sábado, 5 de dezembro de 2020

Por que parece que David Coimbra faz um jornalismo imparcial, mas na realidade não faz?

Passadas as eleições que levaram Sebastião Melo (MDB) à prefeitura de Porto Alegre, logo vemos uma série de balanços que "explicam" os motivos de tal resultado; sem falar nos xingamentos "contra o povo", que já se tornaram praxe por parte de muitos militantes e correntes de "esquerda". Um dos balanços mais perigosos foi, sem dúvida, o do colunista da ZH/RBS, David Coimbra, que procura explicar o "fenômeno Melo" na sua coluna de 30 de novembro (página 51), com destaque de capa.

O nosso colunista "explica" por que Manuela "parecia que ia ganhar, mas perdeu", atribuindo a vitória de Melo a uma "maioria silenciosa", em contraposição às diversas pessoas que "portavam bandeiras, cartazes e adesivos" da candidata do PCdoB, sem falar na última pesquisa Ibope que dava 51% para Manuela, contra 49% para Melo. Ele vende que estava "preocupado em entender o que aconteceu" e não passar panos quentes para explicação de uma "vitória" não apenas estranha, mas que ignora o volumoso número de votos nulos, brancos e abstenções.

Justiça seja feita, David Coimbra e a ZH/RBS são especialistas em "maiorias silenciosas"; e mais especificamente: como transformar posições reacionárias das minorias dominantes economicamente em "maiorias silenciosas". A "preocupação" de David Coimbra "em entender o que aconteceu", na realidade, é uma forma de solidificar posições, preservar o sistema e o desgaste de suas instituições. Dentro dessa lógica, ele não se esforça absolutamente nada em entender as reais causas da derrota de Manuela e do PCdoB/PT, mas aprofunda a confusão intencional.

A sua coluna não fala, por exemplo, como Manuela entra no jogo burguês institucional-eleitoral, que sempre beneficia os candidatos da "direita", bem como o próprio jogo do sistema. Reproduzindo ecos da "esquerda", sobretudo nas redes sociais, David escreve que "todas as pessoas com quem falei disseram que Melo foi triturado no debate de sexta-feira. Foi essa avaliação das pessoas [isto é, da 'minoria barulhenta']: de que foi um massacre". O que fez Manuela nesse debate? Nada mais, nada menos do que deixar transparecer sua superioridade intelectual sobre a de Melo, visando dividendos eleitorais. Em momentos decisivos do enfrentamento com a ideologia de direita, Manuela não apenas não a combateu, como entrou na sua lógica.

Quando Melo levantou pela milionésima vez o engodo do "financiamento do metrô de Caracas pelos governos do PT", Manuela não respondeu com um debate classista ou minimamente "comunista", pautado no internacionalismo proletário. Ela poderia ter respondido de diversas formas, dentre elas: "Melo quer uma América Latina segregada e dividida numa disputa fratricida entre países — este é o espírito dos governos burgueses; os investimentos feitos pelo governo federal retornam de outras formas; na Europa há integração entre todos os países em um mercado comum (fato que ocorre também na Ásia através do ASEAN), por que não fazer o mesmo na América Latina?", ou ainda: "Melo desvia o foco para o financiamento do metrô de Caracas porque durante seu governo na prefeitura de Porto Alegre vergonhosamente não investiu nenhum centavo no metrô na nossa cidade, tudo em nome dos donos das empresas privadas de ônibus, pra quem governou sempre aumentando a tarifa".

Mas não! Manuela disse que, na verdade, quem tinha investido no metrô de Caracas foi o governo FHC/PSDB. Não apenas seguiu a lógica segregacionista e nacionalista da direita, como a reforçou. O que vale uma "vitória" em um debate eleitoral com esse discurso ou mesmo uma participação eleitoral que fortaleça as pautas e mentalidade de direita? É assim que vamos derrotá-la? Para além disso, Manuela deveria denunciar o problema central do investimento do metrô de Caracas que se deu com investimento "público" via Odebrecht, o que não dá nenhum retorno de pagamento ao governo federal, mas apenas beneficia o lucro privado dos aliados do antigo governo federal. Manuela não pode criticar tal conduta porque isso seria o mesmo que criticar os governos do PT, algo que ela não faria. Portanto, fez um debate e uma participação eleitoral "pela metade", para dizer o mínimo.

David Coimbra e ZH/RBS, ao contrário de Manuela, não brincam em serviço, nem titubeiam contra seus inimigos de classe. Nos massacram 365 dias e não apenas numa suposta "vitória" (de Pirro) em um debate insosso. Eles sabem tirar partido de tudo. Inclusive vendendo um jornalismo de "qualidade superior" da RBS — isto é, tal como um peixeiro que tem o monopólio da pesca em uma praia afirmar que seus peixes são os melhores de toda a região! Não apenas uma auto propaganda das mais perniciosas (que nada tem a ver com "liberdade de imprensa", mas com "liberdade de auto propaganda enganosa"), mas observações banais, perigosas e absolutamente afirmativas ao status quo. Jornalismo exaltado por Coimbra e, diga-se de passagem, pela própria Manuela.

Por fim, David Coimbra afirma que "a esquerda e a direita perderam nessas eleições", lançando uma aposta: "o vencedor não será  um populista como Bolsonaro ou Lula. O vencedor será uma pessoa normal". Isto é, para Coimbra e a ZH/RBS: "os eleitores passaram a rejeitar os extremos da política". Além de uma melosa (e nada imparcial) apologia a Melo, Coimbra tenta taxar Lula/PT e Manuela/PCdoB como "radicais" (e de contrabando, coloca Boulos nesse time também), em contraposição a Bolsonaro. David Coimbra, esperto como é e sempre sintonizado aos interesses do grande capital, já entendeu que a burguesia nacional e internacional está descartando (conjunturalmente) o bolsonarismo porque o seu projeto inicial já foi concretizado. Qual seja? Desmoralizar e demonizar a "esquerda" eleitoral, tipo PT/PCdoB, para torná-la inviável e inaceitável (já que vencer o lulismo eleitoralmente pelos modos "democráticos" seria muito difícil) e quebrar o gelo inicial da aplicação das "reformas" que introduzirão a "uberização" na economia. Tais objetivos já foram atingidos, por isso o trumpismo e o bolsonarismo (ou seja, o neofascismo) podem ser momentaneamente deixados de lado (para serem invocados mais à frente).

A burguesia nacional resolveu apostar novamente no "centrão", isto é, na direita tradicional, fisiologista até a medula, que sempre dominou a vida política nacional. Colocaram um rótulo de "novidade" e de "pessoa normal" na testa de Melo, Covas e Paes. Este é o papel do jornalismo de "qualidade superior" de Coimbra e da ZH/RBS: mistificar, naturalizar e abrandar para que o regime econômico e social das "minorias silenciosas" dominantes economicamente triunfem com um ar de que está tudo certo, tudo normal e tudo como não poderia deixar de ser.

Não, Coimbra! Nesse embate além do Melo venceu todos aqueles que se beneficiam da institucionalidade burguesa: o MDB, o PSDB, a ZH/RBS, o PCdoB/PT, o jornalismo vendilhão dos interesses do povo e a "maioria silenciosa"; perdeu, como sempre, a classe trabalhadora brasileira...
***
PS 1: "Se há um idiota no poder, é porque os que o elegeram estão bem representados", disse o Barão de Itararé; podemos acrescentar na sua frase: "e funciona bem o sistema eleitoral viciado ou fraudado". São importantes algumas perguntas que o jornalismo de "qualidade superior" jamais poderia levantar:  quem, de fato, acompanha a contagem dos votos e o funcionamento das estranhas urnas eletrônicas? Por que não realizar o "big brother" da contagem dos votos, abrindo as portas dos TREs a toda a população que desejar e transmitir imagens do seu interior mais íntimo? Pode ser que, de fato, a maioria tenha votado no Melo, mas dá pra descartar irregularidades ou mesmo fraude escondida atrás das "maiorias silenciosas"? Alguém aí coloca a mão no fogo pelas eleições e pelas instituições políticas do país que, sabemos, não superou totalmente a República Velha (1889-1930)?

PS 2: precisaríamos de uma esquerda revolucionária que trabalhasse dedicadamente a desmascarar, pelo menos, as principais notícias veiculadas pela imprensa burguesa todos os dias e conseguir trazer a tona toda a sua manipulação descarada e perigosa. O texto acima foi uma pequena tentativa de exemplo nesse sentido. Uma redação composta de centenas de militantes revolucionários preocupados em demonstrar tais contradições cumpriria, sem dúvida, um papel fundamental na reorganização revolucionária dos trabalhadores.

O Psol frente ao setor privado: não demonizar se calando ou se calar para não ser demonizado?

A campanha de Boulos (Psol e cia.) para a prefeitura de São Paulo nos brindou com a seguinte declaração: "não esperem de mim a demonização do setor privado". Logo a seguir, o presidente nacional do Psol afirmou que o partido não renega suas origens radicais, mas que "amadureceu" por aceitar "alguma participação do setor privado na administração pública". Em política "revolucionária", a falta de clareza sempre beneficia o oportunismo.

O discurso de Boulos pode ser justo a depender do ponto de vista. Se entendemos o funcionamento da "iniciativa privada" como apenas um método econômico disponível e importante a ser utilizado como ferramenta econômica — desde que subordinado aos interesses da classe trabalhadora, e não o inverso —, se trata de uma política não só apoiável, como uma mudança necessária para o programa socialista visando um ponto de partida de transição. Nesse caso, merece realmente ser incorporada porque a economia precisa ser um todo integrado e equilibrado — precisamente daí deve resultar o desenvolvimento da sociedade socialista e comunista.

Contudo, "não demonizar o setor privado" jamais pode esconder uma capitulação ao funcionamento dos monopólios e oligopólios de mercado, que mandam e desmandam no mercado mundial e em muitos países. A falta de clareza do Psol em relação a isso é perigosíssima e preocupante. A equação "amadurecimento político" + falta de clareza em relação ao setor privado na administração pública + as profundas ilusões que Boulos e Manuela geraram nas eleições de 2022, 2024 ad infinitum, não pode resultar em boa coisa. Devíamos conhecer e ter na ponta da língua esta velha história do "amadurecimento" e da "moderação". Basta dizer que o PT começou assim...

Sobre o resultado das eleições e o combate ao desespero eleitoral

*Por Katiana Pinto dos Santos

Amigos(as): independente do resultado das eleições, o capitalismo está firme e forte; independente de qualquer governo, segue o curso da exploração e retirada de direitos da classe trabalhadora. Não adianta tentarmos encontrar bodes expiatórios entre nós; isso não muda a realidade. Temos o compromisso de continuar lutando, aprendendo com erros e acertos que venham no sentido de fortalecer a construção da nossa consciência de classe. Vamos fortalecer o emocional, pois teremos no período próximo muitas lutas pela frente.

❤️

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Zé! Nº2

Publicamos abaixo, na íntegra, a revista de literatura e poesia Zé! (nº2), criada por Paulo Moacir Farias da Silva e Cezar Dias. A revista teve dois números, sendo a primeira publicada em maio de 2011 e a segunda em janeiro de 2012. Zé! ainda tinha um blog, cujo endereço é: http://ze-digital.blogspot.com/




“A morte não é nada. 

Mas viver derrotado 

e sem glória é morrer 

diariamente.”

Eurípides




MEDIOCRIDADE

No infinito coberto de eternas belezas,
Como átomo perdido, incerto, solitário,
Um planeta chamado Terra, dias contados,
Voa com os seus vermes sobre as profundezas.

Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho,
Marchando, indiferentes ao grande mistério,
E quando um dos seus é enterrado, já sérios,
Saúdam-no. Do torpor não são arrancados.

Viver, morrer, sem desconfiar da história
Do globo, sua miséria em eterna glória,
Sua agonia futura, o sol moribundo.

Vertigens de universo, todo o céu só festa!
Nada, nada, terão visto. Partem do mundo
Sem visitar sequer o seu próprio planeta.

Jules Laforgue, do livro Litanias da Lua
Tradução de Régis Bonvicino


Jules Laforge; Montevidéu, 1860/ Paris, 1887



Para que servem as palavras

Tem um filme de terror em que ocorre um blecaute num cinema.
Ao retornar a luz, a maioria das pessoas da sessão haviam desaparecido.
Os sobreviventes pouco sabem, a princípio, o porquê daquilo.
Mas percebem que o fenômeno se deu no mundo todo.
Começam a entender que há uma escuridão, que cada vez avança mais e mais.
O sol, a cada dia que passa, surge mais tarde e a noite se prolonga.
Essa escuridão tem por finalidade encurralá-los e, por fim, devorá-los.
Começam a perceber também que a única coisa que os pode salvar é alguma luz que, porventura, consigam manter acesa.
Um a um são tragados pela sombra, enquanto correm desesperados atrás de lanternas e postes de luz, faróis de carros e baterias portáteis.
É assim que acontece.
Essa luz é tua humanidade.
E essa sombra é a barbárie se aproximando.
Tua vida vale menos que teus pertences e é facilmente tirada por causa de uma discussão.
Essa pequena e preciosa luz, que levamos milênios para criar desde que nos arrastamos das obscuras cavernas da nossa animalidade, está desaparecendo.
Sendo engolida pela ignorância, pela indiferença e pela esperteza daqueles que já perderam a sua chama.
E mesmo aqueles que estão no mundo apenas pela festa, quando esta acaba – se não estão bêbados o suficiente –, sentem o perigo a rondá-los, mesmo em seus carros.
Por isso entram assustados para dentro de seus condomínios.
Esperando ali estarem a salvo.
Esquecem eles que castelos já foram postos abaixo.
Enfim – somos nós correndo com uma lanterna na mão e cuja pilha está enfraquecendo.
Mas, como os personagens do filme, precisamos continuar nessa corrida mesmo que a escuridão nos engula.
Talvez encontremos mais luzes pela frente e consigamos espantar as sombras.
Você tem pilhas?

Festa
     Atrás do balcão, o rapaz de cabeça pelada e avental olha o crioulão de roupa limpa e remendada, acompanhado de dois meninos de tênis brancos, um mais velho e o outro mais novo, mas ambos com menos de dez anos.
     Os três atravessam o salão, cuidadosa mas resolutamente, e se dirigem para o cômodo dos fundos, onde há seis mesas desertas.
      O rapaz de cabeça pelada vai ver o que eles querem. O homem pergunta em quanto fica uma cerveja, dois guaranás e dois pãezinhos.
      — Duzentos e vinte.
        O preto concentra-se, aritmético, e confirma o pedido.
   — Que tal o pão no molho de almôndega? Fica muito mais gostoso.
       O homem olha para os meninos.
      — O preço é o mesmo — informa o rapaz.
      — Está certo.
      Os três sentam-se numa das mesas, de forma canhestra, como se estivessem fazendo pela primeira vez na vida.
     O rapaz de cabeça pelada traz as bebidas e os copos e, em seguida, num pratinho, os dois pães com meia almôndega cada um. O homem e (mais do que ele ) os dois meninos olham para dentro dos pães, enquanto o rapaz cúmplice se retira.
       Os meninos aguarda que a mão adulta leve solene o copo de cerveja até a boca, depois cada um prova os eu guaraná e morde o primeiro bocado de pão.
     O homem toma a cerveja em pequenos goles, observando criteriosamente o menino mais velho e o menino mais novo absorvidos com o sanduíche e a bebida.
         Eles não tem pressa. O grande homem e seus dois meninos. E permanecem para sempre, humanos e indestrutíveis, sentados naquela mesa.

Wander Piroli (contista mineiro).


JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Sabem este poema do João: "Tecendo a manhã"?
Essa manhã é o futuro. Ele convida a nos unirmos para que o possamos inventar.
Mas, poeta que é, nos dá a deixa: não o construiremos com a tecnologia, com o dinheiro.
Nós o construiremos com as nossas vozes.
Vozes essas que precisam, primeiro, ser ouvidas. Por isso um galo "apanha" o grito de outro.
É necessário esse movimento lateral para que haja o entendimento. O futuro não está a tua frente. Está ao teu lado. Esse é o gesto essencial para que funcione.
Ir ao teu semelhante. Ouvi-lo.
Só assim compreenderemos realmente o que diz e poderemos passar adiante a mensagem, formando essa tenda que nada mais é do que um lar onde todos se reconhecem.
Um lar que se vai erguendo pelo contato, pelo convívio, pelo calor do outro.
Que se forma pelo que é ouvido. Não pelo que é dito.
Sem paredes, que é para que caibam todos.
Ele tem razão.
O mundo não é nossa casa, mas nossa tenda.
Uma casa tem limites. De capacidade, de deslocamento, de posse.
Uma casa tem trancas, que nos transformam em "os de dentro" e "os de fora".
Uma tenda está sempre aberta. É sempre um abrigo. Para quantos.
Talvez os nômades sejam mais sábios.

João Cabral de Melo Neto; Recife (1920), Rio de Janeiro (1999).

Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

sábado, 28 de novembro de 2020

Notas inconformadas sobre a conduta ética dos eleitores de “esquerda” – ou: como se escreve muito para quem está pouco se lixando para argumentos; ou ainda: o desespero eleitoral cega?

A eleição em curso demonstrou um desnível preocupante de consciência e de conduta ética por parte dos eleitores de “esquerda”. Me refiro aqui não à massa de eleitores em geral, mas àquela que tem alguma atuação política nos sindicatos e nos movimentos sociais.

Não! – eu não vou defender aqui em quem cada um deve votar, se na Manuela/Boulos ou nulo (excluo a direita porque jamais votaria nela – antro de mau caráteres e exploradores; a raiz histórica da corrupção nacional e internacional; ainda mais se tratando da quadrilha do MDB/PSDB). Não aponto em quem votar porque os trabalhadores estão pouco se lixando pra mim e, sobretudo, porque a ideia aqui não é mudar o voto de ninguém, mas mexer nas certezas absolutas e abrir um novo ângulo de visão, sobretudo porque o que li nos grupos das redes sociais me fez mal, muito mal. Na verdade, me gerou profundas náuseas. E os motivos serão arrolados a seguir:

1. 
Num desses grupos que participo assiduamente, divulgando textos sobre várias temáticas – uma espécie de pregação no deserto, visto que não gera nenhum debate apaixonado como as eleições (ou o desespero eleitoral) geram –, recolhi a maior parte dos argumentos que critico aqui. A experiência eleitoral/institucional de 13 anos com PCdoB/PT pouco ou nada originou de massa crítica. Pelo contrário, hoje se esquece que o MDB governou o país junto com PCdoB/PT e que não houve, nesses 13 anos, nenhuma divergência fundamental.

Cada um vote em quem achar que deve e cultive as ilusões que quiserem cultivar, mas deveria evitar entrar no fanatismo dicotômico pré-eleitoral e descambar para uma espécie de ódio contra quem defende o voto nulo. Neste caso, temos um caso evidente daquilo que Wilhelm Reich definiu como “fascismo vermelho”. Poderemos derrotar o bolsonarismo com... o método raivoso do bolsonarismo?

Podemos considerar que há um equívoco no voto nulo neste momento, mas serão estes companheiros e companheiras que estarão conosco, ombro a ombro, quando os governos eleitos começarem a nos massacrar, de uma forma ou de outra – e não os candidatos pra quem fazemos campanha hoje. O “voto nulo” não se restringe a estes setores. Mais de 350 mil pessoas não votaram nessas eleições – cerca de 33% do eleitorado porto alegrense (a maior abstenção entre as capitais brasileiras). Xingar tais setores sobre chamar voto nulo e 33% do eleitorado por se abster resolveria algo ou denotaria apenas desespero? O que eles querem dizer e o que devemos fazer com isso? Simplesmente trazê-los de volta à disputa eleitoral e à institucionalidade burguesa que é parte fundamental da manutenção do sistema ou dialogar tentando mostrar contradições e transformar essa passividade abstencionista em algo organizativo? De uma forma ou de outra a direita não governa sempre através da institucionalidade burguesa – e reconhecer isso não seria importante?

2. 
Com os brilhantes argumentos do desespero eleitoral, descobri que o culpado principal da vitória do bolsonarismo em 2018 foram os votos nulos e não a política levada a cabo pela frente popular nos seus 13 anos de governo federal. E aprendi também que, milagrosamente, as eleições municipais podem derrotar o bolsonarismo (cuja vitória neste pleito ficou claramente nas mãos dos partidos do “centrão”; quer dizer, da direita soft, que pensa exatamente como Bolsonaro, mas não tem coragem de externar).

Obviamente sei que o voto nulo pesou na vitória do bolsonarismo e de forma alguma nego isso – tanto que eu, uma pessoa que votou nulo (como tática, não como princípio) por vários anos, fui obrigado, com lágrimas nos olhos e tremor nos dedos, a votar no PT. Contudo, não dá pra concordar com quem tenta imputar a vitória do bolsonarismo aos votos nulos e menospreza parcial ou totalmente a política levada a cabo pelo PT/PCdoB em 13 anos de governo federal, que, inclusive, fez aliança com o MDB de Temer e o PP de Bolsonaro (na época). Tal política, que fica de joelhos à institucionalidade burguesa e a reforça, preparou aberta e claramente o golpe (chamado pelo próprio petismo de “institucional”) que devorou o governo “democrático-popular”.

Nada foi feito em 13 anos para derrotar a direita ou modificar a estrutura do país (um reformismo sem reformas). O golpe é resultado das alianças espúrias, da falta de política concreta para mudar o país e combater as elites e a direita nacional. Ao contrário, além de dar “lucro recorde aos bancos”, o petismo levava a passar os caciques oficiais da direita tradicional como grandes aliados, respeitáveis e confiáveis.

Votem na Manuela ou no Boulos, denunciem Melo e Covas (e eu também estarei com vocês), mas nunca esqueçam disso e jamais minimizem tais problemas!

3. 
Companheiras e companheiros, longe de mim querer lhes tentar explicar o porquê de certas pessoas e organizações optarem pelo voto nulo: votem no PCdoB/PT e no PSOL. Acreditem! Sonhem! Mas não embelezem o que não deve ser embelezado, nem prometam o que vocês não vão cumprir, pois assim vocês se tornarão parte daquilo que criticam (isto é, comungarão da prática dos políticos burgueses). Muitos dizem: “agora é Manuela”, depois acertamos contas com ela e com o PT. Porém, falam isso após embelezar e esquecer de todo o passado e de toda a prática dos governos de PCdoB e PT (tanto antes quanto agora), incluso as suas práticas nefastas de autoritarismo puro nos sindicatos, entidades estudantis e movimentos sociais que apoiam ou dirigem. Eu não esqueço isso; nem vocês deveriam. “Agora é Manuela”, depois fazemos o que? Continuamos levando a vida como se nada precisasse de alteração – inclusive a nossa postura pessoal nos sindicatos e nos movimentos sociais? E se começar uma nova vergonhosa conciliação com a institucionalidade burguesa (judiciário, a hipocrisia do funcionamento das instituições, etc.), simplesmente ignorarão aguardando as próximas eleições?

Após a eleição tudo isso é esquecido e um silêncio sepulcral leva a uma adaptação não apenas aos governos eleitos, mas à institucionalidade burguesa, que está totalmente mancomunada com a justiça dos ricos e o legislativo que tem maioria de direita e cria mil empecilhos reais ou imaginários para qualquer mudança ou legislação que beneficie os trabalhadores. Tanto é assim que muitos esqueceram ou simplesmente ignoram (como se fosse algo digno de ser ignorado) que o PCdoB apoiou Melo no 2º turno de 2016 e estão coligados em outros 194 municípios (dados do TSE). Pode ser que os tempos hoje sejam um pouco diferentes daquele, mas o MDB e Melo mudaram sua essência de lá para cá? Ou isso é algo que pode ser simplesmente ignorado?

Aí alguns me dizem: “ninguém é inocente a ponto de não entender que a chapa da Manu não está alinhada por completo com um projeto de emancipação humana plena, mas, infelizmente, é necessário ser pragmático e votar 65. De outra forma teremos mais 4 anos com pouco espaço pra lutar”. A isso respondo que não se trata de inocência, mas de uma amnésia voluntária por parte de tais eleitores da “esquerda”. Falo isso porque os argumentos do desespero eleitoral ignoram ou ocultam todos os problemas descritos até aqui e potencializam as diferenças em relação a Melo, que no fundo são exageradas. A intensidade da argumentação de muitos desses eleitores não denota um voto crítico num “menos pior”, mas a autêntica salvação messiânica, o que é muito mais grave. E, por fim, pouco espaço pra lutar sempre teremos em governos que são reféns da institucionalidade burguesa ou onde imperem as burocracia sindicais que, ao fim e ao cabo, são o resultado das políticas de PT e PCdoB.

Em síntese: votem no menos pior (não lhes tiro a razão), mas não dourem a pílula!

4. 

Em contrapartida, eu não concordo com a agitação da Transição Socialista. Não considero que Boulos seja Igual a Covas; nem que Manuela seja igual a Melo. Tal agitação equivocada simplesmente reforça todas as ilusões que supostamente quer combater, jogando os eleitores de “esquerda” nos braços dos candidatos “reformistas” e ajudando na polarização/fanatização (o campo preferido do bolsonarismo e do neofascismo – diga-se de passagem). As ilusões são grandes e profundas, como podemos constatar e, como não existe um movimento de massas que se ponha como alternativa clara e firme neste momento, tal polarização não ajuda em nada, mas atrapalha. A unidade dos trabalhadores deve se dar com muita paciência revolucionária. Não se pula etapas apenas simplificando a realidade, que não pode ser simplificada (seja por quem defende o voto nulo, seja por quem busca qualquer pretexto e ignora a prática dos candidatos e partidos que pretendem votar agora).

5. 
O grande problema, repito, é a institucionalidade burguesa a qual os candidatos que forem eleitos terão que lidar; e o PCdoB e o PT não apenas não combatem tal institucionalidade, como a reforçam. O que fizeram em 13 anos de governo federal? Tal “vitória” contra a direita nas urnas é solapada pelo funcionamento da institucionalidade que se segue e isso não é sequer lembrado por quem hoje está numa campanha alucinada pela “vitória” da “esquerda” e pela “luz no fim do túnel” que, uma vez que nos aproximemos dela, se transformará num novo túnel, ainda maior. É esta institucionalidade que compromete toda a gestão “popular” e que fortalece a direita que supostamente foi derrotada nas urnas, que precisa ser desmascarada e explicada pacientemente aos trabalhadores e às trabalhadoras. É esta a verdadeira “unidade” que falta à “esquerda”.

O desespero eleitoral esconde, no fundo, o sonho de fazer uma “mudança” no país (e mesmo na cidade) com tranquilidade e pacificamente, sem termos que tomar nas nossas mãos as responsabilidades sociais que nos cabem (como a atuação consciente nos sindicatos, nos movimentos sociais e na própria política – ou seja, responsabilidades e “mudanças” que vão muito além do voto de 2 em 2 anos), confessando involuntariamente os interesses imediatistas de quem o expressa. O desespero eleitoral também embaça o fato de que se fará todo o possível para não se colocar o dilema de uma revolução que, ao fim e ao cabo, abre a real mudança que traz o novo e o desconhecido (pra vocês e pra mim). Uma revolução coloca, de fato, em xeque mate a hipocrisia institucional, a justiça burguesa, a rotina, as certezas de hoje. Em síntese, o dilema eleitoral se resume a isso.

Aí dizem: mas votando na Manu vamos nos aproximar da “revolução”, certo? Errado! Em 13 anos de governos petistas nos aproximamos ou nos afastamos da revolução? Derrotamos ou fortalecemos a direita? Temos que “votar na Manu e no Boulos porque as pessoas da periferia sentem fome e ninguém faz revolução de barriga vazia”. Oi? Tristes argumentos oriundos do desespero eleitoral, repleto de ilusões. Eu não quero que ninguém passe fome e essa dicotomia – digna das dicotomias bolsonaristas – não ajudam, não esclarecem e não resolvem os problemas. Ao contrário: aprofundam a confusão! Eu sou partidário do fim da fome. É por isso que milito e por isso que sou socialista. Mas reforçando a institucionalidade burguesa e as ilusões no sistema econômico e eleitoral a fome não apenas não será solucionada, como se aprofundará.

Não será num evolucionismo vulgar de “solução” da fome conjuntural das pessoas que vamos acabar com ela; tampouco reforçando as ilusões na democracia burguesa. Além do mais, as revoluções na história foram feitas porque as pessoas passavam fome e não por quem tinha a barriga cheia (ou migalhas para “distrair o estômago”). O reformismo serve, justamente, para dar algumas migalhas agora, para abrandar a fome, contribuindo para que o sistema siga funcionando normalmente. Não fui eu que fiz o mundo assim; só estou tentando observá-lo da maneira mais sóbria possível – e, sobretudo, afastando a fumaça do desespero eleitoral, que embaça a visão e o juízo.

6. 
Votem em quem vocês quiserem, mas refinem os argumentos e não joguem no lixo as experiências históricas. Cuidado com a dicotomização e o desespero eleitoral. Respeitem as opções de quem é trabalhador e tem consciência de classe. Guardem o melhor do latim de vocês para os futuros governos burgueses que serão eleitos, a mídia e a hipocrisia institucional, que certamente pesará no futuro, independente de quem vença as eleições.

Vamos desenvolver, juntos, a coragem de ir além das eleições. Tomemos nas mãos as nossas responsabilidades sociais. Questionemos a hipocrisia institucional e do sistema. Evitemos a dicotomização que descamba no “fascismo vermelho”. Tenhamos a mesma coragem de combater e desmascarar os políticos burgueses, reformistas e as burocracias sindicais como temos a coragem de xingar quem “vota nulo”, se abstém ou, tristemente, vota na direita. Nos empenhemos em lutar “certo” todo o dia, mês e ano, para além do desespero de votar “certo” de 2 em 2 anos. Rompamos com o círculo vicioso e não reforcemo-lo. Estes são os meus “votos” para achar a saída definitiva do túnel; e não apenas uma luz opaca e fugidia no seu suposto fim.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

De volta à República da Bruzundanga

Faz mais de 100 anos que Lima Barreto visitou e nos apresentou a peculiar República da Bruzundanga, da qual tomou as mais variadas e curiosas notas. Motivado por sua visita, estive lá recentemente e pude constatar algumas mudanças pra pior, que registro a seguir.

Na Bruzundanga as transformações sociais se dão pela cúpula, sem a participação organizada do povo. Primeiro uma guerra civil de elite, depois uma sangrenta ditadura militar acabaram por perverter a estrutura de governo da República da Bruzundanga, embora mantendo os mesmos problemas políticos e econômicos já descritos pelo nosso ilustre conterrâneo que lá esteve em princípios do século passado. Depois da ditadura sobreveio uma breve experiência de um governo democrático-popular que desgraçadamente não alterou nenhuma das estruturas antigas do país. Ao contrário, reforçou ilusões e deu lucros estratosféricos aos bancos e ao sistema financeiro. Terminou por sofrer um golpe de Estado, que abriu caminho para o atual governo.
 
Com o passar dos anos, o antigo cargo de Mandachuva acabou por transformar-se numa respeitosa presidência da República, tal como mandam as convenções internacionais. Contudo, ainda que o presidente seja eleito por um processo mais democrático do que a 100 anos atrás, o presidente não é eleito sem uma forte campanha financiada com rios de dinheiro e sem conformar alianças excêntricas, nem governa sem o consentimento dos grandes monopólios que controlam o mercado mundial. Portanto, sua margem de governo é muito estreita — para não dizer nula.

O mais curioso foi saber que no último processo eleitoral, ocorrido em 2018, elegeram um candidato exótico, chamado Sr. Lixo. Desde quando era vereador e deputado, Lixo defendeu todo o tipo de bandalheira reacionária, medieval, dos mais variados níveis de preconceitos; exaltando qualquer entulho, podre e decadente, religioso ou político, que expressasse ódio e raiva descontrolada e incontida. Seus apoiadores são como cães adestrados, que, por se identificarem plenamente com o Lixo, repetem tudo o que ele diz e saem entoado pelas ruas da capital da Bruzundanga, Bosomsy: Lixo é mito! Lixo é mito! Lixo é mito!

Com o apoio de muitos programas "humorísticos" que passavam em horário nobre da TV aberta da Bruzundanga, terminaram por fazer esta "máxima" entrar na mente de milhões de bruzundanguenses, sobretudo na de sua juventude. Eles diziam: "Lixo combate à corrupção e vai acabar com a mamata". Mas o que se viu após a sua eleição foi justamente o contrário: o despotismo mais desavergonhado e o poder paralelo do tráfico de drogas tomar os gabinetes dos partidários do Lixo. Não apenas ficou de joelhos aos grandes latifundiários da Bruzundanga — a principal base de sustentação política do Lixo —, como permitiu que tocassem fogo nas principais reservas florestais a fim de expandirem a fronteira agrícola do país. A antiga religião Católica oficial foi cedendo espaço para as igrejas evangélicas que, na pessoa do bispo Levir Kakedo, comanda o adestramento político em massa. Expulsa de Angola, sua igreja evangélica terminou por estabelecer-se plenamente na Bruzundanga. É preciso registrar também que o sistema financeiro e os grandes oligopólios de mercado apoiam Lixo na presidência da Bruzundanga, como lhe dão respaldo, afirmando tratar-se da "escolha democrática" do povo da Bruzundanga, apesar das inúmeras denúncias de disseminação de fake news contra adversários.

Povo, aliás, que conheci de perto quando lá estive. Durante o processo eleitoral se encontrou bastante dividido, mas graças a todo apoio da estrutura econômica ao Lixo, este conserva-se no poder e ainda mantém certo apoio popular. Numa manifestação pró-Lixo pude conversar com um apoiador do presidente e ele, apesar de não gostar muito das minhas perguntas por julgar que estava colocando em dúvida a pureza do Lixo (algo que estive longe de fazer), me dizia: "Lixo é mito! Meu peito bate pelo Lixo! Estou com o Lixo e não abro! É com Lixo que vamos consertar este país!".

Não bastasse Lixo no poder, o povo ainda cultiva esperanças eleitorais de que pode mudar a Bruzundanga pra melhor na qualidade de simples público, que apenas observa tudo passivamente e sem a menor organização. Lima Barreto, quando lá esteve, escreveu o que segue sobre as eleições: "um deputado eleito sai das urnas como um manipanso a quem se vão emprestar virtudes e poderes que ele quase sempre não tem. Os seus eleitores não sabem quem ele é, quais são os seus talentos, as suas ideias políticas, as suas vistas sociais, o grau de interesse que ele pode ter pela causa pública; é um puro nome sem nada atrás ou dentro dele. (...) A superstição eleitoral é uma das nossas coisas modernas que mais há de fazer rir os nossos futuros bisnetos". Penso que, lamentavelmente, desde a época em que Lima Barreto lá esteve, nada de substancial desta análise mudou. Ao contrário, se aprofundou! 

O povo da Bruzundanga regrediu da condição de "público" para a de "torcida organizada", desconfiando da sua própria organização política e abraçando Lixo ou qualquer "salvador da pátria" como uma milagrosa solução para os seus graves problemas sociais. 

Pobre povo da Bruzundanga! Espero que o próximo viajante que por aquelas bandas passar nos traga melhores notícias do que Lima Barreto e eu fomos capazes de dar.   

domingo, 22 de novembro de 2020

Um tributo a Lima Barreto

 

Esse é o Lima Barreto (1881-1922). Um dos maiores nomes da literatura brasileira. Infelizmente apenas hoje ele tem esse reconhecimento, pois na sua época, por ser negro, recebia, em sua maioria, negativas das redações de jornais. Apenas com o surgimento dos sindicatos (antes deles serem engolidos pelo Estado) Lima Barreto pôde publicar seus principais escritos, além de outros livros que teve que pagar com o dinheiro do próprio bolso.

Segundo Carlos Nelson Coutinho, Lima Barreto "foi um dos maiores representantes da linha humanista e democrático popular na literatura brasileira", além de ter ressaltado que "a simples mudança de regime político em nada alterara os vícios fundamentais da formação histórica brasileira". E ele foi testemunha ocular de duas destas "mudanças": o fim da escravidão e a proclamação da República. Nascido no período em que vigorava a escravidão, escreveu que "em 1888, dias antes da data áurea, meu pai chegou em casa e disse-me: a lei da abolição vai passar no dia de teus anos. E de fato passou; e nós fomos esperar a assinatura no Largo do Paço. Havia uma multidão ansiosa, com o olhar preso à janela do casarão". E concluiu: "como ainda estamos longe de ser livres! Como ainda nos enleamos nas teias dos preceitos, das regras e das leis!".

Lima Barreto foi um dos maiores críticos da estrutura política brasileira, sobretudo em Os Bruzundangas, onde denuncia as aberrações do país. Também foi impiedoso com o funcionalismo público, o qual demonstrou ser um exército de "homens que falam javanês", além, é claro, da denúncia racial, que lhe foi muito cara, em Clara dos Anjos e Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Graças a Lima sabemos que "o brasileiro é vaidoso e guloso de títulos ocos e honrarias chochas" e que "não temos povo, mas público". Lima foi excluído da crítica oficial com um "silêncio implacável" não apenas por ser negro, mas por suas "posições contundentes", que lhe custaram a marginalidade e a indiferença da elite cultural.

Foi um autêntico outsider da sociedade brasileira, a quem prestamos reverência e o devido reconhecimento. Em sua memória, devemos fazer com que o Brasil deixe de ter público e passe a ter povo!

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Um retrato das eleições municipais de 2020

O debate eleitoral dos candidatos à prefeitura de Porto Alegre foi pobre e patético. Cheio de hipocrisias, jargões vazios, meias verdades e mentiras completas (dentro das regras da mídia burguesa, que são viciadas, limitam e condicionam). Um grenal acéfalo em que a estrutura não só não é questionada, como sai fortalecida. É a velha política e a hipocrisia institucional falando pela boca de todos os candidatos. Nada de bom, honesto e sadio pode vir disso...

Vale lembrar Paulo Freire e a sua Pedagogia do Oprimido: "esteja todo o dia aberto para o mundo, esteja pronto para pensar; esteja todo dia pronto a não aceitar o que se diz, simplesmente por ser dito; esteja predisposto a reler o que foi lido; dia após dia, investigue, questione e duvide. Creio que o mais necessário é duvidar. Creio sempre necessário não ter certeza, isto é, não estar excessivamente certo de 'certezas'".

E candidatos e "apoiadores" estão lamentavelmente cheio de certezas obtusas, todos ajudando a embelezar o lixo e a hipocrisia, indo direto pro abismo da institucionalidade burguesa e gritando que "estamos certos"!

A "esquerda" entra, inclusive, no jogo viciado do tipo de debate proposto pela RBS/Band, que limita e condiciona qualquer reflexão séria. Deixam o papel de "questionar" este limites viciados pra um oportunista e carreirista incorrigível como Rodrigo Maroni (PROS), que critica a ZH no ar e a "esquerda" bem quietinha e conivente com a farsa toda.

Duas formas de manipulação eleitoral descarada, tratadas como absolutamente normal (ambas deveriam ser expressamente proibidas):
1) Pesquisa eleitoral: como isso pode ser tratado como normal (ainda mais quando levamos em consideração que houve uma CPI sobre isso abafada no Congresso Nacional)?
2) Cabos eleitorais pagos: como condescender que candidatos "comprem" militância, ignorando que eles não o fazem por consciência e convencimento, mas por necessidades materiais geradas pelo próprio sistema que os candidatos e partidos que eles fazem campanha sustentam?
PS: e a "esquerda" obviamente acha tudo isso normal...

Perguntas importantes sobre as eleições municipais:
1.
Quem ganha com as eleições municipais? Ou melhor: quem se fortalece com as ilusões oriundas das eleições municipais?
2.
Manobra interessante a do MDB. Dá pra ver que conhece bem os meandros da institucionalidade burguesa: joga com a propaganda e as pesquisas eleitorais (e, talvez, com a fraude, por que não?). O mesmo fez Eduardo Paes (MDB) no Rio. Representam o "velho" disfarçado de "novo". As ilusões eleitorais abrem tais possibilidades. A questão é: até quando vamos acompanhar esta novela?
3.
Muito "fora Marchezan" (PSDB) e "fora Crivella" (Republicanos) se gritou, mas os negociadores profissionais sempre sabem usar a institucionalidade e as suas ilusões. Aqui Marchezan "saiu", mas entrou na disputa Melo (MDB), que vai defender o mesmo programa do antecessor. Que responsabilidades há em relação a aqueles que plantaram e plantam ilusões na institucionalidade que abre a possibilidade de vender o "velho" como "novo"?
4.
Que responsabilidades há para aqueles que, ao longo dos quatro anos passados gritaram "fora Marchezan", mas silenciaram em relação aos visíveis problemas da institucionalidade burguesa? Devemos nos preparar já para o futuro "Fora Melo" caso não ganhe Manuela (PCdoB/PT)? Até quando? Nada estaria errado na nossa atuação? Basta só seguir fazendo o mesmo de sempre?
5.
Até que ponto as candidaturas de "esquerda" tem se enfrentado com o sistema? Para João Bernardo, escritor do livro, A transnacionalização do capital, torna-se cada vez mais patente o surgimento do que ele chama de um “Estado amplo”, controlado pelos monopólios e trustes internacionais, que não reconhecem os limites das fronteiras e legislações nacionais, estaduais e municipais em contraposição ao que ele chamou de “Estado restrito”, que é o Estado “tradicional”, com suas instituições políticas circunscritas ao seu território, mas subordinadas e dependentes deste poder econômico superior.
6.
Nesse caso: elegemos "representantes" e legislamos no Congresso Nacional, nas Assembleias Estaduais e nas Câmaras de Vereadores para quê, uma vez que o poder do "Estado amplo" (dos monopólios de mercado) asfixia e torna inócua toda a legislação que limite seu poder? (basta ver a situação das multinacionais frente ao governo do Estado — se falamos em cobrar os impostos devidos elas ameaçam ir embora e o governo aceita tudo quietinho).
7.
Qual dos partidos de "esquerda" que elegeram representantes se enfrentam com o poder deste "Estado amplo"? Até onde transformaram o identitarismo apenas em uma nova forma de renovar ilusões? Se "só a luta muda a vida", conforme atesta o jargão repetido quase unanimemente pela "esquerda", como e contra o quê especificamente vamos lutar? Os mandatos parlamentares conseguidos nas eleições de ontem vão combater ou reforçar a institucionalidade e as ilusões que sustentam o "Estado amplo"?
8.
Em São Paulo ocorreu um fenômeno interessante, ainda que bastante incipiente: o Psol foi ao segundo turno contra a velha elite paulistana! Boulos tem grande capacidade argumentativa, o que é, sem dúvida, importante, embora também se restrinja aos limites da institucionalidade burguesa. Fala muito, tal como Lula em 2002, de "esperança". Para o artista e apresentador Antônio Abujamra, "a esperança matou esse país". Boulos avançará contra o "Estado amplo" ou governará reforçando a esperança na institucionalidade atual?