sexta-feira, 16 de junho de 2017

O homem que esquecia


Charles Bittencourt era um bom homem: temente a deus, fraterno com as pessoas, educado. Se vestia à moda antiga: usava blazer, camisa social com suspensórios e chapéu dos anos 1950. Não se metia em política, mas julgava-se politizado o suficiente para emitir algumas opiniões. Era funcionário público de carreira. Não que ele fosse dos melhores, mas também não era relapso, como virou costume ouvir acusações a respeito, sobretudo vindo dos meios de comunicação. Por consequência, como as atribuições do seu cargo exigiam, ele não tinha vícios e buscava ser um “bom cristão”. Possuía uma bela família, que trabalhava duro para sustentar. Era bastante amável com ela, dedicando-lhe bastante tempo. É claro: ninguém é de ferro! Às vezes brigava com a mulher ou algum dos filhos, mas nada que fugisse ao bom senso. Ia de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Durante este percurso, o universo buscava contato.
         
Certo dia, em uma manhã chuvosa e cinzenta, Charles vestiu seu blazer marrom e saiu caminhando pela rua em direção ao trabalho (sim, ele trabalhava perto de casa e nem ônibus precisava pegar, embora tivesse um belo carro popular na garagem, usado apenas em ocasiões especiais). Quando se aproximava da esquina, viu uma cena absurda, horrenda, inaceitável. Uma mãe, vestida só com trapos e possuindo apenas sacos com escassos pertences, segurava um bebê que chorava de fome. Seus olhares se entrecruzaram. Charles não pôde evitar. Foi tão sentido e tão desesperado, que lhe ficou gravado na mente até chegar ao trabalho. Nenhum preconceito plantado na sua mente por anos de debates familiares, nenhuma criminalização midiática, nenhuma ideologia foi capaz de esconder aquele fato tão cruel e desumano ali, bem debaixo do seu nariz, quase na porta de sua casa. A mãe murmurou palavras monossilábicas pedindo ajuda, como se fossem grunhidos. Charles constrangeu-se profundamente. Arregalou os olhos, alisou o seu blazer e lançou um qualquer “não tenho nada” para poder seguir apressando o passo.
         
Chegou no trabalho pálido. Algo de estranho tinha acontecido. Suando e aflito, tomou um copo d’água de um gole só. Os colegas, preocupados, foram lhe perguntar: “o que foi, colega?”. Charles respondeu: “nada, nada!”. E sentou-se para trabalhar. A maré da rotina avançou sobre sua consciência. Começou a trabalhar e imediatamente esqueceu-se de tudo. Um pouco depois já estava conversando com os colegas animadamente e falando sobre a partida de futebol do seu time.
         
Durante toda aquela semana, Charles saía de casa e se deparava com aquela mãe e o seu bebê subnutrido. Novamente uma onda de agitações lhe atormentava, mas chegava no trabalho e era logo afogado pelo mar da rotina. Se esquecia de tudo outra vez. E lá estava o seu colega, do setor ao lado, conversando animadamente com ele sobre e vitória da seleção brasileira da semana passada. E novamente, tendo muito que trabalhar, Charles esquecia-se de tudo.
         
Quinze dias mais tarde, Charles não viu mais a mãe e o seu bebê subnutrido, mas encontrou dezenas de moradores de rua dormindo empoleirados uns sobre os outros, embaixo de uma marquise de loja, próximo à entrada do edifício do seu trabalho. Ele pensou consigo: “que vida, meu deus do céu! Como isso é possível em pleno século 21?”, mas chegando à sua repartição pública, tendo muito que trabalhar, logo esqueceu de tudo.
         
Num primeiro momento, Charles não percebeu que estes episódios foram lhe corroendo a própria dignidade humana, mesmo que ele próprio tivesse condições dignas de vida. Olhava para os filhos e para a esposa e suspirava aliviado, mas ao adormecer, tinha sonhos horripilantes, onde via esqueletos humanos, crianças subnutridas e a morte, a espreitar todos eles. Acordava assustado, mas não associava estes sonhos à nada, a não ser à forças do além. Levantava-se, chegava no trabalho e, tendo muito que trabalhar, logo se esquecia de tudo.
         
Que força inconveniente era esta que abria um clarão de luz na sua mente para uma parcela da realidade que parecia não existir, mas que logo depois lhe fazia sutilmente esquecer de tudo? Certo dia ficou sabendo que a filha de um colega de trabalho foi estuprada em um assalto. Charles horrorizou-se, empalideceu! Que sociedade era aquela? Mas tinha muito que trabalhar, logo esquecia de tudo. Dias mais tarde, soube que uma colega de trabalho apanhava regularmente do marido, o que explicava muitos hematomas que ela exibia e justificava como sendo quedas e acidentes de trabalho doméstico. Charles pensou na mulher: “deus me livre”. Uma sensação boa de saber que estava em paz com a esposa lhe acalantou o coração, mas como tinha muito trabalho a fazer, logo esqueceu-se da colega, que trabalhava no setor ao lado.
         
O mundo era maior do que o trajeto da casa até o trabalho de Charles. Muitos episódios perturbadores como aqueles foram se sucedendo em sua vida. Charles viu imagens na internet de um matadouro e tomou consciência de como a indústria da carne tratava um novilho recém nascido. Horrorizou-se. Chegou a pensar em tornar-se vegetariano. Tentou até pautar isso em conversas com colegas de trabalho, que o ouviram por alguns segundos, mas logo voltaram a falar sobre a espetacular partida da noite anterior. Como tinham muito trabalho a fazer naquele dia, Charles logo esqueceu de tudo.
         
Numa outra ocasião, Charles pôde ver imagens da guerra na Síria: crianças, mulheres e senhores de idade sendo bombardeado com armas químicas e mísseis de última geração, por “oposição” e situação. Chegou aos seus ouvidos a informação do grande número de refugiados que tentava chegar na Europa através de botes insalubres. Viu a imagem de uma criança morta, atirada ao relento na beira de uma praia qualquer. Como isso era absurdo! “Em que mundo vivemos?”, ele disse aos colegas ainda sob o impacto de todas aquelas cenas horríveis. Apesar de todas estas “coisas do mundo”, havia muito trabalho a fazer, e logo ele esquecia de tudo novamente.
         
Aqueles episódios todos, apesar de sempre esquecidos por Charles, acabaram se somando e despertando uma preocupação. “Devo estar doente”, ele concluiu. Foi ao médico: “doutor, eu vejo cenas horríveis todos os dias, nosso mundo está doente, mas logo a seguir eu e os meus colegas esquecemos de tudo. Eu acho que estou com alguma doença. Não é possível examinar meu cérebro?”. O médico franziu a testa. Pegou o estetoscópio e levou às costas de Charles; pediu que falasse “trinta e três”. Olhou seus olhos com uma lanterna. Pediu que colocasse a língua pra fora. Por fim, solicitou exames em três laboratórios diferentes. Ao chegar em um deles, que ficava no hospital central, Charles se deparou com uma fila enorme, cheia de idosos, crianças e mães com rostos de uma pintura de Tarsila do Amaral. Um senhor de idade desmaiou de tanto passar mal. Ficou ali, agonizando. Charles, que possuía plano de saúde privado, logo foi atendido e liberado. Porém, a cena do velho agonizando lhe marcou a mente como ferro e fogo. Sonhou com aquilo de noite. No outro dia, o trabalho acumulado lhe levou a esquecer tudo novamente. Apesar deste esforço para curar-se, o médico disse que Charles não tinha nenhum problema: “sua saúde é de ferro”. “Não é possível”, ele tentou argumentar com o médico, “você deve conhecer algum neurologista”. O médico indicou um conhecido seu. Novos exames foram feitos e nada de novo apareceu.
         
A pior notícia que acometeu Charles foi a de um operário que se suicidou de cima de uma caixa d’água quando viu que não teria condições de sustentar a própria família. “Por que isso, meu deus do céu, por quê?”, ele perguntava para si próprio em um surto humanizador. Procurou comentar com os colegas de trabalho sobre todos estes problemas. Eles apenas respondiam: “Ah Charles, sempre foi assim e sempre será!”, e tornavam a falar de futebol. Em casa, tentou desabafar com a esposa, mas ela estava muito preocupada com o almoço do dia seguinte e com a lista do supermercado. O filho mais velho jogava videogame no quarto e não deu a mínima para o pai quando ele se sentou na cama para tentar conversar. A filha, pendurada no celular, falando com amigos, também não deu muita atenção ao pai, plantado na sua frente, esperando uma resposta. Ficou aflito. Sentou-se na sua poltrona, bem no meio da sala, e logo após a novela de sua mulher ia começar a partida do seu time; ao primeiro ponta-pé Charles já havia esquecido de tudo.
         
Naquela noite, porém, Charles não conseguiu dormir. Foi como se uma força estranha lhe tivesse tomado conta. Apagou, exausto, às 2h; e acordou às 5h da manhã totalmente transtornado. Vestiu seu blazer marrom, colocou os suspensórios e o chapéu, tomou café, escovou os dentes e saiu de casa, perplexo, às 6h da manhã (uma hora mais cedo do que estava acostumado). Chegou no trabalho, subiu até o último andar e abriu a janela. Sentiu a brisa fresca das primeiras horas do dia. Respirou fundo. Pisou no parapeito, se agarrou na maçaneta da janela e como que fora de si lançou-se ao ar. Às 6h13min estava espatifado no pátio do seu trabalho. A partir das 7h da manhã um grupo de colegas olhava, horrorizado o que havia acontecido com o infeliz colega. 7h25min chegaram os primeiros repórteres e cinegrafistas para noticiar o fato. 

Na edição daquele dia o suicídio foi noticiado. O povo estarrecido e horrorizado leu aquela notícia, comentaram à boca pequena, passaram-na adiante, mas, como tinham muito que trabalhar, logo iniciaram suas atividades e esqueceram-se do ocorrido.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Os 100 anos da Revolução Russa e a imprensa burguesa

Analisar, 100 anos depois, como se deu a abordagem da Revolução Russa por parte da imprensa burguesa, nos permite tomar consciência de sua natureza, bem como de sua proximidade com o pensamento da esquerda reformista. A Revolução Russa de 1917 foi, sem dúvida, o principal fato do século XX em razão do seu valor histórico-universal, apesar de sua posterior degeneração stalinista.
        Após um século torna-se mais fácil perceber os equívocos e as intenções dos jornais de época, sobretudo se conhecemos os acontecimentos históricos que levaram os bolcheviques ao poder. É assustador – e esclarecedor – perceber a proximidade das posições da imprensa burguesa e da esquerda reformista. Saltam aos olhos a compreensão mútua e subjacente entre ambos quando se analisam trechos de algumas reportagens e notas dos jornais New York Times, O Estado de S.Paulo e A Federação, que era a publicação oficial do Partido Republicano Rio Grandense, de orientação castilhista (na época, um dos principais jornais do Rio Grande do Sul).
        Em A Federação, de 30 de abril de 1917, podemos ler uma longa citação dos jornais “socialistas” reformistas, que defendiam a continuidade da Rússia na 1ª Guerra até o “esmagamento do militarismo alemão”. Ou seja, A Federação soube tirar proveito do oportunismo deslavado da linha “socialista” oportunista, que orientava os operários e camponeses a servirem como bucha de canhão da burguesia russa e, consequentemente, da francesa e inglesa. Conclui este artigo com a reprodução de um editorial do jornal Russka Velia, também de orientação oportunista, em que podemos ler: “Não somente os socialistas, mas também os anarquistas, negam reconhecer em Lenin um partidário de suas doutrinas. É claro que os atos desse agitador não tem importância alguma, mas ameaçam romper a união dos socialistas russos”.

A Federação, de 30 de abril de 1917

        Quem fala pela boca dos “socialistas russos” é a própria burguesia. Tanto é assim que A Federação, um periódico da elite sul rio grandense, soube reconhecer seus interesses naquele editorial e se utilizar muito bem dele para influenciar os operários daqui, mostrando como devem agir os “verdadeiros socialistas”. Cai de maduro que se os atos de Lenin não tivessem “importância alguma”, não poderiam ameaçar romper a união dos socialistas russos. Quem conhece a história da Revolução Russa sabe que os atos daquele “agitador” não só tiveram importância, como foram decisivos para o triunfo da revolução. A burguesia prezava pela “união dos socialistas” [reformistas] porque dessa “unidade” dependia a sorte do governo provisório russo e, por conseguinte, a sua própria sorte na guerra mundial. Ela era um dique de contenção para o descontentamento dos trabalhadores russos. Se não fosse rompida, não haveria revolução de outubro.
        Seguindo o seu instinto de classe muito sorrateiramente, O Estado de S.Paulo também se apercebeu da ameaça representada por Lenin. No dia 20 de abril de 1917 publicou uma reportagem, com manchete intitulada “O discurso do socialista Lenin”, em que afirmava: “Os jornais criticam severamente o discurso do socialista democrata Lenin, que acaba de chegar do exílio, aconselhando o governo a solicitar a paz à Alemanha” (grifos nossos). Cumprindo seu papel de eco dos amos internacionais, o jornal paulista, se escondendo atrás dos jornais que “criticam o discurso” de Lenin (sem dizer quais eram), reforça a tentativa de sua desmoralização política, como se o que ele estivesse defendendo fosse um crime e não a própria continuidade da guerra em nome dos interesses imperialistas. A manutenção da Rússia na guerra mundial foi uma política prioritária do governo provisório de Kerensky. Era unânime a política do “socialismo reformista” em seguir de forma submissa esta diretriz: desde os mencheviques liderados por Martov e Plekhanov, até os bolcheviques que não estavam exilados, como Kamenev, Zinoviev e Stalin. Somente com a chegada de Lenin à estação Finlândia, no dia 3 de abril de 1917, é que os bolcheviques mudaram sua política ameaçando romper a tão prezada “unidade dos socialistas russos”. Esta nova política, como se pode ver pela repercussão na imprensa mundial, causou preocupação por parte da burguesia, que compreendeu bem qual papel procurava cumprir o “agitador sem importância”. A permanência da Rússia na guerra era fundamental para os interesses imperialistas dos países da Tríplice Entente. A saída da Rússia da guerra, uma exigência dos trabalhadores e do povo russo em geral, somente foi acolhida por Lenin e, posteriormente, após duras críticas, pelos outros bolcheviques. A manutenção daquela “unidade socialista”, portanto, era anti-operária e anti-popular, servindo apenas aos interesses da burguesia imperialista.

O "agitador sem importância" falando aos soldados, camponeses e operários

        Procurando reforçar a política oportunista do reformismo socialista, o New York Times lançou uma nota no dia 14 de abril de 1917, afirmando que “o Partido Socialista defendia a continuação da guerra contra a Alemanha e que apenas um grupo de social-democratas extremistas [no caso os bolcheviques liderados por Lenin] continua criando problemas com suas publicações, Iskra em Petrogrado e A Social Democracia em Moscou [os dois eram jornais bolcheviques]. Seus temerários e inescrupulosos ataques não apenas ao governo [provisório], mas a todos os grupos socialistas menos eles mesmos, provocaram uma saudável reação. Eles estão se isolando” (grifos e adendos entre colchetes nossos).
        Para o NYT uma saudável reação não seria o fim da guerra, mas o isolamento dos bolcheviques. Não casualmente a atual esquerda continua trabalhando com a mesma fórmula de isolamento de posições minoritárias que lhe são incômodas. Aqui reside um parentesco e um diálogo entre o “socialismo” reformista e a imprensa burguesa. Caso não houvesse tido esta ousadia consciente por parte do “grupo de social-democratas extremistas”, certamente não teria havido Revolução Russa e, muito menos, a Rússia teria saído da Guerra Mundial, preparando as bases para o fim do conflito bélico imperialista. Que estas sucintas linhas, de uma clareza insofismável, deixe as futuras gerações bem conscientes do papel cumprido em cumplicidade pela imprensa burguesa e o reformismo socialista.


Fontes:
- A Federação, de 30/04/1917
- O Estado de São Paulo, de 20/04/1917
- The New York Times, de 14/04/1917
- Revista Press, Ano 21, Edição 176

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Os piromaníacos

– Boa noite. O Canal Imparcial traz para a discussão esta noite o grande incêndio que está se alastrando por todo o país e pelo mundo. Ele já consome 98% do território nacional, ameaçando devastar toda a América Latina e os demais países de terceiro mundo. Este incêndio, que se iniciou em 2008, e já foi chamado por um de nossos presidentes de “fogo de palha”, se intensificou no país a partir de 2015, depondo uma presidente e prometendo consumir Brasília em chamas. Para debater este tema o Canal Imparcial traz para a nossa bancada o ex-presidente Nero. Boa noite, presidente!

– Boa noite. É realmente um prazer estar aqui.
       
– E para entrevista-lo junto comigo estão presentes os jornalistas Ricardo Fogofátuo da Luz, Fernando Fogaça e Fábio Fogueira de São João.
        
– Presidente, eu queria começar lhe perguntando o que todo mundo quer saber: foi você que começou esse incêndio?
       
– Não, de maneira nenhuma! Tenho todas as minhas caixas de fósforos e isqueiros fiscalizados e aprovados pelo TSE. Sou totalmente inocente.
            
– Mas há indícios que o senhor está envolvido.
           
– Não há indício algum. Todos sabem que durante meu governo trabalhei dia e noite para contê-lo e continuo apoiando as propostas do governo atual para solucionar todo este problema.
            
– Já que o senhor tocou nesse ponto: como avalia o andamento das reformas para resolver este incêndio?
        
– Acredito que estejam no caminho correto, dentro do possível. Vejo que a atual base aliada do governo federal está dando um suporte responsável e propõe estocar mais de 150 milhões de galões de gasolina. Eles vão começar jogando gasolina pelas periferias do incêndio, para derreter os focos de CLT; e depois é preciso dar peso jogando todo o restante no centro, na aposentadoria. Acredito que com estas medidas dentro de um ou dois anos o incêndio estará contido.
       
– Presidente, há quem diga que estas reformas não resolverão nada; só piorarão as labaredas. O que senhor acha disso e da proposta destes setores de trocar os galões de gasolina por álcool?
            
– Talvez esta seja uma medida que possa surtir algum efeito demorando um pouco mais, mas nós temos pressa! Em caso de haver muita resistência à gasolina a gente pode optar pelo álcool. Já digo, de antemão, que não é o ideal, mas pode ser uma saída provisória pra tentarmos consertar logo este incêndio. Tem um outro setor da política nacional, bastante influente, que ao invés de propor o álcool, defende que coloquemos lenha. É uma opção bastante interessante, mas há que se ponderar os riscos, porque lenha tu tem que colocar a mão dentro do fogo, álcool ou gasolina se pode borrifar de longe.
     
– Presidente, deixe eu lhe fazer uma última pergunta: temos ouvido seguidamente de parte dos movimentos sociais que só haveria uma saída, que seria jogar água por todos os meios: caminhão de bombeiros, hidrantes, rios, chuva, enfim. Qual sua avaliação sobre isso?
            
– Isso é loucura! Somente gente fora da realidade pode defender algo assim. Se jogar água o país vai quebrar! O mercado só dá demonstrações de calma se aplicarmos as reformas da gasolina. Se fôssemos irresponsáveis poderíamos fazer isso (risos), mas isso definitivamente não tem cabimento.
       
– Está certo. O Canal Imparcial agradece a sua presença e reforça o seu compromisso com a democracia e a imparcialidade das informações. Esperamos que tenhamos a cabeça no lugar para conter este incêndio preocupante que ameaça queimar vivo a todos nós. A você que nos assistiu até aqui o nosso muito obrigado e boa noite.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Os difíceis dias da República da Operação Lava Jato

9 de maio de 2017
As várias propagandas do governo Temer na TV (e de todos os seus partidos aliados, indo do PMDB, ao PSDB, passando pelo Democratas), pagas com dinheiro público, não são apenas revoltantes, mas violentas. Elas agridem toda vez que são veiculadas. Agridem e violentam a dignidade do país, do povo, de qualquer um que ainda se dê o respeito.


Mentira em cima de mentira; maquiada por marketeiros; banhada com dinheiro público. Isso não pode ser considerado como liberdade de expressão! É uma autêntica campanha de propaganda nazista...
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Sartori (PMDB) e Ana Amélia (PP) à frente das pesquisas eleitorais: isso é uma piada de mau gosto! Não que eu duvide que tenham pessoas irracionais e mau intencionadas, interesseiras, que votariam nestes entulhos, mas porque estas pesquisas não passam de uma manipulação descarada, que induzem o voto apresentando os candidatos e partidos “mais bem posicionados”. A partir daí, a mídia dá maior cobertura a estes candidatos, o que é outra aberração. É a morte da democracia antes de nascer. Este tipo de pesquisa prévia deveria ser proibida, mas é exatamente ela que dá a tônica para o “debate eleitoral” e para as eleições.

Em 2014 as pesquisas erraram descaradamente (não 1 ou 2 pontos percentuais, mas mais de 20%) e causaram grande comoção, levando à proposta de criação de uma CPI no Congresso Nacional, que foi rapidamente abafada através do lobby dos grandes monopólios de “comunicação”.
Novamente vamos nós chafurdar numa mentira institucionalizada, cheia de pequenos e grandes golpes, manipulações, chantagens... depois vamos ter outro gerente do grande capital - eleito por um processo, no mínimo, duvidoso - a nos massacrar e esmagar sem piedade alguma. Esta é a síntese da democracia burguesa.
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Programa obrigatório do Democratas na TV (ex-PFL, ex-ARENA - o partido da ditadura militar):
- Falam que a educação tem que "se tornar um consenso nacional". Eles estão à frente da "Reforma do Ensino Médio", que apenas vai enxugar o quadro de educadores e do serviço público, além de preparar a mão de obra da juventude da escola pública para a exploração impiedosa do mercado, sem CLT, sem aposentadoria, sem direito nenhum.
- Mostram-se comovidos com os milhares de desempregados, mas defendem todas as reformas, que vão criar milhares de desempregados e subempregados novos, pra depois se venderem como "reformadores". Querem apagar fogo com gasolina!
Se existisse uma "tecla SAP" pra podermos traduzir e levantar o véu da hipocrisia destes canalhas, o único discurso que veríamos seria o seguinte: vamos aplicar rápido todas as reformas para continuar vendendo o país ao capital estrangeiro, para manter o Brasil sem projeto de país, dependente e totalmente subordinado aos bancos, à dívida pública e ao mercado financeiro dos países imperialistas.
Esta é a sua verdadeira propaganda!
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O primeiro teste:
Projeto de Marchezan que acrescenta R$ 13 mil ao salário de dois secretários vai a votação
Governo alega que proposta é necessária para atrair quadros qualificados (manchete do site da Zero Hora)
Esta é a "eficiência" do PSDB; esta é a transparência deste e dos "novos" governos da direita; esta é a verdadeira e única face de todos os partidos neoliberais: seja o PMDB, o PSDB, o Democratas, o PP... ou este entulho chamado de "Partido Novo", que elegeu vários vereadores. A única coisa que se sente por detrás dessa máscara de "novo" é o cheiro da velha podridão!

11 de maio de 2017
Assisti grande parte do depoimento do Lula no Youtube. E assisti também o Jornal Nacional. Os trechos selecionados pelo JN são absurdamente direcionados e manipulados, tal como a eleição de 1989 pelo diretor global Boni.

Se é certo que Lula e o PT pagam o preço pela conciliação de classe com esta incessante criminalização midiática e estes julgamentos eminentemente políticos, também é certo que a brutal ofensiva da grande mídia neste episódio abre um novo papel na monstruosidade dos seus métodos de distorção.

Estou vendo, sem acreditar nos meus olhos, a assombrosa concretização do "admirável mundo novo", 1984, mesclado ao pesadelo dos métodos de propaganda nazi-fascistas e stalinistas.

domingo, 7 de maio de 2017

O que é solidariedade de classe?*

A dominação da burocracia sindical sobre o CPERS impede o surgimento de uma consciência de classe na nossa categoria. Esta é uma das razões para vermos tanta alienação política e sindical no chão das escolas, que se expressa, de uma forma mais clara, nas redes sociais. A inexistência de consciência de classe leva à ausência de solidariedade de classe e facilita a vida dos governos e dos patrões. A nossa força reside no nosso número. Para fazer valer essa força é necessário união, organização e solidariedade de classe. Esta solidariedade é diferente da solidariedade “humana” em geral, que pode se dar em relação a uma calamidade natural e climática, ou relacionada a um problema de outra ordem. No caso da solidariedade de classe, trata-se de questões políticas, de companheirismo e cooperação entre os trabalhadores na luta pela sua emancipação.
A política das sucessivas direções do CPERS apenas aprofundou a divisão na base de nossa categoria. Os recentes episódios envolvendo remoções e demissões de educadores, em plena greve, também comprova a ausência de solidariedade de classe entre a categoria e, principalmente, dentro do CPERS. Sem cultivar esta solidariedade tão importante para a luta da nossa categoria, como falar em solidariedade intercategorias e sobre o internacionalismo proletário (isto é, a solidariedade entre os trabalhadores do mundo)?
                O capitalismo lança os trabalhadores numa luta entre si pela sobrevivência, representada pela concorrência por um emprego. Eles não percebem ou secundarizam que possuem um inimigo em comum, que se vale de suas necessidades imediatas para ganhar a vida; os donos do capital (a burguesia e, no nosso caso, o Estado), por sua vez, aproveitam-se do fato de não possuirmos meios de produção para nos obrigar a aceitar as suas condições empregatícias. A Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), fundada em 1864, tinha como um dos seus principais objetivos a solidariedade de classe internacional entre os trabalhadores do mundo.
                Nas suas Instruções para os delegados do conselho geral provisório, escrito em 1866, Karl Marx esboçou as diretrizes gerais da AIT, estabelecendo que ela tinha como objetivo “combinar e generalizar os esforços de emancipação, até agora desconexos, das classes operárias dos diferentes países”. Além disso, advertia para a necessidade de “contrariar as intrigas dos capitalistas”, que estão “sempre prontos, em casos de greves e lockouts, a abusarem do operário estrangeiro como ferramenta contra o operário nativo”, sendo que esta seria “uma das particulares funções que a nossa sociedade (a capitalista) tem, até agora, desempenhado com sucesso”. Conclui que um dos “grandes propósitos da Associação é fazer com que os operários dos diferentes países não só se sintam, mas atuem como irmãos e camaradas no exército da emancipação”. Além dessas diretrizes gerais, a tradição da AIT incentivava o fundo de greve e o caixa de ajuda mútua para socorrer os operários nos momentos difíceis de perseguição e desemprego. Eram todas expressões materiais da solidariedade de classe. O ápice da organização deste movimento internacionalista se deu com a deflagração de greves de determinadas categorias do operariado que tinha como principal reivindicação a solidariedade para com outras categorias ou setores sociais que sofriam com os ataques patronais e a repressão; isto é: greve de solidariedade a outras categorias em greve. O quanto retrocedemos de lá para cá?

A solidariedade de classe e a divisão da nossa categoria
No caso específico do magistério público estadual, um dos grandes fossos que impede a unificação da nossa categoria é a divisão entre trabalhadores nomeados e contratados. Nada demonstra mais a total falta de solidariedade de classe do que esta relação, tal como os “debates” que se expressam nas redes sociais ou pela política reacionária da direção central. Como sabemos, esta divisão foi conscientemente construída por diferentes governos com a finalidade de rebaixar e restringir direitos, reduzir custos e, evidentemente, dificultar a unidade sindical. Quem não consegue enxergar isso é cego ou está interessado em manter esta divisão – em ambos os casos deveria estar bem longe da direção do nosso sindicato.
                Apesar de regimes de trabalhos diferentes e da forma de admissão, nomeados e contratados estão no mesmo barco: os segundos têm os mesmos deveres, mas não os mesmos direitos. Vimos neste início de 2017 o caos nas escolas, com demissões e remoções de professores, enquanto a direção do CPERS nada fez e naturalizou tudo, com exceção do ato simbólico contra a remoção do professor Zé, da escola ditador Costa e Silva, que também não conseguiu ser reintegrado em razão desta inoperância. Em muitos casos a política oficial do CPERS apenas reforçou o discurso patronal contra os trabalhadores contratados. Um dos casos mais bizarros se deu com um dirigente do núcleo 39, de Porto Alegre, que é contratado e perdeu todas as horas em sua escola. Ele simplesmente foi largado à própria sorte pela direção do núcleo e do CPERS. Quando elaboramos a bandeira da efetivação dos educadores contratados após 3 anos de efetivo exercício, por exemplo, foi baseado nesta necessidade de solidariedade de classe visando a unidade sindical da base. Porém, ainda que setores atrasados de nossa categoria tenham se oposto a ela por razões rebaixadas, nada classistas, também vimos uma resistência inaceitável por parte de correntes sindicais da atual direção do CPERS e das ditas de “oposição”; correntes que se dizem “socialistas”. Que espécie de “socialismo” podem defender se não são capazes de lutar pela igualdade de condições de trabalho entre uma mesma categoria? Para elas, os mecanismos legalistas do Estado burguês estão acima da luta concreta e da solidariedade de classe.
O caso do fundo de greve também é simbólico: a direção do CPERS tem lutado com todas as suas forças para não aprovar fundos de greve e, inclusive, tem justificado tais ações teoricamente, dizendo que não há mais espaço para este tipo de “solidariedade”. Apesar de arrecadar mais de R$1 milhão por mês, a direção do CPERS sempre afirma que “está no vermelho”. Em quê todas estas ações se parecem com as recomendações de Marx aos delegados da AIT?
                O avanço da direita no país tem intensificado os planos de ajuste do grande capital. Um dos objetivos é a destruição total dos planos de carreira para possibilitar a demissão de servidores nomeados. Da forma aristocrática como conduz a discussão sobre os contratados, a burocracia sindical do CPERS só poderá aprofundar a divisão da nossa categoria e ajudar a preparar as condições para a destruição dos planos de carreira – como tem feito com sua política desastrosa – e a demissão dos educadores contratados – como já estamos acompanhando. As correntes sindicais majoritárias do CPERS são incapazes de intervir nos debates da base da categoria, que expressam um profundo atraso político e apenas reforçam esta divisão, no sentido de elevá-los; isto é, no sentido de fazê-los saírem do campo das picuinhas individuais para o da política. A solidariedade e a consciência de classe, neste caso, seriam os nomeados defenderem os direitos dos contratados (que somente se expressaria através da sua efetivação); e os contratados, defenderem o plano de carreira, mesmo sem ter o direito a ele neste momento. Solidariedade de classe também significa possibilitar a concretização de uma rede com a estrutura material do sindicato aos colegas descontados, removidos e demitidos; além de criar caixas de solidariedade e fundos de greve. Se não existem condições financeiras em determinado momento, há que se criá-las como uma de nossas prioridades.
Somente uma direção classista e revolucionária pode trabalhar para desenvolver solidariedade e consciência de classe em nossa categoria. O sindicalismo burocrático e reformista representado pelas sucessivas direções do CPERS apenas aprofunda o caos e a desunião no chão das escolas, deixando-as à mercê da sua própria sorte. A formação teórica continua sendo uma de nossas armas mais poderosas para desenvolvermos esta consciência de classe. Porém, ela precisa ser classista, revolucionária e deve se esforçar para integrar a base da categoria em todos estes debates.

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*Texto escrito por um militante da oposição de esquerda à burocracia sindical do CPERS.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Como combater a meritocracia e as privatizações?

A grande mídia – em particular a RBS – e os governos neoliberais financiaram por décadas a propaganda ideológica de que os serviços públicos são inviáveis. A solução que apresentam para “resolver seus problemas” é sempre a mesma: privatizá-los; isto é, transferi-los, um a um, para a iniciativa privada. Se isso acontecesse, significaria que os atuais funcionários públicos seriam regidos por um regime de trabalho de empresa privada, passíveis de demissões, descontos e remoções arbitrárias, bem como trabalhar segundo os índices de produtividade estabelecidos pelos patrões.
Ininterruptamente veiculado na grande mídia, o discurso neoliberal acabou por se impor; e, por isso, a solução aceita como natural pelo senso comum e pela tacanhice da classe média é a de que só existiria o caminho da privatização dos serviços públicos. Todos os governos governaram tendo como objetivo único o pagamento da dívida e o suposto enfrentamento ao déficit orçamentário, o que levou a uma drástica diminuição dos recursos investidos em áreas sociais, como saúde e educação. Os governos que privatizaram todos os serviços públicos passaram por grandes crises sociais: EUA, Inglaterra, Chile e Argentina são alguns destes exemplos. Nos EUA e na Inglaterra há uma grave crise na saúde pública, muito bem retratada no documentário S.O.S. Health, de Michael Moore; o Chile vive uma profunda crise na educação, que tornou-se privilégio; a Argentina vive um aumento exponencial da pobreza nas periferias de Buenos Aires, tal como no Brasil.
O resultado é que com a política neoliberal aplicada nas últimas décadas, os serviços públicos se degeneraram, com péssimas condições de trabalho e os salários arrochados, rebaixando a qualidade dos serviços prestados. Isto serviu por anos como exemplo de que o “público não funciona” e o “privado é a solução”. Porém, as raízes perversas desta lógica nunca foram desenterradas amplamente e combatidas abertamente. Os servidores públicos acabaram reféns dela. Isto é, os sindicatos e os partidos de “esquerda” não foram capazes de enfrentar estes ataques ideológicos e deixaram os trabalhadores a mercê deles. A visão meritocrática paira sobre as nossas cabeças triunfalmente por falta de um contraponto ideológico e de um plano para combatê-la. Mesmo alguns servidores abraçam acriticamente a defesa das privatizações ou da meritocracia contra si próprios, ou são coniventes com estes ataques por não quererem mudar, repensar, renovar; mas apenas reclamar!
Grande contingente de servidores públicos se adaptou oportunistamente ao discurso do menor esforço e a aceitação deste estado de coisas: “não ganho bem, então não trabalho mesmo”; ou “não podem me demitir, que se danem!”. Isso significa que muitos servidores públicos não procuram ou não querem entender as raízes destes problemas e viram as costas para a sua responsabilidade social, sobretudo em razão da estabilidade – não casualmente, um dos focos dos ataques da mídia e dos partidos neoliberais. Assim, decai ainda mais a qualidade dos serviços públicos prestados; e agora por outros motivos.
Mas não necessariamente deveria ser assim. O alegado caminho da privatização é uma enganação, servindo apenas para cortar gastos em nome dos grandes banqueiros e empresários, deixando a população desassistida. É preciso pensar a prática de todo o funcionalismo público a partir de uma perspectiva socialista, de valorização do Estado e do público. O sectarismo reinante no trato destas questões e a fuga deste debate por parte de sindicatos, partidos de “esquerda” e dos próprios servidores, apenas podem beneficiar a grande mídia e os partidos da direita neoliberal, que tiram vantagem desta omissão. É preciso um corajoso plano de desconstrução da ideologia neoliberal e a demonstração de que o principal problema dos serviços públicos é o baixo investimento e as péssimas condições de trabalho. Porém, é preciso combater também a acomodação e a apatia daqueles servidores que estagnam atrás da estabilidade (e nos contratos "emergenciais" também), deixando um importante flanco aberto para a mídia e os partidos da direita neoliberal. Todo aquele que deixa de meditar sobre sua prática profissional e se adapta negativamente a qualquer situação, está prestando um desserviço para a própria luta em defesa dos serviços públicos. Não há problemas em desenvolvermos uma escala de mérito no trabalho, para qualificá-lo cada vez mais. O problema é o mérito visando à demissão, ao fim do direito ao trabalho.
Cabe ressaltar que nunca poderemos resolver plenamente os problemas do serviço público mantendo o capitalismo, pois retirar direitos e privatizar é a sua lógica econômica intrínseca, o seu DNA. Enquanto ele existir, ameaçará permanentemente a existência dos serviços públicos ao povo. Dentro deste contexto, contudo, seria possível pensar e apresentar um outro caminho enquanto ainda não se pode superá-lo, para contrapormos àquela cantilena neoliberal de que os “serviços públicos não funcionam”. Se as privatizações resolvessem alguma coisa, ao privatizar Vale do Rio Doce, Telebrás, Eletrobrás, Petrobrás e Embraer, teríamos gerado mais riqueza e desenvolvimento para o país, e não uma nova e pior “crise financeira” para os cofres públicos. Além disso, a privatização total do setor de telefonias gerou altos índices de reclamação pelo péssimo atendimento e serviços prestados. Por acaso não existem inúmeros problemas de qualidade nas empresas privadas também?

A demissão resolve alguma coisa?
A possibilidade de demitir servidores é a única “solução” apresentada pelos neoliberais, defensores da privatização e do fim dos serviços públicos. É, também, o principal objetivo deles. Quem traça as diretrizes do pensamento neoliberal não são as demandas profissionais do serviço público, mas a agenda econômica.
Enquanto os trabalhadores não têm condições políticas e econômicas para superar o capitalismo, é muito importante apresentar um contraponto para servir como trincheira de defesa do que é público. Seria importante debatermos uma reutilização dos servidores com baixo desempenho em outras funções ou mesmo em outras unidades de trabalho, tenham eles estabilidade ou não. A estabilidade deve ser uma garantia contra a arbitrariedade e tirania das demissões, bem como garantia do direito ao trabalho, mas nunca uma imunidade à críticas e aos balanços. E estas críticas não podem ser o álibi para se cortar custos e destruir o setor público. Se poderia pensar numa forma em que alunos, pais e pacientes, enfim, os usuários e dependentes dos serviços públicos, cumpririam o papel de avaliadores, levando em conta a aprendizagem, o respeito, o desempenho geral, no sentido de melhorar a qualidade dos serviços públicos; e nunca a sua mera e simples demissão, que é sempre o objetivo dos governos neoliberais seguindo diretrizes econômicas internacionais. É preciso perguntar: seria a demissão um solucionador dos problemas sociais na prestação de qualquer serviço ou uma excelente forma dos patrões e governos se livrarem de encargos sociais?
O servidor que ao final de um período fosse aprovado, se manteria no seu posto, ganhando outras atribuições e podendo escolher certas condições de trabalho; enfim, tendo um pouco mais de liberdade no seu trabalho; os “reprovados” seriam deslocados para “reciclagem” em outras funções, mantendo o emprego, mas perdendo o posto anterior. Deveriam passar por cursos de formação e aprimoramento; isto é, deveriam começar de novo, levando em consideração as lições de sua “reprovação”. Quanto mais reincidente um reprovado se tornasse, mais ele seria tirado de circulação e do contato com o público, fazendo serviços administrativos, burocráticos, corriqueiros, mas, evidente e necessariamente, sendo acompanhado por uma equipe de Recursos Humanos, tentando elevar sua moral, e não simplesmente atirando-o num canto como “coisa inútil”.
No pior das hipóteses existiria a possibilidade de supervisão permanente e do desconto salarial, que são mecanismos que precisam ser utilizados com sabedoria para não desgastá-los desnecessariamente.

A questão do corte do ponto e do desconto salarial
O mecanismo de desconto salarial precisa ser utilizado com parcimônia e sabedoria. É certo que existem muitos dirigentes do serviço público que caem num “amiguismo” e tem medo de descontar omissões, faltas e problemas de outra ordem dos colegas mais próximos. Entramos numa sinuca de bico, que gera um mal estar muito grande e abre precedentes para a “ditadura do descaso”. O regime de trabalho se afrouxa a tal ponto de perder o controle da entidade pública, aprofundando o caos que vem de cima. Em outros casos, “gestores públicos” tentam agir como um patrão: descontam greve, não procuram saber ou desconsideram motivos de faltas, nem tentam solucionar o problema de outra forma. Simplesmente riscam o ponto e está tudo resolvido.
Em ambos os casos temos problemas sérios que levam ao desleixo total ou ao medo e ao assédio moral autoritário. O primeiro afrouxa o regime de trabalho; o segundo não é eficiente, pois com a atual estrutura do serviço público se desenvolvem várias formas de resistências (boas e más), mesmo ao autoritarismo de direções e gestores.
        O caminho para o desconto salarial deve ser construído de forma coletiva, como fruto de um novo trabalho entre colegas, onde se percebem os graves problemas e, pelo menos, a maioria, compreende a necessidade da mudança. O corte do ponto e o desconto salarial devem ter seus critérios também construídos democraticamente. Isto é, precisam ser precedidos por mecanismos para suprir a falta e não simplesmente o corte do ponto de forma nua e crua. É preciso o diálogo entre a coletividade no sentido de se mostrar que é preciso fazer alguma coisa frente à omissão e as ausências reincidentes. Caso nada seja feito, é um novo triunfo da grande mídia e dos governos neoliberais na sua luta pela desmoralização dos serviços públicos. A argumentação destes sobre a necessidade de se privatizar os serviços públicos ganha força e apoio. É importante lembrar que o aprimoramento e melhoramento dos serviços públicos serve, fundamentalmente, para atender o povo mais pobre e desassistido, os trabalhadores e seus filhos.
        Antes de tudo, é preciso ter a coragem que o movimento sindical não tem, de pautar estes temas incômodos no sentido de defender o serviço público contra os brutais ataques da mídia e do governo, mas também reconhecer nossos erros e falhas. O desconto salarial é um mecanismo ditatorial nas mãos de um individuo, que o utiliza para explorar, adestrar e subjugar indivíduos, mas, como lamentavelmente vivemos numa sociedade dividida em classes, com inúmeros problemas, podemos e devemos utilizá-lo no “bom sentido”, visando elevar a qualidade dos serviços públicos e o comprometimento com ele. Por tudo isso, o corte do ponto é apenas um meio possível de utilização, e não a solução dos problemas, como muitos “gestores públicos” pensam. Caso o corte salarial resolvesse todo o problema, a privatização total seria a solução.

É preciso uma gestão horizontal e transparente, respeitando as decisões coletivas e trabalhando para que elas sejam concretizadas honestamente
        A solução para melhorar os serviços públicos está numa forma de gestão aberta, transparente e voltada para o social, com decisões democráticas e abertas. Os pessimistas incuráveis ou os sabotadores conscientes dirão que isso é impossível, pois só serviria para aprofundar o desleixo e o caos. Mas uma forma de trabalho deste tipo nunca foi tentada seriamente. No essencial, sempre foi sabotada pelas leis, pelo hierarquismo e pelo burocratismo. Debater com o contraditório e procurar um caminho diferente gera medo, porque é algo novo e difícil. Se for tentado seriamente, principalmente com método e persistência, certamente dará frutos e tenderá ao aumento da qualidade do serviço prestado. Ao mesmo tempo que o coletivo decide democraticamente o que fazer, é necessário debater uma disciplina coletiva e as punições a quem infringe esta disciplina, que pode ser corte salarial ou outras formas. O debate democrático dará mais autoridade para este tipo de procedimento do que a ação arbitrária de uma única pessoa ou direção.
Os pessimistas e sabotadores insistirão que se houver ampla democracia, muitos trabalhadores simplesmente dirão que “preferem não trabalhar”, mas é importantíssimo ressaltar que esta opção não existe. Se somos uma escola pública, por exemplo, e temos um calendário letivo a ser cumprido, como construí-lo coletivamente? Como aproveitar os sábados (que são inevitáveis)? Não existirá, por exemplo, a possibilidade de não trabalhar nos sábados.
Em suma, não deverá haver a opção de não trabalhar e só ir empurrando com a barriga, como pensam e fazem muitos; mas simplesmente debater democraticamente a melhor forma de trabalhar e de prestar o nosso serviço para a população. Não é possível fazer tudo isso tendo salários parcelados e péssimas condições de trabalho, dirão alguns; o que é parcialmente correto. Mas como fazer o nosso melhor dentro de condições difíceis? O que priorizar e o que secundarizar? Por acaso devemos nós abrir mão de tudo, inclusive dos serviços públicos, facilitando a vida da grande mídia e dos governos neoliberais?
Pois é este o único caminho que nos espera, caso sejamos negligentes e desleixados. Somente apresentaremos um caminho alternativo se nos unirmos democraticamente e soubermos crescer, tropeçando e reconstruindo degraus em unidade. Se é difícil construirmos uma gestão democrática e coletiva, é mais certo ainda que quando o método for construído e solidificado em torno desta prática, a tendência é ir melhorando a qualidade do trabalho – uma vez que será mais compreendido e pensado coletivamente – e o conjunto de servidores tenderá a se ver como um corpo mais coeso e não numa guerra de todos contra todos, entre grupo de amigos e os excluídos.
Por outro lado, é certo também que a lei e a arrogância de muitos servidores públicos serão um empecilho para estas mudanças, mas toda e qualquer mudança começa com um primeiro passo, com uma nova visão e uma nova forma de pensar sobre velhos problemas. Para tudo isso é preciso, antes de qualquer coisa, coragem para se dar os primeiros passos!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A campanha contra o socialismo nas correntes de internet

Não é de hoje que as forças políticas de direita tentam envenenar a consciência dos trabalhadores contra o socialismo. Além de se utilizar da grande mídia, das igrejas, das escolas e universidades, hoje elas procuram fazer isso através das correntes de e-mails e das redes sociais. Para isso, contam com o apoio de inúmeros atores informais, entre intelectuais, estudantes, pessoas comuns e cínicos profissionais, que ajudam a disseminar preconceitos e distorções sobre o socialismo. Muitos destes “atores” temem e lutam contra o socialismo por medo de perder suas benesses materiais e, consequentemente, sua posição social.
         Um exemplo desta campanha de internet se dá com o texto que segue abaixo, disseminado em três versões diferentes nas redes sociais, no whatsapp e nos e-mails:

“Um professor de economia na universidade Texas Tech disse que ele nunca reprovou um só aluno antes, mas tinha, uma vez, reprovado uma classe inteira.
Esta classe em particular tinha insistido que o socialismo realmente funcionava: ninguém seria pobre e ninguém seria rico, tudo seria igualitário e 'justo'.
O professor então disse, ‘Ok, vamos fazer um experimento socialista nesta classe. Ao invés de dinheiro, usaremos suas notas nas provas’. Todas as notas seriam concedidas com base na média da classe, e portanto seriam ‘justas’. Isso quis dizer que todos receberiam as mesmas notas, o que significou que ninguém seria reprovado. Isso também quis dizer, claro, que ninguém receberia um ‘A’...
Depois que a média das primeiras provas foram tiradas, todos receberam ‘B’. Quem estudou com dedicação ficou indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o resultado.
Quando a segunda prova foi aplicada, os preguiçosos estudaram ainda menos – eles esperavam tirar notas boas de qualquer forma. Aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que eles também se aproveitariam do trem da alegria das notas. Portanto, agindo contra suas tendências, eles copiaram os hábitos dos preguiçosos. Como um resultado, a segunda média das provas foi ‘D’.  Ninguém gostou.
Depois da terceira prova, a média geral foi um ‘F’. As notas não voltaram a patamares mais altos, mas as desavenças entre os alunos, buscas por culpados e palavrões passaram a fazer parte da atmosfera das aulas daquela classe. A busca por ‘justiça’ dos alunos tinha sido a principal causa das reclamações, inimizades e senso de injustiça que passaram a fazer parte daquela turma. No final das contas, ninguém queria mais estudar para beneficiar o resto da sala. Portanto, todos os alunos repetiram o ano... Para sua total surpresa.
O professor explicou que o experimento socialista tinha falhado porque ele foi baseado no menor esforço possível da parte de seus participantes.
Preguiça e mágoas foi seu resultado. Sempre haveria fracasso na situação a partir da qual o experimento tinha começado. ‘Quando a recompensa é grande’, ele disse, ‘o esforço pelo sucesso é grande, pelo menos para alguns de nós’.
Mas quando o governo elimina todas as recompensas ao tirar coisas dos outros sem seu consentimento para dar a outros que não batalharam por elas, então o fracasso é inevitável’.
É impossível levar o pobre à prosperidade através de legislações que punem os ricos pela prosperidade. Cada pessoa que recebe sem trabalhar, outra pessoa deve trabalhar sem receber. O governo não pode dar para alguém aquilo que não tira de outro alguém. Quando metade da população entende a idéia de que não precisa trabalhar, pois a outra metade da população irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação.
É impossível multiplicar riqueza dividindo-a.”

O que precisamos destacar, em primeiro lugar, é a facilidade com que um texto deste tipo, cheio de distorções e erros teóricos e políticos, totalmente baseado em preconceitos, possa ser tão amplamente disseminado na internet. Ele foi feito sob medida para dialogar com os preconceitos das massas, sobretudo os de classe média. Além disso, muitas pessoas quando compartilham correntes na internet nem sequer confirmam a veracidade da fonte. Praticam o pior “telefone sem fio” e dão um verdadeiro cheque em branco que é preenchido pela burguesia em benefício próprio.
As informações e a fonte deste texto são conflituosas. O suposto autor desta experiência seria Adrian Rogers, que em algumas versões é apresentado como economista e professor da Universidade do Texas; em outras é apresentado como pastor tele-evangelista norte-americano. Para além deste “pequeno detalhe” da procedência e credibilidade sobre o autor, cabe uma análise detalhada do conteúdo da mensagem.

I – O conservadorismo e o preconceito de classe média
Como é possível que um texto como esse, duvidoso e cheio de problemas teóricos, possa ser tão compartilhado como se fosse algo importante?
         Inicialmente podemos encontrar duas respostas para tal questão:
         1) A ignorância em relação ao socialismo: muitos destes “compartilhadores”, críticos do socialismo (geralmente membros da classe média), nunca abriram um único livro sobre socialismo ou o estudaram sociologicamente, tal como uma ciência social exige. Suas leituras sobre o tema centram-se na grande mídia e em periódicos direitistas, como a Revista Veja, Isto é, O Globo, F. de São Paulo, Zero Hora, dentre outros. Não possui conhecimento e interesse acerca do que representa o socialismo, mas tem apenas preconceito, alimentado, principalmente, pelo medo.
         2) O grande conservadorismo da classe média e de parte dos trabalhadores, baseados em caráteres encouraçados, reprimidos, que em razão de suas neuroses e medos não tratados, alimentam ódios para despejar o seu sadismo; resultado desta opressão e brutalização sexual. Para mentalidades deste tipo, nenhum argumento é válido, pois em sua ânsia de despejar seu ódio mal resolvido, suas dores, seus medos e seus desejos reprimidos, querem ver na desordem da qual depende a sua condição social, na cizânia e num inimigo público em comum, o alvo de tudo o que não presta em si próprio.

II - Quem quer fugir do trabalho?
O texto faz uma comparação bizarra, que em nada contribui para se entender o que é socialismo. Nele, há apenas uma visão burguesa sobre o assunto. A burguesia sempre tentou associar “socialismo” a “fuga do trabalho”, “preguiça”, dentre outras preciosidades do gênero. Karl Marx e Friedrich Engels já responderam estes ataques há mais de 150 anos, no Manifesto Comunista. Eles afirmaram:
“Tem-se objetado que com a supressão da propriedade privada cessaria toda a atividade e alastraria uma preguiça geral. De acordo com isso, a sociedade burguesa teria há muito de ter perecido de inércia; pois os que nela trabalham não ganham, e os que nela ganham não trabalham”.
O que a burguesia pretende manter com esse preconceito sobre socialismo é o seu monopólio sobre a preguiça. Somente quem possui capital pode comprar trabalho alheio e garantir o privilégio de não trabalhar (ou trabalhar apenas intelectualmente e mandar nos outros). Atualmente, inúmeros setores da classe dominante vivem de forma parasitária, sem produzir absolutamente nada e sustentando-se às custas do suor alheio: os banqueiros, especuladores, agiotas, magnatas industriais, rentistas, latifundiários, ideólogos da grande mídia. Apenas um setor muito pequeno da burguesia ainda se mantém fazendo algum tipo de empreendedorismo social. Foi-se o tempo em que a classe burguesa era essencialmente empreendedora. Hoje, toda esta chorumela em torno de que os “socialistas não querem trabalhar”, apenas esconde o fato de que a burguesia e grande parte da classe média precisam manter o capitalismo funcionando para não precisar trabalhar, podendo dispor, por lei, da mão-de-obra de milhares de pessoas que são obrigadas a trabalharem para elas.
Vejam o escandaloso caso de concentração de renda sob o capitalismo: 8 bilionários possuem o equivalente a mais da metade do que possui toda a população mundial. Trocando em miúdos, isso significa que no capitalismo quanto mais a população trabalha e passa privações, mais a burguesia enriquece às custas deste mesmo trabalho e destas mesmas privações. Se fizermos uma análise psicanalítica desta intenção da burguesia expressa no texto, perceberemos que ela tenta, historicamente, imputar aos trabalhadores que lutam por uma sociedade justa a sua real intenção, que é viver na pujança sem precisar trabalhar. O pensamento expresso no texto define exatamente o que é o capitalismo: para cada pessoa que recebe sem trabalhar, outra pessoa deve trabalhar sem receber. E é exatamente assim que este sistema caótico e injusto funciona; não em uma classe universitária fictícia, mas na realidade palpável e visível à luz do dia. O salário recebido pelo proletário não é capaz de acumular capital; apenas quem é proprietário de um meio de produção – isto é, um burguês – é capaz de fazê-lo. Assim, o trabalhador é obrigado a “se vender” em busca de um salário para poder subsistir e fornecer a futura prole que suprirá o mercado com mais mão-de-obra. Para um triunfar, centenas precisam fracassar. É esta lógica perversa que os defensores do capitalismo querem relativizar ou mesmo negar.
O texto fala de “legislação que pune os ricos pela sua prosperidade”, como se ao mudar a sua condição social eles fossem injustiçados. Temos, porém, que nos perguntar antes de tudo: em que alicerces estão sustentados a prosperidade dos ricos no capitalismo? Não há dúvida de que na exploração da força de trabalho do proletariado, que desprovido de meios de produção e capital, é obrigado a se vender como mão-de-obra barata. Da mesma forma, poderíamos fazer um paralelo entre a riqueza dos países “desenvolvidos” versus a pobreza dos países “subdesenvolvidos”. Na verdade, o “desenvolvimento” dos países centrais (imperialistas) está alicerçado no subdesenvolvimento do terceiro mundo.
Isso não significa desconhecer a grande importância do empreendedorismo econômico da burguesia ao longo da história (sobretudo durante a Revolução Industrial). Mas este empreendedorismo chegou num outro patamar social desde o início do século 20. É preciso socializar o conhecimento técnico, os meios de produção e políticos para incentivar por vários meios a transformação de toda a sociedade em uma grande escola de empreendedores, respeitando as capacidades de cada um.

III - A questão da meritocracia (o socialismo é desprovido de valorização do mérito?)
Igualdade social não quer dizer ausência de esforço pessoal. O socialismo, muito mais do que o capitalismo, deverá incentivar o desenvolvimento das potencialidades individuais. Precisará, é claro, extirpar as neuroses de massas, o autoritarismo, a educação e o emprego sustentados pelo medo da repressão.
A comparação entre dinheiro (economia) e notas de aula (uma espécie de reconhecimento sobre determinada aquisição de aptidões) é muito arriscada. Toda analogia deve ser levada muito cuidadosamente em consideração (sobretudo em relação à política). Neste caso, não restam dúvidas de que se trata de uma utilização para a má fé. O objetivo claro é lançar preconceito em relação à ideia de socialismo.
***
Não existe uma receita de bolo para o socialismo. Assim como o capitalismo não surgiu pensado por uma única mente ou por um partido, mas como o resultado de relações sociais determinadas, o socialismo também deverá ser o resultado de um movimento social, cujas características gerais não podem ser determinadas de antemão. No entanto, é certo que estas características podem ser intuídas e deverão ser melhor planejadas do que as relações sociais do capitalismo.
Este sistema possui relações sociais que estão submetidas a lógica do mercado, que é semi-espontânea, alheias ao social e, quando necessário, sujeitas às imposições autoritárias (ideológicas e militares). O socialismo deverá ser um sistema econômico mais planejado e racional do que o capitalismo. Este é um pré-requisito necessário para que possa surgir: a humanidade precisa criar as condições políticas e econômicas para controlar o caos do mercado e da economia. Mas estas condições não podem ser decretadas; precisam ser criadas. A clareza ideológica é muito mais importante numa sociedade socialista do que numa sociedade capitalista, que precisa de indivíduos alienados, “apolíticos”, neuróticos. Isso não quer dizer que não existam indivíduos sãos, mas estes precisam romper com uma lógica moral e política já imposta; o que é muito difícil. É bastante complicado ser diferente no capitalismo, que busca sempre a permanente padronização de uma maioria. Sem estas condições, dificilmente conseguiria impor o consumo do supérfluo.
O socialismo sofreu alguns revezes na luta contra o capitalismo durante o século 20. O principal entrave foi o surgimento do stalinismo, que estancou o processo social que se desenvolvia na Rússia nos primeiros anos da revolução (1917-1925). Alguns exemplos deste desenvolvimento social se deram no campo político (surgimento dos sovietes e de novas formas de administração social – o comissariado do povo e os congressos de sovietes); outros no campo científico (emergiram grandes pensadores como Vygotsky, Makarenko, Bakhtin; a Rússia eletrificou-se, industrializou-se e alfabetizou-se); outros no campo social (igualdade entre os sexos, direito ao voto para as mulheres, ao divórcio, ao aborto, ao exercício de cargos políticos, dentre outros; a família patriarcal foi abalada); e, também, no campo artístico (Maiakovski, Gorki, Eisenstein, sem falar na migração de vários artistas europeus para a Rússia).
A vitória do stalinismo no final da década de 1920 levou a um terrível retrocesso em todos estes campos (a extinção total em alguns casos) e esmagou as poucas liberdades civis. Em “nome do socialismo” o stalinismo extinguiu a possibilidade de triunfo do socialismo. Desfigurou o partido comunista, os sovietes, a moral socialista. Enlameou o nome do socialismo perante os olhos dos trabalhadores do mundo. Facilitou a vida e a propaganda da burguesia. Os crimes do stalinismo aplainaram o caminho para que um texto medíocre como este pudesse ter tanta audiência. A noção de que o socialismo é enfiado goela abaixo de cima para baixo por um indivíduo ou um partido, sem valorizar o esforço individual, a democracia e o humanismo, foi fruto desta ascensão da camarilha de Stalin ao poder.
A valorização do esforço individual – inclusive para receber salários maiores ou qualquer outro tipo de benefício – deverá ter outros critérios numa sociedade socialista, elaborados de forma muito mais racional e justa. Necessariamente prescindirá da demissão como terrorismo psicológico de controle. Precisará ter como alicerce uma nova educação pública e uma utilização racional e democrática da grande mídia.

IV – A construção do socialismo não segue nenhuma receita
A construção do socialismo não segue nenhuma receita, mas uma via social determinada historicamente. O texto criticado tenta demonstrar que para se “construir” o socialismo basta igualar todo mundo e distribuir acriticamente a riqueza. Isso não é socialismo! Pode ser comparado, muito limitadamente, ao que os socialistas revolucionários chamam de assistencialismo (o governo do PT e do PSDB, bem como o dos países semi-coloniais, são campeões em diversos tipos de assistencialismo).
O socialismo surgiu como pensamento sociológico a partir de experiências reais: a revolução social européia de 1848, a Comuna de Paris de 1871, a organização da social-democracia alemã no final do século 19 e início do 20, a Revolução Russa de 1917, a Revolução Chinesa de 1949 e a Cubana de 1959. Estes processos foram o reflexo, ao mesmo tempo, de um descontentamento e de uma nova forma de organização social. Não foram os seguidores de Blanqui, Proudhon ou de Marx que definiram, de cima para baixo, a nova organização social que surgiu a partir da tomada do poder pelos operários em Paris. Da mesma forma, não foi Lenin que inventou e decretou os sovietes na Rússia; isto é, os órgãos sociais que surgiram e tornaram possível a revolução de outubro de 1917. O mesmo poderia ser analisado nos outros exemplos.
Muitas medidas impostas por ditadores, como Stálin e Mao Tse Tung, dão a impressão de que o socialismo seria fruto de uma vontade imposta de cima para baixo, tal como uma possível receita de bolo; mas isto é algo totalmente sem fundamento para qualquer pessoa que folhear um único livro sério sobre socialismo. Estas distorções grosseiras da ideia de socialismo refletem mais a degeneração política dos processos sociais em curso (no caso o surgimento do stalinismo durante o século 20) do que qualquer outra coisa. O texto em questão, portanto, dialoga mais com esta ideia errônea e preconceituosa do que com a real noção do que é e representa o socialismo – sobretudo o de cunho marxista e trotskista.
Para ser honesto nesta comparação, o texto teria que ser sincero na noção do que é socialismo: os alunos deveriam debater os critérios da avaliação, e não ver passivamente o professor decretar que todos teriam a mesma nota. No socialismo não deverá haver salários iguais para trabalhos e especialidades diferentes. A única e verdadeira igualdade que o socialismo “decreta” é sobre os meios de produção de riqueza social: fábricas, terras, empresas, bancos, transportes e comunicação social. Se estes meios de produção produzem riqueza social, então precisam ser coletivos também, isto é, sociais. Nada tem a ver, portanto, o fato de que no socialismo todos deveriam receber o mesmo salário ou, conforme o texto, a mesma “nota”. Um professor precisa avaliar distintamente os alunos, pois possuem ritmos de aprendizagem diferentes; assim como os operários possuem necessidades profissionais e familiares diferentes também. O texto, para ser honesto, deveria frisar a importância da elaboração coletiva de critérios para avaliação e para receber as notas, e não simplesmente afirmar que o socialismo iguala tudo e favorece os “que não querem trabalhar”. Isto é uma distorção grotesca!

V - Conclusões
Desfeita a confusão intencional, resta a conclusão: se pode concordar que “é impossível multiplicar a riqueza dividindo-a”; mas isso não é socialismo! O socialismo trata, como foi dito, da divisão dos meios de produção; isto é, de tudo aquilo que tem capacidade de produzir riqueza social. Coloca os meios de produção sob controle coletivo, social, dos trabalhadores. Uma vez que esta base sociológica seja compreendida, praticada, consolidada e ensinada aos quatro cantos, não apenas a riqueza será dividida, como será multiplicada; cada uma sendo a condição da outra. Este será o ponto de mutação do início do fim da pré-história humana e o requisito necessário para a real evolução da sociedade.
A regulagem científica e racional da existência humana é o objetivo mais alto de uma sociedade socialista. É preciso se utilizar da socialização da riqueza e do conhecimento para extirpar o irracionalismo das massas e ajudá-la na sua evolução emocional; isto é, na superação da dependência e espera de um “messias” que tudo fará por ela.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O utilitarismo dos direitos humanos

Os "direitos humanos" continuam sendo uma manobra da grande mídia e dos governos capitalistas para iludir o povo. Esta, por exemplo, é a grande bandeira da blogueira cubana Yoani Sanchez, que está no Brasil.

Se Yoani se mobiliza realmente por isso, é preciso que ela saiba que o Brasil é um campeão de violação dos "direitos humanos": assassinatos nas periferias, no campo (Eldorado dos Carajás) e nas áreas indígenas (Guarani-Kaiowá e também nas obras de Belo Monte); despejos violentos (como o recente vivido na Vila Liberdade e Pinheirinho - dentre muitos outros). No Brasil não há direito de livre manifestação, nem de greve! Se uma pessoa diz o que pensa verdadeiramente no seu emprego é coagido e/ou demitido; se faz greve, o sindicato é obrigado a pagar multa via judicial, quando não sofre a repressão direta da polícia (como em Suape, nas obras da Copa).

Esperamos que ela diga tudo isso aos cubanos. Pois não é só em Cuba que ocorrem violações de "direitos humanos". Espero que ela diga também que os índices de analfabetismo brasileiro - ao contrário dos de Cuba - são astronômicos, e que isso nos enche de vergonha (ou pelo menos deveria). O nosso sistema de saúde está colapsado e em grande parte privatizado; nos hospitais públicos as pessoas são entulhadas nos corredores onde, evidentemente, não há nenhum tipo de "direito humano". Muitas delas dão a luz, vegetam, agonizam ou morrem por ali. O sistema prisional é um caos infernal, sem a menor chance de ressocialização.

Além de Cuba, Yoani precisava expressar sua opinião acerca da violação de direitos humanos no mundo "democrático": Colômbia, Iraque, Afeganistão, Egito, Arábia Saudita, Israel, Palestina. O que ela tem a nos dizer sobre o massacre de Palestinos? Ou acerca dos bombardeios "democráticos" da OTAN sobre a Líbia e a Síria?

Ela diz que o seu foco é sobre Cuba. Está certo! Então fale mais aos brasileiros sobre os direitos humanos em Guantánamo, aquela prisão norte-americana no leste de Cuba conhecida pela tortura de prisioneiros de guerra (em especial de afegãos) que Obama prometeu que fecharia, mas que lá está, livre, leve e solta, para continuar torturando e intimidando o mundo.

Os trabalhadores cubanos e mundiais precisam acertar contas com a burocracia stalinista de Castro. Mas não é Yoani que nos mostra o caminho. Pelo contrário! Ela é uma blogueira à soldo do imperialismo, aplaudida pela mídia burguesa mundial - em especial pela Rede Globo e Veja (os órgãos da ditadura militar, dos empresários, latifundiários)! Ela não está satisfeita com a restauração capitalista na Ilha. A sua crítica se centra na ditadura de Castro, reivindicando o direito de exercer a ditadura "democrática", tipo a que vivemos no Brasil, com vários partidos que defendem todos as mesmas coisas em essência e que não hesitam um minuto em aplicar os planos de austeridade dos bancos internacionais e do imperialismo.

Por tudo isso ela é uma colonizada vestindo a camisa do colonizador; uma capitã-do-mato em turnê mundial. Os trabalhadores e os estudantes do Brasil não devem acreditar no seu discurso demagógico, que é amplamente apoiado pela grande mídia. Seu lugar não é entre os explorados da América Latina, mas em Miami ou Washington, entre os seus pares da CIA. A luta dos trabalhadores cubanos e de todo o mundo deve ser não só contra os privilégios da burocracia dos Castro, mas, também, contra gente da sua laia.