sexta-feira, 21 de julho de 2017

Jesus Cristo voltou, aleluia!

"Quanto ao dia e à hora da segunda vinda ninguém sabe,
nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão somente o Pai"
(Mateus 24:36).


         Diz a tradição inspirada nas sagradas escrituras que deus envia de tempos em tempos um messias para redimir a humanidade dos seus pecados. Segundo a crença ocidental, já se passaram mais de dois mil anos e quase duas décadas desde que ele enviou o último. Era tempo de redimir esta nova gama de pecados cometidos pela humanidade ao longo deste último período. O lugar escolhido, tal como a dois mil anos atrás, foi uma província miserável de um território dominado por um império: Porto Alegre.
Algum infiel incrédulo pode perguntar: mas porque deus escolheu logo Porto Alegre? Ora, porque deus tem seus acessos de vontade, como as sagradas escrituras nos demonstram; e estas, como sabemos, se bastam a si mesmas. De mais a mais, havia uma música de uma banda gaúcha que dizia que Jesus Cristo iria voltar e que em Porto Alegre ele iria morar. Muitas crianças, com seus corações puros, cantaram aquela canção, e esta foi sentida por deus como uma forma de oração. Assim, acabou por escolher Porto Alegre e viu que isso era bom.
Zaz! Um clarão desceu do céu. Lá estava Jesus, com sua túnica branca envolta por um pano vermelho, vestindo as suas surradas sandálias, exalando bondade e pureza através de uma aura brilhante dourada, parado, de pé, na pracinha do Julinho, em plena Av. João Pessoa, às 14h de uma movimentada quarta feira. Muitos passageiros de ônibus nas paradas ou simples transeuntes olharam com grande curiosidade aquela estranha figura, vestida daquele jeito, caminhando lentamente em direção à Redenção. Uns cochichos e pequenas risadinhas puderam ser ouvidos vindos de longe. “Mais de dois mil anos se passaram e eles ainda não aprenderam”, pensou Jesus consigo mesmo. Chegou próximo de uma das paradas da Av. João Pessoa e disse: “Não julgais para não ser julgado”. E então, uma explosão de gargalhadas começou a ressoar por todos os lados. “Perdoa-os pai”, disse Jesus, olhando pra cima, “eles ainda não sabem o que fazem”. Retomou a sua marcha em direção à Redenção.
***
         Chegando nos bosques da grande praça, Jesus se deparou com dois mendigos brigando por um resto de marmita e pão, que haviam encontrado em um banco ao léu. Os impropérios vindos de ambos os lados eram dolorosos. “Eu vou te matar”, um dizia. “Eu vou quebrar toda a tua cara”, respondia o outro.
         “Calma e paciência”, disse Jesus levantando uma mão e levando a outra ao coração, “Vamos resolver esta contenda com a paz interior”. Imediatamente os dois mendigos se largaram e olharam aquela curiosa figura que caminhava em sua direção. Os olhos de um deles se arregalaram. Ele disse: “Mas, mas é Jesus!”. O outro não se conteve e caiu na gargalhada: “Tu só pode tá louco da cola!”.
“Não, é Jesus mesmo”, disse o primeiro, esfregando os olhos. “Isso mesmo, vós estais certo, sou eu, Jesus”. Uma aura dourada subiu por trás da cabeça de Cristo, que chegou a alumiar o interior do bosque da esquina da Av. João Pessoa com a José Bonifácio. “Ó senhor, me perdoe”, disse o primeiro, se atirando aos pés do redentor.
“Todo aquele que reconhecer os seus pecados e se arrepender sinceramente por eles será perdoado”, falou Jesus colocando a sua mão esquerda sobre a cabeça do mendigo. Este se pôs a chorar, baixinho.
O outro, incrédulo, ficava olhando, distante. “Estou sentindo falta de fé por aqui”, disse Jesus, admirado com a incredulidade de um deles. “Me alcance aquele pedaço de pão”, pediu ao mendigo ajoelhado. Rapidamente ele atendeu ao mestre. Jesus tomou aquele pedaço duro e velho de pão e o ergueu aos céus, olhando fixamente para uma grande nuvem que pairava sobre a praça. “In nomine patris, et filii, et spiritus sancti. Amen”, murmurou Cristo. De repente surgiu em suas mãos mais 10 pães, completamente novos e apetitosos, como se tivessem recém saído do forno. “Deus seja louvado”, gritou o primeiro mendigo, se ajoelhando novamente de fronte ao mestre. Pegou rapidamente um pedaço de pão e começou a comer, faminto.
“Dai de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede”, pronunciou solenemente Jesus, olhando para os dois mendigos. O incrédulo remexeu em um saco preto próximo ao banco e puxou de lá uma faca de cozinha. Ameaçou Jesus e o mendigo ajoelhado: “Parado os dois, senão furo vocês! Passem pra cá os pães”. Tomou de assalto o que queria, os colocou em um saco maior e saiu correndo em direção à Av. Oswaldo Aranha. “Perdoa-o pai, ele não sabe o que faz”, lamentou-se Jesus, olhando para os céus.
***
         Um pouco cansado e abatido, Jesus deitou-se em um dos bancos da Redenção para dormir, sempre acompanhado do mendigo, seu novo discípulo, que dormiu no chão, ao lado do mestre.
Foram acordados na manhã seguinte por uma ambulância, que passou fazendo um escândalo com sua sirene, em direção ao Hospital de Pronto Socorro (HPS). Jesus acordou dando um salto do banco e caindo ao lado do mendigo. Na Palestina de 20 anos após o seu nascimento nunca tinha visto nada semelhante.
“Alguém deve estar morrendo”, sussurrou o mendigo. Jesus se pôs de pé e disse: “Precisamos ajuda-lo. Para onde estão indo?”. O mendigo se levantou e disse a Jesus que estavam indo ao Hospital de Pronto Socorro. Foram caminhando a passos largos para lá.
Chegando ao saguão do hospital, se depararam com centenas de doentes pelas cadeiras, pelo corredor, esperando atendimento ou mães e pais tentando amenizar o choro de suas crianças. Era quase uma visão do inferno. Tudo desorganizado. Uma verdadeira baderna! Jesus entrou no saguão, mas o mendigo foi impedido de entrar por um segurança.
“Deixa-o passar, é meu discípulo. Ele está arrependido de seus pecados e por isso merece o reino dos céus”, ordenou Jesus ao segurança. Este se pôs de pé, dizendo: “Aqui não é lugar pra vagabundo! E quem tu pensa que é vestido desse jeito? Jesus?”. “Sim”, respondeu Cristo, exalando sua luz dourada. O segurança recuou, assustado. Jesus se aproximou de um jovem que tinha a perna quebrada e gemia muito. “Quando vão atender meu filho?”, perguntava a mãe, consolando seu filho e tentando amenizar sua dor. Colocando a mão sobre a perna quebrada, Jesus falou em tom solene e ríspido: “Levanta-te e anda!”. O jovem largou a mão da mãe e se levantou de um só pulo. Todos que estavam em volta se espantaram. Uma senhora se colocou a fazer sinais da cruz pensando se tratar de algum tipo de bruxaria.
“Ouçam a palavra de deus, todos vocês”, gritou Jesus para os presentes, “olhem como estão tratando seus iguais”, apontou para o mendigo, que olhava tudo da rua, “por que ele não pode entrar aqui? Aqui não é a casa de deus também? Onde os leprosos e doentes são tratados? Por que há tantos doentes sem atendimento? Por que esta criança chora mesmo estando no seio de sua mãe?”. O segurança sentiu como se aquilo fosse o princípio de um motim. Suas ordens estritas eram pra manter a tranquilidade do ambiente. Chamou reforços pelo rádio.
Alguns presentes filmavam o que dizia aquela estranha e divina figura com seus celulares e outros apenas olhavam, estarrecidos. “Eu voltei para redimi-los dos seus pecados”, continuava Jesus já de cima de um banco, “conheça a verdade e a verdade vos libertará!”. Nesse instante reforços da segurança do hospital e da Brigada Militar adentraram o recinto. Pegaram Jesus pelos braços e colocaram-no na parede: “Este é o elemento?” gritou o capitão. “Sim”, respondeu prontamente o primeiro segurança. “Aquele é o seu cúmplice”, apontou para o mendigo na rua, que se pôs a correr, sendo facilmente detido logo na esquina com a Oswaldo Aranha. O jovem que teve a perna curada se colocou na defesa de Jesus: “Como são capazes de fazer isso com Jesus Cristo, nosso senhor?”. O policial logo deu uma chave de braço no rapaz e o colocou na viatura, junto com Cristo e o mendigo. Foram levados para o Palácio da Polícia. Lá foram fichados, interrogados e por total ausência de provas, liberados. Alguns curiosos, ao saberem da notícia e ao verem os vídeos circulando nas redes sociais, foram até o Palácio para ver como estavam tratando o “suposto” Jesus. Saíram pela porta dos fundos, mas foram recebidos por estes olhares curiosos.
Jesus e seu séquito, que já havia crescido para um grupo de cerca de 15 pessoas, voltaram caminhando para a Redenção. Sentaram-se no meio dos seus escuros bosques, fizeram uma fogueira, e Jesus começou a lhes falar, novamente, sobre o Reino dos Céus. Um deles, seguidor de uma igreja evangélica, relatou como era a sua crença e o que lhe professavam os seus pastores. Disse que certa vez viu um pastor do templo perto da rodoviária curar uma mulher possuída pelo demônio. Jesus achou muito estranho. Ficou reflexivo. “Quero ir conhecê-la”, disse Cristo. O evangélico concordou em leva-lo a aquele templo na manhã seguinte.
***
         Ao perceber o esbanjamento da construção, com seus vitrais e ornamentos, Jesus ficou impressionado. Em nada se assemelhavam aos templos de Jerusalém. O evangélico corou um pouco. Mesmo assim, entrou no culto acompanhando Jesus, que olhava tudo com grande curiosidade e serenidade.
         O pastor, em cima do palco, reparou a entrada de elementos estranhos: “Alto lá, quem são vocês?”. Cristo ergueu uma mão aos céus e a outra ao coração, pronunciando: “Eu sou o caminho da verdade e da vida”. O pastor ficou um pouco desconfiado. Não sabia se tudo aquilo fazia parte do culto. Ninguém tinha lhe avisado nada. Parte dos crentes fez um sonoro “oh!”. Percebendo a sedução dos presentes, o pastor logo disse: “É você senhor?”. “Sim, sou eu, Jesus de Nazaré; estou de volta para acertar contas com aqueles que ainda não entenderam meus ensinamentos, para redimi-los dos seus pecados”.
“Mas será mesmo ele?”, ouviam-se algumas vozes incrédulas do meio do plenário. “Senhor, como podemos ter certeza de que é mesmo o nosso messias reencarnado?”, aproveitou-se o pastor. “Todo aquele que for puro de coração, logo me perceberá, sem necessidade de provas”, ia dizendo Jesus, quando rapidamente adentrou no palco dois assistentes do pastor carregando uma grande bacia cheia de água.
         “Eis aqui o desafio para tirarmos a dúvida:”, bradou o pastor com o dedo em riste, “se este homem for mesmo o nosso messias ele caminhará sobre esta água”. O pastor apontava ensandecidamente para a bacia e agitava o plenário. Descalçando as sandálias, Jesus reparou que o mendigo e o jovem do HPS estavam entre a multidão, esperando algum milagre. Puxou a barra da saia da túnica para cima e pisou suavemente sobre a água, que espalhou leves círculos concêntricos por onde o Senhor pisava, sem afundar ou mesmo abalar o espelho d’água. O pastor e toda a plateia fizeram um “oh” duplo!
O pastor, falando com a escuta, sussurrou: “Daonde saiu este filho da mãe? Ele tá caminhando de verdade sobre a água!”. O produtor que estava na escuta, respondeu: “Não tenho a menor ideia; mas tu já sabe o que fazer, certo?”.
“Aleluia, irmãos, Jesus Cristo voltou”, disse o pastor voltando-se para a multidão. Muitas mãos com seus celulares tiravam fotos e gravavam vídeos. Uma senhora começou a chorar convulsivamente dizendo: “Ele voltou! Ele voltou! Aleluia”. O pastor então domou aquele frenesi: “Depositem agora mesmo o seu dízimo online na maquininha à sua frente; não deixe Jesus afundar com sua falta de crença, contribua agora mesmo...”. Luzes começaram a brilhar ao fundo do palco.
E Jesus, vendo o espetáculo, começou a se desequilibrar, como se fosse afundar. Então parou, ainda flutuando sobre as águas, e respirou fundo. Reequilibrou-se. Sentindo todo o ranço presente naquela atmosfera, Jesus começa o seu sermão: “Parem de transformar a casa de meu Pai em um mercado!”. Todos ficaram atônitos e um súbito silêncio se fez. Ele prosseguiu: “Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai uma casa de negócio. A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a fazeis covil de salteadores”.
O pastor então pulou sobre Jesus, para fazê-lo afundar, mas acabou virando a bacia e levando o Senhor ao chão. “Este homem é um impostor, homem de pouca fé, fora já do nosso templo”. O público ficou confuso. “Só pode ser o capeta nos tentando!”, gritava o pastor. Imediatamente uma grande vaia estourou por todos os lados do templo, ressoando para a grande porta de entrada, que dava para as paradas de ônibus da Av. Júlio de Castilhos. Alguns olhares curiosos se colocaram a observar. “Fora daqui, pecador imundo!”, berrava o pastor, gesticulando com as mãos e tendo os olhos faiscantes, “o verdadeiro Jesus disse na Bíblia para tomarmos cuidado porque muitos iriam aparecer fingindo ser o messias”. O pastor chegou a descer alguns degraus do seu púlpito para apontar a porta da rua: “Este homem é a reencarnação do demônio que veio aqui tentar a nossa fé; fora já daqui Lúcifer, você não nos enganará...”. E muitas senhoras e jovens começaram a fazer o sinal da cruz descompassadamente. Outros presentes ficaram confusos, batendo cabeça.
Abaixo de uma grande vaia, Jesus e seus seguidores saíram do templo em direção ao centro. Olhares curiosos continuavam a espreitá-los por todos os lados. Mesmo com todo este incidente, muitos fiéis colocaram o vídeo na internet. Inevitavelmente tornou-se um dos trending topics de muitas redes sociais. A mídia foi obrigada a ter que falar sobre o assunto. ZH dominical dizia: “Quem é este homem? De onde ele vem? Qual a sua mensagem?”; o Correio do Povo colocou como uma submanchete: “O que quer nos dizer um homem que se veste como Jesus e está assustando os moradores do centro histórico?”. Convites de entrevistas em programas de TV foram enviados. Instigado por tal fenômeno, alguns repórteres começaram a procurar o suposto messias. Como ouviram os boatos de que ele morava por entre os bosques da Redenção, começou a ter uma grande incursão de jornalistas por entre as árvores da grande praça, tentando algum furo de reportagem.
***
Não era difícil encontra-lo. Desde que ouvira um homem tocando saxofone no pequeno templo de Buda, perto dos bambus, atrás do Araújo Vianna, Jesus passou a viver ali. Gostou da tranquilidade, do silêncio das tardes nubladas e frias, das pontes em estilo japonês. Aos domingos as crianças corriam soltas pelos seus gramados. Sentiu uma grande paz de espírito ali. De dentro da casinha, que possuía uma disforme estátua de um “Buda” gordo, Jesus orava, pregava ao seu séquito, que agora já tinha aumentado ainda mais. Alguns seguidores, mais ortodoxos, passaram a dormir com barracas ao lado do pequeno templo de Buda e aquele deslocamento de miseráveis atrás do Senhor já começava a despertar preocupação nas autoridades.
Certa vez um repórter pegou Jesus pregando aos seus seguidores em um domingo ensolarado. Ele dizia: “Todos nós buscamos a iluminação, seja na minha religião, seja na religião de Buda. Todos pregamos o amor, a compaixão, a vida desapegada de valores materiais, fúteis. Para atingir a pureza de coração ou a iluminação, no Nirvana, todos nós devemos cultuar a paz interior. Olhem para o universo! Lá devemos desvendar as leis de deus juntos, com condições dignas para todos os seres humanos...”. As imagens fizeram sucesso. Viralizaram nas redes sociais e as grandes emissoras do país retransmitiram-nas em alguns programas de esoterismo.
O Arcebispo de Porto Alegre, percebendo que a Igreja Católica estava ficando em desvantagem em relação a tudo isso, fez um convite solene para Jesus visitar a sua própria casa: a Catedral Metropolitana de Porto Alegre, filial da Santa Sé de Roma. A mídia noticiou o fato. Foi montado um grande evento para recepcionar Cristo. Uma multidão se espremeu na Praça da Matriz para ver a chegada do Senhor. Católicos VIPS ganharam senhas para ocupar assentos nos bancos do interior. Padres, freiras, figuras públicas e notáveis políticos gaúchos e nacionais ombreavam o governador do Estado, que também cancelou sua agenda para estar presente na solenidade.
Sem nenhum tipo de glamour, Jesus chegou com o seu séquito de mendigos, jovens, esfarrapados e prostitutas, sob o olhar atento dos presentes. Flashes explodiam por todos os lados, as câmeras estavam posicionadas, celulares, gravadores, tudo registrando um momento histórico. Jesus subiu as escadas, seguido pelos seus discípulos (que foram detidos nos portais de entrada), e caminhou, por entre os bancos da catedral, até o seu altar. Os olhares estavam firmes; nem piscavam. Não queriam perder nenhum momento daquele grande acontecimento.
O Arcebispo de Porto Alegre sorriu e disse: “Bem vindo de volta à sua casa, Senhor”. Após, ajoelhou-se aos pés do redentor. “Pare com esses protocolos. Ponha-te de pé homem”, falou Jesus, rispidamente. Lançou um rápido olhar sobre a mesa, com suas taças, candelabros, hóstias. Voltou seu olhar para as páginas da Bíblia, aberta logo ao lado. Ia começar a falar: “Ora, há algo errado ali. Eu não disse isso...”, quando o Arcebispo celebrou: “Viva a volta de nosso Salvador”. E os presentes gritaram: “Hosana nas alturas, glória vós Senhor”.
Jesus deu um passo atrás. “Então”, disse ele, “o que a Igreja que diz falar em meu nome tem feito pelos pobres?”. O Arcebispo mais que depressa tomou a palavra: “O nosso Papa tem defendido a causa do povo, meu Senhor. Falado em retomar os valores de São Francisco de Assis e de voto de pobreza, como o senhor mesmo falou nas sagradas escrituras. Nós fazemos campanhas do agasalho, de arrecadação de alimentos...”. Jesus sentiu uma atmosfera de hipocrisia no ar.
“Cristo, temos o louvado por anos”, disse uma senhora de traços severos e trajando um belo terno feminino cor de carmim; “Eu venho a missa todos os domingos”, exaltou-se outra, sentada mais ao lado. Um burburinho começou a vir do fundo. O Arcebispo falou mais próximo do microfone: “Que bons ventos o trazem de volta, Jesus, nossos Senhor?”.
“Venho relembrar minha mensagem, que parece ter sido esquecida”, falou Jesus, também se aproximando do microfone. “Ó Senhor, estamos sedentos por ouvi-la”, disse o Arcebispo.
“Como é feliz aquele a quem o Senhor não atribui culpa, e em quem não há hipocrisia! Enquanto eu mantinha escondido os meus pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer.”, iniciou Jesus. Um súbito silêncio se fez. Ele parou de falar no microfone, porque sua voz podia ser ouvida da rua. “Os mestres da lei e os fariseus se assentam na cadeira de Moisés. Obedeçam-lhes e façam tudo o que eles lhes dizem. Mas não façam o que eles fazem, pois não praticam o que pregam. Eles atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos não estão dispostos a levantar um só dedo para movê-los. Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens. Gostam do lugar de honra nos banquetes e dos assentos mais importantes nas Igrejas; de serem saudados nas praças e de serem chamados cidadãos de bem. Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês fecham o Reino dos céus diante dos homens! Vocês mesmos não entram, nem deixam entrar aqueles que gostariam de fazê-lo. Vocês devoram as casas das viúvas e, para disfarçar, fazem longas orações. Por isso serão castigados mais severamente”.
Aquilo parecia tão direto, verdadeiro e ríspido. Um mal estar geral se instalou no ar. De repente, um homem se levantou do meio dos bancos da Catedral e disse: “Como saberemos que este homem não é um impostor se passando por Cristo?”. Um novo burburinho e cochichos explodiram por todos os lados. O Arcebispo pediu calma no microfone. “É verdade! Queremos um milagre!”, gritou outro homem de um dos extremos da grande igreja; “É isso mesmo! Queremos um milagre”, gritou uma mulher um pouco mais a frente. E a massa dos presentes começou a gritar em uníssono: “milagre, milagre, milagre...”. Jesus tomou a palavra novamente pelo microfone e disse: “Tragam-me um jarro d’água”. Todos pararam instantaneamente. Um coroinha subiu no altar levando um jarro grande cheio de água. “Beba um gole”, ordenou Jesus ao Arcebispo. Ele virou o jarro em um cálice e tomou: “É água”, confirmou.
Jesus ergueu as mangas de sua túnica e colocou uma mão no interior do jarro, fazendo escorrer um pouco de água pelas laterais, e pronunciou: “In nomine patris, et filii, et spiritus sancti. Amen”. De repente borbulhas vermelhas começaram a submergir na superfície, tal como se Cristo tivesse cortado a própria mão e o sangue jorrando colorisse o recipiente. O Arcebispo tonteou para um lado; quase caiu. “Aqui está seu milagre, Fariseu!”, disse Jesus enxugando a mão na toalha da mesa. O Arcebispo serviu um cálice e tomou: “É vinho!”, ele gritou. Alguns curiosos se levantaram para ver de perto. O Arcebispo passou o cálice para o primeiro ao seu lado: “É realmente vinho!”, ele confirmou.
“Aleluia”, gritou o político que estava sentado na primeira fila. Muitos começaram a gritar também: “Aleluia! O senhor voltou!”.
“Por que gritam em meu nome vocês que estão cegos?”, indagou Jesus no microfone, “Se alguém jurar pelo santuário, isto nada significa; mas se alguém jurar pelo ouro do santuário, está obrigado por seu juramento. Cegos insensatos! O que é mais importante: o ouro ou o santuário que santifica o ouro?”. O Arcebispo interrompeu: “Mas Senhor, temos cultivado sua palavra por séculos”.
“Por isso mesmo”, continuou Jesus, “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês limpam o exterior do copo e do prato, mas por dentro estão cheios de ganância e cobiça. Vocês são como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas cheios de ossos e de todo tipo de imundície por dentro. Assim são vocês: por fora parecem justos ao povo, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e maldade”.
“Por que é tão duro conosco, Senhor?”, disse uma senhora em prantos, próximo das primeiras filas, “Nós comemoramos a sua ressurreição todos os anos, merecemos o seu reconhecimento”.
Irado e de dedo em riste, Jesus falou: “Uma mentira de fariseus, de hipócritas! Vocês edificam os túmulos dos profetas e adornam os monumentos dos justos. E dizem que se tivessem vivido no tempo dos nossos antepassados, não teriam tomado parte com eles no derramamento de sangue dos profetas. Assim, vocês testemunham contra si mesmos, que são descendentes dos que assassinaram os profetas. Acabem de encher a medida do pecado dos seus antepassados! Se purificam rezando pelos pecados do passado para continuarem cometendo assassinatos de profetas no presente”. Uma senhora se atirou no chão chorando. Os políticos consternaram-se. Não havia clima sequer para tirar uma foto, pois qualquer tipo de sorriso seria forçado e mentiroso. O Arcebispo, sentindo o drama da situação, propôs: “Vamos cantar uma canção sacra para encerrar esta linda cerimônia de reaproximação”.
 “Eu não ordenei o seu encerramento”, gritou Jesus, “Por que todas as casas que vocês falam ser minhas estão tomadas por homens de negócio, por vendilhões do templo? Por que a Igreja concentra ouro em suas esculturas e altares? É assim que quereis cultuar minha memória? Por que possui terras, imóveis, universidades, rádios e televisões, enquanto tantas pessoas passam fome? Por que os meus seguidores autênticos deixastes do lado de fora, nas escadarias deste templo?”. O Arcebispo, meio constrangido, aproximou o microfone da caixa de som, o que fez ecoar uma horripilante microfonia por toda a catedral, atormentando os presentes: “Er, meu senhor... a Santa Sé possui tudo isso pra melhor propagar a sua palavra. Talvez possamos entrar em contato com o Papa no Vatic...”.
Jesus virou os castiçais e taças de metal no chão. O barulho assustou os presentes, que exclamaram interjeições de horror.
“Basta!”, gritou Jesus, “Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai uma casa de aparências. Falo pela última vez: é mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha do que um rico entrar no reino dos céus”. Vozes horrorizadas e de protesto começaram a ecoar no fundo da catedral. “Vais me dizer também que a Santa Inquisição foi para melhor propagar a minha palavra?”, insistia Jesus, descompassadamente e já descabelado.
O governador, vendo os apuros do Arcebispo, tentou intermediar: “Mas Senhor, diga-nos agora, o que queres que façamos por sua santidade?”. Jesus virou-se para o governador, e controlando a sua indignação, disse: “Quem tem muitas roupas, dê roupa ao que não tem. Quem tem bastante alimento, faça o mesmo. Não cobrem nada além daquilo que foi determinado. Não usem da violência e não caluniem ninguém”.
“Mas vejam só”, disse um cidadão que estava sentado na primeira fila, “este homem só pode ser um comunista infiltrado”. De repente um burburinho submergiu do fundo: “Vai pra Cuba, seu comunista, comedor de criancinha!”. Garrafas e pequenos crucifixos de madeira começaram a ser jogado para cima do altar. O Arcebispo levantou a batina para se proteger.
“Por que o Vaticano tem um banco só seu?”, continuou Jesus, indignado, “O que está havendo com vocês? Não entenderam nada?”. A população explodiu em xingamentos de ódio incontido. “Saia daqui seu comunista!”, gritavam uns, “Onde você já viu isso dar certo?”, berravam outros. “Nós defendemos os valores da família, seu pervertido”, gritou um grupo de senhores e senhoras, sentados mais à direita, na primeira fileira.
Jesus insistiu, gritando: “Seria perfeitamente viável que todos vivessem de forma digna se dividís...” uma taça de metal acertou-lhe a cabeça, fazendo escapar um filete de sangue em sua testa. Se defendendo dos xingamentos e dos objetos voadores, Jesus procurava o caminho da saída. Começou a ser chutado, cuspido, socado, de um lado e de outro. Com muita dificuldade encontrou seus discípulos, na rua, que passaram a defendê-lo em forma de escudo humano. Desceram correndo a rua da ladeira.
Quando a calmaria se fez, o Arcebispo rezou, então, uma nova missa em nome da ressurreição de Cristo e todos os fiéis fizeram o sinal da cruz. Com sua voz calma e tranquila, novamente acalmou aquele povo. Ao saírem da catedral, colocaram uma pedra em cima do assunto. As mulheres retornaram à cozinha e às necessidades básicas dos filhos; os maridos dividiram-se entre alguns bares da Cidade Baixa ou da Goethe. Outros adentraram o prostíbulo da R. Olavo Bilac. As velhas reclamações e pequenas intrigas entre uns e outros voltaram à tona, exigindo novas orações e pedidos piedosos.
***
Jesus prostrou-se frente aos seus discípulos, sentando no cercado do templo de Buda, na Redenção. “Perdoem-nos. Eles não sabem o que fazem”, disse ao mendigo. “Estão cada vez piores, mestre”, ele respondeu a Jesus, “eles nos humilham todos os dias e nas raras vezes que nos dão esmolas dizem que temos que deixar as ruas e ir trabalhar, como se houvesse emprego para todos”. “Não vamos perder a fé”, disse Jesus, que olhava para a paz do laguinho da praça oriental. “Olhai os lírios do campo”, ele prosseguiu, “procure a alegria no olhar de uma criança. Por que nós iremos perder a fé por causa destes incidentes tão pequenos?”. Juntos rezaram de mãos dadas uma oração bem diferente das que conhecemos.
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A volta inesperada de Cristo gerou uma silenciosa revolução espiritual em muitos setores da sociedade. Grandes nomes da política nacional, banqueiros, empresários, apoiados por pastores de igrejas evangélicas e por bispos e arcebispos da Igreja Católica, estavam extremamente preocupados. Entraram em contato uns com os outros. Criaram organizações mútuas. Diziam: “Este impostor está trazendo graves prejuízos para a fé do povo brasileiro”; “precisamos dar um basta nisso”. Apesar da sociedade oficial ter jogado Jesus para o gueto, deixando-o restrito à mata da Redenção, seus milagres e ensinamentos tinham se proliferado pelas redes sociais ou mesmo pelo boca a boca. Então, a grande mídia sensacionalista começou uma campanha de perseguição a “aquele ser demoníaco, de outro mundo, paranormal, que só poderia ser o prenúncio de algo muito pior”.
Uma campanha publicitária foi desencadeada 24h na televisão, com anúncios patrocinados. Jesus estava alheio a ela. O Globo Repórter e o Repórter Record fizeram programas especiais sobre o assunto: mostraram imagens diabólicas, com cenas editadas de feições brabas e distorcidas de Jesus em seus protestos contra os ricos, feitas por cinegrafistas amadores. Foram contatadas “vítimas” de sua ação demoníaca: “Ele baixou o satanás no meu corpo”, disse um deles, com voz distorcida e imagem desfigurada no rosto. “Ele disse que eu não precisava ter vergonha das minhas vergonhas”, dizia outra mulher, com as mesmas desconfigurações para preservar o anonimato. “É preciso dar um basta antes que seja tarde”, afirmavam vários tabloides do Rio Grande do Sul e do Brasil. “Este bandido tem que ir pra cadeia”, diziam os jornalistas do Balanço Urgente e do Geral do Brasil.
***
         A noite estava estrelada e calma. Sentado nos degraus de entrada do templo de Buda, Jesus dividia o pão e o vinho com seus discípulos. “Este é o meu corpo, que agora vos dou. Vamos celebrar o amor, carnal e espiritual, de forma pura e alegre”, falava Jesus enquanto passava um pedaço de pão ao jovem, que estava sentado ao seu lado. De repente ouviram uma agitação vinda do chafariz central. De lá vinha uma multidão, com tochas e pedaços de pau em direção ao local em que Cristo se encontrava com seus discípulos.
         “Lá estão eles”, disse o bispo a um exército de pastores. “Prendam este impostor”, falou um político, que estavam acompanhando a multidão, seguido por policiais, que imediatamente agarraram Jesus e o levaram dali, sob o olhar atônito dos seus discípulos. Muitos embrenharam-se nos bosques da Av. Oswaldo Aranha com a Av. Setembrina. Negaram Cristo pra poderem sobreviver à ira daqueles que ali estavam, a bradar um ódio incontido.
         Após colocarem algemas em seus pulsos, Jesus foi levado para o presídio central, sem interrogatório, sem passagem pelo Palácio da Polícia, sem direito à habeas corpus. Naquela noite foi torturado, despido, lançado no meio de outros presos. Ali ficou sendo ridicularizado, mas com o passar de algumas horas e o brilho de sua aura, acabou ganhando a simpatia dos demais presos. Por isso, Jesus foi lançado numa solitária. Nesta cela definhou e sentiu o peso dos seus machucados por uma noite inteira. Uma parte dos discípulos de Jesus ficou velando a entrada do presídio todo este tempo. Ao saber disso, associações cristãs e evangélicas convocaram seus fiéis para dispersar aquela manifestação insensata de “baderneiros miseráveis, drogados, que mal podiam caminhar e pensar”. Um confronto se deu entre os dois grupos. Novamente o boca a boca e as imagens de internet fizeram a chapa esquentar. Era preciso dar um fim o quanto antes àquela figura.
         “Se você é filho de deus, então não teme a morte”, disse o sargento da Brigada Militar a Jesus. “Não”, respondeu ele, firmemente. “Espero que o senhor não fique bravo comigo, eu apenas cumpro ordens”, recuou o sargento, “lamentavelmente precisamos levá-lo para o alto do Morro da Polícia”.
***
         O céu tinha amanhecido nublado e prenunciava um temporal. Um séquito de peregrinos abria uma nova via crúcis para o cume do Morro da Polícia. “Vamos dar um fim a este impostor como ele merece”, membros da associação católica e evangélica diziam, enquanto pregavam as hastes da nova cruz: “Se ele se chama de Cristo, então vai ser tratado enquanto tal. Será que ele vai descer à mansão dos mortos, ressuscitar no terceiro dia para subir aos céus?”, agitou o pastor Macedo, que estava no meio de um grupo de engravatados.
         Da rótula da Av. Teresópolis, de fronte ao presídio feminino, se podia vislumbrar o mórbido espetáculo, que se traduzia em um amontoado de apedrejadores modernos, trajando, em sua maioria, terno e gravata, mas, também, chinelo de dedos e calças rasgadas. A cruz já estava pronta, apenas esperando o messias para começar o sacrifício a deus. Desta vez não houve Maria Madalena para enxugar o sangue e o suor, nem um Barrabás para ser solto; apenas uma multidão de Judas, alimentada, sobretudo pelo ódio; aliás, muito ódio, irracional e incontido, pronto pra apedrejar todo aquele que ousasse falar em liberdade ou questionar a dubiedade da ética e da moral de sua sociedade.
         Estando já deitado sobre a cruz e prestes a ser pregado novamente, Jesus disse suas penúltimas palavras: “Porto Alegre, Porto Alegre, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!”. “Cala a boca, viadinho”, gritou um pastor que estava preparando o martelo e os pregos, “não tem ninguém aqui pra registrar o que tu diz”.
Ao sentir os primeiros pregos sendo cravados nas mãos e nos punhos, Cristo chorou. A cruz foi eriçada ao alto e fincada no chão. Das calçadas da terceira perimetral, transeuntes olhavam aquela cena, curiosos e distantes. Pensavam se tratar de uma encenação pascal. Mas achavam estranho, pois não estávamos na quaresma. Mesmo assim, nada faziam, apenas olhavam.
Uma chuva de pedras, tomates, alfaces, palavrões e agressões verbais descompassadas e incontidas caíram sobre Jesus. A mídia nada noticiou. Sentindo o fim inevitável e o novo vagar de sua alma, Jesus pronunciou suas últimas palavras: “Perdoa-os pai, eles não...”.
Parou por um instante. Refletiu. Tomou o fôlego final: “Não pai, não os perdoe. Mais de dois mil anos se passaram. Eles já sabem o que fazem...”. Agonizou por mais alguns minutos e morreu. As consciências estavam tranquilas outra vez.
***
Três dias se passaram e uma vigília de beatas católicas, evangélicas e de curiosos ficou velando o local onde Cristo havia sido crucificado e enterrado, com velas, terços e muitas lamentações. Passou o quarto dia e nada. O quinto e nada. No sexto, começaram a recolher seus pertences e levantaram acampamento.
Desta vez, ele não ressuscitou. O ódio tinha sido deveras desagregador.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

O homem que esquecia


Charles Bittencourt era um bom homem: temente a deus, fraterno com as pessoas, educado. Se vestia à moda antiga: usava blazer, camisa social com suspensórios e chapéu dos anos 1950. Não se metia em política, mas julgava-se politizado o suficiente para emitir algumas opiniões. Era funcionário público de carreira. Não que ele fosse dos melhores, mas também não era relapso, como virou costume ouvir acusações a respeito, sobretudo vindo dos meios de comunicação. Por consequência, como as atribuições do seu cargo exigiam, ele não tinha vícios e buscava ser um “bom cristão”. Possuía uma bela família, que trabalhava duro para sustentar. Era bastante amável com ela, dedicando-lhe bastante tempo. É claro: ninguém é de ferro! Às vezes brigava com a mulher ou algum dos filhos, mas nada que fugisse ao bom senso. Ia de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Durante este percurso, o universo buscava contato.
         
Certo dia, em uma manhã chuvosa e cinzenta, Charles vestiu seu blazer marrom e saiu caminhando pela rua em direção ao trabalho (sim, ele trabalhava perto de casa e nem ônibus precisava pegar, embora tivesse um belo carro popular na garagem, usado apenas em ocasiões especiais). Quando se aproximava da esquina, viu uma cena absurda, horrenda, inaceitável. Uma mãe, vestida só com trapos e possuindo apenas sacos com escassos pertences, segurava um bebê que chorava de fome. Seus olhares se entrecruzaram. Charles não pôde evitar. Foi tão sentido e tão desesperado, que lhe ficou gravado na mente até chegar ao trabalho. Nenhum preconceito plantado na sua mente por anos de debates familiares, nenhuma criminalização midiática, nenhuma ideologia foi capaz de esconder aquele fato tão cruel e desumano ali, bem debaixo do seu nariz, quase na porta de sua casa. A mãe murmurou palavras monossilábicas pedindo ajuda, como se fossem grunhidos. Charles constrangeu-se profundamente. Arregalou os olhos, alisou o seu blazer e lançou um qualquer “não tenho nada” para poder seguir apressando o passo.
         
Chegou no trabalho pálido. Algo de estranho tinha acontecido. Suando e aflito, tomou um copo d’água de um gole só. Os colegas, preocupados, foram lhe perguntar: “o que foi, colega?”. Charles respondeu: “nada, nada!”. E sentou-se para trabalhar. A maré da rotina avançou sobre sua consciência. Começou a trabalhar e imediatamente esqueceu-se de tudo. Um pouco depois já estava conversando com os colegas animadamente e falando sobre a partida de futebol do seu time.
         
Durante toda aquela semana, Charles saía de casa e se deparava com aquela mãe e o seu bebê subnutrido. Novamente uma onda de agitações lhe atormentava, mas chegava no trabalho e era logo afogado pelo mar da rotina. Se esquecia de tudo outra vez. E lá estava o seu colega, do setor ao lado, conversando animadamente com ele sobre e vitória da seleção brasileira da semana passada. E novamente, tendo muito que trabalhar, Charles esquecia-se de tudo.
         
Quinze dias mais tarde, Charles não viu mais a mãe e o seu bebê subnutrido, mas encontrou dezenas de moradores de rua dormindo empoleirados uns sobre os outros, embaixo de uma marquise de loja, próximo à entrada do edifício do seu trabalho. Ele pensou consigo: “que vida, meu deus do céu! Como isso é possível em pleno século 21?”, mas chegando à sua repartição pública, tendo muito que trabalhar, logo esqueceu de tudo.
         
Num primeiro momento, Charles não percebeu que estes episódios foram lhe corroendo a própria dignidade humana, mesmo que ele próprio tivesse condições dignas de vida. Olhava para os filhos e para a esposa e suspirava aliviado, mas ao adormecer, tinha sonhos horripilantes, onde via esqueletos humanos, crianças subnutridas e a morte, a espreitar todos eles. Acordava assustado, mas não associava estes sonhos à nada, a não ser à forças do além. Levantava-se, chegava no trabalho e, tendo muito que trabalhar, logo se esquecia de tudo.
         
Que força inconveniente era esta que abria um clarão de luz na sua mente para uma parcela da realidade que parecia não existir, mas que logo depois lhe fazia sutilmente esquecer de tudo? Certo dia ficou sabendo que a filha de um colega de trabalho foi estuprada em um assalto. Charles horrorizou-se, empalideceu! Que sociedade era aquela? Mas tinha muito que trabalhar, logo esquecia de tudo. Dias mais tarde, soube que uma colega de trabalho apanhava regularmente do marido, o que explicava muitos hematomas que ela exibia e justificava como sendo quedas e acidentes de trabalho doméstico. Charles pensou na mulher: “deus me livre”. Uma sensação boa de saber que estava em paz com a esposa lhe acalantou o coração, mas como tinha muito trabalho a fazer, logo esqueceu-se da colega, que trabalhava no setor ao lado.
         
O mundo era maior do que o trajeto da casa até o trabalho de Charles. Muitos episódios perturbadores como aqueles foram se sucedendo em sua vida. Charles viu imagens na internet de um matadouro e tomou consciência de como a indústria da carne tratava um novilho recém nascido. Horrorizou-se. Chegou a pensar em tornar-se vegetariano. Tentou até pautar isso em conversas com colegas de trabalho, que o ouviram por alguns segundos, mas logo voltaram a falar sobre a espetacular partida da noite anterior. Como tinham muito trabalho a fazer naquele dia, Charles logo esqueceu de tudo.
         
Numa outra ocasião, Charles pôde ver imagens da guerra na Síria: crianças, mulheres e senhores de idade sendo bombardeado com armas químicas e mísseis de última geração, por “oposição” e situação. Chegou aos seus ouvidos a informação do grande número de refugiados que tentava chegar na Europa através de botes insalubres. Viu a imagem de uma criança morta, atirada ao relento na beira de uma praia qualquer. Como isso era absurdo! “Em que mundo vivemos?”, ele disse aos colegas ainda sob o impacto de todas aquelas cenas horríveis. Apesar de todas estas “coisas do mundo”, havia muito trabalho a fazer, e logo ele esquecia de tudo novamente.
         
Aqueles episódios todos, apesar de sempre esquecidos por Charles, acabaram se somando e despertando uma preocupação. “Devo estar doente”, ele concluiu. Foi ao médico: “doutor, eu vejo cenas horríveis todos os dias, nosso mundo está doente, mas logo a seguir eu e os meus colegas esquecemos de tudo. Eu acho que estou com alguma doença. Não é possível examinar meu cérebro?”. O médico franziu a testa. Pegou o estetoscópio e levou às costas de Charles; pediu que falasse “trinta e três”. Olhou seus olhos com uma lanterna. Pediu que colocasse a língua pra fora. Por fim, solicitou exames em três laboratórios diferentes. Ao chegar em um deles, que ficava no hospital central, Charles se deparou com uma fila enorme, cheia de idosos, crianças e mães com rostos de uma pintura de Tarsila do Amaral. Um senhor de idade desmaiou de tanto passar mal. Ficou ali, agonizando. Charles, que possuía plano de saúde privado, logo foi atendido e liberado. Porém, a cena do velho agonizando lhe marcou a mente como ferro e fogo. Sonhou com aquilo de noite. No outro dia, o trabalho acumulado lhe levou a esquecer tudo novamente. Apesar deste esforço para curar-se, o médico disse que Charles não tinha nenhum problema: “sua saúde é de ferro”. “Não é possível”, ele tentou argumentar com o médico, “você deve conhecer algum neurologista”. O médico indicou um conhecido seu. Novos exames foram feitos e nada de novo apareceu.
         
A pior notícia que acometeu Charles foi a de um operário que se suicidou de cima de uma caixa d’água quando viu que não teria condições de sustentar a própria família. “Por que isso, meu deus do céu, por quê?”, ele perguntava para si próprio em um surto humanizador. Procurou comentar com os colegas de trabalho sobre todos estes problemas. Eles apenas respondiam: “Ah Charles, sempre foi assim e sempre será!”, e tornavam a falar de futebol. Em casa, tentou desabafar com a esposa, mas ela estava muito preocupada com o almoço do dia seguinte e com a lista do supermercado. O filho mais velho jogava videogame no quarto e não deu a mínima para o pai quando ele se sentou na cama para tentar conversar. A filha, pendurada no celular, falando com amigos, também não deu muita atenção ao pai, plantado na sua frente, esperando uma resposta. Ficou aflito. Sentou-se na sua poltrona, bem no meio da sala, e logo após a novela de sua mulher ia começar a partida do seu time; ao primeiro ponta-pé Charles já havia esquecido de tudo.
         
Naquela noite, porém, Charles não conseguiu dormir. Foi como se uma força estranha lhe tivesse tomado conta. Apagou, exausto, às 2h; e acordou às 5h da manhã totalmente transtornado. Vestiu seu blazer marrom, colocou os suspensórios e o chapéu, tomou café, escovou os dentes e saiu de casa, perplexo, às 6h da manhã (uma hora mais cedo do que estava acostumado). Chegou no trabalho, subiu até o último andar e abriu a janela. Sentiu a brisa fresca das primeiras horas do dia. Respirou fundo. Pisou no parapeito, se agarrou na maçaneta da janela e como que fora de si lançou-se ao ar. Às 6h13min estava espatifado no pátio do seu trabalho. A partir das 7h da manhã um grupo de colegas olhava, horrorizado o que havia acontecido com o infeliz colega. 7h25min chegaram os primeiros repórteres e cinegrafistas para noticiar o fato. 

Na edição daquele dia o suicídio foi noticiado. O povo estarrecido e horrorizado leu aquela notícia, comentaram à boca pequena, passaram-na adiante, mas, como tinham muito que trabalhar, logo iniciaram suas atividades e esqueceram-se do ocorrido.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Os 100 anos da Revolução Russa e a imprensa burguesa

Analisar, 100 anos depois, como se deu a abordagem da Revolução Russa por parte da imprensa burguesa, nos permite tomar consciência de sua natureza, bem como de sua proximidade com o pensamento da esquerda reformista. A Revolução Russa de 1917 foi, sem dúvida, o principal fato do século XX em razão do seu valor histórico-universal, apesar de sua posterior degeneração stalinista.
        Após um século torna-se mais fácil perceber os equívocos e as intenções dos jornais de época, sobretudo se conhecemos os acontecimentos históricos que levaram os bolcheviques ao poder. É assustador – e esclarecedor – perceber a proximidade das posições da imprensa burguesa e da esquerda reformista. Saltam aos olhos a compreensão mútua e subjacente entre ambos quando se analisam trechos de algumas reportagens e notas dos jornais New York Times, O Estado de S.Paulo e A Federação, que era a publicação oficial do Partido Republicano Rio Grandense, de orientação castilhista (na época, um dos principais jornais do Rio Grande do Sul).
        Em A Federação, de 30 de abril de 1917, podemos ler uma longa citação dos jornais “socialistas” reformistas, que defendiam a continuidade da Rússia na 1ª Guerra até o “esmagamento do militarismo alemão”. Ou seja, A Federação soube tirar proveito do oportunismo deslavado da linha “socialista” oportunista, que orientava os operários e camponeses a servirem como bucha de canhão da burguesia russa e, consequentemente, da francesa e inglesa. Conclui este artigo com a reprodução de um editorial do jornal Russka Velia, também de orientação oportunista, em que podemos ler: “Não somente os socialistas, mas também os anarquistas, negam reconhecer em Lenin um partidário de suas doutrinas. É claro que os atos desse agitador não tem importância alguma, mas ameaçam romper a união dos socialistas russos”.

A Federação, de 30 de abril de 1917

        Quem fala pela boca dos “socialistas russos” é a própria burguesia. Tanto é assim que A Federação, um periódico da elite sul rio grandense, soube reconhecer seus interesses naquele editorial e se utilizar muito bem dele para influenciar os operários daqui, mostrando como devem agir os “verdadeiros socialistas”. Cai de maduro que se os atos de Lenin não tivessem “importância alguma”, não poderiam ameaçar romper a união dos socialistas russos. Quem conhece a história da Revolução Russa sabe que os atos daquele “agitador” não só tiveram importância, como foram decisivos para o triunfo da revolução. A burguesia prezava pela “união dos socialistas” [reformistas] porque dessa “unidade” dependia a sorte do governo provisório russo e, por conseguinte, a sua própria sorte na guerra mundial. Ela era um dique de contenção para o descontentamento dos trabalhadores russos. Se não fosse rompida, não haveria revolução de outubro.
        Seguindo o seu instinto de classe muito sorrateiramente, O Estado de S.Paulo também se apercebeu da ameaça representada por Lenin. No dia 20 de abril de 1917 publicou uma reportagem, com manchete intitulada “O discurso do socialista Lenin”, em que afirmava: “Os jornais criticam severamente o discurso do socialista democrata Lenin, que acaba de chegar do exílio, aconselhando o governo a solicitar a paz à Alemanha” (grifos nossos). Cumprindo seu papel de eco dos amos internacionais, o jornal paulista, se escondendo atrás dos jornais que “criticam o discurso” de Lenin (sem dizer quais eram), reforça a tentativa de sua desmoralização política, como se o que ele estivesse defendendo fosse um crime e não a própria continuidade da guerra em nome dos interesses imperialistas. A manutenção da Rússia na guerra mundial foi uma política prioritária do governo provisório de Kerensky. Era unânime a política do “socialismo reformista” em seguir de forma submissa esta diretriz: desde os mencheviques liderados por Martov e Plekhanov, até os bolcheviques que não estavam exilados, como Kamenev, Zinoviev e Stalin. Somente com a chegada de Lenin à estação Finlândia, no dia 3 de abril de 1917, é que os bolcheviques mudaram sua política ameaçando romper a tão prezada “unidade dos socialistas russos”. Esta nova política, como se pode ver pela repercussão na imprensa mundial, causou preocupação por parte da burguesia, que compreendeu bem qual papel procurava cumprir o “agitador sem importância”. A permanência da Rússia na guerra era fundamental para os interesses imperialistas dos países da Tríplice Entente. A saída da Rússia da guerra, uma exigência dos trabalhadores e do povo russo em geral, somente foi acolhida por Lenin e, posteriormente, após duras críticas, pelos outros bolcheviques. A manutenção daquela “unidade socialista”, portanto, era anti-operária e anti-popular, servindo apenas aos interesses da burguesia imperialista.

O "agitador sem importância" falando aos soldados, camponeses e operários

        Procurando reforçar a política oportunista do reformismo socialista, o New York Times lançou uma nota no dia 14 de abril de 1917, afirmando que “o Partido Socialista defendia a continuação da guerra contra a Alemanha e que apenas um grupo de social-democratas extremistas [no caso os bolcheviques liderados por Lenin] continua criando problemas com suas publicações, Iskra em Petrogrado e A Social Democracia em Moscou [os dois eram jornais bolcheviques]. Seus temerários e inescrupulosos ataques não apenas ao governo [provisório], mas a todos os grupos socialistas menos eles mesmos, provocaram uma saudável reação. Eles estão se isolando” (grifos e adendos entre colchetes nossos).
        Para o NYT uma saudável reação não seria o fim da guerra, mas o isolamento dos bolcheviques. Não casualmente a atual esquerda continua trabalhando com a mesma fórmula de isolamento de posições minoritárias que lhe são incômodas. Aqui reside um parentesco e um diálogo entre o “socialismo” reformista e a imprensa burguesa. Caso não houvesse tido esta ousadia consciente por parte do “grupo de social-democratas extremistas”, certamente não teria havido Revolução Russa e, muito menos, a Rússia teria saído da Guerra Mundial, preparando as bases para o fim do conflito bélico imperialista. Que estas sucintas linhas, de uma clareza insofismável, deixe as futuras gerações bem conscientes do papel cumprido em cumplicidade pela imprensa burguesa e o reformismo socialista.


Fontes:
- A Federação, de 30/04/1917
- O Estado de São Paulo, de 20/04/1917
- The New York Times, de 14/04/1917
- Revista Press, Ano 21, Edição 176

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Os piromaníacos

– Boa noite. O Canal Imparcial traz para a discussão esta noite o grande incêndio que está se alastrando por todo o país e pelo mundo. Ele já consome 98% do território nacional, ameaçando devastar toda a América Latina e os demais países de terceiro mundo. Este incêndio, que se iniciou em 2008, e já foi chamado por um de nossos presidentes de “fogo de palha”, se intensificou no país a partir de 2015, depondo uma presidente e prometendo consumir Brasília em chamas. Para debater este tema o Canal Imparcial traz para a nossa bancada o ex-presidente Nero. Boa noite, presidente!

– Boa noite. É realmente um prazer estar aqui.
       
– E para entrevista-lo junto comigo estão presentes os jornalistas Ricardo Fogofátuo da Luz, Fernando Fogaça e Fábio Fogueira de São João.
        
– Presidente, eu queria começar lhe perguntando o que todo mundo quer saber: foi você que começou esse incêndio?
       
– Não, de maneira nenhuma! Tenho todas as minhas caixas de fósforos e isqueiros fiscalizados e aprovados pelo TSE. Sou totalmente inocente.
            
– Mas há indícios que o senhor está envolvido.
           
– Não há indício algum. Todos sabem que durante meu governo trabalhei dia e noite para contê-lo e continuo apoiando as propostas do governo atual para solucionar todo este problema.
            
– Já que o senhor tocou nesse ponto: como avalia o andamento das reformas para resolver este incêndio?
        
– Acredito que estejam no caminho correto, dentro do possível. Vejo que a atual base aliada do governo federal está dando um suporte responsável e propõe estocar mais de 150 milhões de galões de gasolina. Eles vão começar jogando gasolina pelas periferias do incêndio, para derreter os focos de CLT; e depois é preciso dar peso jogando todo o restante no centro, na aposentadoria. Acredito que com estas medidas dentro de um ou dois anos o incêndio estará contido.
       
– Presidente, há quem diga que estas reformas não resolverão nada; só piorarão as labaredas. O que senhor acha disso e da proposta destes setores de trocar os galões de gasolina por álcool?
            
– Talvez esta seja uma medida que possa surtir algum efeito demorando um pouco mais, mas nós temos pressa! Em caso de haver muita resistência à gasolina a gente pode optar pelo álcool. Já digo, de antemão, que não é o ideal, mas pode ser uma saída provisória pra tentarmos consertar logo este incêndio. Tem um outro setor da política nacional, bastante influente, que ao invés de propor o álcool, defende que coloquemos lenha. É uma opção bastante interessante, mas há que se ponderar os riscos, porque lenha tu tem que colocar a mão dentro do fogo, álcool ou gasolina se pode borrifar de longe.
     
– Presidente, deixe eu lhe fazer uma última pergunta: temos ouvido seguidamente de parte dos movimentos sociais que só haveria uma saída, que seria jogar água por todos os meios: caminhão de bombeiros, hidrantes, rios, chuva, enfim. Qual sua avaliação sobre isso?
            
– Isso é loucura! Somente gente fora da realidade pode defender algo assim. Se jogar água o país vai quebrar! O mercado só dá demonstrações de calma se aplicarmos as reformas da gasolina. Se fôssemos irresponsáveis poderíamos fazer isso (risos), mas isso definitivamente não tem cabimento.
       
– Está certo. O Canal Imparcial agradece a sua presença e reforça o seu compromisso com a democracia e a imparcialidade das informações. Esperamos que tenhamos a cabeça no lugar para conter este incêndio preocupante que ameaça queimar vivo a todos nós. A você que nos assistiu até aqui o nosso muito obrigado e boa noite.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Os difíceis dias da República da Operação Lava Jato

9 de maio de 2017
As várias propagandas do governo Temer na TV (e de todos os seus partidos aliados, indo do PMDB, ao PSDB, passando pelo Democratas), pagas com dinheiro público, não são apenas revoltantes, mas violentas. Elas agridem toda vez que são veiculadas. Agridem e violentam a dignidade do país, do povo, de qualquer um que ainda se dê o respeito.


Mentira em cima de mentira; maquiada por marketeiros; banhada com dinheiro público. Isso não pode ser considerado como liberdade de expressão! É uma autêntica campanha de propaganda nazista...
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Sartori (PMDB) e Ana Amélia (PP) à frente das pesquisas eleitorais: isso é uma piada de mau gosto! Não que eu duvide que tenham pessoas irracionais e mau intencionadas, interesseiras, que votariam nestes entulhos, mas porque estas pesquisas não passam de uma manipulação descarada, que induzem o voto apresentando os candidatos e partidos “mais bem posicionados”. A partir daí, a mídia dá maior cobertura a estes candidatos, o que é outra aberração. É a morte da democracia antes de nascer. Este tipo de pesquisa prévia deveria ser proibida, mas é exatamente ela que dá a tônica para o “debate eleitoral” e para as eleições.

Em 2014 as pesquisas erraram descaradamente (não 1 ou 2 pontos percentuais, mas mais de 20%) e causaram grande comoção, levando à proposta de criação de uma CPI no Congresso Nacional, que foi rapidamente abafada através do lobby dos grandes monopólios de “comunicação”.
Novamente vamos nós chafurdar numa mentira institucionalizada, cheia de pequenos e grandes golpes, manipulações, chantagens... depois vamos ter outro gerente do grande capital - eleito por um processo, no mínimo, duvidoso - a nos massacrar e esmagar sem piedade alguma. Esta é a síntese da democracia burguesa.
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Programa obrigatório do Democratas na TV (ex-PFL, ex-ARENA - o partido da ditadura militar):
- Falam que a educação tem que "se tornar um consenso nacional". Eles estão à frente da "Reforma do Ensino Médio", que apenas vai enxugar o quadro de educadores e do serviço público, além de preparar a mão de obra da juventude da escola pública para a exploração impiedosa do mercado, sem CLT, sem aposentadoria, sem direito nenhum.
- Mostram-se comovidos com os milhares de desempregados, mas defendem todas as reformas, que vão criar milhares de desempregados e subempregados novos, pra depois se venderem como "reformadores". Querem apagar fogo com gasolina!
Se existisse uma "tecla SAP" pra podermos traduzir e levantar o véu da hipocrisia destes canalhas, o único discurso que veríamos seria o seguinte: vamos aplicar rápido todas as reformas para continuar vendendo o país ao capital estrangeiro, para manter o Brasil sem projeto de país, dependente e totalmente subordinado aos bancos, à dívida pública e ao mercado financeiro dos países imperialistas.
Esta é a sua verdadeira propaganda!
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O primeiro teste:
Projeto de Marchezan que acrescenta R$ 13 mil ao salário de dois secretários vai a votação
Governo alega que proposta é necessária para atrair quadros qualificados (manchete do site da Zero Hora)
Esta é a "eficiência" do PSDB; esta é a transparência deste e dos "novos" governos da direita; esta é a verdadeira e única face de todos os partidos neoliberais: seja o PMDB, o PSDB, o Democratas, o PP... ou este entulho chamado de "Partido Novo", que elegeu vários vereadores. A única coisa que se sente por detrás dessa máscara de "novo" é o cheiro da velha podridão!

11 de maio de 2017
Assisti grande parte do depoimento do Lula no Youtube. E assisti também o Jornal Nacional. Os trechos selecionados pelo JN são absurdamente direcionados e manipulados, tal como a eleição de 1989 pelo diretor global Boni.

Se é certo que Lula e o PT pagam o preço pela conciliação de classe com esta incessante criminalização midiática e estes julgamentos eminentemente políticos, também é certo que a brutal ofensiva da grande mídia neste episódio abre um novo papel na monstruosidade dos seus métodos de distorção.

Estou vendo, sem acreditar nos meus olhos, a assombrosa concretização do "admirável mundo novo", 1984, mesclado ao pesadelo dos métodos de propaganda nazi-fascistas e stalinistas.

domingo, 7 de maio de 2017

O que é solidariedade de classe?*

A dominação da burocracia sindical sobre o CPERS impede o surgimento de uma consciência de classe na nossa categoria. Esta é uma das razões para vermos tanta alienação política e sindical no chão das escolas, que se expressa, de uma forma mais clara, nas redes sociais. A inexistência de consciência de classe leva à ausência de solidariedade de classe e facilita a vida dos governos e dos patrões. A nossa força reside no nosso número. Para fazer valer essa força é necessário união, organização e solidariedade de classe. Esta solidariedade é diferente da solidariedade “humana” em geral, que pode se dar em relação a uma calamidade natural e climática, ou relacionada a um problema de outra ordem. No caso da solidariedade de classe, trata-se de questões políticas, de companheirismo e cooperação entre os trabalhadores na luta pela sua emancipação.
A política das sucessivas direções do CPERS apenas aprofundou a divisão na base de nossa categoria. Os recentes episódios envolvendo remoções e demissões de educadores, em plena greve, também comprova a ausência de solidariedade de classe entre a categoria e, principalmente, dentro do CPERS. Sem cultivar esta solidariedade tão importante para a luta da nossa categoria, como falar em solidariedade intercategorias e sobre o internacionalismo proletário (isto é, a solidariedade entre os trabalhadores do mundo)?
                O capitalismo lança os trabalhadores numa luta entre si pela sobrevivência, representada pela concorrência por um emprego. Eles não percebem ou secundarizam que possuem um inimigo em comum, que se vale de suas necessidades imediatas para ganhar a vida; os donos do capital (a burguesia e, no nosso caso, o Estado), por sua vez, aproveitam-se do fato de não possuirmos meios de produção para nos obrigar a aceitar as suas condições empregatícias. A Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), fundada em 1864, tinha como um dos seus principais objetivos a solidariedade de classe internacional entre os trabalhadores do mundo.
                Nas suas Instruções para os delegados do conselho geral provisório, escrito em 1866, Karl Marx esboçou as diretrizes gerais da AIT, estabelecendo que ela tinha como objetivo “combinar e generalizar os esforços de emancipação, até agora desconexos, das classes operárias dos diferentes países”. Além disso, advertia para a necessidade de “contrariar as intrigas dos capitalistas”, que estão “sempre prontos, em casos de greves e lockouts, a abusarem do operário estrangeiro como ferramenta contra o operário nativo”, sendo que esta seria “uma das particulares funções que a nossa sociedade (a capitalista) tem, até agora, desempenhado com sucesso”. Conclui que um dos “grandes propósitos da Associação é fazer com que os operários dos diferentes países não só se sintam, mas atuem como irmãos e camaradas no exército da emancipação”. Além dessas diretrizes gerais, a tradição da AIT incentivava o fundo de greve e o caixa de ajuda mútua para socorrer os operários nos momentos difíceis de perseguição e desemprego. Eram todas expressões materiais da solidariedade de classe. O ápice da organização deste movimento internacionalista se deu com a deflagração de greves de determinadas categorias do operariado que tinha como principal reivindicação a solidariedade para com outras categorias ou setores sociais que sofriam com os ataques patronais e a repressão; isto é: greve de solidariedade a outras categorias em greve. O quanto retrocedemos de lá para cá?

A solidariedade de classe e a divisão da nossa categoria
No caso específico do magistério público estadual, um dos grandes fossos que impede a unificação da nossa categoria é a divisão entre trabalhadores nomeados e contratados. Nada demonstra mais a total falta de solidariedade de classe do que esta relação, tal como os “debates” que se expressam nas redes sociais ou pela política reacionária da direção central. Como sabemos, esta divisão foi conscientemente construída por diferentes governos com a finalidade de rebaixar e restringir direitos, reduzir custos e, evidentemente, dificultar a unidade sindical. Quem não consegue enxergar isso é cego ou está interessado em manter esta divisão – em ambos os casos deveria estar bem longe da direção do nosso sindicato.
                Apesar de regimes de trabalhos diferentes e da forma de admissão, nomeados e contratados estão no mesmo barco: os segundos têm os mesmos deveres, mas não os mesmos direitos. Vimos neste início de 2017 o caos nas escolas, com demissões e remoções de professores, enquanto a direção do CPERS nada fez e naturalizou tudo, com exceção do ato simbólico contra a remoção do professor Zé, da escola ditador Costa e Silva, que também não conseguiu ser reintegrado em razão desta inoperância. Em muitos casos a política oficial do CPERS apenas reforçou o discurso patronal contra os trabalhadores contratados. Um dos casos mais bizarros se deu com um dirigente do núcleo 39, de Porto Alegre, que é contratado e perdeu todas as horas em sua escola. Ele simplesmente foi largado à própria sorte pela direção do núcleo e do CPERS. Quando elaboramos a bandeira da efetivação dos educadores contratados após 3 anos de efetivo exercício, por exemplo, foi baseado nesta necessidade de solidariedade de classe visando a unidade sindical da base. Porém, ainda que setores atrasados de nossa categoria tenham se oposto a ela por razões rebaixadas, nada classistas, também vimos uma resistência inaceitável por parte de correntes sindicais da atual direção do CPERS e das ditas de “oposição”; correntes que se dizem “socialistas”. Que espécie de “socialismo” podem defender se não são capazes de lutar pela igualdade de condições de trabalho entre uma mesma categoria? Para elas, os mecanismos legalistas do Estado burguês estão acima da luta concreta e da solidariedade de classe.
O caso do fundo de greve também é simbólico: a direção do CPERS tem lutado com todas as suas forças para não aprovar fundos de greve e, inclusive, tem justificado tais ações teoricamente, dizendo que não há mais espaço para este tipo de “solidariedade”. Apesar de arrecadar mais de R$1 milhão por mês, a direção do CPERS sempre afirma que “está no vermelho”. Em quê todas estas ações se parecem com as recomendações de Marx aos delegados da AIT?
                O avanço da direita no país tem intensificado os planos de ajuste do grande capital. Um dos objetivos é a destruição total dos planos de carreira para possibilitar a demissão de servidores nomeados. Da forma aristocrática como conduz a discussão sobre os contratados, a burocracia sindical do CPERS só poderá aprofundar a divisão da nossa categoria e ajudar a preparar as condições para a destruição dos planos de carreira – como tem feito com sua política desastrosa – e a demissão dos educadores contratados – como já estamos acompanhando. As correntes sindicais majoritárias do CPERS são incapazes de intervir nos debates da base da categoria, que expressam um profundo atraso político e apenas reforçam esta divisão, no sentido de elevá-los; isto é, no sentido de fazê-los saírem do campo das picuinhas individuais para o da política. A solidariedade e a consciência de classe, neste caso, seriam os nomeados defenderem os direitos dos contratados (que somente se expressaria através da sua efetivação); e os contratados, defenderem o plano de carreira, mesmo sem ter o direito a ele neste momento. Solidariedade de classe também significa possibilitar a concretização de uma rede com a estrutura material do sindicato aos colegas descontados, removidos e demitidos; além de criar caixas de solidariedade e fundos de greve. Se não existem condições financeiras em determinado momento, há que se criá-las como uma de nossas prioridades.
Somente uma direção classista e revolucionária pode trabalhar para desenvolver solidariedade e consciência de classe em nossa categoria. O sindicalismo burocrático e reformista representado pelas sucessivas direções do CPERS apenas aprofunda o caos e a desunião no chão das escolas, deixando-as à mercê da sua própria sorte. A formação teórica continua sendo uma de nossas armas mais poderosas para desenvolvermos esta consciência de classe. Porém, ela precisa ser classista, revolucionária e deve se esforçar para integrar a base da categoria em todos estes debates.

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*Texto escrito por um militante da oposição de esquerda à burocracia sindical do CPERS.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Como combater a meritocracia e as privatizações?

A grande mídia – em particular a RBS – e os governos neoliberais financiaram por décadas a propaganda ideológica de que os serviços públicos são inviáveis. A solução que apresentam para “resolver seus problemas” é sempre a mesma: privatizá-los; isto é, transferi-los, um a um, para a iniciativa privada. Se isso acontecesse, significaria que os atuais funcionários públicos seriam regidos por um regime de trabalho de empresa privada, passíveis de demissões, descontos e remoções arbitrárias, bem como trabalhar segundo os índices de produtividade estabelecidos pelos patrões.
Ininterruptamente veiculado na grande mídia, o discurso neoliberal acabou por se impor; e, por isso, a solução aceita como natural pelo senso comum e pela tacanhice da classe média é a de que só existiria o caminho da privatização dos serviços públicos. Todos os governos governaram tendo como objetivo único o pagamento da dívida e o suposto enfrentamento ao déficit orçamentário, o que levou a uma drástica diminuição dos recursos investidos em áreas sociais, como saúde e educação. Os governos que privatizaram todos os serviços públicos passaram por grandes crises sociais: EUA, Inglaterra, Chile e Argentina são alguns destes exemplos. Nos EUA e na Inglaterra há uma grave crise na saúde pública, muito bem retratada no documentário S.O.S. Health, de Michael Moore; o Chile vive uma profunda crise na educação, que tornou-se privilégio; a Argentina vive um aumento exponencial da pobreza nas periferias de Buenos Aires, tal como no Brasil.
O resultado é que com a política neoliberal aplicada nas últimas décadas, os serviços públicos se degeneraram, com péssimas condições de trabalho e os salários arrochados, rebaixando a qualidade dos serviços prestados. Isto serviu por anos como exemplo de que o “público não funciona” e o “privado é a solução”. Porém, as raízes perversas desta lógica nunca foram desenterradas amplamente e combatidas abertamente. Os servidores públicos acabaram reféns dela. Isto é, os sindicatos e os partidos de “esquerda” não foram capazes de enfrentar estes ataques ideológicos e deixaram os trabalhadores a mercê deles. A visão meritocrática paira sobre as nossas cabeças triunfalmente por falta de um contraponto ideológico e de um plano para combatê-la. Mesmo alguns servidores abraçam acriticamente a defesa das privatizações ou da meritocracia contra si próprios, ou são coniventes com estes ataques por não quererem mudar, repensar, renovar; mas apenas reclamar!
Grande contingente de servidores públicos se adaptou oportunistamente ao discurso do menor esforço e a aceitação deste estado de coisas: “não ganho bem, então não trabalho mesmo”; ou “não podem me demitir, que se danem!”. Isso significa que muitos servidores públicos não procuram ou não querem entender as raízes destes problemas e viram as costas para a sua responsabilidade social, sobretudo em razão da estabilidade – não casualmente, um dos focos dos ataques da mídia e dos partidos neoliberais. Assim, decai ainda mais a qualidade dos serviços públicos prestados; e agora por outros motivos.
Mas não necessariamente deveria ser assim. O alegado caminho da privatização é uma enganação, servindo apenas para cortar gastos em nome dos grandes banqueiros e empresários, deixando a população desassistida. É preciso pensar a prática de todo o funcionalismo público a partir de uma perspectiva socialista, de valorização do Estado e do público. O sectarismo reinante no trato destas questões e a fuga deste debate por parte de sindicatos, partidos de “esquerda” e dos próprios servidores, apenas podem beneficiar a grande mídia e os partidos da direita neoliberal, que tiram vantagem desta omissão. É preciso um corajoso plano de desconstrução da ideologia neoliberal e a demonstração de que o principal problema dos serviços públicos é o baixo investimento e as péssimas condições de trabalho. Porém, é preciso combater também a acomodação e a apatia daqueles servidores que estagnam atrás da estabilidade (e nos contratos "emergenciais" também), deixando um importante flanco aberto para a mídia e os partidos da direita neoliberal. Todo aquele que deixa de meditar sobre sua prática profissional e se adapta negativamente a qualquer situação, está prestando um desserviço para a própria luta em defesa dos serviços públicos. Não há problemas em desenvolvermos uma escala de mérito no trabalho, para qualificá-lo cada vez mais. O problema é o mérito visando à demissão, ao fim do direito ao trabalho.
Cabe ressaltar que nunca poderemos resolver plenamente os problemas do serviço público mantendo o capitalismo, pois retirar direitos e privatizar é a sua lógica econômica intrínseca, o seu DNA. Enquanto ele existir, ameaçará permanentemente a existência dos serviços públicos ao povo. Dentro deste contexto, contudo, seria possível pensar e apresentar um outro caminho enquanto ainda não se pode superá-lo, para contrapormos àquela cantilena neoliberal de que os “serviços públicos não funcionam”. Se as privatizações resolvessem alguma coisa, ao privatizar Vale do Rio Doce, Telebrás, Eletrobrás, Petrobrás e Embraer, teríamos gerado mais riqueza e desenvolvimento para o país, e não uma nova e pior “crise financeira” para os cofres públicos. Além disso, a privatização total do setor de telefonias gerou altos índices de reclamação pelo péssimo atendimento e serviços prestados. Por acaso não existem inúmeros problemas de qualidade nas empresas privadas também?

A demissão resolve alguma coisa?
A possibilidade de demitir servidores é a única “solução” apresentada pelos neoliberais, defensores da privatização e do fim dos serviços públicos. É, também, o principal objetivo deles. Quem traça as diretrizes do pensamento neoliberal não são as demandas profissionais do serviço público, mas a agenda econômica.
Enquanto os trabalhadores não têm condições políticas e econômicas para superar o capitalismo, é muito importante apresentar um contraponto para servir como trincheira de defesa do que é público. Seria importante debatermos uma reutilização dos servidores com baixo desempenho em outras funções ou mesmo em outras unidades de trabalho, tenham eles estabilidade ou não. A estabilidade deve ser uma garantia contra a arbitrariedade e tirania das demissões, bem como garantia do direito ao trabalho, mas nunca uma imunidade à críticas e aos balanços. E estas críticas não podem ser o álibi para se cortar custos e destruir o setor público. Se poderia pensar numa forma em que alunos, pais e pacientes, enfim, os usuários e dependentes dos serviços públicos, cumpririam o papel de avaliadores, levando em conta a aprendizagem, o respeito, o desempenho geral, no sentido de melhorar a qualidade dos serviços públicos; e nunca a sua mera e simples demissão, que é sempre o objetivo dos governos neoliberais seguindo diretrizes econômicas internacionais. É preciso perguntar: seria a demissão um solucionador dos problemas sociais na prestação de qualquer serviço ou uma excelente forma dos patrões e governos se livrarem de encargos sociais?
O servidor que ao final de um período fosse aprovado, se manteria no seu posto, ganhando outras atribuições e podendo escolher certas condições de trabalho; enfim, tendo um pouco mais de liberdade no seu trabalho; os “reprovados” seriam deslocados para “reciclagem” em outras funções, mantendo o emprego, mas perdendo o posto anterior. Deveriam passar por cursos de formação e aprimoramento; isto é, deveriam começar de novo, levando em consideração as lições de sua “reprovação”. Quanto mais reincidente um reprovado se tornasse, mais ele seria tirado de circulação e do contato com o público, fazendo serviços administrativos, burocráticos, corriqueiros, mas, evidente e necessariamente, sendo acompanhado por uma equipe de Recursos Humanos, tentando elevar sua moral, e não simplesmente atirando-o num canto como “coisa inútil”.
No pior das hipóteses existiria a possibilidade de supervisão permanente e do desconto salarial, que são mecanismos que precisam ser utilizados com sabedoria para não desgastá-los desnecessariamente.

A questão do corte do ponto e do desconto salarial
O mecanismo de desconto salarial precisa ser utilizado com parcimônia e sabedoria. É certo que existem muitos dirigentes do serviço público que caem num “amiguismo” e tem medo de descontar omissões, faltas e problemas de outra ordem dos colegas mais próximos. Entramos numa sinuca de bico, que gera um mal estar muito grande e abre precedentes para a “ditadura do descaso”. O regime de trabalho se afrouxa a tal ponto de perder o controle da entidade pública, aprofundando o caos que vem de cima. Em outros casos, “gestores públicos” tentam agir como um patrão: descontam greve, não procuram saber ou desconsideram motivos de faltas, nem tentam solucionar o problema de outra forma. Simplesmente riscam o ponto e está tudo resolvido.
Em ambos os casos temos problemas sérios que levam ao desleixo total ou ao medo e ao assédio moral autoritário. O primeiro afrouxa o regime de trabalho; o segundo não é eficiente, pois com a atual estrutura do serviço público se desenvolvem várias formas de resistências (boas e más), mesmo ao autoritarismo de direções e gestores.
        O caminho para o desconto salarial deve ser construído de forma coletiva, como fruto de um novo trabalho entre colegas, onde se percebem os graves problemas e, pelo menos, a maioria, compreende a necessidade da mudança. O corte do ponto e o desconto salarial devem ter seus critérios também construídos democraticamente. Isto é, precisam ser precedidos por mecanismos para suprir a falta e não simplesmente o corte do ponto de forma nua e crua. É preciso o diálogo entre a coletividade no sentido de se mostrar que é preciso fazer alguma coisa frente à omissão e as ausências reincidentes. Caso nada seja feito, é um novo triunfo da grande mídia e dos governos neoliberais na sua luta pela desmoralização dos serviços públicos. A argumentação destes sobre a necessidade de se privatizar os serviços públicos ganha força e apoio. É importante lembrar que o aprimoramento e melhoramento dos serviços públicos serve, fundamentalmente, para atender o povo mais pobre e desassistido, os trabalhadores e seus filhos.
        Antes de tudo, é preciso ter a coragem que o movimento sindical não tem, de pautar estes temas incômodos no sentido de defender o serviço público contra os brutais ataques da mídia e do governo, mas também reconhecer nossos erros e falhas. O desconto salarial é um mecanismo ditatorial nas mãos de um individuo, que o utiliza para explorar, adestrar e subjugar indivíduos, mas, como lamentavelmente vivemos numa sociedade dividida em classes, com inúmeros problemas, podemos e devemos utilizá-lo no “bom sentido”, visando elevar a qualidade dos serviços públicos e o comprometimento com ele. Por tudo isso, o corte do ponto é apenas um meio possível de utilização, e não a solução dos problemas, como muitos “gestores públicos” pensam. Caso o corte salarial resolvesse todo o problema, a privatização total seria a solução.

É preciso uma gestão horizontal e transparente, respeitando as decisões coletivas e trabalhando para que elas sejam concretizadas honestamente
        A solução para melhorar os serviços públicos está numa forma de gestão aberta, transparente e voltada para o social, com decisões democráticas e abertas. Os pessimistas incuráveis ou os sabotadores conscientes dirão que isso é impossível, pois só serviria para aprofundar o desleixo e o caos. Mas uma forma de trabalho deste tipo nunca foi tentada seriamente. No essencial, sempre foi sabotada pelas leis, pelo hierarquismo e pelo burocratismo. Debater com o contraditório e procurar um caminho diferente gera medo, porque é algo novo e difícil. Se for tentado seriamente, principalmente com método e persistência, certamente dará frutos e tenderá ao aumento da qualidade do serviço prestado. Ao mesmo tempo que o coletivo decide democraticamente o que fazer, é necessário debater uma disciplina coletiva e as punições a quem infringe esta disciplina, que pode ser corte salarial ou outras formas. O debate democrático dará mais autoridade para este tipo de procedimento do que a ação arbitrária de uma única pessoa ou direção.
Os pessimistas e sabotadores insistirão que se houver ampla democracia, muitos trabalhadores simplesmente dirão que “preferem não trabalhar”, mas é importantíssimo ressaltar que esta opção não existe. Se somos uma escola pública, por exemplo, e temos um calendário letivo a ser cumprido, como construí-lo coletivamente? Como aproveitar os sábados (que são inevitáveis)? Não existirá, por exemplo, a possibilidade de não trabalhar nos sábados.
Em suma, não deverá haver a opção de não trabalhar e só ir empurrando com a barriga, como pensam e fazem muitos; mas simplesmente debater democraticamente a melhor forma de trabalhar e de prestar o nosso serviço para a população. Não é possível fazer tudo isso tendo salários parcelados e péssimas condições de trabalho, dirão alguns; o que é parcialmente correto. Mas como fazer o nosso melhor dentro de condições difíceis? O que priorizar e o que secundarizar? Por acaso devemos nós abrir mão de tudo, inclusive dos serviços públicos, facilitando a vida da grande mídia e dos governos neoliberais?
Pois é este o único caminho que nos espera, caso sejamos negligentes e desleixados. Somente apresentaremos um caminho alternativo se nos unirmos democraticamente e soubermos crescer, tropeçando e reconstruindo degraus em unidade. Se é difícil construirmos uma gestão democrática e coletiva, é mais certo ainda que quando o método for construído e solidificado em torno desta prática, a tendência é ir melhorando a qualidade do trabalho – uma vez que será mais compreendido e pensado coletivamente – e o conjunto de servidores tenderá a se ver como um corpo mais coeso e não numa guerra de todos contra todos, entre grupo de amigos e os excluídos.
Por outro lado, é certo também que a lei e a arrogância de muitos servidores públicos serão um empecilho para estas mudanças, mas toda e qualquer mudança começa com um primeiro passo, com uma nova visão e uma nova forma de pensar sobre velhos problemas. Para tudo isso é preciso, antes de qualquer coisa, coragem para se dar os primeiros passos!