terça-feira, 28 de junho de 2016

João Amazonas e o seu papel nefasto como “teórico” stalinista

Antes de responder o texto de João Amazonas, intitulado “O Trotsquismo, Corrente Política Contra-Revolucionária”, há que se perguntar a validade de tal ação, uma vez que ele foi escrito com a única finalidade de caluniar e confundir. Nele não há nenhuma tentativa honesta de esclarecer divergências, mas apenas difamações, calúnias e distorções; utilização de citações descontextualizadas; em suma, baseia-se no método típico do stalinismo, tal como o conhecemos ao longo da história da URSS. A resposta para a pergunta acima de “por que responder?” é a que segue: para que as pessoas honestas que não conhecem a fundo a história da URSS e do movimento operário possam refletir.
            Por se tratar de uma polêmica com o stalinismo há que se colocar luvas especiais para se mexer em lixo tóxico. O escritor do texto, João Amazonas, foi um dos principais fundadores e dirigentes do PCdoB, racha do PCB e um partido reconhecidamente defensor do stalinismo. Ele se coloca, portanto, como um teórico do stalinismo. Mas é preciso perguntar, também, que tipo de teoria defende o stalinismo? O stalinismo nunca teve uma teoria propriamente dita, mas um amontoado de dogmas e receitas pré-estabelecidas, defendidas ou abandonadas segundo as conveniências da burocracia dirigente da URSS e endossadas pelo cassetete e as prisões da polícia política do stalinismo, a KGB.
Pode-se destacar a teoria do “socialismo em um só país” e da “revolução por etapas” como tipicamente stalinistas, as quais foram contrapostas à teoria da Revolução Permanente, de Trotsky. A “revolução por etapas” é a continuidade lógica do pensamento evolucionista vulgar, de Edward Berstein, principal mentor do reformismo socialista; e também encontrava-se presente no movimento operário russo através dos mencheviques. A teoria do “socialismo em um só país” é, possivelmente, a sua teoria típica, reflexo direto da preservação dos interesses da burocracia soviética, cujo topo encontrava-se ocupado por Stalin. Foi uma forma que os burocratas do aparato encontraram para justificar a política de não expansão da revolução para o resto do mundo e, sobretudo, a sabotagem de inúmeros processos revolucionários que se desencadearam em diversos países (China, Alemanha, França, Inglaterra, Espanha, etc.) como reflexo direto ou indireto da revolução russa. A teoria do “socialismo em um só país”, que sob o governo de Kruschev e Brejnev tornou-se a política de “coexistência pacífica com o imperialismo”, é, por sua própria natureza, visceralmente anti-marxista. Rompe não apenas com Marx, mas com o pensamento de Lenin, que desde os primeiros momentos da revolução russa colocou a necessária perspectiva do triunfo da revolução em outros países, sobretudo nos países da Europa.
Amazonas procura apresentar Stálin como continuador da política de Marx, Engels e Lenin, mas, como se vê, isso está bem longe da verdade. Não foi apenas na questão internacional – que não é nada desprezível – que Stalin rompe com a continuidade do pensamento marxista, mas em relação a outros assuntos não menos importantes, como a questão do Estado. O stalinismo sustentou que, ao contrário do que apregoava Lenin, Marx e Engels, o Estado não só não deveria desaparecer, como precisava se fortalecer! E quanto mais ele se fortalecesse, inclusive prendendo, perseguindo e assassinando opositores, mais ele contribuiria para o “desenvolvimento do socialismo”. Tamanha contradição com o pensamento marxista denota apenas que o stalinismo estava interessado em defender os privilégios da burocracia soviética, que se sobrepunha totalmente aos trabalhadores soviéticos e necessitava do fortalecimento descomunal do Estado.
A política, teoria e método do stalinismo (somados à pressão internacional) foram os responsáveis por levar URSS e o leste europeu à restauração do capitalismo. Tal possibilidade já havia sido prevista por Trotsky na década de 1930. João Amazonas viveu para ver a restauração, porém, nunca se auto criticou por defender tal política e propagar tal método. Da mesma forma o PCdoB. Aliás, em pleno século 21 João Amazonas (até sua morte) e o PCdoB não apenas não se autocriticaram, como seguiram defendendo as distorções e falsificações do stalinismo. São incuráveis! O caminho para se cometer os mesmos erros e atrocidades segue perigosamente aberto.

Teórico malogrado ou falsificador consciente?
Os ataques furiosos de João Amazonas contra Trotsky denotam um profundo desconhecimento sobre a teoria trotskista. Seria isso fruto da ignorância ou da falsificação? Nos dois casos trata-se de um crime. Caso seja ignorância, como pode sair criticando um pensamento político sem conhecê-lo? Caso se trate de falsificação consciente é a expressão de sua má fé e da tentativa de desmoralizar o trotskismo porque na realidade ele representa uma profunda ameaça às suas pretensões políticas.
João Amazonas foi a principal liderança do PCdoB. Não pode ser considerado um sujeito ignorante. Muito antes pelo contrário: trata-se de uma pessoa muito inteligente e capaz. Além disso, todo o histórico do stalinismo – falsificações de documentos, fotos, arquivos, livros; prisões, perseguições, repressões, julgamentos forjados, assassinatos – dá a firmeza para garantir que se trata, portanto, de ataques baseados na falsificação consciente e na má fé.
Vejamos um exemplo: “Na teoria da Revolução Permanente Trotsky nega as etapas da revolução e a construção do socialismo num só país, introduz o aventurismo no plano da revolução mundial”. João Amazonas, além de desconhecer o que Trotsky defende sobre as etapas da revolução, classifica o internacionalismo proletário como um “aventurismo”. Somente um burocrata empedernido pode pensar de tal forma. Assassina, seguindo os passos de Stalin, a bandeira de Marx e Engels expressa no Manifesto Comunista: “os proletários não tem pátria; proletários de todos os países uni-vos”. É uma ruptura radical com o pensamento marxista que somente cegos incorrigíveis ou parasitas que vivem do aparato podem não ver. Para Amazonas expandir a revolução para outros países e construir a federação internacional de países socialistas é “aventurismo”. Lenin, Marx e Engels são, neste mesmo sentido, “aventuristas” tal como Trotsky.
Sobre a primeira afirmação de que “Trotsky negaria as etapas da revolução”, apenas explicita a tentativa de desqualificar a teoria da Revolução Permanente com falsos argumentos. Ela demonstrava que, na época imperialista, o cumprimento das tarefas democráticas da revolução burguesa (reforma agrária, fim dos restos coloniais, criação de uma verdadeira república democrática) conduzia diretamente à revolução proletária e à ditadura do proletariado, que colocam as tarefas socialistas na ordem do dia. Isso se dá desta forma porque estamos na época imperialista – já bem caracterizada por Lenin –, onde somente atacando a propriedade privada burguesa – isto é, os grandes monopólios industriais, o capital financeiro – poderemos resolver as questões “democráticas” mais básicas e elementares.
Na nossa época o grande capital imperialista domina todos os países. Não existem mais monarquias absolutistas ou vestígios de feudalismo. Todas as formas econômicas atrasadas estão plenamente integradas ao capitalismo. A independência nacional e a luta anti-imperialista estão relacionadas não só com a expulsão militar do imperialismo, mas também com a expropriação das multinacionais, que é uma tarefa socialista. Quem juntou as “etapas” da revolução não foi Trotsky, mas a realidade histórica. Separar as etapas da revolução na época imperialista é ter demonstrado não só profunda ignorância sobre o pensamento de Marx e Lenin, mas, sobretudo, ignorar toda a experiência da revolução russa, que demonstrou, na prática, que somente o proletariado no poder pôde resolver as tarefas burguesas “democráticas” retardatárias, como a queda da monarquia czarista, por exemplo; ao mesmo tempo que foi obrigado a ir aplicando medidas socialistas. Renegar a teoria da Revolução Permanente é renegar as Teses de Abril, de Lenin. Condenar Trotsky de querer “negar etapas da revolução” é, da mesma forma, condenar Lenin na prática revolucionária de 1917.
Outra mentira requentada por Amazonas afirma que “Trotsky não acreditava no campesinato em um país de camponeses como era a Rússia. Trotsky desmontou esta falsificação em diversas oportunidades. Na sua teoria da Revolução Permanente – sobretudo se referindo à Rússia e aos países atrasados – nunca afirmou tal coisa. Apenas disse que os camponeses devem estar subordinados politicamente ao proletariado, que é a classe mais dinâmica da sociedade moderna. Os camponeses não possuem programa ou partido próprio. Por sua própria natureza ou seguem a burguesia, ou seguem o proletariado. Neste sentido, pela lógica da teoria da Revolução Permanente, o partido revolucionário do proletariado deveria ter uma atenção especial em levantar as reivindicações do camponeses no sentido de lhe garantir o apoio, mas sempre lembrando da necessidade de que a hegemonia proletária prevaleça nesta aliança.
Toda a baboseira restante defendida por Amazonas, de que Trotsky supostamente defenderia uma “revolução simultânea internacional” é outro blefe. Trotsky dizia que: “o socialismo não pode ser realizado na arena mundial não estando seus elementos e pontos de apoio preparados em países isolados”, que não necessariamente terão revoluções simultâneas. O que Amazonas quer esconder com toda essa verborragia contra o internacionalismo proletário é o caráter patriótico e, portanto, pequeno-burguês, do stalinismo e de todas as suas variantes. Da mesma forma, quer esconder que o medo da burocracia stalinista em defender a expansão da revolução proletária aos outros países esconde os seus interesses conservadores e mesquinhos de manter o seu próprio poder enquanto casta na URSS.
Amazonas ainda sustenta que Trotsky afirmava que “a revolução não poderia acontecer nos países atrasados” uma vez que defendia que a Rússia precisaria inevitavelmente do apoio do proletariado europeu, mais experiente e mais bem armado de tecnologia do que o russo. Neste aspecto Trotsky não defende nada além do que defendia Lenin e, para isto, basta olhar as declarações de Lenin sobre a necessidade de ajuda dos operários europeus ao proletariado russo sublevado. Foi por isso que ambos esperaram insistentemente pela revolução européia, que não veio, num primeiro momento em razão das traições da social-democracia reformista; num segundo, por causa das traições do stalinismo.

As traições internacionais do stalinismo
A tentativa dos falsificadores stalinistas, onde Amazonas se enquadra, é mostrar Trotsky como um lunático, defensor de uma expansão da revolução socialista pelo mundo sem condições e de forma inconsequente. Na falta de argumentos para se contrapor ao trotskismo, se apela ao senso comum, ao ódio, à distorção e à falsificação aberta.
Trotsky denunciou todas as traições da orientação internacional stalinista no momento concreto em que aconteciam. Uma vez que a burocracia stalinista tomou o poder e o consolidou a partir do terror e da perseguição, começaram as orientações políticas desastrosas, que prepararam inúmeras derrotas (todas elas denunciadas pelos trotskistas).
Algumas delas são: traição à revolução chinesa, onde a burocracia stalinista orientou o ingresso do PC chinês no partido burguês conhecido como Kuomitang; logo depois, no seu giro “ultra esquerdista”, a burocracia stalinista tencionou os comunistas chineses a tentarem uma revolução sem condições, o que terminou num banho de sangue e o triunfo completo do Kuomitang sobre os comunistas (a revolução chinesa só triunfaria em 1949 com a ruptura da orientação oficial da URSS); relação amistosa com a burocracia sindical inglesa e orientação equivocada para a greve geral na Inglaterra de 1925; traição à revolução espanhola que lutava contra a ascensão do fascismo, inclusive se negando a fornecer armas ao campo republicano; política desastrosa de isolamento do PC alemão, o que auxiliou na ascensão do nazismo na Alemanha; política desastrosa de apoio à burguesia brasileira, liderada naquele momento por Getúlio Vargas e, posteriormente, aposta no aventureirismo de uma quartelada, conhecida como Intentona Comunista (isto é, uma tentativa de se fazer uma revolução sem condições); divisão do proletariado alemão com as potências imperialistas através da partilha da Alemanha e da construção do muro de Berlim (é possível “socialismo em meio país”?); na revolução grega do pós-guerra (entre 1944 e 1949), o stalinismo atuou junto ao imperialismo britânico para conter o processo revolucionário, como parte dos acordos internacionais de Ialta e Potsdam; na Iugoslávia, Stalin tentou desarmar e frear os partisans liderados por Tito, inclusive obrigando-os a se submeter ao governo monárquico que estava exilado na Grã-Bretanha; e, por fim, a extinção da Internacional Comunista em 1943 a pedido dos imperialismos “aliados” durante a Segunda Guerra Mundial, num esforço de “paralisar” a luta de classes em cada um dos países capitalistas para supostamente “facilitar” a luta contra o nazi-fascismo.
Se é certo que o internacionalismo proletário não se manifesta apenas pela existência de uma internacional socialista, como afirma Amazonas, também é certo que o crime de Stalin ao dissolver a Internacional Comunista fundada pelos bolcheviques em 1918 é uma demonstração dos seus serviços espúrios prestados ao imperialismo capitalista, sobretudo ao norte-americano (fato comemorado pelo NY Times na época).

Falsificações sobre a concepção de partido revolucionário de Trotsky
           Na questão do partido revolucionário novamente temos uma falsificação sobre o legado trotskista. Amazonas afirma que Trotsky teria uma concepção espontaneísta de partido. Não há nada mais longe da verdade. O Programa de Transição – documento fundador da IV Internacional – afirma que “a crise da humanidade é a crise de direção revolucionária”; isto é, da inexistência de um partido revolucionário capaz de conduzir o proletariado ao poder. No prólogo da A História da Revolução Russa, Trotsky afirma: “O traço característico mais indiscutível das revoluções é a intervenção direta das massas nos acontecimentos históricos. Sem uma organização dirigente [isto é, de um partido revolucionário], a energia das massas se volatilizaria como o vapor não encerrado em caldeiras com bombas de pistão”. Estas são as características marcantes de toda a obra de Trotsky. Sua batalha pela construção da IV Internacional reflete a sua luta por uma direção política internacional aos trabalhadores. Todo o seu pensamento está permeado da tradição leninista de construir uma organização política que crie as condições para dirigir as lutas espontâneas dos trabalhadores no sentido da tomada de poder através de uma revolução socialista. Trotsky nunca perdeu, nem por um segundo, a importância decisiva do papel subjetivo no processo revolucionário. Sendo assim, esta afirmação não passa de uma nova falsificação.
            Amazonas, por sua vez, não satisfeito em distorcer a concepção trotskista de partido, parte para ofensiva e afirma: “Lênin enfatizou que o partido do proletariado, para cumprir sua missão, tem de ser monolítico, disciplinado, vanguarda organizada da classe operária”. Lenin defendia um partido disciplinado e de vanguarda, mas nunca disse que o partido deveria ser monolítico. Quem disse tamanha asneira foi Stálin e os seus cães de guarda da burocracia. Defensores do centralismo burocrático, numa estrutura vertical e piramidal, o partido defendido pelo stalinismo não passa de uma espécie de servidão coletiva ao “guia genial dos povos”. As iniciativas individuais são totalmente controladas e os militantes de base educados à servir um dirigente, que serve a outro, que por sua vez serve ao comitê central e, por fim, ao “guia genial dos povos”, Stalin. Esta caricatura grotesca e autoritária nada tem a ver com o partido proposto por Lenin e Trotsky, baseado no centralismo democrático, onde o debate dos congressos, dos núcleos de base, a iniciativa individual dos militantes, dentro do programa proposto, é importante e decisiva para o êxito da revolução.
            O PCdoB, que apesar de hoje ser um partido social-democrata, mantém muitos traços do stalinismo “clássico”. Por exemplo: na greve do magistério gaúcho, em junho de 2016, militantes de base que votaram pela continuidade do movimento grevista junto com os núcleos do sindicato, foram centralizados pela cúpula do partido em razão dos acordos firmados na direção. À base coube o papel patético de seguir acriticamente o que mandavam os “chefes”. Eis o resumo do que é o partido stalinista e o seu monolitismo, que não tem absolutamente nada de leninista. É isto que entendem por “unidade”: a cúpula manda e a base obedece. Dentre todos os mecanismos nefastos utilizados nestes procedimentos, ainda se destacam as bajulações, a despolitização, a desinformação, a falsificação, os ataques pessoais aos oposicionistas, o baixo nível teórico.
Esta lógica se repete nas centrais sindicais, nos sindicatos, no movimento estudantil e em todos os setores onde possuem trabalho político. Ao mesmo tempo em que a estrutura partidária é monolítica, autoritária e dogmática, os movimentos são educados no economicismo mais rasteiro. Uma prática alimenta a outra. Vejam a atuação sindical e política da CTB, da UJS, da UNE, da UBES – entidades e corrente dirigidas pelo PCdoB. Quem defende o reformismo e o economicismo hoje? A política trotskista ou a stalinista?

Trotsky nunca foi leninista?
            Todos sabem que Trotsky foi um dos principais dirigentes da Revolução Russa de 1917 ao lado de Lenin. Mesmo toda a falsificação de fotos, livros, documentos e arquivos por parte do stalinismo não foi capaz de apagar este fato inquestionável. Autores como John Reed, Victor Serge e tantos outros não deixam nenhuma margem para dúvidas.
            Lenin foi o grande organizador e teórico do partido bolchevique. Suas Teses de Abril rearmaram ideologicamente os trabalhadores em sua luta contra o czarismo e a burguesia. Mas Trotsky não fica atrás. Como presidente do soviete de Petrogrado, principal dirigente do Comitê Militar Revolucionário – órgão da insurreição que dirigiu a revolução com o apoio e o consentimento de Lenin –; organizador e inspirador do Exército Vermelho, Trotsky teve papel determinante em todo o processo revolucionário. E onde estava Stalin? Em março de 1917, como redator chefe do Pravda, estava apoiando o governo provisório de Kerensky. Isto é, seguiu a linha política dos mencheviques. Sempre nos bastidores e de forma silenciosa, Stalin ia seguindo os passos de Lenin, mas nunca se posicionando abertamente.
            Amazonas afirma que Trotsky e os trotskistas nunca apresentaram divergências com Lenin, mas apenas com Stalin. Isto é outra distorção. Trotsky em suas obras sempre demonstrou que teve muitas divergências com Lenin. Divergências estas que foram totalmente exploradas pela burocracia stalinista para tentar vender Trotsky como “anti-leninista”. Na sua autobiografia e em muitas outras obras, Trotsky explica o conteúdo real destas divergências com Lenin, que foram totalmente superadas a partir dos acontecimentos históricos, que levaram Trotsky a aderir ao partido bolchevique, em 1917, com a total aprovação de Lenin, que chegou a dizer: “desde que Trotsky entrou no partido, não houve melhor bolchevique do que ele”.
            O curioso é que o stalinismo sempre se utiliza das mesmas divergências entre Lenin e Trotsky no ano de 1911, quando o último ainda tinha ilusões na unificação do POSDR e, especialmente, entre a fração menchevique e bolchevique. Nos anos seguintes, e sobretudo após a revolução, Trotsky sempre se auto criticou sobre tal conduta, superando-a na teoria e na prática. Lenin e Trotsky tiveram muitas divergências, mas muito mais convergências que os aproximaram decisivamente para dirigir a revolução em 1917 e para preparar o combate à burocracia soviética. Lamentavelmente, Lenin morreu antes deste combate decisivo.
João Amazonas ainda tenta confundir a militância requentando o velho embate sobre a questão dos sindicatos na URSS, que separou os dois revolucionários taticamente, em 1920. Logo após o término da guerra civil, Trotsky defendia a militarização dos sindicatos e a nomeação dos seus dirigentes pelo governo soviético. A ideia de militarização dos sindicatos era semelhante ao que Trotsky fez com as milícias operárias da Revolução de 1917, transformando-as no Exército Vermelho, vencedora da guerra civil. Outro efeito com essa medida seria possível afastar agitadores irresponsáveis por sindicalistas preocupados com a produção. Porém, essa proposta gozou de ampla antipatia entre os dirigentes sindicais e parte do partido, sendo usada anos mais tarde contra Trotsky pelo stalinismo.
Lenin corretamente o criticou. Neste polêmica, escreveu: “Repito, a divergência efetiva não consiste de modo algum no que pensa o camarada Trotsky, mas no problema de como ganhar as massas, no problema de como abordá-las, de como nos ligarmos com elas”. No mesmo texto, Lenin salienta que: “No programa de nosso Partido já assinalamos que nosso Estado é operário com uma deformação burocrática”. Ou seja, os sindicatos deveriam ser autônomos e ligados diretamente à sua base industrial de representação para lutar contra possíveis excessos por parte deste “Estado operário com uma deformação burocrática”.
Lenin criticou Trotsky pelos seus erros; o stalinismo, escarafunchando divergências antigas e utilizando-as fora de contexto, critica Trotsky pelos seus acertos. Não há nenhuma linha de continuidade entre essas críticas. O mais engraçado nisso tudo é que Amazonas critica a “militarização dos sindicatos” quando se trata de Trotsky, mas nunca se opôs à “militarização” e à nomeação burocrática desde cima por parte de Stalin e dos seus sucessores, não apenas dos dirigentes dos sindicatos, mas dos membros para a presidência dos sovietes, para as empresas estatais, para os principais cargos do exército.

Sobre as citações fora de contexto
            No texto de Amazonas, lemos uma citação de Trotsky completamente descontextualizada sobre o México. Trata-se da tentativa de discutir a situação política mexicana sob a presidência do populista Lázaro Cárdenas (uma espécie de Getúlio Vargas mexicano). A citação é a seguinte: “Os autores do programa querem construir completamente o capitalismo de Estado, num período de seis anos. Mas uma coisa é nacionalizar as empresas existentes e, outra, criar novas empresas com meios limitados e num terreno virgem. A história conheceu um exemplo de indústria criada sob a supervisão do Estado: a URSS. Mas foi preciso uma revolução socialista. (...) No México não temos uma revolução socialista, o país é pobre. Nestas circunstâncias, seria quase um suicídio fechar as portas ao capital estrangeiro. Para construir o capitalismo de Estado, é preciso o capital”.
Logo a seguir, fazendo uma interpretação patética, Amazonas afirma que: “como não havia uma revolução socialista no México, o jeito era construir o capitalismo de Estado com recursos do capital alienígena que, afinal, acabou submetendo o México, vizinho dos Estados Unidos, aos banqueiros norte-americanos”.
            Dá náuseas ter que responder uma tentativa vil e mesquinha de denegrir a imagem do velho revolucionário utilizando-se deste tipo de embuste. Neste texto, Trotsky fazia uma análise do plano sexenal no México, o que seria uma cópia mal feita dos planos econômicos da URSS, numa tentativa de Cárdenas em aplicar uma espécie de “capitalismo de estado”. No trecho selecionado capciosamente pelo falsificador Amazonas, Trotsky ressaltava especificamente as limitações deste plano, justamente por não ter existido no México nenhuma revolução socialista. Neste mesmo texto, Trotsky fala que “Em uma sociedade onde prevalece a propriedade privada, é impossível que o governo conduza a vida econômica de acordo com um ‘plano’”. Mas Amazonas, patético e sagaz, tenta iludir os desavisados de que Trotsky supostamente havia aberto mão da revolução socialista e aderido ao “capital alienígena”. Para conseguir “incriminar” Trotsky, Amazonas vai escarafunchar novamente textos específicos, descontextualizando-os completamente. É desta forma bastante original que o stalinismo tenta vender Trotsky como “agente do imperialismo norte-americano”. Não há nada mais patético e deprimente. Este velho método stalinista, amplamente utilizado nos Processos de Moscou, que deveria corar de vergonha qualquer indivíduo que conheça a história, é utilizado desavergonhadamente por Amazonas.

Os “trotskistas” e Trotsky
            Na sua busca desesperada para tentar desmoralizar Trotsky, Amazonas se utiliza, indistintamente da “teoria” de certos “trotskistas” que renegaram os princípios do trotskismo. Ele escreve que “não é acidental que os trotskistas vejam em cada movimento mais combativo das massas, ou nas crises políticas, o imediato e automático surgimento da revolução”. Os autênticos trotskistas concordam que um “movimento mais combativo das massas” ou “crises políticas” não levam automaticamente ao surgimento de revoluções. Porém, muitos ditos “trotskistas” acham que sim. E aí reside um grave desvio espontaneísta explorado pelo ágil Amazonas. É preciso ressaltar a profunda diferença entre o trotskismo de Trotsky e o “trotskismo” de PT, PSTU, PSOL e afins.
Nomeadamente, Amazonas cita Nahuel Moreno; um velho dirigente argentino, fundador do MAS e da LIT, e teórico reivindicado por PSOL (CST, MES e outros) e PSTU. Moreno renegou a essência da teoria da Revolução Permanente, a política sobre frente única, bem como realizou uma tentativa desastrosa de “atualizar” o Programa de Transição, que na verdade não passou de uma forma de renegá-lo. Para Moreno, qualquer “movimento mais combativo das massas” ou revolta é tratada como uma “revolução”, sendo, portanto, um espontaneísta da pior estirpe. A teoria morenista de que ainda é possível existir “revoluções democráticas”, não apenas o torna um revisionista sem princípios do trotskismo, como o aproxima da teoria stalinista da “revolução por etapas”, só que com outro nome e outros métodos. Amazonas tenta atribuir o espontaneísmo reformista e etapista de Moreno a Trotsky. Mas entre ambos há um abismo.
Amazonas ainda tenta insinuar que Kruschev tem alguma influência trotskista, mas isso também está muito longe da verdade. Criticar Stalin leva automática e oportunisticamente os acéfalos stalinistas a colocarem o rótulo de “trotskista”. Logo, Stálin é como um “deus” que nunca pode ser criticado. As denúncias dos crimes de Stálin, feitas por Kruschev no XX Congresso do PCUS, não tem absolutamente nada de “trotskismo”, ainda que ajudem a comprovar o que Trotsky defendeu e sustentou sobre o stalinismo. Kruschev, que foi nomeado e escolhido por Stalin entre uma rede de inúmeros burocratas a seu serviço, denunciou os crimes do stalinismo, mas não rompeu com a sua política ou sua “teoria”. Continuou condenando e perseguindo os adeptos do trotskismo. Sob a égide de Kruschev, a teoria do “socialismo em um só país” transformou-se em “coexistência pacífica com o imperialismo”. As traições ao movimento operário internacional continuaram até a invasão militar do leste europeu pelos tanques soviéticos.

A tática do entrismo e o PT
            Muito assustado com a tática do “entrismo” preconizada por Trotsky nos anos 1930 – sobretudo pelo fato de diversos grupos trotskistas terem a utilizado na fundação do PT, na década de 1980 –, João Amazonas vê nela uma grave “degeneração” e “deslealdade”. Porém, na política e nos métodos do stalinismo não há nada de degenerado ou desleal. Trotsky realmente defendeu esta política na tentativa de disputar internamento os grandes partidos socialistas da Europa Ocidental, na tentativa de ganhar os seus setores combativos e lutar contra os reacionários. Queria acelerar crises e rupturas. Tratava-se do futuro da primeira experiência socialista, a URSS, que estava de pé como um estandarte permanente de luta contra o capitalismo e ameaçada por diversas potências internacionais. Os partidos socialistas europeus caminhavam lentamente, influenciando decisivamente o movimento operário de cada país do velho continente no sentido do reformismo. Eram táticas específicas e pontuais para alguns casos da Europa.
            Em um contexto diferente se deu o entrismo no PT, que certamente seguiu a influência desta tática específica preconizada por Trotsky, mas não para defender os mesmos princípios e o mesmo programa. É justamente esta tática que desencadeou o ódio de Amazonas e, possivelmente, tenha sido a razão de ter escrito o texto caluniador. Muitas dessas correntes ditas “trotskistas” já romperam com o PT, embora algumas (como “O trabalho”), ainda permaneçam lá. Cabe ressaltar que estas correntes eram e são, essencialmente, revisionistas do trotskismo nas suas questões fundamentais. Fato totalmente ignorado por Amazonas. Também é importante frisar que trotskismo nunca defendeu um partido de tendências, descentralizado, tal como é o PT, PSOL e outros. Esta interpretação de Amazonas é sua; e somente sua.
           
Conclusões
            Muitas questões ainda poderiam ser ditas. Responder falsificadores e caluniadores é uma tarefa muito árdua, pois reconstruir os estragos feitos é sempre mais difícil do que destruir. Cabe ressaltar que Trotsky nada tinha de pessimista, tal como tenta induzir o “otimista” Amazonas. Pelo contrário: mesmo perseguido e caluniado por todo um aparato estatal degenerado, seguiu firme e forte, defendendo a revolução socialista, propagandeando o legado da Revolução de Outubro de 1917, ajudando os trabalhadores de diversos países a construírem suas ferramentas de luta, seus partidos revolucionários. Para Amazonas, falar a verdade, “por mais amarga que seja”, é pessimismo. Educado numa tradição stalinista, ele prefere dourar a pílula para não perder influência política e bajular sua “base”. Em suma, trata-se da velha utilização da demagogia barata, que não combina com falar a verdade doa a quem doer.
            João Amazonas ainda tenta dizer que Trotsky foi “rejeitado” pelo povo soviético. Lamentavelmente, o stalinista brasileiro tenta justificar os crimes de Stalin cometidos não apenas contra Trotsky, mas contra uma geração de militantes trotskistas dentro e fora da URSS, novamente se utilizando de mentiras. O fato de Stalin ter banido Trotsky para Alma-Ata e depois para Constantinopla, e não ter conseguido assassiná-lo abertamente dentro da URSS, tal como fez com Bukharin, Kamenev e Zinoviev, é a prova de que ele era um estandarte vivo, fundador e chefe do Exército Vermelho, teórico reconhecido. Durante muitos anos a foto de Trotsky era levantada ao lado da de Lenin nas manifestações de rua. Foi preciso uma gigantesca lavagem cerebral, a falsificação de fotos, arquivos e documentos, somada a uma brutal repressão, para que Stalin conseguisse banir o velho revolucionário de solo soviético. É esta campanha criminosa que Amazonas e o PCdoB seguiram realizando. Os militantes da juventude do PCdoB, a UJS, cantam palavras de ordem para os militantes trotskistas nos congressos da UNE e da UBES, “reivindicando” o assassinato de Trotsky por Stalin. Não apenas não sentem vergonha, como estão dispostos a cometer os mesmos crimes.
            Apesar da grande consternação que os trotskistas sentem ao ver tamanha maquinação e mentiras que não se respaldam em um único fato histórico, é compreensível o motivo porque agem desta forma: a obra de Trotsky é um estandarte de luta contra as burocracias políticas ditas “socialistas” que desmascara todo o papel nefasto cumprido por elas tanto dentro dos seus respectivos países, quanto na luta de classes internacional. Da mesma forma, todas as organizações e partidos de “esquerda” que levantam o nome de Stálin sem corar de vergonha, encontram-se desmascaradas e desarmadas perante tal denúncia. Só restam os seus métodos autênticos da calúnia e difamação!
O desafio para os caluniadores stalinistas continua sendo responder uma única crítica trotskista:
1) É possível socialismo em um só país, a revolução por etapas, o apoio às burguesias nacionais dos países de terceiro mundo? Isso seria um passo para o socialismo ou uma forma camuflada de levar os países ditos “socialistas” a restaurarem o capitalismo?
2) As frentes populares foram uma tática política correta ou de conciliação de classes, eleitoreira e degenerada, que levou inúmeros partidos comunistas a liquidarem sua independência de classe e a sustentarem a burguesia dos seus respectivos países, se adaptando à democracia burguesa?
3) O papel cumprido pela política de Stálin na revolução chinesa, alemã, espanhola, brasileira, na greve geral francesa de 1936, e em tantos outros lugares, foi correto – ajudando a desencadear e vencer revoluções – ou uma forma de enterrá-las, criando um vácuo que debilitou e destruiu as suas respectivas vanguardas proletárias durante anos e algumas irremediavelmente até hoje?
4) A burocracia política de Stálin à frente do Estado Soviético, logo após usurpar o poder político do autêntico Partido Bolchevique e a soberania dos Sovietes, levou ao triunfo do socialismo na União Soviética – como a máquina de calúnias propagandeava aos quatro cantos – ou levou ao emperramento econômico e, posteriormente, à restauração do capitalismo?
5) Que posição tomam os atuais caluniadores de Trotsky sobre os Processos de Moscou que assassinaram toda a velha guarda do Partido Bolchevique; bem como, qual a sua posição sobre os inúmeros militantes trotskistas delatados, presos, torturados e mortos pelo stalinismo não apenas na Rússia, mas também na Europa?
Muitas outras questões como estas poderiam ser levantadas e certamente ficariam no ar, envoltas por um silêncio constrangedor. Antes de tentarem enlamear o nome do grande revolucionário com calúnias e distorções, os pigmeus stalinistas, chafurdando na própria lama que criaram em volta de si, precisam responder a estas perguntas.
Fora do socialismo não há perspectiva para a humanidade. Para que consigamos voltar a propagandear o socialismo e colocá-lo como perspectiva no horizonte dos trabalhadores, precisamos compreender o que foi o stalinismo, para superá-lo definitivamente. E para que possamos voltar a propagandeá-lo é preciso revitalizá-lo aos olhos do proletariado, limpar o seu nome enlameado pelos crimes de Stalin. Nesse sentido, não há possibilidade de socialismo fora da perspectiva que o trotskismo traçou.
            O aparato stalinista não conseguiu apagar Trotsky e a sua obra da história. Estes venceram pela força do seu programa, da sua teoria, das suas ideias, do seu legado. Os trabalhadores conscientes sobre a história do movimento operário não devem deixar que esta máquina de calúnias continue impune. Todas as mentiras, calúnias e distorções devem ser respondidas com uma crítica a ferro e fogo, demonstrando qual é o nível moral do stalinismo e o que ele representou para a luta pelo socialismo.
A eles responderemos em alto e bom som: falsificadores stalinistas, empenhados até hoje em caluniar o trotskismo, não passarão!



domingo, 15 de maio de 2016

Não adianta exigir coerência da pequena burguesia

O discurso do novo governo Temer (PMDB, PSDB e aliados) de "preocupação" com os 10 milhões de desempregados é repugnante. Uma nova mentira institucionalizada. As medidas econômicas e políticas de "ajuste fiscal" que vão implementar irá triplicar esta cifra, sem falar no aumento do subemprego.

Toda esta "preocupação" de PMDB e PSDB "em defesa do Brasil" é uma fachada para justificar o impeachment e a brutal retirada de direitos que já estava em curso no país com Dilma (PT) e que agora será intensificada com o governo Temer. Estão em defesa dos compromissos com o capital internacional norte-americano.

O que dizer, então, de José Serra (PSDB) no Ministério das Relações Exteriores? O senador que fez a lei que entrega o pré-sal para as petroleiras do Big Oil (lei aprovada no Senado numa conjugação de esforços entre o PT e o PSDB de Serra). E a farsa da nomeação de José Sarney Filho para o Ministério do meio ambiente?

De uma só vez cai a máscara da luta pela "moralização da Petrobrás", que significa apenas a sua entrega plena ao Big Oil, e contra a corrupção, velho e batido pretexto.

Não adianta exigir coerência. A grande esmagadora maioria daqueles que protestaram contra o governo não voltarão às ruas e não exigirão a queda deste governo, nem a saída dos 7 ministros nomeados por Temer que "estão sendo investigados" pela operação Lava Jato.

As nossas esperanças se voltam para aqueles trabalhadores que perceberam a hipocrisia e a manipulação política, para que aprendam com a história e jamais voltem a cometer os mesmos erros...

sábado, 19 de março de 2016

O nazismo enrustido

O momento político que estamos vivendo tem despertado o nazismo enrustido de centenas de milhares de pessoas, muitas das quais, se dizem “de bem”. Enquanto se divulgava aos quatro cantos (principalmente através dos meios de comunicação) a alta popularidade de Dilma e Lula, ele estava adormecido. Mas agora ele está sendo atiçado com vara curta, sobretudo por aquela parte da grande mídia, como a Rede Globo.
         
É certo que este sentimento encontra raízes na psique humana: numa tendência à destruição que sustenta e impulsiona a agressividade humana, levando à descarga de raiva e à destruição. Este sentimento horrível, evidentemente, não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas, mas podemos arriscar dizer que nesses protestos da direita há uma unificação em torno do ódio, já que ele cega e facilita a crença de que se Dilma cair a corrupção vai acabar, mesmo sem mexer na estrutura econômica e política do país. Aliás, isso é tabu: para esses “manifestantes” o capitalismo é sagrado. Ainda hoje é preciso lembrar que a defesa do capitalismo e um anti-socialismo raivoso estão na genética do nazi-fascismo. Equivocadamente esta classe média enxerga “socialismo” no PT, mas, na verdade, para o sentimento do “nazismo enrustido” pouco importa, qualquer movimento que cheire à esquerda é taxado de “socialismo” e precisa ser combatido, com razão ou não.
         
A descarga pulsional da grande massa – isto é, suas tendências destrutivas – em outras épocas é canalizada para entretenimentos alienados. Nem todos os indivíduos a descarregam da mesma forma. Há aqueles que a aliviam no futebol, no carnaval, no sexo “descartável”, na fofoca; outros no álcool e nas drogas; ou ainda numa combinação destes e outros tipos. Mas, neste momento, esta descarga está sendo usada politicamente pelas forças da direita tradicional contra o PT e indistintamente contra toda a esquerda. Trata-se de uma tática velha, mas sempre eficiente. O nazismo soube a utilizar muito bem, assim como fascismo na Itália e a ditadura militar no Brasil.

O que impede de se ver esses elementos claros como a luz do dia? Quando não se trata de baixa formação política ou da ingenuidade, pode-se indicar, talvez, este sentimento que se chamou de “nazismo enrustido”, que é incentivado em momentos políticos como este e cega qualquer forma de diálogo racional, dando arrepios de prazer quando atinge o clímax do ódio, da descarga raivosa ou da turgescência dos gritos histriônicos. Talvez seja isso que Whilhelm Reich se refira na sua análise da psicologia de massas do fascismo e do homem de classe média.

Apesar de o reformismo do PT tentar cumprir o programa político da classe média (qual seja: um ensaio de “distribuição da riqueza” sem mexer nos lucros do grande capital; tentativa de “humanizar” o capitalismo sem questionar os seus pilares e valores; contenção da luta sindical em nome do “diálogo eleitoral”), o “nazismo enrustido” grita que o “PT é comunista”. Qualquer tentativa de contra argumentação racional é respondida com o êxtase: “vai pra Cuba!”. O ódio real, contudo, não é contra a corrupção do PT – isto é apenas um álibi –, mas contra o que ele representou um dia, lá nos idos de 1980. O real programa deste “movimento contra a corrupção” é: nenhum privilégio a menos! O PT um dia representou uma ameaça a estes privilégios, mas hoje não. Tente dizer isso à uma pessoa sob o efeito do “nazismo enrustido”!

Infelizmente não é apenas na classe média mais abastada que percebemos sintomas do “nazismo enrustido”, que odeia não apenas o PT, mas sobretudo os pobres e miseráveis; ele também está presente em muitos trabalhadores. Instigar movimentos políticos através do ódio não é tarefa difícil, ainda mais quando se tem nas mãos poderosos meios de comunicação. Além disso, os valores políticos do conservadorismo – isto é, da direita – caem como uma luva a este ódio; são eles: a propriedade privada, o egoísmo, a rapinagem, a exploração, a confusão filosófica, a segregação, o patriarcalismo, o racismo, a xenofobia, o preconceito, a guerra.

O linchamento simbólico promovido pelos meios de comunicação e pelas ações do “São Moro” contra o PT, em particular, e a esquerda, em geral, estimulam a vontade de vingança engasgada na garganta do povo brasileiro contra os políticos e os partidos, mas não resolvem o problema do país porque não toca nos seus graves problemas sociais. Quer somente tirar um partido inconveniente do poder. Trata-se, na verdade, apenas de um catalisador que demonstra a verdadeira face deste “protesto” – o “nazismo enrustido” de muitos –, que se calou durante anos perante os debates e as denúncias das torturas e mortes da ditadura militar, mas que agora começa preocupantemente a “sair do armário”.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Sobre a "prisão" de Lula

1) Está em curso no Brasil um golpe orquestrado pelas forças conservadoras (PSDB, Democratas, Solidariedade, Força Sindical, diversas legendas de aluguel e setores da grande mídia) para desgastar, derrubar e inviabilizar o governo Dilma (do PT e dos demais partidos aliados). Como Lula seria, talvez, a única figura petista que poderia vencer as eleições de 2018 pelo PT, este desgaste político prévio visa dificultar sua candidatura. Cabe ressaltar que o ataque a Lula se dá logo após a maioria do STF aceitar denúncia contra Eduardo Cunha na Operação "Lava Jato". A luta contra a corrupção centrada apenas no PT é uma farsa que visa esconder a corrupção reinante em todas as demais siglas burguesas (PSDB, Democratas, Solidariedade, PMDB, PSB, PDT, PTB, PP, PPB, PSD, PSC, etc) e desmoralizar toda a esquerda, sem distinção.
 
2) A Petrobrás era a espinha dorsal das políticas econômicas dos governos petistas; tanto é assim que ela era a responsável por 60% das obras do PAC. Portanto, os ataques fulminantes e sem tréguas da oposição de direita e da grande mídia contra a Petrobrás são premeditados e certeiros, não para resolver os seus problemas de corrupção, mas para desestabilizar o governo e acelerar a sua entrega às multinacionais do Big Oil. Compactuando em parte com esta entrega, os governos petistas visavam um pseudo "nacional desenvolvimentismo" de setores secundários da economia, com um altíssimo custo de corrupção por parte das empreiteiras, amigas do governo federal. Este é o preço da "modernização conservadora" proposta pelo reformismo petista.
 
3) O governo Lula contraiu um empréstimo de U$10 bilhões com o Banco de Desenvolvimento da China (BDC) para financiar a sua política de desenvolvimento a partir da Petrobrás, que tem como contrapartida gastar U$3 bilhões em compra de equipamentos e tecnologias da China, e o comprometimento da Petrobrás em lhe fornecer 200 mil barris de petróleo por dia, durante 10 anos. O acordo seguia com o governo Dilma. Atualmente o mundo todo está submetido à disjuntiva: EUA/Europa X China/Rússia (hoje disputando o mundo no campo do capitalismo). É só olhar mais criticamente a situação de Ucrânia, Síria (Oriente Médio em geral), Argentina e Venezuela. Entre os primeiros países, os ânimos estão acirrados ao ponto do enfrentamento militar aberto; e nos segundos, ao enfrentamento disfarçado. Por aqui, a “mobilização” pacífica das bandeiras neoliberais nos atos chamados pela direita (como o que se avizinha em 13/03) vai cumprindo a sua missão de pressionar a opinião pública e o governo "pela direita". O patriotismo deste “movimento” e dos partidos da oposição de direita é profundamente cínico, pois significa apenas a incondicional submissão aos interesses do imperialismo ianque e dos demais partidos burgueses (PSDB, Democratas, Solidariedade, etc).
 
4) Os militantes do PT e da CUT afirmam que é preciso defender o governo, dentre outros motivos, porque Lula "é a maior liderança que a classe operária gerou no mundo", o que é uma mentira absurda! Lula é um traidor dos trabalhadores (como o foram Getúlio Vargas, Juan Perón, Stálin e tantos outros). De operário tornou-se um burguês; tal como o PT transformou-se de um partido operário em um partido burguês. Ser contra o golpe e denunciá-lo não pode significar, em nenhum momento, apoio político ao governo Dilma, que aplica um atroz programa de retirada de direitos (reforma da previdência, cortes orçamentários, MPs que destroem a CLT, etc) que é apoiado pela direita que quer derrubá-lo. Ser contra o golpe é unicamente defender as liberdades democráticas mínimas que possuímos, denunciar as cínicas intenções do golpe, expresso nas suas bandeiras conservadoras e de retirada de direitos, que em absolutamente nada resolverão os problemas de corrupção e da economia.
 
5) Um suposto governo (Temer? Cunha? Aécio?) que assumisse o lugar de Dilma seria impiedoso com estas "liberdades" mínimas. O governo do PT está retirando direitos pouco a pouco; um governo do PSDB terminaria com eles o quanto antes, se aproveitando do "apoio" do senso comum, criado a partir das manifestações de rua (tipo 13/03) e de parte da grande mídia. Na ótica da "oposição de direita" o governo está demorando para "ajustar" (sem falar nos programas sociais que, na lógica mesquinha, egoísta e arrogante deles, "desperdiça" dinheiro público, que deve ser todo destinado ao "bolsa banqueiro" e ao "bolsa multinacional").
 
6) Apesar de uma grande parte da elite brasileira estar por trás do golpe contra o governo Dilma (PT), outra parte da elite o sustenta (os governos Lula e Dilma enriqueceram bancos, emissoras de TV, agronegócio, empreiteiras, empresários e setores das multinacionais - os governos petistas mesmo nos dizem isso). Gratidão não é uma característica da burguesia, que usou e abusou do PT, da sua liderança sobre o movimento de massas, e desde o ano passado está o cuspindo fora, como um bagaço que já não serve mais. Que a militância honesta e de base do PT não esqueça disso, que não é nada mais, nada menos, do que o resultado do programa e da estratégia de "reformar" o capitalismo.
 
7) A história se repete: ontem golpe orquestrado entre EUA e elite local contra Getúlio Vargas e Perón na Argentina; hoje contra os governos do PT. Cabe ressaltar, contudo, que estes últimos fizeram muito menos do que os primeiros, o que demonstra o esgotamento de qualquer tipo de "reforma" do capitalismo e o caráter predatório do imperialismo.
 
8) Quando muitos ativistas de esquerda lutavam contra os ataques dos primeiros governos Lula (2003-2010), tais como a Reforma da Previdência, sindical, trabalhista; aumento extraordinário dos lucros dos bancos e multinacionais; arrocho salarial; ocupação do Haiti em nome do imperialismo; criminalização dos movimentos sociais; privatizações e concessões; dentre outros; a mídia nada falava sobre triplex do Guarujá e da chácara em Atibaia. Era propagado aos quatro cantos a "alta popularidade" de Lula, que também era "o cara" para Obama. Delphin Neto (ex-ministro da ditadura e comentarista econômico dos grandes meios de comunicação) dizia com razão: "Lula salvou o capitalismo no Brasil". Porém, a época das "vacas gordas" (programas sociais, investimento estrangeiro, etc.) defendida pela militância petista não deixou nada para o povo. As pequenas concessões vão escorrer como areia pelos dedos, com o olhar sentido de inúmeros militantes que acreditaram que a via petista era a "única possível".

9) Os trabalhadores conscientes não devem sustentar acriticamente Lula e o PT; muito menos apoiar as forças conservadoras do golpismo para supostamente "punir o PT". Devem sim ser contra o golpismo, muito embora, a questão fundamental seja construir uma linha política, desde o movimento sindical, de independência de classe (ou seja, construir um caminho independente da direita e do governismo). Devem procurar se organizar politicamente nos sindicatos, denunciar as tentativas de manipulação política de um bloco ou do outro, e discutir a fundação de um partido revolucionário que organize politicamente a classe trabalhadora brasileira, cuja "vanguarda" de hoje está deformada e deseducada pelo oportunismo eleitoreiro de PSOL, PSTU, PCO, dentre outros.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Nota sobre uma revolução burguesa não realizada no Brasil ou sobre como as velhas soluções são apresentadas como novas

Tirar Dilma seria uma espécie de solução mágica. Tipo: shazam! Zupt! A Dilma está fora e tudo vai melhorar, o país vai progredir e os problemas da corrupção e do desemprego vão se resolver!
Me pergunto: quem pensa isso raciocina mesmo ou só segue uma inércia de 500 anos?
O governo Dilma tenta conter o refluxo e fuga de capitais e, sobretudo, a sua consequência principal: a desvalorização do real. Além disso, tenta atrair capitais às custas da venda do país: exorbitante taxa de juros e endividamento público. O PSDB não faria melhor! Somente um cego incorrigível pode não ver.

E por que PT e PSDB agem assim? Porque o Brasil não possui indústria própria, a não ser em setores secundários. Sua economia autêntica baseia-se em produtos agropecuários, petróleo e minérios. Esta é a herança colonial não superada, que a nossa débil (mental?) burguesia não resolveu com a "independência" e que a burguesia atual (representada por Aécio ou Dilma) não se propõe a resolver.

O Brasil não desenvolveu e nem desenvolverá - no capitalismo - uma indústria nacional. Está impreterivelmente atrasado! Os países centrais do capitalismo já o fizeram e no mercado mundial restou ao Brasil os produtos agropecuários, isto é, as matérias-primas, que vende aos países centrais a preço de banana e consome o deles a preço de ouro. Para romper esse círculo vicioso e criar um parque industrial só se estivéssemos avançando para o socialismo, o que, com o governo Dilma, está definitivamente fora de questão (os desequilibrados anti-comunistas, saudosos da ditadura militar, que me perdoem: o PT não é comunista!).

Não existem milagres, nem soluções mágicas, como quer a classe média descontente. Aos trabalhadores conscientes cabe saber separar o joio do trigo, não ouvir a ladainha sem fim da pequena-burguesia, e saber pensar e intervir na realidade com independência de classe para evitar "soluções" artificiais, cujo tiro sempre sai pela culatra e só prepara novas e piores crises.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A imagem do marxismo e do Brasil na obra de Carlos Nelson Coutinho

Carlos Nelson Coutinho (CNC) foi um intelectual brasileiro preocupado em utilizar o marxismo para explicar a realidade do Brasil. Nascido na Bahia, em 1943, foi professor da UFRJ e militante do PT até 2004, quando rompe com o governo Lula e ajuda a fundar o PSOL, partido no qual militou até o seu falecimento, no Rio de Janeiro, em 2012. Durante a ditadura militar, CNC viveu exilado na Itália, onde entrou em contato com a obra de Antonio Gramsci, autor de cujo legado foi exímio propagandista. Também ficou conhecido por se propor a “renovar o marxismo” e as questões ligadas ao movimento comunista brasileiro.

CNC nos últimos anos de sua vida (1943 - 2012)
      CNC teve como espinha dorsal de sua obra a defesa e a divulgação do legado gramsciano, além de fortes influências de Gyorgy Lukács e autores ligados à chamada escola de Frankfurt. Não se pode deixar de reconhecer que a contribuição de Gramsci ao marxismo teve grande importância pelos temas relevantes que trouxe à luz: hegemonia, guerra de posições, sociedade civil, análise da revolução passiva, etc. Da mesma forma, o resgate do pensamento do teórico italiano por CNC teve fundamental importância para explicar a dinâmica de classe da história do Brasil. Porém, CNC detém-se nas limitações do pensamento gramsciano.
         Utilizando-se da teoria de Gramsci sobre a “revolução passiva” – teoria que se baseia na análise de Lenin conhecida como “via prussiana” ou “não clássica” para o capitalismo –, CNC embasa sua explicação da evolução da sociedade escravocrata brasileira para o capitalismo. Segundo esta análise, a modernização se dá de forma conservadora, pelo alto, completamente controlada pela elite portuguesa e burguesa. O lema não declarado destas “mudanças sociais” se expressa naquela frase do político mineiro Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, durante a Revolução de 1930: “façamos a revolução antes que o povo a faça”. Ou seja, todas as mudanças estruturais no país foram controladas de cima pela elite, feitas sem o povo e, na sua maioria, voltadas para fazê-lo aceitar a “fatalidade” da exploração, da pobreza e mantê-lo bem longe do poder. A modernização se daria de forma conservadora, mantendo velhos privilégios e misturando-os com uma estrutura social e econômica um pouco mais “moderna”. Assim como na Itália, as mudanças sociais no Brasil não se deram pela via revolucionária como na França em 1789, mas de acordo com a modernização conservadora da Prússia, no século 19; daí o termo de Lenin “via prussiana”, reelaborado por Gramsci como “revolução passiva” e rebatizado por CNC como “modernização conservadora”.
         Outra importante contribuição de CNC para o pensamento político e cultural brasileiro – também se baseando nos subsídios de Gramsci e Lukács – se deu no campo da literatura. Através da análise da obra de Graciliano Ramos, Lima Barreto, Jorge Amado, Caio Prado Jr. e Florestan Fernandes, CNC cria uma grande imagem da evolução do pensamento da intelectualidade brasileira, demonstrando seus altos e baixos e a importância dele na formação de uma “imagem do Brasil”.

Limitações do pensamento e da prática de Gramsci e CNC
         O pensamento de CNC, ainda que contribua culturalmente para a evolução intelectual independente do povo brasileiro, acompanha os altos e baixos da teoria gramsciana. Os pontos altos do pensamento de Gramsci se apóiam em Lenin: o proletariado precisa lutar por instituir a sua hegemonia sobre as outras classes oprimidas da sociedade para poder conquistar o poder e construir o socialismo. Esta luta será longa e precisa se apossar de todos os espaços possíveis, sobretudo no campo cultural (segundo Gramsci), para poder conquistar posições na sociedade civil. Há, possivelmente, restrições na compreensão gramsciana sobre o termo leninista “economicismo”, pois o atribui erroneamente em algumas passagens dos Cadernos do Cárcere em uma crítica equivocada à teoria da Revolução Permanente de Trotsky, próprio de quem não conhece a fundo a teoria. Talvez isso seja um reflexo da situação em que Gramsci se encontrava: passou muitos anos preso, tendo dificuldade para acessar documentos, cartas e livros, sobretudo estrangeiros; o que não é o caso de CNC, que possuía mais liberdade e facilidade para tomar conhecimento detalhado de posições políticas polêmicas do passado e do presente, baseado em um amplo trabalho historiográfico de várias organizações e gerações.
         A primeira limitação do pensamento de Gramsci que se reflete no de CNC se dá, justamente, na relação com o trotskismo. Gramsci, apesar de se colocar numa posição relativamente independente do stalinismo – exigindo até mesmo que os partidos co-irmãos da III Internacional interferissem no PC russo durante o auge das polêmicas entre o aparato soviético e a oposição de esquerda –, se posiciona favoravelmente à política do stalinismo contra Trotsky. Também olha com bons olhos a política de Frente Popular do stalinismo apresentada para os países da Europa Ocidental. CNC, ao contrário de Gramsci, não olha Trotsky de frente: ele foge do enfrentamento com o pensamento trotskista. Inclusive no seu ensaio sobre Florestan Fernandes ignora a formação trotskista do sociólogo. É precisamente este o principal erro de Gramsci – que muito caro custou ao proletariado mundial, inclusive na América Latina muitas décadas depois – que CNC repetiu na sua militância política, primeiro com o PT e depois com o PSOL.
O lado positivo das análises de CNC sustenta que a transição do passado colonial e escravocrata para o capitalismo tenha se dado através da “via prussiana” e que, portanto, o Brasil já era um país capitalista regido por uma sociedade burguesa peculiar desde fins do século 19 e início do 20. Esta concepção combatia a visão stalinista de se fazer uma “revolução burguesa” no Brasil para “liquidar o seu passado feudal”. Era desta premissa que o stalinismo concluía que se deveria apoiar e sustentar a burguesia brasileira e de vários outros países. CNC sustentava, corretamente, que era absurdo falar em um “passado feudal no Brasil”. Procura caracterizar a função do regime escravocrata brasileiro como produtor de “valor de troca” voltado para o mercado mundial, portanto, nada tendo de feudal.
Esta contribuição de CNC se mostrou justa e progressiva, muito embora não tenha o impedido de defender e apoiar as frentes populares, que era o lado prático da política stalinista. Na questão da transição para o capitalismo estava de acordo com a visão trotskista expressa na Revolução Permanente. Ou seja, a “revolução burguesa” já foi realizada no Brasil através de uma modernização conservadora e controlada pela elite. CNC analisa muito bem os impactos destas contradições sufocadas no campo cultural e político, e as profundas limitações impostas ao desenvolvimento capitalista brasileiro por esta revolução feita pelo alto.
Contudo, o principal problema se dá na questão da transição para o socialismo. Nesta questão CNC é obscuro, tal como Gramsci. Prescindem da ideia de uma revolução ao pagar um tributo caro demais à sociedade civil e à democracia burguesa “como valor universal”. Por indução se pode chegar a conclusão – sobretudo através da observação da militância de PT e PSOL – que CNC pretende propor o caminho de uma “revolução passiva” para o socialismo, feita pelo alto e sem o povo, por estar supostamente de acordo com os parâmetros ocidentais e “tipicamente brasileiros”, reflexo de toda a sua evolução histórica. Assim, a grande contribuição de Gramsci (baseada em Lenin) sobre a importância da hegemonia proletária sobre a sociedade civil como forma de se preparar a revolução, fica perdida num labirinto oportunista. Serve como suporte para a adaptação à democracia burguesa, tal como vimos na prática de PT e PSOL. Toda e qualquer hegemonia proletária conquistada sobre a sociedade civil deve caminhar no sentido de combater as ilusões oportunistas e preparar as bases materiais da revolução.
Gramsci precisa ser interpretado à luz de Lenin e Trotsky; e não o inverso. CNC interpreta Gramsci à luz do reformismo. É por isso que a sua visão para a revolução brasileira sofre com os altos e baixos do pensamento gramsciano. A visão política de CNC sucumbe diante de um malfadado desfecho reformista, o que não exclui a importância das suas contribuições para a leitura e compreensão dos grandes escritores brasileiros, bem como do próprio Brasil, nem da necessidade de todos os militantes honestos de conhecê-las.

Adendos feitos em 20 de janeiro de 2017

         A importância intelectual de CNC para o pensamento brasileiro é inestimável. Está a anos luz da intelectualidade burguesa, que apenas reafirma, como papagaio, tudo o que lhes dita o amo imperialista, apenas passando um verniz cultural brasileiro. Suas contribuições no campo da história e da sociologia lançam, sem dúvida, uma nova luz de análise sobre o país. Contudo, no campo político, CNC comete o erro clássico do reformismo. E os motivadores deste erro seguem explicados abaixo:
         Em seu principal artigo teórico de polêmica com a esquerda brasileira, chamado Democracia como valor universal, CNC procura debater as bases do que ele chama de “etapa da revolução brasileira”. Há que se perguntar qual revolução? Seria muito mais correto chamar de etapa atual do processo social ou civilizatório do Brasil, mas nunca de “etapa da revolução brasileira”.
Partindo de uma preocupação legítima, CNC quer encontrar as bases para a renovação democrática do conjunto da vida nacional, que, segundo ele, é o elemento “indispensável para a criação dos pressupostos do socialismo”. Nesta busca ele paga um preço alto demais, cujo estopim será o desfecho da experiência com os governos do PT, que ele não chegará a ver, pois morrerá antes.
No artigo citado, CNC salienta que para Gramsci era vital lançar as bases de uma refundação da teoria marxista de transição ao socialismo, colocando a questão democrática no centro dessa transição. Nesta sua “luta teórica”, CNC se diz inspirado pelo patrimônio teórico de Marx, Engels e Lenin. Capciosamente exclui Trotsky e Stalin e não se posiciona por nenhum. Para ele, é possível ignorar uma etapa histórica decisiva do pensamento socialista. Sabemos, contudo, que grandes revisionistas também se diziam “inspirados” pelo patrimônio teórico do marxismo: Kautsky, Berstein, Stalin, Ernest Mandel, Nahuel Moreno, dentre outros. Se inspirar no patrimônio teórico marxista é justamente manter certos princípios e readaptá-los à realidade contemporânea. CNC se adapta a realidade e esquece de muitos princípios.
No artigo citado, ele faz uma miscelânea oportunista ao abordar a polêmica entre Lenin e Kautsky, bem como as críticas de todos em relação a Berstein. Reivindica Lenin, mas ignora 2 livros inteiros dele: O Estado e a Revolução e A revolução proletária e o renegado Kautsky. Quer surfar na onda do pensamento leninista, que é o depositário de grande prestígio por mostrar pela primeira vez ao proletariado do mundo como tomar o poder e como conservá-lo, mas renega seus princípios elementares com a velha desculpa de “atualizá-lo”, se aproximando, na verdade, do próprio Kautsky. Segundo ele, ser marxista é ser revisionista do pensamento de Marx. É certo que o marxismo não é dogmático, devendo estar aberto à reavaliações e à adaptações, mas por trás dessa concepção temos uma abertura perigosíssima ao oportunismo (a burguesia, melhor do que ninguém, já percebeu isso). Sua fidelidade ao método marxista é bastante questionável. Por sua concepção expressa em diversas oportunidades, muito possivelmente em 1917-1918 estaria ao lado de Kautsky contra Lenin.
***
No artigo Democracia como valor universal CNC comete impropriedades e distorções no que tange ao stalinismo. Afirma que Stalin teria generalizado acriticamente para o ocidente o modelo de transição seguido pelos bolcheviques em 1917. Ora, se CNC não conhece nenhuma obra de Trotsky, então deveria conhecê-las antes de afirmar tamanho disparate. Se a conhece, então é cínico. Toda a obra de Trotsky é uma denúncia apaixonada do abandono por parte da burocracia stalinista dos métodos e do programa bolchevique. Todas as orientações dadas por Stalin aos processos revolucionários no Ocidente e no Oriente são catastróficas, equivocadas, erradas; isto é, todas rompem com o método bolchevique. Um livro específico de Trotsky não deixa margem à dúvidas: Stalin, o grande organizador de derrotas e A Terceira Internacional depois de Lenin.
CNC afirma também que a Frente Popular (a verdadeira e principal estratégia do stalinismo para o Ocidente) “consagra uma nova atitude dos comunistas em face do valor da democracia”. Se CNC não critica as catástrofes das frentes populares pelo mundo, e em especial no Brasil, é porque concorda com elas. E realmente as defende, tal como as defendia Gramsci. Sua postura é assim justamente porque dá um valor demasiado grande para a “democracia” in abstracto. CNC a dissocia de um regime de classe e do Estado, isto é, rompe abertamente com o método marxista e, em especial, com Lenin em um ponto que não é nada desprezível: a sua divergência essencial com Kautsky.
Em seu texto de polêmica, CNC trata as diversas formas de democracia indistintamente; um erro imperdoável para o método marxista de Lenin, por exemplo. Desfaz a clássica noção marxista de democracia burguesa. Ajuda o inimigo de classe a se mascarar melhor, a acumular forças, a dar novos e piores golpes. Paga um alto tributo à “revolução passiva”.
Na verdade, por não se apropriar das críticas trotskistas à “revolução por etapas” do stalinismo – colocando-as de lado como coisas descartáveis –, CNC adere totalmente à noção de “revolução democrática”, típica do pensamento menchevique e stalinista. O século 20 não existiu para ele. A luta decisiva entre o trotskismo e o stalinismo no seio da URSS seria apenas um borrão histórico; uma nota totalmente digna de ser ignorada. Não se trata de uma simples luta entre duas facções do movimento operário internacional lideradas por Trotsky e por Stalin. Trata-se, sobretudo, de uma luta teórica capaz de libertar os trabalhadores de um labirinto mortal e, principalmente, da contra propaganda indispensável para desfazer a imagem completamente desmoralizada do socialismo a partir do que foram os regimes stalinistas.
Ao contrário do que afirma CNC, insinuando ser este o problema do trotskismo, as organizações operárias que criticam autenticamente a democracia burguesa (e não dogmaticamente) não fazem da “luta democrática” algo utilitário. Defendem com unhas e dentes as liberdades democráticas arrancadas da burguesia e as utilizam como uma forma de elevação geral do nível político e teórico das massas, bem como de sua auto organização. Se não procederem desta forma, não podem ser chamadas de trotskistas. É ao mesmo tempo em que se luta pelas liberdades democráticas que se vai levantando as palavras de ordem socialistas; agitando e propagandeando o socialismo em contraposição às inevitáveis restrições democráticas impostas pelo capitalismo à massa trabalhadora. 
CNC pretende armar os operários e trabalhadores com o rebaixamento teórico. Não tenta dialogar com o trotskismo; não busca uma aproximação sincera com a teoria da Revolução Permanente. No quesito teórico está alinhado com as concepções mencheviques e stalinistas, mesmo que afirme o oposto.
***
Escrito em 1979, embalado pelas ilusões do período final da ditadura militar, o artigo de CNC luta corretamente contra o que ele chama de “golpismo”; isto é, todas aquelas organizações operárias que defendem a tomada do poder sem condições objetivas, tal como o PCB tentou fazer em 1935 com a “Intentona Comunista”. É certo que este golpismo ignora as massas e é uma versão operária do que ele chama de “via prussiana”, desprezando a maturidade política das massas. Porém, CNC coloca todas as organizações nesse “saco de gato” chamado de golpismo. O autêntico trotskismo – que sempre foi muito restrito no Brasil – não propõe nenhum tipo de golpismo. Defende a formação gradual das massas a partir de sua própria experiência, acompanhada e solidificada por uma propaganda teórica e política, e apenas a partir daí, quando os alicerces estiverem firmes, pela experiência e pela teoria, se propõe a tomada do poder.
Um exemplo deste método foi expresso pela Revolução Russa de 1917. Se não houvesse ligação entre a massa dos trabalhadores e os bolcheviques, a revolução jamais teria se consumado. Seguindo a lógica do pensamento de CNC, a revolução dirigida pelos bolcheviques também seria uma espécie de golpismo. Pelo seu oportunismo teórico ele não a reconhece desta forma. Talvez aja assim por medo de se desconectar completamente do pensamento de Lenin. A busca de CNC por uma saída de massas rompe com a ditadura do proletariado. Pra ele seria possível conter as graves crises e contradições, fruto de um processo revolucionário, através de consensos e acordos típicos de uma democracia burguesa e de uma sociedade civil hegemonizada pelo pensamento patológico da classe média ou mesmo abrir mão completamente da revolução socialista.
Cabe destacar que por ditadura do proletariado se compreende uma democracia de massas para os trabalhadores (principalmente sobre os meios de produção) e ditadura sobre a burguesia (incluso seus representantes indiretos). Temos na Comuna de Paris (1871) e nos primeiros anos da Revolução Russa (1917-1924) os rudimentos dessa ditadura, dos quais a experiência histórica tem demonstrado aos trabalhadores conscientes que não se deve abrir mão, pois é um dos princípios elementares do “patrimônio teórico de Marx, Engels e Lenin”. CNC não enxerga o stalinismo como uma degeneração da ditadura do proletariado, fruto das inúmeras contradições deste processo histórico, mas como sendo a própria ditadura do proletariado, tal como faz a burguesia e os ideólogos ao seu serviço.
Ele ainda propõe que o parlamentarismo burguês poderia ser um espaço para se desenvolver a futura democracia proletária, é claro, numa etapa posterior. Para isso, seria fundamental uma “democracia organizada de massas, com crescente participação popular”. No auge do seu reformismo, chega a defender que a partir desta boa vontade da sociedade burguesa, supostamente controlada pelas “organizações de base da sociedade civil”, seria possível avançarmos para medidas antilatifúndio e antimonopolistas. A Assembleia Constituinte seria o momento decisivo para isso.
Contudo, como vimos, nem a Constituição de 1988 e nem os “governos populares” do PT (2003-2016) avançaram nesse sentido; pelo contrário, fortaleceram a democracia burguesa, suas instituições, os bancos, os partidos de direita, o agronegócio e as multinacionais. Os parlamentos burgueses são instituições mais reacionárias do que nunca. O que poderíamos esperar delas? Segundo CNC deveríamos construir um novo PT (no caso o PSOL); depois um novo PSOL; e assim por diante, até que sepultemos definitivamente a construção do socialismo no Brasil e “eduquemos” a massa a viver de joelhos, esperando pelo futuro socialista no dia de são nunca. Que bela democracia de massas construiremos assim! A grande mídia, os banqueiros, os mega empresários, os latifundiários, o PSDB e o PMDB aplaudem e agradecem! CNC não entende (ou não quer entender) que a burguesia retira em dobro com sua mão direita tudo aquilo que é obrigada a conceder com a esquerda.
***
O imperialismo norte-americano também tem usado seguidamente o discurso e a estratégia da “democracia como valor universal” desconectada de um regime de classe e do caráter de Estado. Ao contrário do que CNC e Enrico Berlinger (um teórico caro a ele) sustentam, a “democracia não é o terreno no qual o adversário de classe é obrigado a retroceder”, mas esta “democracia” abstrata tem sido o terreno que o inimigo de classe tem nos feito recuar e retroceder. Basta citar que a restauração do capitalismo nos ex-Estados operários (URSS, Cuba, China, etc.) se deu com o “discurso democrático”. Mesmo o golpe da direita contra os governos do PT se deram a partir de um fortalecimento do regime democrático burguês e do seu discurso. Sendo assim, a contribuição teórica de CNC casa como uma luva às pretensões do imperialismo e reforça os seus conceitos ideológicos.
Em síntese, podemos dizer que CNC propõe uma “democracia” sem a socialização do capital; isto é, dos meios de produção. O resultado da sua teoria da democracia como valor universal está resumida nos 12 anos de governo Lula e Dilma, bem como no seu fim trágico: o fortalecimento da direita e o golpe do impeachment. Todos os partidos operários que se propuserem conquistar a hegemonia exclusiva e prioritariamente através da legalização a todo o custo (e este tem sido sempre o objetivo deles) serão facilmente devorados pelos métodos e pelas instituições da democracia burguesa, tal como o PT o foi.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Bem vindo à São José das ilusões


Loucura é querer resultados diferentes
fazendo tudo exatamente igual
(Albert Einstein)

        Josué atirou sua mochila no chão e se preparou para pisar na terra poeirenta à beira da estrada. Pulou da caçamba do caminhão e acenou aos caminhoneiros que gentilmente lhe deram uma carona até a localidade mais próxima. Não sabia ao certo onde estava; se no nordeste, sudeste ou sul brasileiro. A placa, meio suja de musgos e com tufos de capim que lhes saltavam pelos cantos, apenas dizia “Bem vindo à São José das ilusões”. Uma via estreita, com um asfalto defeituoso, adentrava um túnel de ipês amarelos e pequenos coqueiros. Não se enxergava nenhuma casa. Josué calçou a mochila e se foi em direção a estrada.
         Caminhando ele reparou que uma carroça vinha muito devagar, quase parando. A muito custo cruzou o seu caminho. Cachorros latiam ao fundo. Em seguida um casal de moto passou devagar e lhe acenou. Josué, amistosamente, retribuiu o gesto. “Que povo hospitaleiro!”, pensou ele. Inspirado no filme Into the Wild, Josué era um mochileiro sem destino, que viajou pelos quatro cantos do Brasil e da América do Sul. Pensava que esta seria a forma de resistir à degeneração moral a qual todos nós somos obrigados a vivenciar nas relações profissionais e sociais quando estamos sob jugo da rotina.
         O mochileiro estava acostumado a uma vida errante, a caminhar muito e a comer pouco. Tinha recém adentrado a uma rua de paralelepípedos que era um pouco mais movimentada, de onde despontavam uma igrejinha, o pedaço de uma praça, um bar e uma casa de tijolos à vista com flores na varanda. Encostada no muro estava uma moça, que sorriu ao ver Josué. Pessoal do interior é assim: como passam muito tempo sem ver movimento diferente, logo que percebem gente nova querem se aproximar para prosear.
         – Olá, tudo bem? Eu me chamo Florisbela, mas pode me chamar de Flor ou de Bela, hi, hi, hi! – disse ela sorrindo ao forasteiro.
         – Olá! Eu sou o Josué – respondeu ele prontamente.
         Sem perder tempo ela o convidou para entrar. Sentaram no sofá. A dona da casa ofereceu bebida e comida para o forasteiro, que não titubeou em aceitar: estava faminto e sedento! Conversaram sobre trivialidades. Josué sentiu que Florisbela lhe olhava de um jeito diferente e se constrangeu um pouco. Ao sentir que o convidado tinha ficado melindrado com seus olhares, ela começou imediatamente a falar que “homem nenhum prestava”. Era hábito comum dos ilusinenses reclamar; quase como um esporte oficial!
         – Veja só – ela dizia – ainda sou solteira! Quero muito arranjar um marido, mas os homens daqui só querem saber de sexo e nada mais!
Florisbela ainda confessou a Josué que já tinha transado com quase “meia cidade”, mas que no dia seguinte nenhum deles ligava de volta. Ela se sentia triste, abandonada e incompreendida. Josué ouvia tudo atentamente. Resolveu opinar:
– Florisbela, quem sabe você esteja sendo um pouco precipitada com os homens e muitos deles estejam apenas aproveitando-se desta sua rapidez? Ou talvez você não queira necessariamente um marido no sentido tradicional?
– Que absurdo! – gritou ela, saltando do sofá – Ponha-se daqui para rua, forasteiro!
Extremamente assustado Josué recolheu sua mochila e saiu da casa de Florisbela. Nem sequer terminou de comer e beber; saiu limpando a boca. Foi caminhando sem rumo pela avenida central até desembocar na praça principal.
***
O céu matinal estava limpo e radiante. Josué chegou até um dos grandes canteiros da praça central de São José das ilusões e deparou-se com um senhor sentado em um banco, lendo um jornal. Sentou-se ao lado dele e começou a remexer em sua mochila. Como todo bom ilusinense, ao perceber que se tratava de um estranho, logo o senhor puxou assunto com Josué. Ele se chamava Armando, pai de duas filhas que haviam se mudado para a capital para fugir da “vida besta” do interior. Recentemente enviuvara, o que aumentou a sua agonia e o desespero nos dias vindouros. Vendo que Josué não teria onde ficar, o convidou para ficar em sua casa.
Seu Armando, como era conhecido pelos vizinhos, morava em uma boa casa nas redondezas da praça central. Comia bem, apesar de ter perdido a vontade de cozinhar em razão da morte da esposa. Não estabelecia relações cordiais com os vizinhos, nem com ninguém da cidade. Se afeiçoou a Josué justamente por se tratar de um forasteiro. A ele, seu Armando disponibilizou o quarto da filha caçula, que ainda estava mobilhado.
– Bela casa! – elogiou Josué enquanto olhava para a paisagem que se via da janela dos fundos.
– É sim! – concordou Armando – O problema é quando chove!
Josué não tinha entendido a advertência até dois dias após a sua chegada, quando uma grande chuva de verão fez ver as inúmeras infiltrações na casa do viúvo: principalmente na sala e na cozinha. “Parece uma cachoeira!”, queixava-se seu Armando passando o rodinho, o balde e vários panos para Josué ajudar a enxugar. Era uma arrumação de móveis daqui para lá, de lá para cá. Josué estava exausto. No final do dilúvio, bem como nos outros dias, ele percebeu que seu Armando não subiu no telhado para ver o tamanho dos reparos que deveria fazer; ele apenas modificava o sofá, a geladeira, a mesa, a estante de lugar, como se isso fosse resolver o problema das goteiras.
E não dava outra: nova chuva e um novo alagamento. Seu Armando queixava-se choroso:
– Por que chove tanto nessa cidade, meu Deus do céu! Por quê?
Olhava para o céu, benzia-se, praguejava contra o céu, contra o tempo, contra a sua falta de sorte.
A cada nova chuva era um tumulto. Correria de baldes, rodinhos, toalhas, bandejas. Certa feita, quando o relógio marcava quase 3h da madrugada, Josué foi acordado às pressas para enxugar a cozinha, que estava quase toda alagada. Pregado de sono, Josué levantou-se e foi ajudar seu Armando. Quando o sol já estava quase nascendo e a chuva havia dado uma pequena trégua, o ritual novamente começou. Lá ia seu Armando mudar de lugar a estante, a mesa, o armário, quando Josué lhe perguntou:
– Seu Armando, por acaso o senhor já pensou em olhar o telhado?
– O telhado? – espantou-se o velho – Mas por que diabos eu olharia o telhado?
– Bem – disse Josué meio constrangido –, porque os telhados foram feitos para conter as chuvas. Logo seria importante dar uma olhada na...
– Você está insultando a minha inteligência! – gritou Armando – Eu tenho o triplo da sua idade, rapaz! Ninguém nunca me deu ordens ou duvidou do que eu fazia! Ponha-se daqui para a rua!
Lá foi Josué com a sua mochila vagar pelas ruas de São José das ilusões outra vez. Como o céu estava nublado e ameaçando um novo temporal, ele buscou guarida no bar do Tonico. Não tinha um tostão para gastar, mas entrou mesmo assim para se proteger do tempo úmido e foi bem recebido.
***
         Poucas pessoas estavam no bar naquele momento: apenas alguns bêbados nas paredes ou falando e rindo no balcão. O cheiro era desprezível: galinha frita misturado com sarro de cigarro. Ao longe, entre mesas e cadeiras vazias, Josué reconheceu Florisbela, que estava sentada com um rapaz. Ela fingiu que não o conhecia; Josué fez o mesmo.
         O dono do bar, Tonico Rezende, era uma pessoa condescendente e amiga. Se afeiçoou de imediato quando viu Josué sentado num canto, prostrado. Lhe ofereceu cachaça e torresmo. Como estava faminto, Josué aceitou. Conversa vai, conversa vem; os dois ficaram amigos. Tonico percebeu que Josué era um forasteiro e que isso poderia ser bom para alavancar o seu negócio. Empregou Josué como garçom e atendente do balcão. Deu-lhe um quartinho nos fundos para morar enquanto estivesse em São José das ilusões. Não ganhava muito, mas o suficiente para poder acumular algum dinheiro e poder seguir viagem.
         Na primeira semana de trabalho Josué percebeu que Tonico era compassivo: emprestava dinheiro para qualquer um, vendia fiado, aceitava todo e qualquer desaforo. Os ilusinenses eram hospitaleiros, mas brabos como zorrilhos quando contrariados. Josué era um rapaz sagaz! Ficou observando os freqüentadores e o dono do bar por semanas. A mulher de Tonico – uma senhora bem mais velha do que Josué, mas ainda com apetite sexual – se insinuou diversas vezes para o novo atendente do bar sem que Tonico expressasse qualquer desconforto em relação a isso. Ela se insinuava não apenas para Josué, mas para todos os freqüentadores do bar. Muitos amigos advertiam sobre a conduta de sua esposa, mas Tonico não fazia nada para mudar a sua vida sexual, apenas dizia: “mulher é tudo igual, safadas e interesseiras”.
         A única queixa que Josué ouvia de Tonico era durante a noite:
         – Desse jeito vou falir! Não dá pra sustentar o meu bar com tantos devedores!
         Logo a seguir adormecia.
***
         Desde os cantos do balcão central, quando não tinha muito serviço, Josué ficava de ouvido atento e, dia após dia, ouvia uma história nova cujo desfecho era sempre semelhante. Francisca Azevedo, ou simplesmente Chica calabresa, era uma mulher obesa que corriqueiramente reclamava do seu peso, mas comia compulsoriamente. Ao mesmo tempo em que comia, dizia: “amanhã vou começar uma dieta para emagrecer”, mas na semana seguinte Josué ouvia ela se queixar que não tinha conseguido. Pior do que isso: ela não se esforçava para praticar nenhum exercício físico e novamente pedia seu tradicional xis calabresa com uma coca diet. Josué pensou em lhe dar um conselho, porém, lembrou-se de como havia sido tratado por alguns ilusinenses. Recuou.
         Certa feita, conheceu Benedita da Silva, que tinha o defeito de falar demais quando bebia. Sempre que ia para o bar do Tonico tinha a intenção de beber. Logo, Josué tornou-se o psicanalista informal de Benedita, que lhe confidenciou que o marido lhe traía, dentre outras revelações íntimas. Quanto mais bebia, mais falava. De repente explodia num choro convulsivo e caía no ombro de Josué.
         – Meu marido não presta! – e soluçava com as mãos tapando o rosto.
         Josué pensou em lhe aconselhar, mas lembrou-se de todas as outras vezes, então novamente preferiu calar.
         – Por que ele faz isso comigo? – prosseguia ela com uma voz fininha de choro – Mas ele vai melhorar, eu tenho certeza! – complementava logo em seguida, enxugando as lágrimas com um guardanapo.
Mas o marido dela não melhorava, senão que aprontava outra, e outra, e mais outra. E assim a vida seguia: Benedita chorando e o seu marido fazendo o que bem entende. Quando ele chegava em casa depois de uma nova noitada, dizia para ela que iria mudar; ela reproduzia o discurso dele no bar para Josué, que sabia que tudo aquilo não passava de um teatro. Contar para Josué parece que reforçava a convicção de Benedita na mentira que ela não podia acreditar – justamente por ser uma mentira –, mas que acreditava infalivelmente.
         Já começando a se afeiçoar à sua nova profissão de psicanalista de boteco, Josué conheceu Cristiano, um rapaz trabalhador de uns 26 anos que se queixava de um crônico vazio existencial. Dizia que iria se matar, pois não tinha mais razão para viver. Contudo, pontualmente, todas as sextas feiras ele retornava ao bar do Tonico para afogar as mágoas do seu vazio existencial. Como sentiu que se tratava de um “amigo”, Josué tentou opinar:
         – Cristiano, tente enfrentar este sentimento olhando ele de frente! Todo mundo já sentiu algum vazio existencial na vida; talvez todos vivam com algum tipo de vazio existencial. Isso é natural! O que não é natural é se paralisar frente a este vazio. É preciso encontrar razão para viver, querer encontrar razão para viver. Uma boa fonte para isso é tentar viver para o social; tentar encontrar um emprego ou uma arte onde a gente consiga se reproduzir; enfim, ter paciência e perseverança.
         Josué estava também um pouco embalado pela bebida. Não tinha percebido o quanto falou. Cristiano ficou atordoado. Se levantou da mesa, não foi agressivo com Josué, como Florisbela e Armando haviam sido, mas nunca mais voltou para conversar com o “amigo”. Josué entendeu o recado.
***
         Quanta ilusão e condescendência havia naquele pobre povoado. Josué já não suportava mais viver naquele meio. Precisava de novos ares. Pensou em arrumar a sua mochila e ir embora. Já era tempo de partir: o inverno estava terminando e a primavera começava a se insinuar. Ele tinha o sonho de ir para a Amazônia viver no meio de uma tribo indígena. Mesmo com todos estes pensamentos, Josué foi ficando. As cigarras já cantavam na sua janela prenunciando que o verão estava próximo.
         Sentado na beira de uma sanga, em um domingo ensolarado, Josué percebeu que todos os ilusinenses se dirigiam para as duas principais igrejas da cidade: a católica, que ficava de fronte à praça central e à prefeitura; e a evangélica, que há pouco tempo havia sentado firma naquela comarca, mas que já contava com muitos fiéis devotos.
         Josué aguçava o ouvido para ouvir o que falavam e cantavam de um lado: “Nosso Senhor, por favor faça a nossa vida melhorar, nos livre do mal, amém”; e do outro: “Nós não somos nada! Nosso Senhor Jesus Cristo que tudo pode e tudo vê é o nosso caminho e a nossa salvação”. E todos, emocionados, se davam as mãos e diziam: “a vida vai melhorar, graças a Deus, a vida vai melhorar!”.
Mas a vida não melhorava. Todas as noites não apenas os clientes do bar do Tonico voltavam ao estabelecimento para reclamar dos mesmos problemas de sempre, como a vizinhança ao lado continuava padecendo dos mesmos males já conhecidos. Josué sentiu que sua saúde começava a se abalar, tamanha era a sua indignação reprimida ao ver que todos tinham interesses ocultos em cultivar aquelas ilusões para não ter que mudar nada de sua vida real.
***
         Josué ficou sabendo, muito abismado, que São José das ilusões sofreu com desastres naturais, que na verdade eram apenas parte da atividade de algumas multinacionais que exploravam o seu solo sem nenhum tipo de preocupação com a natureza ou com os seus habitantes. Certa vez, antes da chegada de Josué à pequena cidade, uma barragem de uma grande mineradora rompeu espalhando detritos metálicos por todos os cantos, destruindo casas, lavouras, matando pessoas, animais e a vegetação. A prefeitura municipal nunca cobrou um centavo de multa da tal mineradora. Pelo contrário, fez todo o possível para que a rotina fosse matando qualquer tipo de protesto ou desconforto. O povo ilusinense, depois de muito rezar e reclamar, logo esqueceu de tudo, mas as cicatrizes ficaram nos corações e na natureza.
         Outra multinacional que explorava ouro, cobre e estanho na região, destruía inúmeras jazidas de rocha e pedra e os resíduos de arsênio, resultantes dessa atividade, eram levados pelo vento para o núcleo da cidade provocando doenças e mutações genéticas na população. Ninguém reclamava! Ninguém sequer tinha consciência do que estava em jogo. Josué olhava para tudo isso apavorado e ao mesmo tempo olhava para os freqüentadores do bar do Tonico, indiferentes! A vida seguia.
         Com este cenário econômico de exploração e rapinagem, Josué quis se inteirar mais da política local. Descobriu que a prefeitura era dominada desde meados da década de 1990 por apenas dois partidos: PSDB e PT, com os seus respectivos aliados. A partir das coligações eleitorais a maioria dos partidos brasileiros já havia passado pela prefeitura de São José das ilusões.
A corrupção era a marca registrada de toda a administração daquela cidade. Roubavam com duas, três, quatro, cinco, dez mãos! Governavam para as multinacionais e os bancos, de costas para o povo. Na imprensa local posavam de bons moços defendendo a “democracia”; a alienação e a rotina tratavam de cimentar o resto, isto é, a hipocrisia social que garante que a vida siga normalmente. Todos sabiam que a corrupção era um problema seríssimo, mas não faziam nada: só reclamavam e rezavam! “A vida vai melhorar” – eles diziam em coro.
Já tinham votado no PSDB e nada tinha mudado! Votaram por duas vezes no PT que não fez absolutamente nada de diferente do PSDB: o povo continuava miserável, analfabeto, vivendo em casebres, com todos os seus direitos mais básicos e elementares ameaçados.
***
As eleições se aproximavam! A população estava indignada contra a prefeita do PT, que dizia apoiar os trabalhadores locais e preservar direitos, o que não condizia com a sua prática. Ela contava com o apoio do sindicato agrícola local, que dizia:
– Ruim com a prefeita do PT, pior sem ela!
E era aplaudido por parte dos ilusinenses. Josué ouvia tudo isso e engolia seco.
Outra parte da cidade, liderada por seu Armando, dizia:
– Agora é a hora da renovação! Chega dessa prefeita! Vamos tirá-la de lá! Vamos acabar com a corrupção dessa prefeitura! Votem no candidato do PSDB!
Novamente engolindo seco, Josué ficou com medo de intervir naquela briga inócua. Um grupo gritava contra o outro. Os indecisos ficavam perdidos, batiam cabeça, choramingavam, reclamavam, mas não questionavam nada além do votar num ou noutro.
Numa noite de bar cheio, Josué não aguentou mais e resolveu desabafar:
– Pensem comigo: PSDB e PT já estiveram à frente da prefeitura de São José das ilusões por mais de vinte anos. Nada mudou na vida de vocês, a não ser algumas migalhas a mais da prefeita atual. Mas ambos governaram para as multinacionais, para os bancos, de costas para a população. A corrupção correu solta em ambos governos.
– É verdade! – muitos concordavam.
– Então – prosseguiu ele – O voto já demonstrou que não muda a vida do povo. Ganhe quem ganhar, é a estrutura econômica que é o determinante! Se nós não mexermos lá, podemos morrer votando num ou noutro que a nossa vida seguirá piorando, com escândalos de corrupção cada vez piores, com uma exploração desenfreada por parte dos patrões e dos grandes empresários.
– É, você tem razão – disse Chica calabresa –, mas o que propõe então?
– Este rapaz é um comunista, comedor de criancinha! Vá para Cuba! – gritou-lhe seu Armando.
– Por acaso você está propondo uma revolução? – questionou Cristiano, que estava sentado numa das extremidades do bar.
– E por que não? – respondeu Josué – Nestas eleições não haverá alternativa novamente. Todos os partidos apresentados estão coligados, de uma forma ou de outra, defendendo, no essencial, o mesmo programa. Em sua maioria, já governaram a cidade, direta ou indiretamente. Seus governos foram apenas balcões de negócios para os empresários e representaram o aumento da miséria e do sofrimento do povo. As eleições são controladas pelo poder econômico dos bancos e das grandes empresas, principalmente as multinacionais. Esta forma cômoda e pacífica de “mudar a sociedade” é uma ilusão que prepara inúmeras armadilhas, reforçando a perniciosa esperança de que um indivíduo eleito, uma espécie de “messias”, vai resolver todos os nossos problemas sem que precisemos nos mobilizar para cumprir o nosso protagonismo, que é indispensável. Deveríamos debater caminhos alternativos ao mero voto no PT ou PSDB, o que representa apenas uma renovação fictícia. Vocês precisam romper com o caminho da alienação política, do comodismo e do egoísmo! Não tenham medo amigos! Nos desapeguemos do velho! Vamos abrir espaço para o novo em nossos corações! Ou fazemos uma revolução ou o sistema econômico e político seguirá o mesmo, e então, de nada adiantará reclamar!
– Deixar de reclamar? – indagou gritando Chica calabresa, Tonico, Cristiano, seu Armando e Florisbela! – Você está louco, forasteiro?
Uma chuva de garrafas e copos caiu sobre Josué, que se esgueirou para escapar das mais pesadas. Correu para o seu quarto, enfiou suas trouxas na mochila e picou a mula da cidade. “Até quando?” se perguntava Josué em pensamentos enquanto corria para a BR 101, “até quando?”. Lembrou-se daquele romance em que o velho coveiro esperava a morte dos últimos habitantes, um casal de idosos, para abandonar a cidadezinha fantasma. Concluiu que São José das ilusões já era uma cidade fantasma.
***
Como era bastante previsível, as eleições municipais deram a vitória ao PSDB, que se elegeu com discurso de mudança e renovação. Contudo, nada de novo aconteceu: a corrupção seguiu correndo frouxa, as multinacionais explorando, roubando e destruindo o meio ambiente, os direitos sociais que restavam foram impiedosamente retirados. Os ilusinenses seguiram abandonados, pobres, endividados, mas sempre reclamando!
Num dia qualquer de outono, Chica calabresa encontrou Cristiano no bar do Tonico com uma cara pálida de um bêbado que virou sozinho uma garrafa de cachaça.
­– Sabe Chica – disse o segundo com a voz cambaleante –, sinto falta do Josué! Alguém precisa falar a verdade por aqui. Foi a melhor coisa que aconteceu nessa cidade em vinte anos!
– Não seja bobo, Cristiano! – respondeu a primeira – Aqui ele sempre foi um estranho no ninho.
– Não há dúvida de que sim – disse Cristiano –, mas talvez ele quisesse apenas encurtar o nosso sofrimento. Será que precisaremos viver um calvário de lágrimas e sofrimentos para entender a mensagem que ele quis nos passar?
– Não sei! – disse Chica – Para mim, aquele forasteiro nunca mais colocará os seus pés nesta terrinha.
***

         No alto de uma árvore, na Amazônia, Josué observava uma sanga que passava ao lado. Um lapso em sua mente o fez lembrar dos ilusinenses. Seu peito sentiu um misto de carinho, ódio e piedade. Viajou por muitos lugares diferentes, conheceu gente nova, viu paisagens indescritíveis, aprendeu e vivenciou coisas renovadoras, mas nunca mais colocou os pés em São José das ilusões.