*Por Eduardo Cambará
Sempre que falamos em organização revolucionário invocando o exemplo leninista é quase certo que escutaremos algum adepto do anarquismo lembrando a "repressão do bolchevismo" ao anarquismo organizado. A seguir, temos uma espécie de mantra que afirma que o stalinismo é a consequência inevitável do bolchevismo. Isto é, Lenin supostamente "foi o precursor de Stalin". Podemos ouvir isso desde os meios de comunicação e as universidades burguesas, até os ativistas "bem intencionados" por parte da esquerda — dentre os quais, encontram-se, sem dúvida, os anarquistas que reivindicam o legado de Nestor Makhno.
Respondi teu post porque não acho justo a comparação. O stalinismo é a negação de tudo isso (Trotski bem o demonstrou em toda a sua obra, e basta ler, em particular, o artigo: Bolchevismo e stalinismo). Defendo o bolchevismo não como um fanático religioso, que acha que eles estão certos em tudo e que ele se aplicaria mecanicamente em todas as realidades. Não! O defendo, tal como defendo a Comuna de Paris: uma experiência em que os trabalhadores e as trabalhadoras tomaram o poder; como uma forma de aprendermos com o passado e afirmando, sem medo de ser mal compreendido, que o bolchevismo possui muito mais méritos do que deméritos. A forma como os bolcheviques tomaram o poder, a despeito de erros e possíveis excessos, é uma lição que não podemos jogar fora sob hipótese alguma ou desmerecê-la afirmando se tratar de autoritarismo stalinista.
As formas como Lenin foi pontuando as palavras de ordem e opondo-as às da burguesia e do reformismo, são lições de um método preciso que, sem dúvida, devem ser estudadas e conhecidas por todos aqueles que querem fazer uma revolução. Me parece que tu as joga fora com o medo da "contaminação" autoritária. E dizendo que Lenin e Trotski não são honestos como nós seríamos. Eu não tenho dúvida de que o eram. Podes ter certeza de que a nossa honestidade está pautada na deles. Mas não idealizamos ninguém. Como seres humanos, cometeram erros, mas não eram autoritários no sentido stalinista. Se o fossem, jamais teriam feito uma revolução, que pressupõem conquistar a confiança de centenas de milhares de trabalhadores — o que é muito diferente de apenas dominá-los pelo peso do aparato hegemônico.
Mais do que isso, parte desses partidos buscaram se aliar diretamente com a contra-revolução, tomando parte ativa nos exércitos brancos (ou pelo menos ajudando-os pela sua omissão). Infelizmente uma parte dos anarquistas cometeu o mesmo erro. Lenin atestou no artigo "Sobre o imposto em espécie", que as reivindicações de grande parte dos marinheiros do motim de Kronstadt repetiam textualmente o que o imperialismo alemão exigia (sobretudo seus banqueiros) e a sua concretização estrangularia sem dúvida o recém formado poder soviético (que lutava com inimigos por todos os lados). Os makhnivistas ucranianos não fugiam muito dessa regra, exigindo uma liberdade de atuação militar em meio a uma guerra contra 14 exércitos.
Neste luta possivelmente os bolcheviques cometeram excessos e erros, mas não são mau caráter e não mentiram; ou transformaram isso numa prática, tal como fez o stalinismo, que a usou até o final em contextos totalmente livres de guerras civis. Muito estudo histórico ainda precisa ser feito sobre o tema. E também, certamente, crítica e autocrítica. Apesar disso, não vejo os anarquistas darem nenhum passo nesse sentido, tanto na experiência da Comuna de Paris, em que foram responsáveis diretos pela não expropriação do banco da França, como na Espanha, em que as suas propostas impediram (conforme nos atesta Fernando Claudín) uma organização militar decente pra enfrentar os fascistas. Sempre com medo do "autoritarismo".
Percebo que há um grande receio por parte da esquerda (não apenas tua) de assumir uma postura firme, com medo de ser autoritário. Ou seja, teme lobos e mesmo assim pretende ir à floresta. Parece recear se contaminar com uma prática que quebre o seu "purismo" e o seu "revolucionarismo", esperando um caminho revolucionário sem contradição alguma; isto é, perfeito e exato! Os camaradas não compreendem (ou não querem compreender) a importância e o papel da direção política da classe trabalhadora. Atribuem a qualquer direção ou partido (indistintamente ao programa ou a política que defendem) o papel de “burocratizadores por natureza”. Este menosprezo à direção política, entendendo que a classe se dirige espontaneamente mesmo com distintos níveis de consciência e heterogeneidade, tende a caminhar para a desorganização política e à subordinação inconsciente às direções burguesas declaradas e não declaradas. Certos camaradas pensam que se “centralizar pela classe”, tal como ela é, representaria um antídoto contra a degeneração, o que é um grave erro. O proletariado se subdivide em vários segmentos, como vanguarda e retaguarda. Isto é um fato sociológico. Não se pode igualar a sua vanguarda com a sua retaguarda, ainda que se tenha que levar em consideração os anseios da retaguarda.
Repara o que diz Engels acerca do debate "autoritarismo x autoridade": "os anti-autoritários pedem que o Estado político autoritário seja abolido de um golpe, antes mesmo que se tenham destruído as condições sociais que o fizeram nascer. Pedem que o primeiro ato da revolução social seja a abolição da autoridade. Já alguma vez viram uma revolução, estes senhores? Uma revolução é certamente a coisa mais autoritária que se possa imaginar; é o ato pelo qual uma parte da população impõe a sua vontade à outra por meio das espingardas, das baionetas e dos canhões, meios autoritários como poucos; e o partido vitorioso, se não quer ser combatido em vão, deve manter o seu poder pelo medo que as suas armas inspiram aos reacionários. A Comuna de Paris teria durado um dia que fosse se não se servisse dessa autoridade do povo armado face aos burgueses? Não será verdade que, pelo contrário, devemos lamentar que não se tenha servido dela suficientemente? Assim, das duas uma: ou os anti-autoritários não sabem o que dizem, e, nesse caso, só semeiam a confusão; ou, sabem-no, e, nesse caso, atraiçoam o movimento do proletariado. Tanto num caso como noutro, servem à reação".
É por tudo isso que temos que ser o mais cuidadoso possível no trato com as experiências históricas. Não tenho dúvida que condenar a Comuna de Paris ou o bolchevismo é um serviço pra burguesia contra os trabalhadores (pode ser que tu não tenha visto, ou não concorde. Não quero te ofender, porque sei da tua honestidade, mas é exatamente assim que eu vejo). Isso não significa que eu idealize religiosa e dogmaticamente o bolchevismo, Lenin e Trotski, ou quem quer que seja. Tu bem sabe o esforço que temos feito para renovar as práticas da esquerda. Não achamos que o bolchevismo possa ser aplicado mecanicamente ao Brasil ou a qualquer país do mundo fora do espaço-tempo, mas jogar fora seus ensinamentos é um erro crasso.
Por exemplo, pra nós o problema do bolchevismo ou da extinta-URSS não está na utilização do Estado ou do "autoritarismo" das armas, mas na ausência de preocupações relacionadas à psicologia de massas. Já escrevemos e falamos inúmeras vezes sobre isso: "O debate para superar a 'crise do socialismo' está muito menos no peso da 'ditadura do proletariado', no regime do terror e na sua posterior degeneração expressa nos regimes stalinistas (que tem causas bastante compreensíveis e evidentes), do que na necessidade de desenvolver a psicologia de massas do socialismo, a educação, a autonomia individual que respeite a coletividade e a individualidade dentro daquela, que combata a apatia, a repressão moral-sexual e o espírito de rebanho. Os problemas do 'socialismo' expressos no século 20 – tal como a sua degeneração em ditadura stalinista – é causa ou consequência do espírito de rebanho presente em grande parte da massa? Quem pode afirmar seguramente qual dessas duas opções é a preponderante? É justamente esta problemática que está colocada para a futura geração de revolucionários que poderá superar esta crise, e não os olhos no passado que condena as vitórias do proletariado e exalta o espontaneísmo. É saber como casar a direção política das massas com o seu espontaneísmo, sem castrá-lo ou oprimi-lo, porém, sem deixá-lo correndo atrás da própria cauda ou o que é ainda pior: canalizado e dirigido pela burguesia! São precisamente estas questões que a burguesia quer esconder dos trabalhadores, lançando preconceitos anti-partido, anti-organização e anti-bolchevique".
Desculpe o texto longo. Sei que preciso ser mais sucinto, mas espero que tu entenda e, principalmente, reflita sobre tudo isso.
