Passadas as eleições que levaram Sebastião Melo (MDB) à prefeitura de Porto Alegre, logo vemos uma série de balanços que "explicam" os motivos de tal resultado; sem falar nos xingamentos "contra o povo", que já se tornaram praxe por parte de muitos militantes e correntes de "esquerda". Um dos balanços mais perigosos foi, sem dúvida, o do colunista da ZH/RBS, David Coimbra, que procura explicar o "fenômeno Melo" na sua coluna de 30 de novembro (página 51), com destaque de capa.
sábado, 5 de dezembro de 2020
Por que parece que David Coimbra faz um jornalismo imparcial, mas na realidade não faz?
O Psol frente ao setor privado: não demonizar se calando ou se calar para não ser demonizado?
A campanha de Boulos (Psol e cia.) para a prefeitura de São Paulo nos brindou com a seguinte declaração: "não esperem de mim a demonização do setor privado". Logo a seguir, o presidente nacional do Psol afirmou que o partido não renega suas origens radicais, mas que "amadureceu" por aceitar "alguma participação do setor privado na administração pública". Em política "revolucionária", a falta de clareza sempre beneficia o oportunismo.
Sobre o resultado das eleições e o combate ao desespero eleitoral
*Por Katiana Pinto dos Santos
Amigos(as): independente do resultado das eleições, o capitalismo está firme e forte; independente de qualquer governo, segue o curso da exploração e retirada de direitos da classe trabalhadora. Não adianta tentarmos encontrar bodes expiatórios entre nós; isso não muda a realidade. Temos o compromisso de continuar lutando, aprendendo com erros e acertos que venham no sentido de fortalecer a construção da nossa consciência de classe. Vamos fortalecer o emocional, pois teremos no período próximo muitas lutas pela frente.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2020
Zé! Nº2
Publicamos abaixo, na íntegra, a revista de literatura e poesia Zé! (nº2), criada por Paulo Moacir Farias da Silva e Cezar Dias. A revista teve dois números, sendo a primeira publicada em maio de 2011 e a segunda em janeiro de 2012. Zé! ainda tinha um blog, cujo endereço é: http://ze-digital.blogspot.com/
“A morte não é nada.
Mas viver derrotado
e sem glória é morrer
diariamente.”
Eurípides
MEDIOCRIDADE
No infinito coberto de eternas belezas,
Como átomo perdido, incerto, solitário,
Um planeta chamado Terra, dias contados,
Voa com os seus vermes sobre as profundezas.
Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho,
Marchando, indiferentes ao grande mistério,
E quando um dos seus é enterrado, já sérios,
Saúdam-no. Do torpor não são arrancados.
Viver, morrer, sem desconfiar da história
Do globo, sua miséria em eterna glória,
Sua agonia futura, o sol moribundo.
Vertigens de universo, todo o céu só festa!
Nada, nada, terão visto. Partem do mundo
Sem visitar sequer o seu próprio planeta.
![]() |
| João Cabral de Melo Neto; Recife (1920), Rio de Janeiro (1999). |
sábado, 28 de novembro de 2020
Notas inconformadas sobre a conduta ética dos eleitores de “esquerda” – ou: como se escreve muito para quem está pouco se lixando para argumentos; ou ainda: o desespero eleitoral cega?
A eleição em curso demonstrou um desnível preocupante de consciência e de conduta ética por parte dos eleitores de “esquerda”. Me refiro aqui não à massa de eleitores em geral, mas àquela que tem alguma atuação política nos sindicatos e nos movimentos sociais.
Não! – eu não vou defender aqui em quem cada um deve votar, se na Manuela/Boulos ou nulo (excluo a direita porque jamais votaria nela – antro de mau caráteres e exploradores; a raiz histórica da corrupção nacional e internacional; ainda mais se tratando da quadrilha do MDB/PSDB). Não aponto em quem votar porque os trabalhadores estão pouco se lixando pra mim e, sobretudo, porque a ideia aqui não é mudar o voto de ninguém, mas mexer nas certezas absolutas e abrir um novo ângulo de visão, sobretudo porque o que li nos grupos das redes sociais me fez mal, muito mal. Na verdade, me gerou profundas náuseas. E os motivos serão arrolados a seguir:
Num desses grupos que participo assiduamente, divulgando textos sobre várias temáticas – uma espécie de pregação no deserto, visto que não gera nenhum debate apaixonado como as eleições (ou o desespero eleitoral) geram –, recolhi a maior parte dos argumentos que critico aqui. A experiência eleitoral/institucional de 13 anos com PCdoB/PT pouco ou nada originou de massa crítica. Pelo contrário, hoje se esquece que o MDB governou o país junto com PCdoB/PT e que não houve, nesses 13 anos, nenhuma divergência fundamental.
Cada um vote em quem achar que deve e cultive as ilusões que quiserem cultivar, mas deveria evitar entrar no fanatismo dicotômico pré-eleitoral e descambar para uma espécie de ódio contra quem defende o voto nulo. Neste caso, temos um caso evidente daquilo que Wilhelm Reich definiu como “fascismo vermelho”. Poderemos derrotar o bolsonarismo com... o método raivoso do bolsonarismo?
Podemos considerar que há um equívoco no voto nulo neste momento, mas serão estes companheiros e companheiras que estarão conosco, ombro a ombro, quando os governos eleitos começarem a nos massacrar, de uma forma ou de outra – e não os candidatos pra quem fazemos campanha hoje. O “voto nulo” não se restringe a estes setores. Mais de 350 mil pessoas não votaram nessas eleições – cerca de 33% do eleitorado porto alegrense (a maior abstenção entre as capitais brasileiras). Xingar tais setores sobre chamar voto nulo e 33% do eleitorado por se abster resolveria algo ou denotaria apenas desespero? O que eles querem dizer e o que devemos fazer com isso? Simplesmente trazê-los de volta à disputa eleitoral e à institucionalidade burguesa que é parte fundamental da manutenção do sistema ou dialogar tentando mostrar contradições e transformar essa passividade abstencionista em algo organizativo? De uma forma ou de outra a direita não governa sempre através da institucionalidade burguesa – e reconhecer isso não seria importante?
Com os brilhantes argumentos do desespero eleitoral, descobri que o culpado principal da vitória do bolsonarismo em 2018 foram os votos nulos e não a política levada a cabo pela frente popular nos seus 13 anos de governo federal. E aprendi também que, milagrosamente, as eleições municipais podem derrotar o bolsonarismo (cuja vitória neste pleito ficou claramente nas mãos dos partidos do “centrão”; quer dizer, da direita soft, que pensa exatamente como Bolsonaro, mas não tem coragem de externar).
Obviamente sei que o voto nulo pesou na vitória do bolsonarismo e de forma alguma nego isso – tanto que eu, uma pessoa que votou nulo (como tática, não como princípio) por vários anos, fui obrigado, com lágrimas nos olhos e tremor nos dedos, a votar no PT. Contudo, não dá pra concordar com quem tenta imputar a vitória do bolsonarismo aos votos nulos e menospreza parcial ou totalmente a política levada a cabo pelo PT/PCdoB em 13 anos de governo federal, que, inclusive, fez aliança com o MDB de Temer e o PP de Bolsonaro (na época). Tal política, que fica de joelhos à institucionalidade burguesa e a reforça, preparou aberta e claramente o golpe (chamado pelo próprio petismo de “institucional”) que devorou o governo “democrático-popular”.
Nada foi feito em 13 anos para derrotar a direita ou modificar a estrutura do país (um reformismo sem reformas). O golpe é resultado das alianças espúrias, da falta de política concreta para mudar o país e combater as elites e a direita nacional. Ao contrário, além de dar “lucro recorde aos bancos”, o petismo levava a passar os caciques oficiais da direita tradicional como grandes aliados, respeitáveis e confiáveis.
Votem na Manuela ou no Boulos, denunciem Melo e Covas (e eu também estarei com vocês), mas nunca esqueçam disso e jamais minimizem tais problemas!
Companheiras e companheiros, longe de mim querer lhes tentar explicar o porquê de certas pessoas e organizações optarem pelo voto nulo: votem no PCdoB/PT e no PSOL. Acreditem! Sonhem! Mas não embelezem o que não deve ser embelezado, nem prometam o que vocês não vão cumprir, pois assim vocês se tornarão parte daquilo que criticam (isto é, comungarão da prática dos políticos burgueses). Muitos dizem: “agora é Manuela”, depois acertamos contas com ela e com o PT. Porém, falam isso após embelezar e esquecer de todo o passado e de toda a prática dos governos de PCdoB e PT (tanto antes quanto agora), incluso as suas práticas nefastas de autoritarismo puro nos sindicatos, entidades estudantis e movimentos sociais que apoiam ou dirigem. Eu não esqueço isso; nem vocês deveriam. “Agora é Manuela”, depois fazemos o que? Continuamos levando a vida como se nada precisasse de alteração – inclusive a nossa postura pessoal nos sindicatos e nos movimentos sociais? E se começar uma nova vergonhosa conciliação com a institucionalidade burguesa (judiciário, a hipocrisia do funcionamento das instituições, etc.), simplesmente ignorarão aguardando as próximas eleições?
Após a eleição tudo isso é esquecido e um silêncio sepulcral leva a uma adaptação não apenas aos governos eleitos, mas à institucionalidade burguesa, que está totalmente mancomunada com a justiça dos ricos e o legislativo que tem maioria de direita e cria mil empecilhos reais ou imaginários para qualquer mudança ou legislação que beneficie os trabalhadores. Tanto é assim que muitos esqueceram ou simplesmente ignoram (como se fosse algo digno de ser ignorado) que o PCdoB apoiou Melo no 2º turno de 2016 e estão coligados em outros 194 municípios (dados do TSE). Pode ser que os tempos hoje sejam um pouco diferentes daquele, mas o MDB e Melo mudaram sua essência de lá para cá? Ou isso é algo que pode ser simplesmente ignorado?
Aí alguns me dizem: “ninguém é inocente a ponto de não entender que a chapa da Manu não está alinhada por completo com um projeto de emancipação humana plena, mas, infelizmente, é necessário ser pragmático e votar 65. De outra forma teremos mais 4 anos com pouco espaço pra lutar”. A isso respondo que não se trata de inocência, mas de uma amnésia voluntária por parte de tais eleitores da “esquerda”. Falo isso porque os argumentos do desespero eleitoral ignoram ou ocultam todos os problemas descritos até aqui e potencializam as diferenças em relação a Melo, que no fundo são exageradas. A intensidade da argumentação de muitos desses eleitores não denota um voto crítico num “menos pior”, mas a autêntica salvação messiânica, o que é muito mais grave. E, por fim, pouco espaço pra lutar sempre teremos em governos que são reféns da institucionalidade burguesa ou onde imperem as burocracia sindicais que, ao fim e ao cabo, são o resultado das políticas de PT e PCdoB.
Em síntese: votem no menos pior (não lhes tiro a razão), mas não dourem a pílula!
Em contrapartida, eu não concordo com a agitação da Transição Socialista. Não considero que Boulos seja Igual a Covas; nem que Manuela seja igual a Melo. Tal agitação equivocada simplesmente reforça todas as ilusões que supostamente quer combater, jogando os eleitores de “esquerda” nos braços dos candidatos “reformistas” e ajudando na polarização/fanatização (o campo preferido do bolsonarismo e do neofascismo – diga-se de passagem). As ilusões são grandes e profundas, como podemos constatar e, como não existe um movimento de massas que se ponha como alternativa clara e firme neste momento, tal polarização não ajuda em nada, mas atrapalha. A unidade dos trabalhadores deve se dar com muita paciência revolucionária. Não se pula etapas apenas simplificando a realidade, que não pode ser simplificada (seja por quem defende o voto nulo, seja por quem busca qualquer pretexto e ignora a prática dos candidatos e partidos que pretendem votar agora).
O grande problema, repito, é a institucionalidade burguesa a qual os candidatos que forem eleitos terão que lidar; e o PCdoB e o PT não apenas não combatem tal institucionalidade, como a reforçam. O que fizeram em 13 anos de governo federal? Tal “vitória” contra a direita nas urnas é solapada pelo funcionamento da institucionalidade que se segue e isso não é sequer lembrado por quem hoje está numa campanha alucinada pela “vitória” da “esquerda” e pela “luz no fim do túnel” que, uma vez que nos aproximemos dela, se transformará num novo túnel, ainda maior. É esta institucionalidade que compromete toda a gestão “popular” e que fortalece a direita que supostamente foi derrotada nas urnas, que precisa ser desmascarada e explicada pacientemente aos trabalhadores e às trabalhadoras. É esta a verdadeira “unidade” que falta à “esquerda”.
O desespero eleitoral esconde, no fundo, o sonho de fazer uma “mudança” no país (e mesmo na cidade) com tranquilidade e pacificamente, sem termos que tomar nas nossas mãos as responsabilidades sociais que nos cabem (como a atuação consciente nos sindicatos, nos movimentos sociais e na própria política – ou seja, responsabilidades e “mudanças” que vão muito além do voto de 2 em 2 anos), confessando involuntariamente os interesses imediatistas de quem o expressa. O desespero eleitoral também embaça o fato de que se fará todo o possível para não se colocar o dilema de uma revolução que, ao fim e ao cabo, abre a real mudança que traz o novo e o desconhecido (pra vocês e pra mim). Uma revolução coloca, de fato, em xeque mate a hipocrisia institucional, a justiça burguesa, a rotina, as certezas de hoje. Em síntese, o dilema eleitoral se resume a isso.
Aí dizem: mas votando na Manu vamos nos aproximar da “revolução”, certo? Errado! Em 13 anos de governos petistas nos aproximamos ou nos afastamos da revolução? Derrotamos ou fortalecemos a direita? Temos que “votar na Manu e no Boulos porque as pessoas da periferia sentem fome e ninguém faz revolução de barriga vazia”. Oi? Tristes argumentos oriundos do desespero eleitoral, repleto de ilusões. Eu não quero que ninguém passe fome e essa dicotomia – digna das dicotomias bolsonaristas – não ajudam, não esclarecem e não resolvem os problemas. Ao contrário: aprofundam a confusão! Eu sou partidário do fim da fome. É por isso que milito e por isso que sou socialista. Mas reforçando a institucionalidade burguesa e as ilusões no sistema econômico e eleitoral a fome não apenas não será solucionada, como se aprofundará.
Não será num evolucionismo vulgar de “solução” da fome conjuntural das pessoas que vamos acabar com ela; tampouco reforçando as ilusões na democracia burguesa. Além do mais, as revoluções na história foram feitas porque as pessoas passavam fome e não por quem tinha a barriga cheia (ou migalhas para “distrair o estômago”). O reformismo serve, justamente, para dar algumas migalhas agora, para abrandar a fome, contribuindo para que o sistema siga funcionando normalmente. Não fui eu que fiz o mundo assim; só estou tentando observá-lo da maneira mais sóbria possível – e, sobretudo, afastando a fumaça do desespero eleitoral, que embaça a visão e o juízo.
Votem em quem vocês quiserem, mas refinem os argumentos e não joguem no lixo as experiências históricas. Cuidado com a dicotomização e o desespero eleitoral. Respeitem as opções de quem é trabalhador e tem consciência de classe. Guardem o melhor do latim de vocês para os futuros governos burgueses que serão eleitos, a mídia e a hipocrisia institucional, que certamente pesará no futuro, independente de quem vença as eleições.
Vamos desenvolver, juntos, a coragem de ir além das eleições. Tomemos nas mãos as nossas responsabilidades sociais. Questionemos a hipocrisia institucional e do sistema. Evitemos a dicotomização que descamba no “fascismo vermelho”. Tenhamos a mesma coragem de combater e desmascarar os políticos burgueses, reformistas e as burocracias sindicais como temos a coragem de xingar quem “vota nulo”, se abstém ou, tristemente, vota na direita. Nos empenhemos em lutar “certo” todo o dia, mês e ano, para além do desespero de votar “certo” de 2 em 2 anos. Rompamos com o círculo vicioso e não reforcemo-lo. Estes são os meus “votos” para achar a saída definitiva do túnel; e não apenas uma luz opaca e fugidia no seu suposto fim.
segunda-feira, 23 de novembro de 2020
De volta à República da Bruzundanga
Na Bruzundanga as transformações sociais se dão pela cúpula, sem a participação organizada do povo. Primeiro uma guerra civil de elite, depois uma sangrenta ditadura militar acabaram por perverter a estrutura de governo da República da Bruzundanga, embora mantendo os mesmos problemas políticos e econômicos já descritos pelo nosso ilustre conterrâneo que lá esteve em princípios do século passado. Depois da ditadura sobreveio uma breve experiência de um governo democrático-popular que desgraçadamente não alterou nenhuma das estruturas antigas do país. Ao contrário, reforçou ilusões e deu lucros estratosféricos aos bancos e ao sistema financeiro. Terminou por sofrer um golpe de Estado, que abriu caminho para o atual governo.
Com o passar dos anos, o antigo cargo de Mandachuva acabou por transformar-se numa respeitosa presidência da República, tal como mandam as convenções internacionais. Contudo, ainda que o presidente seja eleito por um processo mais democrático do que a 100 anos atrás, o presidente não é eleito sem uma forte campanha financiada com rios de dinheiro e sem conformar alianças excêntricas, nem governa sem o consentimento dos grandes monopólios que controlam o mercado mundial. Portanto, sua margem de governo é muito estreita — para não dizer nula.
O mais curioso foi saber que no último processo eleitoral, ocorrido em 2018, elegeram um candidato exótico, chamado Sr. Lixo. Desde quando era vereador e deputado, Lixo defendeu todo o tipo de bandalheira reacionária, medieval, dos mais variados níveis de preconceitos; exaltando qualquer entulho, podre e decadente, religioso ou político, que expressasse ódio e raiva descontrolada e incontida. Seus apoiadores são como cães adestrados, que, por se identificarem plenamente com o Lixo, repetem tudo o que ele diz e saem entoado pelas ruas da capital da Bruzundanga, Bosomsy: Lixo é mito! Lixo é mito! Lixo é mito!
Com o apoio de muitos programas "humorísticos" que passavam em horário nobre da TV aberta da Bruzundanga, terminaram por fazer esta "máxima" entrar na mente de milhões de bruzundanguenses, sobretudo na de sua juventude. Eles diziam: "Lixo combate à corrupção e vai acabar com a mamata". Mas o que se viu após a sua eleição foi justamente o contrário: o despotismo mais desavergonhado e o poder paralelo do tráfico de drogas tomar os gabinetes dos partidários do Lixo. Não apenas ficou de joelhos aos grandes latifundiários da Bruzundanga — a principal base de sustentação política do Lixo —, como permitiu que tocassem fogo nas principais reservas florestais a fim de expandirem a fronteira agrícola do país. A antiga religião Católica oficial foi cedendo espaço para as igrejas evangélicas que, na pessoa do bispo Levir Kakedo, comanda o adestramento político em massa. Expulsa de Angola, sua igreja evangélica terminou por estabelecer-se plenamente na Bruzundanga. É preciso registrar também que o sistema financeiro e os grandes oligopólios de mercado apoiam Lixo na presidência da Bruzundanga, como lhe dão respaldo, afirmando tratar-se da "escolha democrática" do povo da Bruzundanga, apesar das inúmeras denúncias de disseminação de fake news contra adversários.
Povo, aliás, que conheci de perto quando lá estive. Durante o processo eleitoral se encontrou bastante dividido, mas graças a todo apoio da estrutura econômica ao Lixo, este conserva-se no poder e ainda mantém certo apoio popular. Numa manifestação pró-Lixo pude conversar com um apoiador do presidente e ele, apesar de não gostar muito das minhas perguntas por julgar que estava colocando em dúvida a pureza do Lixo (algo que estive longe de fazer), me dizia: "Lixo é mito! Meu peito bate pelo Lixo! Estou com o Lixo e não abro! É com Lixo que vamos consertar este país!".
Não bastasse Lixo no poder, o povo ainda cultiva esperanças eleitorais de que pode mudar a Bruzundanga pra melhor na qualidade de simples público, que apenas observa tudo passivamente e sem a menor organização. Lima Barreto, quando lá esteve, escreveu o que segue sobre as eleições: "um deputado eleito sai das urnas como um manipanso a quem se vão emprestar virtudes e poderes que ele quase sempre não tem. Os seus eleitores não sabem quem ele é, quais são os seus talentos, as suas ideias políticas, as suas vistas sociais, o grau de interesse que ele pode ter pela causa pública; é um puro nome sem nada atrás ou dentro dele. (...) A superstição eleitoral é uma das nossas coisas modernas que mais há de fazer rir os nossos futuros bisnetos". Penso que, lamentavelmente, desde a época em que Lima Barreto lá esteve, nada de substancial desta análise mudou. Ao contrário, se aprofundou!
domingo, 22 de novembro de 2020
Um tributo a Lima Barreto
Esse é o Lima Barreto (1881-1922). Um dos maiores nomes da literatura brasileira. Infelizmente apenas hoje ele tem esse reconhecimento, pois na sua época, por ser negro, recebia, em sua maioria, negativas das redações de jornais. Apenas com o surgimento dos sindicatos (antes deles serem engolidos pelo Estado) Lima Barreto pôde publicar seus principais escritos, além de outros livros que teve que pagar com o dinheiro do próprio bolso.
Segundo Carlos Nelson Coutinho, Lima Barreto "foi um dos maiores representantes da linha humanista e democrático popular na literatura brasileira", além de ter ressaltado que "a simples mudança de regime político em nada alterara os vícios fundamentais da formação histórica brasileira". E ele foi testemunha ocular de duas destas "mudanças": o fim da escravidão e a proclamação da República. Nascido no período em que vigorava a escravidão, escreveu que "em 1888, dias antes da data áurea, meu pai chegou em casa e disse-me: a lei da abolição vai passar no dia de teus anos. E de fato passou; e nós fomos esperar a assinatura no Largo do Paço. Havia uma multidão ansiosa, com o olhar preso à janela do casarão". E concluiu: "como ainda estamos longe de ser livres! Como ainda nos enleamos nas teias dos preceitos, das regras e das leis!".
Lima Barreto foi um dos maiores críticos da estrutura política brasileira, sobretudo em Os Bruzundangas, onde denuncia as aberrações do país. Também foi impiedoso com o funcionalismo público, o qual demonstrou ser um exército de "homens que falam javanês", além, é claro, da denúncia racial, que lhe foi muito cara, em Clara dos Anjos e Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Graças a Lima sabemos que "o brasileiro é vaidoso e guloso de títulos ocos e honrarias chochas" e que "não temos povo, mas público". Lima foi excluído da crítica oficial com um "silêncio implacável" não apenas por ser negro, mas por suas "posições contundentes", que lhe custaram a marginalidade e a indiferença da elite cultural.
Foi um autêntico outsider da sociedade brasileira, a quem prestamos reverência e o devido reconhecimento. Em sua memória, devemos fazer com que o Brasil deixe de ter público e passe a ter povo!
segunda-feira, 16 de novembro de 2020
Um retrato das eleições municipais de 2020
O debate eleitoral dos candidatos à prefeitura de Porto Alegre foi pobre e patético. Cheio de hipocrisias, jargões vazios, meias verdades e mentiras completas (dentro das regras da mídia burguesa, que são viciadas, limitam e condicionam). Um grenal acéfalo em que a estrutura não só não é questionada, como sai fortalecida. É a velha política e a hipocrisia institucional falando pela boca de todos os candidatos. Nada de bom, honesto e sadio pode vir disso...



