domingo, 15 de maio de 2016

Não adianta exigir coerência da pequena burguesia

O discurso do novo governo Temer (PMDB, PSDB e aliados) de "preocupação" com os 10 milhões de desempregados é repugnante. Uma nova mentira institucionalizada. As medidas econômicas e políticas de "ajuste fiscal" que vão implementar irá triplicar esta cifra, sem falar no aumento do subemprego.

Toda esta "preocupação" de PMDB e PSDB "em defesa do Brasil" é uma fachada para justificar o impeachment e a brutal retirada de direitos que já estava em curso no país com Dilma (PT) e que agora será intensificada com o governo Temer. Estão em defesa dos compromissos com o capital internacional norte-americano.

O que dizer, então, de José Serra (PSDB) no Ministério das Relações Exteriores? O senador que fez a lei que entrega o pré-sal para as petroleiras do Big Oil (lei aprovada no Senado numa conjugação de esforços entre o PT e o PSDB de Serra). E a farsa da nomeação de José Sarney Filho para o Ministério do meio ambiente?

De uma só vez cai a máscara da luta pela "moralização da Petrobrás", que significa apenas a sua entrega plena ao Big Oil, e contra a corrupção, velho e batido pretexto.

Não adianta exigir coerência. A grande esmagadora maioria daqueles que protestaram contra o governo não voltarão às ruas e não exigirão a queda deste governo, nem a saída dos 7 ministros nomeados por Temer que "estão sendo investigados" pela operação Lava Jato.

As nossas esperanças se voltam para aqueles trabalhadores que perceberam a hipocrisia e a manipulação política, para que aprendam com a história e jamais voltem a cometer os mesmos erros...

sábado, 19 de março de 2016

O nazismo enrustido

O momento político que estamos vivendo tem despertado o nazismo enrustido de centenas de milhares de pessoas, muitas das quais, se dizem “de bem”. Enquanto se divulgava aos quatro cantos (principalmente através dos meios de comunicação) a alta popularidade de Dilma e Lula, ele estava adormecido. Mas agora ele está sendo atiçado com vara curta, sobretudo por aquela parte da grande mídia, como a Rede Globo.
         
É certo que este sentimento encontra raízes na psique humana: numa tendência à destruição que sustenta e impulsiona a agressividade humana, levando à descarga de raiva e à destruição. Este sentimento horrível, evidentemente, não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas, mas podemos arriscar dizer que nesses protestos da direita há uma unificação em torno do ódio, já que ele cega e facilita a crença de que se Dilma cair a corrupção vai acabar, mesmo sem mexer na estrutura econômica e política do país. Aliás, isso é tabu: para esses “manifestantes” o capitalismo é sagrado. Ainda hoje é preciso lembrar que a defesa do capitalismo e um anti-socialismo raivoso estão na genética do nazi-fascismo. Equivocadamente esta classe média enxerga “socialismo” no PT, mas, na verdade, para o sentimento do “nazismo enrustido” pouco importa, qualquer movimento que cheire à esquerda é taxado de “socialismo” e precisa ser combatido, com razão ou não.
         
A descarga pulsional da grande massa – isto é, suas tendências destrutivas – em outras épocas é canalizada para entretenimentos alienados. Nem todos os indivíduos a descarregam da mesma forma. Há aqueles que a aliviam no futebol, no carnaval, no sexo “descartável”, na fofoca; outros no álcool e nas drogas; ou ainda numa combinação destes e outros tipos. Mas, neste momento, esta descarga está sendo usada politicamente pelas forças da direita tradicional contra o PT e indistintamente contra toda a esquerda. Trata-se de uma tática velha, mas sempre eficiente. O nazismo soube a utilizar muito bem, assim como fascismo na Itália e a ditadura militar no Brasil.

O que impede de se ver esses elementos claros como a luz do dia? Quando não se trata de baixa formação política ou da ingenuidade, pode-se indicar, talvez, este sentimento que se chamou de “nazismo enrustido”, que é incentivado em momentos políticos como este e cega qualquer forma de diálogo racional, dando arrepios de prazer quando atinge o clímax do ódio, da descarga raivosa ou da turgescência dos gritos histriônicos. Talvez seja isso que Whilhelm Reich se refira na sua análise da psicologia de massas do fascismo e do homem de classe média.

Apesar de o reformismo do PT tentar cumprir o programa político da classe média (qual seja: um ensaio de “distribuição da riqueza” sem mexer nos lucros do grande capital; tentativa de “humanizar” o capitalismo sem questionar os seus pilares e valores; contenção da luta sindical em nome do “diálogo eleitoral”), o “nazismo enrustido” grita que o “PT é comunista”. Qualquer tentativa de contra argumentação racional é respondida com o êxtase: “vai pra Cuba!”. O ódio real, contudo, não é contra a corrupção do PT – isto é apenas um álibi –, mas contra o que ele representou um dia, lá nos idos de 1980. O real programa deste “movimento contra a corrupção” é: nenhum privilégio a menos! O PT um dia representou uma ameaça a estes privilégios, mas hoje não. Tente dizer isso à uma pessoa sob o efeito do “nazismo enrustido”!

Infelizmente não é apenas na classe média mais abastada que percebemos sintomas do “nazismo enrustido”, que odeia não apenas o PT, mas sobretudo os pobres e miseráveis; ele também está presente em muitos trabalhadores. Instigar movimentos políticos através do ódio não é tarefa difícil, ainda mais quando se tem nas mãos poderosos meios de comunicação. Além disso, os valores políticos do conservadorismo – isto é, da direita – caem como uma luva a este ódio; são eles: a propriedade privada, o egoísmo, a rapinagem, a exploração, a confusão filosófica, a segregação, o patriarcalismo, o racismo, a xenofobia, o preconceito, a guerra.

O linchamento simbólico promovido pelos meios de comunicação e pelas ações do “São Moro” contra o PT, em particular, e a esquerda, em geral, estimulam a vontade de vingança engasgada na garganta do povo brasileiro contra os políticos e os partidos, mas não resolvem o problema do país porque não toca nos seus graves problemas sociais. Quer somente tirar um partido inconveniente do poder. Trata-se, na verdade, apenas de um catalisador que demonstra a verdadeira face deste “protesto” – o “nazismo enrustido” de muitos –, que se calou durante anos perante os debates e as denúncias das torturas e mortes da ditadura militar, mas que agora começa preocupantemente a “sair do armário”.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Sobre a "prisão" de Lula

1) Está em curso no Brasil um golpe orquestrado pelas forças conservadoras (PSDB, Democratas, Solidariedade, Força Sindical, diversas legendas de aluguel e setores da grande mídia) para desgastar, derrubar e inviabilizar o governo Dilma (do PT e dos demais partidos aliados). Como Lula seria, talvez, a única figura petista que poderia vencer as eleições de 2018 pelo PT, este desgaste político prévio visa dificultar sua candidatura. Cabe ressaltar que o ataque a Lula se dá logo após a maioria do STF aceitar denúncia contra Eduardo Cunha na Operação "Lava Jato". A luta contra a corrupção centrada apenas no PT é uma farsa que visa esconder a corrupção reinante em todas as demais siglas burguesas (PSDB, Democratas, Solidariedade, PMDB, PSB, PDT, PTB, PP, PPB, PSD, PSC, etc) e desmoralizar toda a esquerda, sem distinção.
 
2) A Petrobrás era a espinha dorsal das políticas econômicas dos governos petistas; tanto é assim que ela era a responsável por 60% das obras do PAC. Portanto, os ataques fulminantes e sem tréguas da oposição de direita e da grande mídia contra a Petrobrás são premeditados e certeiros, não para resolver os seus problemas de corrupção, mas para desestabilizar o governo e acelerar a sua entrega às multinacionais do Big Oil. Compactuando em parte com esta entrega, os governos petistas visavam um pseudo "nacional desenvolvimentismo" de setores secundários da economia, com um altíssimo custo de corrupção por parte das empreiteiras, amigas do governo federal. Este é o preço da "modernização conservadora" proposta pelo reformismo petista.
 
3) O governo Lula contraiu um empréstimo de U$10 bilhões com o Banco de Desenvolvimento da China (BDC) para financiar a sua política de desenvolvimento a partir da Petrobrás, que tem como contrapartida gastar U$3 bilhões em compra de equipamentos e tecnologias da China, e o comprometimento da Petrobrás em lhe fornecer 200 mil barris de petróleo por dia, durante 10 anos. O acordo seguia com o governo Dilma. Atualmente o mundo todo está submetido à disjuntiva: EUA/Europa X China/Rússia (hoje disputando o mundo no campo do capitalismo). É só olhar mais criticamente a situação de Ucrânia, Síria (Oriente Médio em geral), Argentina e Venezuela. Entre os primeiros países, os ânimos estão acirrados ao ponto do enfrentamento militar aberto; e nos segundos, ao enfrentamento disfarçado. Por aqui, a “mobilização” pacífica das bandeiras neoliberais nos atos chamados pela direita (como o que se avizinha em 13/03) vai cumprindo a sua missão de pressionar a opinião pública e o governo "pela direita". O patriotismo deste “movimento” e dos partidos da oposição de direita é profundamente cínico, pois significa apenas a incondicional submissão aos interesses do imperialismo ianque e dos demais partidos burgueses (PSDB, Democratas, Solidariedade, etc).
 
4) Os militantes do PT e da CUT afirmam que é preciso defender o governo, dentre outros motivos, porque Lula "é a maior liderança que a classe operária gerou no mundo", o que é uma mentira absurda! Lula é um traidor dos trabalhadores (como o foram Getúlio Vargas, Juan Perón, Stálin e tantos outros). De operário tornou-se um burguês; tal como o PT transformou-se de um partido operário em um partido burguês. Ser contra o golpe e denunciá-lo não pode significar, em nenhum momento, apoio político ao governo Dilma, que aplica um atroz programa de retirada de direitos (reforma da previdência, cortes orçamentários, MPs que destroem a CLT, etc) que é apoiado pela direita que quer derrubá-lo. Ser contra o golpe é unicamente defender as liberdades democráticas mínimas que possuímos, denunciar as cínicas intenções do golpe, expresso nas suas bandeiras conservadoras e de retirada de direitos, que em absolutamente nada resolverão os problemas de corrupção e da economia.
 
5) Um suposto governo (Temer? Cunha? Aécio?) que assumisse o lugar de Dilma seria impiedoso com estas "liberdades" mínimas. O governo do PT está retirando direitos pouco a pouco; um governo do PSDB terminaria com eles o quanto antes, se aproveitando do "apoio" do senso comum, criado a partir das manifestações de rua (tipo 13/03) e de parte da grande mídia. Na ótica da "oposição de direita" o governo está demorando para "ajustar" (sem falar nos programas sociais que, na lógica mesquinha, egoísta e arrogante deles, "desperdiça" dinheiro público, que deve ser todo destinado ao "bolsa banqueiro" e ao "bolsa multinacional").
 
6) Apesar de uma grande parte da elite brasileira estar por trás do golpe contra o governo Dilma (PT), outra parte da elite o sustenta (os governos Lula e Dilma enriqueceram bancos, emissoras de TV, agronegócio, empreiteiras, empresários e setores das multinacionais - os governos petistas mesmo nos dizem isso). Gratidão não é uma característica da burguesia, que usou e abusou do PT, da sua liderança sobre o movimento de massas, e desde o ano passado está o cuspindo fora, como um bagaço que já não serve mais. Que a militância honesta e de base do PT não esqueça disso, que não é nada mais, nada menos, do que o resultado do programa e da estratégia de "reformar" o capitalismo.
 
7) A história se repete: ontem golpe orquestrado entre EUA e elite local contra Getúlio Vargas e Perón na Argentina; hoje contra os governos do PT. Cabe ressaltar, contudo, que estes últimos fizeram muito menos do que os primeiros, o que demonstra o esgotamento de qualquer tipo de "reforma" do capitalismo e o caráter predatório do imperialismo.
 
8) Quando muitos ativistas de esquerda lutavam contra os ataques dos primeiros governos Lula (2003-2010), tais como a Reforma da Previdência, sindical, trabalhista; aumento extraordinário dos lucros dos bancos e multinacionais; arrocho salarial; ocupação do Haiti em nome do imperialismo; criminalização dos movimentos sociais; privatizações e concessões; dentre outros; a mídia nada falava sobre triplex do Guarujá e da chácara em Atibaia. Era propagado aos quatro cantos a "alta popularidade" de Lula, que também era "o cara" para Obama. Delphin Neto (ex-ministro da ditadura e comentarista econômico dos grandes meios de comunicação) dizia com razão: "Lula salvou o capitalismo no Brasil". Porém, a época das "vacas gordas" (programas sociais, investimento estrangeiro, etc.) defendida pela militância petista não deixou nada para o povo. As pequenas concessões vão escorrer como areia pelos dedos, com o olhar sentido de inúmeros militantes que acreditaram que a via petista era a "única possível".

9) Os trabalhadores conscientes não devem sustentar acriticamente Lula e o PT; muito menos apoiar as forças conservadoras do golpismo para supostamente "punir o PT". Devem sim ser contra o golpismo, muito embora, a questão fundamental seja construir uma linha política, desde o movimento sindical, de independência de classe (ou seja, construir um caminho independente da direita e do governismo). Devem procurar se organizar politicamente nos sindicatos, denunciar as tentativas de manipulação política de um bloco ou do outro, e discutir a fundação de um partido revolucionário que organize politicamente a classe trabalhadora brasileira, cuja "vanguarda" de hoje está deformada e deseducada pelo oportunismo eleitoreiro de PSOL, PSTU, PCO, dentre outros.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Nota sobre uma revolução burguesa não realizada no Brasil ou sobre como as velhas soluções são apresentadas como novas

Tirar Dilma seria uma espécie de solução mágica. Tipo: shazam! Zupt! A Dilma está fora e tudo vai melhorar, o país vai progredir e os problemas da corrupção e do desemprego vão se resolver!
Me pergunto: quem pensa isso raciocina mesmo ou só segue uma inércia de 500 anos?
O governo Dilma tenta conter o refluxo e fuga de capitais e, sobretudo, a sua consequência principal: a desvalorização do real. Além disso, tenta atrair capitais às custas da venda do país: exorbitante taxa de juros e endividamento público. O PSDB não faria melhor! Somente um cego incorrigível pode não ver.

E por que PT e PSDB agem assim? Porque o Brasil não possui indústria própria, a não ser em setores secundários. Sua economia autêntica baseia-se em produtos agropecuários, petróleo e minérios. Esta é a herança colonial não superada, que a nossa débil (mental?) burguesia não resolveu com a "independência" e que a burguesia atual (representada por Aécio ou Dilma) não se propõe a resolver.

O Brasil não desenvolveu e nem desenvolverá - no capitalismo - uma indústria nacional. Está impreterivelmente atrasado! Os países centrais do capitalismo já o fizeram e no mercado mundial restou ao Brasil os produtos agropecuários, isto é, as matérias-primas, que vende aos países centrais a preço de banana e consome o deles a preço de ouro. Para romper esse círculo vicioso e criar um parque industrial só se estivéssemos avançando para o socialismo, o que, com o governo Dilma, está definitivamente fora de questão (os desequilibrados anti-comunistas, saudosos da ditadura militar, que me perdoem: o PT não é comunista!).

Não existem milagres, nem soluções mágicas, como quer a classe média descontente. Aos trabalhadores conscientes cabe saber separar o joio do trigo, não ouvir a ladainha sem fim da pequena-burguesia, e saber pensar e intervir na realidade com independência de classe para evitar "soluções" artificiais, cujo tiro sempre sai pela culatra e só prepara novas e piores crises.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A imagem do marxismo e do Brasil na obra de Carlos Nelson Coutinho

Carlos Nelson Coutinho (CNC) foi um intelectual brasileiro preocupado em utilizar o marxismo para explicar a realidade do Brasil. Nascido na Bahia, em 1943, foi professor da UFRJ e militante do PT até 2004, quando rompe com o governo Lula e ajuda a fundar o PSOL, partido no qual militou até o seu falecimento, no Rio de Janeiro, em 2012. Durante a ditadura militar, CNC viveu exilado na Itália, onde entrou em contato com a obra de Antonio Gramsci, autor de cujo legado foi exímio propagandista. Também ficou conhecido por se propor a “renovar o marxismo” e as questões ligadas ao movimento comunista brasileiro.

CNC nos últimos anos de sua vida (1943 - 2012)
      CNC teve como espinha dorsal de sua obra a defesa e a divulgação do legado gramsciano, além de fortes influências de Gyorgy Lukács e autores ligados à chamada escola de Frankfurt. Não se pode deixar de reconhecer que a contribuição de Gramsci ao marxismo teve grande importância pelos temas relevantes que trouxe à luz: hegemonia, guerra de posições, sociedade civil, análise da revolução passiva, etc. Da mesma forma, o resgate do pensamento do teórico italiano por CNC teve fundamental importância para explicar a dinâmica de classe da história do Brasil. Porém, CNC detém-se nas limitações do pensamento gramsciano.
         Utilizando-se da teoria de Gramsci sobre a “revolução passiva” – teoria que se baseia na análise de Lenin conhecida como “via prussiana” ou “não clássica” para o capitalismo –, CNC embasa sua explicação da evolução da sociedade escravocrata brasileira para o capitalismo. Segundo esta análise, a modernização se dá de forma conservadora, pelo alto, completamente controlada pela elite portuguesa e burguesa. O lema não declarado destas “mudanças sociais” se expressa naquela frase do político mineiro Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, durante a Revolução de 1930: “façamos a revolução antes que o povo a faça”. Ou seja, todas as mudanças estruturais no país foram controladas de cima pela elite, feitas sem o povo e, na sua maioria, voltadas para fazê-lo aceitar a “fatalidade” da exploração, da pobreza e mantê-lo bem longe do poder. A modernização se daria de forma conservadora, mantendo velhos privilégios e misturando-os com uma estrutura social e econômica um pouco mais “moderna”. Assim como na Itália, as mudanças sociais no Brasil não se deram pela via revolucionária como na França em 1789, mas de acordo com a modernização conservadora da Prússia, no século 19; daí o termo de Lenin “via prussiana”, reelaborado por Gramsci como “revolução passiva” e rebatizado por CNC como “modernização conservadora”.
         Outra importante contribuição de CNC para o pensamento político e cultural brasileiro – também se baseando nos subsídios de Gramsci e Lukács – se deu no campo da literatura. Através da análise da obra de Graciliano Ramos, Lima Barreto, Jorge Amado, Caio Prado Jr. e Florestan Fernandes, CNC cria uma grande imagem da evolução do pensamento da intelectualidade brasileira, demonstrando seus altos e baixos e a importância dele na formação de uma “imagem do Brasil”.

Limitações do pensamento e da prática de Gramsci e CNC
         O pensamento de CNC, ainda que contribua culturalmente para a evolução intelectual independente do povo brasileiro, acompanha os altos e baixos da teoria gramsciana. Os pontos altos do pensamento de Gramsci se apóiam em Lenin: o proletariado precisa lutar por instituir a sua hegemonia sobre as outras classes oprimidas da sociedade para poder conquistar o poder e construir o socialismo. Esta luta será longa e precisa se apossar de todos os espaços possíveis, sobretudo no campo cultural (segundo Gramsci), para poder conquistar posições na sociedade civil. Há, possivelmente, restrições na compreensão gramsciana sobre o termo leninista “economicismo”, pois o atribui erroneamente em algumas passagens dos Cadernos do Cárcere em uma crítica equivocada à teoria da Revolução Permanente de Trotsky, próprio de quem não conhece a fundo a teoria. Talvez isso seja um reflexo da situação em que Gramsci se encontrava: passou muitos anos preso, tendo dificuldade para acessar documentos, cartas e livros, sobretudo estrangeiros; o que não é o caso de CNC, que possuía mais liberdade e facilidade para tomar conhecimento detalhado de posições políticas polêmicas do passado e do presente, baseado em um amplo trabalho historiográfico de várias organizações e gerações.
         A primeira limitação do pensamento de Gramsci que se reflete no de CNC se dá, justamente, na relação com o trotskismo. Gramsci, apesar de se colocar numa posição relativamente independente do stalinismo – exigindo até mesmo que os partidos co-irmãos da III Internacional interferissem no PC russo durante o auge das polêmicas entre o aparato soviético e a oposição de esquerda –, se posiciona favoravelmente à política do stalinismo contra Trotsky. Também olha com bons olhos a política de Frente Popular do stalinismo apresentada para os países da Europa Ocidental. CNC, ao contrário de Gramsci, não olha Trotsky de frente: ele foge do enfrentamento com o pensamento trotskista. Inclusive no seu ensaio sobre Florestan Fernandes ignora a formação trotskista do sociólogo. É precisamente este o principal erro de Gramsci – que muito caro custou ao proletariado mundial, inclusive na América Latina muitas décadas depois – que CNC repetiu na sua militância política, primeiro com o PT e depois com o PSOL.
O lado positivo das análises de CNC sustenta que a transição do passado colonial e escravocrata para o capitalismo tenha se dado através da “via prussiana” e que, portanto, o Brasil já era um país capitalista regido por uma sociedade burguesa peculiar desde fins do século 19 e início do 20. Esta concepção combatia a visão stalinista de se fazer uma “revolução burguesa” no Brasil para “liquidar o seu passado feudal”. Era desta premissa que o stalinismo concluía que se deveria apoiar e sustentar a burguesia brasileira e de vários outros países. CNC sustentava, corretamente, que era absurdo falar em um “passado feudal no Brasil”. Procura caracterizar a função do regime escravocrata brasileiro como produtor de “valor de troca” voltado para o mercado mundial, portanto, nada tendo de feudal.
Esta contribuição de CNC se mostrou justa e progressiva, muito embora não tenha o impedido de defender e apoiar as frentes populares, que era o lado prático da política stalinista. Na questão da transição para o capitalismo estava de acordo com a visão trotskista expressa na Revolução Permanente. Ou seja, a “revolução burguesa” já foi realizada no Brasil através de uma modernização conservadora e controlada pela elite. CNC analisa muito bem os impactos destas contradições sufocadas no campo cultural e político, e as profundas limitações impostas ao desenvolvimento capitalista brasileiro por esta revolução feita pelo alto.
Contudo, o principal problema se dá na questão da transição para o socialismo. Nesta questão CNC é obscuro, tal como Gramsci. Prescindem da ideia de uma revolução ao pagar um tributo caro demais à sociedade civil e à democracia burguesa “como valor universal”. Por indução se pode chegar a conclusão – sobretudo através da observação da militância de PT e PSOL – que CNC pretende propor o caminho de uma “revolução passiva” para o socialismo, feita pelo alto e sem o povo, por estar supostamente de acordo com os parâmetros ocidentais e “tipicamente brasileiros”, reflexo de toda a sua evolução histórica. Assim, a grande contribuição de Gramsci (baseada em Lenin) sobre a importância da hegemonia proletária sobre a sociedade civil como forma de se preparar a revolução, fica perdida num labirinto oportunista. Serve como suporte para a adaptação à democracia burguesa, tal como vimos na prática de PT e PSOL. Toda e qualquer hegemonia proletária conquistada sobre a sociedade civil deve caminhar no sentido de combater as ilusões oportunistas e preparar as bases materiais da revolução.
Gramsci precisa ser interpretado à luz de Lenin e Trotsky; e não o inverso. CNC interpreta Gramsci à luz do reformismo. É por isso que a sua visão para a revolução brasileira sofre com os altos e baixos do pensamento gramsciano. A visão política de CNC sucumbe diante de um malfadado desfecho reformista, o que não exclui a importância das suas contribuições para a leitura e compreensão dos grandes escritores brasileiros, bem como do próprio Brasil, nem da necessidade de todos os militantes honestos de conhecê-las.

Adendos feitos em 20 de janeiro de 2017

         A importância intelectual de CNC para o pensamento brasileiro é inestimável. Está a anos luz da intelectualidade burguesa, que apenas reafirma, como papagaio, tudo o que lhes dita o amo imperialista, apenas passando um verniz cultural brasileiro. Suas contribuições no campo da história e da sociologia lançam, sem dúvida, uma nova luz de análise sobre o país. Contudo, no campo político, CNC comete o erro clássico do reformismo. E os motivadores deste erro seguem explicados abaixo:
         Em seu principal artigo teórico de polêmica com a esquerda brasileira, chamado Democracia como valor universal, CNC procura debater as bases do que ele chama de “etapa da revolução brasileira”. Há que se perguntar qual revolução? Seria muito mais correto chamar de etapa atual do processo social ou civilizatório do Brasil, mas nunca de “etapa da revolução brasileira”.
Partindo de uma preocupação legítima, CNC quer encontrar as bases para a renovação democrática do conjunto da vida nacional, que, segundo ele, é o elemento “indispensável para a criação dos pressupostos do socialismo”. Nesta busca ele paga um preço alto demais, cujo estopim será o desfecho da experiência com os governos do PT, que ele não chegará a ver, pois morrerá antes.
No artigo citado, CNC salienta que para Gramsci era vital lançar as bases de uma refundação da teoria marxista de transição ao socialismo, colocando a questão democrática no centro dessa transição. Nesta sua “luta teórica”, CNC se diz inspirado pelo patrimônio teórico de Marx, Engels e Lenin. Capciosamente exclui Trotsky e Stalin e não se posiciona por nenhum. Para ele, é possível ignorar uma etapa histórica decisiva do pensamento socialista. Sabemos, contudo, que grandes revisionistas também se diziam “inspirados” pelo patrimônio teórico do marxismo: Kautsky, Berstein, Stalin, Ernest Mandel, Nahuel Moreno, dentre outros. Se inspirar no patrimônio teórico marxista é justamente manter certos princípios e readaptá-los à realidade contemporânea. CNC se adapta a realidade e esquece de muitos princípios.
No artigo citado, ele faz uma miscelânea oportunista ao abordar a polêmica entre Lenin e Kautsky, bem como as críticas de todos em relação a Berstein. Reivindica Lenin, mas ignora 2 livros inteiros dele: O Estado e a Revolução e A revolução proletária e o renegado Kautsky. Quer surfar na onda do pensamento leninista, que é o depositário de grande prestígio por mostrar pela primeira vez ao proletariado do mundo como tomar o poder e como conservá-lo, mas renega seus princípios elementares com a velha desculpa de “atualizá-lo”, se aproximando, na verdade, do próprio Kautsky. Segundo ele, ser marxista é ser revisionista do pensamento de Marx. É certo que o marxismo não é dogmático, devendo estar aberto à reavaliações e à adaptações, mas por trás dessa concepção temos uma abertura perigosíssima ao oportunismo (a burguesia, melhor do que ninguém, já percebeu isso). Sua fidelidade ao método marxista é bastante questionável. Por sua concepção expressa em diversas oportunidades, muito possivelmente em 1917-1918 estaria ao lado de Kautsky contra Lenin.
***
No artigo Democracia como valor universal CNC comete impropriedades e distorções no que tange ao stalinismo. Afirma que Stalin teria generalizado acriticamente para o ocidente o modelo de transição seguido pelos bolcheviques em 1917. Ora, se CNC não conhece nenhuma obra de Trotsky, então deveria conhecê-las antes de afirmar tamanho disparate. Se a conhece, então é cínico. Toda a obra de Trotsky é uma denúncia apaixonada do abandono por parte da burocracia stalinista dos métodos e do programa bolchevique. Todas as orientações dadas por Stalin aos processos revolucionários no Ocidente e no Oriente são catastróficas, equivocadas, erradas; isto é, todas rompem com o método bolchevique. Um livro específico de Trotsky não deixa margem à dúvidas: Stalin, o grande organizador de derrotas e A Terceira Internacional depois de Lenin.
CNC afirma também que a Frente Popular (a verdadeira e principal estratégia do stalinismo para o Ocidente) “consagra uma nova atitude dos comunistas em face do valor da democracia”. Se CNC não critica as catástrofes das frentes populares pelo mundo, e em especial no Brasil, é porque concorda com elas. E realmente as defende, tal como as defendia Gramsci. Sua postura é assim justamente porque dá um valor demasiado grande para a “democracia” in abstracto. CNC a dissocia de um regime de classe e do Estado, isto é, rompe abertamente com o método marxista e, em especial, com Lenin em um ponto que não é nada desprezível: a sua divergência essencial com Kautsky.
Em seu texto de polêmica, CNC trata as diversas formas de democracia indistintamente; um erro imperdoável para o método marxista de Lenin, por exemplo. Desfaz a clássica noção marxista de democracia burguesa. Ajuda o inimigo de classe a se mascarar melhor, a acumular forças, a dar novos e piores golpes. Paga um alto tributo à “revolução passiva”.
Na verdade, por não se apropriar das críticas trotskistas à “revolução por etapas” do stalinismo – colocando-as de lado como coisas descartáveis –, CNC adere totalmente à noção de “revolução democrática”, típica do pensamento menchevique e stalinista. O século 20 não existiu para ele. A luta decisiva entre o trotskismo e o stalinismo no seio da URSS seria apenas um borrão histórico; uma nota totalmente digna de ser ignorada. Não se trata de uma simples luta entre duas facções do movimento operário internacional lideradas por Trotsky e por Stalin. Trata-se, sobretudo, de uma luta teórica capaz de libertar os trabalhadores de um labirinto mortal e, principalmente, da contra propaganda indispensável para desfazer a imagem completamente desmoralizada do socialismo a partir do que foram os regimes stalinistas.
Ao contrário do que afirma CNC, insinuando ser este o problema do trotskismo, as organizações operárias que criticam autenticamente a democracia burguesa (e não dogmaticamente) não fazem da “luta democrática” algo utilitário. Defendem com unhas e dentes as liberdades democráticas arrancadas da burguesia e as utilizam como uma forma de elevação geral do nível político e teórico das massas, bem como de sua auto organização. Se não procederem desta forma, não podem ser chamadas de trotskistas. É ao mesmo tempo em que se luta pelas liberdades democráticas que se vai levantando as palavras de ordem socialistas; agitando e propagandeando o socialismo em contraposição às inevitáveis restrições democráticas impostas pelo capitalismo à massa trabalhadora. 
CNC pretende armar os operários e trabalhadores com o rebaixamento teórico. Não tenta dialogar com o trotskismo; não busca uma aproximação sincera com a teoria da Revolução Permanente. No quesito teórico está alinhado com as concepções mencheviques e stalinistas, mesmo que afirme o oposto.
***
Escrito em 1979, embalado pelas ilusões do período final da ditadura militar, o artigo de CNC luta corretamente contra o que ele chama de “golpismo”; isto é, todas aquelas organizações operárias que defendem a tomada do poder sem condições objetivas, tal como o PCB tentou fazer em 1935 com a “Intentona Comunista”. É certo que este golpismo ignora as massas e é uma versão operária do que ele chama de “via prussiana”, desprezando a maturidade política das massas. Porém, CNC coloca todas as organizações nesse “saco de gato” chamado de golpismo. O autêntico trotskismo – que sempre foi muito restrito no Brasil – não propõe nenhum tipo de golpismo. Defende a formação gradual das massas a partir de sua própria experiência, acompanhada e solidificada por uma propaganda teórica e política, e apenas a partir daí, quando os alicerces estiverem firmes, pela experiência e pela teoria, se propõe a tomada do poder.
Um exemplo deste método foi expresso pela Revolução Russa de 1917. Se não houvesse ligação entre a massa dos trabalhadores e os bolcheviques, a revolução jamais teria se consumado. Seguindo a lógica do pensamento de CNC, a revolução dirigida pelos bolcheviques também seria uma espécie de golpismo. Pelo seu oportunismo teórico ele não a reconhece desta forma. Talvez aja assim por medo de se desconectar completamente do pensamento de Lenin. A busca de CNC por uma saída de massas rompe com a ditadura do proletariado. Pra ele seria possível conter as graves crises e contradições, fruto de um processo revolucionário, através de consensos e acordos típicos de uma democracia burguesa e de uma sociedade civil hegemonizada pelo pensamento patológico da classe média ou mesmo abrir mão completamente da revolução socialista.
Cabe destacar que por ditadura do proletariado se compreende uma democracia de massas para os trabalhadores (principalmente sobre os meios de produção) e ditadura sobre a burguesia (incluso seus representantes indiretos). Temos na Comuna de Paris (1871) e nos primeiros anos da Revolução Russa (1917-1924) os rudimentos dessa ditadura, dos quais a experiência histórica tem demonstrado aos trabalhadores conscientes que não se deve abrir mão, pois é um dos princípios elementares do “patrimônio teórico de Marx, Engels e Lenin”. CNC não enxerga o stalinismo como uma degeneração da ditadura do proletariado, fruto das inúmeras contradições deste processo histórico, mas como sendo a própria ditadura do proletariado, tal como faz a burguesia e os ideólogos ao seu serviço.
Ele ainda propõe que o parlamentarismo burguês poderia ser um espaço para se desenvolver a futura democracia proletária, é claro, numa etapa posterior. Para isso, seria fundamental uma “democracia organizada de massas, com crescente participação popular”. No auge do seu reformismo, chega a defender que a partir desta boa vontade da sociedade burguesa, supostamente controlada pelas “organizações de base da sociedade civil”, seria possível avançarmos para medidas antilatifúndio e antimonopolistas. A Assembleia Constituinte seria o momento decisivo para isso.
Contudo, como vimos, nem a Constituição de 1988 e nem os “governos populares” do PT (2003-2016) avançaram nesse sentido; pelo contrário, fortaleceram a democracia burguesa, suas instituições, os bancos, os partidos de direita, o agronegócio e as multinacionais. Os parlamentos burgueses são instituições mais reacionárias do que nunca. O que poderíamos esperar delas? Segundo CNC deveríamos construir um novo PT (no caso o PSOL); depois um novo PSOL; e assim por diante, até que sepultemos definitivamente a construção do socialismo no Brasil e “eduquemos” a massa a viver de joelhos, esperando pelo futuro socialista no dia de são nunca. Que bela democracia de massas construiremos assim! A grande mídia, os banqueiros, os mega empresários, os latifundiários, o PSDB e o PMDB aplaudem e agradecem! CNC não entende (ou não quer entender) que a burguesia retira em dobro com sua mão direita tudo aquilo que é obrigada a conceder com a esquerda.
***
O imperialismo norte-americano também tem usado seguidamente o discurso e a estratégia da “democracia como valor universal” desconectada de um regime de classe e do caráter de Estado. Ao contrário do que CNC e Enrico Berlinger (um teórico caro a ele) sustentam, a “democracia não é o terreno no qual o adversário de classe é obrigado a retroceder”, mas esta “democracia” abstrata tem sido o terreno que o inimigo de classe tem nos feito recuar e retroceder. Basta citar que a restauração do capitalismo nos ex-Estados operários (URSS, Cuba, China, etc.) se deu com o “discurso democrático”. Mesmo o golpe da direita contra os governos do PT se deram a partir de um fortalecimento do regime democrático burguês e do seu discurso. Sendo assim, a contribuição teórica de CNC casa como uma luva às pretensões do imperialismo e reforça os seus conceitos ideológicos.
Em síntese, podemos dizer que CNC propõe uma “democracia” sem a socialização do capital; isto é, dos meios de produção. O resultado da sua teoria da democracia como valor universal está resumida nos 12 anos de governo Lula e Dilma, bem como no seu fim trágico: o fortalecimento da direita e o golpe do impeachment. Todos os partidos operários que se propuserem conquistar a hegemonia exclusiva e prioritariamente através da legalização a todo o custo (e este tem sido sempre o objetivo deles) serão facilmente devorados pelos métodos e pelas instituições da democracia burguesa, tal como o PT o foi.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Bem vindo à São José das ilusões


Loucura é querer resultados diferentes
fazendo tudo exatamente igual
(Albert Einstein)

        Josué atirou sua mochila no chão e se preparou para pisar na terra poeirenta à beira da estrada. Pulou da caçamba do caminhão e acenou aos caminhoneiros que gentilmente lhe deram uma carona até a localidade mais próxima. Não sabia ao certo onde estava; se no nordeste, sudeste ou sul brasileiro. A placa, meio suja de musgos e com tufos de capim que lhes saltavam pelos cantos, apenas dizia “Bem vindo à São José das ilusões”. Uma via estreita, com um asfalto defeituoso, adentrava um túnel de ipês amarelos e pequenos coqueiros. Não se enxergava nenhuma casa. Josué calçou a mochila e se foi em direção a estrada.
         Caminhando ele reparou que uma carroça vinha muito devagar, quase parando. A muito custo cruzou o seu caminho. Cachorros latiam ao fundo. Em seguida um casal de moto passou devagar e lhe acenou. Josué, amistosamente, retribuiu o gesto. “Que povo hospitaleiro!”, pensou ele. Inspirado no filme Into the Wild, Josué era um mochileiro sem destino, que viajou pelos quatro cantos do Brasil e da América do Sul. Pensava que esta seria a forma de resistir à degeneração moral a qual todos nós somos obrigados a vivenciar nas relações profissionais e sociais quando estamos sob jugo da rotina.
         O mochileiro estava acostumado a uma vida errante, a caminhar muito e a comer pouco. Tinha recém adentrado a uma rua de paralelepípedos que era um pouco mais movimentada, de onde despontavam uma igrejinha, o pedaço de uma praça, um bar e uma casa de tijolos à vista com flores na varanda. Encostada no muro estava uma moça, que sorriu ao ver Josué. Pessoal do interior é assim: como passam muito tempo sem ver movimento diferente, logo que percebem gente nova querem se aproximar para prosear.
         – Olá, tudo bem? Eu me chamo Florisbela, mas pode me chamar de Flor ou de Bela, hi, hi, hi! – disse ela sorrindo ao forasteiro.
         – Olá! Eu sou o Josué – respondeu ele prontamente.
         Sem perder tempo ela o convidou para entrar. Sentaram no sofá. A dona da casa ofereceu bebida e comida para o forasteiro, que não titubeou em aceitar: estava faminto e sedento! Conversaram sobre trivialidades. Josué sentiu que Florisbela lhe olhava de um jeito diferente e se constrangeu um pouco. Ao sentir que o convidado tinha ficado melindrado com seus olhares, ela começou imediatamente a falar que “homem nenhum prestava”. Era hábito comum dos ilusinenses reclamar; quase como um esporte oficial!
         – Veja só – ela dizia – ainda sou solteira! Quero muito arranjar um marido, mas os homens daqui só querem saber de sexo e nada mais!
Florisbela ainda confessou a Josué que já tinha transado com quase “meia cidade”, mas que no dia seguinte nenhum deles ligava de volta. Ela se sentia triste, abandonada e incompreendida. Josué ouvia tudo atentamente. Resolveu opinar:
– Florisbela, quem sabe você esteja sendo um pouco precipitada com os homens e muitos deles estejam apenas aproveitando-se desta sua rapidez? Ou talvez você não queira necessariamente um marido no sentido tradicional?
– Que absurdo! – gritou ela, saltando do sofá – Ponha-se daqui para rua, forasteiro!
Extremamente assustado Josué recolheu sua mochila e saiu da casa de Florisbela. Nem sequer terminou de comer e beber; saiu limpando a boca. Foi caminhando sem rumo pela avenida central até desembocar na praça principal.
***
O céu matinal estava limpo e radiante. Josué chegou até um dos grandes canteiros da praça central de São José das ilusões e deparou-se com um senhor sentado em um banco, lendo um jornal. Sentou-se ao lado dele e começou a remexer em sua mochila. Como todo bom ilusinense, ao perceber que se tratava de um estranho, logo o senhor puxou assunto com Josué. Ele se chamava Armando, pai de duas filhas que haviam se mudado para a capital para fugir da “vida besta” do interior. Recentemente enviuvara, o que aumentou a sua agonia e o desespero nos dias vindouros. Vendo que Josué não teria onde ficar, o convidou para ficar em sua casa.
Seu Armando, como era conhecido pelos vizinhos, morava em uma boa casa nas redondezas da praça central. Comia bem, apesar de ter perdido a vontade de cozinhar em razão da morte da esposa. Não estabelecia relações cordiais com os vizinhos, nem com ninguém da cidade. Se afeiçoou a Josué justamente por se tratar de um forasteiro. A ele, seu Armando disponibilizou o quarto da filha caçula, que ainda estava mobilhado.
– Bela casa! – elogiou Josué enquanto olhava para a paisagem que se via da janela dos fundos.
– É sim! – concordou Armando – O problema é quando chove!
Josué não tinha entendido a advertência até dois dias após a sua chegada, quando uma grande chuva de verão fez ver as inúmeras infiltrações na casa do viúvo: principalmente na sala e na cozinha. “Parece uma cachoeira!”, queixava-se seu Armando passando o rodinho, o balde e vários panos para Josué ajudar a enxugar. Era uma arrumação de móveis daqui para lá, de lá para cá. Josué estava exausto. No final do dilúvio, bem como nos outros dias, ele percebeu que seu Armando não subiu no telhado para ver o tamanho dos reparos que deveria fazer; ele apenas modificava o sofá, a geladeira, a mesa, a estante de lugar, como se isso fosse resolver o problema das goteiras.
E não dava outra: nova chuva e um novo alagamento. Seu Armando queixava-se choroso:
– Por que chove tanto nessa cidade, meu Deus do céu! Por quê?
Olhava para o céu, benzia-se, praguejava contra o céu, contra o tempo, contra a sua falta de sorte.
A cada nova chuva era um tumulto. Correria de baldes, rodinhos, toalhas, bandejas. Certa feita, quando o relógio marcava quase 3h da madrugada, Josué foi acordado às pressas para enxugar a cozinha, que estava quase toda alagada. Pregado de sono, Josué levantou-se e foi ajudar seu Armando. Quando o sol já estava quase nascendo e a chuva havia dado uma pequena trégua, o ritual novamente começou. Lá ia seu Armando mudar de lugar a estante, a mesa, o armário, quando Josué lhe perguntou:
– Seu Armando, por acaso o senhor já pensou em olhar o telhado?
– O telhado? – espantou-se o velho – Mas por que diabos eu olharia o telhado?
– Bem – disse Josué meio constrangido –, porque os telhados foram feitos para conter as chuvas. Logo seria importante dar uma olhada na...
– Você está insultando a minha inteligência! – gritou Armando – Eu tenho o triplo da sua idade, rapaz! Ninguém nunca me deu ordens ou duvidou do que eu fazia! Ponha-se daqui para a rua!
Lá foi Josué com a sua mochila vagar pelas ruas de São José das ilusões outra vez. Como o céu estava nublado e ameaçando um novo temporal, ele buscou guarida no bar do Tonico. Não tinha um tostão para gastar, mas entrou mesmo assim para se proteger do tempo úmido e foi bem recebido.
***
         Poucas pessoas estavam no bar naquele momento: apenas alguns bêbados nas paredes ou falando e rindo no balcão. O cheiro era desprezível: galinha frita misturado com sarro de cigarro. Ao longe, entre mesas e cadeiras vazias, Josué reconheceu Florisbela, que estava sentada com um rapaz. Ela fingiu que não o conhecia; Josué fez o mesmo.
         O dono do bar, Tonico Rezende, era uma pessoa condescendente e amiga. Se afeiçoou de imediato quando viu Josué sentado num canto, prostrado. Lhe ofereceu cachaça e torresmo. Como estava faminto, Josué aceitou. Conversa vai, conversa vem; os dois ficaram amigos. Tonico percebeu que Josué era um forasteiro e que isso poderia ser bom para alavancar o seu negócio. Empregou Josué como garçom e atendente do balcão. Deu-lhe um quartinho nos fundos para morar enquanto estivesse em São José das ilusões. Não ganhava muito, mas o suficiente para poder acumular algum dinheiro e poder seguir viagem.
         Na primeira semana de trabalho Josué percebeu que Tonico era compassivo: emprestava dinheiro para qualquer um, vendia fiado, aceitava todo e qualquer desaforo. Os ilusinenses eram hospitaleiros, mas brabos como zorrilhos quando contrariados. Josué era um rapaz sagaz! Ficou observando os freqüentadores e o dono do bar por semanas. A mulher de Tonico – uma senhora bem mais velha do que Josué, mas ainda com apetite sexual – se insinuou diversas vezes para o novo atendente do bar sem que Tonico expressasse qualquer desconforto em relação a isso. Ela se insinuava não apenas para Josué, mas para todos os freqüentadores do bar. Muitos amigos advertiam sobre a conduta de sua esposa, mas Tonico não fazia nada para mudar a sua vida sexual, apenas dizia: “mulher é tudo igual, safadas e interesseiras”.
         A única queixa que Josué ouvia de Tonico era durante a noite:
         – Desse jeito vou falir! Não dá pra sustentar o meu bar com tantos devedores!
         Logo a seguir adormecia.
***
         Desde os cantos do balcão central, quando não tinha muito serviço, Josué ficava de ouvido atento e, dia após dia, ouvia uma história nova cujo desfecho era sempre semelhante. Francisca Azevedo, ou simplesmente Chica calabresa, era uma mulher obesa que corriqueiramente reclamava do seu peso, mas comia compulsoriamente. Ao mesmo tempo em que comia, dizia: “amanhã vou começar uma dieta para emagrecer”, mas na semana seguinte Josué ouvia ela se queixar que não tinha conseguido. Pior do que isso: ela não se esforçava para praticar nenhum exercício físico e novamente pedia seu tradicional xis calabresa com uma coca diet. Josué pensou em lhe dar um conselho, porém, lembrou-se de como havia sido tratado por alguns ilusinenses. Recuou.
         Certa feita, conheceu Benedita da Silva, que tinha o defeito de falar demais quando bebia. Sempre que ia para o bar do Tonico tinha a intenção de beber. Logo, Josué tornou-se o psicanalista informal de Benedita, que lhe confidenciou que o marido lhe traía, dentre outras revelações íntimas. Quanto mais bebia, mais falava. De repente explodia num choro convulsivo e caía no ombro de Josué.
         – Meu marido não presta! – e soluçava com as mãos tapando o rosto.
         Josué pensou em lhe aconselhar, mas lembrou-se de todas as outras vezes, então novamente preferiu calar.
         – Por que ele faz isso comigo? – prosseguia ela com uma voz fininha de choro – Mas ele vai melhorar, eu tenho certeza! – complementava logo em seguida, enxugando as lágrimas com um guardanapo.
Mas o marido dela não melhorava, senão que aprontava outra, e outra, e mais outra. E assim a vida seguia: Benedita chorando e o seu marido fazendo o que bem entende. Quando ele chegava em casa depois de uma nova noitada, dizia para ela que iria mudar; ela reproduzia o discurso dele no bar para Josué, que sabia que tudo aquilo não passava de um teatro. Contar para Josué parece que reforçava a convicção de Benedita na mentira que ela não podia acreditar – justamente por ser uma mentira –, mas que acreditava infalivelmente.
         Já começando a se afeiçoar à sua nova profissão de psicanalista de boteco, Josué conheceu Cristiano, um rapaz trabalhador de uns 26 anos que se queixava de um crônico vazio existencial. Dizia que iria se matar, pois não tinha mais razão para viver. Contudo, pontualmente, todas as sextas feiras ele retornava ao bar do Tonico para afogar as mágoas do seu vazio existencial. Como sentiu que se tratava de um “amigo”, Josué tentou opinar:
         – Cristiano, tente enfrentar este sentimento olhando ele de frente! Todo mundo já sentiu algum vazio existencial na vida; talvez todos vivam com algum tipo de vazio existencial. Isso é natural! O que não é natural é se paralisar frente a este vazio. É preciso encontrar razão para viver, querer encontrar razão para viver. Uma boa fonte para isso é tentar viver para o social; tentar encontrar um emprego ou uma arte onde a gente consiga se reproduzir; enfim, ter paciência e perseverança.
         Josué estava também um pouco embalado pela bebida. Não tinha percebido o quanto falou. Cristiano ficou atordoado. Se levantou da mesa, não foi agressivo com Josué, como Florisbela e Armando haviam sido, mas nunca mais voltou para conversar com o “amigo”. Josué entendeu o recado.
***
         Quanta ilusão e condescendência havia naquele pobre povoado. Josué já não suportava mais viver naquele meio. Precisava de novos ares. Pensou em arrumar a sua mochila e ir embora. Já era tempo de partir: o inverno estava terminando e a primavera começava a se insinuar. Ele tinha o sonho de ir para a Amazônia viver no meio de uma tribo indígena. Mesmo com todos estes pensamentos, Josué foi ficando. As cigarras já cantavam na sua janela prenunciando que o verão estava próximo.
         Sentado na beira de uma sanga, em um domingo ensolarado, Josué percebeu que todos os ilusinenses se dirigiam para as duas principais igrejas da cidade: a católica, que ficava de fronte à praça central e à prefeitura; e a evangélica, que há pouco tempo havia sentado firma naquela comarca, mas que já contava com muitos fiéis devotos.
         Josué aguçava o ouvido para ouvir o que falavam e cantavam de um lado: “Nosso Senhor, por favor faça a nossa vida melhorar, nos livre do mal, amém”; e do outro: “Nós não somos nada! Nosso Senhor Jesus Cristo que tudo pode e tudo vê é o nosso caminho e a nossa salvação”. E todos, emocionados, se davam as mãos e diziam: “a vida vai melhorar, graças a Deus, a vida vai melhorar!”.
Mas a vida não melhorava. Todas as noites não apenas os clientes do bar do Tonico voltavam ao estabelecimento para reclamar dos mesmos problemas de sempre, como a vizinhança ao lado continuava padecendo dos mesmos males já conhecidos. Josué sentiu que sua saúde começava a se abalar, tamanha era a sua indignação reprimida ao ver que todos tinham interesses ocultos em cultivar aquelas ilusões para não ter que mudar nada de sua vida real.
***
         Josué ficou sabendo, muito abismado, que São José das ilusões sofreu com desastres naturais, que na verdade eram apenas parte da atividade de algumas multinacionais que exploravam o seu solo sem nenhum tipo de preocupação com a natureza ou com os seus habitantes. Certa vez, antes da chegada de Josué à pequena cidade, uma barragem de uma grande mineradora rompeu espalhando detritos metálicos por todos os cantos, destruindo casas, lavouras, matando pessoas, animais e a vegetação. A prefeitura municipal nunca cobrou um centavo de multa da tal mineradora. Pelo contrário, fez todo o possível para que a rotina fosse matando qualquer tipo de protesto ou desconforto. O povo ilusinense, depois de muito rezar e reclamar, logo esqueceu de tudo, mas as cicatrizes ficaram nos corações e na natureza.
         Outra multinacional que explorava ouro, cobre e estanho na região, destruía inúmeras jazidas de rocha e pedra e os resíduos de arsênio, resultantes dessa atividade, eram levados pelo vento para o núcleo da cidade provocando doenças e mutações genéticas na população. Ninguém reclamava! Ninguém sequer tinha consciência do que estava em jogo. Josué olhava para tudo isso apavorado e ao mesmo tempo olhava para os freqüentadores do bar do Tonico, indiferentes! A vida seguia.
         Com este cenário econômico de exploração e rapinagem, Josué quis se inteirar mais da política local. Descobriu que a prefeitura era dominada desde meados da década de 1990 por apenas dois partidos: PSDB e PT, com os seus respectivos aliados. A partir das coligações eleitorais a maioria dos partidos brasileiros já havia passado pela prefeitura de São José das ilusões.
A corrupção era a marca registrada de toda a administração daquela cidade. Roubavam com duas, três, quatro, cinco, dez mãos! Governavam para as multinacionais e os bancos, de costas para o povo. Na imprensa local posavam de bons moços defendendo a “democracia”; a alienação e a rotina tratavam de cimentar o resto, isto é, a hipocrisia social que garante que a vida siga normalmente. Todos sabiam que a corrupção era um problema seríssimo, mas não faziam nada: só reclamavam e rezavam! “A vida vai melhorar” – eles diziam em coro.
Já tinham votado no PSDB e nada tinha mudado! Votaram por duas vezes no PT que não fez absolutamente nada de diferente do PSDB: o povo continuava miserável, analfabeto, vivendo em casebres, com todos os seus direitos mais básicos e elementares ameaçados.
***
As eleições se aproximavam! A população estava indignada contra a prefeita do PT, que dizia apoiar os trabalhadores locais e preservar direitos, o que não condizia com a sua prática. Ela contava com o apoio do sindicato agrícola local, que dizia:
– Ruim com a prefeita do PT, pior sem ela!
E era aplaudido por parte dos ilusinenses. Josué ouvia tudo isso e engolia seco.
Outra parte da cidade, liderada por seu Armando, dizia:
– Agora é a hora da renovação! Chega dessa prefeita! Vamos tirá-la de lá! Vamos acabar com a corrupção dessa prefeitura! Votem no candidato do PSDB!
Novamente engolindo seco, Josué ficou com medo de intervir naquela briga inócua. Um grupo gritava contra o outro. Os indecisos ficavam perdidos, batiam cabeça, choramingavam, reclamavam, mas não questionavam nada além do votar num ou noutro.
Numa noite de bar cheio, Josué não aguentou mais e resolveu desabafar:
– Pensem comigo: PSDB e PT já estiveram à frente da prefeitura de São José das ilusões por mais de vinte anos. Nada mudou na vida de vocês, a não ser algumas migalhas a mais da prefeita atual. Mas ambos governaram para as multinacionais, para os bancos, de costas para a população. A corrupção correu solta em ambos governos.
– É verdade! – muitos concordavam.
– Então – prosseguiu ele – O voto já demonstrou que não muda a vida do povo. Ganhe quem ganhar, é a estrutura econômica que é o determinante! Se nós não mexermos lá, podemos morrer votando num ou noutro que a nossa vida seguirá piorando, com escândalos de corrupção cada vez piores, com uma exploração desenfreada por parte dos patrões e dos grandes empresários.
– É, você tem razão – disse Chica calabresa –, mas o que propõe então?
– Este rapaz é um comunista, comedor de criancinha! Vá para Cuba! – gritou-lhe seu Armando.
– Por acaso você está propondo uma revolução? – questionou Cristiano, que estava sentado numa das extremidades do bar.
– E por que não? – respondeu Josué – Nestas eleições não haverá alternativa novamente. Todos os partidos apresentados estão coligados, de uma forma ou de outra, defendendo, no essencial, o mesmo programa. Em sua maioria, já governaram a cidade, direta ou indiretamente. Seus governos foram apenas balcões de negócios para os empresários e representaram o aumento da miséria e do sofrimento do povo. As eleições são controladas pelo poder econômico dos bancos e das grandes empresas, principalmente as multinacionais. Esta forma cômoda e pacífica de “mudar a sociedade” é uma ilusão que prepara inúmeras armadilhas, reforçando a perniciosa esperança de que um indivíduo eleito, uma espécie de “messias”, vai resolver todos os nossos problemas sem que precisemos nos mobilizar para cumprir o nosso protagonismo, que é indispensável. Deveríamos debater caminhos alternativos ao mero voto no PT ou PSDB, o que representa apenas uma renovação fictícia. Vocês precisam romper com o caminho da alienação política, do comodismo e do egoísmo! Não tenham medo amigos! Nos desapeguemos do velho! Vamos abrir espaço para o novo em nossos corações! Ou fazemos uma revolução ou o sistema econômico e político seguirá o mesmo, e então, de nada adiantará reclamar!
– Deixar de reclamar? – indagou gritando Chica calabresa, Tonico, Cristiano, seu Armando e Florisbela! – Você está louco, forasteiro?
Uma chuva de garrafas e copos caiu sobre Josué, que se esgueirou para escapar das mais pesadas. Correu para o seu quarto, enfiou suas trouxas na mochila e picou a mula da cidade. “Até quando?” se perguntava Josué em pensamentos enquanto corria para a BR 101, “até quando?”. Lembrou-se daquele romance em que o velho coveiro esperava a morte dos últimos habitantes, um casal de idosos, para abandonar a cidadezinha fantasma. Concluiu que São José das ilusões já era uma cidade fantasma.
***
Como era bastante previsível, as eleições municipais deram a vitória ao PSDB, que se elegeu com discurso de mudança e renovação. Contudo, nada de novo aconteceu: a corrupção seguiu correndo frouxa, as multinacionais explorando, roubando e destruindo o meio ambiente, os direitos sociais que restavam foram impiedosamente retirados. Os ilusinenses seguiram abandonados, pobres, endividados, mas sempre reclamando!
Num dia qualquer de outono, Chica calabresa encontrou Cristiano no bar do Tonico com uma cara pálida de um bêbado que virou sozinho uma garrafa de cachaça.
­– Sabe Chica – disse o segundo com a voz cambaleante –, sinto falta do Josué! Alguém precisa falar a verdade por aqui. Foi a melhor coisa que aconteceu nessa cidade em vinte anos!
– Não seja bobo, Cristiano! – respondeu a primeira – Aqui ele sempre foi um estranho no ninho.
– Não há dúvida de que sim – disse Cristiano –, mas talvez ele quisesse apenas encurtar o nosso sofrimento. Será que precisaremos viver um calvário de lágrimas e sofrimentos para entender a mensagem que ele quis nos passar?
– Não sei! – disse Chica – Para mim, aquele forasteiro nunca mais colocará os seus pés nesta terrinha.
***

         No alto de uma árvore, na Amazônia, Josué observava uma sanga que passava ao lado. Um lapso em sua mente o fez lembrar dos ilusinenses. Seu peito sentiu um misto de carinho, ódio e piedade. Viajou por muitos lugares diferentes, conheceu gente nova, viu paisagens indescritíveis, aprendeu e vivenciou coisas renovadoras, mas nunca mais colocou os pés em São José das ilusões.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Sobre a idoneidade das agências de classificação de risco financeiro e da grande mídia

A burguesia nacional e internacional tenciona e o governo Dilma sangra. Para evitar o impeachment vai intensificar o programa do PSDB/PMDB: flexibilizar mais direitos trabalhistas (leia-se: retirar os direitos que restam), fazer uma nova "reforma" da previdência, garantir o draconiano superávit primário para pagar os juros da dívida pública aos banqueiros (leia-se: saque neocolonial do país).

Alguns meses atrás as "agências de classificação de risco" rebaixaram a nota do Brasil. A mídia fez um alarde; um verdadeiro terrorismo psicológico! A classe média se apavorou e vociferou ainda mais contra o governo.

É preciso lembrar, contudo, que a Standard & Poor's classificou como "A" o banco norte-americano Lehmann Brothers exatamente no mês em que iria quebrar, dando origem à crise econômica mundial de 2008. Na mesma época cometeram um erro de 2 trilhões de dólares para menos no cálculo da dívida pública dos EUA.

Qual a idoneidade das agências de classificação de risco para rebaixarem a nota do Brasil? Que é, diga-se de passagem, o melhor pagador de juros da dívida pública do mundo.

O que falar, então, de uma mídia que anunciou como manchete de abertura dos seus telejornais (Jornal Hoje, JN e Jornal da Globo) o fraudulento rebaixamento da nota do Brasil por estas agências, omitindo este pequeno detalhe sobre a Standard & Poor's e o Lehmann Brothers?

terça-feira, 24 de novembro de 2015

A única vez em que Stalin foi sincero

me enterrem com os trotskistas
na cova comum dos idealistas
onde jazem aqueles
que o poder não corrompeu
(Paulo Leminski)

Firmou-se a falsa ideia de que “o socialismo não deu certo”. Basta pronunciar a palavra “socialismo” e lá vem o discurso padrão! O surgimento de uma nova sociedade é um processo contraditório e não pode ser visto pela ótica utilitária do consumidor de classe média que pega uma mercadoria na prateleira e liga para o PROCON se ela “não funciona” como o esperado. Além deste reducionismo, o debate sobre “socialismo” é refém de uma grande ignorância, pois aqueles que sustentam que “não deu certo” nunca abriram uma única página de qualquer livro que analisa detalhada e cientificamente o problema das antigas experiências socialistas.

O socialismo é um sistema alternativo ao capitalismo. Não existe uma receita de bolo para aplicá-lo e nem um modelo pré-pronto. As experiências “socialistas” que tivemos degeneraram em regimes de nova opressão, chamados de stalinismo. Isto não atesta a ineficiência do socialismo. É, antes de tudo, fruto do isolamento internacional, da guerra, da derrota da revolução nos demais países europeus, do atraso da herança cultural e econômica dos países onde ocorreram, da política catastrófica de suas direções stalinistas e do seu programa; em suma, da conjuntura histórica de que cada país era refém. Lembremos que todas as revoluções do século 20 ocorreram em países extremamente atrasados. A história nunca nos brindou com uma revolução socialista em um país imperialista.

Ainda existe socialismo?
Atualmente, nenhum dos países que são insistentemente taxados de “socialista” pela grande mídia e pelo senso comum o é realmente. O socialismo não pode existir em só um país. Cuba, China, Coréia do Norte são países que já regrediram ao capitalismo, apesar de, em alguns casos, manter à cabeça do governo membros ou partidos que viveram e dirigiram a revolução no passado. Para todos aqueles que estudaram a fundo a história do movimento operário – sobretudo o trotskismo – a restauração do capitalismo não é nenhuma surpresa.

As vertentes socialistas de pensamento
É preciso dizer que existem diversas vertentes de pensamento dentro do movimento socialista: revolucionária, reformista, anarquista, etc. Algumas das mais importantes se conformaram dentro da União Soviética (URSS). Cabe destacar a luta entre o stalinismo e o trotskismo, que foram decisivas para o desfecho das experiências socialistas, uma vez que o primeiro consolidou um aparato político não apenas dentro da URSS, mas em diversos outros países através dos PCs ou mesmo cooptando as lideranças das revoluções que triunfaram posteriormente (coreana, cubana, chinesa).

Trotskismo X stalinismo: duas maneiras de interpretar a ditadura do proletariado
O trotskismo foi a corrente política que manteve vivo o pensamento marxista e leninista frente às grotescas distorções teóricas do stalinismo para justificar a sua prática política. Corajosamente os oposicionistas trotskistas denunciaram, um a um, cada desvio programático e cada fato absurdo na condução política do aparato. Em especial o trotskismo deu um grande destaque à denúncia da degeneração do partido: asfixia dos organismos de base, seguidismo, conchavos de bastidores, pseudo educação política que nada mais era do que o esvaziamento do pensamento crítico; perseguições, falsificações, deportações, prisões e torturas.

Como funcionava a cabeça do aparato soviético?
Stalin manobrou de todas as formas possíveis até ter em suas mãos todos os fios do aparato e liquidar seus oponentes, chantagear os indecisos, comprar os vaidosos, amedrontar os medrosos; falsificar fotos, livros, posições políticas de qualquer adversário (mas em particular do trotskismo). Matou um a um os velhos bolcheviques, pois estes representavam uma ameaça somente por saber qual era o verdadeiro legado de Lenin. Distorceu a teoria marxista como poucos, pois mudava de posição conforme suas conveniências e usava o poder do aparato para naturalizá-la contra qualquer possibilidade de questionamento.

O pior legado de Stalin
Contudo, o pior legado de Stálin não foi a repressão, mas o fato de ter enlameado o nome do socialismo e o de Lenin perante os olhos dos trabalhadores do mundo, facilitando a campanha ideológica da burguesia e a subsequente restauração do capitalismo. Trotsky teve razão quando o denunciou como o “coveiro da revolução”!

Em memória dos trotskistas
Os trotskistas corajosamente lutaram contra tudo isso em uma situação histórica dramática: isolados, caluniados, perseguidos. Afirmaram: “seguiremos criticando o regime stalinista até que fechem nossa boca fisicamente”. E assim se deu efetivamente: Trotsky foi expulso da URSS em 1929, muitos dos seus partidários foram presos, deportados para a Sibéria, coagidos a capitular ou mortos. Stálin não desistiu até conseguir assassinar Trotsky, no México, em 1940, pois sabia que a sua denúncia era implacável, muito bem armada e impossível de ser respondida (a não ser pela calúnia ou pela violência). O trotskismo nos legou uma preciosa obra política e teórica capaz de nos dar lucidez para formarmos um verdadeiro juízo sobre o que foi a experiência “socialista” na Rússia.

Stálin sincero: ao menos uma vez!
Na grande obra de Pierre Broue, O Partido Bolchevique, podemos tomar consciência de todo o processo de degeneração do partido e do Estado soviético que levaram ao surgimento do stalinismo. Sua valiosa pesquisa histórica é imprescindível para as gerações futuras e é leitura indispensável para qualquer indivíduo que queira ter opinião sobre “socialismo”. O livro tem o seu ponto alto quando traz a declaração de Stalin, registrada em ata, sobre a expulsão de Trotsky da URSS; única vez em que abriu seus planos:

Trotsky deve ser exilado no estrangeiro: 1º) Porque enquanto permaneça no nosso país, será capaz de dirigir ideologicamente a oposição, cuja força numérica aumenta incessantemente; 2º) Para ser desacreditado perante as massas mundiais como um cúmplice da burguesia, a partir do momento em que se encontre em um país burguês; 3º) Para poder desacreditá-lo frente ao proletariado soviético, pois, sem dúvidas, a social-democracia se utilizará de seu exílio contra a URSS, correndo ao auxílio de Trotsky, “vítima do terror bolchevique”; 4º) Se Trotsky atacar a direção com denúncias, poderemos acusá-lo de traição. Todas essas razões depõem pela necessidade de exilá-lo[1].

Eis uma pequena mostra de como a direção política stalinista liquidou a vertente socialista progressiva de dentro do território soviético, levando o socialismo a “não dar certo”.

Como se combate a monstruosa herança stalinista?
Os trabalhadores precisam perceber que se combate o stalinismo com a democracia operária (conselhos populares, liberdade sindical aos trabalhadores, socialização das decisões de estado, etc.) e não com a democracia burguesa, que pressupõe o capitalismo como sistema econômico; e este, como se vê, não representa futuro algum para a humanidade.

O que a burguesia recomenda para se entender o que é o socialismo?
A burguesia, através da sua grande mídia, sempre recomenda os mesmos livros viciados, traiçoeiros, que mostram as experiências socialistas através da sua ótica. Não há debate político, mas veneno subjacente. O oponente não olha nos olhos, mas pelas costas. Abaixo seguem alguns títulos:

- 1984 e A revolução dos Bichos, de George Orwell;
- O zero e o infinito, de Arthur Koestler;
- O livro negro do comunismo, de vários autores;
- Tudo o que você precisa saber para não ser um idiota, de Olavo de Carvalho

E outras preciosidades do gênero...

Para saber realmente sobre socialismo é preciso ler mais do que é vendido pela grande mídia
Para quem quiser ter opinião sobre socialismo (e não preconceito), recomenda-se as seguintes leituras que nos contam a experiência socialista pela ótica dos trabalhadores avançados:

- O Partido Bolchevique, de Pierre Broue
- A revolução traída; A revolução desfigurada; As lições de outubro; Stálin, o grande organizador de derrotas; A internacional depois de Lenin; A revolução russa – conferência; A natureza da burocracia soviética; Minha vida; dentre outros livros de Trotsky.
- Cartas das secretárias e o Testamento de Lenin, bem como os seus últimos artigos;

É importante ler as duas listas e comparar o conteúdo de cada bibliografia.




[1] Extraído de “O Partido Bolchevique”, de Pierre Broue.