletário. As experiências revolucionárias do século XX não demonstraram isso. Grande parte dos militantes de esquerda insinua, de uma forma ou outra, que pode existir um trabalho de base perfeito, ou a construção de alianças que redundem numa tomada do poder que seja a expressão acabada e universal dos desejos e anseios da massa — como se a massa não fosse contraditória e repleta de problemas internos. Os métodos da “ditadura do proletariado” precisam ponderar onde e quando atuar e intervir, pois a depender de determinados métodos e ações pode dificultar o seu desenvolvimento ou até mesmo jogá-la nos braços da burguesia, uma vez que a sua mentalidade alienada a faz desejar, grande parte do tempo, o mesmo que a classe dominante.

         As camadas mais populares da massa também precisam amadurecer, demonstrando algum tipo de vontade coerente e progressista, por menor que seja, aprendendo a se colocar no lugar do governo para também desenvolver a capacidade de pensar dentro da lógica dos "problemas de poder". Caso contrário, viveremos eternamente como crianças dependentes, que são acostumadas a exigir sem ter em contrapartida algum tipo de dever para com esse poder ou, no mínimo, para com a sociedade.

         Quando o governo tem um caráter de classe — no caso, quando se tratam de governos burgueses — há uma direção política e econômica bem nítida que termina segregando a sociedade e contribuindo para a manutenção da pobreza, mesmo em meio a algum tipo de fartura. No caso de um governo socialista, que pretende mudar o sistema e fazer o oposto, cabe refletirmos sobre os limites do poder.

         Os governos, no geral, não agem no vazio. Escolhem sempre entre alternativas e, portanto, estão submetidos a restrições que são decorrentes, muitas vezes, de escassez de recursos, de valores sociais incompatíveis com certas escolhas, com interesses de outros países e de grupos sociais, de flutuações do nível de atividade econômica mundial, de mudança nos padrões de produção e de avanços tecnológicos, dentre outros.

         A ação de governo (e de poder) consiste, essencialmente, em tomar decisões, em escolher entre alternativas reais, e toda a escolha inevitavelmente cria descontentamento. Mesmo entre a classe trabalhadora, que em razão de inúmeras heranças da sociedade capitalista, pode não entender tais escolhas e até mesmo se colocar politicamente contrários a um possível governo revolucionário em distintas oportunidades. A simples repressão a estes possíveis descontentamentos gera consequências desfavoráveis e danosas — às vezes irreversíveis.

         É necessário educar a mente popular — o senso comum — sobre os problemas do poder. Tratá-lo como mágico ou místico, capaz de resolver todos os problemas com uma varinha de condão, é o que faz com que as pessoas sejam presas fáceis do rebaixado e conveniente discurso político que reduz tudo à corrupção. É muito importante demonstrar que os governos não agem no vazio, mas que existem condições e limites, mesmo para os governos mais bem “equipados” e posicionados.

         A postura infantil só critica, exige tudo e desconsidera todos esses problemas. Ela não pode criar uma massa com uma consciência realista, que seja base de apoio e sustentação de uma profunda mudança social, como um governo socialista, por exemplo. É muito importante levar tudo isso em consideração para podermos desenvolver um novo trabalho político e social de base que seja correspondente aos limites reais do poder, para que este não seja mais uma fonte de ilusões, nem de espera por “soluções milagrosas”.


terça-feira, 11 de julho de 2023

Que tipo de mundo multipolar os BRICS podem criar?

Os BRICS ainda na época de Dilma Roussef, hoje presidente do seu banco oficial

 

Os profetas do mundo multipolar anunciam a aurora dos novos tempos com a mesma intensidade que os economistas, ideólogos e jornalistas do velho mundo hegemonista anglo-saxão tentam esconder os crimes e sabotagens do imperialismo estadunidense, em decadência histórica.

         Entre uns e outros, estamos nós, simples trabalhadores, alguns com consciência de classe, outros milhares sem, que tentam se situar num mar de disputas por vezes irracionais e falsas.

         Tendemos a simpatizar com os BRICS (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) por serem supostamente economias em desenvolvimento, antigas colônias da Europa, se contrapondo ao mundo dominado pelo imperialismo anglo-saxão (dito “Ocidental”).

         Certamente o mundo atual, dominado pelo capitalismo estadunidense é desprezível por ser cruel, desigual, desumano e violento; o que nos coloca a necessidade de superá-lo se queremos, de fato, um mundo mais humanizado e melhor. Porém, a questão inevitável é: o que vem em seu lugar? Rússia e China – as principais lideranças do bloco dos BRICS –, dada a natureza dos seus governos, sempre minimizada ou mesmo glorificada pelos seus apoiadores acríticos, podem conduzir o mundo para a multipolaridade? Se sim, como? No que, precisamente, ela consiste?

         Esta multipolaridade poderá substituir com êxito a hegemonia estadunidense ou apenas criará uma outra “hegemonia multipolar”, com uns poucos “polos” a mais e uma grande periferia com pequenas elites econômicas dominantes de uma maioria de pessoas miseráveis? Isto é: conseguirão criar um mundo melhor do que o existente ou apenas novas formas de dominação, mais refinadas e sutis? Tal mundo multipolar conseguirá reintroduzir valores humanos e socialistas na economia e na sociedade ou apenas modificarão e refinarão as formas de capitalismo?

        

Os bilionários do Partido Comunista chinês e a oligarquia russa dão as diretrizes do “mundo multipolar”

         Ainda que como latino-americanos tenhamos certa simpatia pela crise hegemônica dos EUA, a desdolarização e o fim deste verdadeiro “império do caos”, uma vez que o seu “desenvolvimento” é garantido pelo nosso subdesenvolvimento, a multipolaridade proposta por China e Rússia é dúbia e possivelmente não nos reserve nada além de comércio internacional em suposto pé de igualdade – o que é, no mínimo, questionável, pois desde já a China tem interesse nas matérias-primas brasileiras, latino-americanas e africanas. Dividirão eles seus segredos tecnológicos e industriais com a periferia do sistema?

         Os profetas do mundo multipolar (nomeadamente: Elias Jabbour, Pepe Escobar, a TV 247 e intelectuais ligados ao PT e ao PCdoB), ainda que denunciem corretamente muitos dos crimes do imperialismo estadunidense e inglês, tornam-se ufanistas e, por isso, não podem deixar de cometer exageros e equívocos. Até que ponto o “sul global” – tão judiado e massacrado pelo imperialismo “atlanticista” – não é uma estratégia de sedução por parte de governos com interesses geopolíticos bem definidos, como os que possuem os “bilionários comunistas” do Partido Comunista chinês (PCC) e os oligarcas russos? Como o “mundo multipolar” pode ser apresentado tendo apenas uma ou duas capitais, como Pequim e Moscou?

         Pepe Escobar, talvez o mais destacado destes “profetas”, explicou como chegar ao mundo multipolar nas conferências promovidas pela TV 247 em sua visita ao Brasil: “vai depender da opinião pública dos países dos BRICS estar empenhada em apoiar as decisões de suas elites político-econômicas”. Então bastaria a população de cada um dos países do bloco apoiar suas elites para garantir a chegada à nova ordem mundial, dentro de uns 10 ou 15 anos. Tudo isso soa como um estranho conselho que serve perfeitamente como apoio político aos “bilionários comunistas” da China e aos oligarcas russos – isto é, suas respectivas burguesias muito bem disfarçadas de “elites progressistas”, que lideram o processo que já está em curso.

         Além disso, Pepe Escobar é enfático ao dizer que o objetivo do PCC não tem como centro o desenvolvimento e os interesses da classe trabalhadora chinesa, mas os da classe média. Mesmo admitindo os vários motins quase diários de operários chineses contra suas péssimas condições de trabalho, Pepe não se incomoda, nem se constrange com tais objetivos, e ainda afirma que o governo de Xi Jinping visa conscientemente a transformação da China em um “país de classe média” – no Brasil e nos EUA temos uma noção bastante preocupante de como pensa e age esta classe. Então, o que pode resultar deste mundo multipolar? Por que os profetas do mundo multipolar não problematizam estas questões?

         O ódio e o rechaço à ordem mundial hegemonizada pelos EUA é compreensível, mas ela não pode, nem deve nos cegar. Manter a lucidez é uma das condições para a consciência de classe e para a construção de um mundo novo.

 

Os BRICS e a guerra da Ucrânia

         Parte da disputa entre o bloco liderado pelo imperialismo estadunidense e os BRICS se dá na guerra da Ucrânia. Nela Pepe Escobar sustentou em diversas oportunidades uma visão um tanto exagerada das vitórias russas.

         Não há nada a objetar em relação às suas denúncias acerca dos crimes cometidos pelos EUA, OTAN e seu complexo militar-industrial, que se utilizam da vida do povo ucraniano como moeda de troca, enquanto fingem lágrimas de crocodilo por ele em frente às câmeras da grande mídia internacional. Porém, há um flagrante exagero de “salvação do mundo” a partir de uma suposta vitória russa por parte dele e de muitos setores da esquerda. Para os trabalhadores do mundo – e para o povo ucraniano e russo em particular – não há perspectiva alguma de futuro. A destruição será devastadora, tanto material quanto emocional. Isso não significa desconsiderar a importância da vitória da oligarquia russa sobre o complexo militar-industrial dos EUA, mas aqui novamente não podemos nos cegar.

         Mesmo que o jornalismo praticado por Pepe Escobar seja necessário e muito importante como contraponto fundamental à mídia oficial comandada pelos EUA, há que se ter certos cuidados. Em suas lives na TV 247, durante mais de um ano, Pepe Escobar superestimou as vitórias russas e subestimou o estrago feito pelos EUA no mercado de gás europeu, bem como na consciência da opinião pública mundial. Os objetivos norte-americanos não são necessariamente ou prioritariamente militares.

         Mesmo que a vitória militar da Ucrânia sobre a Rússia não aconteça – o que é o mais provável; e o próprio governo e o complexo industrial-militar ianque sabem disso – vários objetivos geopolíticos estratégicos imediatos foram atingidos pelos EUA (Pepe Escobar só agora, em meados de junho de 2023, reconhece isso).

         São eles:

         1) Obrigar a Rússia a sair da toca e se mostrar ao mundo, o que serve como base para a campanha midiática diária do imperialismo estadunidense e inglês. Como se pode ver, o governo Biden está se lixando para a vida do povo ucraniano. Se necessário for, manterá a guerra até a destruição completa da Ucrânia ou até a última gota de sangue ucraniana para obrigar que a Rússia “se mostre” (isto é, saia da defensiva e vá para a ofensiva).

         2) Sabotagem e destruição da crescente hegemonia econômica russa sobre o setor energético da Europa, o que sabota também mais ou menos diretamente a influência chinesa, que vinha em sua esteira. Ainda que isso tenha sido compensado pelo ingresso no gigantesco mercado interno chinês em substituição ao europeu.

         3) O caos econômico, que é a especialidade econômica do imperialismo norte-americano, polariza a geopolítica e propicia condições para se selarem alianças políticas e militares. Força países europeus a aumentaram o antagonismo com a Rússia, levando, em contrapartida, a uma aproximação com os EUA. Quanto mais tempo a guerra durar, melhor para a política de caos sustentada pelos EUA. Além disso, nos últimos dias o governo Biden estreitou laços com a Índia, para inviabilizar ou, pelo menos, dificultar a vida interna e o funcionamento dos BRICS. Sabe-se que China e Índia mantém diversos pontos e zonas de conflito e os EUA buscam explorar isso, além de pequenas e grandes provocações em relação à Taiwan.

***

         Nas viagens internacionais do primeiro semestre de 2023, Lula sofreu várias críticas por suas declarações sobre a guerra da Ucrânia. Ele disse, corretamente, que os EUA e a União Europeia (UE) não querem parar com o conflito; e que a Ucrânia era tão responsável pela guerra quanto a Rússia.

         Por ter pronunciado tais declarações, singelas e óbvias para quem observa seriamente a guerra, sofreu uma enxurrada de ataques de todos os lados: grande mídia, governos de outros países (todos tendo grandes interesses na continuidade da guerra), diplomatas, “especialistas”, etc. Ataques, em sua maioria, parciais, de gente interessada e financiada direta ou indiretamente pelos EUA, pois desta guerra depende a sua atual estratégia geopolítica. A enxurrada de ataques midiáticos piorou com a visita do ministro das relações exteriores russo Sergei Lavrov à Brasília em abril de 2023.

 

A situação do Brasil frente aos BRICS e o futuro do país no bloco

         Nas questões de política internacional, como a guerra da Ucrânia, Lula até chegou a ladrar como um cão de caça, mas dada a estreitíssima margem de manobra que sobra para aqueles que pretendem jogar o jogo das instituições democrático-burguesas (ditas “republicanas”), logo viu-se com a coleira curta. A voz grossa e rouca foi ficando baixinha, quase fininha e inaudível. Mudou a tônica, começando por condenar a “violação da integridade territorial” da Ucrânia pela Rússia, o que também é uma realidade, mas “esqueceu” de contrabalançar esta afirmação com a necessária lembrança de que a Ucrânia é financiada e armada por OTAN-EUA-UE, cujo objetivo central é provocar a Rússia – e este é o ponto central da atual guerra. Desmascarar parcialmente e diplomaticamente não contribui para o seu fim. Para de fato acelerar o seu fim é necessário escancarar suas verdadeiras raízes e interesses. Foi com esse método que a 1ª Guerra Mundial foi encerrada. Como sempre, para isso há que se ter coragem e estar disposto a pagar um preço demasiado caro (preço este que o governo Lula não quer pagar).

         Em nenhum dos países que compõe os BRICS há mais vulnerabilidade e possibilidade de se perder o poder do que no Brasil (talvez na África do Sul, por ser tão semicolonial quanto o Brasil). A continuidade do Brasil nos BRICS depende, essencialmente, dos governos de orientação petista. Uma eventual eleição ou golpe de um governo neofascista ou da direita tradicional tende a sabotar as ações do Brasil no bloco ou, então, a fazê-lo agir como cavalo de Tróia, mesmo que parte da elite nacional ligada ao agronegócio esteja interessadíssima em manter boas relações com a China.

         Ainda que os governos petistas se perpetuem por mais algumas gestões e o bloco aprofunde suas relações, inclusive a partir da desdolarização, no Brasil não há uma perspectiva de desenvolvimento econômico que não tenha o agronegócio como centro, o atendimento preferencial dos interesses de suas respectivas classes médias nacionais e o consumismo predatório como meta final.

         Talvez a ascensão de China e Rússia como futuras lideranças globais, ainda que mantenham um discurso de falsa modéstia de “não quererem ser hegemônicas”, reflita um processo histórico inevitável e irreversível. O problema, no entanto, é vender tal ideia como sendo resultado de uma evolução “socialista” ou como uma grande novidade progressista, capaz de humanizar o mundo atual e elevá-lo muito além do que é hoje o mundo hegemonizado pelos EUA.

 

As tendências atuais e futuras dos BRICS

         Em essência, os BRICS não apresentam nenhuma proposta multipolar que vá além de uma utilização do capitalismo estatal, com suposta cooperação internacional baseado num suposto comércio “ganha-ganha”, que não dá nenhuma garantia ou apresenta alguma tendência real de se transformar em uma economia socialista, a não ser o fato de se apoiar no desenvolvimento a partir do Estado e do suposto controle de setores do mercado.

         Hoje há uma grande unidade política entre os governos de China e Rússia – secundados pelos demais membros dos BRICS – porque estão enfrentando diretamente o poder ianque, mas ela se manterá uma vez atingido o “mundo multipolar”? No momento em que o imperialismo estadunidense e inglês for superado, as rusgas, contendas e disputas entre os bilionários chineses e a oligarquia russa, da qual Putin é um dos principais expoentes, tenderão a sair das sombras.

         Mais ainda: poderão eles promover um mundo sem guerras, mais humanizado, equânime e integrado, mantendo-se dentro das regras do jogo capitalista (embora “multipolarizado”)? Frente à desdolarização, as moedas serão também multipolares ou o rublo e o yuan aceitarão dividir as preferências com outras pelas transações comerciais internacionais? É isto que devemos nos perguntar sempre que ouvimos as profecias sobre os BRICS e o seu “mundo multipolar” em nascimento. Evitar ilusões é o melhor meio de se ingressar nele.


terça-feira, 13 de junho de 2023

Dogmatismo e omissões do movimento socialista em relação ao sexo e à religiosidade humana

 

Certa vez, o socialista inglês Perry Anderson escreveu:

         “O socialismo não haveria de ‘resolver todos os problemas da raça humana’ – de fato, da trindade proposta por Trotski, de ‘fome, sexo e morte’, ele só poderia oferecer alívio para a primeira. Além da classe, os seres humanos ainda deveriam sofrer culpa e dor, e sentir o desconforto das restrições da civilização sobre impulsos instintivos” (in Perry Anderson, “Afinidades seletivas”, Boitempo Ed. 2002, São Paulo – página 153).

         É engraçado e curioso que a militância atual ainda professe que o socialismo seja capaz de resolver todos os problemas da raça humana, se negando a perceber que sexo e morte (assuntos ligados à psique, emoções irracionais e à religiosidade humana) são pontos determinantes no dia-a-dia de todas as pessoas comuns – isto é, são assuntos importantíssimos e decisivos no cotidiano da classe trabalhadora – aos quais, para sermos honestos, não há resposta.

         A burguesia, sua mídia, seus ideólogos e religiosos certamente se aperceberam destas lacunas “esquecidas” pela militância socialista. O fascismo clássico das décadas de 1930 e 1940, bem como o neofascismo idealizado por Steve Bannon e Donald Trump, se baseiam justamente nestes pontos negligenciados pela “esquerda”, sempre muito ocupada em expor a importância exclusiva da expropriação dos meios de produção como forma de solucionar automaticamente todos os problemas da humanidade.

         Muitas vezes uma questão subjetiva torna-se determinante para intervir e modificar uma situação objetiva. Querer apenas mudar os meios de produção da economia (situação objetiva) e ignorar ou renegar questões como a influência do sexo, da psicologia de massas, do medo do sofrimento e da morte, além da compreensão fundamental que o sentimento religioso possui para a conduta cotidiana da classe trabalhadora (situações subjetivas), significa repetir os erros da construção socialista do século XX – o que só pode redundar, na melhor das hipóteses, numa triste reedição do stalinismo...

***

         Ignorar a religiosidade humana, tratando-a como mero delírio digno de ser desprezado, nos fecha para sentimentos antropológicos fundamentais que movem o ser humano há milênios. Aqui, obviamente, nos referimos ao sentimento do “numinoso” e não à exploração da fé popular e do medo individual protagonizado pelas religiões organizadas.

         O sentimento numinoso é um estado de espírito absolutamente único da psique humana, que sente ou está consciente de alguma coisa misteriosa, terrível, aterrorizadora e/ou sagrada. Ele está relacionado também ao temor e à ira divina (seja de que espécie for – inclusive a suposta “ira de uma natureza mística” ou de um “universo” que possui vontade própria). É a consciência de que não somos nada e de que deus, o divino ou o “universo” é tudo; é uma sensação de “certeza” acerca da eternidade. Tal sensação é quase que exclusivamente sentida pela psique de pessoas espiritualizadas, sendo muito difícil a sua descrição em palavras.

         Existem inúmeras lacunas no conhecimento humano. Como sabemos, a ciência não explica tudo; e nem teria condições de fazê-lo, já que ela corresponde a um estágio específico da evolução humana. Uma vez que não sabemos tudo, praticamente qualquer experiência, fato ou objeto encerram algo de desconhecido. Assim, se falamos da totalidade da experiência, o termo “totalidade” só pode referir-se à sua parte consciente. E como não podemos dizer que nossa experiência abarca a totalidade da realidade ou do objeto, é evidente que a totalidade absoluta necessariamente deverá conter uma parte não experimentada ou conhecida.

         O que supre provisoriamente as lacunas deixadas pela ciência é a intuição e a imaginação. As religiões organizadas se escondem e se constroem atrás deste sentimento numinoso e intuitivo. É também a partir dela que cientistas como Albert Einstein e Fritjof Capra pretendem construir novos modelos científicos. O menosprezo da intuição e da imaginação é um empecilho para a continuidade do desenvolvimento da ciência. Em suas notáveis obras, O Ponto de Mutação e o Tao da Física, Capra explica detalhadamente tais ideias. Já para Einstein, “a imaginação é mais importante que o conhecimento”, uma vez que “o conhecimento é limitado, enquanto que a imaginação abraça o mundo inteiro, estimulando o progresso” do conhecimento e da ciência.

         Nesse sentido, os mitos e as crenças, quando observados com bastante cuidado e critério, ajudam a mente coletiva humana a evoluir por caminhos inexplorados ou mesmo ignorados; isto é, ajudam a desbravar, a partir da imaginação e intuição numinosa, as inevitáveis lacunas deixadas pelo pensamento científico – para que posteriormente sejam criticadas, reafirmadas ou superadas.

         Por tudo isso, é muito importante renovar o pensamento marxista através de uma prática teórica semelhante à proposta por Capra nos livros citados.

***

         O marxismo está marcado pelo “espírito do século XIX” – em especial, pelo cientificismo positivista, que ignora ou mesmo menospreza o sentimento religioso como coisa inútil, ao mesmo tempo em que ele próprio sofre de influências religiosas e míticas ocultas. Há uma forte presença religiosa e messiânica mitológica no marxismo, no geral, não admitida pelos militantes socialistas – mas que preenche esta “necessidade” humana dentro deles, mesmo que a maioria se declare ateísta.

         Se observarmos os estudos antropológicos acerca dos mitos antigos e modernos, de diferentes povos e regiões, perceberemos uma influência anímica muito forte na cultura humana, mesmo nas ditas “civilizadas” e “educadas cientificamente”. Até certo ponto isto é natural, pois reflete milênios de crenças e ritos que não poderiam ser extirpados do inconsciente coletivo e, tampouco, da mente dos ditos “gênios da ciência humana”.

         Os mitos de escatologia e cosmogonia, de fim e recomeço de novas eras, estão visivelmente presentes no pensamento marxista, como os “fins dos mundos antigos” para a cosmogonia de novos mundos: isto é, o fim de uma humanidade, para o surgimento de uma nova humanidade, que seria virtualmente perfeita. Um povo nativo asiático, por exemplo, acredita que após o fim do mundo, surgirá uma nova humanidade, que viverá em condições paradisíacas. Nessas condições não haveria mais enfermidades, nem velhice e nem morte.

         Qualquer semelhança com o “mundo novo” e a “nova humanidade” perfeita (ou semi perfeita) que nascerá depois da revolução socialista segundo a visão de muitos militantes não é mera coincidência. Trata-se da espera por um mundo purificado de todo o mal, no qual a história irá reencontrar sua consumação. Compreender isso não significa, de forma alguma, abrir mão do projeto socialista de transformação social, mas apenas olhá-lo com uma lente que lhe seja mais adequada, evitando exageros ufanistas, permeados de heranças mitológicas.

         A questão é que muitas tensões da história, bem como as contradições da existência, são parte indissociável da vida, da sociedade e da condição humana e, enquanto tal, podem ser compreendidas e, talvez, minimizadas, mas não podem ser completamente abolidas.

***

         Até que ponto as teorias socialistas e os militantes não esperam uma sociedade perfeita? Tipo um paraíso sobre a terra?

         Mesmo em uma sociedade socialista, poderemos viver sem nenhum tipo de dor? Ou uma evolução humana que ocorra sem sofrimento? Adolescentes e adultos poderão não se sentir sozinhos no seu lento e pavoroso processo de individuação? Casais não mais sofrerão ao se separarem? Ou os relacionamentos serão perfeitos e sem nenhum tipo de crise? As famílias viverão numa eterna harmonia, sem conflitos? Tudo isso se alinhará automaticamente, como que numa espécie de alinhamentos de astros, após a socialização dos meios de produção, ou teremos de enfrentar tais desafios inescapavelmente?

         A experiência russa, chinesa e cubana demonstra que não se deu desta forma. As heranças psicológicas seguiram vivas e atuantes. O socialismo e os socialistas querem acabar com as dores e os sofrimentos decorrentes da miséria capitalista, mas até que ponto isso não se confunde com acabar com toda a dor e o sofrimento humano (seja ele emocional, psíquico ou espiritual)? Os diversos tipos de sofrimento humano não seguiriam existindo como parte da tortuosa evolução humana?

         A socialização dos meios de produção pode diminuir “as dores do parto”, mas não pode erradica-las totalmente, porque é através das escolhas que nos tornamos humanos e descobrimos o nosso senso pessoal de significado. É preciso coragem para enfrentar diretamente os nossos estados emocionais, entendê-los, para, assim, dialogar com eles. Nos atoleiros da alma existem o significado e o chamado para a ampliação da consciência. Esta tarefa, no mais das vezes, individual, não pode ser cumprida automaticamente pela socialização dos meios de produção, nem por decretos governamentais. A adoção do socialismo como regime social é um ato político e econômico fundamental que ajuda a dar suporte para todos estes processos individuais, mas naturalmente não pode resolver tudo. É a orientação educacional e a prática social que podem transformar a sociedade numa grande escola, capaz de dar suporte e apoio nesta inevitável luta emocional que se desencadeia dentro de cada um de nós.

         De qualquer forma, as coragens individuais para enfrentar a si mesmo é algo muito subjetivo e, portanto, deve ter um cuidado especial, cujo menosprezo por parte da esquerda em geral como coisas “idealistas” custa um preço demasiado caro. Após a revolução, os seres humanos continuarão morrendo e renascendo, seja biologicamente, psíquica ou “espiritualmente” (entendido aqui como ciclos emocionais e de gerações). Neste processo há uma dor inextinguível, pois a transformação e a evolução exigem um sacrifício de dores emocionais, hormonais e, por vezes, traumáticas, que demandam muita energia. O prazer é um contrabalanço a estes dores, mas não pode ser usado como um antídoto pra tudo (tampouco o desenvolvimento das forças produtivas, tecnológicas, pode resolver todos os problemas subjetivos, uma vez que a natureza humana também desenvolve necessidades culturais praticamente inesgotáveis sempre em mudança).

         No amor, por exemplo, que é um campo por excelência subjetivo e pessoal, existem muitas “receitas” do que se fazer, do que é “certo” ou “errado”: “não seja possessivo”, “não seja tóxico”, “respeite os limites”, etc. Mas o que geralmente se exige para o amor é humanamente irreal. Seria quase um amor para deuses e semi deuses, não para humanos; muito mais preocupados com o pró forma do que com a realidade concreta de cada pessoa.

         Sem querer fazer apologia à condutas equivocadas, brutais, violentas ou omissas (machistas, em essência), que muitas vezes são ocasionadas pelo desespero e sofrimento, bem como pela inexistente educação emocional e sexual, os seres humanos são totalmente falíveis e produzem inevitavelmente dor.

         O mesmo se passa em outros campos sociais, intelectuais e emocionais da vida diária humana. O debate sobre a psicologia de massas e os desconfortos das restrições da civilização sobre impulsos instintivos ainda precisará ser muito debatido e refletido pelo movimento socialista, para muito além das questões técnicas e econômicas (objetivas). O primeiro passo é reconhecê-las como importantes para, em seguida debatê-las, honesta e fraternalmente.


sexta-feira, 5 de maio de 2023

Os Estados nacionais subordinados às big techs

 

O controle e a censura avançam na internet (não a que advoga a direita neofascista, mas outra muito diferente).
Sobre este tema existem duas narrativas: a do grande capital, que controla as principais redes sociais (como o twitter, o Facebook e cia.), e são orientadas pelos princípios do neofascismo (D. Trump, S. Bannon e E. Musk); a outra, por uma "esquerda liberal", social democrata, tipo o petismo.
Para a primeira, divulgar conteúdo neonazista e promover ameaças e injúrias racistas e supremacistas é visto como "liberdade de expressão", por isso não veem nenhuma problema nos perfis das redes sociais que promovem este tipo edificante de mensagens à humanidade, chegando até mesmo a protegê-las. A segunda, julga que se pode resolver este problema intrincado apenas "regulamentando" o setor (com uma regulamentação que precisa ser feito pedindo-se penico para redes sociais que hoje possuem mais poderes que os Estados nacionais). A tentativa de regulamentar, apesar de tudo, é certamente um primeiro passo importante, mas ainda muito tímido, não indo fundo nas questões que precisam ser debatidas e trazidas à luz.
O twitter, sob controle de Elon Musk, tem contas que veiculam discurso de ódio e promovem ameaças (ainda que algumas delas tenham sido tiradas do ar — talvez momentaneamente). O telegram, que é de origem russa, é acusado de se negar a entregar dados de usuários que promovem discurso de ódio e de "organização nazista". Por esta razão, sem dó nem piedade, foi imediatamente tirado do ar.
Por que o mesmo não ocorre com o twitter? Será que é porque tem procedência norte-americana e do homem mais rico do mundo? O twitter forneceu os dados dos seus usuários que propagam mensagens neonazistas de supremacismo branco às justiças federal e estaduais? A grande mídia e o governo o estão exigindo também e divulgando tais tratativas? Porque há um peso e duas medidas nessa história toda?
A grande questão é que temos visto a censura digital aumentar não porque "evitam posições [racistas e neofascistas] de se expressar", mas porque os controladores das redes sociais pelo mundo afora possuem mais poderes que os Estados nacionais e seus medíocres "ministérios da justiça"; porque os algorítimos criam bolhas que mantém os usuários separados uns dos outros, selecionando e omitindo conteúdos; porque há comprovada espionagem para obtenção de dados pessoais que são utilizados pelas cúpulas dos grandes impérios — seja ele o complexo-industrial militar dos EUA ou o nascente imperialismo sino-russo.
O governo Lula propõe agora regulamentar a internet e as redes sociais. Que poder, de fato, terão essas medidas para controlar as insubmissões dos seus donos multibilionários? Divulgarão e aplicarão penas equânimes a todas as redes sociais ou terão complacência com quem grita mais alto e tem mais poder econômico?
No meio disso, estamos nós, simples internautas com algum tipo de consciência de classe, tentando expressar o que sentimos e pensamos, classificados, autorizados ou censurados pelos algoritmos, separados pelas barreiras digitais que os donos das redes sociais criam e usam ao seu bel prazer (muitas vezes falando para nós mesmos).
Liberdade de expressão continua sendo apenas um assunto para quem tem dinheiro, muito dinheiro. A estes, é possível burlar regras, regulamentações e constituições nacionais. Enquanto isso, seguem livres apenas as narrativas parciais, os bloqueios de apenas algumas redes sociais inconvenientes aos interesses econômicos hegemônicos do Ocidente (e alguns perfis) e os odiosos discursos supremacistas do neofascismo...
O símbolo das "facilidades de comunicação" e da "liberdade de expressão" da nossa época histórica não são as "maravilhas da internet e das redes sociais", mas a prisão e a censura de Julian Assange, que utilizou a internet para divulgar documentos secretos da alta cúpula do poder mundial (em especial, dos EUA) através do Wikileaks. Até hoje está preso e luta contra a possibilidade real de ser condenado à morte.

Leia ainda sobre o mesmo tema: A censura do futuro

terça-feira, 25 de abril de 2023

Para onde estão nos levando os valores sociais e educacionais do capitalismo?

A entrada da escola, em Santa Catarina, após o comunicado sobre os atentados

No início de abril uma escola de educação infantil em Blumenau (SC) foi atacada por um homem armado com um machado, que assassinou, pelo menos, 5 crianças e feriu várias outras, além de deixar toda uma comunidade escolar traumatizada. O Brasil teve 5 ataques com mortes em escolas entre 2022 e 2023. Ao todo, 52 pessoas foram assassinadas em atentados contra instituições de ensino brasileiras desde 2011, sendo 7 somente em 2022. Um surto de postagens fakes nas redes sociais, com ameaças de repetir o ocorrido em Blumenau, se disseminaram por várias comunidades escolares do Brasil, disseminando o pânico. Aulas foram canceladas e a histeria social se instalou. Diversas propostas paliativas e desesperadas foram "debatidas" em reuniões de pais, de professores e através da grande mídia.

Tais ataques reproduzem uma tendência comportamental que ocorre nos EUA desde a década de 1990 como forma de encontrar uma "válvula de escape" para os graves problemas sociais através do discurso de ódio e de armamento, e que até o presente momento não encontram nenhuma forma concreta de solução. O texto abaixo é uma tentativa de interpretação desta realidade complexa e triste.


A violência nas escolas é um reflexo dos valores da nossa sociedade, baseados na meritocracia, na competição, no hedonismo, no narcisimo e no individualismo. As opções políticas e econômicas adotadas pelos sucessivos governos brasileiros, de cópia dos modelos estrangeiros — neste caso, numa cópia do estilo de vida americano —, cobra o seu preço.
Este estilo de vida é a raiz central do problema, que precisa ser questionada, sem o quê, nada de essencial muda. Ele se baseia no fato de que os inimigos são supostamente externos, já que quase tudo o que é diferente e pensa diferente é visto como inimigo; isto é, este estilo de vida é tão frágil e necessita tanto de um espírito de rebanho, senão ele nao funciona, que o que é diferente e pensa diferente deve ser excluído, não-ouvido, não-levado em consideração e, muitas vezes, ridicularizado.
A classe média, e também as pessoas da classe trabalhadora que pensam que são parte da classe média, agora se desesperam. Pulam e exigem mais violência contra qualquer suposto suspeito e ainda mais controle: é a única coisa que sabem reivindicar. Não percebem que o estilo de vida criou os próprios inimigos que podem estar em qualquer lugar, e, principalmente, dentro de nós mesmos, se retroalimentando permanentemente. Os muros e as grades "nos protegem" de nosso próprio mal, que está na nossa conduta, na nossa visão de mundo, na nossa sociedade egocêntrica, classificatória, competitiva e violenta. O "inimigo" pode estar sendo gestado dentro de casa, neste exato momento, em uma criança isolada e negligenciada, que é ignorada e ridicularizada por um mundo que ela não compreende e que, por sua vez, também não a compreende.
Se se continua condenando o outro, sem perceber que isso gera o inimigo oculto que pode estar em qualquer lugar, e que ele não será combatido com mais armas, mais polícia, mais exército e mais repressão, mas com a mudança de conduta social, econômica, política, emocional, pessoal, simplesmente se amplifica o problema e se adia sua solução.
Pra piorar, os mal intencionados e oportunistas aproveitam o pânico e o desespero, de uma sociedade caótica, que vive e precisa disso, pra vender mais e se impulsionar (vide os programas sensacionalistas de "jornalismo" policial), para sabotar, para dificultar as coisas, para tirar vantagem, por menor e mais insignificante que ela seja, para sair da mesmice medíocre em que a nossa vida cai diariamente.
Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não há indício de que a ajuda virá de outro lugar para nos salvar de nós mesmos, que não seja uma ajuda que parta de nós mesmos. E não há solução possível para a violência nas escolas simplesmente buscando-as fora de nós, com medidas paliativas que sequer tocam no cerne da questão, que é o estilo de vida da sociedade e a relação entre nós e conosco mesmo!
Não adianta gritar contra o outro, exigir um milagre de governos e "autoridades" que são os mesmos que promovem ou protegem a gestação desta mesma violência, ou, então, olhar pro céu com "muita fé", mas com pouca luta e disposição de mudar de estilo de vida para não perder esta ilusória sensação de segurança...


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