terça-feira, 5 de outubro de 2021

Reflexões sobre a transição socialista

 Qual é a estratégia da revolução brasileira? – parte II


 “Não imagino que o futuro do comunismo esteja no trotskismo. Inclino-me a pensar que o desenvolvimento histórico transcende tanto o stalinismo como o trotskismo e tende para algo mais amplo. Ambos, porém, serão provavelmente ‘transcendidos’ de modo diferente. O que a União Soviética e o comunismo tomam do stalinismo é, sobretudo, a sua realização prática; sob outros aspectos, como métodos de governo e ação política, ideias e ‘clima moral’, o legado da era de Stalin é mais do que vazio. Quanto mais cedo for posto de lado, melhor. Mas precisamente sob tais aspectos, Trotski tem ainda muito a oferecer, e a evolução política dificilmente poderá transcendê-lo a não ser absorvendo tudo o que é vital em seu pensamento e aplicando-o às realidades que estão muito mais adiantadas e são muito mais variadas e complexas que as realidades conhecidas por ele”

Isaac Deutscher – O profeta desarmado.

 

 

1.

         A crise da “esquerda” e do movimento socialista, que remonta às revoluções do século XX, nos obriga a tirar conclusões inconvenientes, mas necessárias. A restauração do capitalismo e a derrota do movimento “comunista” soviético acabou com as ilusões de que a transição do capitalismo para o socialismo seria rápida.

         Ela envolverá muitas gerações, crises e rupturas. Não se contará por décadas, mas por séculos, tal como todas as outras transições históricas entre modos de produção. E isso, obviamente, ainda vai depender da política que será levada a cabo como estratégia para esta transição.

 

2.

         É difícil para qualquer pessoa ser parte de um projeto que não verá em vida, mas é neste tipo raro de formação de consciência que devemos apostar. Por certo, podemos ver e até mesmo desfrutar de determinadas tendências socialistas existentes hoje – contudo, ver e vivenciar uma sociedade socialista, somente as gerações futuras. É justamente essas tendências que são atacas e deturpadas pela burguesia e seu exército de serviçais, para que degenerem e se percam antes de vingarem.

         Toda a questão começa a se complicar neste ponto: não se trata de largar tudo e “ir curtir a vida adoidado”, tal como a maioria faz frente a conclusões duras como esta; isto é: abandonam a luta socialista em função do imediatismo e do espontaneísmo mais bárbaros. Se trata, justamente, de adaptar o trabalho político, teórico e prático, a esta escala de tempo, que é muito maior do que a vida individual de cada um de nós.

 

3.

         Todo problema começa aí: que tendências e tarefas devemos desenvolver a partir dessa compreensão? Muitas pessoas podem sugerir, convenientemente, que a melhor estratégia para essa conclusão angustiante é o programa reformista: isto é, se adaptar às eleições burguesas, disputando cargos e projetos dentro da institucionalidade burguesa.

         No entanto, as revoluções continuam sendo a locomotiva da história, sem o quê, nada de substancial muda! É um engano relacionar o reformismo com essa compreensão de uma transição histórica entre gerações como “lenta”. É lenta de um ponto de vista individual; mas de um ponto de vista coletivo, social, histórico, é relativamente rápida. Ocorre, como já apontou Isaac Deutscher, um conflito entre as forças revolucionárias e as “forças da tradição”, que são muito mais poderosas do que se supõe.

         Não apenas os processos revolucionários continuam sendo imprescindíveis como fonte de novas práticas e de renovação da criatividade política, como a defesa das conquistas políticas e teóricas destas experiências históricas são essenciais, dado que, sem elas, estaremos sempre fadados a cometer os mesmos erros e, apesar dos séculos de luta de classes, a andar para trás.

 

4.

         Talvez seja por medo disso que muitos ativistas e organizações políticas inteiras tornam-se imediatistas: isto é, avessos ao trabalho longo, penoso, que não dá nenhuma garantia de retorno em vida. Em contrapartida, não se trata de se tornar niilista, seja no sentido tradicional, seja no sentido nietzschiano. Isto é: ou prostrar-se e acomodar-se, sem fazer mais nada frente à realidade absurda em que vivemos; ou transformar-se em uma espécie de “religioso” que espera a vida após a morte – ou “após o socialismo” –, renunciando às tendências da vida viva diante dos nossos olhos.

         Não! Trata-se de levar seriamente em consideração o processo histórico, seus tempos e contradições, usando uma escala que lhe seja adequada e, sobretudo, realista!

 

5.

         O modelo soviético de “socialismo”, com o controle total do Estado, ignorando ou suprimindo totalmente o mercado, constituiu-se numa necessidade que correspondia à realidade russa, em particular à guerra civil, ocorrida entre 1919-1921. Com o seu término, Lenin e Trótski se aperceberam da impossibilidade de ignorar muitas das regras de mercado. Daí adveio a Nova Política Econômica (NEP, na sigla em russo). As principais conclusões acerca desta importante experiência histórica, que é solenemente ignorada ou formalmente compreendida por parte da “esquerda”, foram analisada no texto intitulado “Socialismo com características chinesas” ou capitalismo de Estado?, publicado neste blog em setembro de 2020.

         A luta pelo socialismo não poderá prescindir de uma economia de transição, conforme já analisado por Lenin e Trotski nos seus artigos referentes à NEP, bem como no texto Qual é a estratégia da revolução brasileira?, também publicado neste blog em agosto de 2018. Dito de outra forma: um partido ou organização revolucionária que se proponha a dirigir uma revolução socialista deverá administrar uma economia capitalista sem a grande burguesia, combatendo suas regras de controle de preços e de mercado (sobretudo o setor da burguesia que detém o controle sobre o sistema financeiro e as megacorporações).

 

6.

         É importante repetir que isso nada tem a ver com “reformar” a sociedade capitalista abrindo mão de uma revolução, mas de criar as bases para a sociedade socialista, que só poderá surgir das condições econômicas e materiais herdadas da sociedade atual. Para isso, devemos nos utilizar do velho método dialético, que consiste em criticar e superar o que há de ruim, e incorporar o que há de bom. A ditadura do proletariado continua tendo papel determinante nesta sociedade e economia de transição, assim como sempre teve nos períodos históricos passados.

         Desde a antiguidade, na sociedade greco-romana, por exemplo, as tiranias do século VI e I a.C. constituíram um período de transição crucial para novas formações sociais, como a pólis clássica[1] e a república plebeia romana. Sem um período de “tirania”, de terror sobre as antigas classes dominantes, bem como suas bases de sustentação “populares”, não foi possível a criação de uma formação social superior. As tiranias gregas representaram fases intermediárias necessárias de desenvolvimento: a nova legislação agrária e as inovações militares prepararam a pólis helênica do século V a.C.[2]

         O mesmo se passou durante o período das revoluções burguesas. A revolução inglesa de 1628-1688, a independência norte-americana de 1776 e a queda da Bastilha em 1789, enfrentaram de armas na mão o atraso, guilhotinando suas classes dominantes e estabelecendo um “regime do terror” que foi capaz de assegurar a transição para formações sociais superiores[3].

         A ditadura do proletariado deverá se utilizar de novos métodos, evidentemente, dado que os tempos são outros – mas não pode ser totalmente abandonada. Deve se valer do terror na estrita necessidade de enfrentamento às sabotagens e ataques da classe dominante derrubada do poder (o que, diga-se de passagem, é muito difícil de controlar e prever). Isso significa aprender alguma coisa com a história da URSS, do leste europeu e de Cuba, mas, sobretudo, com a revolução chinesa[4]. Mesmo uma experiência negativa como esta, que mescla elementos de stalinismo com o mercado, tem algo valioso a nos ensinar.

 

7.

         A ditadura do proletariado do futuro deve trabalhar com a hipótese de uma economia mista de transição, mas avançar muito além do debate meramente econômico. Incentivar o “empreendedorismo socialista” a partir de cooperativas e dos mais diversos tipos de associação da sociedade civil é decisivo, embora não possa, por si só, garantir o triunfo da nova formação socialista.

         É preciso que a ditadura do proletariado do futuro adentre o terreno das questões culturais, educacionais, psicológicas e midiáticas como pontos centrais de uma estratégia de guerra. A educação pública e a grande mídia precisam ser reorientadas para intervir nas discussões em grande escala acerca dos assuntos da psicologia de massas, como as questões emocionais e sexuais (combater o moralismo repressor, o espírito de rebanho e submisso, sem o quê, não é possível criar formas de gestão coletiva da economia e da política); além de apontar para outras formas de publicidade e de debate econômico. A arte deve assumir um papel educativo muito maior no sentido de apostar na sensibilização humana (e não como forma de manipulação emocional, tal como faz a indústria cultural hoje em dia).

 

8.

         No campo econômico há que se estabelecer a ditadura do proletariado contra a especulação financeira (algo impensável na China “comunista”). Hoje o capital financeiro paralisa conforme seus interesses especulativos o capital produtivo – não apenas no Brasil, mas no mundo todo. Há que se inverter essa roda, garantindo o florescimento dos mercados nacionais, no que o capital privado de pequena circulação tem papel decisivo no sentido da iniciativa econômica – isso não pode ser desprezado em nome de um “socialismo” tirado da cartola, como quer a “esquerda” ainda hoje profetizando o modelo soviético como sinônimo de socialismo.

         O enfrentamento necessário ao grande capital – sobretudo ao capital financeiro e o das megacorporações, que controlam toda a economia e o mercado mundial – é impossível sem a ditadura do proletariado. Ela deve garantir a soberania do próprio mercado interno de cada país, para que possa trabalhar numa futura integração regional com outros países no sentido da superação do mercado capitalista mundial e da criação de um mercado socialista comum, que deve ser regulamentado, e que seja mesclado com métodos de planificação e planejamento social nas áreas em que o mercado gerar desequilíbrios e desigualdades.

         Qualquer medida singela para mudar levemente a estrutura econômica brasileira, como a mera taxação das grandes fortunas e o enfrentamento às isenções e sonegações fiscais das multinacionais e do agronegócio, por si só, gerarão uma guerra civil e tentativas de violentos golpes de Estado. Portanto, quem abre mão da ditadura do proletariado abre mão de medidas econômicas singelas e básicas como estas. Quem as propõem sem a ditadura do proletariado, por via meramente eleitoral (como fazem o PT e setores do Psol), são demagogos ou suicidas.

 

9.

         O pensamento conformista pequeno-burguês e reformista surfa na onda pós-moderna que condena em qualquer situação a ditadura do proletariado como algo “moralmente errado e atrasado”. A ditadura do proletariado é, como vimos, uma necessidade histórica para transições de uma formação econômico-social a outra. Seguramente gerará inúmeros problemas e contradições, tal como se passou com a revolução francesa, russa, chinesa, cubana, etc. Porém, abrir mão dela é o mesmo que abrir mão desta transição.

         Deve-se, contudo, estabelecer alguns parâmetros bem nítidos acerca de onde aplicar a força em lugar da persuasão; e vice-versa. Qualquer tipo de sabotagem, feita direta ou indiretamente, deve ser enfrentada com base nos métodos da ditadura do proletariado, invariavelmente. Do contrário, é sucumbir antes mesmo de iniciar qualquer tipo de mudança. A ditadura do proletariado tem a principal finalidade de inspirar medo às forças reacionárias que lutam contra as mudanças e pela manutenção da ordem social antiga. Obviamente, ela não pode apostar tudo na força militar – tampouco militarizar a sociedade em setores e momentos desnecessários (tal como faz o modelo soviético, sobretudo já stalinizado). Deve investir, da mesma forma, na agitação, na propaganda, na educação, no esclarecimento de massas via grande mídia e sistema público educacional – apostar e incentivar, desde cedo na responsabilização social coletiva, na autogestão de pequenos e grandes empresas e setores da economia.

         Uma das espinhas dorsais da dominação burguesa atual está na grande mídia. Por isso a expropriação deste setor, criando uma poderosa emissora midiática pública, controlada por diversos canais populares é uma tarefa central. A esfera da grande mídia pode conviver com empresas privadas, mas estas devem ser total e publicamente regulamentadas, tendo o seu prazo de concessão relembrado periodicamente, com um tempo curto e revogável a qualquer momento.

         Alguns dos problemas chaves da ditadura do proletariado que permanecem são: como conseguir apoio de massas para a ditadura do proletariado? Como impedir que ela se burocratize? Como tornar essa ditadura preferível às ditaduras de direita que, inegavelmente, exercem certo fascínio sobre a massa? Como construir instituições políticas republicanas novas para esta ditadura que realmente sejam uma representação da classe trabalhadora em um período histórico em que ela só demonstra apatia? Até o momento são perguntas sem respostas.

 

10.

         Ainda assim muitas vozes “pacifistas” e – por que não? – conformistas, irão condenar a ditadura do proletariado em qualquer circunstância, tal como uma lei moral eterna que não pode ser questionada. Frente a um radicalismo pacifista e reformista deste tipo, eles devem explicar à classe trabalhadora: como taxar grandes fortunas sem a ditadura do proletariado? Como taxar o agronegócio brasileiro sem sofrer uma encarniçada resistência armada e golpista? Em suma: como regulamentar o mercado e o sistema financeiro sem ser por intermédio da ditadura do proletariado? Por muito menos – como, por exemplo, uma lei que restringia o limite de envio de lucros ao exterior – os governos de Vargas e Jango foram derrubados.

         A simples tentativa de organizar a produção econômica brasileira com vistas a atender o mínimo das necessidades sociais da população sofrerá, inevitavelmente, o boicote e a sabotagem ideológica e militar encarniçada por parte da elite do país. Os referidos golpes de Estado dados por ela contra governos “progressistas” não deixam margem a dúvidas. Portanto, renunciar à ditadura do proletariado é o mesmo que renunciar a mudanças no país – mesmo as mais singelas e não necessariamente socialistas.

         O PT, por exemplo, combate o capitalismo neoliberal em nome de um capitalismo “democrático”, regulamentado pela “mão invisível” e pelas instituições republicanas da democracia burguesa, se aliando com a burguesia mais atrasada a partir de “frentes amplas”. Defende, portanto, um “capitalismo de Estado” desvinculado da ditadura do proletariado, educando o movimento de massas no espírito de rebanho, nas ilusões da hipocrisia eleitoral, sindical e institucional burguesa, ao mesmo tempo que controla com mãos de ferro os sindicatos e centrais que dirige.

         Nenhuma mudança pode surgir desse programa senão mais ilusões e... novos golpes!

 

11.

         Uma vez que tenhamos um governo baseado na ditadura do proletariado, durante o processo deve-se destruir as instituições políticas antigas e construir novas que correspondam e apontem para a futura autogestão da classe proletária, embora dialogando e levando em consideração a economia real do país – até onde isso for possível – e a relação com outros setores, como a pequena-burguesia pauperizada e o lúmpem proletariado.

         Instaurar o modelo econômico soviético artificialmente apenas condenaria o governo revolucionário ao burocratismo e autodestruição. Neste início de século, um governo revolucionário deverá jogar com a estrutura capitalista da sociedade, isto é, com o mercado, sabendo vender as enormes riquezas naturais, humanas e potenciais do país para reinvestir na infraestrutura nacional, criando uma nova realidade social que beneficie o desenvolvimento das forças produtivas e formas econômicas mistas de transição[5]. Isso significa tolerar enquanto se fizer necessário uma parte da economia privada e, portanto, a existência econômica de uma burguesia. A experiência “socialista” do século XX demonstrou ser impossível criar uma economia nova do nada, ignorando a existente e suprimindo totalmente as relações econômicas antigas.

         “A NEP”, escreveu Trotski, “é a arena por nós mesmos preparada para a luta entre nós e o capital privado. Nós a instituímos, legalizamos e dentro dela pretendemos empreender seriamente a luta e por um longo tempo”. Lenin disse que a NEP fora concebida “seriamente e para um longo tempo”. Lenin e Trotski lutaram por adotar a NEP com a finalidade de derrotar o capital no seu próprio terreno e em grande parte pelos seus próprios métodos. De que forma? Usando eficientemente as leis da economia e, também, interferindo, pela indústria e empresas de propriedade estatal, no funcionamento dessas leis e ampliando sistematicamente o âmbito do planejamento. “Finalmente”, concluem eles, “estenderemos o planejamento a todo o mercado, absorvendo e abolindo, com isso, o próprio mercado”[6].

         Segundo Deutscher, na concepção de Trotski, a NEP estava destinada não apenas a apaziguar a propriedade privada, mas a criar uma estrutura para cooperação, concorrência e luta a longo prazo, entre os setores socialista e privado da economia. A cooperação e a luta lhe pareciam aspectos dialeticamente opostos de um mesmo processo. O planejamento deveria desenvolver-se dentro da economia mista até que o setor socialista tivesse, pela crescente preponderância, absorvido, transformado ou eliminado gradualmente o setor privado e ultrapassado os limites da NEP. Não havia, assim, no esquema de Trotski lugar para qualquer “abolição” súbita da NEP, para a proibição do comércio privado por decreto e para a violenta destruição da agricultura privada, tal como não havia lugar para qualquer proclamação administrativa da “transição ao socialismo”[7].

 

12.

         O método marxista parte do pressuposto que o socialismo só pode nascer das contradições do próprio capitalismo e, portanto, da resolução de tarefas econômicas elementares que a burguesia não quer e não pode resolver sem se destruir enquanto classe. Estas tarefas caem, então, no colo do governo revolucionário. Certamente a burguesia trabalhará para inviabilizar o funcionamento do novo governo e tentará estabelecer uma série de embargos econômicos. Contudo, como foi dito, o governo revolucionário deve apostar no seu controle sobre as riquezas naturais, humanas e potenciais do país para jogar e barganhar – sempre acompanhada pela classe trabalhadora organizada – com a burguesia mundial e regional, apostando em desenvolvimentos comerciais e econômicos alternativos, uma vez que pela experiência do século XX todas as suas revoluções passaram por um inevitável período de isolamento. Se por estas vias não for possível, deve utilizar a força para abrir caminho.

         Por tudo isso, o mercado capitalista não pode ser suprimido sem que as condições para isso sejam criadas. Dito de outra forma: o socialismo precisa incorporar os aspectos progressivos do capitalismo e os seus mecanismos econômicos, como o mercado. Contudo, ele deve ser remodelado e regulamentado – o que pressupõe, inevitavelmente, a manutenção durante um período de transição, de determinados setores privados sob estrita vigilância social. Isso nada tem a ver com se submeter a sua “mão invisível”, mas fazer com que ele trabalhe para a humanidade, e não o contrário. Também não se trata da simples “reforma do mercado”, mantendo o restante da sociedade e sua estrutura política, tal como propõe o petismo; trata-se de uma transformação revolucionária geral, embora conservando o que há de positivo em cada formação econômica anterior e dando passos seguros na construção de uma nova.

 

13.

         Devemos entrar em todos os debates econômicos com a burguesia e a classe média no sentido de desmascarar para a opinião pública e demonstrar as insuficiências do mercado atual e a real inexistência de um “livre mercado”, já que ele é totalmente dominado pelos monopólios internacionais. Uma das disputas ideológicas importantes é desmascarar as mentiras e os disparates contraditórios defendidos pelo “liberalismo” da classe média e dos economistas burgueses.

         O central do debate público com a classe trabalhadora, por sua vez, é mostrar quais tendências despontam desta formação econômica mista para o socialismo, daquelas que apontam para o retrocesso ao capitalismo neoliberal. Isso precisa ser dito claramente pelo governo revolucionário ao longo de todo o processo, sem o quê, não merecerá receber este nome honroso.

 

14.

         Este blog já analisou o caso específico da China, que não segue os preceitos indicados no ponto anterior. Isto é: o governo chinês chama o seu tipo de capitalismo de Estado de “socialismo com características chinesas”[8]; portanto, caracterização que embaça a compreensão do que se passa na realidade e, também, confundem na sua autopropaganda as tendências socialistas com as tendências capitalistas.

         Vejamos o caso do desenvolvimento econômico dos países asiáticos – o que inclui a base de desenvolvimento da própria China, mas não necessariamente da ditadura do proletariado, pois também serve para países como Japão, Coréia do Sul, Singapura, etc.: “o estado de desenvolvimento capitalista nestes países esteve sempre embasado em regimes políticos ditatoriais, onde o aparato estatal planejava os aspetos essenciais da economia, intervinha ativamente nela, estatizando ou controlando indiretamente vários setores, especialmente o financeiro. A receita obtida com as exportações foi acumulada para fomentar a industrialização e o mercado interno era fortemente protegido (para evitar perdas de divisas). O Estado, associado às empresas privadas, investiu maciçamente em tecnologia e formação de mão-de-obra especializada, e as empresas dos ramos estratégicos da economia foram agrupadas em conglomerados empresariais de caráter fortemente oligopólico, denominado Chaebol[9].

 

15.

         O modelo econômico soviético não pôde criar artificialmente uma sociedade nova, terminando, no geral, por servir de base material para o surgimento de burocracias políticas dirigentes. Além disso, excetuando os casos de embargo econômico pelo imperialismo, tende a não interagir com o mercado mundial e a fechar-se em si mesma. E, como a dura polêmica do século XX constatou, é impossível “socialismo em um só país”. Aliás, isso é um contrassenso teórico e prático, pois a classe trabalhadora é internacional e nenhum país do mundo pode viver isolado e fechado em si mesmo sem graves consequências políticas, econômicas e sociais. Socialismo – para superar de fato o capitalismo – pressupõe, necessariamente, trocas comerciais, além das culturais, políticas, turísticas, folclóricas, etc.

         Insistimos que o movimento socialista precisa utilizar-se do mercado para esta transição, dado que ele não é uma instituição exclusivamente capitalista, mas, antes de tudo, um mecanismo econômico. O desenvolvimento dos países asiáticos – e mesmo dos europeus ou dos EUA – aponta para uma tendência mista de desenvolvimento, baseada nas forças do mercado e no planejamento estatal e governamental. Estes “agentes associados” constituem indiscutivelmente o vetor de definição das condições de desenvolvimento da indústria e da produção de forma geral neste início de século.

         Uma consequência do desenvolvimento dos países asiáticos – em particular, da China – é que uma grande e crescente participação das transações internacionais toma lugar entre agentes independentes gerenciados inteiramente pelas forças do mercado, em conjunto com a produção internacional organizada por agentes associados sob governança estatal mais ou menos comum. Isso constitui um deslocamento sutil da grande indústria e da economia da “mão invisível” para a da “mão visível”. O resultado prático deste “novo” capitalismo asiático é que com o surgimento das megacorporações modernas vimos mudanças no caráter básico das trocas econômicas, na medida em que se deslocou do mundo anônimo da mão invisível para as esferas concretas do planejamento e da coordenação[10]. Isto é, percebemos tendências claramente socialistas que se impõem através do planejamento e da coordenação, surgidas dentro do próprio mercado.

         Assim, podemos ver, novamente, elementos importantes que servem como bases materiais para o socialismo, faltando-lhe a base política. A construção do socialismo, se não quiser ser uma abstração, não pode prescindir das experiências econômicas atuais baseadas no mercado (e, sobretudo, de experiências passadas, como a NEP).

 

16.

         Enquanto o mercado mundial sob hegemonia norte-americana impõe uma subserviência política e econômica aos países semicoloniais, ao que, chamamos de neoliberalismo, o capitalismo asiático, que tem crescido bastante, mescla elementos de mercado com planejamento estatal, ao que, chamamos de capitalismo de Estado.

         Ao contrário do que é pregado por um exército de jornalistas e economistas mercenários, o neoliberalismo não abre mão nenhum centímetro do Estado. Pelo contrário: todo este discurso é para esconder o fato de que o Estado deve ser o fiador do lucro privado, de onde o empresariado tira as garantias para a sua produção num momento em que vivemos uma tendência à queda da taxa de lucros[11].

         A malfadada globalização, cantada em verso e prosa por inúmeros jornalistas e economistas burgueses, nada mais é do que a aplicação do capitalismo neoliberal, que se contrapõe à intervenção do Estado nativo na economia visando um planejamento que beneficie minimamente a população e o seu mercado interno, enquanto que o governo estadunidense, inglês e as suas megacorporações internacionais, intervêm na economia como bem entendem, de acordo com os seus interesses, e mamam no Estado para sustentar suas empresas de “livre mercado”. A mão invisível é uma ideologia pregada apenas para as suas neocolônias, que as reproduzem com um ar de verdade infalível e de dogma religioso, replicada quase que 24h por dia na grande mídia local e internacional.

         Como foi dito, o primeiro passo para existir um capitalismo de Estado que beneficia a classe trabalhadora é o fato de que ele deve surgir de um processo revolucionário. Um capitalismo de Estado baseado na democracia burguesa e nas suas instituições não pode apresentar tendências socialistas de desenvolvimento. Viverá oscilando para trás, para a manutenção do capitalismo, geralmente de caráter violentamente privatista; ou sofrerá golpes de estado cada vez mais cruéis, como foi o caso dos governos brasileiros em 1954, 1964 e 2016.

         Uma estratégia revolucionária compreende a ditadura do proletariado, que é a força social capaz de garantir novas instituições e um capitalismo de Estado que desenvolva tendências socialistas, tal como um “degrau anterior ao socialismo” – para usar uma expressão célebre. A ditadura do proletariado continua sendo uma necessidade imperiosa para os difíceis períodos de transição. Contudo, não pode ser invocado como uma panaceia abstrata, quase um dogma religioso. Ela precisa estar embasada pelos elementos da realidade que nos circunda. O socialismo deve surgir de uma evolução do capitalismo de Estado, tal como apontaram os debates da NEP na antiga União Soviética.

 

17.

         O capitalismo de Estado, com mecanismos econômicos mistos entre mercado e planejamento, somados à introdução gradual dos métodos socialistas de controle operário e social da produção, preparam as bases materiais para o socialismo. O socialismo, por sua vez, prepara as bases materiais para o comunismo, que é a sua fase superior. É difícil saber como será a sociedade socialista e quanto tempo será necessário para a sua consolidação e dissolução no comunismo. O modelo soviético, de caráter stalinista, nos traz tristes memórias. Há ali experiências importantes, mas que não podem ser vistas como dogmas ou como o principal modelo a ser seguido, dado que foi a primeira tentativa de transição para o socialismo, terminando derrotada.

         A estatização não necessariamente deve ser entendida conforme o modelo soviético – tudo depende da realidade concreta de cada país e região. Os estágios iniciais da estatização que devem ir em direção ao socialismo também podem ser vistos como um planejamento regulador e de controle estatal sobre as forças do mercado. Há aqui semelhanças com as propostas de Antonio Gramsci acerca das formas de transição ao socialismo no Ocidente, que deveriam ser diferentes da russa, baseadas na construção de uma nova hegemonia social a partir da sociedade civil. O Estado proletário, criado por vias revolucionárias, vai edificando novas formações econômicas e político-institucionais no seio da sociedade civil, ao mesmo tempo em que o mercado capitalista segue operando de forma controlada.

         Num determinado estágio deste desenvolvimento, a depender da política empregada pela ditadura do proletariado, o mercado capitalista regulado deve ir dando lugar a um mercado socialista, baseado em outros valores e formas de funcionamento. O planejamento estatal não pode fazer, nem prever tudo. Há certas tendências espontâneas nas relações econômicas que o mercado responde melhor. Da mesma forma, o mercado desregulado e baseado na “mão invisível” gera o caos e o acúmulo absurdo de riquezas para poucos e miséria para a maioria. Assim, deve haver uma formação econômica mista, intermediária entre o capitalismo e o socialismo, que, na nossa avaliação, é o capitalismo de Estado (baseado, dentre outras, na experiência da NEP).

         Do contrário, é tentar tirar uma sociedade socialista pronta da cartola, que desconsiderará totalmente os elementos positivos da formação econômica anterior, bem como a herança cultural e social do passado. Portanto, tentará criar o socialismo “do nada”, a despeito dos discursos “científicos” em contrário.

 

18.

         A sociedade socialista, para receber esse nome honroso tão prostituído pela grande mídia e pela esquerda vulgar, deve aumentar as condições materiais e culturais da classe trabalhadora e diminuir drasticamente os desníveis de classe, até liquidá-las. Acabar com as classes não significa uniformidade social, nem “todo mundo pensar igual”. Significa, antes de tudo, a possibilidade de haver igualdade de condições, de estudo, de trabalho, de desenvolvimento das potencialidades humanas, etc.

         É, ao contrário, o mercado capitalista que necessita da padronização de hábitos e costumes através da grande mídia e da sua infernal propaganda, ditando padrões, modas e incitando ao nivelamento por baixo do pensamento comum. Se algo dá lucro, vende-se a ideia de que “é bom” e representa o “progresso” – independentemente de arrasar a natureza e comprometer o futuro de todo o mundo.

         Há, contudo, determinadas qualidades técnicas que o mercado proporciona e que não podem ser menosprezadas ou esquecidas. O fundamental é regulamentar e controlar o mercado de um ponto de vista socialista, visando desenvolver suas tendências positivas, combatendo para superar suas tendências negativas. Por questões óbvias, nenhum governo capitalista pode cumprir esse papel, já que ele representa uma grande alavanca para o desenvolvimento de uma sociedade socialista.

 

19.

         Bem entendido: pensar uma estratégia de transição para o socialismo baseada na utilização do mercado e de um capitalismo de Estado alicerçado em um governo revolucionário, nada tem a ver com se adaptar ao capitalismo e às suas tendências. Sabemos das inevitáveis contradições e dos perigos que surgem desta estratégia, mas ignorar a realidade e suas nuances (como as heranças econômicas, culturais, psicológicas, de hábitos e costumes) só pode complicar o cumprimento da nossa meta e, nas palavras de Lenin, tornar a “esquerda” um papagaio que apenas repete palavras decoradas.

         Durante os debates da NEP na União Soviética, Trotski e outros militantes bolcheviques falaram em “acumulação socialista primitiva”, embora não tenham demonstrado como ela seria, a não ser em esboços e ideias genéricas. Este conceito pode ser melhor pensado e desenvolvido a partir desta perspectiva de utilizar o mercado como forma de desenvolvimento econômico. Uma economia socialista deve surgir sobre as bases da riqueza industrial e financeira moderna acumulada pela sociedade burguesa, revertida não apenas em infra estrutura econômica para o país, mas para o enriquecimento cultural, social e, sobretudo, para as experiências de gestão coletiva da produção e da subsequente repartição da riqueza.

         O socialismo não pode ter uma fase de “acumulação primitiva” como a do capitalismo, que foi baseada nos métodos sangrentos de exploração e saque, pirataria, expropriação da terra dos camponeses do Reino Unido, roubo das colônias e o seu nefasto sistema de escravidão africana, até que chegasse a uma etapa de acumulação “normal” com lucros “legítimos”. Não! Para além do fato de o socialismo necessitar surgir da transformação do mercado; isto é, da sua “acumulação primitiva” surgir a expensas do lucro das empresas privadas – o que significa, em última instância, do próprio trabalho do proletariado, embora ainda envolto nos hábitos e nos costumes do capitalismo –, ele precisa, simultaneamente, criar novas instituições políticas e sociais que garantam o controle da classe trabalhadora sobre a produção, os serviços e a riqueza social. Não se trata apenas de socializar riquezas econômicas, mas, ao mesmo tempo, criar uma forma de cultura, de educação pública, mídia, moral e interação social que sejam capazes de insuflar iniciativa e coragem para que a classe operária supere o espírito de rebanho e assuma suas responsabilidades sociais na gestão institucional da economia e do próprio país.

         A experiência e o modelo soviético não obtiveram êxito neste segundo aspecto. O mesmo se pode dizer dos demais processos revolucionários do século XX, em especial, do chinês – principalmente por causa da manutenção dos métodos stalinistas. A classe trabalhadora tem o dever de defender o “seu Estado” contra a reação burguesa, mas também deve defender-se contra ele no caso de lhe solapar o direito a este poder decisório. Nesse sentido, o combate permanente ao espírito de rebanho é decisivo.

         O aumento da riqueza social e o desenvolvimento das forças produtivas só terão resultados positivos para o desenvolvimento do socialismo se se refletirem no desenvolvimento de formas de controle coletivo da classe trabalhadora sobre a produção e o poder político, um sendo a fonte de alimentação do o outro. Ou seja, somente quando o capital social for superando o capital privado, passando a dar a tônica da sociedade e da economia, teremos passado da etapa de “acumulação socialista primitiva” para a etapa do próprio socialismo.

 


20.

         A extinção das classes e do Estado prenuncia o estágio do comunismo – impensável em seus detalhes para a humanidade hoje, dado a sua distância no tempo. Basta dizer que tudo aquilo que se denomina de “comunista” hoje em dia não passa de um objetivo de longuíssimo prazo, de uma fantasia (quando se trata de uma esquerda doutrinária) ou, então, de uma enrolação consciente (quando se trata da grande mídia burguesa e das forças políticas de direita).

         Existem critérios para se definir uma coisa ou um fenômeno, seja ele qual for. Não podemos chamar de mamífero um animal com características de anfíbio, nem definir como feudal uma sociedade com características predominantemente capitalistas. Semelhanças e tendências parecidas existem em quase todas as coisas deste mundo, mas isso não quer dizer que sejam o mesmo. “Comunismo” tem sido um rótulo aplicado a qualquer inimigo da direita, usado como um espantalho para acionar os gatilhos emocionais mal resolvidos da classe média e da massa sob sua influência. Desde o século XIX o “espectro do comunismo” tem sido invocado para depositar tudo o que há de ruim com a nítida finalidade de gerar medo, confusão e, no fim das contas, ajudar os ricaços a manter a sua ordem social intacta.

         Como definir “comunismo”, então? Comunismo é um sistema econômico e social, tal como o escravismo, o feudalismo, o capitalismo e o socialismo. Não pode existir “socialismo” em um só país; tampouco “comunismo”, pois eles se propõem a superar o capitalismo, que é um sistema internacional. É difícil defini-lo precisamente porque estamos falando de uma possibilidade programática para o futuro, portanto de algo que não existe ainda, nem nunca existiu. Suas principais características são o fim das classes sociais (isto é, da exploração de um ser humano por outro) e do Estado; autogestão da produção econômica e da vida social por entes federados com alto nível material, intelectual, cultural, ético e moral. No entanto, é sobre como chegar a tal sistema econômico e social que começam as polêmicas e as diferenças das diversas escolas de pensamento socialistas e anarquistas.

 

21.

         Atingir o comunismo não pode ser apenas uma questão material, como supõe o marxismo vulgar e a esquerda mecanicista – nem um caminho perfeito e exato, sem contradições políticas, como esperam os diversos tipos de “socialismo utópico” e de “purismo esquerdista”[12]. O raciocínio recorrente é que basta mudar a economia para que a mentalidade mude quase que automaticamente, se adaptando à “nova economia”. O século XX demonstrou a inadiável necessidade de se intervir sobre os processos educacionais, culturais e na psicologia das massas, mesmo depois de iniciado o processo de mudança da base econômica. O problema fundamental para a edificação do comunismo – isto é, uma sociedade sem Estado e classes sociais, baseada na autogestão – é como gerar autonomia e autoconfiança nas massas? A busca pela resposta para este questionamento deve fazer parte das nossas preocupações desde já.

         Para que as classes desapareçam e o Estado seja extinto é necessário que o proletariado desenvolva autonomia e iniciativa coletiva para gerir a economia e administrar a sociedade. A sociedade capitalista, por seu turno, necessita de um proletariado submisso, dependente, infantilizado, portanto, passível de ser manipulado pelas emoções mais primitivas. O comunismo, por sua vez, para assegurar que haja uma mudança real na base econômica da sociedade, precisa se preocupar cuidadosamente com as questões relacionadas à autogestão; portanto, precisa de uma nova psicologia de massas, autoafirmativa, independente, mas sem se despreocupar com o social e o coletivo.

         É por tudo isso que temos que ter como meta fundamental o combate ao espírito de rebanho[13]. Este espírito é indispensável para a manutenção da sociedade dividida em classes, mas um empecilho para o surgimento do comunismo. O socialismo, fase inferior do comunismo, deve criar, além das condições materiais, as condições psicológicas, que não brotarão espontaneamente e precisarão ser levadas em consideração pela atuação prática da esquerda atual.

         As organizações de esquerda, contudo, não apenas ignoram as questões relativas ao espírito de rebanho, como o reforçam direta ou indiretamente.

 

22.

         Geralmente compreendemos o termo “política” como um meio de melhorar as circunstâncias exteriores, tornando a vida um pouco mais confortável (ignorando-se aqui a noção comum que associa automaticamente este termo à corrupção). Portanto, quando falamos em “política”, geralmente queremos ver formas de proporcionar mais alimentos, mais mercadorias, mais trabalho, mais riqueza exterior. Tudo isso é importante, mas não resolve a totalidade do problema. Há pouco debate relacionado às necessárias mudanças interiores, que devem andar casadas com as exteriores, sem o quê tudo não passará de um formalismo.

         Necessitamos de paz e de liberdade, mas não apenas da paz política, da “liberdade” política existente na democracia burguesa. Precisamos de liberdade interior que nos propicie o apoio exterior necessário para superarmos a ansiedade, o medo, a aflição, o desespero e todas as mazelas resultantes do incessante conflito interior que se trava dentro de nós – isto é, formas para superar a neurose e a perversão de massas que acompanhamos diariamente.

         A esquerda não se preocupa com isso e deixa este campo fundamental para os religiosos, astrólogos e toda a sorte de místicos que podem manipulá-lo ao seu bel prazer, direta ou indiretamente, escrupulosa ou inescrupulosamente. O assunto da mudança interior e da psicologia de massas é nosso também e deve ser tratado com o máximo de atenção e cuidado. Sem isso não há iniciativa independente criadora da massa, tampouco haverá autogestão coletiva. Uma nova forma de socialização humana necessita basear-se em outros valores interiores e, portanto, deve estudá-los, debatê-los, e não simplesmente ignorá-los com o selo estúpido de “diletância” ou “idealismo”.

 

23.

         A estrutura de poder da sociedade capitalista nos dessensibiliza. Frequentemente suportamos nos nossos empregos, por medo ou conveniência, ameaças e insultos dos nossos “superiores”. Após engolir tudo obedientemente, despejamos a crise interior que isso gera na nossa família, nos nossos vizinhos, enfim, no nosso círculo íntimo, sem refletir que estamos empesteando e envenenando nossa própria vida diária. Tudo em nome da manutenção das aparências de “normalidade”, “democracia” e “civilidade” no local de trabalho e na sociedade oficial. A isto, precisamente, chamam de “boa conduta”, etiqueta social e de “normalidade mental”.

         Uma nova base material deve propiciar, sobretudo, condições para o surgimento de uma nova vida interior. Além de fomentar diversos conflitos interiores e de alimentar uma neurose de massas – como bem apontou Wilhelm Reich –, o capitalismo manipula com sucesso essas emoções mal compreendidas e mal resolvidas. As igrejas evangélicas, por exemplo, entram como elo nessa manipulação, ao ponto de se tornarem verdadeiras empresas capitalistas de pseudo-autoajuda. No nosso tempo, a massa foi “educada” pelo sistema a se “socializar” mais pelas emoções do que pelo raciocínio.

         Se é certo que o surgimento de uma nova vida interior depende de condições materiais, também é provável, dada as experiências “socialistas” do século XX, que é preciso intervir conscientemente nestes conflitos interiores, entendê-los, ajudá-los a se desenvolver da melhor maneira possível e trabalhar decididamente para superá-los, visando atingir os “conflitos” mais condizentes como uma sociedade comunista evoluída (ou como dizia Trotski: “sem paixões? – não, embora livre de culpa ou pena”). Uma nova sociedade não pode existir sem superar a neurose e o narcisismo de massas incentivado pelo capitalismo. A economia até então é entendida apenas como uma forma capaz de resolver demandas de cunho exclusivamente materiais, exteriores, mas precisa ir muito além disso.

         Assim como não podemos dissociar a destruição do meio ambiente das práticas econômicas, também não podemos ignorar as suas consequências sobre a vida psíquica das massas – e, portanto, sobre a sua vida interior. Uma economia deve gerar bem-estar em sua plenitude, e não apenas material. Isso inclui, evidentemente, o cuidado com o meio ambiente e com a vida interior, dado que são os seres humanos que movem a economia – e são parte indissociável da natureza. Se uma economia gera conflitos interiores dilacerantes e os utiliza para se promover, necessita seriamente ser revista.

         O ego mais frágil e inseguro é seduzido pela grande mídia para se pensar como o mais forte e capaz. O ego inflado do indivíduo moderno é o fator determinante de seu uso pelo mercado e pelos podres poderes para a reprodução de todos os interesses daqueles que estão acumulando riqueza. A incompreensão das fontes morais de nosso comportamento nos torna mesquinhos, pequenos, títeres dos poderes que controlam o mundo[14].

         É por isso que necessitamos ir além dos discursos políticos que se restringem apenas ao campo da economia e da política. Eles não adentram o intrincado campo dos conflitos interiores. Esta omissão precisa ser debatida e superada. Não será possível atingir o comunismo – e sequer o socialismo – sem o acompanhamento atento e minucioso por parte de um governo revolucionário da evolução e tranquilidade interior das pessoas – isto é, da sua “paz de espírito”. Isso se acompanha na medida em que as condutas exteriores vão se modificando pra melhor e as responsabilidades sociais e pessoais vão sendo assumidas.

 

24.

         Na democracia burguesa as pessoas se enganam ao julgarem-se “livres” apenas porque não existem impedimentos externos para a execução dos seus supostos desejos – isso ocorre, evidentemente, com a ajuda decisiva da manipulação midiática. A liberdade humana não pode limitar-se meramente à liberdade física de “ir e vir”, de optar por uma “vida melhor” apenas no campo econômico e externo. Ela deve vir acompanhada da liberdade interna, de “livre arbítrio”, de tranquilidade frente à imposição de culpas, de neuroses e paranoias de massas. Não é livre quem pode fazer o que deseja, mas está condicionado em seus desejos; não é livre quem está paralisado por um conflito interno dilacerante que tende a se jogar para qualquer aventureiro “messiânico” que expresse direta ou indiretamente uma suposta solução milagrosa para esses problemas.

         Nas democracias burguesas há aparentemente poucas limitações físicas às liberdades individuais, mas são substituídas por pressões sutis, mais sofisticadas, menos conscientes. Não costumam ser limitações físicas, mas psíquicas. Não atuam sobre a decisão de maneira direta, mediante a obrigação ou a proibição, mas de maneira indireta, pressionando com promessas ou ameaças veladas. As limitações à liberdade provêm seguidamente da indução mais ou menos inadvertida de desejos e temores. Uma coisa é impedir o indivíduo de agir conforme sua vontade – tal como faz uma ditadura aberta – e outra é condicionar sua vontade para que aja conforme se deseja – tal como faz a democracia burguesa. A diferença, no fundo, é só de matiz. Os resultados são similares.

 

25.

         Da mesma forma pode agir uma democracia proletária, seja sindical ou soviética (de conselhos populares), se não for cuidadosamente levado em consideração estes detalhes. Para que as pessoas sejam livres não basta que não sofram nenhum tipo de coação física. É imprescindível que saibam escolher, que sejam interiormente capazes de escolher. A liberdade para a sociedade comunista (onde, lembramos, não deve haver Estado, nem classes, com a autogestão da economia e da sociedade, bem como da sua vida individual exterior e interior) seria medida pela capacidade de adotar crenças e comportamentos autônomos, independentes, baseados mais em convicções sadias do que em imitações e coações; na reflexão crítica mais do que no doutrinamento ou na manipulação das emoções; em atitudes conscientes e autocríticas, mais do que em atitudes inconscientes e irrefletidas.

         Este é o ponto mais alto a ser atingido pela democracia comunista. Para isso, uma autoanálise pessoal e dos movimentos sociais a partir do estudo e da compreensão da psicologia de massas é fundamental. A luta por sua edificação é, portanto, exterior e, ao mesmo tempo, interior. Tem que partir das organizações revolucionárias, dando o exemplo de combate ao egocentrismo, substituindo a não-escuta das demais pessoas pela escuta sincera, sem filtros, superando o formalismo burocrático.

 

26.

         O desenvolvimento econômico não pode ser medido apenas por números, indicadores, estatísticas, mas pelo que possibilita e gera interiormente para as pessoas simples: segurança, tranquilidade, crescimento interior e exterior, novas possibilidades culturais, paz para entender e superar seus conflitos emocionais e os de seus filhos, etc. Todos estes elementos não são captados pela fria análise matemática dos economistas burgueses (e pelo visto, pelos “socialistas” também).

         O oposto é como a sociedade estadunidense, que gera um frenético crescimento econômico, resultando em uma sociedade rica materialmente, mas vazia interiormente ao ponto de gerar recorrentes tiroteios nas escolas primárias, naturalizar o assassinato da população negra nas periferias, invasões militares, a “cultura” de exclusão dos “perdedores”, etc. A elite brasileira, que copia tudo fidedignamente dos seus amos do norte, não fica nenhum pouco atrás nestes quesitos bizarros.

 

27.

         A estratégia baseada na transição para o socialismo a partir do capitalismo de Estado sustentada na ditadura do proletariado desenvolve, amplia e, de certa forma, concretiza a teoria da Revolução Permanente de Trotski, já que ela preconiza o cumprimento das tarefas burguesas retardatárias pela ditadura do proletariado, em sintonia com o cumprimento das primeiras tarefas de cunho socialista; porém, ela nunca apontou detalhadamente como fazer essa combinação.

         Temos o dever de pensar em cima dessas lacunas, dado que uma das tarefas elementares desta etapa não cumprida no Brasil foi a formação de um mercado interno soberano – tarefa por excelência da burguesia brasileira, que sempre foi covarde, entreguista e submissa. Além desta tarefa essencial para o desenvolvimento econômico básico de um país, não foi realizada uma reforma agrária, que também é parte fundamental do programa de uma revolução burguesa. Aqui haverá um inevitável conflito militar com a bancada ruralista que não pode abrir mão da atual estrutura semicolonial do país, ao qual, precisaremos recorrer à ditadura do proletariado para poder superar a ditadura da bancada ruralista que mantém o Brasil no mais abjeto atraso (vendido como progresso e “modernização pop”).

 

28.

         Na maioria das vezes se fala em “resolver as tarefas retardatárias” na teoria da Revolução Permanente como uma mera saudação à bandeira, pois se dá total atenção apenas às questões socialistas, que pela ausência de condições e estratégias só podem ser tiradas de uma cartola mágica. Sobre isso não há nada de concreto nos programas e projetos das organizações de “esquerda” brasileira – sobretudo nas de caráter “trotskista”.

         Evidentemente que muitas tarefas retardatárias perderam o sentido ou se modificaram muito, sendo tratadas pelo oportunismo como um fim em si mesmo, usado inescrupulosamente (vide o PT e o Psol). De qualquer forma, não podemos avançar para o socialismo ignorando as deficiências econômicas, políticas e sociais não resolvidas pela burguesia; nem ignorando que muitas precisam de soluções com propostas e medidas concretas que, num capitalismo de Estado, já servirão para ir construindo os alicerces sociais para a edificação do socialismo.

 

29.

         Há um erro comum cometido pela “esquerda revolucionária” brasileira que engessa qualquer debate, agitação ou propaganda. Quando falamos que temos que disputar o discurso liberal em relação ao Estado e aos investimentos públicos para desmascarar a direita neoliberal, logo vem o discurso padrão: “mas isso é impossível dentro do capitalismo!”; e com esta solução milagrosa ela pensa ter resolvido positivamente a questão. Assim, encerra-se a discussão antes mesmo de começar.

         É por isso que este debate acerca do capitalismo de Estado como parte da estratégia de transição ao socialismo é parte da concretização da teoria da Revolução Permanente, só que entendida de um modo mais amplo e enriquecida por outras experiências práticas – como os altos e baixos da revolução chinesa.

         Uma estratégia “inovadora” para o socialismo, pautada por uma compreensão como a que foi apresentada até aqui, muda bastante o trabalho de base, de agitação e propaganda que a esquerda “revolucionária” veio praticando até aqui. Ela se pautou por uma transição voltada para aplicar uma cópia mais ou menos exata – e até mesmo como uma receita de bolo – do que foi o modelo soviético, ignorando o debate e as contribuições acerca da NEP.

 

30.

         Não basta, contudo, afirmar simplesmente que o mercado é um mecanismo econômico importante e autêntico que regula a distribuição, invocando sua existência desde os primórdios. Tampouco basta afirmar que a linha demarcatória entre planejamento e mercado “não é a diferença substantiva entre socialismo e capitalismo”, tal como apregoava Deng Xiaoping. Defender o mercado como um “simples mecanismo econômico”, como sabemos, é bastante perigoso, dado que é um conceito muito amplo e impreciso.

         Cada tipo de mercado exibe vastíssimas diferenças. Há pouco em comum na compra e vende de sabão, aço, pão, aviões a jato, corte de cabelo, saúde mental, transporte público e serviços jurídicos. Para se compreender um mercado específico deve-se levar em consideração as características institucionais de, pelo menos, 6 tipos de mercados: mercado consumidor, mercado produtor, mercado revendedor, mercado governamental, mercado nacional e internacional.

         Todos esses mercados, obviamente, estão entrelaçados de uma forma ou outra, mas não são a mesma coisa. Como se poderia, portanto, interferir neles no interesse da classe trabalhadora e quais não seriam aconselháveis? Sabemos que no capitalismo que vigorou até hoje – sobretudo nos países neocoloniais, como o Brasil e a América Latina em geral – todos os mercados nacionais são controlados com mãos de ferro pelas megacorporações transnacionais, principalmente as estadunidenses, que decidem os preços, impõem padrões e eliminam concorrentes, inclusive derrubando governos e patrocinando direta ou indiretamente invasões militares de outros países.

         Estatizar estes 6 tipos de mercados seguindo acriticamente o modelo soviético, além de ser impossível, só pode levar à padronização social estúpida, burocrática e contraproducente, ignorando a espontaneidade social que é melhor apreciada pelos mecanismos econômicos de mercado, já que é o melhor método para se levar em consideração um conjunto de variáveis de consumo e de qualidade que o planejamento econômico, por melhor que seja, não pode avaliar, nem adivinhar.

         Não podemos planejar totalmente como será o consumo das famílias e dos indivíduos. Há um certo grau de imprevisibilidade tanto na economia, quanto na vida, que são captados melhor pelo “livre mercado” – incluso a qualidade de certos produtos –, por isso ele não pode ser suprimido totalmente. É claro que no capitalismo a publicidade midiática frenética impõe padrões de conduta, de consumo e de moda que geram necessidades artificiais e supérfluas. Não se trata, evidentemente, deste tipo de “livre mercado”. É por isso que uma futura sociedade, mais evoluída e humana, deve superar o mercado capitalista em direção a uma outra forma de mercado, cujas leis não definam a totalidade das relações humanas, tal como é na sociedade capitalista, nem a perigosa busca – fechada em si mesma – pela maior taxa de lucro. Seria, em essência, como um termômetro que ajudaria no planejamento econômico.

 

31.

         Um mercado produtor e revendedor – sobretudo os locais – devem seguir ligados, de uma forma ou outro, à pequena iniciativa privada. Isso não pode ser suprimido da noite para o dia sem gerar graves distorções e sem nos obrigar a criar uma economia absolutamente nova “do nada”. É precisamente aí onde devemos atuar, como sugeriu Gramsci, sobre a sociedade civil, apostando conscientemente para a hegemonia proletária de cooperativas, fábricas e empresas de trabalho associado, sem patrões, sobre as de caráter privado (hoje a sociedade civil brasileira é hegemonizada pela pequena burguesia) – porém, sem suprimi-las enquanto não houver condições para isso. Os consumidores são indivíduos e famílias que compram para uso pessoal; os produtores, por sua vez, são indivíduos e organizações que compram e vendem com o propósito de produzir – e de ter certo tipo de lucro, evidentemente. O Estado proletário deve entrar pesado na disputa com o setor privado, visando superá-lo no seu próprio terreno.

         Para que o setor privado não domine e subjugue o setor estatal-proletário – e, junto com ele, toda a sociedade – é necessário uma severa regulamentação econômica pela sociedade civil consumidora que, como sabemos, só será possível através da ditadura do proletariado, isto é, da hegemonia proletária sobre a sociedade civil – e, ainda, não sem grandes e profundas dificuldades e contradições! O planejamento econômico baseado nos planos do Estado devem suprir todas as demais carências sociais que não podem ser resolvidas pelo mercado e, sobretudo, enfrentar os desequilíbrios econômicos inevitáveis gerados por ele; mas, como foi dito, não pode ter o poder de controlar tudo via uma estatização generalizada para planejar tudo, dado que será contraproducente, burocrático e mesmo impossível. Parte fundamental do planejamento de um governo revolucionário em um capitalismo de Estado está no controle sobre a vida macroeconômica das taxas de juros e das demais leis de mercado que valem para toda a sociedade – este é, precisamente, um dos maiores medos do imperialismo estadunidense, que necessita ele próprio ter o controle absoluto sobre essas leis em cada uma de suas semicolônias, bem como no mercado mundial.

 

32.

         Por mais que um “mercado socialista” surja dialeticamente do mercado capitalista, sua função deve ser qualitativamente nova: saber escutar e perceber as demandas, tendências reais dos consumidores e, sobretudo, a definição da qualidade de cada mercadoria e empresa pelas compras, que também devem ser livres e não induzidas freneticamente por uma propaganda enlouquecedora e ecologicamente irresponsável; tampouco devem ser impostas pelo Estado.

         Onde as famílias decidirem “investir” seu dinheiro, por exemplo, é um sinal da escolha da qualidade do produto ou do serviço – este mecanismo econômico é capitalista por excelência, e nem por isso deixa de ter qualidades que precisam ser assimiladas por uma sociedade superior. Ao Estado proletário cabe estar atento, acompanhando, incentivando determinada tendência econômica, empresa, serviço; pesando custo-benefício e, se necessário for, estatizar determinadas empresas, colocá-la para produzir em forma de cooperativas sob controle da classe trabalhadora e lhe cobrar resultados. A meritocracia não é um mal em si: ela é ruim quando exige resultados sem garantir as menores condições para isso; ou a usa como dogma religioso e pretexto para desempregar trabalhadores.

         Nos ramos da macroeconomia, como a infraestrutura, a energia e as taxas de juros, a intervenção econômica direta do Estado é fundamental, seja através da criação de poderosas empresas estatais e bancos públicos sob controle da classe trabalhadora (e não necessariamente do governo), com eleição de sua presidência pela base e com rotatividade permanente; seja através da regulamentação e do controle do setor privado.

         Este misto de planejamento e mercado, de setor privado (regulado estritamente) e público (sob controle da classe trabalhadora consciente e em processo de conscientização) se constitui, precisamente, no capitalismo de Estado como ante-sala do socialismo. Do pleno desenvolvimento dos seus frutos deverá surgir a sociedade socialista, que jamais poderá se limitar às fronteiras nacionais. No exato momento em que verdadeiras relações internacionais forem estabelecidas com os países vizinhos num mesmo processo de desenvolvimento econômico, cultural e social, possivelmente atingiremos um patamar de superação do capitalismo de Estado por uma formação econômico-social superior, já com um possível caráter socialista.

         A revolução tira do poder violentamente a classe dominante e muda a estrutura social, política e estatal. Os costumes nativos, por sua vez, não se mudam de um só golpe, mas por graus e ao longo de muito tempo. É por isso que devem ser estudados e levados em consideração com muito cuidado.

 

33.

         Há ainda o avesso da moeda: alguma pessoa bem intencionada poderá dizer que desenvolver o socialismo a partir do mercado capitalista é uma contradição sem solução, já que requer certa adaptação a ele. Por acaso não pode ocorrer o mesmo que o PC chinês de se estagnar na fase do capitalismo de Estado, criar um partido de “comunistas bilionários” muito bem adaptados nos CEOs das grandes empresas? De fato, isto é um problema sério – e um perigo! Nem todos os países do mundo possuem o mesmo peso econômico que o mercado interno chinês para impor determinadas exigências ao setor privado – vide, por exemplo, a relação de embargo comercial contra Cuba para se ter uma ideia[15] (além de tantos outros exemplos pelo mundo).

         Neste caso não há um remédio que cure todos os males, nem uma receita de bolo. A transição a partir do capitalismo de Estado, mesclando elementos de mercado e de planejamento econômico de tipo socialista, é inevitavelmente contraditória, mas é a única forma de se levar em conta a realidade como ela é, sem inventar um modelo econômico pronto “do nada”, nem copiando esquemas “santificados”. Durante o processo, o mais importante é acompanhar, discernir e diferenciar as tendências socialistas das capitalistas.

         Além disso, é necessário falar tudo sempre aberta e claramente para as massas sobre o estágio que nos encontramos, sem embelezar a realidade com nomenclaturas fabulosas, tais como “socialismo com características chinesas”, “socialismo de mercado”[16] ou “comunismo”.

 

34.

         No campo internacional o capitalismo de Estado como ante-sala para transição ao socialismo precisa entrelaçar-se com os países vizinhos buscando a conformação de um bloco econômico regional e, obviamente, cerrar fileiras na luta revolucionária dos países que se mantém como semicolônias de qualquer um dos imperialismos existentes. Na América do Sul, por exemplo, um bloco econômico de integração regional deveria ter como principal finalidade fortalecer os laços comerciais, culturais, energéticos, financeiros, infraestruturais, compartilhando experiências políticas e práticas de gestão coletiva da classe trabalhadora (em alguns casos emprestando dinheiro sem juros e comercializando mercadorias pelo seu valor de custo aos países mais atrasados com a finalidade de desenvolver relações de confiança entre as classes trabalhadoras de cada um dos países envolvidos). Isto pode ser o embrião do desenvolvimento de um “mercado socialista” (ou pode ser a chamada “acumulação socialista primitiva”).

         Tal tipo de mercado provavelmente se desenvolverá a partir de uma regulamentação conjunta que supere a fase de disputas nacionalistas – o que é uma das características da era burguesa de desenvolvimento da sociedade humana –, abrindo caminho para uma integração econômica muito mais ampla do que os mercados nacionais. A proximidade e a contiguidade geográfica, sistemas políticos e jurídicos comuns, herdados de colonizações e desenvolvimentos sociais semelhantes, deveriam impedir uma análise que isole uns países dos outros – a não ser, é claro, que tenhamos uma visão burguesa e, portanto, nacionalista e chauvinista, de mundo.

         É evidente que para costurar esta integração regional, cada país em específico deverá passar por um processo revolucionário que varra para a lata do lixo da história suas classes dominantes comprometidas com o velho capitalismo liberal. Este esboço, que obviamente pode e deve ser melhorado com críticas honestas, contém alguns elementos que tentam concretizar uma grande lacuna no desenvolvimento internacional do socialismo. Se falou até aqui em revoluções nacionais que seriam o elo que completaria a revolução internacional e... nada mais!

 

35.

         A nível internacional, de um ponto de vista mais amplo, o mercado mundial sob o controle das potências capitalistas deve ser superado por esta integração regional em blocos econômicos afins. Somente quando o mercado mundial capitalista for substituído definitivamente por uma formação econômica superior que surja de um desenvolvimento mais ou menos multipolar, poderemos falar de socialismo – isto é, somente quando o capitalismo, que é um sistema econômico internacional, for superado em sua totalidade, que é representada pelo mercado mundial, por uma nova formação econômica também internacional, poderemos falar em socialismo.

         Mas até lá há um longo caminho prático desconhecido e ignorado, dado que a história não se faz por encomenda. Temos aqui apenas o esboço de algumas ideias lógicas que partem da realidade concreta atual. Para um Estado nacional, a adesão a um agrupamento econômico e político regional representa, com efeito, o acesso a um mercado ampliado de consumidores, a um volume de investimentos, de trocas comerciais, culturais, políticas, turísticas, etc., mais importantes; e, desde que trabalhado por uma diplomacia de viés proletário e internacionalista, tende a produtos e mercadorias de importação menos caros, no quadro de concessões e acordos tarifários para desenvolvimento mútuo.

         Um verdadeiro bloco econômico regional – que nada tem a ver com um Mercosul, uma NAFTA ou uma ALCA, burgueses por seus fundamentos e princípios – pode oferecer um poder de negociação ampliado nas tratativas internacionais de um mercado mundial ainda dominado por interesses imperialistas.

 

36.

         Na atualidade, uma estratégia revolucionária para o Brasil deve levar necessariamente em consideração a disputa internacional entre EUA e Inglaterra, de um lado, e o bloco dos BRICs, de outro. A disputa está dada e pauta toda a conjuntura mundial do início do século XXI. Ignorá-la significa virar as costas para a realidade e viver em um mundo “perfeito” criado aprioristicamente para um “socialismo puro”, esperando condições perfeitas que nunca existirão.

         Os dois blocos envolvidos nesta disputa atual pela hegemonia mundial são burgueses, a despeito de termos um “partido comunista” à frente da China[17]. Apesar disso, devemos apoiar as tendências progressivas dos BRICs, que se pretendem multipolares, contra a dos EUA e Inglaterra, que são unipolares e hegemonistas. Sabemos que são poucas e perigosas estas “tendências progressivas” dos BRICs, mas elas existem – sobretudo os 5 princípios da diplomacia internacional chinesa formulados na Conferência de Bandung[18], muito mais amenos e preferíveis se comparados à diplomacia estadunidense, pautada pela invasão militar, pelo racionamento privatista e pelas chantagens do FMI e do Banco Mundial. No momento esta é a disputa que pauta a realidade mundial e que, portanto, deve ser levada em consideração pelos revolucionários, sem, no entanto, sacrificar a independência de classe (erro cometido, dentre outros, pelo petismo e pelo que se convencionou chamar de neostalinismo).

         Não se trata, sob hipótese alguma, de sustentar um dos dois blocos burgueses internacionais acriticamente, mas de posicionar-se frente a esta disputa, sabendo explicar pacientemente à classe trabalhadora seus elementos positivos e negativos para esboçar e abrir caminho à diplomacia socialista internacional – que deve nascer da dura crítica dialética da atual.

 

37.

         Partindo das conclusões estratégicas desenvolvidas por estas reflexões, qual deve ser o ponto de partida econômico para o investimento social; isto é, qual pode ser o capital inicial do capitalismo de Estado brasileiro? Ele só deve vir de fora do país, tal como preconiza a atrasada burguesia brasileira e a sua grande mídia, ou existem pontos de apoios internos? Devemos apenas levar em consideração as hipóteses de Zonas Econômicas Especiais desenvolvidas por Deng Xiaoping na China e por Lenin na URSS?

         Por mais importante que sejam estas zonas – e elas devem ser utilizadas com muito critério e regulamentação, sem dúvida! –, temos, no Brasil, uma fonte importantíssima de investimentos para conformação e consolidação do mercado interno: trata-se, precisamente, do Estado de São Paulo.

         Tal como Buenos Aires, na Argentina, que remonta uma figura humana deformada – isto é: como se tivéssemos um país “cabeçudo” com um corpo mirrado e esquálido –, São Paulo concentra grande parte do capital que pode ser revertido em investimento infraestrutural no país. É uma espécie informal e não declarada de Zona Econômica Especial, controlada pelos acionistas e CEOs da Avenida Paulista e da Faria Lima, cujo modus operandi é o capitalismo neoliberal: lucros vão para os paraísos fiscais no exterior e pouca coisa fica no país – e o que fica é revertido apenas (ou centralmente) em São Paulo, com a evidente finalidade de que este ciclo de acumulação se perpetue e se amplie.

         Dito de forma mais singela: os investimentos revertidos em São Paulo e Rio de Janeiro morrem lá, pois não possuem regulamentação e não fazem parte de um projeto de reinvestimento nas zonas pobres e atrasadas do país. Ou seja: o “bolo paulista” recebe muito fermento em nome do país, mas quando ele cresce descomunalmente em relação ao bolo abatumado dos demais estados, a elite nacional (e internacional) não divide com o resto. Temos, então, um desenvolvimento regional do sudeste em detrimento das demais regiões, que patrocinam e sustentam esse “desenvolvimento” de São Paulo, vendido como uma “genialidade extraordinária” da meritocracia da elite paulistana.

         Uma ditadura revolucionária do proletariado em um capitalismo de Estado, além de sobretaxar as grandes fortunas, o agronegócio, fomentar um mercado nacional, deve se enfrentar com a elite financeira paulistana para utilizar o seu sacrossanto lucro como fonte de desenvolvimento para todo o restante do Brasil. Os recursos nacionais, apesar de pouco, existem e devem ser reinvestidos no crescimento do próprio país – se não for por bem, deve ser por mal; isto é, pela força da ditadura do proletariado.

 

38.

         Há uma hipótese de trabalho que merece ser levada em consideração: no caso de um prolongamento indefinido do capitalismo, teremos a terrível possibilidade da abertura de períodos intermediários, que historicamente são marcados por uma profunda desorganização e desfragmentação social, econômica e política, tal como conhecemos na história egípcia e no feudalismo europeu. Esta hipótese pode existir não apenas em razão do prolongamento indefinido da crise de direção revolucionária e dos problemas decorrentes disso, mas da destruição ininterrupta da natureza por parte do capitalismo, o que coloca até mesmo dilemas para a continuidade da vida humana.

         Em uma hipótese como essa, as condições para a luta e a transição para o socialismo seriam ainda mais difíceis, mas infelizmente elas não podem ser descartadas. Nesse caso, uma nova análise de conjuntura e das condições concretas deve ser efetuada para repensar a estratégia de transição. Tomara que tenhamos condições de evitar uma catástrofe deste tipo, desenvolvendo desde já uma nova forma de perceber os problemas relacionados à transição socialista, bem como sua estratégia, organização, agitação e propaganda que leve a economia e a vida real em consideração.

 

39.

         Recapitulando: a estratégia de transição socialista para os países ocidentais deve estar pautada por táticas que levem em consideração a utilização do mercado capitalista, conformando o que chamamos de capitalismo de Estado, que seria uma espécie de degrau anterior à etapa socialista. O modelo soviético, cuja estatização de toda a economia é o princípio norteador, deve ser superado por uma elaboração mais condizente com a realidade atual. Podemos concluir, então, que a NEP na Rússia ainda dirigida por Lenin e Trotski não foi um simples “recuo” em relação a um suposto socialismo que já estaria pronto no modelo soviético, como entende a maior parte da esquerda atualmente. A NEP foi a demonstração concreta de que o capitalismo de Estado é uma etapa necessária para o desenvolvimento do socialismo, sendo aquilo que podemos chamar de sua “acumulação socialista primitiva”.

         Todos os polemistas acerca da NEP concordavam que o “comunismo de guerra” havia falhado e que tinha de ser substituído por uma economia mista, dentro da qual os “setores” privado e socialista (isto é, de propriedade do Estado) coexistiriam e, de certa forma, competiriam. Todos viam na NEP não apenas um expediente temporário, mas uma política a longo prazo que proporcionava o cenário para uma transição gradual ao socialismo. Precisamente porque ainda viviam em uma economia mercantil, o governo revolucionário devia tentar controlar o mercado e preparar-se para isso. De acordo com a teoria marxista clássica, Lenin sustentava que o planejamento só poderia ser eficiente numa economia altamente desenvolvida e concentrada e não num país com cerca de 20 milhões de pequenas fazendas dispersas, com uma indústria desintegrada e formas bastante primitivas de comércio privado. Lenin não negava a necessidade de esquemas de desenvolvimento a longo prazo[19].

 

40.

         Para além da restauração do capitalismo e da utilização ideológica que a burguesia faz do stalinismo como “sinônimo” de “comunismo” visando atemorizar a classe trabalhadora e a classe média, o drama atual do socialismo se resume ao fato de que se busca o ideal proletário do socialismo sem o apoio real do proletariado, que está dividido, alienado, seduzido por ideologias que não são as suas e só lhes perpetua a escravidão assalariada. Como dizia Dostoiévski, “o ser-humano é um ser que a tudo se habitua” – se habitua até mesmo à miséria material e intelectual! Justamente por isso é tão difícil vencer suas tendências retrógradas, baseada na tradição mais reacionária.

         Ao longo da história só raramente o proletariado atinge uma unidade em torno de sua consciência histórica. A burguesia tem se especializado em impedir tal unidade, se apropriando sutilmente dos seus movimentos e pautas (vide o identitarismo burguês, as “revoluções coloridas” e as práticas do neofascismo).

         A ditadura do proletariado, tal como qualquer ditadura de transição histórica (como, por exemplo, o terror jacobino durante a Revolução Francesa), traz profundas contradições e deixa enormes cicatrizes. A sua contradição central é que pretende falar em nome da maioria, mas não pode fazer isso senão por “procuração”, dado que é uma minoria consciente que a exerce, indo, muitas vezes, contra a própria classe trabalhadora, inconsciente, vítima da manipulação emocional, psicológica e material por parte da burguesia, que trabalha minuciosamente sobre seus hábitos e tradições do passado não superados. Tais elementos não podem ser alterados da noite para o dia, nem mesmo por uma revolução. E aí percebemos uma grande contradição.

         Ao mesmo tempo, não temos como vencer um setor militarizado e assassino como é o agronegócio brasileiro sem recorrer à força. Por certo, a ditadura do proletariado neste início do século XXI tem mais recursos do que tinham as passadas, mas devem, antes de tudo, tentar se reinventar permanentemente e buscar, de forma constante e persistente, a sua legitimação entre a classe trabalhadora através da criação de instituições políticas e mecanismos sociais que tendam a superar esta “minoria consciente” que a exerce em nome da “maioria inconsciente”.

         É difícil de vislumbrar tais medidas porque ainda estão no campo da teoria, havendo um longo caminho pela frente. Já sabemos de antemão que, por melhor conduzida que ela seja, terá inúmeras contradições e cometerá erros. A sociedade humana, tal como são as suas células componentes, que são os seres humanos, é contraditória por natureza. Traz em si mesma o “céu” e o “inferno” que criam os “paraísos” e, ao mesmo tempo, os “infernos astrais”.

         Ainda não há resposta para tais contradições e, infelizmente, não temos nenhuma receita de bolo. O mais importante é afixar bem nitidamente a consciência de suas graves contradições e a vigilância permanente para que, ao longo do processo, possamos vislumbrar alguma saída prática que torne qualquer retrocesso social impossível. Neste terreno pantanoso e pouco conhecido, as questões relacionadas à psicologia de massas ganham destaque e importância.

 

41.

         Desde já podemos perceber um grande empecilho para qualquer ação envolvendo a busca por uma estratégia socialista no próximo período: a psicologia das massas, que vive oscilando entre o imperialismo “democrático” ou neofascista, por um lado, e o reformismo liberal burguês disfarçado de “socialista”, por outro. Esta é a nossa prisão política e a esquerda “revolucionária” não tem conseguido sequer arranhar tais grilhões ideológicos. A política e o sindicalismo da “esquerda” oficial não têm força nem vontade para superar esta contradição, tornando-se parte da sustentação do status quo institucional do país (e com orgulho!).

         Uma das principais tarefas da esquerda revolucionária no próximo período é superar a consciência ingênua da maior parte do povo – que não consegue ir além das eleições e da espera de um messias –, avançando para uma consciência crítica, que por sua própria natureza, não aceita qualquer discurso e qualquer engodo. Sem este ponto de mutação fundamental na psicologia de massas do povo brasileiro, não haverá mudança possível. É preciso insistir e trabalhar diariamente neste tópico. Como vimos, ela é parte fundamental não apenas para a edificação do socialismo, mas do próprio comunismo.

         Para atingirmos tal fim, contudo, precisaremos mudar drasticamente nosso trabalho de base, nossa agitação e nossa propaganda, debatendo uma forma de transição socialista pautada pelas características da realidade brasileira e latino-americana. Fato que infelizmente não tem sido levado em consideração por parte da esquerda “revolucionária”, acostumada a repetir frases decoradas e a não construir um caminho novo a partir do ponto de onde a teoria dos “clássicos marxistas”, com seus erros e acertos, nos conseguiu trazer.

         Talvez tenha sido por isso que Trotski escreveu que: “a tradição não é um cânone rígido ou um manual oficial. Não pode ser decorada nem aceita como um evangelho. Nem tudo o que a velha geração diz pode ser acreditado tendo por base apenas a ‘sua palavra de honra’. Pelo contrário, a tradição deve, por assim dizer, ser conquistada pelo trabalho interno, deve desenvolver-se em cada um de uma forma crítica e ser assimilada também de forma crítica. Se assim não for, toda a estrutura estará construída sobre areia”[20].

 

 

Referências


[1] ANDERSON, Perry. Passagens da antiguidade ao feudalismo. Editora brasiliense, São Paulo, 1987 (páginas 30 e 35).

[2] Idem.

[3] Diferentemente do Brasil, que teve uma classe dominante vassala da classe dominante europeia. Para este assunto, ver: http://conscienciaproletaria.blogspot.com/2019/10/a-independencia-do-brasil-foi-uma.html

[4] Ver: http://conscienciaproletaria.blogspot.com/2020/09/socialismo-com-caracteristicas-chinesas.html

[5] Idem.

[6] DEUTSCHER, Isaac. Trotski – o profeta desarmado 1921-1929. Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1984 (páginas 112 e 113).

[7] Idem (página 113).

[8] Ver: http://conscienciaproletaria.blogspot.com/2020/09/socialismo-com-caracteristicas-chinesas.html

[9] VISENTINI, Paulo Fagundes. O dragão chinês e o elefante indiano. Temas do novo século 12, Editora Leitura XXI, Porto Alegre, 2011 (página 60).

[10] DOWBOR, Ladislau. A reprodução social – volume ll. Editora Vozes, Petrópolis, 2003 (páginas 42 e 43).

[11] Ver: http://conscienciaproletaria.blogspot.com/2018/10/a-ditadura-de-bolsonaro-colocara-o.html e também: http://conscienciaproletaria.blogspot.com/2021/08/tese-da-construcao-pela-base-ao-x.html (tese 7).

[12] Ver: http://conscienciaproletaria.blogspot.com/2018/10/quem-teme-frustracao-nao-pode-fazer-uma.html

[13] Ver: http://conscienciaproletaria.blogspot.com/2020/01/pre-requisitos-para-democracia.html

[14] SOUZA, Jessé. A classe media no espelho. Editora Estação Brasil, Rio de Janeiro, 2018 (página 55). Há uma resistência tola em relação à obra de Jessé por parte da “esquerda” revolucionária. Se é certo que ele aposta tudo numa “radicalização da democracia liberal”, por outro, traz contribuições muito importantes. Se apropriar delas é tarefa de toda(o) militante proletária(o) consciente. Uma tentativa de atingir este fim está expressa no texto: http://conscienciaproletaria.blogspot.com/2018/12/a-sociologia-de-jesse-souza-e-o-que.html

[15] Ver: https://conscienciaproletaria.blogspot.com/2021/07/por-que-cuba-incomoda-tanto-os-eua-e.html

[16] Ver: http://conscienciaproletaria.blogspot.com/2020/09/socialismo-com-caracteristicas-chinesas.html

[17] Ver: http://conscienciaproletaria.blogspot.com/2020/05/a-ascensao-mundial-da-china.html

[18] São eles: 1) respeito mútuo à soberania e a integridade nacional; 2) não-agressão; 3) não intervenção nos assuntos internos de um país por parte de outro; 4) igualdade e benefícios recíprocos; 5) coexistência pacífica entre Estados com sistemas sociais e ideológicos diferentes. Mesmo sendo, no geral, tópicos com noções políticas burguesas, são muito melhores e mais progressivos do que a “diplomacia” imperialista estadunidense.

[19] DEUTSCHER, Isaac. Trotski – o profeta desarmado 1921-1929. Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1984 (páginas 48, 52 e 53).

[20] Idem (página 133).

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