domingo, 3 de setembro de 2017

Sapiens: uma forma sutil e inteligente de defender o capitalismo

O aclamado “best-seller internacional”, intitulado Sapiens: uma breve história da humanidade, do historiador israelense Yuval Noah Harari, constitui-se na mais nova arma ideológica da grande mídia para propagandear e defender o capitalismo. O livro, traduzido para vários idiomas e figurando há várias semanas como o mais vendido, já foi indicado por personalidades como Barack Obama, Mark Zuckerberg, Bill Gates e Pedro Bial; e por periódicos como Financial Times e The Times.
            Do ponto de vista literário, o livro é muito bem escrito e agradável de ler. Faz várias conexões históricas e científicas que refletem não apenas um profundo conhecimento da evolução histórica humana, como também da ciência e da tecnologia. Seguidamente faz ligações entre a história e a biologia que são muito interessantes, porém, perigosas. São construções teóricas minuciosas e refletidas, resultado de todo o acúmulo acadêmico do autor. Por tudo isso, é um livro que merece ser estudado, embora com profundas ressalvas.
Na sua narrativa há uma defesa informal do capitalismo, bastante sutil, que o difere de ideólogos reacionários como Olavo de Carvalho, Percival Puggina e Jair Bolsonaro. Estes exaltam freneticamente o capitalismo quando condenam enfaticamente o comunismo ou qualquer regime que se diga “socialista”, mesmo que não o seja de fato. Em suas retóricas, fica claro que o capitalismo é um sistema perfeito e insubstituível. Qualquer crítica ao capitalismo é vista mecanicamente como defesa do “comunismo” ou da “esquerda”, merecendo apenas a fogueira da Santa Inquisição.
            Ao contrário destes ideólogos da direita, o autor de Sapiens permite-se certas críticas ao capitalismo, ainda que todas sejam extremamente pontuais e dúbias. Sobressai uma estranha mescla de ironia e reconhecimento de contradições que lhe dão alguma intimidade com o leitor. Isso se diferencia bastante dos métodos tradicionais de propaganda ideológica da direita. O principal objetivo desta “tática”, quase como um “mea-culpa”, é defender o capitalismo de conjunto. Ao reconhecer muitos problemas no sistema, se credencia mais adiante para reafirmá-lo, às vezes sutilmente, às vezes abertamente, como a única saída realista e possível. Esta construção literária perpassa todo o livro, que pode ser considerado como parte do elo da intelectualidade burguesa pós-moderna para fazer terra arrasada da luta pelo socialismo, reafirmando nas entrelinhas o “fim irreversível do socialismo” e o triunfo inexorável do capitalismo.

1) Os mitos partilhados:
            Ao longo de sua exposição, acompanhamos uma análise que se estende da pré-história do gênero homo sapiens até os tempos modernos, demonstrando as modificações na sociedade, na economia, na família e nas crenças humanas. Yuval define estas crenças como mitos partilhados, que seriam algo intersubjetivo; isto é, “que existe na rede de comunicação ligando a consciência subjetiva de muitos indivíduos”, existindo na “imaginação partilhada de milhares de pessoas” (páginas 124 e 125). Dentre estes “mitos partilhados” – que também podem ser considerados como a própria cultura humana – estariam conceitos como nacionalidade, religiões, direitos humanos, dinheiro, mercado, capitalismo e socialismo (dentre outros).
            Num dado momento de sua evolução, os sapiens foram desenvolvendo a linguagem e a capacidade de partilhar mitos entre contemporâneos e entre gerações. Estes mitos possibilitaram o desenvolvimento de um instinto de cooperação em massa de milhares de estranhos. Sem ele a sociedade não duraria um dia a mais. Segundo o autor mesmo reconhece, “a maior parte destas redes de cooperação humana foi concebida para a opressão e a exploração” (página 113), embora não diga de quem, nem tire maiores conclusões de suas premissas. Mesmo sendo uma contribuição notável, a utilização que faz deste conceito, bem como as conclusões, são bastante reacionárias e niilistas.
            Dentro de uma lógica filosófica idealista, o autor sustenta que “o sistema econômico moderno não teria durado um único dia se a maioria dos investidores e banqueiros não acreditasse no capitalismo”; ou seja: parte-se da ideia de que em pleno século 21 os banqueiros e investidores modernos (numa palavra: os capitalistas) acreditam honestamente no seu sistema como algo positivo. Seria apenas uma questão de crença? A simples crença ou não crença, dissociada de condições materiais para sustentar uma ordem, tal como o exército, a polícia, a forma de organização da indústria, do trabalho e, dentro deste elo, a grande mídia e o senso comum (que ajudam a sustentar os mitos partilhados, sobretudo para os trabalhadores e o povo pobre), seria capaz de derrubar um sistema? Indo mais além, os capitalistas poderiam pensar de outra maneira que não “acreditando” no seu sistema? Esta justificativa dos “mitos partilhados” se aplicaria muito mais aos trabalhadores e ao povo pobre (e mesmo para a classe média) do que para os capitalistas e seus políticos, que comandam os fios e os tentáculos das marionetes que fazem o mecanismo funcionar, tendo, em sua maioria, perfeita clareza da podridão e das consequências dos seus atos e da lógica do seu sistema. Poderíamos dizer que os capitalistas – bem como o alto clero medieval – partilham mitos, fazendo os outros acreditarem neles, mas eles próprios não creem naquilo que professam.
            Com muito esforço e boa vontade, podemos condescender que Platão, Aristóteles e outros aristocratas escravistas gregos e romanos acreditavam nos seus mitos escravistas, como aquele que afirmava que os escravos tinham uma “natureza escrava” e os homens livres uma natureza “livre” (página 142). Certamente sua posição social e sua condição material era parte integrante da lógica do seu raciocínio. Não havia na época críticos a esta filosofia. Estes filósofos eram o que de mais alto a sociedade escravista tinha produzido no campo ideológico; ao contrário dos capitalistas modernos, que sofreram e sofrem inúmeras críticas de teóricos proletários e revolucionários. O papel dos ideólogos modernos, dentre os quais, podemos conceder a honra ao próprio Yuval, é trabalhar para distorcer a realidade e o juízo dos trabalhadores para justificar e sustentar a aberração de uma sociedade de classes, em pleno século 21. Sendo que o próprio reconhece que “é amplamente sabido que políticas baseadas nas últimas descobertas em agronomia, economia, medicina e sociologia podem eliminar a pobreza” (página 275). Ainda afirma que “os sapiens são animais relativamente fracos, cuja vantagem está em sua capacidade de cooperar em grande escala” (página 167). Este é, justamente, o ponto de partida para o socialismo, que Yuval se nega a reconhecer. Prefere continuar partilhando o preconceito antissocialista e novas ideologias de classe para dificultar a emancipação dos trabalhadores.
            Os mitos partilhados, ainda que sejam mitos, não surgiram do além e não pairam no ar. São o reflexo, mais ou menos direto, de três premissas fundamentais: I - da prática social, representada, sobretudo, pelo trabalho humano e por sociedades específicas que engendravam este trabalho; II - das lacunas do conhecimento e da ciência, que necessariamente levam à necessidade de preenchimento com fantasias e mitos; e III - das ideologias de dominação que as classes dominantes lançaram mão ao longo da história para manter seus privilégios. Estes mitos não poderiam surgir e se manter se não fossem resultado de um imperioso reflexo de condições materiais determinadas historicamente para fazer funcionar a máquina de uma sociedade, também determinada historicamente.

2) A disseminação do anticomunismo
            Esta suposta compreensão de que é possível superar a pobreza – expressa na página 275 – é apenas mais uma saudação à bandeira. Yuval, na verdade, ajuda a partilhar o mito da “incompatibilidade genética do sapiens para a igualdade social”, sustentando que “talvez a pobreza social jamais seja erradicada” (página 276). É no meio destas divagações contraditórias que entram defesas subliminares do capitalismo, feitas através de “declarações desinteressadas” sobre as “facilidades” do dinheiro, do mercado e contrapondo-as a declarações, também “desinteressadas” e en passant, de que “o ideal igualitário do comunismo produziu tiranias cruéis que tentaram controlar todos os aspectos da vida cotidiana” (página 173 – grifos nossos). Reparem que não se trata de uma sociedade determinada historicamente que se degenerou em uma tirania cruel, mas quem as produziu foi o próprio ideal igualitário do comunismo.
            Seria estranho que um historiador, tão bem informado sobre todas as coisas, desconhecesse a história da URSS e a luta entre o stalinismo e o trotskismo. Ele deveria saber, também, que a tentativa de “controle sobre todos os aspectos da vida cotidiana” foi obra do regime instaurado por Stálin, que se espalhou para outros países que também afirmaram-se “comunistas”, como Coréia do Norte, China e o leste europeu. Tanto conhece esta diferença, que Yuval cita as farsas judiciais do stalinismo na página 372. Conhecendo esta diferença nada desprezível entre o programa marxista e o trotskista, de um lado, e o que foram os regimes stalinistas, de outro, fica evidente que se trata de uma opção consciente pela disseminação do anticomunismo e pela apologia do capitalismo.
Esta alusão ao “stalinismo”, contudo, só é usada quando convém, uma vez que Yuval associa (tal como faz a grande mídia e a intelectualidade burguesa) Lenin aos genocídios cometidos por Stalin e Hitler. Ora, é preciso aqui um trabalho histórico rigoroso: Lenin dirigiu o jovem Estado Soviético durante uma guerra civil contra 14 exércitos imperialistas. Se fuzilou a família do czar ou prisioneiros militares é porque esteve envolvido na lógica inexorável de uma guerra, tal como Abraham Lincoln, Charles de Gaule ou Wiston Churchill foram obrigados a fuzilar ou condescender durante as guerras em que estiverem envolvidos como homens públicos. Lenin nada tem a ver com a transformação da KGB num horripilante espião civil; e muito menos com as farsas dos processos de Moscou, que assassinaram e fuzilaram homens públicos, civis e militares em uma conjuntura sem guerra e sem ameaças diretas à URSS (a não ser que Lenin tenha feito tudo isso diretamente do post-mortem). Sabemos, por relatos de Trotsky, que Lenin preparava uma luta sem quartel contra a burocracia stalinista (que na época estava em formação), ao ponto de podermos desconfiar seriamente de um possível assassinato a mando do próprio Stalin (ainda que Trotsky nunca tenha afirmado isso).
Yuval não quer reconhecer essa diferença. Trata, ao longo de todo o livro, “comunismo” como sinônimo do que chamamos de “regime stalinista”. Um historiador tão bem informado como Yuval ignorar a diferença dos primeiros anos do regime soviético (1917-1929) da sua posterior degeneração em stalinismo (1930 em diante) é um tanto estranho. Seria ignorância ou má fé?
Em diversas outras passagens do livro a conclusão é a mesma, tal como um samba de uma nota só: “a única tentativa de governar o mundo de forma diferente – o comunismo – foi tão pior em praticamente todos os aspectos concebíveis que ninguém tem estômago para tentar de novo” (página 343); seguida pela conclusão: “podemos não gostar do capitalismo, mas não podemos viver sem ele” (idem – grifos nossos). Na primeira afirmação há uma impropriedade, pois existem centenas de organizações socialistas pelo mundo que reivindicam o legado bolchevique (e, lamentavelmente, muitas que ainda também reivindicam o legado stalinista). Na segunda, estaríamos condenados ao capitalismo pela suposta inexorável ineficiência do comunismo ou simplesmente porque não podemos viver sem ele. Quem não poderia?
O socialismo/comunismo é um sistema econômico alternativo ao capitalismo. Ele não cai do céu, pronto e acabado, mas precisa ser construído a partir de uma revolução que supere a sociedade capitalista. Isto significa dizer que ele nascerá do próprio capitalismo, com todas as suas contradições, ideologias, hábitos, mentalidades, cultura, etc. Para que tudo isso seja realmente superado é necessário medir os acontecimentos não como um consumidor que liga ao PROCON para saber por que a sua mercadoria “não funciona” – tal como faria um pequeno-burguês –, mas como a evolução de um processo histórico. Isto é o beabá para qualquer historiador.
É preciso olhar a “experiência socialista” pela ótica do proletariado; e não como faz Yuval, que a olha pelo olhar da burguesia. O capitalismo necessitou de anos para superar o feudalismo. O povo francês passou fome logo após a Revolução Francesa de 1789; depois do cansaço da explosão popular, ajudou indiretamente a levar ao poder Napoleão; foi um processo social longo, contraditório e traumático, que deixou inevitáveis cicatrizes, mas criou as bases do desenvolvimento social e econômico futuro, ainda que não tenha resolvido (e nem poderia) os problemas essenciais da fome e da miséria, que seguem pendentes. Os grandes capitalistas sabotaram as experiências socialistas para “que não dessem certo” por diversos meios, tal como a nobreza feudal sabotou as possibilidades do “capitalismo dar certo” – até que foi definitivamente derrotada nas revoluções francesas de 1789, 1830 e 1848. A burocracia stalinista sabotou o “comunismo” por dentro, surgindo como reflexo de uma conjunção de fatores: baixo nível cultural, econômico e social da Rússia, somado à ascensão do nazi-fascismo na Europa; e o imperialismo o sabotou por fora através do boicote do mercado mundial, dentre outros meios.
O livro de Yuval ainda dissemina o tradicional senso comum reacionário de que os “socialistas” não querem trabalhar e só “viver bem” (tal como a direita atual se refere pejorativamente aos programas sociais dos países de terceiro mundo, como se isso fosse socialismo/comunismo). Segundo Yuval, o lema marxista de que “todos trabalhariam conforme suas necessidades” transformou-se, na prática, em “todo mundo trabalharia o mínimo possível e receberia o máximo que conseguisse” (página 184). Como não podem responder às argumentações marxistas e trotskistas, os ideólogos da burguesia lançam preconceitos e confusões. Yuval segue aqui a mesma tática daquela corrente de internet que apresentava a “ineficiência do socialismo” a partir de uma suposta “experiência de um professor de economia da universidade do Texas”, que resolveu dar a mesma nota para todos os alunos. Isso já foi desmascarado como mais uma farsa contra o pensamento socialista[i]. Yuval a repete de uma forma sutil e diluída no longo corpo de seu texto.
Também podemos perceber a fuga de debates reais sobre a experiência econômica e social da URSS – expressos, em sua maioria, pela obra de Trotsky – quando o autor esconde-se atrás dos velhos jargões burgueses: o “comunismo” seria “utópico” (página 206); as leis marxistas da história seriam “sobre humanas” (página 237); haveria a pregação de um “paraíso comunista aqui na terra” (página 251). Segundo Yuval, os “comunistas” afirmaram de modo religioso que “Marx e Lenin haviam revelado verdades econômicas que jamais poderiam ser refutadas” (página 264). Aqui há, novamente, uma confusão proposital entre o marxismo e stalinismo. Para Marx, Lenin e Trotsky, a visão socialista deve se basear no materialismo dialético, que reconhece a mudança como algo permanente e que não existem dogmas. Quem transformou as “verdades econômicas” em algo irrefutável e dogmático foi Stalin e seus seguidores. Trotsky morreu para demonstrar isto. Esta “omissão” de Yuval seria desconhecimento?
Como conhecedor do processo dialético da disseminação cultural de ideias e conceitos, Yuval afirma que “o humano morre, mas a ideia se espalha” (página 251). Parece que é justamente isso que ele quer evitar com o seu anticomunismo; isto é, que a ideia comunista se espalhe, supere os erros do passado e perceba que o stalinismo foi um regime político degenerado, que quase nada tem a ver com “comunismo”, a não ser o fato de ter surgido da Revolução Russa de 1917 e a ter traído nas décadas seguintes, como muito bem atesta o livro A Revolução Traída (1937), de Trotsky.
Yuval definitivamente é um seletivo e incoerente crítico do comunismo. Seu livro é novo, mas as críticas são velhas. As “críticas” ao capitalismo, por sua vez, são lançadas para ludibriar o pensamento independente.

3) A defesa das “revoluções econômicas” do capitalismo e os mitos partilhados sobre o mercado
            O cerne do pensamento de Yuval sustenta que o capitalismo é um sistema econômico essencialmente revolucionário, cujo “desejo humano egoísta de aumentar o lucro privado é a base para a riqueza coletiva”, o que seria “uma das ideias mais revolucionárias na história – não só de uma perspectiva econômica como também de uma perspectiva moral e política” (página 322). O capitalismo propiciou a Revolução Industrial inglesa, que por sua vez, ocasionou um grande impulso para a ciência e “resultou em poderes sobre-humanos e energia praticamente sem limites” (página 386) para a sociedade.
            Esta análise não é propriamente uma novidade. Marx e Engels já haviam analisado este papel econômico revolucionário do capitalismo no seu desenvolvimento histórico, embora de uma forma bem menos generosa e ufanista. Eles escreveram que “a burguesia não pode existir sem revolucionar permanentemente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção; portanto as relações sociais todas. A conservação inalterada do antigo modo de produção era, pelo contrário, a condição primeira de existência de todas as classes anteriores. A permanente revolução da produção, o ininterrupto abalo de todas as condições sociais, a incerteza e o movimento eternos distinguem a época da burguesia de todas as outras”[ii].
            Yuval, contudo, vai além. Embeleza a ganância. Afirma que a economia moderna se difere da economia pré-moderna porque os investidores confiam no futuro e possuem um benéfico egoísmo, que quer fazer o “bolo crescer” pensando supostamente no aumento da riqueza e da prosperidade coletivas. Esta seria a base para o crescimento econômico ilimitado proporcionado pela sociedade capitalista, e não a exploração do trabalho organizado da classe trabalhadora. Segundo a lógica de Yuval, os últimos 500 anos teriam gerado uma “ideia de progresso que convenceu as pessoas a confiarem cada vez mais no futuro. Essa confiança gerou crédito; o crédito trouxe crescimento econômico real; e o crescimento fortaleceu a confiança no futuro e abriu caminho para ainda mais crédito” (página 321).
            É certo que o lucro reinvestido na produção econômica faz o “bolo crescer” e gera crescimento econômico. Isso foi a lógica do sistema por séculos e, apesar de suas crises econômicas periódicas, dos inúmeros desempregados gerados por elas e da miséria crescente resultante, serviu para nos trazer até aqui. O problema, contudo, é que há uma santificação dos investimentos capitalistas. Estes não seriam parte de um sistema econômico definido historicamente e fadado a desaparecer, para ser substituído por outro (seja o socialismo ou a barbárie); mas cai de maduro, por toda a sua lógica, que seriam a solução definitiva. Esta “pureza” dos investimentos não existe. 
              Por mais importante que tenham sido para destravar a economia e fazê-la andar para frente, possuem inúmeros efeitos colaterais, que já são bem conhecidos. Como os sapiens são seres pensantes e reflexivos, caracterizados por evoluírem superando problemas, não podem simplesmente se dar ao luxo de não perceberem estes efeitos colaterais (a não ser, é claro, se parte destes sapiens queiram manter seus privilégios, frutos de suas condições sociais). Quem tem o monopólio de investir o seu lucro novamente na produção, para que ele volte a crescer, é a burguesia. Nem sempre no que ela decide investir é o melhor pra sociedade. Em épocas de recessão ela geralmente não reinveste, piorando a crise econômica; ou diminuindo a produtividade por medo da queda da sua taxa de lucros em um mercado em contração. Aí estão diversos parques industriais de grandes empresas multinacionais produzindo com capacidade reduzida, propondo demissão voluntária ou férias coletivas aos seus trabalhadores..
            Os investimentos da burguesia produzem também agiotagem, capitais fictícios e fraudes, além de poderem aumentar proporcionalmente à miséria dos trabalhadores. Se nos últimos 500 anos cumpriram, sem dúvida, um papel revolucionário ao superar a produção econômica do feudalismo, fazendo o “bolo crescer” e incrementando mercados, nos últimos 150 anos transformaram-se em imperialismo, em monopólios e trustes de bancos e grandes transnacionais que definem preços e praticamente estrangularam o “livre mercado”. Já tomamos consciência do papel deste imperialismo, que se tornou um entrave ao real desenvolvimento da humanidade. Este imperialismo pode fazer uma economia crescer ou bloqueá-la; eleger governos ou derrubá-los; condenar ditaduras ou dar suporte a elas; através de sua mídia pode exaltar um mentiroso e transformá-lo em herói ou caluniar e desmoralizar alguém que defenda uma posição mais independente e progressista.
A suposta “liberdade individual” garantida pelo mercado, que é cantada em verso e prosa por Yuval e tantos outros, é, portanto, falsa. Certamente é maior do que foi nos sistemas econômicos anteriores e nos regimes stalinistas. Porém, o consumismo, os padrões do mercado, da educação, as imposições dos empregos e, sobretudo, o medo do desemprego, impõem a padronização e um senso comum que tende a nivelar por baixo e abafar a individualidade autêntica.
            Dentro desta lógica perversa, Yuval chega ao cúmulo de afirmar que “a classificação de risco de um país é muito mais importante para seu bem-estar do que seus recursos naturais. As classificações de risco indicam a probabilidade de um país pagar suas dívidas. Além de dados puramente econômicos, levam em consideração fatores políticos, sociais e até mesmo culturais. Um país rico em petróleo, mas amaldiçoado com um governo despótico, guerra endêmica e um sistema corrupto geralmente receberá uma classificação de risco alta” (página 337). Há que se perguntar quem pode definir o que é um “governo despótico”? Os capitalistas ou os trabalhadores conscientes? É evidente que um país que usar os royalties do petróleo para investir na educação e saúde públicas e não para pagar os banqueiros e acionistas, será demonizado como “despótico” (tal qual o governo pseudo-socialista da Venezuela); enquanto que um autêntico governo despótico, que esmaga as liberdades democráticas dos trabalhadores e oprime violentamente as mulheres, mas paga religiosamente em dia os agiotas (como o governo monárquico da Arábia Saudita, aliado estratégico do imperialismo), pode ser visto como um “governo livre”. Yuval tem a desfaçatez de defender essa chantagem, afirmando que um governo que desconsidere estas agências de classificação de risco provavelmente “continue relativamente pobre, já que não será capaz de levantar o capital necessário para aproveitar ao máximo sua riqueza de petróleo” (idem).
            Ora, o Brasil é um dos mais fiéis pagadores da sua dívida pública. Tem aumentado progressivamente o valor do orçamento federal destinado aos especuladores e agiotas internacionais às custas do aumento da miséria do povo, da destruição dos serviços públicos e do futuro da nação, enquanto que estas agências seguidamente rebaixam a nota do país ao seu bel prazer. Funcionando com base no terrorismo psicológico, a “classificação de risco” constitui-se num cínico mecanismo de escravidão. Yuval é um historiador bem informado. Certamente deve saber que a famosa agência de classificação e risco Standard & Poor's classificou como "A" o banco norte-americano Lehmann Brothers exatamente no mês em que iria quebrar, desencadeando a crise econômica mundial de 2008. Na mesma época cometeram um erro de 2 trilhões de dólares para menos no cálculo da dívida pública dos EUA. Estas mesmas agências de classificação de risco maquiaram números meses antes da Grécia e Espanha decretar o default econômico. Até mesmo setores da burguesia reconheceram (timidamente) as falhas destas agências[iii].
            Em sua apologia do mercado, Yuval parece ter tropeçado naquilo que critica, isto é, na “literatura romântica”. Só que ao invés de ser romântico pela luta contra o mercado e o Estado, é romântico no sentido de deusificá-lo. Demonstra-se como mais um fiel do credo capitalista. Segundo Yuval, “a revolução industrial deu ao mercado novos poderes gigantescos, proveu o Estado de novos meios de comunicação e transporte e colocou à disposição do governo um exército de escriturários, professores, policiais e assistentes sociais. (...) Com o tempo, os Estados e os mercados passaram a usar seu poder crescente para enfraquecer os vínculos tradicionais da família e da comunidade” (página 369). O mercado e o Estado capitalista desenvolveram-se como o reflexo mais ou menos direto do crescimento populacional humano e de suas novas instituições, que não mais podiam atender aos vínculos sociais anteriores. Porém, a sagacidade de Yuval demonstra-se quando ele afirma que o indivíduo (sem definir bem qual) é o beneficiário indubitável deste domínio do mercado e do Estado, pois estes nos fornecem trabalho, seguro-saúde e uma aposentadoria; se quisermos estudar uma profissão, as escolas do governo estariam lá pra nos ensinar (página 370). Se é certo que o mercado e o Estado fornecem tudo isso a uma parte da sociedade, por outro lado, é mais certo ainda que a maioria dos países do mundo (que são semicoloniais) ainda não dispõem de todos estes benefícios justamente porque trabalham para sustentar o Estado de bem-estar social nos países imperialistas. Além disso, a crise estrutural do capitalismo – que já estava bastante evidente em 2015 – está obrigando-o a retirar todos estes direitos através dos seus ajustes fiscais e planos de austeridade mundo afora. Isto não impede Yuval de defender estes mesmos planos, como se pode ver na sua apologia das “reformas da previdência” e “trabalhistas”, bem no estilo do governo Temer (PMDB): “os fundos de pensão e os mercados de trabalho devem se reajustar a um mundo em que os sexagenários talvez sejam os novos balzaquianos” (página 421).
            Marx e Engels foram os primeiros a reconhecer que a evolução econômica da humanidade se dá repleta de contradições. Isto é, nem toda a exploração econômica de uma classe deixa de ter reflexos positivos para a evolução da sociedade, ainda que custe a vida de gerações inteiras. O escravismo, apesar de todo o barbarismo de suas relações sociais de produção, representou um avanço em relação ao selvagismo pré-histórico. O capitalismo, em relação ao feudalismo e ao escravismo, a mesma coisa. Porém, isso é bastante diferente de tentar justificá-lo e convencer as mentes independentes a sustentá-lo. Uma vez que a humanidade tomou plena consciência dos seus efeitos colaterais, não há mais nenhuma justificava para a omissão de combatê-los, a não ser a hipocrisia e o cinismo de quem quer sustentar posições sociais privilegiadas.

4) Aldeia global ou imperialismo mundial?
            No debate internacional a tese central de Yuval é que o imperialismo não é um vilão, tal como tem sido apresentado pela maioria dos historiadores até hoje. Esta visão, segundo ele, seria infantil e limitada. A expansão do imperialismo ao longo do tempo trouxe inúmeros avanços sociais, tecnológicos e científicos que são desconsiderados por aqueles que o veem como vilão. O Império Britânico, norte-americano e até mesmo o soviético (ao qual ele também chama de império) teriam não apenas sido os responsáveis por grandes evoluções científicas, como também promotores da paz mundial. Nas palavras de Yuval: “Pintar todos os impérios de preto e condenar todos os legados imperiais é rejeitar a maior parte da cultura humana”; e conclui: “os ganhos e a prosperidade trazidos pelo imperialismo romano propiciaram a Cícero, Sêneca e Santo Agostinho o tempo livre e os recursos necessários para pensar e escrever” (página 201). Assim como faz uma confusão intencional na questão dos investimentos capitalistas, atribuindo o crescimento econômico a esta benevolência dos capitalistas e não à força de trabalho do proletariado; da mesma forma Yuval atribui a prosperidade ao imperialismo romano e não aos escravos, que estavam organizados de tal forma que propiciaram o tempo livre necessário para que a elite pudesse ler, escrever e se desenvolver.
            É possível compreender que os impérios realmente promovam uma evolução tecnológica e científica. Poucos períodos históricos podem ser estudados sem a existência da dominação de impérios. Esta tem sido a tônica da evolução humana. O problema, contudo, é que no passado não possuíamos o grau de consciência e compreensão da história que possuímos agora. Os impérios eram, talvez, a única estrutura social possível e conhecida. Hoje temos avanços em várias áreas científicas – que praticamente podem andar de forma autônoma – e podemos prescindir dos impérios como promotores exclusivos dos avanços científicos e tecnológicos.
Os apologistas do capitalismo sempre justificaram as guerras como grandes impulsionadoras do desenvolvimento econômico e tecnológico. Parte desta argumentação servia para continuar apoiando a existência e a deflagração de guerras. É indubitável que as guerras e o imperialismo contribuíram, de forma contraditória (e bizarra!) para o avanço tecnológico e científico. Devemos olhar este avanço como uma contribuição que custou inúmeras vidas e que deve ser superado por outros métodos. Não podemos mais tolerar isso como justificativa. O ócio dos gregos antigos (baseado no trabalho escravo) não contribuiu menos para a evolução científica da humanidade do que as guerras. Os diversos métodos científicos já desenvolvidos e conhecidos hoje, somado ao excedente de produção, fruto do crescimento econômico, podem ser a base para a continuidade da evolução científica e tecnológica, e não mais as guerras e o imperialismo.
Quem defende o oposto, em pleno século 21, só pode apostar na ingenuidade do senso comum ou nos próprios interesses do imperialismo e de sua indústria bélica. É preciso democratizar não apenas a política, mas a economia e a ciência. O caminho apresentado por Yuval é o que seguimos até o momento. Através do eufemismo da “aldeia global”, utilizado pela grande mídia e por vários outros intelectuais burgueses, tenta colocar uma máscara de amizade no imperialismo. Certamente o mercado mundial, o Estado capitalista e mesmo o imperialismo contribuíram, de forma contraditória e degradante, para a evolução das comunicações e dos transportes. Esta evolução contribuiu para que hoje possamos saber o que acontece em tempo instantâneo no outro lado do mundo. Porém, junto com o imperialismo há a censura midiática, política, econômica, ideológica, etc. Uma censura muito mais sutil e arguta do que a censura explícita de uma ditadura (embora o imperialismo também se utilize desta quando necessita).
Yuval fala exaustivamente sobre o casamento da ciência com o imperialismo e o capitalismo, mas ignora totalmente o aumento assustador que estes promovem às religiões de caça-níquel (como a explosão das igrejas evangélicas, por exemplo, que sobrevivem a partir de um capitalismo selvagem e propagam o mais pernicioso obscurantismo) e às pseudociências (já muito bem desmascaradas por Carl Sagan). Enquanto o imperialismo detém o monopólio da mais alta tecnologia, ele financia e mantém artificialmente o povo no obscurantismo através das igrejas e das suas imposições midiáticas, do consumismo, da padronização de opiniões e de programas idiotizantes.
Nos países de terceiro mundo a ciência é permanentemente sabotada pelo imperialismo (basta olharmos o quanto estas nações são obrigadas a usar os recursos que deveriam ser investidos em educação, ciência e tecnologia para pagar os juros e amortizações das suas “dívidas” públicas). Só os grandes centros econômicos detentores de grandes somas de capitais podem se dar ao luxo de reinvestir seus impostos e recursos em pesquisa científica e tecnológica, mantendo o monopólio sobre as suas “descobertas” e as vendendo, a preço de ouro, para os países de terceiro mundo.
A despeito de todo o avanço tecnológico, a concentração de renda do capitalismo conserva a maior parte da população na pré-história. Modernidade e selvagismo convivem, lado a lado, na sociedade imperialista atual, sem que isso impeça os intelectuais burgueses de continuar exaltando esta “evolução” amputada e problemática. Querem, com isso, embelezar o monstro porque o monstro os embeleza. A tarefa dos trabalhadores conscientes consiste em livrar a evolução humana (seja a tecnológica, científica ou moral) deste parasitismo de classe, que pretende justificar o injustificável para não perder sua posição social privilegiada de comando.
           
5) A “pax americana”
            Yuval não para na defesa do capitalismo e do imperialismo travestida de defesa “realista” da ciência e tecnologia. Ele cruza o rubicão e vai muito além. Afirma que a sociedade capitalista global “é dominada por uma elite que ama a paz” (página 384). Ele procura sustentar esta piada macabra da seguinte forma: “a ameaça de um holocausto nuclear promove o pacifismo” (idem). Esta é a mesma lógica de Stálin e de Kim Jong-un da Coréia do Norte. Casualmente eles não foram lembrados.
Uma paz baseada no medo é realmente uma paz? Por certo que o medo de uma guerra nuclear pode frear guerras mundiais, mas estas estão longe de ter um fim. Desde a crise dos mísseis o imperialismo mudou de tática. Evita confrontos abertos e promove a guerra com parceiros regionais. Trocando em miúdos, o imperialismo terceirizou a guerra e ainda hoje lucra como nunca, seja através da indústria bélica, do tráfico de armas ou de drogas. Yuval tenta relativizar as atuais carnificinas que assolam o mundo nas guerras do Iraque (1991 e 2003), Kosovo (1996, 1999), República Democrática do Congo (1997-2003), Eritréria-Etiópia (1998), Chechênia (1999-2000), Afeganistão (2001), Líbano (2006), Russo-georgiana (2008), Líbia (2011) e Rússia-Ucrânia (2014) como se fossem guerras com mortes desprezíveis. A guerra da Síria iniciou em 2011 e dura até hoje, sem previsão de término. Os investidores e a elite mundial parecem pouco preocupados com o seu desfecho. O lucro da indústria bélica movimenta as guerras no Oriente Médio[iv] (região onde vive Yuval). Só para se ter uma ideia: um cálculo por baixo, feito pelo Congresso Americano, revela que as guerras no Iraque e Afeganistão consumiram quase U$1 trilhão até o início de 2010. Este dinheiro é injetado direta e indiretamente na indústria bélica. Apesar de muitos países, como o Brasil, não estarem em guerra, vivem uma verdadeira guerra civil subterrânea com o tráfico de drogas (inclusive com mais mortes que a guerra da Síria). Não apenas o Brasil sofre com este problema, mas também o México e a Colômbia (dentre outros).
Yuval está em franca contradição com a realidade quando afirma que “a guerra se tornou menos lucrativa” (página 384). Amplos setores da própria mídia burguesa afirmam que a crise econômica mundial não afetou a lucratividade da indústria bélica. Pelo contrário. O setor bélico dos EUA aumentou o faturamento em 20% ao ano[v]. Qual outro setor da economia é capaz deste prodígio hoje? Os acordos de ajuda mútua entre EUA e Israel chegaram à cifra recorde de U$3,8 bilhões. A Elbit – empresa insraelense que produz armas e tecnologia militar – é uma das que mais lucra, tendo ramificações e fechando vários negócios em distintas regiões do globo. Yuval também considera o genocídio de palestinos promovido por Israel como uma “guerra” (página 398) e não a carnificina de um povo preso, vigiado e torturado, que conta com total apoio “humanitário” do imperialismo. Da mesma forma, os conflitos regionais, na sua lógica, possuem mortos desprezíveis se comparado a outras guerras. Este fato justificaria o argumento de que a elite mundial ama a paz.
O melhor mercado para o capitalismo continua sendo a guerra. Ao contrário do que afirma Yuval, o imperialismo sempre foi e continuará sendo uma das principais fontes de ódio e violência organizada, geradora de guerras e instabilidades ao redor do mundo. Yuval não pode dar o braço a torcer e precisa enxergar uma “época de paz” no período que estamos vivendo porque não existem guerras mundiais generalizadas. Desconsidera propositalmente a guerra localizada, do tráfico e de informação. Faz um malabarismo teórico e político para esconder que a “pax atômica” é como a “pax romana”: enquanto o imperialismo domina, explora e mata está tudo certo.
A nossa paz atual – a “pax americana” – é apenas uma paz de cemitérios.

6) A felicidade da burguesia é mais importante que a dos trabalhadores
            Dois temas atuais são abordados por Yuval quando sua narrativa se aproxima do fim: a crise da relação com a natureza, fruto do consumismo; e o problema da felicidade. São dois temas inevitáveis para a contemporaneidade. Sobre o primeiro tópico, Yuval define o que seria esta “desordem ecológica” que pode “ameaçar a sobrevivência do próprio Homo Sapiens”: “O aquecimento global, o aumento do nível dos oceanos e a poluição disseminada podem tornar a Terra menos habitável para a nossa própria espécie, e o futuro, consequentemente, pode testemunhar uma disputa cada vez maior entre a capacidade humana e desastres naturais induzidos pelo homem” (página 362). A sua conclusão, no entanto, é surpreendente: “Muitos chamam este processo de ‘destruição da natureza’. Mas, na verdade, não é destruição, é transformação” (idem).
            O nosso autor parte do pressuposto que a natureza não pode ser destruída, o que é correto; mas a nossa espécie, dentro desta natureza, pode. Afirma que as matrizes energéticas mudam com o tempo e que não devemos nos alarmar com a possibilidade do fim do petróleo, por exemplo, pois a pesquisa científica e o investimento em tecnologia trabalham diariamente para desenvolver novos tipos de energia. Isso é parcialmente correto.
            É certo que a humanidade pode e certamente vai desenvolver novos tipos de energia, capazes de superar a matriz que provém dos hidrocarbonetos. Isso, porém, não resolve o problema central, que é a exploração predatória dos recursos naturais e a sua finalidade central, que é abastecer uma sociedade baseada no consumismo. Este é intrínseco a atual fase do capitalismo. Vender produtos com plásticos, de materiais descartáveis ou fundamentados na obsolescência programada é a característica central do consumismo atual. Os lixões a céu aberto e o lixo eletrônico na maioria dos países do mundo é um problema sério, ao qual Yuval parece menosprezar ou mesmo ignorar. O nosso autor precisa agir desta forma porque defende o capitalismo; e este sistema só pode sustentar a sua taxa de lucro, atualmente, mantendo um consumismo neurótico e desenfreado. É esta, possivelmente, a razão central para Yuval relativizar a destruição da natureza. Esta postura política, contudo, é um novo crime da sua parte.
            O lucro está acima da preservação da natureza, das relações humanas, da vida! Nenhuma catástrofe ambiental atual tem feito a burguesia pisar no freio. Ao contrário, paga cientistas e ideólogos (como já nos demonstrou Carl Sagan) para relativizar ou mesmo negar a existência do aquecimento global. O nosso organismo divorciado de uma natureza sadia e que tenha seus ciclos respeitados e preservados, certamente contribuirá para produzir seres humanos mais “mecânicos”, doentes e infelizes.
            A publicidade do mercado capitalista, por sua vez, tenta nos “vender a felicidade” a todo o momento. Não é de hoje que este tema tem sido usado pela burguesia como forma de lançar a confusão sobre o senso comum. A felicidade é um conceito subjetivo. Não existe uma felicidade universal; nem o ser humano pode ser plenamente feliz. A tristeza e a infelicidade fazem parte do crescimento. Não há como evoluir sem um parto doloroso, que sobrevém mais cedo ou mais tarde. Os ideólogos do capitalismo tentam vender um cosmético de “felicidade” total. Bastaria a “liberdade” individual e de consumo para suprir as carências da felicidade humana.
            Yuval nos traz dados biológicos. Segundo ele a felicidade seria, biologicamente falando, apenas uma liberação de serotonina, dopamina e oxitocina no nosso organismo, constituindo-se em uma fórmula simples que “está reagindo a vários hormônios que inundam a sua corrente sanguínea e à tempestade de sinais elétricos pipocando em diferentes partes do seu cérebro” (página 396). A felicidade humana, restrita a esta fórmula genérica, transforma os sapiens em meros seres animalescos, sem capacidade crítica e uma complexa racionalidade própria. A relação com o meio externo e, em especial, com a sociedade, passa a ser fundamental. Uma liberação de “serotonina” após compras no shopping, o sexo descartável ou a uma corrida na esteira podem dar uma sensação momentânea de felicidade. Mas ela seria uma “felicidade” induzida pelos mecanismos do sistema econômico, que impõem o consumismo (Coca-cola: abra a felicidade; Magazine e Luíza: vem ser feliz), os relacionamentos superficiais e certos padrões de beleza, que lançam centenas de milhares de pessoas para desperdiçar energia e força de trabalho nas academias.
            Certamente que uma ditadura tende a deixar os seres humanos mais infelizes (ainda que possa deixar uma parcela bastante grande de indivíduos felizes e até mesmo produzindo serotonina, dopamina e oxitocina). Mas isso se dá dessa forma porque as ligações sociais são destruídas e impedidas de se desenvolverem livremente. O indivíduo é anulado parcial ou totalmente e a sua livre ligação com outros indivíduos é sabotada.
            Sabemos que a exploração de classe, resultado de uma longa jornada de trabalho, somado aos problemas financeiros, destrói a possibilidade de uma vida familiar e social mais coesa e feliz para os trabalhadores. O ócio criativo e de lazer praticamente inexiste para eles. Apenas a burguesia desfruta do tempo disponível para a cultura, as artes, a família, as viagens, os jantares, etc. O mundo gira para garantir-lhe todo o conforto, em detrimento da maioria da população. A classe média almeja atingir a mesma posição, embora não saiba que dificilmente poderá ascender a tal posto. Fica à mercê da insegurança social e econômica. Pra piorar, com a finalidade de manter o seu poder, a burguesia e seus ideólogos lançam por vários meios – mas especialmente através da grande mídia – diversas campanhas, abertas ou disfarçadas, de disputas políticas e econômicas que dividem ainda mais a sociedade e lançam uns contra os outros; classe trabalhadora contra a classe média; e vice-versa. Logo, os ideais de “felicidade” não podem ser muito maiores do que abrir uma coca-cola ou tomar Rivotril.
A felicidade humana não pode se resumir apenas à “bioquímica”. Se assim fosse, bastaria que os psiquiatras liberassem remédios de tarja preta para toda a população e estaria tudo resolvido. Os remédios psiquiátricos e a sua subsequente “bioquímica” são um reles anestésico para um problema que não pode ser solucionado individualmente. A felicidade só é real quando compartilhada. Portanto, a sociedade e a interação com os outros tem um papel fundamental para a felicidade humana. Uma sociedade que se baseia na segregação social de classes e na exploração da maioria por uma minoria, não pode falar seriamente sobre felicidade. Esta também é um monopólio de quem pode comprar o que o consumismo exige, ter o sexo e a companhia de quem o dinheiro pode comprar; bem como os padrões de beleza impostos pelo mercado.
Uma nova sociedade socialista precisa não apenas ter uma nova forma de interação entre os indivíduos, possibilitando a sua realização profissional, artística, filosófica, científica, etc., mas trabalhar no sentido de os torná-los mais autônomos e úteis socialmente falando. Criar uma verdadeira corrente do bem que compartilhe trabalho, solidariedade, cooperação, relações mais cordiais e amor. Que o produto do trabalho da maioria seja também controlado e desfrutado pela maioria; e não apenas por uma minoria oportunista e privilegiada, seja ela uma burguesia ou uma burocracia parasitária. Numa palavra, que o crescimento econômico seja usado para desenvolver a consciência de toda a humanidade, num compartilhamento incessante entre si, elevando à civilização e à cultura aqueles que hoje estão penando na pré-história em pleno século 21.

7) Fim do socialismo?
            O livro de Yuval pretende fazer terra arrasada do socialismo. Utilizando-se de um grande arsenal científico e metodológico, o autor lança mão de inúmeros senso-comuns e invoca até mesmo o “gene egoísta”. Sua principal intenção é manter toda a intelectualidade “vacinada” contra o socialismo. Aproveita-se da tradicional confusão entre regime stalinista e “comunismo”. Toda a sua argumentação resume-se à tentativa de mostrar que o “socialismo morreu” e que “ninguém teria mais estômago para tentar lutar pelo comunismo novamente”. Tenta, como todo o ideólogo burguês, puxar a roda da história para trás.
            Não é casual que haja um niilismo subjacente em todas as principais conclusões em relação à humanidade. Como sabemos, o niilismo cai como uma luva para se defender o status quo. O seu “otimismo” é o reflexo da sua defesa velada do capitalismo: frio, calculista, sem vida; em suma: tem medo de suas próprias conclusões, mas não deixa de defendê-las.
            O socialismo não morreu; nem pode ter fim enquanto existir o proletariado. Será sempre uma possibilidade a espreitar a burguesia. Sabemos, pela experiência histórica, que a vitória do socialismo não é inevitável, mas isso não quer dizer que ele chegou ao fim ou que “ninguém mais tem estômago de lutar por ele”. A burguesia, a classe média e a alienação do proletariado o sabotam. A barbárie social pode se impor ao invés do socialismo, tal como previra corajosamente Rosa Luxemburgo. Cabe aos trabalhadores conscientes procurar cumprir o seu papel histórico, manter os princípios e a coerência (que valem ouro nesta época), ajudando o proletariado na sua organização e conscientização, sobretudo combatendo aqueles que por trás de uma máscara de civilização, modernidade e boa literatura, escondem as guerras, a opressão, a exploração e a miséria, tais como Donald Trump, Michel Temer, Jair Bolsonaro, Vladmir Putin, Xi Jinping e Yuval Harari.

8) Epílogo: um animal que tem uma classe dominante que se acha deus
            O livro conclui sua explanação abordando o tema da “vida biônica”, fazendo referência à uma “profecia de Frankenstein”. Com o avanço da medicina e da tecnologia, os seres humanos estariam se encaminhando para a construção de seres cibernéticos, metade humanos, metade máquinas, tal como a ficção científica já tinha antecipado com os cyborgs. Muitas provas de laboratórios dos EUA demonstrariam a base para os seres humanos futuros, com experiências exitosas de implantação de mãos, pernas e braços biônicos.
            Se a ciência e a tecnologia continuarem progredindo neste rumo, os seres do futuro seriam “algo verdadeiramente superiores a nós” (página 424). Segundo Yuval, provavelmente estes seres biônicos deverão ter interesses religiosos diferentes da religião cristã ou islâmica; e que sua organização social certamente não seria comunista ou socialista (página 425). Eis aí, novamente o ponto. Usando-se da artimanha do avanço tecnológico, Yuval pretende dissociar a necessária superação do capitalismo para uma forma superior de organização social, mais justa e progressista. Não é somente por serem cyborgs que os seres humanos (ou estes supostos seres cibernéticos) deveriam desejar outra crença religiosa ou outra organização social. Mudando suas condições materiais e de compreensão da natureza, devem mudar também suas reivindicações.
A humanidade teve diversas crenças ao longo da história. Um adorador do deus Rá no Egito antigo jamais sonharia que séculos depois haveria uma migração massiva para adorar Alá em Meca. Da mesma forma, um camponês medieval e o seu senhor, adoradores do deus único cristão, jamais aceitariam a diversidade religiosa dos tempos atuais em uma sala de aula da escola pública brasileira, que reúne católicos, evangélicos, ateus, espíritas e umbandas.
Na questão da organização social há uma confusão proposital. É certo que a organização socialista/comunista da sociedade futura não poderá ser uma repetição mecânica do que foi a URSS. A história nos deu uma severa lição. Todo o autêntico marxista a aprendeu. Qualquer organização social futura que quiser ser chamada de progressista, além das liberdades individuais básicas (ainda que não absolutas), deverá socializar a riqueza acumulada pelo capital, pelos bancos, pelas grandes empresas. Isto é: deverá democratizar a economia, seja lá como isso vai se dar e tenha o nome que tiver. Até mesmo alguns setores burgueses, pequeno-burgueses e a totalidade dos socialistas reformistas, que sonham com a “humanização do capitalismo”, reconhecem que é necessário “distribuir renda, taxar as grandes fortunas e criar uma democracia direta”. Os marxistas costumam chamar isso de “socialismo”, defendendo que enquanto houver ditadura de classe da burguesia sobre a imensa maioria, o único meio de se chegar até a democratização da economia é através de uma revolução socialista.
Yuval profetiza que a nova ordem maleável produzida pelo capitalismo “parece ser capaz de conter e até mesmo iniciar mudanças estruturais radicais sem ruir em conflitos violentos” (página 377). Esta contenção só pode ser a cooptação dos trabalhadores pela burguesia, através de diversas armadilhas. Os conflitos violentos serão inevitáveis enquanto a burguesia impuser as suas guerras de rapina pelo mundo e a sua exploração de fome. Não é casual que, como vimos, Yuval minimize as guerras imperialistas “terceirizadas”, que proporcionam lucros estratosféricos para a burguesia e centenas de milhares de mortos, bem como a sua violência, o seu ódio e xenofobia, achando apenas a “revolução” como algo violento. Aí está todo o seu caráter de ideólogo burguês, apesar de se vender (e ser vendido pela grande mídia e universidades) como “neutro”.
A burguesia, com o seu toque de Midas, transformará novamente a tecnologia dos cyborgs em privilégio de poucos: se este cenário idealizado por Yuval se concretizar, apenas a elite poderá regenerar-se de doenças, amputações e limitações com a biotecnologia; a grande massa da população continuará a viver na pré-história, penando em difíceis condições econômicas e sociais. Desse jeito, apesar do discurso da alta tecnologia, a roda corre pra trás. Voltamos ao princípio.
Enquanto o capitalismo for o modo de produção hegemônico, sem ser superado por uma sociedade socialista (que nada tem a ver com os regimes stalinistas), superior e regulada por trabalhadores conscientes e autônomos, a burguesia continuará sendo um deus no céu, a desfrutar de todas as maravilhas da ciência, da tecnologia e do trabalho da imensa maioria da população mundial; enquanto que os trabalhadores viverão iludidos num inferno criado e mantido pelos de cima, cujos ideólogos muito bem remunerados, como Yuval, ajudarão a fazê-los aceitar como normal.




NOTAS


[i] A campanha contra o socialismo nas correntes de internet. Disponível em: http://conscienciaproletaria.blogspot.com.br/2017/02/a-campanha-contra-o-socialismo-nas.html
[ii] Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels. Extraído de: https://www.marxists.org/portugues/marx/1848/ManifestoDoPartidoComunista/cap1.htm
[iii] Ver: http://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/agencias-de-classificacao-de-risco-falharam-na-crise-global-de-2008-11976989.
[iv] Ver: http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=3481&id_coluna=91
[v] Ver: http://exame.abril.com.br/revista-exame/a-industria-de-150-bilhoes-m0051720/

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A queda do muro de Hamburgo

I
            O mundo acompanhou os protestos da juventude e dos trabalhadores de Hamburgo contra a realização da reunião do G-20 (o grupo de governos das 20 principais economias do mundo). Mais de 100 mil pessoas participaram dos atos em repúdio à reunião, com palavras de ordem claramente anticapitalistas. A grande mídia, como era de se esperar, tratou a cobertura dos protestos com frieza, sendo praticamente forçada a fazê-lo. As suas palavras chaves foram “tumulto” e “confronto”. Embora tenha sido obrigada a reconhecer que o caráter da manifestação fosse anticapitalista, não noticiou que muitas delas falaram em “socialismo” e “comunismo”.
            Em quase todas as suas antigas reportagens ou artigos sobre o “socialismo real” no leste europeu e na antiga URSS apenas se destacava o que ela classifica como os “horrores do comunismo”: falta de liberdade de expressão, espiões, torturas, etc. Seguidamente mostrava imagens ou descrevia habitantes da Alemanha Oriental querendo pular o muro de Berlim para fugir do suposto “comunismo”. Nada de bom surgido daquele “regime” poderia ser passado para a opinião pública ocidental. Porém, houveram fatos notáveis e importantes na maioria dos países ditos “comunistas”, em especial, na Alemanha Oriental. Segundo Luiz Alberto Moniz Bandeira: “A República Democrática Alemã fora o estado do Leste Europeu onde a população alcançara o mais alto e melhor padrão de vida [dos países “comunistas”]. Embora possuísse terras menos cultiváveis do que a URSS, a RDA lograra resolver o problema da alimentação, tanto que inclusive exportava carne e manteiga e seu programa de construção de moradias se constituíra um êxito”[i].
            Como se pode ver, a Alemanha Oriental (RDA) conseguiu resolver problemas sociais básicos que o Brasil capitalista, em pleno século 21, ainda não conseguiu, tais como: fome, miséria, analfabetismo e moradia. Isto, contudo, não foi capaz de impedir os grandes meios de comunicação e o senso comum conservador de classe média de salientar repetida e exclusivamente o fato de muitas “pessoas comuns” pularem o muro para “fugir do comunismo”. Querem vender o inferno da barbárie capitalista como mais aceitável do que os graves problemas de burocratismo e autoritarismo dos primeiros “Estados Operários” da história, como se estes não fossem superáveis. A ideia de socialismo precisa ser condenada radicalmente!
O descontentamento popular em relação ao autoritarismo vigente na Alemanha Oriental – o que a grande mídia chama de “socialismo real” ou “regimes comunistas”, mas que na verdade deveríamos chamar de regime stalinista – e a ausência de uma política classista a seguir, somado à crise econômica da URSS e do leste europeu, levaram à queda do muro de Berlim, à restauração do capitalismo e à subsequente propaganda ideológica contra o “comunismo”, que dura até hoje. 

Manifestação em Hamburgo, 2017

II
Longe de querer esconder os graves problemas sociais do regime stalinista, tal como os ideólogos burgueses e a sua imprensa fazem com o capitalismo, o autêntico pensamento marxista desnuda a essência da conjuntura da época: no final da Segunda Guerra Mundial a Alemanha e toda a Europa estavam arruinadas. A partir da Conferência de Yalta Potsdam, realizada em 1945, os vencedores da guerra encontraram-se para decidir como administrar a Alemanha. Nenhum dos abutres estava disposto a ceder seu território aos adversários. O resultado foi a sua divisão em zonas de influência, com a construção posterior de um muro na capital, a partir de 1961. Stalin, interessado apenas na Alemanha como zona de influência e área fronteiriça de defesa militar, pensando exclusivamente na estabilidade interna do seu regime na URSS, aceitou a divisão do país. Desta forma, a doutrina oficial do stalinismo, que defendia a absurda “viabilidade” da construção do “socialismo em um só país”, agora incorporava empiricamente uma nova aberração teórica: a possibilidade de “construir o socialismo em meio país”. Todos os dogmas oficiais e práticas autoritárias da URSS foram transferidos mecânica e acriticamente para a Alemanha Oriental, que passou a perseguir opositores, a condenar o “trotskismo”, a elevar ao posto de dirigentes os fantoches acéfalos do stalinismo alemão ou qualquer arrivista útil. Também esconderam e abafaram problemas de ordem econômica, social e política para sustentar a falsa imagem de um regime inabalável.

O muro de Berlim
            Em compensação, a Alemanha Ocidental foi beneficiária da política econômica dos EUA, conhecida como Plano Marshall, que significou o investimento maciço de capitais norte-americanos para a reconstrução dos países europeus no pós-guerra, à exceção dos países ditos “comunistas”, do leste europeu à URSS, dentre os quais, estava a Alemanha Oriental. Os EUA foram o país vencedor da Segunda Guerra, que praticamente ficou intacto durante todo o conflito, e agora estava pronto para reconstruir o mundo à sua imagem e semelhança. Durante esse período, algo em torno de US$ 13 bilhões foram “investidos” em assistência técnica e econômica (equivalente a cerca de US$ 143 bilhões em 2017) na Europa Ocidental, com baixos juros, para ajudar na recuperação dos países europeus; enquanto que o leste europeu, a URSS e a Alemanha Oriental (a despeito de toda a política catastrófica da camarilha stalinista no poder) tiveram que tirar leite de pedra para reconstruir suas economias, sofrendo, ainda por cima, o boicote internacional no mercado mundial.

III
            A queda do muro de Berlim, em 1989, foi celebrada pelos países imperialistas e passada para o inconsciente do senso comum como o “fim do socialismo”. As universidades publicaram inúmeros livros a respeito, formaram intelectuais e teorias com esta tese central, enquanto que a grande mídia divulgou este pensamento à exaustão de diferentes formas; sempre misturando propositalmente “socialismo” ou “regime comunista” com stalinismo. Uma parte da “esquerda” (como o PT; embora não seja o único) incorporou a ideologia do “fim do socialismo” e a levou ao movimento dos trabalhadores. Anos de terrorismo psicológico associou o imaginário do senso comum sobre “comunismo” ao que é, na verdade, um regime stalinista. Dentro desta lógica, qualquer outra tentativa de se construir o comunismo teria mecanicamente o mesmo resultado.
As zonas de influência na Alemanha pós Segunda Guerra
            Contudo, passados quase 30 anos da queda do muro de Berlim, vemos as ruas de Hamburgo protestar contra o capitalismo. Estes protestos partiram justamente de uma cidade que fez parte da Alemanha Ocidental (capitalista). Naturalmente, não poderíamos esperar da grande mídia uma cobertura que demonstrasse os trabalhadores e a juventude da Alemanha atual querendo pular o muro de volta ao “comunismo”.
Certamente os trabalhadores conscientes alemães não defendem um regime político tal como foi o stalinismo. O papel da grande mídia neste processo é, portanto, obscurecer as bandeiras da mobilização dos trabalhadores e da juventude de Hamburgo para não arranhar o discurso oficial de que o “socialismo morreu para sempre”. A juventude que organizou os atos falou claramente contra o capitalismo, repudiando a reunião do G-20 e, principalmente, Donald Trump (que é a encarnação da barbárie capitalista). Embora ainda seja um movimento regionalizado, na atual conjuntura reacionária em que vivemos, isto não é pouca coisa. Soma-se a isso o fato de a Alemanha estatizar universidades, enquanto que nos EUA temos a crise dos financiamentos universitários e no Brasil a ameaça de privatização das universidades públicas.

IV
Os trabalhadores com consciência de classe sabem que não podemos deixar a roda da história voltar para trás. Não queremos  o regime stalinista restaurado; mas tampouco queremos a manutenção do capitalismo, que a despeito de avanços tecnológicos concentrados e monopolizados, caminha no mundo todo para a barbárie.
            Estes defensores da “civilização da barbárie” (dentre os quais o que mais se destaca é Donald Trump) ressaltam através da grande mídia os muros construídos pelo suposto “comunismo”, as “fugas de Cuba”, a “ditadura da Coréia do Norte” (como se aquilo fosse “comunismo”), mas relativizam ou escondem os muros construídos pelo capitalismo contra o povo: muro de Israel contra a Palestina, dos EUA contra o México, da Europa contra os imigrantes do Oriente Médio; em suma: das ilhas de riqueza contra os oceanos de pobreza. O capitalismo concentra riqueza e cria um “mundo de oportunidades” nos grandes centros urbanos dos principais países imperialistas, mas impede através da imigração, dos passaportes, da xenofobia fascista, das guerras, da miséria, a migração e a interação dos povos. Faz tudo isso hoje criticando o suposto “comunismo” e disfarçando-se de “democracia”. Recria a “cidade proibida” da China imperial: somente os aristocratas podem habitá-la; para os miseráveis ela é inatingível.
Por mais importante e aparentemente inabalável que seja, o capitalismo é um sistema econômico transitório na história, tal como foram os outros. O futuro pertence ao socialismo e ao comunismo, mesmo que estes também sejam regimes sociais transitórios. Precisamos tirar as lições das primeiras experiências “comunistas”, compreender e superar seus erros e, sobretudo, livrar a consciência dos trabalhadores desta erva daninha disseminada pela grande mídia e pela intelectualidade burguesa que quer fazer terra arrasada da sociedade e sustentar a aceitação da barbárie capitalista na consciência dos trabalhadores.
Os ventos soprados em Hamburgo ainda são tímidos, mas nos mostram um caminho. Os trabalhadores e a juventude da Alemanha estão acertando contas com o passado... e com o presente!

Manifestação em Hamburgo, 2017




[i] BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. De Martí a Fidel, a Revolução Cubana e a América Latina. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1998.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Jesus Cristo voltou, aleluia!

"Quanto ao dia e à hora da segunda vinda ninguém sabe,
nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão somente o Pai"
(Mateus 24:36).


         Diz a tradição inspirada nas sagradas escrituras que deus envia de tempos em tempos um messias para redimir a humanidade dos seus pecados. Segundo a crença ocidental, já se passaram mais de dois mil anos e quase duas décadas desde que ele enviou o último. Era tempo de redimir esta nova gama de pecados cometidos pela humanidade ao longo deste último período. O lugar escolhido, tal como a dois mil anos atrás, foi uma província miserável de um território dominado por um império: Porto Alegre.
Algum infiel incrédulo pode perguntar: mas porque deus escolheu logo Porto Alegre? Ora, porque deus tem seus acessos de vontade, como as sagradas escrituras nos demonstram; e estas, como sabemos, se bastam a si mesmas. De mais a mais, havia uma música de uma banda gaúcha que dizia que Jesus Cristo iria voltar e que em Porto Alegre ele iria morar. Muitas crianças, com seus corações puros, cantaram aquela canção, e esta foi sentida por deus como uma forma de oração. Assim, acabou por escolher Porto Alegre e viu que isso era bom.
Zaz! Um clarão desceu do céu. Lá estava Jesus, com sua túnica branca envolta por um pano vermelho, vestindo as suas surradas sandálias, exalando bondade e pureza através de uma aura brilhante dourada, parado, de pé, na pracinha do Julinho, em plena Av. João Pessoa, às 14h de uma movimentada quarta feira. Muitos passageiros de ônibus nas paradas ou simples transeuntes olharam com grande curiosidade aquela estranha figura, vestida daquele jeito, caminhando lentamente em direção à Redenção. Uns cochichos e pequenas risadinhas puderam ser ouvidos vindos de longe. “Mais de dois mil anos se passaram e eles ainda não aprenderam”, pensou Jesus consigo mesmo. Chegou próximo de uma das paradas da Av. João Pessoa e disse: “Não julgais para não ser julgado”. E então, uma explosão de gargalhadas começou a ressoar por todos os lados. “Perdoa-os pai”, disse Jesus, olhando pra cima, “eles ainda não sabem o que fazem”. Retomou a sua marcha em direção à Redenção.
***
         Chegando nos bosques da grande praça, Jesus se deparou com dois mendigos brigando por um resto de marmita e pão, que haviam encontrado em um banco ao léu. Os impropérios vindos de ambos os lados eram dolorosos. “Eu vou te matar”, um dizia. “Eu vou quebrar toda a tua cara”, respondia o outro.
         “Calma e paciência”, disse Jesus levantando uma mão e levando a outra ao coração, “Vamos resolver esta contenda com a paz interior”. Imediatamente os dois mendigos se largaram e olharam aquela curiosa figura que caminhava em sua direção. Os olhos de um deles se arregalaram. Ele disse: “Mas, mas é Jesus!”. O outro não se conteve e caiu na gargalhada: “Tu só pode tá louco da cola!”.
“Não, é Jesus mesmo”, disse o primeiro, esfregando os olhos. “Isso mesmo, vós estais certo, sou eu, Jesus”. Uma aura dourada subiu por trás da cabeça de Cristo, que chegou a alumiar o interior do bosque da esquina da Av. João Pessoa com a José Bonifácio. “Ó senhor, me perdoe”, disse o primeiro, se atirando aos pés do redentor.
“Todo aquele que reconhecer os seus pecados e se arrepender sinceramente por eles será perdoado”, falou Jesus colocando a sua mão esquerda sobre a cabeça do mendigo. Este se pôs a chorar, baixinho.
O outro, incrédulo, ficava olhando, distante. “Estou sentindo falta de fé por aqui”, disse Jesus, admirado com a incredulidade de um deles. “Me alcance aquele pedaço de pão”, pediu ao mendigo ajoelhado. Rapidamente ele atendeu ao mestre. Jesus tomou aquele pedaço duro e velho de pão e o ergueu aos céus, olhando fixamente para uma grande nuvem que pairava sobre a praça. “In nomine patris, et filii, et spiritus sancti. Amen”, murmurou Cristo. De repente surgiu em suas mãos mais 10 pães, completamente novos e apetitosos, como se tivessem recém saído do forno. “Deus seja louvado”, gritou o primeiro mendigo, se ajoelhando novamente de fronte ao mestre. Pegou rapidamente um pedaço de pão e começou a comer, faminto.
“Dai de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede”, pronunciou solenemente Jesus, olhando para os dois mendigos. O incrédulo remexeu em um saco preto próximo ao banco e puxou de lá uma faca de cozinha. Ameaçou Jesus e o mendigo ajoelhado: “Parado os dois, senão furo vocês! Passem pra cá os pães”. Tomou de assalto o que queria, os colocou em um saco maior e saiu correndo em direção à Av. Oswaldo Aranha. “Perdoa-o pai, ele não sabe o que faz”, lamentou-se Jesus, olhando para os céus.
***
         Um pouco cansado e abatido, Jesus deitou-se em um dos bancos da Redenção para dormir, sempre acompanhado do mendigo, seu novo discípulo, que dormiu no chão, ao lado do mestre.
Foram acordados na manhã seguinte por uma ambulância, que passou fazendo um escândalo com sua sirene, em direção ao Hospital de Pronto Socorro (HPS). Jesus acordou dando um salto do banco e caindo ao lado do mendigo. Na Palestina de 20 anos após o seu nascimento nunca tinha visto nada semelhante.
“Alguém deve estar morrendo”, sussurrou o mendigo. Jesus se pôs de pé e disse: “Precisamos ajuda-lo. Para onde estão indo?”. O mendigo se levantou e disse a Jesus que estavam indo ao Hospital de Pronto Socorro. Foram caminhando a passos largos para lá.
Chegando ao saguão do hospital, se depararam com centenas de doentes pelas cadeiras, pelo corredor, esperando atendimento ou mães e pais tentando amenizar o choro de suas crianças. Era quase uma visão do inferno. Tudo desorganizado. Uma verdadeira baderna! Jesus entrou no saguão, mas o mendigo foi impedido de entrar por um segurança.
“Deixa-o passar, é meu discípulo. Ele está arrependido de seus pecados e por isso merece o reino dos céus”, ordenou Jesus ao segurança. Este se pôs de pé, dizendo: “Aqui não é lugar pra vagabundo! E quem tu pensa que é vestido desse jeito? Jesus?”. “Sim”, respondeu Cristo, exalando sua luz dourada. O segurança recuou, assustado. Jesus se aproximou de um jovem que tinha a perna quebrada e gemia muito. “Quando vão atender meu filho?”, perguntava a mãe, consolando seu filho e tentando amenizar sua dor. Colocando a mão sobre a perna quebrada, Jesus falou em tom solene e ríspido: “Levanta-te e anda!”. O jovem largou a mão da mãe e se levantou de um só pulo. Todos que estavam em volta se espantaram. Uma senhora se colocou a fazer sinais da cruz pensando se tratar de algum tipo de bruxaria.
“Ouçam a palavra de deus, todos vocês”, gritou Jesus para os presentes, “olhem como estão tratando seus iguais”, apontou para o mendigo, que olhava tudo da rua, “por que ele não pode entrar aqui? Aqui não é a casa de deus também? Onde os leprosos e doentes são tratados? Por que há tantos doentes sem atendimento? Por que esta criança chora mesmo estando no seio de sua mãe?”. O segurança sentiu como se aquilo fosse o princípio de um motim. Suas ordens estritas eram pra manter a tranquilidade do ambiente. Chamou reforços pelo rádio.
Alguns presentes filmavam o que dizia aquela estranha e divina figura com seus celulares e outros apenas olhavam, estarrecidos. “Eu voltei para redimi-los dos seus pecados”, continuava Jesus já de cima de um banco, “conheça a verdade e a verdade vos libertará!”. Nesse instante reforços da segurança do hospital e da Brigada Militar adentraram o recinto. Pegaram Jesus pelos braços e colocaram-no na parede: “Este é o elemento?” gritou o capitão. “Sim”, respondeu prontamente o primeiro segurança. “Aquele é o seu cúmplice”, apontou para o mendigo na rua, que se pôs a correr, sendo facilmente detido logo na esquina com a Oswaldo Aranha. O jovem que teve a perna curada se colocou na defesa de Jesus: “Como são capazes de fazer isso com Jesus Cristo, nosso senhor?”. O policial logo deu uma chave de braço no rapaz e o colocou na viatura, junto com Cristo e o mendigo. Foram levados para o Palácio da Polícia. Lá foram fichados, interrogados e por total ausência de provas, liberados. Alguns curiosos, ao saberem da notícia e ao verem os vídeos circulando nas redes sociais, foram até o Palácio para ver como estavam tratando o “suposto” Jesus. Saíram pela porta dos fundos, mas foram recebidos por estes olhares curiosos.
Jesus e seu séquito, que já havia crescido para um grupo de cerca de 15 pessoas, voltaram caminhando para a Redenção. Sentaram-se no meio dos seus escuros bosques, fizeram uma fogueira, e Jesus começou a lhes falar, novamente, sobre o Reino dos Céus. Um deles, seguidor de uma igreja evangélica, relatou como era a sua crença e o que lhe professavam os seus pastores. Disse que certa vez viu um pastor do templo perto da rodoviária curar uma mulher possuída pelo demônio. Jesus achou muito estranho. Ficou reflexivo. “Quero ir conhecê-la”, disse Cristo. O evangélico concordou em leva-lo a aquele templo na manhã seguinte.
***
         Ao perceber o esbanjamento da construção, com seus vitrais e ornamentos, Jesus ficou impressionado. Em nada se assemelhavam aos templos de Jerusalém. O evangélico corou um pouco. Mesmo assim, entrou no culto acompanhando Jesus, que olhava tudo com grande curiosidade e serenidade.
         O pastor, em cima do palco, reparou a entrada de elementos estranhos: “Alto lá, quem são vocês?”. Cristo ergueu uma mão aos céus e a outra ao coração, pronunciando: “Eu sou o caminho da verdade e da vida”. O pastor ficou um pouco desconfiado. Não sabia se tudo aquilo fazia parte do culto. Ninguém tinha lhe avisado nada. Parte dos crentes fez um sonoro “oh!”. Percebendo a sedução dos presentes, o pastor logo disse: “É você senhor?”. “Sim, sou eu, Jesus de Nazaré; estou de volta para acertar contas com aqueles que ainda não entenderam meus ensinamentos, para redimi-los dos seus pecados”.
“Mas será mesmo ele?”, ouviam-se algumas vozes incrédulas do meio do plenário. “Senhor, como podemos ter certeza de que é mesmo o nosso messias reencarnado?”, aproveitou-se o pastor. “Todo aquele que for puro de coração, logo me perceberá, sem necessidade de provas”, ia dizendo Jesus, quando rapidamente adentrou no palco dois assistentes do pastor carregando uma grande bacia cheia de água.
         “Eis aqui o desafio para tirarmos a dúvida:”, bradou o pastor com o dedo em riste, “se este homem for mesmo o nosso messias ele caminhará sobre esta água”. O pastor apontava ensandecidamente para a bacia e agitava o plenário. Descalçando as sandálias, Jesus reparou que o mendigo e o jovem do HPS estavam entre a multidão, esperando algum milagre. Puxou a barra da saia da túnica para cima e pisou suavemente sobre a água, que espalhou leves círculos concêntricos por onde o Senhor pisava, sem afundar ou mesmo abalar o espelho d’água. O pastor e toda a plateia fizeram um “oh” duplo!
O pastor, falando com a escuta, sussurrou: “Daonde saiu este filho da mãe? Ele tá caminhando de verdade sobre a água!”. O produtor que estava na escuta, respondeu: “Não tenho a menor ideia; mas tu já sabe o que fazer, certo?”.
“Aleluia, irmãos, Jesus Cristo voltou”, disse o pastor voltando-se para a multidão. Muitas mãos com seus celulares tiravam fotos e gravavam vídeos. Uma senhora começou a chorar convulsivamente dizendo: “Ele voltou! Ele voltou! Aleluia”. O pastor então domou aquele frenesi: “Depositem agora mesmo o seu dízimo online na maquininha à sua frente; não deixe Jesus afundar com sua falta de crença, contribua agora mesmo...”. Luzes começaram a brilhar ao fundo do palco.
E Jesus, vendo o espetáculo, começou a se desequilibrar, como se fosse afundar. Então parou, ainda flutuando sobre as águas, e respirou fundo. Reequilibrou-se. Sentindo todo o ranço presente naquela atmosfera, Jesus começa o seu sermão: “Parem de transformar a casa de meu Pai em um mercado!”. Todos ficaram atônitos e um súbito silêncio se fez. Ele prosseguiu: “Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai uma casa de negócio. A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a fazeis covil de salteadores”.
O pastor então pulou sobre Jesus, para fazê-lo afundar, mas acabou virando a bacia e levando o Senhor ao chão. “Este homem é um impostor, homem de pouca fé, fora já do nosso templo”. O público ficou confuso. “Só pode ser o capeta nos tentando!”, gritava o pastor. Imediatamente uma grande vaia estourou por todos os lados do templo, ressoando para a grande porta de entrada, que dava para as paradas de ônibus da Av. Júlio de Castilhos. Alguns olhares curiosos se colocaram a observar. “Fora daqui, pecador imundo!”, berrava o pastor, gesticulando com as mãos e tendo os olhos faiscantes, “o verdadeiro Jesus disse na Bíblia para tomarmos cuidado porque muitos iriam aparecer fingindo ser o messias”. O pastor chegou a descer alguns degraus do seu púlpito para apontar a porta da rua: “Este homem é a reencarnação do demônio que veio aqui tentar a nossa fé; fora já daqui Lúcifer, você não nos enganará...”. E muitas senhoras e jovens começaram a fazer o sinal da cruz descompassadamente. Outros presentes ficaram confusos, batendo cabeça.
Abaixo de uma grande vaia, Jesus e seus seguidores saíram do templo em direção ao centro. Olhares curiosos continuavam a espreitá-los por todos os lados. Mesmo com todo este incidente, muitos fiéis colocaram o vídeo na internet. Inevitavelmente tornou-se um dos trending topics de muitas redes sociais. A mídia foi obrigada a ter que falar sobre o assunto. ZH dominical dizia: “Quem é este homem? De onde ele vem? Qual a sua mensagem?”; o Correio do Povo colocou como uma submanchete: “O que quer nos dizer um homem que se veste como Jesus e está assustando os moradores do centro histórico?”. Convites de entrevistas em programas de TV foram enviados. Instigado por tal fenômeno, alguns repórteres começaram a procurar o suposto messias. Como ouviram os boatos de que ele morava por entre os bosques da Redenção, começou a ter uma grande incursão de jornalistas por entre as árvores da grande praça, tentando algum furo de reportagem.
***
Não era difícil encontra-lo. Desde que ouvira um homem tocando saxofone no pequeno templo de Buda, perto dos bambus, atrás do Araújo Vianna, Jesus passou a viver ali. Gostou da tranquilidade, do silêncio das tardes nubladas e frias, das pontes em estilo japonês. Aos domingos as crianças corriam soltas pelos seus gramados. Sentiu uma grande paz de espírito ali. De dentro da casinha, que possuía uma disforme estátua de um “Buda” gordo, Jesus orava, pregava ao seu séquito, que agora já tinha aumentado ainda mais. Alguns seguidores, mais ortodoxos, passaram a dormir com barracas ao lado do pequeno templo de Buda e aquele deslocamento de miseráveis atrás do Senhor já começava a despertar preocupação nas autoridades.
Certa vez um repórter pegou Jesus pregando aos seus seguidores em um domingo ensolarado. Ele dizia: “Todos nós buscamos a iluminação, seja na minha religião, seja na religião de Buda. Todos pregamos o amor, a compaixão, a vida desapegada de valores materiais, fúteis. Para atingir a pureza de coração ou a iluminação, no Nirvana, todos nós devemos cultuar a paz interior. Olhem para o universo! Lá devemos desvendar as leis de deus juntos, com condições dignas para todos os seres humanos...”. As imagens fizeram sucesso. Viralizaram nas redes sociais e as grandes emissoras do país retransmitiram-nas em alguns programas de esoterismo.
O Arcebispo de Porto Alegre, percebendo que a Igreja Católica estava ficando em desvantagem em relação a tudo isso, fez um convite solene para Jesus visitar a sua própria casa: a Catedral Metropolitana de Porto Alegre, filial da Santa Sé de Roma. A mídia noticiou o fato. Foi montado um grande evento para recepcionar Cristo. Uma multidão se espremeu na Praça da Matriz para ver a chegada do Senhor. Católicos VIPS ganharam senhas para ocupar assentos nos bancos do interior. Padres, freiras, figuras públicas e notáveis políticos gaúchos e nacionais ombreavam o governador do Estado, que também cancelou sua agenda para estar presente na solenidade.
Sem nenhum tipo de glamour, Jesus chegou com o seu séquito de mendigos, jovens, esfarrapados e prostitutas, sob o olhar atento dos presentes. Flashes explodiam por todos os lados, as câmeras estavam posicionadas, celulares, gravadores, tudo registrando um momento histórico. Jesus subiu as escadas, seguido pelos seus discípulos (que foram detidos nos portais de entrada), e caminhou, por entre os bancos da catedral, até o seu altar. Os olhares estavam firmes; nem piscavam. Não queriam perder nenhum momento daquele grande acontecimento.
O Arcebispo de Porto Alegre sorriu e disse: “Bem vindo de volta à sua casa, Senhor”. Após, ajoelhou-se aos pés do redentor. “Pare com esses protocolos. Ponha-te de pé homem”, falou Jesus, rispidamente. Lançou um rápido olhar sobre a mesa, com suas taças, candelabros, hóstias. Voltou seu olhar para as páginas da Bíblia, aberta logo ao lado. Ia começar a falar: “Ora, há algo errado ali. Eu não disse isso...”, quando o Arcebispo celebrou: “Viva a volta de nosso Salvador”. E os presentes gritaram: “Hosana nas alturas, glória vós Senhor”.
Jesus deu um passo atrás. “Então”, disse ele, “o que a Igreja que diz falar em meu nome tem feito pelos pobres?”. O Arcebispo mais que depressa tomou a palavra: “O nosso Papa tem defendido a causa do povo, meu Senhor. Falado em retomar os valores de São Francisco de Assis e de voto de pobreza, como o senhor mesmo falou nas sagradas escrituras. Nós fazemos campanhas do agasalho, de arrecadação de alimentos...”. Jesus sentiu uma atmosfera de hipocrisia no ar.
“Cristo, temos o louvado por anos”, disse uma senhora de traços severos e trajando um belo terno feminino cor de carmim; “Eu venho a missa todos os domingos”, exaltou-se outra, sentada mais ao lado. Um burburinho começou a vir do fundo. O Arcebispo falou mais próximo do microfone: “Que bons ventos o trazem de volta, Jesus, nossos Senhor?”.
“Venho relembrar minha mensagem, que parece ter sido esquecida”, falou Jesus, também se aproximando do microfone. “Ó Senhor, estamos sedentos por ouvi-la”, disse o Arcebispo.
“Como é feliz aquele a quem o Senhor não atribui culpa, e em quem não há hipocrisia! Enquanto eu mantinha escondido os meus pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer.”, iniciou Jesus. Um súbito silêncio se fez. Ele parou de falar no microfone, porque sua voz podia ser ouvida da rua. “Os mestres da lei e os fariseus se assentam na cadeira de Moisés. Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam. Eles atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos não estão dispostos a levantar um só dedo para movê-los. Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens. Gostam do lugar de honra nos banquetes e dos assentos mais importantes nas Igrejas; de serem saudados nas praças e de serem chamados cidadãos de bem. Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês fecham o Reino dos céus diante dos homens! Vocês mesmos não entram, nem deixam entrar aqueles que gostariam de fazê-lo. Vocês devoram as casas das viúvas e, para disfarçar, fazem longas orações. Por isso serão castigados mais severamente”.
Aquilo parecia tão direto, verdadeiro e ríspido. Um mal estar geral se instalou no ar. De repente, um homem se levantou do meio dos bancos da Catedral e disse: “Como saberemos que este homem não é um impostor se passando por Cristo?”. Um novo burburinho e cochichos explodiram por todos os lados. O Arcebispo pediu calma no microfone. “É verdade! Queremos um milagre!”, gritou outro homem de um dos extremos da grande igreja; “É isso mesmo! Queremos um milagre”, gritou uma mulher um pouco mais a frente. E a massa dos presentes começou a gritar em uníssono: “milagre, milagre, milagre...”. Jesus tomou a palavra novamente pelo microfone e disse: “Tragam-me um jarro d’água”. Todos pararam instantaneamente. Um coroinha subiu no altar levando um jarro grande cheio de água. “Beba um gole”, ordenou Jesus ao Arcebispo. Ele virou o jarro em um cálice e tomou: “É água”, confirmou.
Jesus ergueu as mangas de sua túnica e colocou uma mão no interior do jarro, fazendo escorrer um pouco de água pelas laterais, e pronunciou: “In nomine patris, et filii, et spiritus sancti. Amen”. De repente borbulhas vermelhas começaram a submergir na superfície, tal como se Cristo tivesse cortado a própria mão e o sangue jorrando colorisse o recipiente. O Arcebispo tonteou para um lado; quase caiu. “Aqui está seu milagre, Fariseu!”, disse Jesus enxugando a mão na toalha da mesa. O Arcebispo serviu um cálice e tomou: “É vinho!”, ele gritou. Alguns curiosos se levantaram para ver de perto. O Arcebispo passou o cálice para o primeiro ao seu lado: “É realmente vinho!”, ele confirmou.
“Aleluia”, gritou o político que estava sentado na primeira fila. Muitos começaram a gritar também: “Aleluia! O senhor voltou!”.
“Por que gritam em meu nome vocês que estão cegos?”, indagou Jesus no microfone, “Se alguém jurar pelo santuário, isto nada significa; mas se alguém jurar pelo ouro do santuário, está obrigado por seu juramento. Cegos insensatos! O que é mais importante: o ouro ou o santuário que santifica o ouro?”. O Arcebispo interrompeu: “Mas Senhor, temos cultivado sua palavra por séculos”.
“Por isso mesmo”, continuou Jesus, “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês limpam o exterior do copo e do prato, mas por dentro estão cheios de ganância e cobiça. Vocês são como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas cheios de ossos e de todo tipo de imundície por dentro. Assim são vocês: por fora parecem justos ao povo, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e maldade”.
“Por que é tão duro conosco, Senhor?”, disse uma senhora em prantos, próximo das primeiras filas, “Nós comemoramos a sua ressurreição todos os anos, merecemos o seu reconhecimento”.
Irado e de dedo em riste, Jesus falou: “Uma mentira de fariseus, de hipócritas! Vocês edificam os túmulos dos profetas e adornam os monumentos dos justos. E dizem que se tivessem vivido no tempo dos nossos antepassados, não teriam tomado parte com eles no derramamento de sangue dos profetas. Assim, vocês testemunham contra si mesmos, que são descendentes dos que assassinaram os profetas. Acabem de encher a medida do pecado dos seus antepassados! Se purificam rezando pelos pecados do passado para continuarem cometendo assassinatos de profetas no presente”. Uma senhora se atirou no chão chorando. Os políticos consternaram-se. Não havia clima sequer para tirar uma foto, pois qualquer tipo de sorriso seria forçado e mentiroso. O Arcebispo, sentindo o drama da situação, propôs: “Vamos cantar uma canção sacra para encerrar esta linda cerimônia de reaproximação”.
 “Eu não ordenei o seu encerramento”, gritou Jesus, “Por que todas as casas que vocês falam ser minhas estão tomadas por homens de negócio, por vendilhões do templo? Por que a Igreja concentra ouro em suas esculturas e altares? É assim que quereis cultuar minha memória? Por que possui terras, imóveis, universidades, rádios e televisões, enquanto tantas pessoas passam fome? Por que os meus seguidores autênticos deixastes do lado de fora, nas escadarias deste templo?”. O Arcebispo, meio constrangido, aproximou o microfone da caixa de som, o que fez ecoar uma horripilante microfonia por toda a catedral, atormentando os presentes: “Er, meu senhor... a Santa Sé possui tudo isso pra melhor propagar a sua palavra. Talvez possamos entrar em contato com o Papa no Vatic...”.
Jesus virou os castiçais e taças de metal no chão. O barulho assustou os presentes, que exclamaram interjeições de horror.
“Basta!”, gritou Jesus, “Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai uma casa de aparências. Falo pela última vez: é mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha do que um rico entrar no reino dos céus”. Vozes horrorizadas e de protesto começaram a ecoar no fundo da catedral. “Vais me dizer também que a Santa Inquisição foi para melhor propagar a minha palavra?”, insistia Jesus, descompassadamente e já descabelado.
O governador, vendo os apuros do Arcebispo, tentou intermediar: “Mas Senhor, diga-nos agora, o que queres que façamos por sua santidade?”. Jesus virou-se para o governador, e controlando a sua indignação, disse: “Quem tem muitas roupas, dê roupa ao que não tem. Quem tem bastante alimento, faça o mesmo. Não cobrem nada além daquilo que foi determinado. Não usem da violência e não caluniem ninguém”.
“Mas vejam só”, disse um cidadão que estava sentado na primeira fila, “este homem só pode ser um comunista infiltrado”. De repente um burburinho submergiu do fundo: “Vai pra Cuba, seu comunista, comedor de criancinha!”. Garrafas e pequenos crucifixos de madeira começaram a ser jogado para cima do altar. O Arcebispo levantou a batina para se proteger.
“Por que o Vaticano tem um banco só seu?”, continuou Jesus, indignado, “O que está havendo com vocês? Não entenderam nada?”. A população explodiu em xingamentos de ódio incontido. “Saia daqui seu comunista!”, gritavam uns, “Onde você já viu isso dar certo?”, berravam outros. “Nós defendemos os valores da família, seu pervertido”, gritou um grupo de senhores e senhoras, sentados mais à direita, na primeira fileira.
Jesus insistiu, gritando: “Seria perfeitamente viável que todos vivessem de forma digna se dividís...” uma taça de metal acertou-lhe a cabeça, fazendo escapar um filete de sangue em sua testa. Se defendendo dos xingamentos e dos objetos voadores, Jesus procurava o caminho da saída. Começou a ser chutado, cuspido, socado, de um lado e de outro. Com muita dificuldade encontrou seus discípulos, na rua, que passaram a defendê-lo em forma de escudo humano. Desceram correndo a rua da ladeira.
Quando a calmaria se fez, o Arcebispo rezou, então, uma nova missa em nome da ressurreição de Cristo e todos os fiéis fizeram o sinal da cruz. Com sua voz calma e tranquila, novamente acalmou aquele povo. Ao saírem da catedral, colocaram uma pedra em cima do assunto. As mulheres retornaram à cozinha e às necessidades básicas dos filhos; os maridos dividiram-se entre alguns bares da Cidade Baixa ou da Goethe. Outros adentraram o prostíbulo da R. Olavo Bilac. As velhas reclamações e pequenas intrigas entre uns e outros voltaram à tona, exigindo novas orações e pedidos piedosos.
***
Jesus prostrou-se frente aos seus discípulos, sentando no cercado do templo de Buda, na Redenção. “Perdoem-nos. Eles não sabem o que fazem”, disse ao mendigo. “Estão cada vez piores, mestre”, ele respondeu a Jesus, “eles nos humilham todos os dias e nas raras vezes que nos dão esmolas dizem que temos que deixar as ruas e ir trabalhar, como se houvesse emprego para todos”. “Não vamos perder a fé”, disse Jesus, que olhava para a paz do laguinho da praça oriental. “Olhai os lírios do campo”, ele prosseguiu, “procure a alegria no olhar de uma criança. Por que nós iremos perder a fé por causa destes incidentes tão pequenos?”. Juntos rezaram de mãos dadas uma oração bem diferente das que conhecemos.
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A volta inesperada de Cristo gerou uma silenciosa revolução espiritual em muitos setores da sociedade. Grandes nomes da política nacional, banqueiros, empresários, apoiados por pastores de igrejas evangélicas e por bispos e arcebispos da Igreja Católica, estavam extremamente preocupados. Entraram em contato uns com os outros. Criaram organizações mútuas. Diziam: “Este impostor está trazendo graves prejuízos para a fé do povo brasileiro”; “precisamos dar um basta nisso”. Apesar da sociedade oficial ter jogado Jesus para o gueto, deixando-o restrito à mata da Redenção, seus milagres e ensinamentos tinham se proliferado pelas redes sociais ou mesmo pelo boca a boca. Então, a grande mídia sensacionalista começou uma campanha de perseguição a “aquele ser demoníaco, de outro mundo, paranormal, que só poderia ser o prenúncio de algo muito pior”.
Uma campanha publicitária foi desencadeada 24h na televisão, com anúncios patrocinados. Jesus estava alheio a ela. O Globo Repórter e o Repórter Record fizeram programas especiais sobre o assunto: mostraram imagens diabólicas, com cenas editadas de feições brabas e distorcidas de Jesus em seus protestos contra os ricos, feitas por cinegrafistas amadores. Foram contatadas “vítimas” de sua ação demoníaca: “Ele baixou o satanás no meu corpo”, disse um deles, com voz distorcida e imagem desfigurada no rosto. “Ele disse que eu não precisava ter vergonha das minhas vergonhas”, dizia outra mulher, com as mesmas desconfigurações para preservar o anonimato. “É preciso dar um basta antes que seja tarde”, afirmavam vários tabloides do Rio Grande do Sul e do Brasil. “Este bandido tem que ir pra cadeia”, diziam os jornalistas do Balanço Urgente e do Geral do Brasil.
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         A noite estava estrelada e calma. Sentado nos degraus de entrada do templo de Buda, Jesus dividia o pão e o vinho com seus discípulos. “Este é o meu corpo, que agora vos dou. Vamos celebrar o amor, carnal e espiritual, de forma pura e alegre”, falava Jesus enquanto passava um pedaço de pão ao jovem, que estava sentado ao seu lado. De repente ouviram uma agitação vinda do chafariz central. De lá vinha uma multidão, com tochas e pedaços de pau em direção ao local em que Cristo se encontrava com seus discípulos.
         “Lá estão eles”, disse o bispo a um exército de pastores. “Prendam este impostor”, falou um político, que estavam acompanhando a multidão, seguido por policiais, que imediatamente agarraram Jesus e o levaram dali, sob o olhar atônito dos seus discípulos. Muitos embrenharam-se nos bosques da Av. Oswaldo Aranha com a Av. Setembrina. Negaram Cristo pra poderem sobreviver à ira daqueles que ali estavam, a bradar um ódio incontido.
         Após colocarem algemas em seus pulsos, Jesus foi levado para o presídio central, sem interrogatório, sem passagem pelo Palácio da Polícia, sem direito à habeas corpus. Naquela noite foi torturado, despido, lançado no meio de outros presos. Ali ficou sendo ridicularizado, mas com o passar de algumas horas e o brilho de sua aura, acabou ganhando a simpatia dos demais presos. Por isso, Jesus foi lançado numa solitária. Nesta cela definhou e sentiu o peso dos seus machucados por uma noite inteira. Uma parte dos discípulos de Jesus ficou velando a entrada do presídio todo este tempo. Ao saber disso, associações cristãs e evangélicas convocaram seus fiéis para dispersar aquela manifestação insensata de “baderneiros miseráveis, drogados, que mal podiam caminhar e pensar”. Um confronto se deu entre os dois grupos. Novamente o boca a boca e as imagens de internet fizeram a chapa esquentar. Era preciso dar um fim o quanto antes àquela figura.
         “Se você é filho de deus, então não teme a morte”, disse o sargento da Brigada Militar a Jesus. “Não”, respondeu ele, firmemente. “Espero que o senhor não fique bravo comigo, eu apenas cumpro ordens”, recuou o sargento, “lamentavelmente precisamos levá-lo para o alto do Morro da Polícia”.
***
         O céu tinha amanhecido nublado e prenunciava um temporal. Um séquito de peregrinos abria uma nova via crúcis para o cume do Morro da Polícia. “Vamos dar um fim a este impostor como ele merece”, membros da associação católica e evangélica diziam, enquanto pregavam as hastes da nova cruz: “Se ele se chama de Cristo, então vai ser tratado enquanto tal. Será que ele vai descer à mansão dos mortos, ressuscitar no terceiro dia para subir aos céus?”, agitou o pastor Macedo, que estava no meio de um grupo de engravatados.
         Da rótula da Av. Teresópolis, de fronte ao presídio feminino, se podia vislumbrar o mórbido espetáculo, que se traduzia em um amontoado de apedrejadores modernos, trajando, em sua maioria, terno e gravata, mas, também, chinelo de dedos e calças rasgadas. A cruz já estava pronta, apenas esperando o messias para começar o sacrifício a deus. Desta vez não houve Maria Madalena para enxugar o sangue e o suor, nem um Barrabás para ser solto; apenas uma multidão de Judas, alimentada, sobretudo pelo ódio; aliás, muito ódio, irracional e incontido, pronto pra apedrejar todo aquele que ousasse falar em liberdade ou questionar a dubiedade da ética e da moral de sua sociedade.
         Estando já deitado sobre a cruz e prestes a ser pregado novamente, Jesus disse suas penúltimas palavras: “Porto Alegre, Porto Alegre, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!”. “Cala a boca, viadinho”, gritou um pastor que estava preparando o martelo e os pregos, “não tem ninguém aqui pra registrar o que tu diz”.
Ao sentir os primeiros pregos sendo cravados nas mãos e nos punhos, Cristo chorou. A cruz foi eriçada ao alto e fincada no chão. Das calçadas da terceira perimetral, transeuntes olhavam aquela cena, curiosos e distantes. Pensavam se tratar de uma encenação pascal. Mas achavam estranho, pois não estávamos na quaresma. Mesmo assim, nada faziam, apenas olhavam.
Uma chuva de pedras, tomates, alfaces, palavrões e agressões verbais descompassadas e incontidas caíram sobre Jesus. A mídia nada noticiou. Sentindo o fim inevitável e o novo vagar de sua alma, Jesus pronunciou suas últimas palavras: “Perdoa-os pai, eles não...”.
Parou por um instante. Refletiu. Tomou o fôlego final: “Não pai, não os perdoe. Mais de dois mil anos se passaram. Eles já sabem o que fazem...”. Agonizou por mais alguns minutos e morreu. As consciências estavam tranquilas outra vez.
***
Três dias se passaram e uma vigília de beatas católicas, evangélicas e de curiosos ficou velando o local onde Cristo havia sido crucificado e enterrado, com velas, terços e muitas lamentações. Passou o quarto dia e nada. O quinto e nada. No sexto, começaram a recolher seus pertences e levantaram acampamento.
Desta vez, ele não ressuscitou. O ódio tinha sido deveras desagregador.