O Brasil é vergonhosamente um dos países onde menos se lê. No geral, parece bastante satisfeito com os seus slogans de "país do futebol", "do carnaval" e "escolhido por deus". A triste e pífia média é de 3 livros por ano! Sendo que o mais lido é a Bíblia. Comparando-nos a alguns países europeus, onde a média é de 30 livros por ano (ou seja, 10 vezes mais), temos uma pequena demonstração da parte de culpa que cabe ao povo no nosso "atraso". Imaginem um país de mais de 200 milhões de habitantes onde, pelo menos, metade da população lesse 30 livros por ano?
sexta-feira, 1 de janeiro de 2021
Apologia da leitura - por um Brasil mais leitor!
sexta-feira, 18 de dezembro de 2020
Humildade
quarta-feira, 16 de dezembro de 2020
Live de lançamento do livro "Os marginais de Porto Alegre"
Esta foi a Live de lançamento do livro Os marginais de Porto Alegre, que ocorreu no dia 7 de agosto de 2020. O bate-papo, impulsionado pelo canal da Escola Estadual André Leão Puente, de Canoas, abordou temas de literatura, política, sociedade e psicologia. Vale a pena conferir e, depois, ler o livro (grande parte dele está disponível aqui nesse blog). É um pequeno exemplo do que a literatura brasileira independente e a escola pública, se bem gerida e administrada, de fato, democraticamente, podem produzir.
#osmarginaisdeportoalegre #literaturabrasileira #literatura
Para assistir direto no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=fuUyMaymYA8&ab_channel=EscolaAndr%C3%A9Le%C3%A3oPuente
terça-feira, 15 de dezembro de 2020
O anarquismo é uma alternativa à degeneração da revolução russa?
*Por Eduardo Cambará
Sempre que falamos em organização revolucionário invocando o exemplo leninista é quase certo que escutaremos algum adepto do anarquismo lembrando a "repressão do bolchevismo" ao anarquismo organizado. A seguir, temos uma espécie de mantra que afirma que o stalinismo é a consequência inevitável do bolchevismo. Isto é, Lenin supostamente "foi o precursor de Stalin". Podemos ouvir isso desde os meios de comunicação e as universidades burguesas, até os ativistas "bem intencionados" por parte da esquerda — dentre os quais, encontram-se, sem dúvida, os anarquistas que reivindicam o legado de Nestor Makhno.
Respondi teu post porque não acho justo a comparação. O stalinismo é a negação de tudo isso (Trotski bem o demonstrou em toda a sua obra, e basta ler, em particular, o artigo: Bolchevismo e stalinismo). Defendo o bolchevismo não como um fanático religioso, que acha que eles estão certos em tudo e que ele se aplicaria mecanicamente em todas as realidades. Não! O defendo, tal como defendo a Comuna de Paris: uma experiência em que os trabalhadores e as trabalhadoras tomaram o poder; como uma forma de aprendermos com o passado e afirmando, sem medo de ser mal compreendido, que o bolchevismo possui muito mais méritos do que deméritos. A forma como os bolcheviques tomaram o poder, a despeito de erros e possíveis excessos, é uma lição que não podemos jogar fora sob hipótese alguma ou desmerecê-la afirmando se tratar de autoritarismo stalinista.
As formas como Lenin foi pontuando as palavras de ordem e opondo-as às da burguesia e do reformismo, são lições de um método preciso que, sem dúvida, devem ser estudadas e conhecidas por todos aqueles que querem fazer uma revolução. Me parece que tu as joga fora com o medo da "contaminação" autoritária. E dizendo que Lenin e Trotski não são honestos como nós seríamos. Eu não tenho dúvida de que o eram. Podes ter certeza de que a nossa honestidade está pautada na deles. Mas não idealizamos ninguém. Como seres humanos, cometeram erros, mas não eram autoritários no sentido stalinista. Se o fossem, jamais teriam feito uma revolução, que pressupõem conquistar a confiança de centenas de milhares de trabalhadores — o que é muito diferente de apenas dominá-los pelo peso do aparato hegemônico.
Mais do que isso, parte desses partidos buscaram se aliar diretamente com a contra-revolução, tomando parte ativa nos exércitos brancos (ou pelo menos ajudando-os pela sua omissão). Infelizmente uma parte dos anarquistas cometeu o mesmo erro. Lenin atestou no artigo "Sobre o imposto em espécie", que as reivindicações de grande parte dos marinheiros do motim de Kronstadt repetiam textualmente o que o imperialismo alemão exigia (sobretudo seus banqueiros) e a sua concretização estrangularia sem dúvida o recém formado poder soviético (que lutava com inimigos por todos os lados). Os makhnivistas ucranianos não fugiam muito dessa regra, exigindo uma liberdade de atuação militar em meio a uma guerra contra 14 exércitos.
Neste luta possivelmente os bolcheviques cometeram excessos e erros, mas não são mau caráter e não mentiram; ou transformaram isso numa prática, tal como fez o stalinismo, que a usou até o final em contextos totalmente livres de guerras civis. Muito estudo histórico ainda precisa ser feito sobre o tema. E também, certamente, crítica e autocrítica. Apesar disso, não vejo os anarquistas darem nenhum passo nesse sentido, tanto na experiência da Comuna de Paris, em que foram responsáveis diretos pela não expropriação do banco da França, como na Espanha, em que as suas propostas impediram (conforme nos atesta Fernando Claudín) uma organização militar decente pra enfrentar os fascistas. Sempre com medo do "autoritarismo".
Percebo que há um grande receio por parte da esquerda (não apenas tua) de assumir uma postura firme, com medo de ser autoritário. Ou seja, teme lobos e mesmo assim pretende ir à floresta. Parece recear se contaminar com uma prática que quebre o seu "purismo" e o seu "revolucionarismo", esperando um caminho revolucionário sem contradição alguma; isto é, perfeito e exato! Os camaradas não compreendem (ou não querem compreender) a importância e o papel da direção política da classe trabalhadora. Atribuem a qualquer direção ou partido (indistintamente ao programa ou a política que defendem) o papel de “burocratizadores por natureza”. Este menosprezo à direção política, entendendo que a classe se dirige espontaneamente mesmo com distintos níveis de consciência e heterogeneidade, tende a caminhar para a desorganização política e à subordinação inconsciente às direções burguesas declaradas e não declaradas. Certos camaradas pensam que se “centralizar pela classe”, tal como ela é, representaria um antídoto contra a degeneração, o que é um grave erro. O proletariado se subdivide em vários segmentos, como vanguarda e retaguarda. Isto é um fato sociológico. Não se pode igualar a sua vanguarda com a sua retaguarda, ainda que se tenha que levar em consideração os anseios da retaguarda.
Repara o que diz Engels acerca do debate "autoritarismo x autoridade": "os anti-autoritários pedem que o Estado político autoritário seja abolido de um golpe, antes mesmo que se tenham destruído as condições sociais que o fizeram nascer. Pedem que o primeiro ato da revolução social seja a abolição da autoridade. Já alguma vez viram uma revolução, estes senhores? Uma revolução é certamente a coisa mais autoritária que se possa imaginar; é o ato pelo qual uma parte da população impõe a sua vontade à outra por meio das espingardas, das baionetas e dos canhões, meios autoritários como poucos; e o partido vitorioso, se não quer ser combatido em vão, deve manter o seu poder pelo medo que as suas armas inspiram aos reacionários. A Comuna de Paris teria durado um dia que fosse se não se servisse dessa autoridade do povo armado face aos burgueses? Não será verdade que, pelo contrário, devemos lamentar que não se tenha servido dela suficientemente? Assim, das duas uma: ou os anti-autoritários não sabem o que dizem, e, nesse caso, só semeiam a confusão; ou, sabem-no, e, nesse caso, atraiçoam o movimento do proletariado. Tanto num caso como noutro, servem à reação".
É por tudo isso que temos que ser o mais cuidadoso possível no trato com as experiências históricas. Não tenho dúvida que condenar a Comuna de Paris ou o bolchevismo é um serviço pra burguesia contra os trabalhadores (pode ser que tu não tenha visto, ou não concorde. Não quero te ofender, porque sei da tua honestidade, mas é exatamente assim que eu vejo). Isso não significa que eu idealize religiosa e dogmaticamente o bolchevismo, Lenin e Trotski, ou quem quer que seja. Tu bem sabe o esforço que temos feito para renovar as práticas da esquerda. Não achamos que o bolchevismo possa ser aplicado mecanicamente ao Brasil ou a qualquer país do mundo fora do espaço-tempo, mas jogar fora seus ensinamentos é um erro crasso.
Por exemplo, pra nós o problema do bolchevismo ou da extinta-URSS não está na utilização do Estado ou do "autoritarismo" das armas, mas na ausência de preocupações relacionadas à psicologia de massas. Já escrevemos e falamos inúmeras vezes sobre isso: "O debate para superar a 'crise do socialismo' está muito menos no peso da 'ditadura do proletariado', no regime do terror e na sua posterior degeneração expressa nos regimes stalinistas (que tem causas bastante compreensíveis e evidentes), do que na necessidade de desenvolver a psicologia de massas do socialismo, a educação, a autonomia individual que respeite a coletividade e a individualidade dentro daquela, que combata a apatia, a repressão moral-sexual e o espírito de rebanho. Os problemas do 'socialismo' expressos no século 20 – tal como a sua degeneração em ditadura stalinista – é causa ou consequência do espírito de rebanho presente em grande parte da massa? Quem pode afirmar seguramente qual dessas duas opções é a preponderante? É justamente esta problemática que está colocada para a futura geração de revolucionários que poderá superar esta crise, e não os olhos no passado que condena as vitórias do proletariado e exalta o espontaneísmo. É saber como casar a direção política das massas com o seu espontaneísmo, sem castrá-lo ou oprimi-lo, porém, sem deixá-lo correndo atrás da própria cauda ou o que é ainda pior: canalizado e dirigido pela burguesia! São precisamente estas questões que a burguesia quer esconder dos trabalhadores, lançando preconceitos anti-partido, anti-organização e anti-bolchevique".
Desculpe o texto longo. Sei que preciso ser mais sucinto, mas espero que tu entenda e, principalmente, reflita sobre tudo isso.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2020
O neofascismo não foi derrotado!
A militância
de esquerda comete dois erros centrais na atual conjuntura: ou pensa que a
eleição do milionário democrata, Joe Biden, representou uma vitória sobre o
projeto neofascista; ou pensa que
vivemos num regime democrático-burguês comum, menosprezando a ascensão da
direita neofascista.
Já analisamos nesse blog o fenômeno
internacional do neofascismo,
afirmando se tratar de “um movimento
criado pelo imperialismo decadente, os EUA e seus satélites, para a manutenção
do seu domínio mundial e dos seus mercados, ameaçados por China e Rússia.
Assume variadas formas de acordo com os seus interesses geopolíticos.
Assemelha-se ao fascismo clássico pelo terrorismo de Estado ou pelo terrorismo
mercenário [seletivo], pela xenofobia, racismo e um conservadorismo radical.
Como todo fascismo, é um movimento antiproletário e anticomunista. O
neofascismo é o abre-alas da burguesia imperialista, usado quando necessário
para concretizar suas políticas econômicas. Apesar de disseminar ódio,
preconceito, fake news, dando justificativas para guerras, assassinatos e
ditaduras militares, pode conviver com instituições democrático-burguesas”[i].
Como já foi dito, o neofascismo também se aproveita de todas as falhas, da impunidade e
do jogo de hipocrisia das instituições e da legislação da democracia burguesa.
Sabe fazer isso muito bem, vendendo tais práticas como “anti-sistema” e
discursando contra o “politicamente correto”. Muitos trabalhadores julgam que
exatamente por isso Trump e Bolsonaro “falam a verdade”, enquanto os demais
políticos “não falam o que realmente pensam”[ii].
Parte da esquerda não reconhece nenhuma
diferença essencial entre a direita tradicional (o “centrão”) e o movimento
dirigido por Trump, Steve Bannon e Bolsonaro. Querem um regime militar típico,
com o fechamento das instituições democrático-burguesas, tipo o nazi-fascismo
europeu ou as ditaduras latino-americanas inauguradas a partir de 1964. Os
fenômenos históricos não se repetem e há que se analisar as minúcias da nossa
conjuntura muito cuidadosamente. Até porque, sem reconhecer a existência do neofascismo e a sutileza dos seus
métodos, será impossível combatê-lo com sucesso[iii].
A esquerda reformista, por sua vez, vende
a ilusão de que é possível derrotar a direita neofascista pela via eleitoral.
Não apenas não vê nenhum problema nisso, como passa a apoiar acriticamente
qualquer candidatura, tal como a do imperialista Joe Biden nos EUA. Com isso,
não está derrotando o neofascismo, mas ajudando a consolidar o ciclo de ilusões
das eleições burguesas, enquanto o neofascismo vai se regenerando do desgaste
como “oposição”, voltando, momentaneamente, “para o armário” – isto é, para as
profundezas do inconsciente coletivo, de onde voltará mais forte e mais
disfarçado assim que a classe dominante lhe chamar quando estiver novamente em
apuros.
Sobre a “derrota” de Trump nas eleições – o que, obviamente, tem algumas consequências sobre o governo Bolsonaro –, cabem as notas reflexivas abaixo:
1. Trump é o representante maioral do neofascismo (conjuntamente com o seu principal ideólogo, Steve Bannon). A essência dos seus métodos manipulatórios consistem em misturar elementos da democracia burguesa com afirmações e ações autoritárias, reacionárias e, até mesmo, fascistas no sentido clássico.
2.
O presidente estadunidense derrotado nas eleições de novembro fez campanha
contra a “fraude” do sistema eleitoral ianque – que é bastante bagunçado e
arcaico. Pretende, com essas denúncias, se demonstrar como “antissistema” e
“antipolítica oficial” – isto é, como “aquele que fala a verdade” enquanto os
outros políticos calam.
Contudo, é preciso dizer que Trump foi eleito pelo mesmo sistema problemático e “fraudado” que ele critica agora. Tal sistema eleitoral “funciona” assim a séculos, mas Trump lembrou da “fraude” casualmente nas eleições que perdeu. Sobre isso a esquerda reformista não falou absolutamente nada.
3.
A grande mídia burguesa estadunidense fez campanha aberta contra Trump,
inclusive cortando os áudios de seus discursos pós-derrota, afirmando se tratar
de “mentiras descaradas”. Hipocritamente, a mídia burguesa também só lembrou
que ele mente descaradamente agora que não precisa mais dele. Grande parte da
esquerda festiva ficou muito feliz com tal ação “sensata” da mídia burguesa,
dizendo que a brasileira deveria repetir o mesmo com Bolsonaro.
No entanto, é importante frisar que tal
ação é seletiva e pontual e certamente será utilizada politicamente pelo neofascismo. Muitas e muitas vezes Trump
mentiu descaradamente e a mídia burguesa não apenas não fez nada, como
amplificou tais mentiras, o deixando mentir livremente e sendo conivente com
uma série de barbaridades.
Tal conduta midiática é conjuntural e tem
a ver com a reconstrução do regime, amplamente desgastado pelas ações e pelos
discursos do governo Trump. No momento em que o imperialismo ianque precisar
novamente das ações mais enfáticas e decididas do neofascismo, certamente fará
ouvidos moucos e deixará os “mentirosos patológicos” voltarem a mentir imbuídos
de poderes estatais.
Da mesma forma, o neofascismo tirará sua casquinha de tal condução midiática conjuntural para reforçar uma imagem de um “candidato antissistema” perseguido pela mídia oficial, tendo “suas verdades” caladas por ela. Ou seja, continuará denunciando a mídia burguesa enquanto que a esquerda reformista cala e concilia com ela.
4.
O neofascismo não foi derrotado, nem
poderia ser via eleições burguesas. Joe Biden vai reconstituir parte da noção
liberal tradicional, se contrapondo a Trump, mas conservando o essencial da
política econômica e do sistema. O mesmo aconteceu no Brasil após as eleições
municipais, com o “centrão” (a direita tradicional) entrando em cena para se
vender como alternativa aos radicalismos (de “esquerda” e da direita bolsonarista).
Neste ínterim, longe do desgaste que o poder ocasiona e surfando numa “oposição” de ocasião, Trump, Bannon e toda a corja neofascista trabalharão, às vezes silenciosamente, às vezes abertamente, para retornar ao poder. O capitalismo atual necessita dos ciclos “eleitorais” que alternam métodos liberais “institucionais” – baseados na democracia burguesa – e neofascistas. Esta alternância ajuda a aplicar e consolidar seus projetos – sobretudo aqueles que apontam para a uberização da economia.
5.
A derrota eleitoral de Trump certamente enfraquecerá o projeto neofascista de Bolsonaro, mas não o
derrotará a longo prazo, quando poderá ser acionado novamente ao sabor das
conjunturas. Uma vez que uma parte da esquerda revolucionária menospreza ou
ignora tais métodos de manipulação da psicologia de massas, afirmando ser um
governo “quase normal” da democracia burguesa, o neofascismo não pode ser desmascarado, nem derrotado. A
esquerda eleitoral, por sua vez, agita que as eleições de 2022 podem derrotá-lo
no Brasil com a eleição de um projeto de “esquerda” (tipo PT, PCdoB e Psol) ou
mesmo com um governo “liberal”, do tipo dos partidos do “centrão”.
O projeto inicial do neofascismo já foi concretizado. Qual
seja? Desmoralizar e demonizar a "esquerda" eleitoral, tipo
Democratas nos EUA e PT/PCdoB no Brasil, para torná-la inviável e inaceitável
(já que vencer o lulismo eleitoralmente pelos modos “democráticos” seria muito
difícil) e quebrar o gelo inicial da aplicação das “reformas” que introduzirão
a uberização na economia. Tais
objetivos já foram atingidos parcialmente, por isso o trumpismo e o bolsonarismo
(ou seja, o neofascismo) podem ser momentaneamente
deixados de lado para serem invocados mais à frente. Além disso, um dos
principais motivos que levou ao surgimento do neofascismo foi a necessidade de novos métodos de sabotagem e
dominação internacional para fazer frente aos mercados ameaçados por China e
Rússia. Tais ameaças não foram derrotadas – aliás, nem chegaram perto de sê-lo
–, por isso o neofascismo seguirá
latente até as próximas necessidades da burguesia imperialista estadunidense,
passada esta ressaca histórica inicial.
Quem afirma que o neofascismo foi derrotado ou que ele pode ser derrotado via eleições em 2022 apenas está ajudando a reforçar as ilusões no sistema. Como foi falado, o capitalismo precisa desta alternância aparente de poder para concretizar seus ajustes visando uma nova forma de acumulação privada e de “autorracionalização”[iv].
REFERÊNCIAS
[ii] Idem.
[iii] Idem.
[iv] Ver: http://conscienciaproletaria.blogspot.com/2020/03/coronavirus-crise-capitalista-e-o.html (capítulo V).
sábado, 12 de dezembro de 2020
Comparações de análises sobre as consquências da transnacionalização do capital
O escritor português, João Bernardo, nos afirma que torna-se cada vez mais patente o surgimento do que ele denominou de "Estado amplo"; isto é, uma estrutura social, política e econômica hegemonizada pelos monopólios e trustes internacionais, que não reconhecem os limites das fronteiras e legislações nacionais, em contraposição ao que ele chamou de "Estado restrito", que é o Estado "tradicional", com suas instituições políticas circunscritas ao território nacional, mas subordinadas e dependentes deste poder econômico superior. Assim, ocorre aquele fenômeno bizarro onde uma empresa transnacional tem um PIB maior do que um Estado nacional, como é, por exemplo, o caso da GM em comparação à Bolívia.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2020
Os pequenos detalhes são sempre os mais importantes
Àquilo que lembramos falta o traço duro do fato. Para nos ajudarmos, criamos pequenas ficções, cenários altamente sutis e individuais que possam esclarecer e modelar nossa vivência. O acontecimento recordado torna-se ficção, uma estrutura feita para acomodar certos sentimentos.
Jerzy Kosinski
quinta-feira, 10 de dezembro de 2020
Medo de voar e o verdadeiro sexo frágil
No livro Medo de Voar, da escritora norte-americana, Erica Jong, publicado em 1973, podemos encontrar uma série de reflexões riquíssimas sobre casamento, monogamia e relações humanas (dentre outras não menos importantes). Nele, a personagem principal se encontra dividida entre o amor por dois homens diferentes que sabem estar em um triângulo amoroso e numa espécie de "relacionamento aberto" — elemento constitutivo dos relacionamentos modernos, embora ainda pouco explorado pelos romances. Ela também aborda, de uma forma inusitada e profunda, a questão da impotência masculina.
Por exemplo: "a humilhação sexista suprema: o cacete que se deita. A arma suprema, na guerra entre os sexos: o cacete mole. A bandeira do inimigo: o cacete a meio-pau. O símbolo do apocalipse: o cacete de ogiva atômica que destrói a si mesmo. Era essa a desigualdade básica que nunca poderia ser consertada: não que o homem fosse dono de uma atração maravilhosa a mais, chamada pênis, mas que a mulher era dotada de uma pomba maravilhosa, enfrentando qualquer tempo. Nem tempestade, nem granizo, nem escuridão da noite conseguiam intimidá-la. Estava sempre ali, sempre pronta. Coisa das mais apavorantes, quando se pensa bem. Não admira que os homens odiassem as mulheres. Não admira que tenham inventado o mito da insuficiência feminina".
Isso explica muito sobre a nossa sociedade patriarcal e fálica (e sobre o bolsonarismo em particular). O dinheiro, o cartão de crédito, a casa luxuosa, o acelerador do carro são os compensadores da frustração sexual não reconhecida e sequer refletida na consciência. Como o prazer não vem dos "canais naturais", resta buscá-lo na compensação da riqueza material, no ódio sadomasoquista, na humilhação do outro, na raiva despejada incontidamente (na política, nos colegas de trabalho, nos vizinhos, na suposta "inferioridade" social dos outros).
Na verdade, Jong aponta que a potência sexual está com a mulher (o suposto "sexo frágil"); e não com o homem. Ela afirma: "Nem tempestade, nem granizo, nem escuridão da noite conseguiam intimidá-la". Tal alusão à disposição sexual da mulher em comparação a do homem deixa bem claro que este é o verdadeiro e único sexo frágil, que sofre com todo tipo de intimidações que tenham reflexos sobre o desempenho do seu cacete a meio-pau.