domingo, 6 de março de 2022

O discurso de Putin e a política bolchevique de autodeterminação das nações oprimidas

Vladmir Putin durante discurso pronunciado em 21 de fevereiro de 2022. Leia o discurso na íntegra clicando aqui

Em um discurso recente – pronunciado em 21 de fevereiro de 2022 –, que antecedeu a invasão da Ucrânia, Vladmir Putin fez diversas menções à política bolchevique de autodeterminação das nações oprimidas. Todo o seu discurso foi construído em cima da “revisão” desta política, tão cara aos bolcheviques, quanto aos revolucionários internacionalistas em geral.

         A essência do discurso é abertamente anticomunista; e isso fica evidente desde o início, quando Putin atribui a culpa da “criação da Ucrânia moderna” aos “bolcheviques”.  Ele dá a entender que o processo de surgimento deste país teria sido uma criação artificial do governo de Lenin, feito de forma arbitrária e “rude com a própria Rússia”. O autocrata ainda tem a empáfia de dizer que Lenin e os bolcheviques “não tinham perguntado nada aos milhões que moravam lá”, como se ele perguntasse algo à classe trabalhadora russa e ucraniana nos dias de hoje.

         Depois, Putin nos informa que o território da Ucrânia foi formado por uma política de anexações e concessões feitas por Stalin, Kruschev e outras lideranças soviéticas – inclusive tomando territórios da Polônia e da Hungria –, para logo a seguir dar atenção especial “ao período inicial de formação da União Soviética (URSS)” – eis aí a sua verdadeira intenção!

         A intencional salada de frutas ideológica de Putin proclama que Stalin supostamente teria dado amplos poderes administrativos à Ucrânia, quando na verdade representou o oposto. A seguir, Putin afirma que em função desta política de “amplos poderes” houve divergências entre os bolcheviques sobre o tema, o que é verdadeiro, embora ele não nos diga nada de concreto sobre que divergências seriam essas. Mais adiante, contradizendo-se totalmente em relação à fala anterior, ele afirma que a “ditadura stalinista”, “o terror vermelho” – lembrando que o próprio Putin foi uma cria da KGB (a polícia secreta stalinista) – e o “sistema planificado da economia nacional”, transformaram a “soberania das repúblicas soviéticas” (das quais a Ucrânia fazia parte) em uma mera formalidade, pois, na prática, se tratava de um regime “estritamente centralizado e absolutamente unitário”. Qual dos dois discursos vale?

         No entanto, o que Putin realmente pretendia com o discurso aparece na sequência, quando ataca a política bolchevique de autodeterminação dos povos, proposto pelo governo revolucionário de Lenin saído da revolução de 1917, e que vigorou até a ascensão ao poder da burocracia stalinista, mantendo-a como uma mera formalidade “leninista”, uma saudação à bandeira, até ser renegada completamente com a restauração do capitalismo em 1991, quando a Ucrânia desmembrou-se tornando-se mais uma república burguesa.

 

O nacionalismo grão-russo de Putin escondido sob o ataque aos interesses nacionalistas de outros – e o seu desejo de permanecer no poder a qualquer custo!

         Para Putin, a política bolchevique de autodeterminação dos povos seria uma invenção artificial para “satisfazer ambições nacionalistas ilimitadamente crescentes nos arredores do antigo império”. Isso é uma mentira completa!

         Os diversos povos subjugados pelo império czarista almejavam a independência política – daí advém tal proposta dos bolcheviques. Putin sabe perfeitamente disso, mas tenta esconder este desejo social afirmando que na Ucrânia “existem laços de sangue, de família, de cultura, de história”, até mesmo – pasmem! –, de “espírito”. Portanto, não haveria razões para a Ucrânia não fazer parte da Rússia, já que sua “independência” seria, segundo Putin, uma “invenção artificial” da política bolchevista de autodeterminação das nações, imposta nos anos iniciais de formação da URSS. Não bastasse essa lambança teórica intencional, Putin iguala a política de Lenin saída da revolução de 1917 com a política da burocracia stalinista que culminou na restauração capitalista, levando à formação da Comunidade de Estados Independentes (CEI), tal como se fossem a mesma coisa.

         Para Putin, este política representaria uma concessão desnecessária de Lenin aos “ambiciosos nacionalistas” que só causariam danos à Rússia. É por trás de afirmações como esta – não contestadas pormenorizadamente pela “esquerda” atual – que Putin esconde todo o seu nacionalismo e orgulho grão-russo, alimentado pelos seus interesses expansionistas dentro do capitalismo e do mercado mundial – sobretudo no leste europeu.

         Durante a maior parte da existência da URSS ela esteve fora do mercado mundial e isolada – seja por iniciativa da própria burocracia soviética, seja por imposições do imperialismo. A partir dos anos 1970, com a reabertura política e econômica da China (pós Deng Xiaoping); e nos anos 1990, com a reincorporação da Rússia ao mercado mundial, o papo é outro. Atualmente, ambos países não estão apenas dentro do mercado mundial, mas possuem as maiores reservas de dólares! Por isso temem pouco as ameaças de sanções por parte do imperialismo estadunidense. A força gravitacional da China, por sua vez, já sugou a Ásia e agora suga a África, a Europa e a América Latina, secundarizando ou mesmo isolando os EUA – esta é o motor das provocações políticas e militares do governo Biden contra a Rússia e, secundariamente, contra a China. Enquanto isso, os problemas sociais internos e a dívida pública ianque só aumentam. Como possuem o monopólio da impressão do dólar, “resolvem” o problema imprimindo mais dinheiro e mandando a inflação para o resto do mundo – em especial, para o Brasil.

A Rússia controla mercados importantes de commodities (como o de petróleo e o de gás natural). É o pesadelo dos capitalistas ianques. Desde o início do século XX não há mais livre mercado. Vemos apenas guerra entre monopólios, escondido sob políticas “imparciais” dos seus respectivos governos. As ameaças de bloqueios econômicos e sanções levaram o governo de Putin a declarar que todas elas devem voltar-se contra o Ocidente, dado que apenas encarecem o gás natural para a Europa e não permitem que os EUA suplante imediatamente o fornecimento russo. Termina, assim, por criar uma crise energética e um impasse no continente europeu. O que sobra é guerra de (des)informação, comercial, de sabotagem; além de provocações para que Rússia e China respondam, justificando campanha de ataques midiáticos, políticos, econômicos e militares.

         Putin não pode assumir seus reais interesses nacionalistas, que convertem-se em uma forma de imperialismo não apenas sobre a Ucrânia, mas a sede ilimitadamente crescente por ganhar outros mercados – sobretudo o europeu. Para isso, precisa recorrer ao velho método de obscurecer intenções, acusando os outros daquilo que realmente é. Seu nacionalismo é o motor de um imperialismo crescente, ainda que, no momento, totalmente dependente do amparo chinês; e uma maneira de esconder o seu desejo desesperado de permanecer no poder precisamente a qualquer custo – pelo menos, até 2036! Em seu discurso “realista”, os bolcheviques seriam meros arrivistas e Putin, este sim, um exemplo de integridade e coerência. Seu projeto de poder é altruísta e pensado para o “bem comum”, sem falsificações, substituições de conceitos ou manipulações da consciência pública (estes são os adjetivos com que o nosso nobre aspirante a czar moderno qualifica os “bandidos bolchevistas”). Estar no poder até 2036 – com possibilidade real de prorrogação do seu mandato inquestionável – seria uma mera casualidade.

         Para Putin, a política de autodeterminação dos povos não seria algo refletido e pensado pelos bolcheviques, pelo menos, desde 1909, mas concessões territoriais oportunistas e demagógicas para criar um novo equilíbrio político visando permanecer no poder “a qualquer custo”. O fato desta bandeira aparecer no programa bolchevique desde 1903 – ou seja, muito antes da tomada do poder em 1917 –, e num artigo de polêmica com a social-democracia alemã em 1914, são reles detalhes, passíveis de “esquecimento”.

 

Por que Putin quer apagar Lenin?

         Vladmir Putin ironiza que os ucranianos, agradecendo o “presente de Lenin” com a política de autodeterminação, agora destroem seus “monumentos na Ucrânia”. A vaga neofascista não tolera qualquer menção ao “comunismo” e também alimenta o mais vil sentimento anti-russo. Contudo, se os ucranianos colocam abaixo estátuas de Lenin no seu país – em sua maioria construídas pela burocracia stalinista como forma de esconder a sua total ausência de “política leninista” –, Putin quer demolir a herança teórica de Lenin que tantos inconvenientes lhe causa, dado que evidencia sua política nacionalista grão-russa.

         Para Lenin“os grão-russos na Rússia são a nação opressora”[1].

          E complementa: “A formação de um Estado nacional autônomo e independente continua a ser por enquanto na Rússia um privilégio somente da nação grão-russa. Nós, proletários grão-russos, não defendemos privilégio algum, não defendemos também este privilégio[2]. (...) Qualquer burguesia, quer na questão nacional ou privilégios para a sua nação, ou vantagens exclusivas para si (...). O proletariado é contra quaisquer privilégios, contra qualquer exclusividade. Exigir dele o ‘praticismo’ significa navegar nas águas da burguesia, cair no oportunismo”[3].

          E assim Lenin justifica a política de “independência da Ucrânia”: “são precisamente as condições históricas concretas da questão nacional da Rússia que tornam no nosso país especialmente urgente o reconhecimento do direito das nações à autodeterminação na época que atravessamos”[4]. Concluindo que “nesta cadeia de acontecimentos só um cego pode deixar de ver o despertar de toda uma série de movimentos nacionais democrático-burgueses e de aspirações à formação de Estados nacionalmente independentes e nacionalmente homogêneos. Precisamente porque e só porque a Rússia, juntamente com os países vizinhos, atravessa essa época, é que nos é necessário o ponto relativo de direito das nações à autodeterminação no nosso programa”[5].       

Vladmir Putin não é cego. Ao contrário. Vê bem com as lentes da “nova” burguesia russa e também demonstra bem o que significou a restauração do capitalismo na ex-URSS. Com as mãos livres para traçar a política que desejar, aponta para uma estratégia nacionalista de dominação e expansão. Certamente a época histórica em que Lenin escreveu o referido artigo – 1914 – não guarda semelhança alguma com a atual situação da Ucrânia. Vivemos neste início do século XXI um movimento provocador insuflado pelos EUA que nada tem a ver com um “movimento democrático-burguês de libertação nacional”, mas a ojeriza de Putin à política revolucionária expressa por Lenin demarca a divisão entre a compreensão proletária e a compreensão burguesa da autodeterminação das nações oprimidas. Mais do que isso: expressa as intenções do imperialismo nascente russo, que está sendo instigado a sair da toca e se apresentar ao público pela pressão do imperialismo decadente, os EUA, que não pode agir de outra forma.

         Esta diferenciação histórica é fundamental, não apenas para demonstrar a diferença abismal entre a Rússia soviética dirigida por Lenin, e a Rússia de Putin no seu neoimperialismo em ascensão. A decadente burguesia estadunidense, experiente e lutando desesperadamente para manter sua hegemonia, aprende com a história (diferentemente da “esquerda”). Assim como ela se apropriou do discurso identitário para usá-lo contra o movimento proletário[6], bem como patrocinou “revoluções coloridas” pelo mundo (apoiadas entusiástica e vergonhosamente por parte da “esquerda” – incluindo a “revolução colorida” da Ucrânia em 2014, que foi, na verdade, um golpe de Estado patrocinado pelo imperialismo ianque[7]), agora apossa-se do discurso de “autodeterminação das nações oprimidas” para usá-lo contra os seus inimigos russos e chineses, ganhando, como sempre, o apoio acrítico da “esquerda” mundial e do movimento de massas que ela influencia.

         Nesse sentido – e somente nesse! – Putin é honesto: esta política bolchevique é um estorvo para o seu projeto de poder. Sua intenção é anexar territórios do entorno à grande Rússia para centralizar política e economicamente as decisões e continuar, junto com a China, a expansão econômica sobre o mercado mundial – em especial no mercado de commodities europeu. O recorte de classe fica evidente: seu objetivo é neutralizar fronteiras, não garantir nenhuma autonomia aos Estados do entorno, dado que “os fundamentos básicos, formalmente legais sobre os quais todo o nosso Estado foi construído, odioso, utópico, inspirado pela revolução”, são reles “fantasias absolutamente destrutivas para qualquer país normal” (trecho do seu discurso de 21 de fevereiro); preparando, assim, as bases para o expansionismo político e econômico, tendo o exército russo como retaguarda e vanguarda, a depender do momento – isto é: preparando as bases para sustentar a sua expansão neoimperialista.

         O que Putin entende por “país normal” e política “não-fantasiosa” e “realista”? A política burguesa, que anexa, que se expande, que esconde pretensões imperialistas – isto é, a retomada dos projetos do império czarista em moldes modernos, numa total dependência do bloco político e econômico com a China[8].

 

A provocação imperialista ianque feita através da OTAN abriu o precedente para a invasão da Ucrânia e a implementação do projeto de anexação

         É precisamente este discurso anticomunista e, em especial, antileninista de Putin que a “esquerda” acrítica endossa quando afirma a imperiosa necessidade de se apoiar a Rússia contra os EUA e a OTAN a qualquer preço – como se houvesse nisso algum resquício de antiimperialismo. Com essa impostura, não se liquida apenas a independência de classe, mas se ataca os fundamentos da política leninista que dá embasamento à própria independência de classe. Segundo Putin, os princípios do leninismo seriam “muito pior do que um erro”. Ver isto ser pronunciado pelos seus lábios é bastante compreensível, dado que ele raciocina como um burguês que pretende expandir seus negócios. Nesse sentido, o leninismo é um estorvo para qualquer projeto nacionalista/imperialista de expansão, dado que cria “constrangimentos” em relação à independência das nações oprimidas. O que não é compreensível é ver parte da “esquerda” levantando bem alto o projeto expansionista russo – capitalista e nacionalista –, cuja justificativa é um ataque frontal ao pensamento marxista.

         A acusação do governo russo de que a OTAN não apenas não se dissolveu, conforme foi prometido durante o período da restauração capitalista no início da década de 1990, como seguiu avançando em “cinco grandes ondas de expansão” no sentido de cercar a Rússia, incorporando países vizinhos numa tentativa de isolar o maior país do mundo, que é sempre um inimigo em potencial para o imperialismo ianque, é uma realidade (e tudo isso apesar dos “esforços” de Putin para integrar a Rússia na OTAN e no sistema Ocidental ao longo dos anos 2000). Também é verdade a denúncia que Putin faz da utilização do território ucraniano como “teatro de potenciais operações militares” estadunidenses contra a Rússia, transformando o país em um palco de provocações ininterruptas, além de depositário de investimentos militares, em armas e treinamento, de bilhões de dólares. Ou seja, a burguesia ucraniana e o seu governo fantoche dos interesses de Washington usam a “independência” da Ucrânia como base de operações para provocações contra a Rússia, visando ganhar algum tipo de lucro e vantagens. Isso não pode ser esquecido nem por um minuto.

         Tudo isso é uma triste realidade, cuja grande mídia Ocidental trabalha dia e noite para minimizar ou mesmo apagar completamente, buscando transferir, às vezes sutil, às vezes abertamente, os motivos da “guerra ucraniana” apenas para o governo Putin. Pretendem disfarçar a disputa imperialista escondendo as provocações e planos do imperialismo estadunidense, para direcionar a atenção do público apenas à figura de Putin, descontextualizando a situação e transformando-o num bode expiatório, depositária de todo o mal, bem como gosta e requer a mentalidade religiosa.

A nazificação do governo ucraniano é outro fato não só tolerado, mas apoiado, pelo Ocidente, que muitas vezes se desdobra em massacres à população que reivindica a integração com a Rússia na região do Donbass. Os relatos são assustadores e a grande mídia também não noticia absolutamente nada, ignorando a violação aberta das resoluções da ONU e da OSCE acordadas no tratado de Minsk. Putin aponta para todos estes problemas no seu discurso de 21 de fevereiro, além de exigir que a OTAN recue e retire as bases militares e o apoio logístico e financeiro ao governo títere ucraniano, mas nada disso é levado em consideração na “cobertura imparcial” feita pelo jornalismo mercenário da grande mídia Ocidental.

          No entanto, todos estes ataques não podem nos fazer fechar os olhos para qual política Putin pretende colocar no lugar de um suposto “Estado desnazificado”. O referido discurso analisado aqui é apenas uma pequena demonstração de como ele entende a conjuntura. A Ucrânia está prestes a sumir do mapa, engolida pela política expansionista de Putin. Já não há mais saída para o Mar Negro[9]. As pontes com o exterior estão sendo gradativamente cortadas sob o olhar dos EUA, que em parte não responde militarmente para não se desgastar politicamente, se escondendo atrás da campanha midiática mundial; em parte por não ter condições materiais. Que espécie de “luta anti-imperialista” ou mesmo de “novo mundo” pode surgir de um governo que prega abertamente contra o direito à autodeterminação das nações oprimidas? Seria esse o caminho ao mundo multipolar prometido por Rússia e China para o lugar do atual, dominado e controlado pelos EUA?

 

As sanções contra o governo Putin: quem paga a inflação e a crise econômica?

          Tal como no início da pandemia, agora a mídia Ocidental cria uma histeria em torno da invasão de Putin, omitindo, como falamos antes, o decisivo papel do imperialismo Ocidental. As mentiras e o sensacionalismo da mídia burguesa (Putin não é o único que conta mentiras) não têm limites. Cabe destacar aqui a tentativa de imputar a inflação brasileira à “guerra da Ucrânia”. As causas da inflação, do desemprego e da crise crônica da economia brasileira dizem respeito a um conjunto de fatores que não podem se resumir a esta “guerra”. Por exemplo: relação dólar-real, cuja impressão desenfreada da moeda norte-americana para injetar em bancos e grandes empresas[10] – sobretudo as de petróleo – são repassadas aos países neocoloniais. É um problema de dependência econômica que existe desde muito antes de qualquer “guerra na Ucrânia”. É uma política econômica permanente do imperialismo, assim como as “tenebrosas transações” resultantes do sistema financeiro operante no país, da farra da especulação com dívida “pública” e outras formas de agiotagem, sem mencionar as maiores taxas de juros do mundo, que deveriam ser um dos principais motivos de vergonha e revolta nacional!

A “guerra” deve tensionar a uma alta no preço das commodities – como o gás natural e o petróleo – na Europa e tem levado à desvalorização do dólar. Tudo isso tende a pressionar e desorganizar os mercados internos subordinados, como é o caso do brasileiro. Mas daí para a justificativa midiática de que a “guerra de Putin” é a principal causadora da inflação e do aumento do custo de vida no Brasil é de uma canalhice ímpar. O nosso país paga o preço de ser uma economia periférica e subordinada do capitalismo Ocidental, atualmente gerido pela gangue entreguista dos bolsonaros e guedes – esta é a principal razão das nossas mazelas.

         As sanções do governo estadunidense contra o governo Putin voltam-se contra o próprio Ocidente, intensificando a crise econômica que será jogada sobre as semicolônias. O discurso midiático serve como uma perfeita cortina de fumaça para esconder a crise e a decadência do imperialismo estadunidense, acusando a Rússia de uma instabilidade criada pela própria ação da OTAN no leste europeu. Talvez seja por isso que Putin e seus ministros têm chamado esta política de “suicida”.

          Em resposta às ameaças de sanções dos EUA, o presidente honorário do conselho para assuntos internacionais da Rússia, Sergei Karaganov declarou que “o Ocidente pode tentar nos intimidar com sanções devastadoras – mas também somos capazes de dissuadir o Ocidente com nossa própria ameaça de uma resposta diferente, que paralisaria as economias ocidentais e perturbaria sociedades inteiras”[11].

É entre esta guerra econômica e política dos monopólios autocráticos que a classe trabalhadora mundial se encontra – isto é, é exatamente aí que se encontram as pessoas comuns, completamente desorganizadas e desorientadas, esmagadas pela guerra das elites mundiais pelo controle da nova ordem.

 

A substituição da hegemonia mundial de um imperialismo por outro sempre traz crises e guerras

         Toda mudança histórica de hegemonia imperialista mundial leva a guerras e crises. Foi assim com as guerras mundiais e a crise de 1929, que precederam a substituição do imperialismo europeu – em particular, do inglês – pelo imperialismo estadunidense. A crise de hegemonia ianque, que se arrasta, pelo menos, desde meados da década de 1980, tende a levar a guerras e a crises econômicas mundiais, até que o(s) novo(s) imperialismo(s) se estabeleçam.

         Na medida em que está sendo jogada para um papel secundário no mundo, o imperialismo estadunidense vai arrastando para o buraco junto consigo tudo o que pode. O grau de irracionalidade das políticas dos governos dos EUA e das suas semicolônias; a economia baseada em investimentos militares – portanto, em forças destrutivas –, são realidades evidentes. A tendência permanente à queda da taxa de lucro, que não encontra solução nem em um parasitismo permanente do setor privado sobre o Estado, aponta para um impasse. A “saída” imposta pelo imperialismo ianque ao mundo está baseada em provocações militares, guerras comerciais e tarifárias, imposição do consumo do supérfluo e extorsões dos Estados neocoloniais nos mais diversos níveis. Um dos principais objetivos do imperialismo ianque na “guerra da Ucrânia” já foi atingido – ainda que possa ser revertido a longo prazo: a interrupção da construção do canal de abastecimento de gás natural Nord Stream II, que ligaria a Rússia diretamente à Alemanha através do Mar Báltico[12].

Enquanto a gangorra desce do lado norte-americano, que se debate para não ser alçado ao chão, inclusive com sabotagens nas mais diferentes esferas, incluindo golpes de Estados nas semicolônias (como foi o caso do Brasil em 2016); do outro lado, Rússia e China se alçam para cima, desviando-se das sabotagens e aproveitando as ofensivas estadunidenses. A pandemia de covid-19 foi um ponto marcante. A “guerra da Ucrânia”, que pode ter diversas consequências sobre a Europa e o mundo, está sendo outro.

          Tal como a China, que começa a falar com voz cada vez mais alta na diplomacia internacional, o governo russo engrossa a voz. Putin apresenta ao mundo a sua “doutrina de destruição construtiva”[13], que, apesar de ser vendida como “não-violenta” e restrita às provocações da OTAN, soa como uma proposta de remodelação do mundo ao seu entorno – sobretudo na Europa – segundo interesses grão-russos, evidentemente. É a OTAN que está na mira, mas o governo Putin se restringirá à ela?

          O porta-voz do governo russo, Sergei Karaganov, declara ainda que “quando chegar a hora de estabelecer um novo sistema de segurança europeu para substituir o existente, perigosamente desatualizado, isso deve ser feito dentro da estrutura de um projeto eurasiano maior. Nada de valor pode nascer do velho sistema euro-atlântico”[14].

Parece que, para o governo russo, “a hora” já chegou.

          Para o ex-diplomata britânico, Alastair Crooke, “Washington pretende ter uma ‘arma assassina’ direcionada a Moscou: sancionar chips semicondutores. ‘Isso seria o equivalente moderno de um embargo de petróleo do século XX, já que os chips são o combustível crítico da economia eletrônica’. Ambrose Evans Pritchard argumenta no Telegraph: ‘Mas isso também é um jogo perigoso. Putin tem os meios para cortar minerais e gases críticos necessários para sustentar a cadeia de fornecimentos do Ocidente para chips semicondutores’. Em suma, o controle de Moscou sobre os principais minerais estratégicos poderia dar à Rússia uma vantagem, semelhante ao domínio energético da OPEP em 1973”[15].

Vemos, portanto, que os EUA e a Europa não estão lidando com uma semicolônia, mas com um país que tem acesso e controle sobre cadeias produtivas mundiais, o que coloca a batalha em um outro patamar. Forças e limites estão sendo testados.

 

Sobre as palavras de ordem estéreis da “esquerda” e a “confusão” de sua propaganda

         A análise de conjuntura por parte da “esquerda”, por sua vez, é lastimável. Confusa, vacilante; pautada pelo apoio acrítico a um ou outro imperialismo – liquidando a independência de classe, que deveria se traduzir por uma análise lúcida e independente –, ou por uma abstração que beira a fantasia. Por exemplo: misturam elementos de propaganda e de agitação, quando exigem a saída das tropas russas da Ucrânia, que neste momento combatem o sistema de mísseis dos EUA instalados no seu território. Bradam que “tudo será resolvido pelos trabalhadores ucranianos e russos”; mas neste momento tanto a classe trabalhadora russa, quanto a ucraniana, estão desmanteladas, destruídas, sem direção, partidos ou organizações que possam colocar tais palavras de ordem em ação. Isto precisaria ser levado em consideração. O primeiro passo para se reorientar – e consequentemente tentar reorientar o proletariado – é colocar em ordem as nossas palavras de ordem e a propaganda revolucionária, trazendo uma narrativa que tenha os pés no chão e o norte na independência de classe.

          Anteriormente a maior parte da “esquerda” (LIT-PSTU, grande parte do PSOL – em especial MES e CST –, MRT/ED, dentre outros) apoiou a “revolução colorida” que derrubou o governo pró-Moscou de Yanukovich[16], abrindo caminho para os grupos neonazistas que espalharam russofobia pelos quatro cantos do país, massacraram as populações das regiões mais próximas da Rússia, como as do Donbass, e aplainaram o caminho para a vitória de Volodymyr Zelensky. Agora, colocam-se numa posição que tende apenas a condenar as ações da Rússia, ecoando em maior ou menor medida o frenesi da grande mídia burguesa, sem fazer o contraponto. As ações da Rússia são o resultado da pressão e do cerco das posições estadunidenses. É possível compreender (e até mesmo defender, quando necessário) a resposta militar russa à OTAN, sem prestar nenhum apoio político a Putin, nem condená-lo segundo os interesses Ocidentais.

A LIT-PSTU, como sempre, coloca-se abertamente do lado da política estadunidense, levantando um vergonhoso “Todo apoio à resistência do povo ucraniano - pela derrota da invasão russa e de Putin na Ucrânia” – para logo depois levantar um “fora as garras dos EUA, da OTAN e da União Europeia”[17] envergonhado, contraditório e delirante. O povo ucraniano está completamente desorganizado e apoiar esta “resistência” forjada pelos EUA é prestar-lhe um novo suporte político. Assim tem agido a “esquerda” fantasiosa, que liquida a independência de classe e ajuda a desorientar a classe trabalhadora brasileira e mundial.

         Já outros setores, como o PCO, a LBI, o portal Brasil 247, Pepe Escobar, dentre outros, ainda que eventualmente façam uma boa análise da conjuntura, prestam um vergonhoso apoio acrítico à Rússia de Putin, vendendo suas ações como um combate antiimperialista. Vimos qual é a posição de Putin acerca da autodeterminação das nações oprimidas e da “utopia”, do “ódio” ao Estado russo nascido da revolução russa de 1917. Se podemos compreender a ação russa como defesa às provocações e ações do decadente imperialismo estadunidense na Ucrânia, não podemos esquecer, nem por um segundo, das implicações de uma política de “destruição construtiva” baseada no rechaço à autodeterminação das nações oprimidas e do Estado operário saído da revolução de outubro de 1917. Isto é: não devemos baixar a guarda para Rússia e China em nenhum momento, nem nos furtarmos a nenhuma crítica em relação ao que pretendem colocar no lugar do domínio mundial norte-americano.

         A propaganda da “esquerda” confunde fatores essenciais e, de uma forma ou outra, leva água ao moinho de um ou outro imperialismo. Devemos reconhecer o direito da Rússia se defender das provocações imperialistas, sem prestar um grama político de apoio a Putin. As palavras de ordem, para não beirarem a fantasia, precisam estar alicerçadas na realidade, mesmo que não possam ser colocadas em prática agora – mas isso, infelizmente, não tem sido o caso até o momento.

         Ao contrário de Putin – e de grande parte da “esquerda” – é importante relembrar Lenin no que ele tem de melhor, como no direito das nações à autodeterminação: “Não importa que esta propaganda seja ‘não prática’, tanto do ponto de vista dos opressores grão-russos, como do ponto de vista da burguesia das nações oprimidas”[18].

          Mas que propaganda seria esta? Lenin se refere “a tarefa da agitação e propaganda cotidiana contra quaisquer privilégios estatais nacionais, pelo direito, direito igual de todas as nações, ao seu Estado nacional. De fato é precisamente esta propaganda, e só ela, que assegura uma educação verdadeiramente democrática e verdadeiramente socialista das massas”[19].

Através da sua doutrina de “destruição construtiva”, Putin quer colocar abaixo não apenas a real ameaça militar da OTAN em território ucraniano, mas a política de autodeterminação das nações levantada e defendida por Lenin. É assim que devemos compreender o seu discurso do dia 21 de fevereiro de 2022. Putin e Karaganov falam contra os “dogmas marxistas” e o “fim das liberdades civis ao povo” representado pelo “regime comunista”. Eles querem nos fazer crer que a doutrina de “destruição construtiva” irá criar um mundo melhor, mais harmônico e equilibrado, com “liberdades civis”.

Ao que tudo indica, eles pretendem substituir os “dogmas” marxistas e “liberais” pelos dogmas da mão de ferro da máfia burguesa russa contemporânea, com a nobre finalidade de aprofundar o capitalismo imperialista... sob nova direção!

          Existem dois discursos em jogo: o de Putin e o de Lenin. A classe trabalhadora consciente deve optar pelo de Lenin, para quem: “‘Não pode ser livre um povo que oprime outros povos’, assim diziam os maiores representantes da democracia consequente do século XIX, Marx e Engels. (...) E nós, operários grão-russos, penetrados pelo sentimento de orgulho nacional, queremos, aconteça o que acontecer, uma Grã-Rússia livre e independente, autônoma, democrática, republicana e orgulhosa, que assente as suas relações com os vizinhos no princípio humano da igualdade, e não no princípio feudal do privilégio, que humilha uma grande nação”[20].

   


Referências


[1] LENIN, Vladmir Ilitch. Sobre o direito das nações à autodeterminação (in Obras escolhidas, tomo I – página 523) Edições Progresso, Moscou, 1981.

[2] Idem (página 524).

[3] Idem (página 522).

[4] Idem (página 521).

[5] Idem (página 519).

[6] Ver: https://conscienciaproletaria.blogspot.com/2021/02/os-meritos-e-os-perigos-do-identitarismo.html

[7] Ver: https://lutamarxistablog.blogspot.com/2014/03/ucrania-palco-da-disputa-imperialista.html

[8] Ver: https://conscienciaproletaria.blogspot.com/2020/05/a-ascensao-mundial-da-china.html ; e: https://conscienciaproletaria.blogspot.com/2020/09/socialismo-com-caracteristicas-chinesas.html

[9] Ver: https://www.youtube.com/watch?v=akl0483_i6Y&ab_channel=TV247

[10] Ver: https://conscienciaproletaria.blogspot.com/2020/03/coronavirus-crise-capitalista-e-o.html

[11] Ver: https://greatgameindia.com/putin-doctrine-constructive-destruction/ ou em português: https://telegra.ph/A-nova-pol%C3%ADtica-externa-da-R%C3%BAssia-a-Doutrina-Putin-02-28

[12] Ver: https://www.youtube.com/watch?v=akl0483_i6Y&ab_channel=TV247 e ainda: https://www.poder360.com.br/europa-em-guerra/empresa-dona-do-gasoduto-nord-stream-2-pede-falencia/

[13] Ver: https://greatgameindia.com/putin-doctrine-constructive-destruction/ ou em português: https://telegra.ph/A-nova-pol%C3%ADtica-externa-da-R%C3%BAssia-a-Doutrina-Putin-02-28

[14] Ver: https://greatgameindia.com/putin-doctrine-constructive-destruction/ ou em português: https://telegra.ph/A-nova-pol%C3%ADtica-externa-da-R%C3%BAssia-a-Doutrina-Putin-02-28

[15] Ver: https://patrialatina.com.br/a-desconstrucao-construtiva-do-modelo-relacoes-da-russia-com-o-ocidente/

[16] Ver: https://lutamarxistablog.blogspot.com/2014/03/ucrania-palco-da-disputa-imperialista.html

[17] Opinião Socialista Nº630.

[18] LENIN, Vladmir Ilitch. Sobre o direito das nações à autodeterminação (in Obras escolhidas, tomo I – página 525) Edições Progresso, Moscou, 1981

[19] Idem.

[20] LENIN, Vladmir Ilitch. Acerca do orgulho nacional dos grão-russos (in Obras escolhidas, tomo I – página 565) Edições Progresso, Moscou, 1981

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

A Ucrânia como o atual front da disputa entre EUA X China e Rússia

Biden e Putin em teleconferência sobre a questão ucraniana

Foi com a “guerra da Síria”, em 2014, que a disputa pelo poder mundial entre os blocos liderados pelos EUA, por um lado, e China-Rússia, por outro, tornou-se mais evidente. A Ucrânia – região literalmente esmagada entre a Rússia e a Europa – representou desde sempre um dos principais palcos desta disputa[1].

         Agora ela volta aos noticiários do mundo com a manchete de uma “invasão russa”, porém, não falando nenhuma vírgula dos reais motivos desta tensão: a continuidade da luta pela hegemonia mundial entre os referidos blocos. O oferecimento de uma vaga na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) à Ucrânia por parte do governo norte-americano nada tem a ver com o interesse de cooperação, integração e defesa do povo ucraniano, mas de uma nítida provocação por parte dos EUA ao bloco liderado por China e Rússia, visando intensificar o tensionamento.

         O real objetivo por debaixo desta ação provocadora é criar dificuldades entre a relação econômica cada vez mais estreita entre Rússia, aliada preferencial da China, e a Europa – principal cliente da Gazprom, a gigante russa exportadora de gás natural. Como a venda de gás natural é a principal renda orçamentária do Estado russo, criar problemas diplomáticos com a Europa, ocasionando crises de abastecimento, de confiança e de preços, é o centro da estratégia ianque, sobretudo pressionando os países europeus a impor sanções econômicas ao governo de Putin, o que teria – dentre outras consequências – um efeito de encarecimento do gás russo (ou mesmo a supressão do fornecimento, a depender do êxito político-militar-diplomático-midiático ianque).

A Rússia é responsável por 43% do abastecimento de gás natural do continente europeu, sendo secundada pela Noruega, Oriente Médio e EUA[2]. Ela tornou-se a principal exportadora de gás para a Europa devido às grandes reservas naturais e os baixos custos de produção. Contudo, grande parte dos gasodutos russos passam pelo território ucraniano, o que explica a escolha do alvo norte-americano. É também, de certa forma, uma resposta ao movimento russo-chinês de 2020, que fechou um acordo na OPEP, visando manter os preços do barril de petróleo abaixo de 30 dólares. Esta ação capitaneada pela Rússia era uma resposta às sanções impostas ao país pelos EUA como fruto da guerra na Síria e na Ucrânia, em 2014 e, certeiramente, gerou uma profunda crise sobre as empresas petrolíferas estadunidenses, salvas, como sempre, com maciças injeções de dólares do Estado[3], o que gerou hiperinflação repassada para o restante dos países do mundo – em especial os semicoloniais, como o Brasil.

O pacote de sanções econômicas dos EUA contra a Rússia já está pronto, mesmo que nenhuma invasão militar da Ucrânia tenha acontecido até agora. Por outro lado, o governo russo denuncia as movimentações militares norte-americanas de cercamento ao território do país e exige a imediata retirada dos mísseis de longo alcance instalados em território ucraniano.


O confronto é contra o conjunto do bloco sino-russo e não apenas contra a Rússia

         As ações do governo dos EUA vão além da Rússia, ainda que ela seja neste momento o alvo principal. A Europa vem sendo disputada por projetos econômicos que não se resumem à questão do gás natural russo. A China, por exemplo, está patrocinando uma nova Rota da Seda que se estende dos rincões asiáticos até o norte da Itália e o centro da Europa Ocidental, incluindo o percurso pelo Oriente Médio e pela África. Até a Argentina declarou-se interessada em participar do ambicioso projeto econômico, ainda que esteja do outro lado do Atlântico[4].

         Este novo centro gravitacional econômico que ameaça sugar todo o seu entorno é o cerne das preocupações do imperialismo ianque, que pressente as suas consequências. As provocações norte-americanas na Ucrânia inserem-se na escalada de ataques econômicos, políticos, diplomáticos, midiáticos e militares para inviabilizar a construção destas pontes econômicas. A retirada das tropas militares do Afeganistão por Joe Biden no ano passado está dentro da lógica desta movimentação de peças no tabuleiro geopolítico mundial[5].

         Há uma característica interna no jogo político dos EUA: os republicanos centram seu fogo contra a China; os democratas contra a Rússia. No entanto, a finalidade é a mesma: dividir o bloco que está em franca ascensão econômica e representa a principal ameaça à hegemonia mundial dos EUA. Por isso, ambas retóricas internas de republicanos versus democratas, por mais divergentes que soem, na prática, se complementam (isso não quer dizer que o bloco sino-russo também não tire partido da divisão interna estadunidense). O principal objetivo da jogada dos EUA na Ucrânia, no entanto, é criar condições para impor sanções e prejudicar os negócios russos com os europeus que dependem da Gazprom. Ao enfraquecer a Rússia, atingem o conjunto do bloco sino-russo. A estratégia norte-americana quer também tensionar por uma nova redistribuição territorial da Europa, cujo modelo atual já não corresponde à correlação de forças do pós-Segunda Guerra Mundial.

         O governo ucraniano não respeita os “acordos de paz de Minsk” estabelecidos pelo próprio Conselho de Segurança da ONU e a OSCE[6] após a guerra no leste da Ucrânia, em 2014, pelo simples fato de que a pressão política estadunidense não o permite. O presidente fantoche da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, um verdadeiro títere norte-americano, faz jogo duplo. Ganha tempo em “acordos velados” com os russos, acena aos europeus, mas endurece a retórica apenas quando pressionado pelos EUA. No fim, a temida invasão russa não se confirma e vemos, até o momento, apenas uma caótica guerra de informações que tem como principal finalidade “abalar os mercados” – sobretudo o de petróleo e o de gás natural.

 

O papel nefasto da grande mídia Ocidental

         Parte fundamental da estratégia de dominação dos EUA está na desinformação através de propaganda, principalmente, pela grande mídia, vendida como “notícias imparciais”. Sejam as emissoras norte-americanas, sejam as suas sucursais neocoloniais, em especial na América Latina, vemos uma enxurrada de cinismo e manipulação sutil. Como sempre, todo o cenário internacional anterior é apagado e a crise ucraniana é colocada no centro de notícias sem contexto histórico.

         A disputa econômica é secundarizada ou mesmo escondida para por em evidência quase que exclusiva a “movimentação de tropas russas na fronteira ucraniana”. O núcleo da cobertura “jornalística” ocidental – em particular da brasileira – é o seguinte: “EUA dizem que Rússia pode invadir Ucrânia a qualquer momento, mas diplomacia segue possível”[7]. Isto é: tudo é apenas o resultado da ganância militar expansionista dos russos, mas as “democracias ocidentais”, lideradas pelos EUA e os países europeus, podem evitar a catástrofe da guerra sanguinária por vias diplomáticas.

         Neste tipo de cobertura, a provocação e a agressividade ianque são disfarçadas de pacifismo, dando-se destaque apenas aos interesses russos. Já os interesses estadunidenses são dissimulados ou totalmente escondidos. A elite brasileira e a sua grande mídia se colocam a sombra do poder ianque porque compactuam com o seu projeto de dominação, sendo sua sócia ultraminoritária.

         Alguns de seus setores voltados para a intelectualidade de classe média, como a CNN-Brasil, fazem uma análise um pouco mais refinada, embora não menos sutil e perniciosa. O mórbido Willian Wack, soldado midiático do império estadunidense de longa data, anuncia em tom solene: “China e Rússia fizeram questão de demonstrar ao mundo que o predomínio de uma só megapotência, os EUA, acabou. Os líderes de Moscou e de Pequim se reuniram na capital da China para dizer que Vladmir Putin tem razão, mas tem razão no quê? Na essência, em contestar a ordem mundial estabelecida até aqui pelos [norte] americanos. A ordem internacional que se estabelece agora deixou de ser unipolar, mas ficou bem mais perigosa”[8].

         Em síntese, Wack e a CNN apontam – sem o dizer honestamente – que a Rússia deveria submeter-se aos EUA na questão da Ucrânia, aceitando a OTAN e os mísseis nas suas fronteiras, bem como aceitar os seus projetos econômicos para a Europa e o mundo, dado que a ordem mundial unipolar ianque era mais “segura” – e até onde podemos concluir, supostamente “menos belicista” do que a ordem multipolar que pretendem impor China e Rússia.

         É este o jornalismo “imparcial” que a grande mídia brasileira tem professado.

 

China e Rússia são antiimperialistas?

         Setores da “esquerda” vendem o confronto de China e Rússia com os EUA como uma luta antiimperialista. Trata-se, na verdade, de uma luta pela hegemonia mundial, como bem disse o office boy norte-americano, Willian Wack, entre uma ordem unipolar e uma ordem multipolar, ainda que a preponderância desta ordem fique centrada especialmente na China.

         A China inevitavelmente torna-se o centro, dado o seu peso econômico, político e social. Ao contrário do que apontam seus defensores mais acríticos – como os “losurdistas”, Elias Jabbour e Jones Manoel, dentre outros –, cumpre o papel de um “imperialismo silencioso”, tipicamente chinês, dado que não cumpre os pré-requisitos militares apontados no “check-list” de Lenin. Ora, mas o imperialismo capitalista se dá, sobretudo, através de mecanismos econômicos. Mesmo que a China não faça imposições draconianas aos países que “ajuda” – tal como fazem o FMI e o Banco Mundial –, nem desencadeie guerras e invasões militares (ainda que já tenha invadido países no passado), isso não significa que não exerça uma forma de dominação, sutil e silenciosa, bem aos moldes chineses.

         O mesmo não se passa com a Rússia, que historicamente exerce uma pressão política e militar sobre as regiões do seu entorno, inclusive com anexações territoriais. Apesar da unidade com a China e o discurso multipolar –conveniente neste momento –, a Rússia luta pelos seus interesses exclusivamente nacionais, que, para se realizar, necessitam consolidar o bloco com o governo chinês. Não se pode conquistar a independência nacional no capitalismo sem expandir a influência econômica e política, o que leva necessariamente ao surgimento de um novo imperialismo. A elite russa atual é formada por uma máfia burguesa, imbuída do velho espírito de dominação czarista e da burocracia stalinista, só que agora revestido com discursos “mais modernos”.

         O “mundo multipolar” proposto por China e Rússia é, portanto, composto por mais centros, mas mantendo periferias. Como ele se baseia na manutenção das relações capitalistas e, sobretudo, pelos negócios, tal como o mercado mundial contemporâneo os compreende, não pode deixar de desenvolver características imperialistas, ainda que brandas, ocultas, disfarçadas com discursos de acolhimento. A situação de disputa pela hegemonia no mundo com os EUA e o próprio desenvolvimento econômico nacional autônomo colocam, inevitavelmente, certas práticas que desembocam, quer queiramos ou não, em “constrangimentos” imperialistas sobre países vizinhos e semicoloniais – como é o caso da Ucrânia.

         O debate da “esquerda” brasileira ainda está restrito a concepções tacanhas e obtusas: desde o apoio desavergonhado ao imperialismo estadunidense (como foi o caso de LIT-PSTU, UIT-CST-MES-Psol e MRT-Esquerda Diário) quando da malfada “revolução colorida” que derrubou o antigo governo ucraniano e abriu o caminho para o atual governo títere de Zelensky – ainda que no episódio atual, como não houve envolvimento “de massas” em novas “revoluções coloridas”, tenham ficado mais “neutros”[9]; até os que são entusiastas da ascensão chinesa e russa (tipo Pepe Escobar, mídia 247, dentre outros), professando a derrota do imperialismo norte-americano pelo bloco sino-russo – como se isso levasse a uma política de independência de classe e a real derrota do imperialismo capitalista; passando por aqueles setores da “esquerda” minoritária, composto por pequenos núcleos militantes, que fecham os olhos e, como os avestruzes, enfiam a cabeça na terra, se negando a interpretar a realidade internacional para tentar traçar uma política com independência de classe.

         O imediatismo economicista tem levado a “esquerda” a aceitar uma política ou outra, traçada geralmente pelos dois grandes blocos burgueses em disputa. Sabemos que a construção de um novo caminho com independência de classe é ainda ultra minoritário, tortuoso e difícil, mas o primeiro passo para a sua delimitação é não disseminar ilusões nas análises políticas e teóricas, procurando dar a devida dimensão do desafio histórico.

 

Referências


[1] Ver: https://lutamarxistablog.blogspot.com/2014/03/ucrania-palco-da-disputa-imperialista.html e https://lutamarxistablog.blogspot.com/2015/10/esquenta-nova-guerra-fria.html

[2] Ver: https://www.dw.com/pt-br/por-que-a-ue-precisa-da-gigante-russa-de-energia-gazprom/a-60691185#:~:text=A%20Alemanha%2C%20o%20maior%20consumidor,de%20seu%20g%C3%A1s%20da%20R%C3%BAssia. e: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-como-gasoduto-russo-de-us-11-bilhoes-dividiu-a-otan-e-ue-em-momento-de-crise/#:~:text=No%20momento%2C%20a%20R%C3%BAssia%20precisa,atrav%C3%A9s%20do%20territ%C3%B3rio%20da%20Ucr%C3%A2nia.

[3] Ver: https://conscienciaproletaria.blogspot.com/2020/03/coronavirus-crise-capitalista-e-o.html

[4] Ver: https://www.comciencia.br/a-nova-rota-da-seda-na-pandemia/ e também: https://www.brasildefato.com.br/2022/02/07/argentina-entra-para-a-nova-rota-da-seda-e-espera-us-23-7-bilhoes-em-investimentos-chineses

[5] Ver: https://conscienciaproletaria.blogspot.com/2021/08/houve-vitoria-anti-imperialista-no.html

[6] Ver: https://news.un.org/pt/audio/2015/06/1137541 ; https://pt.wikipedia.org/wiki/Protocolo_de_Minsk ; e, por fim: https://www.youtube.com/watch?v=sHPU4-U1emU&feature=youtu.be&ab_channel=TV247

[7] Ver: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2022/02/06/eua-dizem-que-russia-pode-invadir-ucrania-a-qualquer-momento-mas-diplomacia-segue-possivel.ghtml

[8] https://www.youtube.com/watch?v=bgdYirTul5I&ab_channel=CNNBrasil

[9] Ver: https://lutamarxistablog.blogspot.com/2014/03/ucrania-palco-da-disputa-imperialista.html e https://conscienciaproletaria.blogspot.com/2019/08/os-protestos-de-hong-kong-defendem.html

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

As forças destrutivas do capitalismo

A "nova" crise aberta entre EUA e Rússia na disputa pelo controle da Ucrânia demonstra a necessidade de uma reflexão acerca do poderio militar do imperialismo. Sabemos que a Rússia não fica muito atrás no quesito militar, porém, a economia mundial ainda gira em torno dos EUA — o que demonstra a sua responsabilidade, a despeito da rápida ascensão mundial da China, secundada pela Rússia.

Vejamos dois apontamentos muito importantes acerca dos "investimentos" militares nos EUA: "Em novembro de 1978, quando os EUA e a URSS estavam completando sua segunda rodada de conversações sobre os Tratados de Limitação de Armas Estratégicas, o Pentágono lançou seu mais ambicioso programa de produção de armas nucleares em 2 décadas: um orçamento quinquenal de defesa de 1 trilhão de dólares. Desde então, as fábricas norte-americanas de bombas vêm funcionando a plena capacidade. Na Pantex, a fábrica do Texas onde são montadas todas as armas nucleares dos EUA, foram contratados operários extras para perfazer um segundo e um terceiro turnos diários adicionais a fim de aumentar a produção de armas cujo poder destrutivo é alarmante" (Fritjof Capra, O ponto de mutação; Editora Cultrix, página 19).

Tais reflexões desoladoras são complementadas por Carl Sagan: "As pesquisas de opinião demonstram que muitos norte-americanos pensam que o orçamento da NASA é mais ou menos igual ao orçamento da defesa. Na realidade, todo o orçamento da NASA, inclusive as missões humanas e robóticas e a aeronáutica, equivale a cerca de 5% do orçamento de defesa dos EUA. Em quanto os gastos com a defesa atualmente enfraquecem o país? E mesmo que a NASA fosse totalmente desativada, o dinheiro liberado seria capaz de resolver nossos problemas nacionais?" (Carl Sagan, Pálido ponto azul, Cia. das letras, página 202).

Em síntese, o mundo capitalista trabalha para enriquecer e sustentar a economia estadunidense; e a economia estadunidense trabalha pelo espírito bélico e destrutivo permanente como estratégia de dominação mundial, para fazer a máquina girar. O caso das provocações e agressões recorrentes no leste europeu e no Oriente Médio não deixam margem a dúvidas. Desta forma, não é difícil compreender como a psique humana fica propensa a aceitar e incentivar a autodestruição em diferentes níveis e formas, inclusive de forma inconsciente... Os donos do mundo são como deuses da guerra sedentos de sacrifícios humanos no altar insaciável do lucro privado! 

Mesmo com todo o alarde provocado pelo discurso midiático centrado nas consequências da pandemia de covid-19, pouquíssimas pessoas apontam que os países imperialistas — tendo os EUA como carro chefe — atingem as maiores cifras de gastos militares, equiparando-se aos orçamentos dos anos da 2ª Guerra Mundial, da Guerra das Coréias e da Guerra do Vietnã*. Em 2021, após alguns anos de redução de verbas, o governo "democrata" de Joe Biden destinou ao orçamento militar a espantosa marca de 777 bilhões de dólares**, enquanto o país chafurda na crise econômica, repleto de problemas sociais. No capitalismo, tais "investimentos" não são feitos sem a espera de um retorno. Disto depende o funcionamento da "máquina econômica, política e social" do capitalismo na sua atual fase de desenvolvimento histórico. Isso inclui, evidentemente, tecnologia de espionagem e de "guerra híbrida": guerra de informações, de manipulações midiáticas e psicológicas — características da nossa época —, até uma eventual "guerra quente", se necessária e inevitável.

As escaladas de provocação e a busca por guerras, visando o retorno dos gastos militares, além da reconstrução do que foi destruído e a consequente luta desesperada pela manutenção da hegemonia geopolítica, são, como foi dito, as principais formas de fazer a máquina capitalista sobreviver atualmente. Em essência, é a fórmula que o capitalismo estadunidense encontrou para se manter como "primeira potência" desde meados do século XX. O povo sírio, líbio e ucraniano, neste início de século XXI, que o digam! Ainda que a desculpa para o aumento dos gastos militares seja a "ameaça chinesa", esses povos pagaram e pagam o pato da sanha militar imperialista, que ao que tudo indica, não vai sossegar até que a sua hegemonia mundial seja reconstruída ou que a sua máquina bélica seja definitivamente superada e destruída.




Referências_____________

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Apresentação do texto "Reflexões sobre a transição socialista" no canal Fronteira Vermelha

No dia 30 de outubro de 2021 foi realizado pelo canal do Youtube Fronteira Vermelha um debate sobre "as experiências socialistas atuais". Nele tivemos a oportunidade de apresentar o texto Reflexões sobre a transição socialista, publicado neste blog em 5 de outubro de 2021, ao qual julgamos trazer novidades teóricas importantes para o debate com a vanguarda brasileira.



sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

A autoestima do povo brasileiro e a estratégia revolucionária

 

Quando lemos as declarações e manifestos da esquerda brasileira – o que inclui este blog – percebemos uma certa tendência para a apresentação de estratégias mirabolantes e megalomaníacas. Até certo ponto é compreensível, dado que a tarefa de revolucionar um país do tamanho do Brasil é, de fato, um desafio gigante.

         Por este e outros motivos, a esquerda revolucionária lembra sempre das “grandes coisas” e esquece de observar com atenção as pequenas, como se uma coisa nada tivesse a ver com a outra. Fala em macroestruturas, em frentes políticas “anticapitalistas”, “antiimperialistas” e “antifascistas”; clama por reforma agrária, expropriação econômica, e um longo etc. Todos estes pontos são realmente muito importantes e devem entrar no vocabulário do povo pela insistência pedagógica da repetição. Porém, ela esquece de observar os sentimentos e a conduta do povo no cotidiano, como, por exemplo, o problema de sua autoestima.

Se ignorarmos certas carências subjetivas disseminadas em larga escala, como a da autoestima, o discurso padrão de “frentes” e de “expropriações” soará muitas vezes como frases ao vento, gritadas por carros de som e megafones, mas que não encontrarão ouvidos receptivos, porque serão detidos por pequenos bloqueios psicológicos sumariamente ignorados.

         O campo da psicologia de massas na formação, agitação e propaganda continua inexplorado. Só a grande burguesia neofascista aposta suas fichas nisso – com grande êxito, diga-se de passagem. Há um trabalho de propaganda para a reconstrução da autoestima do povo brasileiro, que não acredita no país e, consequentemente, em si mesmo. Pode parecer bobagem para os “marxistas ortodoxos”, mas essa é uma das questões subjetivas da psicologia de massas que têm sido decisiva.

         Desde as salas de aulas das escolas públicas, até os botequins de esquina, passando por inúmeros locais de trabalho e reuniões familiares país afora, pode-se perceber a mão pesada da ideologia burguesa, propagada, sobretudo, a partir da classe média, de que “o Brasil não tem jeito” e de que nada de bom pode nascer dele, a não ser corrupção, exploração, miséria, violência e roubo. Trabalhado cuidadosamente desde a grande mídia e por meio de muitos autores da “intelectualidade nacional”, esta noção é disseminada subliminarmente com diversas doses de veneno ideológico, até transformar-se em senso comum, passando de pai para filho, de irmão para irmão, vizinho para vizinho, colega para colega.

         A dissociação entre a economia voltada para o mercado internacional às custas de uma exploração predatória – praticamente desde 1500 – e a corrupção dos políticos, “do Estado”, do mercado e do setor privado (que corrompe os primeiros) é completamente apagada e escondida. A confusão veiculada todos os dias pelos noticiários neoliberais da grande mídia faz terra arrasada do debate público e do imaginário popular, deixando espaço apenas para os interesses empresariais privados – em especial o do agronegócio, o dos bancos e das transnacionais, que são vendidos mentirosamente como a salvação do país, quando são a real causa de seu atraso.

         Esta ideia de dependência e da inviabilidade do país está tão presente no imaginário popular que foi caçoada por Lima Barreto no seu conto Miss Edith e seu tio, onde é elucidada de forma bem humorada este culto quase religioso à tudo o que vem dos países do norte – neste caso, o respeito submisso dos residentes de uma pensão carioca a dois hóspedes da Inglaterra, pelo simples fato de serem ingleses. Lima descreve: “Os hóspedes acharam neles não sei o quê de superior, de superterrestre. Deslumbraram-se e encheram-se de um respeito religioso diante daquelas banalíssimas criaturas nascidas numa ilha da Europa ocidental”[i]. E, mais adiante, afirma que Miss Edith e seu tio – os hóspedes ingleses – “não se ligaram a ninguém na pensão e todos suportavam aquele desprezo como justo e digno de entes tão superiores”[ii].

         Mais tardiamente, celebrando o movimento popular de resistência cultural na década de 1980, Jorge Aragão comporia um samba que afirmará: “sabemos agora, nem tudo o que é bom vem de fora”[iii]. Apesar do esforço de Jorge Aragão para expressar um pouco mais de consciência da necessidade de superar este espírito de “vira-lata”, o povo brasileiro – e em especial sua classe média – ainda sustenta que tudo o que é bom vem de fora.

Uma vez que o povo abrace a ideia de que é inferior em todas as dimensões importantes da vida, não é necessário se preocupar com a resistência popular, dado que a guerra já está ganha de antemão e qualquer forma de mobilização se tornará muito mais difícil, sempre com o mesmo discurso de que “o Brasil não vale a pena”. É justamente assim que a grande burguesia brasileira deseja que o povo pense: é ela que cria esta realidade de miséria e submissão às potências estrangeiras, cultivando sutilmente a mentalidade correspondente. Existe um trabalho de base anterior, longo e extenuante, que precisa ser feito, com dedicação e afinco – e é justamente por aí que as organizações da esquerda revolucionária deveriam investir sua agitação e propaganda, para limpar este meio de campo.

         À esquerda revolucionária cabe o papel – dentre outros – de ser uma espécie de psicanalista social da psicologia de massas; isto é: usar sua propaganda para tornar consciente o estrago ideológico que foi plantado no inconsciente coletivo do país. O Brasil “tem solução” desde que supere e vença a sua classe dominante – a elite do atraso –, bem como supere o capitalismo, com sua economia totalmente dependente da tecnologia estrangeira e das suas finanças – e isso precisa ser dito diariamente, com todas as letras! Como se sabe, um trabalho pedagógico e psicanalítico leva tempo, e precisa pautar-se por uma longa repetição de temas e pautas. E o mais importante: é preciso ser coerente!

         De nada adianta continuarmos gritando palavras de ordem ao vento e, no geral, desconexas, desconsiderando a experiência e a realidade psicológica da massa, submetida e adestrada através da “ética do mercado”, com pitadas maquiavélicas da propaganda da grande mídia e da sua intelectualidade, que destrói completamente qualquer autoestima popular. Sem plantar uma nova semente, poderemos morrer propondo e clamando por frentes anticapitalistas, antiimperialistas e antifascista, mas nenhuma mudança substancial ocorrerá.

         Para isso acontecer, evidentemente, um passo importante a ser dado é que a esquerda revolucionária aprenda a ouvir, tentando entender a natureza contraditória do povo, sobretudo a partir dos subterrâneos das paixões, dos medos e das suas falas e compreensões cotidianas. Daí, então, poderá elaborar um programa e uma atuação prática que leve estes medos e confusões inconscientes em severa consideração, intervindo sobre eles para superá-los.

         Cai de maduro que para o povo se mobilizar visando uma revolução é necessário que supere essa mentalidade de baixa autoestima, de descrença nas possibilidades do país e nas suas próprias forças – isto é, que arranque estas ervas daninhas plantadas tão cuidadosamente pela elite nacional ao longo da história do país. A propaganda petista começou a trabalhar pontualmente certas questões relacionadas a isso, mas não foi além de uma visão “liberal de esquerda”, que é até onde vai o seu programa. À esquerda revolucionária cabe trabalhar cotidianamente esta baixa autoestima através de diálogos, formações, agitações e propagandas didáticas e pedagógicas permanentes.

Sem fazer o povo acreditar em si mesmo, no país e nas suas forças, não há revolução possível.

 


Referências


[i] BARRETO, Lima.  Miss Edith e seu tio in O homem que sabia javanês e outros contos. Ediouro, Rio de Janeiro, 1996 (páginas 74 e 75).

[ii] Idem.

[iii] Trecho do samba “Coisa de pele”, de Jorge Aragão e Acyr Marques.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Você comprou


Você comprou que era pro seu bem a privatização.
E comprou que era pro seu bem o aumento do imposto.
Você comprou que era pro seu bem dobrar a taxa para sair da cidade.
E achou justo que todo resto aumentasse.

Você comprou que era pro seu bem o aumento da luz e da água

E jurou que estava protegido pela lei arbitrária

Comprou que a educação deveria te garantir um bom salário, mas se a educação tivesse atingido seu objetivo, não restaria um que pensasse igual a ti do teu lado.

Você comprou uma mentira.
Acreditou que democracia era só o voto. Você comprou todo discurso midiático.
Você comprou coisas que não deveria ter comprado. Mas ainda restam as coisas que você precisa comprar e não pode.

Você não mais compra pão.

O gaúcho não mais come carne.

Você comprou tudo o que te contaram, mas não checou, não foi atrás, se conformou. E deu respaldo. Isso, por acreditar que o poder estava ao teu lado.



Rafaela Lima