quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

O irracionalismo das massas

Acompanhamos hoje o ódio generalizado contra os políticos e os partidos. Apesar disso, os partidos e os políticos da direita (alguns de cunho fascista) se vendem como o “novo”, capitalizam este desgaste e elegem os seus. Parte dos setores progressistas da sociedade – em particular os militantes da esquerda e os seus simpatizantes – acompanha isso com aflição e desespero. Entram em pânico. Afirmam que “a massa merece sofrer”, “que todo o povo tem o governo que corresponde à sua ignorância”, “que o povo é incapaz de se alçar à liberdade” e “prefere a ditadura”; lamentam-se, batem cabeça e jogam as mãos para os céus. Não procuram tirar as lições de tudo isso. Propõem atalhos irreais, que abrem o caminho para se cometer os velhos erros do reformismo; ou caem numa estéril indignação contra a “burrice” das massas. Não compreendem o papel do oportunismo reformista, da burocracia sindical e do irracionalismo das massas, cultivado pela grande mídia, pelas igrejas, pelo próprio reformismo e por todo o aparato ideológico do Estado e da família patriarcal.
        Isso não significa desconhecer as limitações políticas e o seu medo da liberdade, fruto deste irracionalismo presente nas massas trabalhadoras. Contudo, estas limitações e este irracionalismo levam os ativistas e simpatizantes da esquerda à uma indignação estéril e, a partir daí, à paralisia política ou ao seguidismo oportunista. O que devemos perguntar é: podemos superar o irracionalismo das massas? Constatar o problema já é trabalhar no sentido de superá-lo.



A desvantagem histórica

1.
A burguesia possui inúmeros mecanismos de dominação: desde o aparelho ideológico do Estado, as universidades, a escola, a grande mídia, as igrejas; até a ameaça do desemprego, a repressão policial e militar. Além de todo este aparato repressivo para manter a ordem social, também existem fatores individuais que contribuem para a alienação e apatia dos oprimidos. Estes fatores são amplamente explorados pelos grandes meios de comunicação e pelas igrejas. Tais sentimentos constituem uma enorme vantagem que a classe dominante detém sobre os trabalhadores, levando-os a se fecharem em si mesmos e estagnarem na chamada “zona de conforto”.

2.
        Nos momentos históricos em que se criam as condições para se desencadear uma revolução, esta zona de conforto é abalada. Contudo, como nos demonstram as experiências da Revolução Francesa de 1789 e a Revolução Russa de 1917, após a estabilização da crise revolucionária, as traições políticas e o cansaço voltam a jogar os trabalhadores nesta zona. Ela é uma realidade biológica intrínseca a todos os seres vivos, que agora precisa ser melhor estudada e compreendida. Para além das traições políticas e do cansaço, existem razões vinculadas à estrutura humana (moral, caráter, neuroses, medos, etc.) que explicam também os retrocessos de uma revolução. Essas causas precisam ser debatidas se queremos evitar que os mesmos erros aconteçam novamente.

3.
        A primeira questão a se entender, portanto, é que a vanguarda dos trabalhadores está em total desvantagem em relação à burguesia. Não apenas em razão dos referidos mecanismos de dominação muito bem construídos historicamente, mas pela chamada “tradição”, pelos hábitos, pela repressão sexual, pelo sentimento de culpa – estas duas últimas ligadas à dominação religiosa. A inércia social resultante beneficia a classe dominante.

4.
        O irracionalismo das massas alimenta inúmeros preconceitos que são explorados pela classe dominante – sobretudo pela grande mídia.

5.
        Estes preconceitos conseguem anular a visão das questões essenciais e são desviadas para as picuinhas mais banais, sempre mais atrativas do que debates mais complexos.
Por exemplo: toda a política defendida por um revolucionário ao longo de sua vida é eclipsada e, por fim, totalmente abafada, por algum tipo de “escândalo” que possa ter se envolvido em sua vida pessoal (muitas vezes este “escândalo” nada mais é do que uma criação artificial de setores da classe dominante, que visam explorá-lo para desviar a atenção do foco principal). As questões centrais passam, assim, a ser escondidas e os de menor importância vêm à tona.
Podemos destacar, como exemplo, aquele irracionalismo reacionário (quando não se trata de uma opção consciente) que condena o regime do terror sob Robespierre durante a Revolução Francesa de 1789, mas aprova o terror burguês de Thiers contra a Comuna de Paris em 1871, que exilou, perseguiu e executou três vezes mais pessoas.
Da mesma forma, se pode apontar o irracionalismo pequeno burguês em voga que condena os escândalos de corrupção nos governos do PT, mas os aprova quando se trata de governos do PSDB-Dem e PMDB. Reprovam as “ditaduras comunistas”, mas apóiam as ditaduras capitalistas. E a lista não para aqui...

6.
        É nestes preconceitos irracionais que a grande mídia se apóia quando desvia a atenção das reivindicações de atos massivos de rua para pichações ou supostos atos de vandalismo. A cúpula dos setores midiáticos sabe explorar estes mecanismos irracionais na mente das grandes massas.

7.
        O irracionalismo também bebe na fonte do medo, do ódio, do desespero, do desamparo, do egoísmo, da angústia... Quando ele não é tratado, estes sentimentos se misturam e transformam-se em monstros destruidores.

8.
Explorar estas picuinhas, distorcer e mentir, não é contraditório com o papel desempenhado pela classe dominante. Ela nem sequer se coloca estas questões de “ética” e “moral”, pois faz tudo nos bastidores. Para os militantes socialistas e de esquerda, este tipo de conduta não é permitido. Aí está, por exemplo, uma grande desvantagem, ao qual a autêntica esquerda não pode abrir mão sob pena de se degenerar completamente.

A sociedade capitalista necessita do irracionalismo

1.
        Na sociedade capitalista as mercadorias mandam nos seres humanos.

2.
        A sociedade capitalista mantém o seu funcionamento com base no consumismo desenfreado, na obsolescência programada de mercadorias e na imposição do supérfluo.

3.
        A publicidade virou um perigoso meio de indução capaz de lhe incentivar a comprar o que você não necessita.

4.
        Sem o irracionalismo das massas, seria impossível manter o consumismo que impõe o supérfluo, afirmando a posterior satisfação garantida; além de preparar piores e maiores catástrofes ambientais anunciadas.

5.
        Como o consumismo faz parte da engrenagem básica da sociedade capitalista, ele precisa cultivar cuidadosamente o irracionalismo das massas, para que este garanta que o primeiro siga funcionando.

6.
        O irracionalismo das massas, portanto, não é um fenômeno desprovido de finalidade e significação.

As explicações psicanalíticas:
somos animais racionais e irracionais simultaneamente
       
1.
A psicanálise de Freud nos demonstrou que os seres humanos não são apenas seres racionais, tal como nos afirmaram ao longo dos séculos os filósofos, mas, também, seres irracionais. Sabemos hoje que na nossa mente, bem como em toda a realidade, existem elementos e fenômenos conflitantes que tem efeitos devastadores e paralisadores.

2.
        Os seres humanos são, portanto, animais racionais e irracionais. É possível que tenhamos alguma vantagem sobre os demais animais por conhecermos esta contradição e, obviamente, por conseguirmos desenvolver o lado racional. Nem sempre os seres humanos escolhem o que é racional. Adoram o prazer, mas também cultuam (geralmente) de forma inconsciente a dor. Exaltam o amor, mas também o ódio. Buscam a liberdade, mas se tornam reféns da culpa e da opressão (inclusive conscientemente). As paixões se misturam e resultam em atos incompreensíveis a um primeiro olhar.

3.
        Assim como os seres humanos, a sociedade também é contraditória, pois reúne em si diversas forças, tendências, interesses, paixões, facetas auto excludentes, como expressão da sua evolução tortuosa. Estas contradições, como sugerem muitos intelectuais burgueses, não possuem caráter absoluto. Podem ser compreendidas e minimizadas. Mas todo e qualquer trabalho político necessita levá-las em consideração sob pena de cair no doutrinarismo e na abstração. Aqueles que esperam encontrar explicações lógicas, cartesianas, em linha reta, dos fenômenos sociais e psicológicos, cairão em insolucionáveis contradições. O trabalho político revolucionário não fluirá e poderá resultar em deformações e, por fim, naufragar no desânimo.

4.
        Wilhelm Reich aplicou sabiamente a psicanálise de Freud à sociedade, colocando-a na árdua tarefa de compreensão da massa humana. Foi mais ousado do que Freud, que pagou um preço para a moral e a sociedade burguesa. Reich disse que não podemos dissociar a repressão sexual individual dos fenômenos de massa, pois é daí que surgem inúmeras contradições políticas. Que a repressão sexual se estende do individual para as grandes massas; da mesma forma que o complexo de culpa. Daí advém muitas atitudes irracionais – dentre as quais está o apoio à ascensão do fascismo, cuja simples explicação tradicional, que se restringe apenas ao campo da política, será sempre unilateral e não conseguirá captar todo o fenômeno.
        É dele aquela questão bastante pertinente: “O que é necessário explicar não é que o faminto roube ou que o explorado entre em greve, mas por que a maioria dos famintos não rouba e a maioria dos explorados não entra em greve”.
        Evidentemente que Reich não resolveu toda esta problemática, apesar de ter levantado apontamentos importantes. Existe uma superestimação no seu raciocínio das “teorias sexuais”, ainda que seja da maior necessidade estudá-la e compreendê-la. A maior contribuição reichiana foi, sem dúvida, demonstrar que não podemos excluir a sexualidade da análise sociológica, como se faz até hoje. A análise marxista não pode prescindir da análise psicanalítica. Devemos tentar colocar as atitudes irracionais da massa no divã. A psicanálise, desde que usada para desvendar o inconsciente coletivo, para lutar contra o misticismo e o sentimento de auto destruição do indivíduo, pode ser uma poderosa arma capaz de revolucionar a sociedade.

5.
        Por tudo isso, aquelas análises tão comuns entre os militantes e simpatizantes da esquerda, de que os trabalhadores “preferem a apatia” ou a “opressão”, é mais complexa do que suas declarações levianas. Denota a sua impaciência para um trabalho de base prolongado. Os próprios militantes e simpatizantes da esquerda devem ter suas declarações e suas práticas analisadas. Por que reclamam tanto? O que está por trás de suas frustrações políticas com o “povo”? Quais forças operam nesta impaciência que leva à dura condenação do “povo”?
Logo após, devemos fazer um questionamento sério das razões da referida apatia do povo, da sua opção por este ou aquele candidato e partido burguês; desta ou daquela desculpa para não entrar em greve ou se abster da luta política em defesa dos seus direitos. A análise deve sempre partir da sua vanguarda, dos seus elementos mais conscientes e, a partir daí, se estender para todo o “povo”. É importante sempre ter em mente que os trabalhadores estão “naturalmente” sob controle ideológico da burguesia; portanto, não tem consciência de classe e, consequentemente, nem consciência de sua responsabilidade social. A questão é: o que impede que os trabalhadores desenvolvam consciência de classe? Que tipo de entraves se criam, levando alguns trabalhadores que chegam aos primeiros estágios desta consciência, renunciarem à ela?

A zona de conforto e a preguiça

1.
        Para grande parte dos militantes e simpatizantes da esquerda basta jogar todas as contradições das massas para a “zona de conforto” e está tudo explicado. Porém, não há nenhum esforço em tentar identificar e compreender as diversas faces desta “zona”. O que a move? O que está por trás da sua capacidade de sedução?

2.
        O que fazer com os milênios de repressão sobre a massa humana, que se traduz ainda hoje nas relações sociais, na educação, na ordem social? Mesmo estando historicamente na “era das crises e revoluções”, seríamos capazes de livrarmo-nos desta opressão milenar de forma definitiva e irreversível sem fazermos uma intervenção cirúrgica em todos os mecanismos sociais que ainda persistem, sem falar na sua atuação inconsciente sobre nós? Poderíamos vencê-la sem derrubarmos as instituições que a mantém operante e sem travarmos uma dolorosa e longa luta cultural contra os seus efeitos? Não seria um erro supor que aqueles seres humanos que foram mutilados por milhares de anos de poder patriarcal e explorador estariam preparados por um lampejo para combater a direita e seriam imediatamente capazes de governar a si próprios?

3.
        O resultado desta dominação milenar foi a introjeção inconsciente do medo e da insegurança de se emancipar. Pensar por si próprio dói. Se posicionar politicamente dói. É mais fácil e confortável ser dominado, ainda que isso custe a nossa saúde, a nossa alegria de viver. Podemos afirmar que grande parte da massa não tem clareza sobre estes processos, que se desenvolvem e se firmam de forma inconsciente sobre a nossa conduta. Milênios de submissão, de terrorismo psicológico religioso, terminaram por criar gerações de seres temerários e medrosos. A burguesia aprendeu muito bem a jogar com este sentimento nefasto.

4.
A experiência política da Revolução Russa, que foi a mais progressiva do século 20, terminou por degenerar, levando à restauração do capitalismo. A degeneração stalinista da URSS criou seres humanos adaptados e submissos também no campo da “esquerda”. Fez surgir na URSS uma outra “zona de conforto”, baseada na repressão, no medo e na chantagem.

5.
O cansaço e o desgaste da luta política e social – fruto de vários fatores, destacando-se, sobretudo, as traições políticas – leva à zona de conforto, à ressaca, ao repouso. Este cansaço e adaptação à ela tende a levar o indivíduo ao cinismo e a hipocrisia nas relações sociais e, também, à lei do menor esforço, à rotina no trabalho e na vida.

6.
A zona de conforto é um lugar multifacetado. Há uma linha muito tênue entre se vender consciente e inconscientemente para esta zona. Inúmeros motivos levam os trabalhadores à ela. Desde o hedonismo e o pragmatismo, amplamente disseminados pela filosofia do imperialismo através de diversos meios, e que serve de base para o senso comum da sociedade atual (em outras palavras: a adaptação oportunista ao prazer fácil e falso proporcionado por ela); até a necessidade biológica que todos os seres possuem de ter um momento de repouso, de processamento de dados e “digestão”. As contradições da evolução exigem momentos de repousos em todos os campos da natureza. No entanto, quando tratamos de seres humanos, é claro que a adaptação patológica à zona de conforto, consciente ou inconscientemente, representa uma degeneração e um oportunismo latente.
A política da classe dominante e do imperialismo leva em consideração o “princípio do prazer”. Dialoga com ele permanentemente, o seduz e o suborna por diversos meios e táticas.

7.
        Sair da zona de conforto é motivo de medo por parte da maioria das pessoas. Isso se dá desta forma justamente pela pseudo-estabilidade que proporciona. Na verdade, como toda a sociedade e a realidade estão em constante movimentação, esta zona de conforto não é garantia de nada. O apego às “coisas boas” e à “estabilidade” é uma ilusão que cobra um preço muito alto.

O medo

1.
        No seu íntimo, o ser humano cultiva, consciente ou inconscientemente, inúmeros medos: da morte, do desamparo, da repressão, do isolamento social. Estes medos são potencializados numa massa desorganizada, inconsciente de sua força e refém dos diversos tipos de irracionalismo a que está submetida.

2.
        Dentre os medos humanos o que mais causa pavor é o medo da morte. Este medo está incubado em todos os outros medos. Em seu nome os seres humanos são chantageados. Para tentar minimizá-lo, se criaram as religiões e outras formas de misticismo. A repressão policial, política e empresarial podem ter como conseqüência a morte. A massa refém do irracionalismo não consegue compreender que a sua união consciente pode representar uma forma de resistência aos impactos da inevitabilidade da morte, desde que as bases da sociedade sejam modificadas.

3.
        O egoísmo individual – base da sociedade capitalista – leva os seres humanos das classes baixas a irem definhando dia a dia, hora a hora. Os interesses conflitantes, contraditórios, a violência urbana, são realidades capazes de matá-los, mas o medo irracional da união da classe visando a transformação social acaba se impondo e abafando o outro. A mentalidade pragmática do “aqui e agora” impede de se visualizar que a melhor forma de resistência aos impactos da morte é a mudança social (a começar por uma nova educação que ensine que a morte é parte natural da vida). O socialismo, por exemplo, que pode representar esta nova sociedade e esta nova educação social, é visto por eles como “utopia”, em parte por ignorância, em parte por medo.

4.
        A zona de conforto leva à rotina. A rotina – na cabeça do indivíduo médio da massa – é uma suposta garantia de paz e tranqüilidade. Uma revolução social traz, consciente ou inconscientemente, o medo da mudança, do novo, do fim da rotina.

5.
        Ser “socialista” é, inevitavelmente, se envolver com política. Não a política burguesa, mas a autêntica política que intervém sobre as relações humanas no sentido que deveria ser; isto é, no sentido de tornar os trabalhadores capazes de administrar a sociedade. O ser humano médio da massa tem medo de se envolver em política porque sabe, consciente ou inconscientemente, o que significa se envolver com política (a repressão, o isolamento ou mesmo a morte).
Cabe perguntar: o que é mais cômodo para a mente adaptada à zona de conforto? Acreditar que podemos mudar a vida e a sociedade para melhor através do voto nas eleições burguesas ou por intermédio de uma revolução?
        Sendo assim, é mais cômodo ficar na zona de conforto e cultivar uma “ingenuidade política conveniente” (é preciso dizer, contudo, que muitos procedem desta forma inconscientemente). Desenvolve-se nele um medo do envolvimento político e das responsabilidades sociais. Seguir um líder político (um candidato, um político, um líder totalitário ou líder sindical), por exemplo, o exime de pensar e ainda lhe proporciona um alívio imediato para a sua tensão interior. São os ecos da ingenuidade da infância: é mais fácil e seguro seguir o pai, a mãe ou algum protetor que tudo fará por nós (desta mesma base psicológica advém a noção religiosa de messias).

Misticismo e religiosidade

1.
        O medo da morte e as incompreensões sobre os fenômenos da natureza levaram à humanidade a desenvolver o misticismo e a religião.

2.
        Ainda que existam religiões mais brandas e que tratem de forma positiva as questões sexuais – sobretudo as religiões que surgiram na época histórica de domínio matriarcal –, as maiores religiões da atualidade trabalham no sentido da total repressão sexual. Em razão da transição da sociedade matriarcal para a patriarcal – que coincide com a mudança da sociedade sem classes para a sociedade escravista –, podemos constatar que a repressão sexual faz parte integrante da divisão da sociedade em classes.

3.
        A religião representa um substituto imaginário para a satisfação real sob diferentes formas e pretextos. Ela subordina toda a vida humana a algo sobrenatural, anti natural e à autoridade eterna. Sendo assim, a prática religiosa – dentre outras coisas – sublima uma satisfação verdadeira, geralmente de cunho biológico. Estas satisfações são vistas como “inimigas” e são introjetadas como “sentimento de culpa” e de ansiedade sexual. Esta transforma-se em um anseio vegetativo insaciável, que não encontra satisfação natural.
Grande parte desta busca por uma “satisfação não realizada” se descarrega através do sadismo e de supostas “experiências místicas”. A atmosfera do ser humano autoritário – que serve de base para os regimes de direita – está inteiramente impregnada destes sentimentos. Assim, a atitude diante da política e da sexualidade se divide segundo a lógica cartesiana, tipicamente moralista: “bom” e “mau”, “céu” e “inferno”, “divino” e “demoníaco”, “satisfação sexual” e “punição”. A base da incapacidade humana para a liberdade, a sua busca por uma “punição”, seja em forma de submissão voluntária à uma ditadura, a um regime de exceção, ao voto em um governo que o auto destrua e o escravize, seja sob forma de auto flagelação, é, dentre outras coisas, o complexo de culpa resultante desta repressão sexual. É este complexo que precisa ser trabalhado.
Não casualmente, todo estado autoritário (seja ele expresso por qualquer regime) visa a repressão sexual e moralista das massas, o embaraço de suas realizações biológicas. Quando o permite, o faz de forma parcial, caindo no extremo oposto, isto é, numa simples descarga das pulsões instintuais mais básicas, feita de forma irracional, irrefletida e animalesca. Combater a repressão religiosa e autoritária sobre a satisfação sexual em nada tem a ver com legalizar a “anarquia sexual”, mas, sim, combater o irracionalismo característico desta repressão, bem como os preconceitos que daí advém.

4.
        Podemos afirmar que a religião trabalha no sentido de “amadurecer” os sentimentos e medos não resolvidos da infância na “nova mentalidade” da vida adulta. O desamparo, o medo, o sentimentalismo, o narcisismo, dentre outros, que encontra guarida e respaldo nos pais (ou nos seus substitutos), agora encontram respaldo no “pai, no filho, no espírito santo”, no panteão de santos e divindades, bem como em toda a mitologia judaica, cristã, islâmica, etc.; isto é, a criança crescida agora encontra guarida no “papai e na mamãe do céu”, que governam a temerária realidade, com todos os seus perigos em potencial.

5.
        A religião e todas as suas formas de doutrinação (cultos, sermões, catequização, intimidações místicas, escolas e universidades particulares) trabalham com uma educação para aceitar ilusões. Esta educação para o misticismo, incentivada sobretudo pelas religiões em suas diversas facetas (escolas e universidades particulares, jornais, televisões, etc.), torna-se a base do fascismo e da aceitação da sociedade de classes sempre que um abalo social coloca as massas em movimento.

Desculpas políticas

1.
        As ilusões cultivadas por vários meios não tem outra finalidade do que mistificar a realidade e as tarefas políticas para a emancipação dos trabalhadores. Vários são os elementos da psique humana que embaçam a visão e o juízo.

2.
        Dentre as desculpas que são utilizadas pelos militantes e simpatizantes da esquerda para não fazer nada ou se tornarem reféns do niilismo, está a eterna chorumela em torno da divisão entre esquerda e direita. Para eles, a direita é sempre unida, enquanto que a esquerda está sempre dividida. Isso seria um sinal de fraqueza, ao mesmo tempo que denotaria uma solução simplificada: bastaria a esquerda deixar de lado suas diferenças e “se unir”. Mas a que preço? Em torno de qual programa? Quais diferenças é possível deixar de lado e quais não são?
        Estas perguntas não são respondidas, mostrando que a simplificação e banalização do problema não ajudam a resolvê-lo. O que está por trás desse raciocínio é uma desculpa política para não se fazer nada; uma espécie de solução milagrosa que viria resolver o problema para estes indivíduos sem que eles precisem sujar as mãos (quando se trata, evidentemente, de militantes e simpatizantes da esquerda honestos, pois existem muitos oportunistas que se utilizam deste discurso para defender implicitamente a sua plataforma política).

3.
        Ao mesmo tempo que esses militantes e simpatizantes da esquerda lamentam a divisão da esquerda, cultivam práticas irracionais em relação a estratégia e a tática. Votam na “esquerda” aliada com a direita (tal como o PT, PCdoB e outros), não cultivam princípios, não tem preocupação com a explicação e a compreensão da realidade. Esta conduta política irracional serve para o enfraquecimento da própria esquerda, mas este pequeno “detalhe” nunca é percebido por eles. Para isso sempre há uma boa desculpa.

4.
        Grande parte destes militantes e simpatizantes da “esquerda” apóiam direções sindicais burocratizadas e conciliadoras ou se abstém da intervenção nos sindicatos e na política. Geralmente a “crítica” da massa refém do senso comum aos sindicatos e à política é feita de fora, como se fosse algo estranho a si própria. Reclamam da politicagem burguesa e reformista, da corrupção e das “disputas fratricidas”, mas não as entende e nem quer entendê-las. Foge das dificuldades.
        Em um debate sindical ou político sempre pergunta: “o que o sindicato ou o partido tal pode ‘fazer por mim’ ou [na melhor das hipóteses] ‘por nós’”. Não se vê (ou não quer se ver) como parte do processo político. Transferem o sentimento infantil mal resolvido (da busca pelo pai ou pela mãe protetora, que garantirá o seu princípio do prazer) para o campo sindical e político. Não quer crescer, enfrentar as contradições e a realidade, mas quer que alguém o faça por eles e em nome deles. Se veem coisas erradas não trabalham para intervir nos erros, para superá-los, mas se afastam do problema tal como o avestruz, enfiando a cabeça na terra; isto é, viram as costas para o sindicato e para a política. Estufam o peito para dizer: “não me meto em política”; ou dá a desculpa: “no sindicato é só politicagem”. Colocam a política e o sindicato de lado, esperando que tudo se resolva por um milagre.
        Esta conduta é um presente para os políticos burgueses e para os burocratas sindicais.

5.
        A impaciência pequeno-burguesa e as frustrações frente às dificuldades são um reflexo dos sentimentos infantis mal resolvidos; da recusa em olhar a realidade de frente e ter que renunciar ao princípio do prazer. O medo do desamparo e de tudo o que se relaciona a ele facilita a adaptação à zona de conforto, à preguiça, e faz as desculpas da intelectualidade burguesa de que a revolução socialista é uma utopia cair como uma luva. Tudo se resolve a partir destas justificativas pseudo-racionais.

6.
        Em razão da baixa politização, da alienação religiosa e midiática, a grande massa não consegue vislumbrar que o socialismo não apenas não é uma “utopia”, como é uma necessidade histórica premente. Muito menos consegue compreender as “experiências socialistas”, que na verdade foram fruto do que chamamos de regimes stalinistas. Aceita qualquer engodo político como viável no lugar do socialismo; inclusive o falso discurso de “humanizar o capitalismo” como forma de evitar a luta pelo socialismo. Neste intento, conta com o apoio e a passividade dos partidos e organizações de esquerda, que além de não enfrentar o debate, o reforçam através de diversos meios.

7.
        Utopia é querer humanizar o capitalismo (seria algo como querer um “nazismo-pacifista” – ou seja, uma “utopia reacionária”). É vender aos trabalhadores a ilusão de que podemos regular os mercados para evitar a especulação financeira (especulação esta que foi desmascarada parcialmente no filme “o Lobo de Wall Street”) e que podemos ir conquistando melhorias graduais para a classe trabalhadora através de programas sociais (Bolsa Família, PRONATEC, ProUni, etc.) sem mexer na propriedade privada dos meios de produção e deixando reinar a luta de todos contra todos pela sobrevivência imediata, as guerras imperialistas de rapina, a mentira institucionalizada por parte da grande mídia, a miséria crescente.

8.
        A humanidade nunca se propõe a uma tarefa que não possa realizar. O que aconteceria se ela, baseando-se nos fracassos de Ícaro na antiguidade e de Leonardo DaVinci no Renascimento, tivesse acreditado que era impossível voar? Seus experimentos, bastante rudimentares comparados aos aviões modernos, e, principalmente, seus “sonhos realistas”, foram passos importantes para a plena realização da construção de aeronaves. A sociedade soviética foi apenas uma primeira experiência na tentativa de criação da sociedade socialista. O que a burguesia, seus intelectuais e a sua mídia querem que acreditemos é justamente que o “socialismo é impossível”; isto é, que “jamais poderemos voar”.
Os intelectuais socialistas precisam ter paciência revolucionária para explicar às novas gerações todos estes problemas e preparar os futuros revolucionários dentro desta têmpera e desta perspectiva.

Esperanças burguesas

1.
        A grande dificuldade de mudar a sociedade é que a massa não é um corpo homogêneo, mas composto por muitas classes e grupos sociais. Estas classes e grupos não convivem em harmonia. Seus interesses são conflituosos, sendo que, muitas vezes, há diferenças dentro de cada classe e de cada grupo social. Cada ser humano ou família segue os seus próprios interesses pessoais que, na maioria dos casos, está em confronto com os interesses sociais.
        Dentro destas classes e grupos podemos destacar a burguesia, as classes médias (alta e baixa), o proletariado (a massa de trabalhadores das diferentes categorias, diferenciando-se os especializados dos manuais) e o lumpemproletariado (a imensa massa de indigentes e daqueles que estão à margem da sociedade). O caos de posições políticas, ideológicas e de interesses é o resultado deste mar de contradições. É possível definir qual é o conceito de “liberdade” mais válido dentre o pensamento dos intelectuais de cada uma destas classes sociais?

2.
        Uma pequena parte desta “massa” vota e defende posições políticas com consciência (ou, pelo menos, instinto) de classe. São os estratos da burguesia e da classe média alta. Estes pouco se importam com as conseqüências de um governo do PSDB, PMDB, PP ou de qualquer outro partido de direita (ou mesmo de uma ditadura civil-militar). O governo destes partidos e grupos políticos representa, de uma forma ou outra, a garantia do atendimento aos seus interesses políticos e econômicos. São forças sociais contrárias às mudanças, porque ganham com qualquer projeto político de manutenção do capitalismo (ainda que, ao contrário do que indica o pensamento simplista, haja muitas divergências entre si).
Na maioria dos casos não há possibilidade de um debate racional, pois os membros destas classes são hipócritas e mal intencionados. Seu real compromisso não é com a compreensão da realidade social, mas com a manutenção dos seus privilégios. Distorcem, omitem e descontextualizam fatos e programas políticos. Apelam para o sentimentalismo ou para a provocação barata com a mesma facilidade com que são desmascarados e colocados na parede por questionamentos incômodos.
Como controlam e financiam muitos intelectuais e, principalmente, os grandes meios de comunicação, suas posições políticas e sua moral se espraiam para as outras classes sociais. Em razão da estrutura da psique humana, é aceita acriticamente, servindo para alimentar ódios, preconceitos e ilusões irracionais nas camadas sociais mais baixas. No seu vácuo intelectual – fruto de suas condições culturais e, sobretudo, da sua criação familiar – as posições reacionárias das classes dominantes são recebidas embaixo com certo louvor.

3.
        As camadas debaixo (classe média baixa, proletária e lumpemproletariado) são reféns de outra dinâmica. Possuem uma mentalidade que não corresponde às suas condições sociais. Isto já foi analisado por vários autores, em especial por Marx e Engels. São criadas desde pequeno, em meio a fome e a miséria, aceitando a ideia de que precisam “estudar para ser alguém na vida”. Mas o que é ser alguém na vida? Por acaso é ser um empresário “bem sucedido”, capaz de viver explorando a força de trabalho de outrem? Sim. Trata-se exatamente de querer tornar-se burguês. Mas ninguém lhes diz que isso é impossível. A condição para que o capital e a propriedade privada dos meios de produção existam é justamente que não existam para a esmagadora maioria da população. Para um burguês surgir, milhares de proletários necessitam continuar sendo o que são. As esperanças burguesas de uma vida individual melhor – que é alimentada por diversos meios desde a mais tenra infância – é responsável, dentre outros fatores, por esta confusão política e ideológica; por esta mentalidade que não corresponde às condições de existência. A frustração subsequente é a conseqüência inevitável.
        Este talvez seja um dos mecanismos mais perversos de dominação do sistema.

4.
        A atividade econômica central do capitalismo é totalmente voltada para o lucro, que não é submetido a controle de espécie alguma. Sendo assim, desde pequeno, as crianças – independentemente da classe social – são educadas numa concepção de incentivo à cobiça, à obtenção de vantagens (ainda que isso nem sempre seja dito e percebido abertamente). Que espécie de seres humanos poderemos criar deste modo?
        Do ponto de vista pedagógico e político ignora-se completamente os efeitos sobre a formação do caráter de uma educação voltada para a exaltação moral de uns e pela humilhação de outros.

5.
        O projeto político da burguesia é manter o Brasil subordinado ao imperialismo, fornecendo-lhe commodities (matérias-primas) e cultivando o país na periferia do mercado mundial. A classe média não tem projeto político para o país. Em razão de se subordinar ao projeto da burguesia, entra em parafusos, ergue as mãos para o céu, reclama de tudo, atribui tudo a um suposto “espírito terceiromundista” do povo brasileiro (que é somente seu). Seu projeto, na verdade, é seguir acriticamente a burguesia, tentando conquistar o seu lugar ao sol. Quando este não vem, prepara os seus filhos nas melhores universidades do país para enviá-los para trabalhar e viver no exterior. É assim que “resolve” os problemas do seu próprio país.

6.
        A classe média baixa sustenta seu reacionarismo na estrutura rígida da família patriarcal. É refém de uma brutal repressão sexual, de uma moral neurótica e repressora, que tem uma válvula de escape no ódio, no sadismo, na submissão a um regime ditatorial que é capaz de lhe “punir” pelos seus complexos de culpa inconscientes. Muito remotamente esta classe média flerta com o proletariado. Por este condicionamento social e “psicológico”, acaba sendo presa fácil das classes superiores.
        A hipocrisia faz parte da sua formação moral, sendo, portanto, difícil disputá-la politicamente. A distorção para não enxergar a realidade por parte de muitos setores desta classe é quase doentia. Ela possui uma capacidade sem igual de fugir da questão central do debate ou da realidade para questões secundárias. Nesse intento, usa toda a sua erudição no sentido de confundir e distorcer. Para não perder um debate, desacredita um argumento com uma leviandade assustadora, na maioria das vezes sem uma vírgula de razão, demonstrando todo o seu egocentrismo.
        Por tudo isso, a maior parte desta classe média só pode sentir algum tipo de prazer no sadismo de ver o povo sofrendo, no egocentrismo de se sentir superior (mesmo que isso quase nunca seja real), ou em chamar algum trabalhador ou desempregado de “vagabundo”.

7.
        A neurose, assim como está presente no indivíduo, também está presente na massa – sobretudo nessa massa da classe média, reprimida por uma moral neurótica. Esta neurose, segundo Reich, é uma doença da massa, uma infecção semelhante a uma epidemia, e não um “capricho de mulheres mimadas”, como a psiquiatria tradicionalista afirmou na sua luta contra a psicanálise; também não é uma “invenção burguesa”, como afirma o marxismo mecanicista.

8.
        O lumpemproletariado e grande parte do proletariado caem no oposto: uma sexualidade feroz, irrefletida e incontrolada. Há o culto do prazer e do sexo descartável. Exemplo disso é a proliferação de determinados tipos de funk e total frieza das relações pessoais e sexuais, que tornam-se meramente carnais, supérfluas e comerciais.

9.
        A árdua tarefa de emancipação social do povo recai sobre os ombros do proletariado. Contudo, esta classe encontra-se inconsciente, refém da alienação midiática e de manipulações políticas; em suma, do irracionalismo. A maior parte do proletariado ainda cultiva esperanças burguesas de enriquecer individualmente.
É preciso um longo trabalho político de esclarecimento teórico, de criação de laços organizativos capazes de construir as condições para a sua autoconscientização. Os trabalhadores mais conscientes precisam dar os primeiros passos nesse sentido, não excluindo nenhum tipo de debate que possa acordar e conscientizar cada vez mais amplos setores do proletariado. A auto crítica e a reavaliação devem ser práticas permanentes nessa luta.

10.
        Outro engodo da sociedade burguesa é a dita “liberdade de expressão”. Esta bandeira foi defendida pelos iluministas, mas, assim como a Liberté, Egalité et Fraternité, também degenerou em hipocrisia e formalismo após o recuo da revolução de 1789. Os membros da classe média gostam de encher a boca para defender essa tal “liberdade de expressão”. Geralmente acusam o “socialismo” (na verdade o stalinismo) de acabar com ela. Não enxergam (ou não querem enxergar) a total hipocrisia em que caiu a “liberdade de expressão” no capitalismo.
        Na verdade, a “liberdade de expressão” é uma realidade apenas da burguesia, pois é ela que detém a grande mídia. Ela a utiliza como forma de dominação ideológica e política, distorcendo ou mesmo mentindo. A “liberdade de expressão” no campo das ideias pessoais é outra falácia, uma vez que é utilizada como forma de alimentar inúmeros irracionalismos na massa; sobretudo o ódio. Sendo assim, a massa é seguidamente tapeada e confundida por esta “liberdade de expressão”. Qualquer charlatão, religioso ou demagogo mal intencionado se esconde atrás dela, pois tem garantia de que ninguém exigirá provas do que afirmam. As suas afirmações estão protegidas pelo direito democrático inviolável de “liberdade de expressão”. Nenhum critério é imposto a tais embusteiros, chegando ao ponto de Jair Bolsonaro (PSC) poder fazer apologia da tortura durante a ditadura militar brasileira e se esconder atrás do direito à “liberdade de expressão”.
        Enquanto isso, aos trabalhadores conscientes a “liberdade de expressão” se resume, no melhor dos casos, à crítica roedora dos ratos das redes sociais; geralmente ela está restrita à demissão, ao gás de pimenta e ao cassetete da polícia.

Oportunistas e burocratas

1.
        Na época do capitalismo imperialista os governos corrompem uma parcela do proletariado (geralmente seus extratos superiores) com privilégios, cargos, liberações do trabalho diário, prestígio, etc. Deste processo surgem o reformismo “socialista” e as burocracias sindicais, que transformam os partidos operários e os sindicatos em ferramentas indiretas da burguesia. Estas estruturas sindicais e políticas petrificam-se em torno de práticas antidemocráticas, servindo de esteio à burguesia e aos seus governos.

2.
        Quando falamos em um dirigente sindical ou político, então não podemos conceder-lhes “salvo condutos” prévios ou atribuirmo-lhes algum tipo de irracionalismo. Trata-se, em sua grande maioria, de traidores conscientes. Pessoas preparadas, que tiveram oportunidade de estudar e refletir. Estão, geralmente, em cargos de comando, o que duplica a sua responsabilidade, pois a partir daí passam a influenciar centenas de milhares de outros indivíduos.
Nestes casos, portanto, não se trata de confusão irracional, mas de opção consciente pelo “caminho do menor esforço”, para frear a luta e manter a calmaria necessária para a sua construção política e sindical, e para o desfrute das benesses de sua vida pessoal, perfeitamente alicerçada em suas condições sociais.

3.
        Muitos destes oportunistas e burocratas têm perfeita consciência sobre o irracionalismo e alienação das massas (muitos deles são alertados por oposições, por toda a literatura marxista e por outros meios). Não trabalham pela superação deste problema, mas o utilizam em benefício próprio, alimentando-o. Criam teorias reformistas e místicas que servem apenas para aumentar a confusão caótica. Assim, o irracionalismo das massas se fortalece criminosamente por quem deveria combatê-lo.

4.
        É próprio destes partidos operários reformistas (como PT, PCdoB, PSOL, PCB, e PSTU) e dos sindicatos burocratizados (em sua maioria dirigido por aqueles partidos) orientarem-se não pela realidade concreta (sempre mais dolorosa), isto é, pelos fatos, pela “verdade”; mas por ilusões que geralmente correspondem à estrutura irracional das massas. É desta forma que esta “esquerda” pretende dirigir as massas trabalhadoras.
Geralmente as verdades científicas e a realidade vêm perturbar o hábito, a rotina e o carreirismo destes partidos operários e dos sindicatos burocratizados que seguidamente procuram contornar as dificuldades por meio de ilusões.

5.
Estes militantes e simpatizantes da esquerda sempre enxergam as massas “soltas”, agindo irracionalmente, votando na direita contra si próprias, sustentando absurdos políticos e sindicais por sua opção. A função social dos oportunistas e dos burocratas quase sempre está secundarizada ou mesmo inexistente nestas análises. Outro tipo de medo serve para alimentar o irracionalismo (este já mais sofisticado e intelectualizado) e dispersar as massas: o medo desta “vanguarda” de se isolar do aparato e dos grandes partidos.

6.
A pressão da massa proletária sobre o estado burguês e os patrões só se faz sentir através da sua organização. Esta é impedida de acontecer, como analisou-se até aqui, em razão do irracionalismo, da alienação, da confusão ideológica, cultivada, dentre outros meios, pela grande mídia e pelas igrejas; mas, também, pelo reformismo “socialista”, onde se encaixam os oportunistas e burocratas sindicais.

7.
Quando a vanguarda operária (expressa nos sindicatos ou nas organizações e partidos operários) assimila a ideia burguesa de que o socialismo “é utopia”, “ditadura” ou que é “impossível”, é muito pior, por suas implicações práticas, do que a sua assimilação por uma parte expressiva da massa desorganizada, confusa e amorfa, ainda que isso também seja bastante problemático, já que estes elementos não estão dissociados. Porém, o peso maior cabe sempre à vanguarda, pois é ela que deve combater os preconceitos e as confusões políticas reacionárias das massas, para concretizar a sua organização em torno do programa revolucionário para transformar as ideias socialistas em força material concreta.

8.
        Quando analisamos algumas políticas desta “esquerda” – como as traições stalinistas, feitas com justificativas bizarras; ou a negação do golpe do impeachment em 2016 pelo PSTU, por exemplo –, elas nos parecem produtos de um irracionalismo muito semelhante ao das grandes massas. Isso se dá desta forma porque possuem parentesco, mas no caso da “esquerda” não se trata de um irracionalismo inconsciente: é uma opção política refletida e, por isso mesmo, uma traição consciente.
        Já é chegado o momento da vanguarda consciente dos trabalhadores casar as táticas: é preciso combater as traições do oportunismo reformista e dos burocratas sindicais, mas, também, o irracionalismo das massas. São lutas que requerem métodos e pesos diferenciados, mas que não podem ser dissociadas. Idealizar as massas esquecendo-se do seu irracionalismo cobra um preço muito caro.

Como devemos medir a consciência de classe e a evolução socialista?

1.
Em síntese, o que dissemos até aqui pode ser resumido no que segue: as necessidades biológicas, expressas caoticamente através do inconsciente (medo, desamparo, princípio do prazer, amor, ódio, rancor, narcisismo, egoísmo, etc.), são distorcidas e envenenadas pela confusão mística e religiosa. Estas, obscurecendo a realidade e o juízo para olhá-la de frente, sofrem novas e piores deformações a partir das influências ideológicas da grande mídia, das igrejas, das universidades burguesas, dos partidos fascistas, neoliberais, etc. Para piorar, o irracionalismo das massas se mantém e se reproduz a partir da descarga das pulsões de ódio e descontentamento nos eventos de “pão e circo”, como nos estádios de futebol, cultos religiosos, passa tempo vulgares, etc. Esta descarga, além de não solucionar o problema, apenas renova as condições para a continuidade do irracionalismo. O ciclo precisa ser rompido.
Este irracionalismo, quando canalizado e dirigido pelos interesses da burguesia, seja através do Estado, da mídia, das igrejas, das universidades ou dos intelectuais burgueses, passa a desenvolver uma espécie de “racionalidade às avessas”, que possui, geralmente, um caráter retrógrado, nefasto e reacionário, que se volta contra a própria pessoa da massa que o sustenta. E esta canalização e direção política por parte da burguesia acontecem seguidamente.
       
2.
A estrutura da psique humana debate-se na contradição entre o desejo intenso de liberdade e o medo da liberdade. Porém, apesar de todas as contradições presentes na nossa psique (amor e ódio; desejo e culpa; busca por libertar-se, mas medo das consequências; necessidade de uma rotina e aborrecimento com o tédio) também há intrinsecamente no nosso ser um profundo desejo de revolta, de colocar para fora as humilhações, limitações e opressões da vida cotidiana. É este instinto que viveu nas gerações passadas (revolta de Spartacus, rebeliões camponesas na Europa medieval, Revolução Francesa de 1789, Revolução Russa de 1917, etc.); é este instinto que embalará as gerações futuras, mesmo com todos os esforços das classes dominantes para deter a roda da história.

3.
Cabe a vanguarda consciente do proletariado ter paciência e perseverança nesta missão. A necessidade do trabalho ousado, de não ceder ao canto de sereia da acomodação, da passividade, daquele sentimento dócil de não querer bater de frente com os exploradores e os seus capitães do mato, do suposto “caminho mais fácil”. Deve saber a hora de avançar ou recuar e buscar a melhor forma para isso. Os intelectuais ao seu serviço precisam estudar e conhecer todos os campos humanos; não apenas o político, mas o científico, cultural, o psicológico, o sentimental. O esclarecimento científico apelou apenas para o intelecto das massas; e não para os seus sentimentos. É preciso saber fazer isso sem apelar à demagogia. O humanismo e o sentimento humano precisam ser trabalhados segundo as perspectivas proletárias e socialistas. Os futuros militantes proletários precisarão saber casar a teoria socialista com a “maneira de sentir” da massa.
É fundamental investigar e esclarecer as causas desta “incapacidade” dos seres humanos para a liberdade. A partir daí, passa a fazer parte indissociável das tarefas dos intelectuais proletários, a pesquisa dos instrumentos pedagógicos, médicos e sociais que possam criar essa capacidade de forma cada vez mais generalizada.

4.
        Certamente o desenvolvimento da capacidade para a liberdade nos seres humanos exige a ausência de ilusões, pois é nesta fonte que o irracionalismo bebe. Somente a partir daí começará a ser possível abrir o caminho para a responsabilidade social e, consequentemente, a desenvolver capacidade para a liberdade.

5.
        Que efeitos se produzem na criação e na educação de incontáveis gerações humanas uma concepção hierárquica estatal, uma administração mecânica da sociedade, o medo da responsabilidade social, a intensa necessidade de um líder (ou de um führer) e um profundo anseio por autoridade, a insistência em soluções fictícias, com regras fictícias, e um pensamento mecanicista no domínio científico? Não se elimina séculos de opressão social da estrutura mental dos seres humanos da noite para o dia.

6.
        Os trabalhadores conscientes, suas organizações sindicais e políticas, não podem mais ignorar os efeitos devastadores do irracionalismo na estrutura humana das massas. Idealizar a massa, esquecendo-se destas contradições intestinas, é um erro muito grave que gera diversos empecilhos para a emancipação do proletariado.
        Da mesma forma, a evolução socialista de uma sociedade futura não pode ser medida apenas pelos índices econômicos – por mais importante que o sejam –, mas também pelo grau de autonomia e confiança que cria nos indivíduos isolados e na massa em geral. A evolução socialista deve ser medida, sobretudo, pela capacidade educacional de criar indivíduos independentes, críticos e autônomos. A principal vitória do socialismo – para além da industrialização, da eliminação do analfabetismo, do desenvolvimento de condições materiais básicas para o proletariado – estará na sua capacidade de formar adultos socialmente auto-suficientes do ponto de vista intelectual e emocional (mas sempre ligados entre si pelos interesses gerais da sociedade), para que estes possam educar as crianças no mesmo sentido. Neste esforço, a compreensão sobre o papel do trabalho e da sua necessidade social é fundamental.
        Sabemos que é a educação autoritária de crianças pequenas, ensinando-as a serem medrosas e submissas, que assegura aos políticos oportunistas e demagogos, aos pastores e a um führer, a obediência e a fé de milhões de trabalhadores.

7.
Para além deste irracionalismo, haveria uma incapacidade das massas para a liberdade?
É preciso partir da premissa de que os seres humanos foram reprimidos por milênios, de diferentes formas e por meio de diferentes instituições políticas, e que se desfazer de todo este entulho de dominação, intrinsecamente instalado na nossa psique, é um trabalho árduo.
Todo o ser humano e, portanto, as massas humanas podem vir a desenvolver capacidade para a liberdade. Mas para isso, precisam ser educadas nesse sentido. O grande problema é que historicamente (e ainda hoje) foram (e são) educadas para aceitar a opressão. Não há uma receita de bolo para esta superação (apenas começamos a tomar consciência de todo o problema agora), mas é possível que o batismo de fogo para o nascimento desta nova humanidade, essencialmente livre, seja um processo revolucionário na sociedade.

8.
        Superar o irracionalismo das massas da noite para o dia é impossível. Por isso, se faz necessário a criação de um “superego” social que o iniba no sentido de controlá-lo para trabalhar pela sua superação. Um dos meios para combatê-lo é exaltando o conhecimento científico, racional, o trabalho vital; e o conhecimento sobre o próprio corpo e a natureza. A “ditadura do proletariado”, para além de evitar a restauração do capitalismo, precisa conter os inevitáveis excessos irracionais das grandes massas mais atrasadas para “educá-las” para a responsabilidade social (da qual se destaca o trabalho social e verdadeiramente livre); tarefa indispensável se queremos desenvolver a auto gestão da sociedade visando a extinção do Estado.

9.
        A grande mídia, as universidades e os intelectuais burgueses têm feito o possível e o impossível para transformar a ideia de socialismo em um vilão autoritário e anacrônico, que serviria unicamente para oprimir a espécie humana. Na verdade, estão tentando atribuir ao “socialismo” tudo o que representa, na realidade, o próprio capitalismo. Isso não fica evidente para a grande massa em razão do que foi exposto até aqui. O irracionalismo, baseado, dentre outras coisas, no egoísmo gerado pela miséria do capitalismo, impede que elas possam vislumbrar a real necessidade histórica do socialismo.
        Podemos destacar que o atual ascenso da direita no Brasil e no mundo tem como um de seus objetivos difamar o socialismo. Criar um dique de contenção com calúnias, confusões e distorções no sentido de aprofundar o irracionalismo nas massas, visando o seu distanciamento da única solução possível para a opressão e a exploração do capitalismo. O irracionalismo das massas é um grande aliado da burguesia consciente; o qual, definitivamente, não é mais possível menosprezar.

10.
        Não haverá possibilidade de construção da sociedade socialista – e muito menos o avanço para a sociedade comunista – se não trabalharmos duramente para a superação do irracionalismo das massas. É somente o superando que poderemos criar as condições para a sua auto suficiência (que deve ser, dialeticamente, individual e coletiva) e, a partir desta, para a autogestão da sociedade, com os seus processos administrativos e econômicos coletivos.
        Para superar o irracionalismo é necessário que as organizações proletárias se debrucem honestamente sobre os problemas da repressão sexual, da família patriarcal, da moral neurótica, da educação repressiva, castradora e autoritária; ao mesmo tempo em que devem procurar mobilizar os trabalhadores contra a exploração e a opressão econômica da burguesia e do imperialismo. Todos estes processos devem ser vistos como faces de uma mesma moeda.

11.
        Não existe uma receita de bolo para se combater o irracionalismo das massas. Trata-se, em primeiro lugar, de um paciencioso trabalho pedagógico, contrapondo permanentemente as suas incoerências à posições bem fundamentadas. A bandeira deve permanecer hasteada, sendo levantada permanentemente contra cada escorregão inevitável que o irracionalismo levará as massas a cometer.
        Para além disso, é preciso um combate sem trégua à família patriarcal, à moral neurótica e obsessiva decorrente, que leva ao desenvolvimento de uma terrível repressão sexual. Outra traição do stalinismo na URSS foi a restauração da família patriarcal, com todos os retrocessos daí decorrente. Precisamos lutar, em todas as frentes, e escrever definitivamente a luta contra a moral patriarcal e opressora em nossa bandeira socialista.


Bibliografia:
- Psicologia de massas do fascismo, de Wilhelm Reich
- A função do orgasmo, do mesmo autor
- Introdução ao fascismo, de Leandro Konder

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A covardia da elite nacional

As propostas de solução das crises financeiras e econômicas da burguesia brasileira são sempre as mesmas: cortar gastos, privatizar e demitir o serviço público. Ela não foi capaz historicamente de nos tirar desta debilidade econômica de sermos simples exportadores de matérias primas (commodities) para o mercado mundial, mera peça periférica do sistema; não é capaz hoje de pensar em uma forma de gerar renda a partir da própria economia nacional: é incapaz de falar em "industrialização". Não pode e não quer se chocar com o seu amo imperialista.
A burguesia brasileira e a classe média estão satisfeitas com esta condição medíocre. Sustentam aquelas falsas soluções. Fazem - através da sua mídia venal - toda a nação acreditar que temos que implementar o ajuste fiscal. Nem sequer debate a desindustrialização de setores inteiros da economia.
Devemos à pusilanimidade do governo José Sarney (PMDB) a renúncia à criação de uma poderosa indústria de informática. Com a abertura prematura desse mercado, as empresas brasileiras não tiveram como enfrentar a concorrência e os milhares de técnicos que estavam se formando emigraram.
A promissora indústria de telecomunicações e mineradora, cujos avanços tecnológicos já estavam rendendo royalties para o Brasil, foi entregue pelo governo FHC (PSDB) para o capital privado a preço de banana. Para tal, ludibriaram, enganaram e humilharam o povo.
O governo Lula (PT), e todos os antecessores deste, prepararam as bases da destruição da não menos promissora indústria aeronáutica (ramo na qual a Embraer ostentava, em 2009, o terceiro lugar num mercado extremamente concentrado). Toleraram a abertura da empresa ao capital privado, tal como FHC fez com a Petrobrás. Aos primeiros sintomas da crise econômica demitiram 4.273 trabalhadores. Trata-se da entrega de mãos beijadas ao capital privado de uma mão de obra altamente qualificada, que se leva décadas para formar. É verdade que a oposição burguesa de direita (PSDB, PMDB, Dem. et caterva) sabotou a tentativa de utilização da Petrobrás para uma pseudo-política nacional desenvolvimentista dos governos petistas, mas toda a sua política de concessão aos imperialismos não se justifica sob nenhum ponto de vista socialista.
Os governos Temer e Sartori (PMDB), venais até a medula dos interesses da grande burguesia imperialista, entregará o resto que falta do patrimônio nacional e dos serviços públicos. Esperar deles uma proposta de "industrialização" é o mesmo que esperar um nazista pregar a paz e a solução de conflitos.
Os concorrentes imperialistas apenas agradecem os grandes serviços prestados pelos vendilhões da política nacional, da grande mídia, da "intelectualidade" brasileira, da passividade e subserviência do movimento sindical governista e semi-governista.
Todos os governos brasileiros abriram mão de se tornar uma economia industrial, por pusilanimidade, por traição, por acordos espúrios com o imperialismo. Esta tarefa recai sobre os ombros dos trabalhadores conscientes. Existe um caminho alternativo para enfrentarmos a crise econômica. Ele exige coragem! Tudo o que a burguesia nacional (seus partidos e sua mídia) não tem...

domingo, 27 de novembro de 2016

"Snowden - herói ou traidor?": uma resenha


O filme do diretor Oliver Stone que aborda a vida de Edward Snowden - ex-membro da CIA e da NSA; e hoje perseguido político dos EUA, tendo que viver refugiado em Moscou - é um atestado eloquente do papel nefasto cumprido pelo imperialismo norte-americano pelo mundo. Desfaz o mito da "maior democracia do mundo", do país que "defende intransigentemente o individualismo" e usa a sua tecnologia de espionagem exclusivamente contra o terrorismo. Como Snowden bem denunciou, este é apenas o álibi que serve para a dominação política e econômica.
Refém de muitas crises morais em razão do que estava ajudando a desenvolver e a manter, Snowden demonstrou para o mundo o esquema de controle, chantagem e espionagem feito pelos EUA de países, governos, empresas, bancos e pessoas comuns (como não poderia deixar de ser, Dilma e a Petrobrás aparecem como alvos de espionagem no filme). Nada escapa: celulares, laptops, tablets, e-mails, redes sociais. A guerra tecnológica é o meio que o imperialismo norte-americano utiliza para dominar o mundo: internet, hardwares, softwares, drones, suposta perseguição à hackers, dentre outros. Os servidores - em sua maioria instalados em território norte-americano - são utilizados sem nenhum escrúpulo para a obtenção de vantagens, segundo o próprio relato do filme, para uma "posição militar silenciosa".
Este aparato de espionagem foi legalizado pelo ex-presidente republicano norte-americano, George W. Bush. Em nada foi modificado pelo democrata, Barack Obama, inclusive sendo exaltado por Hillary Clinton; e certamente será inescrupulosa e raivosamente utilizado por Donald Trump.
A espionagem global tem a total conivência e apoio das grandes corporações de comunicação, de internet e de tecnologia. A crítica feita à URSS por intermédio do tendencioso livro de George Orwell, 1984, e o esquema de controle desenvolvido por Stalin, são brincadeiras de criança comparados ao aparato de espionagem do imperialismo ianque. O Big Brother está em plena vigência. A diferença é que esta espionagem é silenciosa e imperceptível em um primeiro momento. Se trata de uma forma de espionagem para se antecipar a qualquer debate ou posição política dos movimentos sociais, organizações de esquerda, sindicatos e qualquer organização da sociedade civil; além, é claro, dos ataques militares nas guerras que o imperialismo patrocina mundo afora. As peças do tabuleiro são modificadas nos bastidores. As ações são tomadas de antemão, sem dar chance para qualquer reação (vide a ação dos drones norte-americanos nas guerras do Iraque, da Líbia e da Síria).
Não é possível manter a atual forma de desenvolvimento de tecnologia. O "Tratado Snowden" defendido pela ONU e pela "esquerda" reformista é um primeiro passo, mas ainda muito tímido. Os trabalhadores conscientes precisam escrever no seu programa a urgente necessidade da expropriação e decodificação desta tecnologia usada na internet e nos computadores. É preciso destruir o monopólio dos servidores residirem apenas nos EUA. Devemos lutar pela socialização da construção de servidores em cada país que assim o desejar, sem ter que mandar obrigatoriamente as informações para os servidores ianques. É fundamental a ampliação dos fóruns do software livre, lutar pela abertura e decodificação de todos os sistemas operacionais, pois trata-se de conhecimento humano e, enquanto tal, precisa ser socializado.
Snowden deu o primeiro passo para tomarmos conhecimento do monstro. Agora precisamos discutir novas táticas para combatê-lo.


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Notas sobre a ascensão da direita

Vivemos no Brasil e no mundo o ascenso da direita como o reflexo do aprofundamento da crise econômica. Isso significa o aumento de debates que trazem pautas conservadoras, excludentes, confusionistas, meritocráticas e, até mesmo, nazi-fascistas. Frequentemente as discussões descambam para agressões verbais, fruto, talvez, da impossibilidade de respostas.

Apesar da diversidade destes debates, é possível perceber que certos tópicos políticos, não casualmente, se repetem, tais como:

- Relativização: os partidários da direita seguidamente procuram relativizar (ou mesmo negar) a existência das elites e das classes sociais. Para eles, qualquer tentativa de responsabilizar as elites ou a classe dominante pela crise capitalista é "coisa de esquerdista". Tentam confundir atacando. Só não conseguem explicar o aumento exponencial dos bolsões de miséria nas periferias das grandes cidades; muito menos as disparidades de renda cada vez mais abismais. 1% de ricos detém 46% da riqueza mundial. Para eles, isso não existe!

- Provocações: é comum nas discussões os ataques gratuitos (sobretudo pessoais) na tentativa de desviar o foco da discussão para elementos secundários ou terciários (em suma: para picuinhas). O tom da voz se eleva seguidamente, interrompendo a argumentação. É rotineiro ouvir "vai pra Cuba!", como se uma mudança social revolucionária no Brasil fosse repetir exatamente os passos da Revolução Cubana. Mandar alguém pra Cuba não seria a forma mais patética de dizer "eu não tenho como responder"?

- A administração privada e meritocrática como "saída": este programa político, levantado por alguns com consciência (enquanto que a outra grande parte por "inércia intelectual"), é o que mais se aproxima de uma tentativa de debate. Segundo eles, a aplicação de medidas de privatização e meritocráticas resolveria todos os problemas sociais (e jamais serviria para o aumento da miséria; ou, segundo os mais honestos, acarretaria numa "miséria necessária"). O que não explicam é por que o Brasil não resolveu seus problemas sociais (ou sequer se modernizou) com a onda de privatizações durante a década de 1990? Mas, ao contrário, aumentou a disparidade entre ricos e pobres. Mesmo o FMI reconheceu (cinicamente, é claro) o "aumento da miséria" a partir das políticas neoliberais. E eis que os paladinos tupiniquins da privatização (sempre reféns do complexo de vira lata semi colonial) seguem repetindo os tantras reacionários que os seus amos já abandonaram.

As forças sociais progressistas - sobretudo as revolucionárias - não devem desanimar. Resistir é preciso! O futuro nos pertence! Esta esquizofrenia política, somada a um cinismo que não pode dar o braço a torcer porque isso significaria reconhecer seus privilégios, é um sintoma de que não representam nada mais, nada menos, do que o passado em estado de putrefação.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O socialismo é a mais alta forma de humanismo

O humanismo burguês, desenvolvido ao longo dos séculos 16, 17 e 18, foi muito importante para lançar as bases teóricas deste movimento filosófico que ficou conhecido como “humanismo”. Sua função foi colocar o ser humano no centro do universo, do debate filosófico, artístico e social, rechaçando a velha mitologia cristã medieval, junto com a sua metafísica idealista, que subordinava o ser humano a Deus e ao reino dos céus. Muitos dos filósofos e pensadores renascentistas e iluministas foram responsáveis por propagandear o humanismo e angariar inúmeros adeptos pelo mundo. No entanto, após a Revolução Francesa de 1789, que derrotou o feudalismo e a igreja, ele entrou em franco declínio e tornou-se uma hipocrisia flagrante. A miséria crescente, a exploração do trabalho, a prostituição, as más condições de habitação dos operários e das prisões – ainda hoje! – deixaram o humanismo burguês definitivamente para trás, como uma bonita “saudação à bandeira”; uma autêntica letra morta no papel.
Já é hora dos trabalhadores debaterem e se apoderarem de uma bandeira que é sua por excelência. Não é mais possível falarmos em humanismo atualmente sem falarmos em socialismo. Indo mais além, não podemos deixar de falar em humanismo quando abordamos o tema do socialismo; sobretudo em relação às distorções e os estigmas herdados da URSS stalinista.
A propriedade privada, a competição voraz e desigual, a exploração predatória e irresponsável, tornam à burguesia e ao capitalismo impossível sustentar um suposto humanismo (que dirá um “capitalismo humanitário”?), a não ser em palavras, que lamentavelmente enganam muitas pessoas. Aliás, o capitalismo tem sido um campeão em se utilizar de palavras que não correspondem à realidade. Somente mexendo na estrutura social, na propriedade privada dos meios de produção de riqueza social (no capital), elevando à condições humanas o nível material e cultural do proletariado, procurando dar as bases para acabar com a indigência, a prostituição e a miséria, poderemos falar de humanismo; e não apenas de palavras soltas, vazias, hipócritas.
Sem condições econômicas dignas, levados a uma luta pela subsistência, qualquer forma de “liberdade individual de escolha” ou de “individualismo” é uma enganação, pois sem estas condições materiais básicas, as “opções” subjetivas e as decisões pessoais não passam de uma fraseologia sedutora que serve unicamente para esconder a real condição do indivíduo na sociedade de classes. Esta crítica ao “humanismo abstrato” não é nenhuma novidade. O marxismo já a fez de distintas formas e em diversas obras. Bastaria, talvez, um pouco de boa vontade e honestidade intelectual para compreendê-la.
No entanto, estes pré requisitos nem sempre existem.
Para alguns, a desonestidade intelectual é uma necessidade para esconder a contradição e a hipocrisia em que caiu o “humanismo” abstrato (e o humanismo burguês). Tudo, evidentemente, usado sob medida para justificar a defesa do capitalismo e de todas as suas desigualdades. À noção de “humanismo”, precisamos acrescentar a perspectiva do socialismo, ou então ele não passará de um engodo para esconder a total falta de “humanismo” em que a sociedade capitalista jogou a humanidade.
***
         Justo no momento em que colocamos esta perspectiva política, muitas vozes que ajudam a sustentar o sistema – consciente ou inconscientemente – nos respondem com o discurso padrão:
– O problema não é o sistema econômico (seja capitalismo, socialismo ou o que for), mas o ser humano.
Aí os revolucionários socialistas precisam responder pacientemente:
– Os seres humanos não vivem abstratamente, isto é, não estão isolados de uma realidade histórica e de uma sociedade correspondente; são, precisamente, o resultado e o reflexo dessas condições.
Então, um pouco encurralados, os apologistas inconscientes do capitalismo, julgando encontrar o argumento que “decide a questão” e refugiando-se no pensamento metafísico do senso comum, respondem:
– Mas olhem para o que foi a repressão, a tortura e o controle na União Soviética. Está aí a prova de que o problema são os seres humanos e não o sistema econômico.
– Mesmo a União Soviética – respondem os socialistas não dogmáticos – foi uma sociedade condicionada por uma época histórica. Alguns teóricos e escritores criticaram correta e honestamente os desvios do regime stalinista; muitos outros não. O stalinismo foi um reflexo de uma situação que reunia os seguintes elementos: baixo nível cultural e político interno, somado a um país agrário, de débil desenvolvimento econômico, com uma burocracia de funcionários disciplinados para servir; somado a uma pressão de inúmeros estados inimigos, dentre os quais estava o nazi-fascismo, que ameaçava por abaixo a porta da URSS; além, é claro, do boicote econômico internacional, organizado e orientado pelo imperialismo, e da política internacional de Stalin, que sabotou inúmeros processos revolucionários mundo afora. O revolucionário russo, Leon Trotsky, deixou uma vasta obra que analisa minuciosamente todos estes fatores. Sendo assim, se insistimos que o problema está no “ser-humano” abstrato, então caímos numa metafísica barata, numa abstração que nos impede de ver todo o contexto.
– O sistema econômico ainda é conduzido por decisões humanas – insistem os apologistas conscientes do capitalismo.
– Sim, não há dúvida! Mas são seres humanos condicionados historicamente, como já foi dito. Suas decisões não estão embasadas unicamente nas suas respectivas vontades individuais, por mais que esta seja a aparência. Quando um rei era cruel ou um ditador mandava assassinar milhares de pessoas, isso não se dava por sua “maldade inata”, mas pelas necessidades imperiosas que lhe ditavam as condições da manutenção da dominação da classe a qual ele estava representando, na maioria das vezes inconscientemente. É evidente que seus apetites e a sua formação psicológica contribuem com maiores contornos sádicos e outras perversões; mas isso não significa nada se não estiver embasado por um poder político e econômico concreto. As pulsões de um ditador não são nada sem o poder político do Estado.
– E as pulsões individuais do povo? De um assassino? De um indivíduo egoísta que tenta tirar vantagem sobre tudo e sobre todos? – retomam os apologistas inconscientes do capitalismo.
– Sem dúvida estas pulsões individuais do povo entram como elos que fortalecem, de uma forma ou outra, a opressão geral de um sistema econômico, facilitam a ascensão de um ditador ou de um burocrata psicopata; contudo, se a orientação de toda a sociedade estiver condicionada por outra perspectiva político-econômica, certamente tal ditador e tal psicopata encontrarão inúmeras dificuldades. Portanto, a questão que devemos colocar é a seguinte: que regime econômico e político facilita mais esse egoísmo e esses “desvios” no indivíduo? O capitalista ou o socialista?
– Para mim, os dois! – dirá o apologista consciente do capitalismo.
– Como os dois? – retrucam os socialistas – Você está querendo dizer, então, que um regime político e econômico que legaliza a propriedade privada, a acumulação individual desmedida e incontrolável de riquezas, a exploração do ser humano pelo ser humano, a indústria bélica e o seu lucro astronômico, as guerras e a prostituição como um negócio, pode incentivar o egoísmo nos seres humanos da mesma forma que um sistema econômico que tem como perspectiva a propriedade coletiva dos meios de produção de riqueza social e a finalidade de desenvolver uma cultura e uma riqueza mais humana e igualitária nos seres humanos?
– Lhes digo apenas que o problema está no ser humano, pouco importando se vivemos num regime capitalista ou socialista – tergiversa o apologista consciente do capitalismo.
– Em relação ao ser humano ter problemas intrínsecos, tais como o egoísmo, o ódio, a ganância, a maldade, a perfídia, a inveja, dentre outros, não há nada o que objetar – insistem os socialistas –, contudo, há que se insistir no ponto de que precisamos construir uma base material capaz de inibi-los, puni-los, criminalizá-los; onde se construa uma real unidade entre os seres humanos, e destes com a natureza. A plena solidariedade humana só poderá surgir a partir de uma sociedade cujos valores estejam alicerçados na propriedade coletiva dos meios de produção de riqueza social, em que as oportunidades, no geral, sejam as mesmas. Em suma, uma sociedade em que sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres, como dizia Rosa Luxemburgo.
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- Não podemos nos apegar em utopias que apenas criam falsas esperanças – afirmam os intelectuais burgueses disfarçados.
- Utopias? – questionam os intelectuais socialistas – O nosso socialismo está baseado em uma compreensão científica da sociedade e das leis econômicas que a regem. Por isso o chamamos de “socialismo científico” em contraposição às escolas do “socialismo utópico”.
- Sejamos realistas! – insistem os intelectuais burgueses – O “socialismo científico” de Marx não tem nada de científico. É um amontoado de disparates que não se sustentam. Não há nenhuma explicação realmente científica. O socialismo e qualquer revolução sempre se tornam uma forma de ditadura despótica muito maior do que as que pretendia combater.
- Mas vocês defendem então a manutenção da sociedade capitalista, com a exploração de classe, o financiamento e a derrubada de inúmeras ditaduras e governos pelo mundo com as mais variadas desculpas; a indústria da prostituição, da guerra, da mentira? – retrucam os intelectuais marxistas.
- Todo o sistema econômico é ruim e opressor – tergiversam os intelectuais burgueses – Achamos que o ser humano é o problema.
- Voltamos a estaca zero, como sempre – dizem os intelectuais marxistas – Vocês, os intelectuais burgueses pretendem se colocar acima do bem e do mal. Dizem-se contra o capitalismo e o socialismo, isto é, querem nos fazer crer que estão acima de qualquer sistema econômico e de uma sociedade historicamente determinada. Seriam, portanto, simplesmente “humanos”, representantes de uma “moral humana superiora”. Sempre inflam os pulmões para criticar a “escravidão soviética”, sob a batuta stalinista (o que na maioria das análises é omitido), mas relativizam ou nunca critica a escravidão capitalista, que, pra eles, é sempre preferível. É por trás desta manobra intelectual que está escondido o seu apoio velado ao capitalismo. Segundo a lógica de vocês, capitalismo e socialismo seriam fundamentalmente a mesma coisa. Sendo assim, como os seres humanos são “maus” e “pecadores” seria impossível eliminar a miséria, sendo, pois, necessário suportá-la e habituar-se a ela.
- A ditadura soviética, o chamado “socialismo real” – insistem os intelectuais burgueses -, foi a pior forma de ditadura de espécie humana, o povo passou fome, foi preso, torturado.
- E com as revoluções burguesas foi diferente? – questionam os intelectuais marxistas – Depois da revolução francesa o povo passou fome, frio, foi torturado, humilhado e quem subiu ao poder? Napoleão Bonaparte, que instaurou uma nova forma de opressão. Isto não é motivo para desacreditarmos no futuro e numa sociedade socialista. Isso só demonstra que toda mudança social profunda, isto é, toda revolução engendra uma contra revolução, muito mais cruel e impiedosa, que tenciona pelo fim dos ideais que desencadearam a revolução. Isso não significa que as revoluções sejam impossíveis, apenas que não podem ser “perfeitas”, uma vez que movem inúmeras paixões, medos, angústias, crises, além, é claro, de ferir interesses poderosos. A ascensão de Stalin ao poder na URSS, com todos os seus crimes que mancharam o nome do socialismo, não significa que o socialismo seja irrealizável ou que “se transforme inevitavelmente em uma ditadura sanguinária”. Apenas atestou que sob as condições históricas do século 20, a contra revolução na União Soviética adquiriu aqueles contornos nefastos. Agora, as lições precisam ser tiradas e divulgadas. Assim como o capitalismo surgiu das contradições entre os avanços das revoluções burguesas e a contra revolução girondina e napoleônica, o socialismo vai se reciclar e ressurgir, como uma fênix, da contra revolução stalinista.
- Aí está todo o problema – argumentam os intelectuais burgueses – Vocês apenas raciocinam em cima da política. Secundarizam ou mesmo ignoram o ser humano e suas aspirações individuais. Tudo se resume a revolução e contra revolução. O mundo é mais complexo do que isso. O ser humano não é uma máquina e não se pode resolver problemas pessoais, tipicamente humanos, mexendo na economia. O socialismo não combina com humanismo porque submete tudo à ditadura do estado.
- Não se pode confundir a ditadura stalinista com “socialismo”. O que querem os socialistas com o socialismo senão humanizar as relações de produção, as relações políticas e econômicas? Isto é, os socialistas querem justamente desmercantilizar as relações humanas, elevar o nível intelectual, cultural e moral. Buscar relações mais verdadeiras, menos hipócritas e moralistas; portanto, relações verdadeiramente humanas. Visa humanizar a humanidade, tão mercantilizada, degenerada por sucessivos regimes de escravidão. Jogar fora todo o entulho aristocrático, místico, escravocrata, racista, feudal, burguês e burocrático. O humanismo deverá ter como norte estas premissas, caso contrário naufragará.
- Isso tudo é muito bonito em teoria – retrucam com a mesma leviandade de sempre os temerosos intelectuais burgueses.
- Por certo que para atingirmos nosso fim, que é a sociedade socialista, certamente nos depararemos com muitas circunstâncias que podem nos levar a uma encruzilhada e, até mesmo, à degeneração; isso, é claro, se não queremos ficar apenas na teoria, isto é, num humanismo abstrato incapaz de descer até o campo de batalha da realidade. Vocês que defendem consciente ou inconscientemente o capitalismo e a burguesia são incapazes de “utopia” porque pra vocês o futuro está morto. Vocês o assassinaram. Pra vocês só há “saída realista” no capitalismo; e dentro do capitalismo não há futuro. Para nós, socialistas, a “utopia” é um exercício e um dever, pois o futuro nos pertence.
- Esta história de atingir determinados “fins” lembra muito Maquiavel – esforçam-se os intelectuais burgueses, escondendo todo o seu maquiavelismo – Lembrem-se que Stalin era adepto da filosofia de Maquiavel.
- Certamente – respondem os intelectuais socialistas – Mas qual era mesmo o “fim” visado por Stalin: o socialismo ou a defesa da estabilidade da União Soviética para garantir os privilégios de uma burocracia parasitária e antissocialista?
- Voltamos ao problema dos desvios interiores do ser humano – insistem os intelectuais burgueses.
- De forma alguma! – retrucam os intelectuais marxistas – Se alguns “socialistas” e “partidos socialistas” se desviam do caminho da humanização da sociedade, se degenerando e traindo certos princípios, isso se dá por diversos fatores, mas a doutrina econômica e a base do pensamento socialista não normalizam e não relativizam a degeneração, a opressão e a exploração. Os especuladores, os corruptos e magnatas (bem como seus pequenos sócios da classe média) procuram enganar a população e os trabalhadores pobres de que eles podem enriquecer também. Incitam a cobiça, a “vontade de poder”, o egoísmo interior de cada um deles. Levam vantagem porque possuam a mídia, as igrejas, as universidades e escolas; em suma: o monopólio sobre o poder ideológico. Os socialistas, por sua vez, dialogam com o lado social, estóico, ético e honesto do interior de cada um. Estes impulsos são sempre mais fracos que os primeiros; por isso estão sempre em desvantagem. Isso não significa que a mudança seja impossível, como pensam vocês, induzindo muitos a pensarem o mesmo. A sedução pelo poder político e econômico, por mais invencíveis que pareçam, também tem limites naturais (ainda que bastante largos). A degeneração humana e social, a destruição da natureza através do consumismo desenfreado e a destruição da sociedade pela exploração e pelas guerras colocam uma sentença. Obrigam, por bem ou por mal, a um posicionamento. Esta pressão ultimatista da realidade conduz os “seduzidos” a se mobilizarem, a se politizarem, a lutarem pela sua sobrevivência; nem que sejam conduzidos pelo egoísmo mais tacanho da própria subsistência. É neste momento que se abre uma porta para mostrarmos a eles que a garantia da existência humana sobre a Terra depende do socialismo: das mudanças no regime político e econômico. Estas devem desencadear e preparar as mudanças na psicologia de massas, nas condutas pessoais, nas relações humanas, ainda que possam levar muito tempo.
- O ser humano não gosta de mudanças. São conservadores por natureza. Como fazer uma revolução dentro de limites tão estreitos, com tantas resistências, seja dos opressores (que resistem em razão das suas riquezas e da sua condição social), seja dos oprimidos (em razão da reprodução e assimilação dos valores dominantes)?
- Achamos que é inevitável usar a força para realizar esta mudança. Mas é claro que ela só pode funcionar dentro de um plano mais geral, de convencimento, elevação do nível cultural, intelectual, moral e, sobretudo, da produção econômica. O autêntico humanismo socialista em um período de difícil transição entre sociedades se expressa naquela frase de Che: “é preciso endurecer, sem perder a ternura jamais”. Os frutos poderão demorar a aparecer, mas estamos seguros de que virão.
- Poderão sobrevir os “Stalins” também – debocham os intelectuais burgueses.
- Sem dúvida este é um perigo real. Sabemos hoje que para o surgimento do regime stalinista houve, além de condições econômicas, sociais e políticas, certas propensões dentro de cada ser humano que esteve na alta cúpula do Estado soviético, bem como nas suas zonas adjacentes. E que isso, de alguma forma, também determina os rumos dos acontecimentos históricos. Porém, queremos ter o direito de tirar as lições pela ótica proletária, para que possamos continuar lutando e pensando dentro da perspectiva socialista. A burguesia quer apavorar a classe média e o proletariado utilizando-se da barbárie stalinista. Pretende transformar a mais profunda experiência revolucionária e progressista da humanidade no século 20 (isto é, a revolução russa) em seu oposto: em algo retrógrado e abominável, culpabilizando-a pelos crimes e traições do stalinismo. Atribui exatamente o futuro da humanidade sombrio sob o capitalismo ao socialismo: um futuro sem liberdades, sem direitos, apenas com escravidão, exploração, fome e miséria. Não! Não deixaremos a burguesia e os “socialistas” reformistas fazerem isso. Vale lembrar as palavras de Graco Babeuf, exímio revolucionário que permaneceu fiel às consignas que desencadearam a Revolução Francesa de 1789, quando se defendeu das acusações dos burgueses monarquistas que queriam condená-lo à morte: “são minhas as ideias que nos levam de volta à barbárie?”. Não podemos condenar a Revolução de 1789 pelos crimes da reação girondina e pela ascensão de Napoleão Bonaparte. Por acaso a Revolução Francesa também não degenerou o pensamento dos iluministas (Voltaire, Diderot, Rousseau)? Rousseau falou de “homens odiosos a ponto de cobiçarem mais do que o suficiente enquanto outros homens morrem de fome”. E o que fizeram os girondinos e os republicanos burgueses logo após o apogeu da Revolução Francesa senão acumular riquezas e matar outros homens de fome? Acreditamos que nem pela fome, nem pela tortura a que o povo francês foi submetido, a Revolução de 1789 deixou de ser necessária e importante para a humanidade. Tampouco o feudalismo e o antigo regime eram preferíveis ao capitalismo. Apenas os niilistas incorrigíveis (ou os desonestos intelectuais) podem pensar assim. O fracasso do “socialismo” apenas atesta o fracasso do stalinismo, nada mais, nada menos. O terror stalinista é o correspondente do terror girondino e napoleônico. A crítica trotskysta nos legou uma importante fonte documental que nos atesta esta afirmação. O futuro pertence aos trabalhadores, apesar de toda a tentativa dos reacionários de parar a roda da história, inclusive lançando mão do nazi-fascismo para aterrorizar, castrar e deter o proletariado.
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         Os intelectuais burgueses, que recebem grandes somas de dinheiro para firmarem falsas ideais para a manutenção da ordem vigente, não desistem:
         - Não é possível a criação de uma nova ordem social utilizando-se da violência. Isso não pode ser considerado humanismo; tampouco uma forma social que nasça da força.
         - Acaso a propriedade não é uma violência atroz? – retrucam os intelectuais socialistas, que geralmente possuem infinitamente menos meios para expressarem tais posições, quando não são diretamente ridicularizados pelo senso comum e pela grande mídia sem direito à resposta.
         - Acabar com a propriedade privada é um sonho nefasto que vocês, socialistas, desenvolveram de forma antinatural. A propriedade faz parte da declaração dos direitos do homem. É para acumular propriedades e riquezas que o homem trabalha. Tire esta perspectiva dele e então você verá todo o seu esforço minguar. Foi por isso que os homens fizeram a Revolução Francesa. Foi por isso que os pensadores iluministas levantaram alto a bandeira de uma nova sociedade. A propriedade era um privilégio restrito à nobreza feudal. A burguesia, sob o estandarte dos iluminista e dos revolucionários de 1789 estendeu este direito à toda sociedade.
         - É interessante notarmos que este “direito” continua restrito. Marx e Engels já desmascararam esta posição em 1848: “a Revolução Francesa aboliu a propriedade feudal em proveito da propriedade burguesa. O que caracteriza o comunismo não é a abolição da propriedade geral, mas a abolição da propriedade burguesa. Ora, a propriedade privada atual, a propriedade burguesa, é a última e mais perfeita expressão do modo de produção e de apropriação baseado nos antagonismos de classes, na exploração de uns pelos outros. Neste sentido, os comunistas podem resumir sua teoria nesta fórmula única: a abolição da propriedade privada. Censuram-nos, a nós comunistas, o querer abolir a propriedade pessoalmente adquirida, fruto do trabalho do indivíduo, propriedade que se declara ser base de toda liberdade, de toda atividade, de toda independência individual. A propriedade pessoal, fruto do trabalho e do mérito! Pretende-se falar da propriedade do pequeno burguês, do pequeno camponês, forma de propriedade anterior à propriedade burguesa? Não precisamos aboli-la, porque o progresso da indústria já a aboliu e continua a aboli-la diariamente. Ou por ventura pretende-se falar da propriedade privada atual, da propriedade burguesa? Mas, o trabalho do proletário, o trabalho assalariado cria propriedade para o proletário? De nenhum modo. Cria o capital, isto é, a propriedade que explora o trabalho assalariado e que só pode aumentar sob a condição de produzir novo trabalho assalariado, a fim de explorá-lo novamente. Em sua forma atual, a propriedade se move entre os dois termos antagônicos: capital e trabalho assalariado”. E concluem de forma categórica: “Horrorizai-vos porque queremos abolir a propriedade privada. Mas em vossa sociedade a propriedade privada está abolida para nove décimos de seus membros. E é precisamente porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós. Acusai-nos, portanto, de querer abolir uma forma de propriedade que só pode existir com a condição de privar a imensa maioria da sociedade de toda propriedade”.
         - Não existe liberdade sem propriedade! – insistem por inércia e por não poder proceder de outra forma os intelectuais burgueses.
         - Esta é uma contradição insolucionável. Responsável pelo aprofundamento das desigualdades, da miséria, da fome; em suma: da barbárie social que vemos crescer todos os dias. Definitivamente propriedade e liberdade não combinam. O iluminismo burguês foi muito importante para desenvolver uma nova sociedade, mas hoje, passados mais de 200 anos, caducou. Podemos afirmar, portanto, que o pensamento socialista, sob a perspectiva marxista-trotskysta, é o herdeiro legítimo do iluminismo e do humanismo burguês dos séculos 17 e 18, que hoje caiu na hipocrisia completa. Somente dentro da perspectiva marxista-trotskysta é que poderemos colocar o humanismo no caminho correto. De uma certa forma o humanismo socialista já estava presente, em germe, no pensamento iluminista. Graco Babeuf foi o fundador do humanismo socialista ainda durante a Revolução de 1789 ao ver a ascensão da nova opressão burguesa, muito antes de Marx, que somente chegou a estas conclusões com a revolução de 1848. Babeuf reivindicava alguns pensadores iluministas, como Rousseau e Diderot. O terror girondino, que subiu ao poder após a queda de Robespierre, lembrando muito o papel reacionário cumprido pelo stalinismo, terminou por perseguir, condenar e executar Graco Babeuf. Durante o seu discurso de defesa, ele denunciou que a “nova” República era menos tolerante que a monarquia. Em 27 de maio de 1797 foi guilhotinado. Durante décadas o seu nome foi usado como um espectro, tal como o de Trotsky.
         - Socialismo é uma utopia e sempre será! – desafiam os intelectuais burgueses, interessados na manutenção da sua ordem social – Em teoria é muito bonito, mas na prática não dá certo.

         - Então, temos que concluir forçosamente que a concretização do humanismo é impossível – completam os intelectuais marxistas – Se olharmos na perspectiva da sua matriz ideológica, realmente é uma utopia. Porém, se expandimos nosso campo de visão, percebemos que não apenas é possível, como se trata de uma necessidade histórica para a evolução humana. Por acaso o capitalismo dá certo? Onde este sistema não foi um grande negócio para uma pequena minoria? A prática do humanismo burguês degenerou em hipocrisia e chantagem. O humanismo, por sua vez, não pode se desenvolver em uma sociedade de classes, pautada pela ganância, competição e exploração. Sabemos agora que o humanismo autêntico só pode se desenvolver sob bases econômicas socialistas. Como a socialização da produção industrial e agrícola, bem como o fim da propriedade do grande capital, a grande mídia, as escolas e universidades podem ser usadas para a evolução e o desenvolvimento harmônico do ser humano. Será necessário também longos anos de “psicanálise social” para superarmos distorções introjetadas por séculos no inconsciente coletivo. Vocês, os intelectuais burgueses, insistem que é possível um “capitalismo humanitário” sem mexer nas bases econômicas do sistema. Por exemplo: que os ricos deixem de ser tão mesquinhos e passem a reinvestir seus lucros no social. Ora, isso seria o mesmo que querer que a raposa cuide do galinheiro e não coma os ovos. Os socialistas sustentam que somente será possível reinvestir os lucros no social quando os trabalhadores tiverem no poder, quando houver uma revolução que os leve ao poder e faça-os dirigirem a sociedade, socializando a economia, elevando o nível material e cultural de toda a população. Sabemos que apenas industrializar um país, elevar seu nível tecnológico e científico, por mais importante que seja, não é suficiente. O passo decisivo para o humanismo socialista é esclarecer se os membros da sociedade são indivíduos oprimidos ou trabalhadores livres, seres humanos racionais ou irracionais; se podem buscar a felicidade no social ou se precisam se esconder numa concha? O decisivo é saber se a sociedade socialista criará uma coletividade humana fundamentalmente e essencialmente diferente da ordem social capitalista anterior, baseada na ganância, na competição e na exploração. Eis a base do humanismo futuro.