sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Apologia da leitura - por um Brasil mais leitor!

O Brasil é vergonhosamente um dos países onde menos se lê. No geral, parece bastante satisfeito com os seus slogans de "país do futebol", "do carnaval" e "escolhido por deus". A triste e pífia média é de 3 livros por ano! Sendo que o mais lido é a Bíblia. Comparando-nos a alguns países europeus, onde a média é de 30 livros por ano (ou seja, 10 vezes mais), temos uma pequena demonstração da parte de culpa que cabe ao povo no nosso "atraso". Imaginem um país de mais de 200 milhões de habitantes onde, pelo menos, metade da população lesse 30 livros por ano?

Evidentemente que a exploração internacional e nacional, compactuada com a "elite do atraso", tem peso decisivo no nosso subdesenvolvimento, o que lança muita gente na busca desesperada por meios de subsistência (sem falar que um país não se muda apenas pela leitura, mas sobretudo pela prática). No entanto, tudo isso não deve esconder o fato de que precisamos nos esforçar mais, apesar de tudo; ler mais, apesar de tudo; pensar mais, apesar de tudo; fazer novas e maiores conexões teóricas, culturais, políticas, econômicas e artísticas — e o mais importante: desenvolver pensamento próprio, original, autônomo e de qualidade.
Ler um livro, assimilá-lo, entendê-lo profundamente (ou o mais próximo disso) é um processo longo, que demanda treino e dedicação, tal como ir na academia para modelar o corpo, praticar futebol para saber jogar bem, ver filmes e séries, resolver problemas diversos, como os financeiros, domésticos, etc.
O tempo é a grandeza determinante no processo de leitura (da mesma forma que a experiência é adquirida ao longo da vida). É preciso despendê-lo se queremos realmente ler. E na medida que isso avança, os nossos olhos vão sendo treinados, uma leitura vai alimentando a outra, dialogando entre si, abrindo novas portas e realizando novas conexões. Ler também nos treina para ler as entrelinhas dos discursos políticos, pessoais, sociais, artísticos.
Pode ser que ler 30 livros por ano seja pedir demais, mas como diz um ditado chinês: "toda a caminhada de 1000 Km começa com um 1º passo". Ler 1 página por dia (ou a cada dois dias, ou pelo menos na semana, que seja!), 1 livro a cada 3 meses, 4 ou 5 livros por ano (para além da Bíblia) já seria um grande começo pra nós. Existem livros para todos os gostos e sabores (para se começar, evidentemente, pois ler realmente significa ler o que não gostamos também).
A leitura nos coloca em contato com o pensamento e a riqueza cultural acumulada pela humanidade ao longo de milênios. Desenvolver pensamento crítico requer leitura (quanto mais cotidiana, melhor...). Não ler significa renunciar a este tesouro cultural humano e deixá-lo sob posse intelectual daqueles que "lerão por nós"...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Humildade

Todo mundo se sente importante aos 20 anos. Mas o fato é que alguém só se torna útil quando percebe toda a amplitude da insignificância do indivíduo no arranjo do universo.

Joseph Conrad

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Live de lançamento do livro "Os marginais de Porto Alegre"

Esta foi a Live de lançamento do livro Os marginais de Porto Alegre, que ocorreu no dia 7 de agosto de 2020. O bate-papo, impulsionado pelo canal da Escola Estadual André Leão Puente, de Canoas, abordou temas de literatura, política, sociedade e psicologia. Vale a pena conferir e, depois, ler o livro (grande parte dele está disponível aqui nesse blog). É um pequeno exemplo do que a literatura brasileira independente e a escola pública, se bem gerida e administrada, de fato, democraticamente, podem produzir.

#osmarginaisdeportoalegre #literaturabrasileira #literatura



Para assistir direto no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=fuUyMaymYA8&ab_channel=EscolaAndr%C3%A9Le%C3%A3oPuente

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

O anarquismo é uma alternativa à degeneração da revolução russa?

*Por Eduardo Cambará

Sempre que falamos em organização revolucionário invocando o exemplo leninista é quase certo que escutaremos algum adepto do anarquismo lembrando a "repressão do bolchevismo" ao anarquismo organizado. A seguir, temos uma espécie de mantra que afirma que o stalinismo é a consequência inevitável do bolchevismo. Isto é, Lenin supostamente "foi o precursor de Stalin". Podemos ouvir isso desde os meios de comunicação e as universidades burguesas, até os ativistas "bem intencionados" por parte da esquerda — dentre os quais, encontram-se, sem dúvida, os anarquistas que reivindicam o legado de Nestor Makhno.

Ainda no final de 2019, em meio a uma greve do magistério, o camarada anarquista Pedro Fonseca me entregou em mãos um livro intitulado História do Movimento Makhnovista, do anarquista Piotr Arshinov, que conteriam as provas definitivas "do papel reacionário e nefasto do bolchevismo". Após, se travou uma polêmica nas nossas redes sociais quando Pedro postou um texto afirmando que Lenin foi o criador do stalinismo. Não pude deixar de intervir nessa postagem e as mensagens que seguem são o resultado deste embate de ideias:

Pedro Fonseca disse:
Sobre a questão do "bolchevismo": a princípio queria dizer que o socialismo de países que se autodefiniram como tal (URSS , Cuba, por exemplo) era um "falso socialismo" e que o bolchevismo que eles diziam assumir era também um "falso bolchevismo", mas como você respondeu com uma defesa do bolchevismo que soou ataque, então achei por bem dizer com sinceridade o que realmente penso sobre o bolchevismo em geral incluindo o trotskismo que pretende ser o herdeiro do leninismo supostamente mais autêntico. Há problemas pois há inúmeras correntes trotskistas diferentes e mesmo se não bastasse isso ainda há sem dúvida nenhuma elementos autoritários no bolchevismo desde a época de Lênin como os citados fatos exemplificam nos comentários (o que fizeram com os demais partidos ditos socialistas e com os aliados anarquistas na Ucrânia e etc.). Mas a preocupação maior de minha parte é tentar construir alguma opção viável para hoje, para o que vivemos, portanto essas propostas do passado pouco me interessam além da análise filosófica e histórica dado que já se desgastaram e "deram o que tinham que dar", também não simpatizo com a supervalorização de lideranças e ícones como Lenin, Trotski ou qualquer outro similar, mesmo que possa reconhecer que infelizmente é algo que deve ser encarado seriamente o fato de lideranças se destacarem em qualquer movimento ou organização política mesmo as que se dizem anarquistas, o que alguns vão encarar como uma "lei sociológica" (R. Michels, diria isso); mas não chego a esse exagero de afirmar algo assim , pois isso seria condenar (por consequência lógica simples) qualquer real possibilidade de superarmos essa "condição". 

No entanto, sob análise filosófica e sociológica/histórica, não tenho dúvidas com relação ao caráter autoritário do bolchevismo, embora reconheça que, em meio aos trotskistas, há militantes que buscam expressar o que eles mesmos identificam como positivo nessa proposta e a idealizam da melhor forma possível (de forma que ela me parece ganhar qualidades que não necessariamente possuía originalmente). Não tenho dúvidas das boas e sinceras intenções de vocês, por exemplo [e Pedro citou a nossa organização], mas não creio que Trotski e Lenin realmente seriam tão democráticos e francos como vocês são e isso, obviamente, é um elogio e reconhecimento sincero da minha parte a vocês.

Destaco que, se realmente há intenção de buscarmos uma estratégia racional séria para superarmos o que enfrentamos hoje, em busca do objetivo de todo movimento socialista que se preze, essa opção precisa ser construída coletivamente e isso exigirá sim críticas aos rótulos, ideologias ou propostas filosóficas as quais nos apegamos (de forma quase afetiva eu diria).

Eu, Eduardo Cambará, respondi o que segue:
Acho importante responder as questões que tu levantou não apenas pra esclarecer como penso, mas também porque são pautas permanentes da esquerda atual. Como tu bem nos conhece, sabes que não idealizamos nenhuma corrente política. Apenas temos referências. Certamente no passado já fomos adeptos daquelas práticas da "velha esquerda" que idealiza lideranças e organizações políticas. Minha defesa do bolchevismo nada tem a ver com isso. Já superei esta fase há tempos. A maneira como tu te posicionou na postagem do facebook (e depois a reafirmou nas mensagens acima) não deixam dúvidas de que tu iguala bolchevismo ao stalinismo como se fossem a mesma coisa (ou, então, para não ser injusto contigo, como quase a mesma coisa).

Para mim está claro que não é. O texto que te enviei explica isso detalhadamente e busca causas psicológicas por trás disso tudo. Achar isso nada tem a ver com uma idealização do bolchevismo, nem de Lenin e Trotski; tampouco me faz esquecer que há diferenças entre as distintas correntes políticas "trotskistas" que reivindicam o legado bolchevique (e que nestes casos apenas a prática pode nos ajudar). Pra mim, o bolchevismo é uma corrente política e uma prática militante. Como corrente política tinha uma posição clara sobre a natureza da revolução na Rússia (ou seja, diferentemente dos mencheviques, via a revolução democrático-burguesa como uma parte indissociável da construção socialista, e que apenas os trabalhadores no poder poderiam consumar tais tarefas já que a burguesia russa as tinha abandonada definitivamente; enquanto os mencheviques achavam que deveriam fortalecer a burguesia nacional e suas instituições, tornando-se uma bem comportada "oposição parlamentar-eleitoral" dentro dos moldes que hoje conhecemos). Além disso, o bolchevismo é uma prática militante profissional, de um trabalho árduo permanente, com uma organização correspondente (trabalho permanente que nos falta e te falta). Fazer uma revolução não é um jogo de sorte ou azar em que a gente acerta a palavra de ordem e aí está tudo garantido. É um hercúleo, longo e árduo trabalho permanente, de altos e baixos, pautado pelo profissionalismo.

Respondi teu post porque não acho justo a comparação. O stalinismo é a negação de tudo isso (Trotski bem o demonstrou em toda a sua obra, e basta ler, em particular, o artigo: Bolchevismo e stalinismo). Defendo o bolchevismo não como um fanático religioso, que acha que eles estão certos em tudo e que ele se aplicaria mecanicamente em todas as realidades. Não! O defendo, tal como defendo a Comuna de Paris: uma experiência em que os trabalhadores e as trabalhadoras tomaram o poder; como uma forma de aprendermos com o passado e afirmando, sem medo de ser mal compreendido, que o bolchevismo possui muito mais méritos do que deméritos. A forma como os bolcheviques tomaram o poder, a despeito de erros e possíveis excessos, é uma lição que não podemos jogar fora sob hipótese alguma ou desmerecê-la afirmando se tratar de autoritarismo stalinista.

As formas como Lenin foi pontuando as palavras de ordem e opondo-as às da burguesia e do reformismo, são lições de um método preciso que, sem dúvida, devem ser estudadas e conhecidas por todos aqueles que querem fazer uma revolução. Me parece que tu as joga fora com o medo da "contaminação" autoritária. E dizendo que Lenin e Trotski não são honestos como nós seríamos. Eu não tenho dúvida de que o eram. Podes ter certeza de que a nossa honestidade está pautada na deles. Mas não idealizamos ninguém. Como seres humanos, cometeram erros, mas não eram autoritários no sentido stalinista. Se o fossem, jamais teriam feito uma revolução, que pressupõem conquistar a confiança de centenas de milhares de trabalhadores — o que é muito diferente de apenas dominá-los pelo peso do aparato hegemônico.

Há também, profunda ignorância no trato de como os bolcheviques se relacionaram com os demais partidos socialistas nos sovietes. É uma impropriedade afirmar que defendiam partido único como princípio. Isso é uma ideia stalinista. No texto que te enviei tem um trecho que afirma o seguinte: "Mesmo no auge do processo revolucionário os bolcheviques procuraram as outras frações operárias para construir um governo em comum, como os mencheviques e os Socialistas Revolucionários (narodiniks), mesmo possuindo as mais profundas divergências políticas e programáticas. Estes deram as costas ao chamado dos bolcheviques, como atesta este trecho escrito por Trotski: 'O comitê central do nosso partido buscou uma aliança com os Socialistas Revolucionários (SRs) de esquerda. Propusemos a eles que tomasse parte na construção do governo dos sovietes. Eles hesitavam e diziam que o governo deveria ter o caráter de uma coalizão entre os partidos soviéticos. Mas os mencheviques e os SRs de direita havia rompido com o Congresso dos Sovietes porque eram defensores decididos de uma coalização com os partidos anti-soviéticos. Assim, só nos restava deixar os SRs de esquerda a tarefa de tentar trazer seus colegas de direita para o campo da revolução; porém, enquanto eles se ocupavam dessa causa sem esperança, nós nos sentíamos obrigados a assumir toda a responsabilidade pelo governo'".

Mais do que isso, parte desses partidos buscaram se aliar diretamente com a contra-revolução, tomando parte ativa nos exércitos brancos (ou pelo menos ajudando-os pela sua omissão). Infelizmente uma parte dos anarquistas cometeu o mesmo erro. Lenin atestou no artigo "Sobre o imposto em espécie", que as reivindicações de grande parte dos marinheiros do motim de Kronstadt repetiam textualmente o que o imperialismo alemão exigia (sobretudo seus banqueiros) e a sua concretização estrangularia sem dúvida o recém formado poder soviético (que lutava com inimigos por todos os lados). Os makhnivistas ucranianos não fugiam muito dessa regra, exigindo uma liberdade de atuação militar em meio a uma guerra contra 14 exércitos.

Neste luta possivelmente os bolcheviques cometeram excessos e erros, mas não são mau caráter e não mentiram; ou transformaram isso numa prática, tal como fez o stalinismo, que a usou até o final em contextos totalmente livres de guerras civis. Muito estudo histórico ainda precisa ser feito sobre o tema. E também, certamente, crítica e autocrítica. Apesar disso, não vejo os anarquistas darem nenhum passo nesse sentido, tanto na experiência da Comuna de Paris, em que foram responsáveis diretos pela não expropriação do banco da França, como na Espanha, em que as suas propostas impediram (conforme nos atesta Fernando Claudín) uma organização militar decente pra enfrentar os fascistas. Sempre com medo do "autoritarismo".

Percebo que há um grande receio por parte da esquerda (não apenas tua) de assumir uma postura firme, com medo de ser autoritário. Ou seja, teme lobos e mesmo assim pretende ir à floresta. Parece recear se contaminar com uma prática que quebre o seu "purismo" e o seu "revolucionarismo", esperando um caminho revolucionário sem contradição alguma; isto é, perfeito e exato! Os camaradas não compreendem (ou não querem compreender) a importância e o papel da direção política da classe trabalhadora. Atribuem a qualquer direção ou partido (indistintamente ao programa ou a política que defendem) o papel de “burocratizadores por natureza”. Este menosprezo à direção política, entendendo que a classe se dirige espontaneamente mesmo com distintos níveis de consciência e heterogeneidade, tende a caminhar para a desorganização política e à subordinação inconsciente às direções burguesas declaradas e não declaradas. Certos camaradas pensam que se “centralizar pela classe”, tal como ela é, representaria um antídoto contra a degeneração, o que é um grave erro. O proletariado se subdivide em vários segmentos, como vanguarda e retaguarda. Isto é um fato sociológico. Não se pode igualar a sua vanguarda com a sua retaguarda, ainda que se tenha que levar em consideração os anseios da retaguarda. 

Neste caso, se condena o bolchevismo pela ousadia de ter tomado o poder e, de quebra, se transforma esta grande experiência num crime. Ou seja, tomar o poder através de uma revolução vai colocar muito provavelmente o setor avançado da classe contra o seu setor atrasado. Poderá evitar qualquer tipo de repressão à própria classe trabalhadora? Muito provavelmente não. Afirmar que sim seria um exercício de futurologia, que desconsidera a contra-revolução e a realidade concreta. Isso não quer dizer que não tenhamos que tentar evitar isso, mas garantias exatas é impossível. Estamos lidando com seres-humanos: seres contraditórios por natureza em uma realidade permanentemente em modificação e em meio a uma sociedade dividida em classes. Renunciar a tomada do poder pela via revolucionária nos faz cair no reformismo do tipo petista, eleitoreiro e refém das instituições da democracia burguesa (ele supostamente não usa violência). Uma terceira via não existe, e dificilmente vai existir. Se tu tiver qualquer indício, por menor que seja, por favor nos demonstre...

Repara o que diz Engels acerca do debate "autoritarismo x autoridade": "os anti-autoritários pedem que o Estado político autoritário seja abolido de um golpe, antes mesmo que se tenham destruído as condições sociais que o fizeram nascer. Pedem que o primeiro ato da revolução social seja a abolição da autoridade. Já alguma vez viram uma revolução, estes senhores? Uma revolução é certamente a coisa mais autoritária que se possa imaginar; é o ato pelo qual uma parte da população impõe a sua vontade à outra por meio das espingardas, das baionetas e dos canhões, meios autoritários como poucos; e o partido vitorioso, se não quer ser combatido em vão, deve manter o seu poder pelo medo que as suas armas inspiram aos reacionários. A Comuna de Paris teria durado um dia que fosse se não se servisse dessa autoridade do povo armado face aos burgueses? Não será verdade que, pelo contrário, devemos lamentar que não se tenha servido dela suficientemente? Assim, das duas uma: ou os anti-autoritários não sabem o que dizem, e, nesse caso, só semeiam a confusão; ou, sabem-no, e, nesse caso, atraiçoam o movimento do proletariado. Tanto num caso como noutro, servem à reação".

É por tudo isso que temos que ser o mais cuidadoso possível no trato com as experiências históricas. Não tenho dúvida que condenar a Comuna de Paris ou o bolchevismo é um serviço pra burguesia contra os trabalhadores (pode ser que tu não tenha visto, ou não concorde. Não quero te ofender, porque sei da tua honestidade, mas é exatamente assim que eu vejo). Isso não significa que eu idealize religiosa e dogmaticamente o bolchevismo, Lenin e Trotski, ou quem quer que seja. Tu bem sabe o esforço que temos feito para renovar as práticas da esquerda. Não achamos que o bolchevismo possa ser aplicado mecanicamente ao Brasil ou a qualquer país do mundo fora do espaço-tempo, mas jogar fora seus ensinamentos é um erro crasso.

Por exemplo, pra nós o problema do bolchevismo ou da extinta-URSS não está na utilização do Estado ou do "autoritarismo" das armas, mas na ausência de preocupações relacionadas à psicologia de massas. Já escrevemos e falamos inúmeras vezes sobre isso: "O debate para superar a 'crise do socialismo' está muito menos no peso da 'ditadura do proletariado', no regime do terror e na sua posterior degeneração expressa nos regimes stalinistas (que tem causas bastante compreensíveis e evidentes), do que na necessidade de desenvolver a psicologia de massas do socialismo, a educação, a autonomia individual que respeite a coletividade e a individualidade dentro daquela, que combata a apatia, a repressão moral-sexual e o espírito de rebanho. Os problemas do 'socialismo' expressos no século 20 – tal como a sua degeneração em ditadura stalinista – é causa ou consequência do espírito de rebanho presente em grande parte da massa? Quem pode afirmar seguramente qual dessas duas opções é a preponderante? É justamente esta problemática que está colocada para a futura geração de revolucionários que poderá superar esta crise, e não os olhos no passado que condena as vitórias do proletariado e exalta o espontaneísmo. É saber como casar a direção política das massas com o seu espontaneísmo, sem castrá-lo ou oprimi-lo, porém, sem deixá-lo correndo atrás da própria cauda ou o que é ainda pior: canalizado e dirigido pela burguesia! São precisamente estas questões que a burguesia quer esconder dos trabalhadores, lançando preconceitos anti-partido, anti-organização e anti-bolchevique".

Desculpe o texto longo. Sei que preciso ser mais sucinto, mas espero que tu entenda e, principalmente, reflita sobre tudo isso.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

O neofascismo não foi derrotado!

A militância de esquerda comete dois erros centrais na atual conjuntura: ou pensa que a eleição do milionário democrata, Joe Biden, representou uma vitória sobre o projeto neofascista; ou pensa que vivemos num regime democrático-burguês comum, menosprezando a ascensão da direita neofascista.

       Já analisamos nesse blog o fenômeno internacional do neofascismo, afirmando se tratar de “um movimento criado pelo imperialismo decadente, os EUA e seus satélites, para a manutenção do seu domínio mundial e dos seus mercados, ameaçados por China e Rússia. Assume variadas formas de acordo com os seus interesses geopolíticos. Assemelha-se ao fascismo clássico pelo terrorismo de Estado ou pelo terrorismo mercenário [seletivo], pela xenofobia, racismo e um conservadorismo radical. Como todo fascismo, é um movimento antiproletário e anticomunista. O neofascismo é o abre-alas da burguesia imperialista, usado quando necessário para concretizar suas políticas econômicas. Apesar de disseminar ódio, preconceito, fake news, dando justificativas para guerras, assassinatos e ditaduras militares, pode conviver com instituições democrático-burguesas”[i].

       Como já foi dito, o neofascismo também se aproveita de todas as falhas, da impunidade e do jogo de hipocrisia das instituições e da legislação da democracia burguesa. Sabe fazer isso muito bem, vendendo tais práticas como “anti-sistema” e discursando contra o “politicamente correto”. Muitos trabalhadores julgam que exatamente por isso Trump e Bolsonaro “falam a verdade”, enquanto os demais políticos “não falam o que realmente pensam”[ii].

       Parte da esquerda não reconhece nenhuma diferença essencial entre a direita tradicional (o “centrão”) e o movimento dirigido por Trump, Steve Bannon e Bolsonaro. Querem um regime militar típico, com o fechamento das instituições democrático-burguesas, tipo o nazi-fascismo europeu ou as ditaduras latino-americanas inauguradas a partir de 1964. Os fenômenos históricos não se repetem e há que se analisar as minúcias da nossa conjuntura muito cuidadosamente. Até porque, sem reconhecer a existência do neofascismo e a sutileza dos seus métodos, será impossível combatê-lo com sucesso[iii].

       A esquerda reformista, por sua vez, vende a ilusão de que é possível derrotar a direita neofascista pela via eleitoral. Não apenas não vê nenhum problema nisso, como passa a apoiar acriticamente qualquer candidatura, tal como a do imperialista Joe Biden nos EUA. Com isso, não está derrotando o neofascismo, mas ajudando a consolidar o ciclo de ilusões das eleições burguesas, enquanto o neofascismo vai se regenerando do desgaste como “oposição”, voltando, momentaneamente, “para o armário” – isto é, para as profundezas do inconsciente coletivo, de onde voltará mais forte e mais disfarçado assim que a classe dominante lhe chamar quando estiver novamente em apuros.

       Sobre a “derrota” de Trump nas eleições – o que, obviamente, tem algumas consequências sobre o governo Bolsonaro –, cabem as notas reflexivas abaixo:

1. Trump é o representante maioral do neofascismo (conjuntamente com o seu principal ideólogo, Steve Bannon). A essência dos seus métodos manipulatórios consistem em misturar elementos da democracia burguesa com afirmações e ações autoritárias, reacionárias e, até mesmo, fascistas no sentido clássico.

2. O presidente estadunidense derrotado nas eleições de novembro fez campanha contra a “fraude” do sistema eleitoral ianque – que é bastante bagunçado e arcaico. Pretende, com essas denúncias, se demonstrar como “antissistema” e “antipolítica oficial” – isto é, como “aquele que fala a verdade” enquanto os outros políticos calam.

       Contudo, é preciso dizer que Trump foi eleito pelo mesmo sistema problemático e “fraudado” que ele critica agora. Tal sistema eleitoral “funciona” assim a séculos, mas Trump lembrou da “fraude” casualmente nas eleições que perdeu. Sobre isso a esquerda reformista não falou absolutamente nada.

3. A grande mídia burguesa estadunidense fez campanha aberta contra Trump, inclusive cortando os áudios de seus discursos pós-derrota, afirmando se tratar de “mentiras descaradas”. Hipocritamente, a mídia burguesa também só lembrou que ele mente descaradamente agora que não precisa mais dele. Grande parte da esquerda festiva ficou muito feliz com tal ação “sensata” da mídia burguesa, dizendo que a brasileira deveria repetir o mesmo com Bolsonaro.

       No entanto, é importante frisar que tal ação é seletiva e pontual e certamente será utilizada politicamente pelo neofascismo. Muitas e muitas vezes Trump mentiu descaradamente e a mídia burguesa não apenas não fez nada, como amplificou tais mentiras, o deixando mentir livremente e sendo conivente com uma série de barbaridades.

       Tal conduta midiática é conjuntural e tem a ver com a reconstrução do regime, amplamente desgastado pelas ações e pelos discursos do governo Trump. No momento em que o imperialismo ianque precisar novamente das ações mais enfáticas e decididas do neofascismo, certamente fará ouvidos moucos e deixará os “mentirosos patológicos” voltarem a mentir imbuídos de poderes estatais.

       Da mesma forma, o neofascismo tirará sua casquinha de tal condução midiática conjuntural para reforçar uma imagem de um “candidato antissistema” perseguido pela mídia oficial, tendo “suas verdades” caladas por ela. Ou seja, continuará denunciando a mídia burguesa enquanto que a esquerda reformista cala e concilia com ela.

4. O neofascismo não foi derrotado, nem poderia ser via eleições burguesas. Joe Biden vai reconstituir parte da noção liberal tradicional, se contrapondo a Trump, mas conservando o essencial da política econômica e do sistema. O mesmo aconteceu no Brasil após as eleições municipais, com o “centrão” (a direita tradicional) entrando em cena para se vender como alternativa aos radicalismos (de “esquerda” e da direita bolsonarista).

Neste ínterim, longe do desgaste que o poder ocasiona e surfando numa “oposição” de ocasião, Trump, Bannon e toda a corja neofascista trabalharão, às vezes silenciosamente, às vezes abertamente, para retornar ao poder. O capitalismo atual necessita dos ciclos “eleitorais” que alternam métodos liberais “institucionais” – baseados na democracia burguesa – e neofascistas. Esta alternância ajuda a aplicar e consolidar seus projetos – sobretudo aqueles que apontam para a uberização da economia. 

5. A derrota eleitoral de Trump certamente enfraquecerá o projeto neofascista de Bolsonaro, mas não o derrotará a longo prazo, quando poderá ser acionado novamente ao sabor das conjunturas. Uma vez que uma parte da esquerda revolucionária menospreza ou ignora tais métodos de manipulação da psicologia de massas, afirmando ser um governo “quase normal” da democracia burguesa, o neofascismo não pode ser desmascarado, nem derrotado. A esquerda eleitoral, por sua vez, agita que as eleições de 2022 podem derrotá-lo no Brasil com a eleição de um projeto de “esquerda” (tipo PT, PCdoB e Psol) ou mesmo com um governo “liberal”, do tipo dos partidos do “centrão”.

       O projeto inicial do neofascismo já foi concretizado. Qual seja? Desmoralizar e demonizar a "esquerda" eleitoral, tipo Democratas nos EUA e PT/PCdoB no Brasil, para torná-la inviável e inaceitável (já que vencer o lulismo eleitoralmente pelos modos “democráticos” seria muito difícil) e quebrar o gelo inicial da aplicação das “reformas” que introduzirão a uberização na economia. Tais objetivos já foram atingidos parcialmente, por isso o trumpismo e o bolsonarismo (ou seja, o neofascismo) podem ser momentaneamente deixados de lado para serem invocados mais à frente. Além disso, um dos principais motivos que levou ao surgimento do neofascismo foi a necessidade de novos métodos de sabotagem e dominação internacional para fazer frente aos mercados ameaçados por China e Rússia. Tais ameaças não foram derrotadas – aliás, nem chegaram perto de sê-lo –, por isso o neofascismo seguirá latente até as próximas necessidades da burguesia imperialista estadunidense, passada esta ressaca histórica inicial.

       Quem afirma que o neofascismo foi derrotado ou que ele pode ser derrotado via eleições em 2022 apenas está ajudando a reforçar as ilusões no sistema. Como foi falado, o capitalismo precisa desta alternância aparente de poder para concretizar seus ajustes visando uma nova forma de acumulação privada e de “autorracionalização”[iv].

 

REFERÊNCIAS


sábado, 12 de dezembro de 2020

Comparações de análises sobre as consquências da transnacionalização do capital

Dois escritores abordam as tendências modernas da transnacionalização do capital e do enfraquecimento do Estado-Nação. São eles: João Bernardo, no livro Transnacionalização do capital e fragmentação dos trabalhadores; e Pepe Escobar, no livro 21: o século da Ásia. Em um exercício de "futurologia", podemos estabelecer uma perspectiva comparada sobre o que trazem os dois autores acerca deste tema nas suas obras, tentando traçar o que há de semelhante e o que há de diferente. O denominador comum entre ambas pode nos revelar o que a realidade reflete corretamente no pensamento dos dois autores.

O escritor português, João Bernardo, nos afirma que torna-se cada vez mais patente o surgimento do que ele denominou de "Estado amplo"; isto é, uma estrutura social, política e econômica hegemonizada pelos monopólios e trustes internacionais, que não reconhecem os limites das fronteiras e legislações nacionais, em contraposição ao que ele chamou de "Estado restrito", que é o Estado "tradicional", com suas instituições políticas circunscritas ao território nacional, mas subordinadas e dependentes deste poder econômico superior. Assim, ocorre aquele fenômeno bizarro onde uma empresa transnacional tem um PIB maior do que um Estado nacional, como é, por exemplo, o caso da GM em comparação à Bolívia.

Pepe Escobar, por sua vez, traz a análise do economista irlandês Hamish McRae, que enumera uma série de desdobramentos básicos deste crescimento das transnacionais sobre o mercado mundial e a relação entre os países: "1) enfraquecimento da Nação-Estado; 2) emergência de organismos supranacionais, como a União Europeia, a APEC, a ASEAN, o Mercosul; 3) emergência de poderes regionais em detrimento do poder central, como, por exemplo, Sul da China, Catalunha, norte da Itália, o Estado de São Paulo; 4) mercados financeiros determinando política fiscal e monetária para quase todos os países do mundo; 5) limitação cada vez maior de políticas domésticas protecionistas que atrapalhem a panacéia mundial do livre comércio; 6) dominação de multinacionais que baseiam seus investimentos em isenção de impostos — o que limita a liberdade de governos de arrecadar impostos de empresas estrangeiras; 7) mobilidade cada vez maior de talentos top em business, entertainment e serviços financeiros: ou seja, governos cada vez mais devem competir por talentos".

Algumas conclusões: vivemos a época da hegemonia do mercado internacional sobre o poder da Nação-Estado (com a exceção pontual dos países imperialistas). Isso tem reflexos avassaladores sobre toda a política revolucionária e aumenta descomunalmente a importância da associação internacional da classe trabalhadora. A agitação, propaganda e os debates teóricos e práticos deveriam refletir esta nova etapa de "desenvolvimento" do capital, mas a "esquerda", ao contrário, continua com o seu ramerrão oportunista e/ou doutrinário. Em termos comparativos, os pontos 4 e 5 harmonizam-se com a análise de João Bernardo sobre a "restrição do Estado" (ou a consolidação do "Estado restrito") e o ponto 6 traz a definição do que é o "Estado amplo", que é, como foi dito, completamente ignorado pela "esquerda" e pelas reivindicações do movimento sindical.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Os pequenos detalhes são sempre os mais importantes

Àquilo que lembramos falta o traço duro do fato. Para nos ajudarmos, criamos pequenas ficções, cenários altamente sutis e individuais que possam esclarecer e modelar nossa vivência. O acontecimento recordado torna-se ficção, uma estrutura feita para acomodar certos sentimentos.

Jerzy Kosinski  

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Medo de voar e o verdadeiro sexo frágil

No livro Medo de Voar, da escritora norte-americana, Erica Jong, publicado em 1973, podemos encontrar uma série de reflexões riquíssimas sobre casamento, monogamia e relações humanas (dentre outras não menos importantes). Nele, a personagem principal se encontra dividida entre o amor por dois homens diferentes que sabem estar em um triângulo amoroso e numa espécie de "relacionamento aberto" — elemento constitutivo dos relacionamentos modernos, embora ainda pouco explorado pelos romances. Ela também aborda, de uma forma inusitada e profunda, a questão da impotência masculina.

Por exemplo: "a humilhação sexista suprema: o cacete que se deita. A arma suprema, na guerra entre os sexos: o cacete mole. A bandeira do inimigo: o cacete a meio-pau. O símbolo do apocalipse: o cacete de ogiva atômica que destrói a si mesmo. Era essa a desigualdade básica que nunca poderia ser consertada: não que o homem fosse dono de uma atração maravilhosa a mais, chamada pênis, mas que a mulher era dotada de uma pomba maravilhosa, enfrentando qualquer tempo. Nem tempestade, nem granizo, nem escuridão da noite conseguiam intimidá-la. Estava sempre ali, sempre pronta. Coisa das mais apavorantes, quando se pensa bem. Não admira que os homens odiassem as mulheres. Não admira que tenham inventado o mito da insuficiência feminina".

Isso explica muito sobre a nossa sociedade patriarcal e fálica (e sobre o bolsonarismo em particular). O dinheiro, o cartão de crédito, a casa luxuosa, o acelerador do carro são os compensadores da frustração sexual não reconhecida e sequer refletida na consciência. Como o prazer não vem dos "canais naturais", resta buscá-lo na compensação da riqueza material, no ódio sadomasoquista, na humilhação do outro, na raiva despejada incontidamente (na política, nos colegas de trabalho, nos vizinhos, na suposta "inferioridade" social dos outros).

Na verdade, Jong aponta que a potência sexual está com a mulher (o suposto "sexo frágil"); e não com o homem. Ela afirma: "Nem tempestade, nem granizo, nem escuridão da noite conseguiam intimidá-la". Tal alusão à disposição sexual da mulher em comparação a do homem deixa bem claro que este é o verdadeiro e único sexo frágil, que sofre com todo tipo de intimidações que tenham reflexos sobre o desempenho do seu cacete a meio-pau.