domingo, 28 de junho de 2015

Os meios de alienação em massa

A mais primordial liberdade de imprensa
consiste em ela não ser um negócio.
(Karl Marx)

A grande mídia atingiu uma enorme influência social. Seus tentáculos se estendem por diversas tecnologias: TV, rádio, internet, jornais impressos, revistas, celulares, aplicativos. Segundo os teóricos da burguesia, vivemos a era da “informação”, da globalização e da “radicalização dos meios de informação”. Esta afirmação, por não ter um contraponto, é aceita por muitos acriticamente. A globalização não passa de um eufemismo para esconder o poder do imperialismo e a submissão dos países neocoloniais a ele. Vivemos a etapa de degeneração do capitalismo há pelo menos um século, sofrendo com todas as suas consequências. O aumento da barbárie social em todos os países do mundo é evidente, apesar do discurso fantasioso de “democracia”, “globalização” e “aumento da informação”.
           
A relativa facilidade com que sabemos de fatos ocorridos do outro lado do mundo quando vemos fotos, imagens, vídeos, dá a impressão de que isso é verdade. Os meios de comunicação atuais realmente tornaram possível a rapidez da informação, mas isso não quer dizer que ela esteja livre da manipulação e da censura. Em alguns casos influencia diretamente movimentos golpistas (militares, fascistas) e desvirtua movimentos populares. Seu poder ideológico é incomparável. Nem reis, imperadores e a Igreja medieval dispunham de tantas facilidades para manipular a mente e a opinião de milhões como o grande capital midiático dispõe hoje. A grande mídia em geral, e a TV em particular, entram como um elo fundamental na relação de dominação atual da burguesia sobre o proletariado. É mais um “avanço tecnológico” utilizado a serviço da exploração, do embrutecimento, da ignorância e do obscurantismo religioso.

Por tudo isso, para a vanguarda proletária é questão de vida ou morte saber fazer a leitura das entrelinhas da mídia burguesa através de uma ótica de independência de classe, bem como entender os seus métodos de manipulação, a sua dinâmica de atuação, a sua lógica de classe e as suas estruturas econômicas e políticas.

Os gigantescos monopólios empresariais da grande mídia
Em todos os países do mundo – com exceção das reminiscências do stalinismo, como é o caso da Coréia do Norte –, a mídia exerce um poder avassalador, possuindo, muitas vezes, maior poder que os governos. Divulga e abafa escândalos de corrupção de acordo com suas conveniências e aliados, e dá destaque a determinados fatos quando lhe convém. Isto se passa desta forma porque as principais empresas de comunicação são grandes monopólios de TVs, jornais, rádio, portais de internet, revistas, etc. – resultado de um processo crescente de concentração de propriedade, tecnologia e capital. Elas não funcionam de acordo com as necessidades sociais de comunicação e informação públicas, mas com os interesses privados, da sua publicidade política e empresarial, sempre visando o lucro e à preservação da ordem social capitalista. É o capitalismo que possibilita este império das “comunicações” e o monopólio que dá o pleno poder de manipular as opiniões e os interesses públicos. Os trabalhadores, dentro desta ordem, não têm a menor possibilidade de influir sobre os programas, a grade de programação e o teor das notícias veiculadas diariamente em jornais e telejornais.

Após a Segunda Guerra Mundial, com a consolidação da hegemonia do imperialismo norte americano sobre o mundo, as grandes empresas de comunicação formaram-se e fortaleceram-se como gigantescos monopólios. Foram elas que deram origem ao que se chama de “grande mídia”, que tem o poder de censurar ou abafar informações inconvenientes à ela própria e à manutenção do sistema, bem como a possibilidade de tornar verdade qualquer absurdo e justificável qualquer injustiça, utilizando-se do método da repetição e aproveitando-se da facilidade com que entra nas casas e na mente do povo pobre. Goza de um enganoso prestígio, criado ao longo dos anos, de que tudo o que fala e dissemina é inquestionavelmente sério e verdadeiro. A casa mais miserável do Brasil possui TV, mas não o hábito da leitura (sobretudo da “leitura das entrelinhas”). Quem lê o mundo para o povo pobre, portanto, é a TV, e não ele próprio, que olha o mundo pela ótica das emissoras. Em síntese, podemos dizer que a grande mídia tem como principal finalidade o controle ideológico das massas populares para manter e sustentar o capitalismo, sistema do qual depende, ainda que encha inúmeros editoriais falando em “democracia” e “liberdade de imprensa”.

Todos os meios de comunicação que surgiram com o desenvolvimento das tecnologias de informação – TV, rádio, cinema, internet – foram utilizados pelo capitalismo para a criação de uma “opinião pública” com a finalidade de sustentar a ordem social vigente. É do surgimento dessas grandes empresas que derivam a chamada “indústria cultural”, também dominada e controlada pelo imperialismo e pelas burguesias dos países neocoloniais. A indústria cultural produz desde os filmes políticos hollywoodianos, até as novelas brasileiras (chamadas eufemisticamente de “fábrica de sonhos”) e, também, a “indústria das notícias” dos telejornais, que seguem todos praticamente a mesma linha editorial. A hegemonia ideológica desta “indústria cultural” é burguesa, ainda que escassamente se encontre boas e isentas produções artísticas nestes meios.

Cabe destacar que, em um curto período, o mercado da mídia global passou a ser dominado por 7 multinacionais: Disney, AOL-Time Warner, Sony, News Corporation, Viacom, Vivendi e Bertelsmann. Há 15 anos atrás, nenhuma dessas empresas existia na sua forma atual, enquanto que hoje elas compõem o grupo das 300 maiores empresas não financeiras do mundo.

As grandes empresas privadas de comunicação no Brasil
O surgimento dos grandes monopólios de comunicação no Brasil remonta a década de 1950 e 1960. Juscelino Kubtscheck (JK) escancarou a economia brasileira às multinacionais imperialistas, o que fez a dívida externa explodir, mas permitiu a livre instalação da indústria imperialista. A TV invadiu o Brasil junto com a indústria dos eletrodomésticos, arrasando de vez com as ilusões dos herdeiros do varguismo de realizar uma industrialização nacionalista. Porém, foi com a ditadura militar que o sistema de comunicação se instalou oficialmente e se espalhou por todo o país. A atual mídia brasileira é filha legítima da ditadura militar. Foi ela que levou a cabo o projeto de “integração nacional” dos militares. O Estado Novo varguista, com a sua Voz do Brasil no rádio, não foi tão eficiente em criar uma identidade nacional como a Rede Globo.
           
É desta aberração – chamada de “liberdade de imprensa” e de “mercado” – que surgiu o monopólio de apenas 7 famílias sobre 90% dos canais de comunicação de massas no Brasil. São elas: Rede Globo (Marinho – dividindo sua hegemonia com os Sirotsky através da RBS, no sul), Band (Saad), SBT (Abravanel), Folha (Frias), Abril (Civita), Record (Macedo) e RedeTV (Carvalho). As duas últimas emissoras surgiram mais recentemente, mas nem por isso representam pluralidade de concepções dentro de uma suposta “liberdade de imprensa”. Cada uma dessas empresas, além de ligadas ao imperialismo direta ou indiretamente, possuem outros tantos canais de TV fechada, portais de internet, editoras e jornais impressos. Contudo, a hegemonia do mercado de comunicação ainda pertence a Rede Globo. Durante a década de 1960, frente a crise das emissoras pioneiras em TV no Brasil – Tupi, Excelsior, Continental, Rio – , a recém fundada TV Globo, do grupo de Roberto Marinho, colocou a sua nova infra-estrutura a serviço dos interesses do governo militar[1]. Evidentemente que não assumiu isso abertamente e a sua auto crítica recente, feita por Willian Bonner no Jornal Nacional, soa cínica e ardilosa, pois visa limpar sua imagem para continuar cumprindo sorrateiramente o mesmo papel no “regime democrático”.


Refletindo as características da época imperialista, a grande mídia brasileira se desenvolve no sentido da concentração de propriedade dos pequenos grupos pelos grandes monopólios. É ilustrativo a história da Rede Globo: “Antes da chegada dos militares ao poder, a empresa possuía o jornal O Globo, uma estação de rádio, uma editora de revistas em quadrinho e instalava um canal de televisão. Vinte anos depois, o grupo controlava a primeira rede de televisão, com cinco estações emissoras e 45 afiliadas; tornara-se o primeiro grupo de imprensa feminina; o segundo de revistas em quadrinhos; entrava na edição de livros, após a compra da editora Globo, uma das mais prestigiosas do país. Esse grupo controlava também 83% da publicidade brasileira, 90% da televisão Monte Carlo, comprada ao grupo italiano RMC, e tinha 30% do mercado brasileiro de disco com o selo Som Livre e a empresa Sigla; possuía também a empresa de videoclip Globoteca, bem como 17 estações de rádio, o jornal O Globo, [...] e, finalmente, empresas pecuárias como 70 mil hectares, exploração de uma mina de ouro com a British Petroleum, um banco de investimentos, empresas da BTP, de serviços de telecomunicações por satélite e a filial brasileira do grupo eletrônico japonês NEC. O grupo Globo empregava 15.400 pessoas e tinha negócios anuais avaliados em 800 milhões de dólares”[2].
           
Assim, fica claro o motivo da árdua luta anti-comunista da grande mídia brasileira – em particular da Rede Globo – e da sua campanha permanente contra os movimentos sociais. Como uma empresa que detém tamanha concentração de capital pode ser “imparcial” no que tange a luta de classes e ao capitalismo? Poderia ela passar alguma notícia de forma verdadeiramente “imparcial”?
           
Ainda é preciso dizer que a Rede Globo expressa o que acontece com todos os monopólios empresariais da grande mídia. Seu caso é o mais evidente porque está no topo da pirâmide. Enganam-se aqueles que pensam que o único problema é a Rede Globo, preocupando-se apenas em denunciá-la. O problema central é o capitalismo que funciona unicamente através deste tipo de concentração de propriedade. Todas as demais emissoras almejam ser a Rede Globo ou dominar a sua parcela de mercado. A Rede Record e a BBC de Londres, por exemplo, não são melhores do que a Globo. Querem apenas abocanhar o seu mercado. A briga entre elas, portanto, não é para esclarecer os trabalhadores, mas pela liderança do poderoso mercado proporcionado pela grande mídia.

Grande mídia e neoliberalismo
Como se sabe, as grandes empresas midiáticas são árduas defensoras do neoliberalismo, pois desta política econômica depende a sua existência enquanto monopólio e a sua “evolução tecnológica”. RBS, Globo e Folha de SP foram algumas das empresas que se engajaram na compra de estatais privatizadas, tais como a Telesp e a CRT. A mudança de regime cambial iniciada com o plano real, na esteira da aplicação do neoliberalismo, possibilitou que muitas destas empresas contraíssem empréstimos para investir em tecnologia, importando-a em detrimento da criação de tecnologia nacional. Uma vez que são empresas ligadas ao imperialismo, são visceralmente anti-nacionais, pouco se importando com o endividamento público e com a dependência tecnológica do exterior.

As Organizações Globo respondiam por 60% do endividamento total do setor, devendo cerca de R$10 bilhões. Na busca por um novo parque gráfico editorial e pela instalação de um provedor de internet, o Grupo Folha de SP alcançou uma dívida de R$ 290 milhões, enquanto que o Grupo O Estado de São Paulo chegou a cifra de R$384 milhões e o Grupo RBS a marca de R$ 125 milhões. A maior parte das dívidas dos dois últimos grupos se deu em razão do seu envolvimento na compra das empresas públicas de telefonia privatizadas. Estes são alguns dos motivos que levam as grandes emissoras a defenderem as privatizações, o neoliberalismo e as dívidas externa e interna, enquanto vendem-se como “imparciais” atrás dos discursos de “modernização” e “melhoramento dos serviços públicos”.

Grande mídia X mídias alternativas e redes sociais: a liberdade de imprensa é apenas para a burguesia
A despeito da grande importância da ascensão de outros meios de comunicação alternativos (blogs, sites, facebook, twitter, youtube, rádios comunitárias, etc.), a TV ainda é o meio de influência mais poderoso, utilizada como forma de doutrinação política, econômica, filosófica e científica, segundo a visão de classe da burguesia. Ver TV não exige esforço de leitura, nem selecionar vídeos. Leva vantagem sobre o rádio porque emite imagens e efeitos especiais. Toda a leitura política da realidade já é feita pela ótica das emissoras. É verdade que existe a possibilidade de trocar de canal; mas também é verdade que a programação e linha editorial dos noticiários das diversas emissoras não diferem quase nada entre si.

Além disso, a TV está presente em praticamente todos os lares brasileiros (incluindo os mais humildes), sendo um aparelho que pode ser adquirido com relativa facilidade. A declaração de Roberto Irineu Marinho (herdeiro das organizações Globo) é elucidativo: “Compartilhamos da intimidade dos brasileiros, entramos em suas casas. Somos mais um membro da família, do qual os brasileiros se orgulham, conosco se emocionam, às vezes criticam, dividem suas queixas, aprendem e se informam”[3]. As demais emissoras têm, em maior ou menor medida, estes mesmo privilégios. E, conforme foi explanado ao longo do texto, sabemos que tipo de “informação” elas transmitem. Por isso, não é casual que o controle de concessão de TV no Brasil e no mundo seja controlado com mãos de ferro pelo Estado. Os movimentos sociais, lutas sindicais e organizações políticas de trabalhadores independentes ficam restritos às redes sociais e às chamadas “mídias alternativas”, que tem infinitamente menos capacidade de influência do que a TV, rádio, jornais e grandes portais de internet.

Sendo assim, ainda que as mídias alternativas sejam importantes, não são e nem podem ser a solução para o problema da manipulação da grande mídia, como propõe implícita ou explicitamente muitos setores da esquerda. A própria burguesia, através da sua mídia, divulga o aparecimento das mídias alternativas como expressão de sua “liberdade de imprensa”. Mas isso é uma ilusão! A TV esmaga a mídia alternativa e tem total supremacia sobre ela, podendo distorcer ou mesmo anular qualquer tipo de debate ou denúncia feita através das mídias alternativas. O que, evidentemente, não invalida a importância de utilizá-las, sobretudo para divulgar o programa socialista.

A nova forma de censura
É constantemente divulgado pela grande mídia (mas também por outros meios, como o acadêmico), que após o fim da ditadura militar a censura sobre a imprensa e os meios de comunicação cessou. Isto é um erro que distorce o que realmente se passa. A censura não acabou, apenas mudou de forma e de intensidade. Ela não é mais feita por um governo militar, mas por um truste entre os próprios monopólios de comunicação que imperam na grande mídia, com o apoio semi-consentido dos governos “democráticos”. É semi-consentido porque muitas vezes estas empresas entram em conflito com os governos que fogem eventualmente aos seus interesses (casos específicos sobre isso podem ser vistos no Brasil com a Globo e suas sucursais; na Venezuela com a Venevisión e a RCTV; na Argentina com o Clarin – que tem ligações com a Veja do Brasil –; e no México com a Televisa) e, por isso mesmo, são criticados pontualmente por estes mesmos governos.

A grade de programação e a linha editorial jornalística são decididas pela alta cúpula dos grandes monopólios de comunicação. As notícias e posições políticas expressas através da grande mídia visam criar um consenso em torno das posições da burguesia e uma condenação aos movimentos independentes dos trabalhadores, sobretudo quando se trata de greve ou de movimentos sociais contestatórios. Só é permitido expressar posições que estejam na lógica da ordem social, da democracia burguesa e da sua institucionalidade. Quando ocorre algum tipo de entrevista ou de debate, geralmente são expressas através de militantes de um partido reformista-burguês ou de um burocrata sindical, que propaga posições reformistas ou burocráticas. Isto é, posições que não destoam da lógica geral da manutenção da sociedade burguesa. Esta censura não fica clara para a grande massa da população, que nos momentos de calmaria não intervém na luta sindical e política; e que não consegue enxergar a sutileza destas manipulações. Muitos intelectuais burgueses e reformistas ajudam a obscurecê-la com discursos relativistas e de desmoralização da esquerda.
           
A pesquisadora da mídia “Tascher (1992) relata que, à época da censura imposta pelo regime militar, a agência de notícias do Grupo Folhas foi utilizada para centralizar a autocensura em todos os jornais do grupo”[4]. Com o fim da ditadura militar e o início do “regime democrático”, esta centralização passou a ser exercida pelos monopólios de comunicação e, dentro deste, pelas empresas mais poderosas, como a Rede Globo e as agências de fachada que funcionam como trustes. Supostamente baseado em um critério democrático, a nova censura se exerce através da desculpa do mercado e do ibope, que seleciona programas e notícias conforme a procura ou justifica a sua exclusão.

           
Cabe destacar ainda o escândalo na Inglaterra que envolveu o dono de um destes monopólios de comunicação internacional, Rupert Murdock. Em julho de 2011, Murdoch enfrentou acusações de que suas empresas, incluindo o jornal News of the World, de propriedade da News Corporation, se utilizavam da prática ilegal de grampos telefônicos, em telefones fixos e celulares da realeza, de celebridades e até de pessoas comuns, para obter notícias, caracterizando violação de privacidade. O que garante que esta mesma prática não possa ocorrer por qualquer outra destas grandes empresas, incluindo empresas brasileiras? Se trata, obviamente, não apenas de uma forma de “obter notícias”, mas para espionar e se antecipar a qualquer debate ou posição política dos movimentos sociais, organizações de esquerda e sindicatos. Segundo relatos de Edward Snowden, outras empresas são suspeitas de proceder da mesma forma; são elas: Apple, Google e Facebook (dentre outras).

Faz parte da censura a infiltração ideológica nos discursos da esquerda. Quando a grande mídia não consegue impedir uma posição política de se expressar, ela procura infiltrá-la para distorcê-la, jogando sombras no debate para dificultar a compreensão do grande público. A academia burguesa faz o mesmo com o marxismo. A distorção teórica e política não se restringe apenas aos noticiários, mas se espalha para as novelas, programas de auditório, de humor, de variedades e de debates. Nestes, a manipulação ideológica se torna menos explícita, mais casual e sutil. Forma-se assim, uma cadeia assustadora de lavagem cerebral sem contraponto, que somente as futuras gerações de revolucionários poderão reabilitar.

A liberdade de imprensa e de pensamento dentro da grande mídia não existe. As posições revolucionárias e da real indignação social (como foi o caso dos operários das obras do PAC e tantas outras greves radicalizadas pelo país) são sutilmente excluídas. Ocorre uma campanha surda, ardilosa e capciosa, de difamação e de transformação dos lutadores sociais em inimigos da paz e da ordem social. Segundo os telejornais tudo estaria bem (ou quase bom), mas os sindicalistas e “vândalos” de esquerda perturbam o bom andamento da sociedade. Quando acontece o acaso de um militante revolucionário ser entrevistado, suas posições são abafadas pelo pouco tempo cedido a ele frente à repetição exaustiva das posições oficiais, ou mesmo impedidas de ir ao ar com diversos tipos de desculpas de “edição” e “tempo” (como já aconteceu em algumas entrevistas de greve). Um caso absurdo de censura se deu com a chapa da corrente de oposição à direção do CPERS – Construção pela Base – nas eleições sindicais de 2014, quando o principal jornal do Rio Grande do Sul, por conhecer suas posições políticas revolucionárias, simplesmente ignorou a sua existência até o exato dia das eleições[5].

A grande mídia não reflete em absolutamente nada as correntes de opinião dos trabalhadores, sobretudo os organizados e, evidentemente, os da esquerda revolucionária. Quando acontece a raridade de entrevistar um trabalhador em greve ou chamá-lo para um debate em rede de TV, o seleciona a dedo nos altos extratos da burocracia sindical ou partidária (PT, PCdoB, PSOL, PSTU, PCB, PCO). Impera na TV a opinião da esquerda reformista, que está adaptada política e teoricamente à democracia burguesa, não se constituindo, por isso mesmo, em uma ameaça para a ordem social capitalista. Pelo contrário, ajuda a dar um “verniz” de democracia que ilude milhares de pessoas.

Mas por que supostamente faltaria tempo na TV para debates relevantes sobre os movimentos sociais, greves, ocupações e a luta dos trabalhadores? Dentre outras formas, esta censura seletiva se dá pela ocupação do tempo da grade de programação com anúncios publicitários, por programas idiotizantes e semelhantes no fundamental – independentemente da emissora –, que ocupam praticamente todo o tempo útil da TV e relegam às brechas ou à censura total o debate político e os programas que interessam aos trabalhadores.

A grade de programação
A grande mídia vende a sua aparente variedade de programas e opções de canais como sinônimo de “liberdade de imprensa”. Contudo, se submetermos a grade de programação a um olhar mais crítico, veremos que ela é essencialmente igual e cumpre a mesma função já desnudada.

a) Telejornais e jornais impressos de grande circulação: Todo o telejornalismo da grande mídia é pausterizado e padronizado. Fingem imparcialidade. Independentemente de emissora, todos os telejornais dão as notícias da mesma maneira tendenciosa e sob o mesmo enfoque editorial. A notícia transformou-se em uma mercadoria, que para ser mais facilmente consumida, precisa passar por um processo de industrialização e de marketing, que tem a preocupação em fazer um produto mais digestivo, acessível e sedutor, pronto para ser consumido pelo senso comum e, sobretudo, para alimentá-lo e mantê-lo. Esta preocupação com telespectadores e leitores procura não deixar de agradar nenhum senso comum dos segmentos do mercado consumidor. Quanto maior for a quantidade de telespectadores e leitores de um telejornal e jornal, melhores serão as condições das emissoras de “se vender” ao mercado publicitário, também interessado em um público amplo e diversificado. Porém, naturalmente interessa qualquer ibope, menos o que possa, de alguma forma, se voltar contra as bases do capitalismo. As grandes empresas – e os monopólios de comunicação da grande mídia, em particular – despendem vultuosos capitais para abafar os assuntos que lhe são incômodos; e para isso não poupam despesas.
           
Segundo a lógica deste “jornalismo imparcial”, uma greve sempre causa prejuízos à população, mas nunca se coloca em enfoque o verdadeiro prejuízo causado às categorias profissionais pela exploração do sistema (arrocho e defasagem salarial, destruição das condições de trabalho, aumento da precarização dos trabalhadores e da sua miséria). A dívida externa e o superávit primário não causariam mais prejuízos ao povo do que a greve de uma categoria? Uma greve causa mais prejuízos aos patrões e aos governos ou ao povo? Categorias de trabalhadores do setor privado em greve são geralmente ignoradas (quando se trata de greve dos operários das grandes montadoras a notícia é quase um flash – quem viu na TV cobertura da greve na GM, Volkswagen ou na CAFF?). Ocorre uma censura para que a patronal possa esmagar os trabalhadores da maneira mais rápida e eficaz possível (isso se passou com os operários das obras do PAC, onde existiu caso de assassinato de trabalhadores e a mídia nada falou).


Nas questões internacionais o jornalismo da grande mídia se alinha criminosamente ao imperialismo (em especial ao ianque). Estados e países inimigos dos EUA são tratados como inimigos do “povo brasileiro” e do “Ocidente”. Utilizam-se da mesma nomenclatura e expressões, tais como “terroristas”; “comunismo” como sinônimo de “ditadura”; “violação dos direitos humanos” quando se trata de uma luta contra a democracia burguesa ou contra os interesses do grande capital. Aliás, a grande mídia tem trabalhado incansavelmente no sentido de associar automaticamente “capitalismo” à “democracia” e “comunismo” à “ditadura”. Apenas os aliados circunstanciais e subordinados politicamente são “democráticos” e apresentados como “amigos”, mesmo que sejam genocidas de povos e torturadores. Rotular e usar os mesmos termos lingüísticos faz parte das estratégias de dominação política.
           
O jornalismo da grande mídia noticiou em uníssono que os ataques militares genocidas do exército israelense contra o povo palestino desarmado e cercado era uma “guerra” e não um genocídio. Deu o suporte ideológico para o massacre do sionismo contra o povo palestino. Da mesma forma, noticiou que o massacre da polícia paranaense contra os professores estaduais desarmados, ocorrido em 29 de abril de 2015, foi um “confronto”. Deu amplo destaque para as justificativas do governador fascista, Beto Richa (do PSDB), e não entrevistou professores da base da categoria que foram espancados.

Existem inúmeros meios de fingir um “jornalismo imparcial” para os trabalhadores mais atrasados. Por exemplo: basta dar destaque à justificativa de Israel de que o seu exército apenas responde ao “terrorismo do Hamas” e abafar a verdadeira situação do povo palestino. Da mesma forma, se esconde as verdadeiras questões em jogo sobre a previdência do Paraná, e se justifica o massacre policial escondendo-se atrás da trágica tática dos “black blocs”, que segundo as palavras do governador, amplamente disseminadas pela mídia, “teriam começado a jogar pedras nos policiais”. Isso é uma inverdade reconhecida até mesmo por setores da grande mídia (o cinegrafista da Band mordido por um PitBull denunciou que não haviam black blocs naquela manifestação). Como milhões de pessoas não participaram da manifestação no Paraná e nem acompanharam pessoalmente a situação da Faixa de Gaza, o estrago está feito e a manipulação consumada. A versão vencedora sempre será a dos grandes monopólios de “comunicação”. Este método jornalístico se estende a outras áreas sociais: dá a justificativa do governo ou dos patrões para não conceder aumento salarial, ignorando ou minimizando as demais pautas de reivindicação dos trabalhadores; demonstra apenas o lado maléfico dos criminosos, mas omite toda a estrutura de desigualdade social.

Outro exemplo digno de menção se deu quando o novo papa (Jorge Bergóglio) assumiu e foi acusado por inúmeros movimentos sociais de ter apoiado a ditadura militar argentina. A grande mídia apresentou “imparcialmente” as justificativas do Vaticano e ignorou a investigação dos fundamentos daquelas acusações, mesmo sabendo que a Igreja enquanto instituição apoiou e sustentou inúmeras ditaduras pelo mundo. Proceder dessa forma foi como defender veladamente o novo papa, bem como servir de esteio para a Igreja Católica, instituição que cumpriu e cumpre um papel muito similar ao da grande mídia. Um episódio parecido se deu com o caso de Edward Snowden, que denunciou o amplo esquema de espionagem global por parte do imperialismo norte-americano. A abordagem da revista Época, da editora Globo, procura relativizar a gravidade das denúncias, se escondendo “imparcialmente” atrás das declarações oficiais do governo dos EUA: “A lei [de espionagem] foi promulgada pelo presidente George W. Bush logo após os atentados de 11 de setembro de 2001. Seu objetivo oficial era identificar células terroristas. (...) ‘Acredito que devemos combater o terrorismo e que devemos ter força contra nossos inimigos’, afirmou [Rand Paul, senador republicano do Kentucky]. ‘Mas não precisamos deixar de ser quem somos para derrotá-los”[6]. O primeiro negrito destaca a mentira de que o “objetivo oficial” era combater o terrorismo; essa era, na verdade, a desculpa, como bem denunciou Snowden. O segundo negrito traz a tona a hipocrisia da declaração do Partido Republicano, que tenta vender os EUA como defensor da “democracia” contra os terroristas do Oriente Médio. Segundo o que dá a entender, os EUA estariam perdendo seus princípios no combate ao terrorismo. Tudo uma mentira deslavada disseminada pela grande mídia: os EUA se utilizam de um terrorismo infinitamente mais nefasto que o da Al Qaeda, o terrorismo de Estado. Mesmo com essa declaração para tentar abrandar as denúncias de Snowden, a espionagem continua operando de diversas formas, pois faz parte da natureza do imperialismo e da sua necessidade de manutenção da “ordem social”. A grande mídia está repleta de reportagens e citações sutis e “imparciais” como estas.

No caso da criminalização ou extradição de presos ou perseguidos políticos a mídia sempre é contra os ativistas dos movimentos sociais, como foi o episódio envolvendo Cesare Battisti, quando desencadeou uma verdadeira campanha midiática que durou cerca de dois anos. Em contrapartida, acoberta a não-extradição de banqueiros (Salvatore Cacciola), ditadores (Alfredo Stroessner) e políticos burgueses. Da mesma forma, “imparcialmente” faz terrorismo psicológico noticiando como destaque o corte de ponto de grevistas pelos governos e a prisão de “vândalos” e “baderneiros” no que chama de “excessos” dos movimentos sociais. O apoio da Rede Globo e demais órgãos da imprensa burguesa (como o jornal Folha de S.Paulo) à ditadura militar foi “resolvido” com uma cínica e curta autocrítica no ar (se é que aquilo pode se chamar de autocrítica).

Seguindo as orientações da chamada “indústria de notícias”, que é um braço da “indústria cultural”, todas as notícias são dadas da mesma maneira superficial e/ou tendenciosa, sem procurar entrar nas suas causas mais profundas. A maneira que a burguesia encontrou para prestar “informações” sem comprometer os seus interesses foi justamente escondendo-se atrás desta superficialidade, dando pequenos retoques tendenciosos que são imperceptíveis ao senso comum. Trata-se da linguagem que procura atingir e seduzir o maior número de leitores e telespectadores. Esta forma está diretamente vinculada à produção de notícias e aos modelos de objetividade importados. A linguagem jornalística é levada ao extremo da simplificação, a ponto de retirar das notícias – cada vez mais breves e mais curtas – a possibilidade de contextualização. Isso contribui para o empobrecimento da interpretação dos fatos e da conjuntura. Esses fatores parecem suficientes para comprovar o argumento da sujeição dos conteúdos jornalísticos à racionalidade da organização industrial capitalista[7].

É importante destacar a forma como os jornalistas são formados no Brasil (na verdade, seria mais correto dizer “deformados”). Em cadeira da faculdade de jornalismo da Famecos (PUCRS) existem professores que colocam como pauta principal e permanente a queda dos "regimes comunistas". Não há uma única aula sem um ataque aberto ou dissimulado à esquerda. Certo dia, o professor perguntou aos alunos se eles conheciam o CPERS[8]. Ninguém conhecia, a exceção de uma pessoa. Em seguida, perguntou: "em uma greve de professores quem vocês devem entrevistar?". Silêncio absoluto! O professor respondeu: "É claro que os alunos, os principais prejudicados pela greve; e o governo, que também é afetado". Em nenhum momento ele falou que deveriam entrevistar um professor. É assim que se formam as novas gerações de jornalistas para a “indústria da notícia” da grande mídia.

É preciso não esquecer ainda que ela utiliza a seu favor a grandeza geográfica do país, abafando casos regionais de grande repercussão, dando ênfase a temas secundários em suas afiliadas, priorizando apenas o que convém ao grande capital. Os casos de corrupção são emblemáticos. Quando se quer desgastar o governo se dá ênfase para determinadas coberturas, como é o atual caso da “Operação Lava Jato”, que visa desestabilizar o governo Dilma e o PT, não necessariamente para derrubá-lo, mas para quebrar qualquer possibilidade de resistência à aplicação plena do programa neoliberal de “ajustes”. Quando os governos do PT estavam em seus primeiros mandatos, a grande mídia deu todo o suporte político para a frente popular atuar e frear o movimento operário, divulgando suas “pesquisas de opinião” sobre a alta popularidade de Lula e propagando a falácia da diminuição da pobreza e do aumento numérico da classe média. Em outros casos, a atenção do público é desviada para assuntos diversos, ainda que se fale rapidamente do escândalo de corrupção (como foram os casos do governo FHC). Em nenhum desses casos as suas reais causas são debatidas e desnudadas.

Atualmente tem se tornado comum a disputa pelo número dos participantes dos atos de rua, numa grande manipulação por parte da grande mídia para demonstrar como vazios os atos dos trabalhadores e como de massas os atos da direita contra o governo. Usam os números da polícia contra os apresentados pelos sindicatos. Da mesma forma, a grande mídia tem “denunciado” sistematicamente o “corporativismo nos sindicatos”. Traduzindo para uma linguagem proletária, isto significa a denúncia da burocracia sindical e a sua utilização dos sindicatos como um bloco que se contrapõe, às vezes, aos interesses imediatos da grande mídia. Como sabemos, a burocracia sindical é um câncer que usurpa a direção dos sindicatos da verdadeira representação da sua base. Contudo, esta crítica deve ser feita pelos trabalhadores conscientes, e não pela grande mídia, até porque o corporativismo do conglomerado monopólico de “comunicação” é infinitamente maior e mais influente.

Os comentaristas dos telejornais e jornais impressos de grande circulação personificam todo o reacionarismo da oligarquia brasileira. São colunas e mais colunas preenchidas pelas mesmas posições: umas mais exaltadas (Arnaldo Jabor, Percival Puggina, Olavo de Carvalho, Paulo Santana, Boris Casoy), outras mais brandas (LF Veríssimo, Túlio Millman, Zuenir Ventura, Fernando Mitre). Entre umas e outras, emerge algum intelectual que não ultrapassa os limites do reformismo mais rasteiro (Juremir Machado, Flávio Tavares, Ricardo Boechat). Dada a repetição de notícias manipuladas e comentários reacionários, quando surge uma voz que destoe um pouquinho, é recebida com grande entusiasmo por setores da “esquerda”. O que, na verdade, não passa de uma válvula de escape!

É bastante ilustrativo analisar o programa da Band, chamado eufemisticamente de “Canal Livre”, abordando o tema da terceirização, que estava para ser votado no Congresso Nacional e sofria forte oposição da maioria da sociedade. Para debater o projeto de terceirização, foi selecionado “Delphin Neto” (ex-ministro da economia da ditadura militar e guru da direita). No programa de 26 de abril ele disse: “O problema das terceirizações é só sobre quem vai ficar com o imposto sindical”; e acrescentou: “sindicato + política = corrupção”. Ou seja, sua atuação foi no sentido de facilitar a aprovação do PL no Congresso e de confundir descaradamente o senso comum do povo, utilizando-se para isso de preconceitos arraigados nestes setores mais atrasados, como o ódio inconsciente contra as burocracias sindicais. Além disso, reforçou o economicismo, afirmando diversas vezes que os sindicatos e, consequentemente, os trabalhadores, não devem se meter em política. Este preconceito, que é na verdade uma catástrofe, tem amplo eco nos setores mais atrasados da classe trabalhadora, que atribuem as derrotas e traições da burocracia sindical não ao capitalismo e aos seus efeitos, mas à participação abstrata dos partidos políticos nos sindicatos. Os trechos desse “debate” foram apresentados em diversos telejornais da emissora. Houve ainda um novo programa sobre o tema em que foi levado um professor da USP que expressou exatamente as mesmas posições só que de maneira diferente. Nenhuma posição contrária a estas foi apresentada nestes espaços “livres”.

Os observadores um pouco mais atentos, críticos e honestos, percebem sem grandes dificuldades a verdadeira campanha que o jornalismo da grande mídia faz para sustentar as bandeiras políticas e econômicas da burguesia nacional e do imperialismo. Há requintes de verdadeiras campanhas surdas, repetidas como “tantras”.
***
O jornalismo esportivo, por sua vez, se centra praticamente no futebol, dando ênfase quase que exclusiva ao clube dos 13. Foi este tipo de jornalismo, repetido diariamente, que elegeu e transformou o futebol como “paixão nacional”, ajudando a esconder a corrupção reinante nesse meio (vide o caso da FIFA e da CBF). A paixão não é pela prática, mas por acompanhar os grandes clubes, que movem bilhões de reais. As grandes emissoras, como a Globo, além de deterem o monopólio da transmissão dos jogos, definem os horários segundo as conveniências da sua grade de programação. Não há incentivo pela prática esportiva como forma de disciplina e educação, mas apenas a intenção de criar um verdadeiro fanatismo dos grandes clubes que serve como catalisador do descontentamento social e dos problemas pessoais, sejam eles descarregados através da catarse dos estádios de futebol ou atrás da tela da TV. Não se trata de ser contra o esporte em si, mas contra a sua utilização midiática para alienar, vender e idiotizar a população.

b) Programas sensacionalistas (de jornalismo policial e de variedades): tornou-se uma verdadeira “febre nacional” os programas policiais na grande mídia (Cidade Alerta, Brasil Urgente e Balanço Geral são alguns deles). Eles abordam principalmente os casos de mortes, assaltos, assassinatos, tráfico de drogas e, também, as falhas na prestação do serviço público (atraso de obras, descaso em hospitais, escolas, etc.); sobretudo retrata as grandes periferias e os grandes bolsões de miséria, onde vive gente sem perspectiva.
           
O jornalismo oficial (apresentado anteriormente) e este “jornalismo” policial desenvolvem uma relação dúbia e cínica com o público. Ao mesmo tempo em que defendem abertamente os projetos da burguesia contra o povo (privatizações, planos de ajustes, austeridades; em suma: toda a ordem social burguesa que domina, explora e oprime os trabalhadores), precisam amaciá-lo, amansá-lo, bajulá-lo, fingir que lhe presta um serviço de utilidade pública. Criticam os políticos, os projetos públicos que nunca terminam ou sequer saem do papel, bem como a atitude de arbitrariedade para com os serviços públicos. Na verdade, tudo isso é apenas uma válvula de escape para conseguir audiência e aliviar a pressão do descontentamento social, pois a sua verdadeira função é criminalizar a pobreza, apavorar a classe média com a barbárie do submundo das periferias e facilitar a intervenção armada do Estado nas favelas, onde impera uma verdadeira ditadura sobre o povo pobre. Essa campanha de criminalização da periferia serve como uma forma de legalizar a ocupação militar, como as UPPs no Rio de Janeiro, dentre outros lugares.
           
Não há dúvida que os crimes urbanos são bárbaros. Denotam a completa falta de humanidade e de civilidade dos setores excluídos da sociedade capitalista oficial. Porém, estes programas sensacionalistas nunca debatem as raízes da criminalidade: desemprego, miséria, fome, prostituição, a existência de inúmeras favelas que, em pleno século 21, não dispõem sequer de saneamento básico e, em alguns casos, de luz elétrica. Apenas culpabilizam os pobres por serem violentos, como se a sua realidade social não tivesse nada a ver com a criminalidade reinante. Estes programas não querem discutir seriamente as raízes da criminalidade porque, no fundo, não podem desnudar as reais causas que a criam: o capitalismo; pois isso iria contra a fonte de sustento da sua própria emissora e, consequentemente, contra si mesmo.

c) Programa de fofocas, de crises familiares, de “humor” e idiotizantes: Como o capitalismo não pode propiciar um lazer edificante aos trabalhadores, uma vez que isso poderia quebrar a corrente da alienação que proporciona o lucro e a ordem social burguesa, investe em programas que reforçam e aprofundam os instintos animais da população. Uma verdadeira onda de programas que abordam a vida de “famosos” se proliferou assustadoramente nos últimos anos, disseminando as mesquinharias mais insignificantes da vida dos famosos no sentido de prender a atenção do telespectador comum. Horas de ócio são perdidos na frente da TV, vendo programas deste nível. Faz parte da lógica do sistema manter um showbusiness, com nomes de cantores, jogadores e atores da moda, que mudam depois de algum tempo; mas a lógica geral nunca é quebrada.
           
Como se não bastasse o capitalismo proporcionar a desfragmentação familiar, obrigando crianças e jovens sem pais e sem perspectivas de futuro a trabalhar como mão de obra barata muito antes do seu amadurecimento emocional, a grande mídia passou a se aproveitar das brigas familiares que, geralmente, tem como pano de fundo uma disputa econômica (pagamento de pensão, alugueis, cestas básicas, etc.) ou traições conjugais. A maior parte destas famílias são miseráveis, cheia de carências e dificuldades econômicas e emocionais. A briga de vizinhos que gera a fofoquinha mais desprezível no bairro, na rua, no boteco da esquina, que não pode ser acompanhada em razão de um certo “incômodo moral”, agora pode ser visto de camarote pela TV, seja no “Casos de Família”, “Teste de Fidelidade” ou “Programa do Ratinho”, com o seu nefasto e deprimente teste de DNA, que realiza um “serviço” para uma família sem condições econômicas, enquanto explora o “espetáculo” de sua desgraça. Da mesma forma, famílias endividadas pelo extorsivo sistema bancário e pela carestia de vida, participam de programas que podem lhe proporcionar dinheiro desde que acertem ou cumpram joguinhos infantis que nada acrescentam culturalmente ao povo brasileiro (Programa Silvio Santos, do Gugu, Mega Senha, Caldeirão do Huck, etc.). Pode haver barbarismo mais desprezível transformado em suposto entretenimento? O que programas desta estirpe, que ocupam o horário nobre da TV brasileira, incentivam a população a fazer?
           
Outros tipos de programas de “humor” e entretenimento, também de baixo nível, levam à idiotização da população: Pânico na Band, Jack Ass, Big Brother Brasil, programas de auditório que se repetem incessantemente (Domingo Legal, Domingão do Faustão, Hora do Faro, Esquenta, etc.). É incentivado um humor barato, que na verdade apenas “idiotiza” a população e realiza passatempos que prendem a atenção de forma a desligar-se da realidade. Entre as emissoras se desenvolve uma luta por audiência visando desesperadamente o mercado publicitário. Os programas não são nivelados por cima, mas por baixo. Exploram o corpo da mulher e o sexo de maneira vulgar. Programas como o Esquenta, da Rede Globo, glorificam a favela, a pobreza e a miséria, como se tudo isso fosse muito bonito e natural. As músicas e as bandas são amplamente veiculadas não pela sua qualidade musical, mas de acordo com a venda de CD e jingles, que proporcionem refrões fáceis, de baixo nível melódico e de conteúdo. O mercado de filmes e de livros segue a mesma lógica. A escolha artística e cultural, portanto, não é feita por sua qualidade, escolhida livremente pelo povo, mas pelo crivo das emissoras, gravadoras e editoras, que colocam as suas exigências de mercado acima das exigências da qualidade artística. Assim, a cultura popular e o nível intelectual do povo são sempre nivelados por baixo com a desculpa do ibope e da audiência. Para fazer a população se interessar por uma cultura mais elevada é preciso quebrar esta lógica empresarial da grande mídia e, sobretudo, o seu “direito” de propriedade.

d) Novelas da Globo: “fábrica de sonhos” ou “fábrica de manipulações sutis”? As novelas da Globo geralmente tratam dos temas infalíveis: amor, traições, crises familiares, emocionais, desentendimentos humanos; enfim, de questões comuns ao dia-a-dia da população. É de contrabando com estes temas que são trazidos a público assuntos moralistas e de conduta, bem como questões políticas imperceptíveis ao senso comum.
           
Além disso, as novelas vendem “moda”, através das roupas e maquiagens, bem como estética através dos atores. Também vendem músicas para as grandes gravadoras; serviços financeiros para os bancos; além de uma verdadeira campanha de catequização de diversas doutrinas religiosas (católicas e espíritas, na Globo; evangélicas na Record). Esta catequização ocorre de forma velada, escondida sob uma roupagem insuspeita e “ingênua” de uma singela história de amor. Todas as novelas, independentemente de emissora, fazem propaganda política e ideológica de alguma forma.
           
Alguns exemplos: em o Salvador da Pátria (1989), o protagonista Sassá Mutema (Lima Duarte) é uma alusão à Lula, que, naquele momento histórico em que o PT ainda defendia algumas bandeiras progressivas, tentava chegar à presidência da República lutando contra Collor de Melo. O trabalho oculto da novela consistiu em colocar o semi-analfabeto Sassá Mutema como um frustrado candidato à prefeitura da cidade fictícia, querendo induzir a população a pensar o mesmo de Lula. O resultado desta manipulação, somado a outros meios, foi extremamente eficaz. Outro exemplo é a novela Duas Caras (2008), que através da ascensão de um líder comunitário e populista, Juvenal Antena (Antonio Fagundes), faz uma crítica a Hugo Chávez na Venezuela. O chavizmo estava em seu auge na época em que a novela foi transmitida. Além disso, a novela queria desmoralizar o movimento estudantil – que estava em ascenso a partir das ocupações de reitoria – através de um estudante que só aparecia dizendo coisas sem sentido e que nos embates com o reitor sempre saía derrotado, sem argumentos consistentes, ora apresentado como um baderneiro, ora como um ingênuo ou irresponsável. Esses são apenas alguns exemplos; muito mais poderia ser dito.

Para muitas vidas solitárias nos grandes centros urbanos, a TV passou a ser uma companheira que “fala”, lança sons e imagens para ilusoriamente diminuir a angústia da solidão de centenas de milhares de indivíduos. Muitas pessoas se emocionam, choram e chegam até mesmo a se apaixonar por apresentadores, atores, artistas e jornalistas da TV. A “fábrica dos sonhos” não está preocupada com o avanço da arte cênica (ainda que existam boas produções do ramo ligadas à adaptação de obras literárias), mas sim, na manipulação política através da exploração do lado emocional da população.



e) Programas religiosos X programas científicos (restritos à TV fechada): várias emissoras destinam seus horários nobres para uma catequização em massa. Um pastor, que mais parece um político em campanha eleitoral, divulga sua doutrina religiosa e, por trás dela, reafirma sutilmente bandeiras políticas reacionárias (contra o aborto; defesa da família patriarcal, da pátria, etc.). Todo o imaginário religioso e místico da população é trabalhado em um espaço televisivo que poderia ser utilizado para a divulgação da ciência ou de alguma grande produção cultural da humanidade.

Os programas sobre ciência estão em absoluta desvantagem em comparação ao misticismo religioso, amplamente patrocinado. Algumas igrejas detém diretamente o controle de emissoras de TV e empresas de comunicação (como é o caso da Rede Record, controlada pela Igreja Universal; e a Rede Vida, uma das emissoras controladas pela Igreja Católica dentre várias outras que influencia indiretamente). A maior parte dos programas científicos estão restritos à TV fechada e, tanto estes, quanto os da TV aberta, sofrem com a infiltração do misticismo. Isto é, apresentam à população conclusões pseudo científicas, que reforçam de uma forma ou outra o pensamento religioso e idealista. Diversas reportagens tratam insistentemente de fatos “sobrenaturais”, não para esclarecê-los, mas para instigar o medo e o lado místico do povo.
           
A tamanha desproporção entre os horários dos programas religiosos e os programas “científicos” (se é que podemos chamá-los assim), torna a afirmação de que o Estado brasileiro é laico uma farsa. Na verdade, demonstra apenas que se trata de um cinismo institucionalizado. A TV e a grande mídia patrocinam a catequização religiosa do povo (católica, evangélica, espírita, mística) visando uma finalidade de dominação política. Quem é doutrinado no abstrato, no além, no sobrenatural, não consegue enxergar o real, o humano, o político, o concreto. Quanto menos capacidade crítica e científica tiver a população, mais facilmente será dominada e iludida por qualquer engodo veiculado na grande mídia.
           
O militante trotskista norte americano, George Novack, analisando o conteúdo do mercado editorial dos EUA, nos dá uma excelente análise de como a grande mídia trata a questão da ciência (materialismo) X religião (idealismo): “Os defensores do capitalismo – da universidade e das igrejas aos meios de comunicação – realizam persistentes esforços para evitar a penetração do pensamento materialista. Aqui vai um exemplo típico. A publicação de Henry Luce, Life, a revista de maior circulação nos EUA, é um dos protagonistas mais ativos da cruzada antimaterialista. Em 1956 publicou uma série sobre a ‘epopéia do homem’ que tratava das últimas descobertas científicas sobre as origens da civilização. Era impossível referir-se a este tema sem minar, ainda que por suas implicações, o cristianismo ortodoxo. Se, como demonstra indiscutivelmente a teoria da evolução, o homem surgiu do reino animal, que crédito pode ser dado a Adão e Eva e fábulas similares sobre a origem divina do homem? Os editores se apressaram em vacinar seus leitores contra qualquer heresia materialista: ‘a cosmogonia materialista – escrevem – demonstrou ser tão pouco satisfatória como a leitura literal do Gênesis, do sistema geocêntrico de Ptolomeu ou o universo mecânico de Newton. E o segredo da origem do homem e a razão de sua existência nesse planeta seguem sendo tão misteriosos como antes’. Ou seja, todas as conclusões da ciência não nos dizem nada que as tribos israelenses não soubessem sobre o desenvolvimento do mundo e o destino da humanidade! Descartada assim a ‘cosmogonia materialista’ (e de passagem os resultados da ciência), os editores colocam que o surgimento e a atividade da ‘consciência’ constitui a prova decisiva da natureza divina do homem. Contrapõem a moralidade eterna às conclusões da ciência moderna que se baseia no método do materialismo. Os argumentos teóricos destes apologistas da existência de deus são tão débeis como imensos seus recursos financeiros e influências. Mas uma coisa é evidente. Estes defensores da religião e do capitalismo consideram o materialismo seu principal inimigo ideológico, que precisa ser combatido ainda que o custo signifique o suicídio da ciência. Estes cérebros que funcionam nos arranha-céus se colocam no mesmo nível que os adversários do materialismo da Grécia antiga, os caçadores hereges da Europa católica e os caipiras batistas que tentavam banir o darwinismo no Tenesee há algumas décadas”[9].

A longa citação foi necessária porque elucida a questão.

f) O horário eleitoral, os debates e a cobertura das eleições na grande mídia: O nível político da democracia burguesa é tão baixo que o grande trunfo dos partidos é o controle da maior parcela do horário eleitoral. Geralmente ganha as eleições quem tem o maior tempo de TV; daí advém muitas coligações esdrúxulas visando esta finalidade ou leiloando os seus minutos de TV. Para muitos partidos – inclusive os reformistas – participar das eleições é apenas uma oportunidade de aparecer na TV como um fim em si mesmo. A partir destas aberrações se pode constatar a total falta de democracia, pois como é possível achar normal o tempo de 10 ou 5 minutos para alguns partidos e 45 ou 50 segundos para outros? Não deveria haver um rateio de tempo entre todos os partidos e o que apresentasse o melhor programa se consagrasse vencedor? Isso é impossível, pois, no essencial os programas políticos são idênticos e os partidos reformistas não rompem com a lógica geral do discurso eleitoral, mantendo a sua propaganda dentro dos marcos da democracia burguesa, do reformismo e do doutrinarismo (ainda que eventualmente um que outro partido reformista fale em “revolução” de uma forma totalmente dogmática, descontextualizada e demagógica). Vencem, portanto, os partidos que aparecem mais, que conseguem mesclar a melhor publicidade de um “candidato-mercadoria” com a lavagem cerebral feita em forma de jingle e efeitos especiais; além, é claro, dos seus contratos ocultos com grandes empresas, empreiteiros, latifundiários e o imperialismo.
           
O que se vê no horário eleitoral na TV é uma voraz disputa pelo voto, sem nenhum argumento consistente. Não se debate programa político. O que se tenta é vender um produto, uma imagem. Geralmente os horários eleitorais fazem filmes que mostram o “drama” da trajetória pessoal dos candidatos, suas relações familiares, suas "qualidades" pessoais, etc. Estes filmes tentam comover o lado emocional da população, mostrando-os como “pessoas comuns” que não teriam interesses econômicos maiores a zelar. Que voto um político poderia receber se defendesse em seu horário eleitoral o corte de gastos para pagar as dívidas externa e interna? Que privatizaria empresas públicas, portos e rodovias? É evidente que tudo isso fica para “depois da eleição”, enquanto que no horário eleitoral é legalizada a propaganda pela metade, distorcida, omissa ou mesmo mentirosa. O programa de governo não é apresentado porque, no essencial, todos são iguais. O horário eleitoral, portanto, não serve para esclarecer, mas somente para vender ilusões, imagens, tal como um anúncio publicitário qualquer. Isto é assim porque os candidatos e os partidos não podem apresentar abertamente o seu programa, que nada mais é do que os interesses do capitalismo: o desmonte dos serviços públicos, a entrega dos recursos naturais e financeiros ao imperialismo, o pagamento da dívida interna e externa; em suma, a política de benefício do grande capital em detrimento dos “interesses públicos”. É por isso que votar não muda pra melhor a vida dos trabalhadores.
           
Outra manipulação descarada da grande mídia são as “pesquisas eleitorais” que induzem descaradamente o voto apresentando os candidatos e partidos “mais bem posicionados”. A partir daí, ela dá maior cobertura a estes candidatos, o que é outra aberração. Este tipo de pesquisa prévia deveria ser proibida, mas é exatamente ela que dá a tônica para o “debate eleitoral” e para as eleições. Em 2014 as pesquisas erraram descaradamente (não 1 ou 2 pontos percentuais, mas mais de 20%) e causaram grande comoção, levando à proposta de criação de uma CPI no Congresso Nacional, que foi rapidamente abafada através do lobby dos grandes monopólios de “comunicação”.
           
O debate eleitoral é outra farsa, montado capciosamente para não se debater nada de sério e profundo. Não se debate programa político, mas temas genéricos, como saúde, educação e moradia, sem nunca tocar em temas caros ao capitalismo como a dívida externa e interna, que consomem quase 50% dos recursos do país. Como é possível ter política para os serviços públicos mantendo o superávit primário para pagar os juros das dívidas? Não seria mais honesto debater prioritariamente a questão das dívidas ou, então, dizer honestamente como os custos serão passados para o povo?

O regime democrático-burguês, através da grande mídia, dá as piores desculpas para excluir os partidos de "esquerda" dos debates na TV: representação no Congresso Nacional. Isto, na verdade, é uma desculpa esfarrapada; é falta de vontade política, censura. Ainda que no essencial estes partidos sejam reformistas e não representem ameaça ao regime, podem levantar temas e questionamentos incômodos que, em épocas eleitorais, mudem um pouco a matemática das posições, das manipulações e da vitória final. Cabe ressaltar ainda a manipulação do debate eleitoral entre Collor e Lula em 1989 pela TV Globo – manipulação esta admitida atualmente pelo diretor Boni, que nenhum tipo de penalidade sofreu por isso, nem a sua emissora.

Todos os debates verdadeiramente essenciais estão fora do horário eleitoral, que servem apenas para uma propaganda enganosa, ou são deturpados e manipulados. Não há como se “informar” seriamente sobre a situação política do país e nem escolher em quem votar, porque não existe explanação de propostas e debates verdadeiros na TV, apenas clichês, dissimulações e manipulação.

g) Propagandas: Os informes publicitários consomem a maior parte do tempo da TV. Não há nenhum programa televisivo que não tenha um patrocinador e que dê grande destaque para a propaganda. Este mercado é praticamente dominado pelos grandes empresários, sobretudo os ligados ao ramo das multinacionais montadoras de carros, que pagam pelo horário nobre. Quem paga a banda, escolhe a música. O conteúdo da TV não é livre. Está totalmente subordinado ao grande capital que anuncia seus produtos nos horários destinados à propaganda e sustenta toda esta estrutura de alienação.

Nesse sentido, a declaração de Roberto Irineu Marinho é esclarecedora: “Não tenho dúvida que a Globo do futuro continuará jovem, continuará vibrante e continuará a dona do seu tempo, informando, divertindo e emocionando os brasileiros. E que, juntos, continuaremos a explorar as oportunidades que assegurem o fortalecimento de nosso mercado e os melhores resultados para os nossos anunciantes”[10]. A grande mídia e as suas empresas monopólicas estão estruturadas conforme os interesses dos seus anunciantes. E é a partir daí que temos o fim de qualquer resquício de “liberdade de imprensa”. As emissoras e jornais publicam notícias de interesse de uma grande empresa e, em contrapartida, esta compra um determinado espaço publicitário[11].

As notícias, programas e matérias dos jornais impressos são feitas para preencher os espaços “deixados em branco” pelos anúncios. O setor de publicidade é o que define o espaço inicial, programado, página por página, programa por programa, dos anúncios a serem inseridos. O que sobra de espaço é distribuído entre as várias editorias, e a divisão é feita em proporções variáveis. A redação tem um caráter subordinado ao setor de publicidade, que é utilizado para instigar e direcionar o consumismo de acordo com as exigências do mercado e, é claro, do setor capitalista que pagar mais caro. Os governos em todas as suas instâncias também se utilizam da propaganda midiática para divulgar seus “feitos”, obras e os falsos slogans para melhor iludir os trabalhadores (Brasil: um país de todos; cada vez mais independente; sem pobreza, etc.). Para isso, compram espaço na mídia com dinheiro público.

As grandes empresas de comunicação ainda ganham isenções fiscais para prestar supostos serviços públicos, como veicular propagandas de instituições de caridade, como a APAE, o horário eleitoral e a propaganda política obrigatória. Além disso, as isenções de impostos aumentam quando as emissoras realizam programas assistencialistas como “Criança Esperança”, “Teleton”, dentre outros. É um “negócio da China”: os monopólios da grande mídia ganham rios de dinheiro com poucos minutos de espaço publicitário e isenções fiscais para fazer um suposto trabalho filantrópico. Com tal funcionamento, é óbvio que os monopólios midiáticos só poderiam trabalhar no sentido da luta visceral contra o socialismo.

Conclusões
No meio deste mar de manipulações e falsificações encontra-se algum tipo de prestação de serviços (notícias sobre o trânsito, previsão do tempo, informação de prazos), notícias úteis (até mesmo que aborde algum aspecto progressivo da conjuntura ou da luta dos trabalhadores), programas educativos e produções artísticas interessantes. Porém, encontram-se tão soterrados por toda esta estrutura midiática que é muito difícil encontrá-los ou não deixá-los se anular por este turbilhão de programas idiotizantes e manipuladores, cuja finalidade, como se viu, é alienar as massas trabalhadoras. Além disso, um instrumento com grande poder educativo como a TV não pode ser utilizado como uma máquina para o consumismo e a manipulação política inescrupulosa e capciosa.
           
Os gritos da grande mídia contra a inexistência de “liberdade de imprensa” nos países ditos “comunistas” ficam, assim, desmascarados. É tudo um jogo de cena para desviar a atenção da verdadeira censura à liberdade de imprensa que sofremos no “mundo civilizado ocidental”. O primeiro pré-requisito para a existência de liberdade de imprensa, como foi bem definido por Marx, é que ela não seja um negócio. E como vimos, ela é um dos negócios mais lucrativos, conformando monopólios que influenciam e alienam milhões de seres-humanos, seguindo, unicamente, o que entendem por “liberdade de imprensa”. Tudo o que fere o seu direito de propriedade e de continuar sendo um monopólio imensamente lucrativo é tratado como um “ataque à liberdade de imprensa”. É uma contradição absurda falar em liberdade de imprensa enquanto houver monopólio privado dos meios de comunicação. Para que ela exista efetivamente, a propriedade dos meios de comunicação precisa ser socializada.
           
A política do PT de regulamentação da mídia (repetida por PSOL e outros satélites) não resolve o problema real de censura e manipulação. Os encontros nacionais convocados pelas correntes sindicais e políticas do PT tinham dois eixos centrais: regulamentação de funcionamento para tentar evitar as manipulações; e o incentivo às mídias alternativas (internet, redes sociais, rádios comunitárias, etc.). Contudo, esta política apenas cria novas ilusões de que é possível controlar os monopólios midiáticos dentro do capitalismo e de competir com a grande mídia a partir das mídias alternativas. Esta política reformista é outra catástrofe que nem sequer se propõe a responder as distorções da grande mídia sobre os “ataques à liberdade de imprensa”. Não pode cumprir este papel em razão do caráter de classe do PT e dos seus governos.
           
A única forma de criar uma mídia que sirva aos interesses do povo é expropriando os grandes monopólios midiáticos e colocando-os sob controle das organizações proletárias. Para isso, é necessário uma revolução socialista, preparada por uma organização prévia dos trabalhadores, dentre as quais a principal é a construção de um partido revolucionário. Somente estas condições poderão permitir o debate da programação e dos conteúdos por congressos periódicos de trabalhadores, convocados e debatidos com toda a sociedade, transformando a TV de um instrumento de alienação, opressão e dominação, em um meio para a formação educativa, cultural e social de todo o povo.
***
A luta política no final do século XIX e início do XX se dava através da criação e propagação de um jornal, que defendia abertamente posições partidárias. São exemplos disso a imprensa abolicionista e republicana, bem como os jornais das duas facções envolvidas na Revolução Federalista do Rio Grande do Sul. A expressão mais alta desta luta ideológica deu-se através dos jornais Iskra e Pravda do Partido Bolchevique, na Rússia. Em maior ou menor medida, a luta ideológica se processava em pé de igualdade de recursos. Os jornais conseguiam difundir-se, mesmo proibidos ou com poucos recursos. Não havia um abismo tão gigantesco entre a mídia burguesa e a imprensa operária.
           
Atualmente salta aos olhos esta disparidade de forças. Enquanto a burguesia dispõe de TV, rádio, jornais de grande circulação, portais de internet; a esquerda segue restrita ao velho jornalismo e às mídias alternativas e redes sociais (que, como foi dito, são muito importantes, mas não conseguem competir seriamente com a grande mídia). Contudo, essa dura conclusão não deve servir como desculpa para a prostração e o ceticismo. Enquanto não é possível atingir os objetivos de socialização dos monopólios midiáticos, é dever dos revolucionários denunciar as manobras e manipulações da grande mídia por todos os meios que lhes forem acessíveis e apresentar o programa socialista aos trabalhadores. Deve-se tornar prática comum do trabalho revolucionário atual desmascarar uma a uma as notícias falaciosas e tendenciosas veiculadas pela grande mídia. Por hora, o melhor remédio é formar as novas gerações de revolucionários vacinados contra a grande mídia e habituados a respondê-la no melhor estilo da crítica marxista.



NOTAS



[1] FONSECA, Virginia Pradelina da Silveira. Indústria de notícias: capitalismo e novas tecnologias no jornalismo contemporâneo. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2008.
[2] Capparelli, 1989, p.23, in FONSECA, Virginia Pradelina da Silveira. Indústria de notícias: capitalismo e novas tecnologias no jornalismo contemporâneo (p. 93). Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2008.
[3] Esta declaração foi dada na solenidade de premiação dos 50 anos da Rede Globo pela Abap (Associação Brasileira de Agências de Publicidade), com matéria exibida no Jornal da Globo de 15 de maio de 2015.
[4] FONSECA, Virginia Pradelina da Silveira. Indústria de notícias: capitalismo e novas tecnologias no jornalismo contemporâneo. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2008.
[6] Revista Época, editora Globo, junho de 2015, “O triunfo do traidor herói”, página 14 (negritos nossos).
[7] FONSECA, Virginia Pradelina da Silveira. Indústria de notícias: capitalismo e novas tecnologias no jornalismo contemporâneo. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2008.
[8] Sindicato dos professores e funcionários de escola do RS. O segundo maior sindicato do país e o maior do RS.
[9] NOVACK, George. As origens do materialismo. São Paulo, 2015. Editora Sundermann.
[10] Declaração dada por R.I. Marinho na solenidade de premiação pela Abap aos 50 anos da Rede Globo (ver nota 3).
[11] FONSECA, Virginia Pradelina da Silveira. Indústria de notícias: capitalismo e novas tecnologias no jornalismo contemporâneo. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2008.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O resultado da estratégia reformista do PT confirma novamente a crítica marxista

Os povos do mundo terão ainda de pagar com
novas guerras e revoluções os crimes históricos do reformismo.
(Leon Trotsky)

Não é de hoje que o marxismo critica a estratégia reformista dos partidos operários. Quando o PT se formou, pesava sobre sua consciência mais de 100 anos de movimento operário, devidamente criticado por Marx, Engels, Lenin, Trotsky e Rosa Luxemburgo. Ainda que o surgimento do PT tenha se dado em um momento extremamente reacionário, de restauração capitalista e, portanto, de derrota dos trabalhadores a nível internacional, isso não eximia seus dirigentes e teóricos de evitar os erros e traições do passado. Agora, após 12 anos de governos petistas, vemos o resultado do que era inevitável.
           
A estratégia reformista e eleitoreira (frente populista), com a desculpa de que é possível governar para os trabalhadores por dentro do Estado burguês, levou o PT a se transformar no que ele é hoje[1]: mais um partido burguês, a despeito de toda a sua retórica de “esquerda”. Portanto, o PT não mudou após chegar ao poder – demonstrando supostamente que os “homens são maus por natureza”, ou que o problema são os partidos e a organização política dos trabalhadores (que os levaria inexoravelmente à degeneração, como sustenta a tese burguesa e anarquista). Não! O PT degenerou porque optou conscientemente pela estratégia reformista.
           
Ao renunciar à estratégia revolucionária em um momento que tinha hegemonia sobre a maioria dos trabalhadores brasileiros, o PT teve que se dedicar a conseguir uma governabilidade burguesa, buscando alianças com o PMDB, PP, PTB, PDT, dentre outros. A direção foi isolando a base das decisões, patrolando-a, ludibriando-a com novas e mais perniciosas teorias oportunistas. O seu projeto pseudo-nacionalista, baseado, sobretudo, na Petrobrás, sustentou-se durante um curto espaço de tempo em uma conjuntura econômica mais ou menos favorável às commodities exportadas pelo país. Como tinha uma falsa sustentação a longo prazo, naufragou como um barquinho de papel frente aos golpes da velha direita (PSDB, Dem, SDD, fascismo e grande mídia) e da crise capitalista internacional, que se acirrou.
           
A dívida externa e interna não diminuiu ou acabou, mas aumentou. O PT foi o responsável pelo maior corte orçamentário do Brasil (R$70 bilhões), mantendo, portanto, o elo com a espoliação colonial que o país sofre desde 1500. O Brasil segue tão dependente do imperialismo como sempre foi. Em razão das suas alianças de classe, a “reforma política” voltou-se contra o próprio PT, sendo usada pelos partidos burgueses tradicionais para reforçar a sua dominação oligárquica. Caso a “assembleia constituinte” venha a ser realmente instaurada, ela caminhará no mesmo sentido. O controle da mídia não passou de um discurso limitado e enganoso, pois não questionou a propriedade dos grandes monopólios de comunicação e nem sequer conseguiu criar condições para “regulá-los”. A defesa dos direitos dos trabalhadores transformou-se na reforma da previdência, sindical e trabalhista; nas MPs 664, 665; no PL 4330.
           
Após 12 anos de governo do PT, o povo segue miserável, explorado, oprimido e humilhado, apesar do paliativo dos programas sociais. O bolsa família é usado como álibi para propagandear uma caricatura grotesca de “socialismo” e justificar os votos no PT. A mentalidade clientelista, colonizada e descrente no país não só se manteve, como se aprofundou. Os negros, apesar das cotas, continuam sendo chacinados nas periferias das grandes cidades. Para que a vanguarda de esquerda especialize a sua propaganda e os trabalhadores avancem sua consciência de classe, é preciso assimilar corretamente a experiência com o PT.
           
A estratégia reformista e eleitoreira do PT – seguida fidedignamente pelo PSOL – apenas sustentou a direita num momento de descrédito e, agora, a fortaleceu, bem como o seu discurso anti-petista, que é, na verdade, uma forma de disseminar ódio e preconceito contra a esquerda em geral, e a revolucionária em particular. O PT não desmascara o PSDB, mas é “desmascarado” por ele. Todos aqueles que afirmam que os governos do PT caminham para o socialismo são ignorantes completos sobre o tema, iludidos ou enganadores conscientes, muito satisfeitos com estes governos. Este partido ajudou a sustentar o capitalismo brasileiro, que agora se recupera através do “ajuste fiscal”. Só a estratégia revolucionária pode levar os trabalhadores ao poder, melhorar sua condição de vida e derrotar, definitivamente, a oligarquia burguesa que domina o país, criando as bases para a construção do socialismo.




[1] A degeneração do PT já foi analisada neste blog: http://conscienciaproletaria.blogspot.com.br/2014/02/a-degeneracao-do-pt.html

terça-feira, 5 de maio de 2015

"Ajustar para avançar" ou para salvar os capitalistas da crise?

O governo Dilma lançou recentemente uma propaganda política com o seu novo slogan "ajustar para avançar", que em nada fica devendo para a direita e os banqueiros (Banco Mundial, FMI, Bird, etc). Prepara o caminho para fazer o seu trabalho sujo, escondendo-se atrás de uma "carcaça de esquerda".

O governo afirma que amenizou os efeitos da crise capitalista internacional com suas ações. Na verdade, a crise econômica demorou para chegar ao Brasil muito mais em função do alto valor das commodities exportadas (petróleo, minérios, aço, produtos agrícolas, etc.; mercadorias consumidas, sobretudo, pela China) do que por supostas ações do governo. Mas ainda vale perguntar, que ações o governo realizou frente a crise? Isenção de impostos às grandes empresas multinacionais, taxa de juros exorbitante, política de superávit primário para o pagamento das dívidas junto aos banqueiros nacionais e internacionais. Além, é claro, do aumento da exploração dos trabalhadores.

O "crescimento do emprego" foi feito à custa das terceirizações, que aumentaram 109% em oito anos (de 4,1 milhões para 12,7 milhões em 2013), e do subemprego. A "valorização salarial" é uma piada, se observarmos a corrosão da inflação, bem como o lucro dos grandes grupos empresariais do país (principalmente os beneficiados com a isenção de impostos) e dos bancos (estes sim tiveram "valorização"; e continuam tendo).

Da mesma forma, a suposta "defesa dos direitos trabalhistas" é uma mentira deslavada muito perigosa, pois prepara a nova onda de retirada de direitos (MPs 664, 665, PL 4330) protagonizada pelo governo Dilma em frente única com o reacionário Congresso Nacional. O discurso de que "os benefícios e direitos trabalhistas serão assegurados", mas "sendo aperfeiçoados para evitar distorções e fraudes", é outra falácia. Os direitos dos trabalhadores estão sob terrível ameaça, que o governo eufemiza e tenta anestesiar os trabalhadores para que recebam a paulada sem percebê-la.

O aumento dos impostos sobre a energia são justificados pela seca, o que é uma nova mentira. Ainda que a seca possa afetar a produção de energia, o aumento das tarifas de luz se dá por uma necessidade de passar os custos da crise econômica e financeira crônica para os ombros dos trabalhadores de uma forma "imperceptível", enquanto que os grande conglomerados industriais continuam pagando proporcionalmente muito menos impostos. Os gastos cortados pelo governo são parte deste "ajuste", que destrói e arrocha os serviços públicos, condenando-os a inoperância, a precariedade e, consequentemente, pavimentam o caminho para as privatizações. O PSDB e o Dem sorriem, satisfeitos, por não precisarem sujar as mãos. E mesmo assim continuam aterrorizando o governo para que "ajuste" mais!

Sendo assim, não há "vitória" alguma como o vídeo alega, a não ser para a burguesia. Todos estes ajustes estão sendo feitos para salvar os grandes capitalistas da crise econômica internacional às custas dos direitos dos trabalhadores. Portanto, o atual slogan do governo Dilma é um eufemismo que poderia bem ser traduzido como "ajustar para acalmar a direita e salvar os grandes capitalistas"!

domingo, 19 de abril de 2015

Dois poemas modernistas

O Rebanho

Oh! minhas alucinações!
Vi os deputados, chapéus altos,
Sob o pálio vesperal, feito de mangas-rosas,
Saírem de mãos dadas do Congresso...
Como um possesso num acesso em meus aplausos
Aos salvadores do meu Estado amado!...

Desciam, inteligentes, de mãos dadas,
Entre o trepidor dos taxis vascolejantes,
A rua Marechal Deodoro...
Oh! minhas alucinações!
Como um possesso num acesso em meus aplausos
Aos heróis do meu Estado amado!...

E as esperanças de ver tudo salvo!
Duas mil reformas, três projetos...
Emigram os futuros noturnos...
E verde, verde, verde!...
Oh! minhas alucinações!
Mas os deputados, chapéus altos,
Mudavam-se pouco a pouco em cabras!
Crescem-lhe os cornos, descem-lhe as barbinhas...
E vi que os chapéus altos do meu Estado amado,
Com os triângulos de madeira no pescoço,
Nos verdes esperanças, sob as franjas de ouro da tarde,
Se punham a pastar
Rente do palácio do senhor presidente...
Oh! minhas alucinações!

(Mário de Andrade, in Paulicéia Desvairada, 1922)

Erro de português

Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

(Oswald de Andrade, in Pau-Brasil, 1926).

Os poemas “O Rebanho” e “erro de português” dos poetas modernistas Mário de Andrade e Oswald de Andrade abordam o tema da situação política brasileira, tanto do ponto de vista da sociedade “independente” pós-colonização portuguesa, quanto do início da própria colonização. A análise da situação de dependência do Brasil é uma preocupação recorrente na obra dos dois autores, que procuram ajudar na emancipação cultural e política do Brasil, bem como na criação de uma identidade nacional. Tanto um quanto outro poema contribuem para o encontro desta identidade.

No poema de Oswald percebemos claramente esta preocupação, quando logo se constata no primeiro verso uma referência à chegada dos portugueses ao Brasil. O ato de "vestir" e de "despir", expostos naqueles versos, sugere a relação de poder entre o povo dominante e o povo dominado. Vestindo os indígenas, o colonizador tinha a intenção de impor sua cultura: catequese, língua, vestimentas, etc. A maneira em que nos vestimos é uma reflexão da influência da sociedade a que pertencemos. As vestimentas de uma população refletem seus hábitos, sua cultura. O poema refere-se também às condições da chegada dos portugueses: "debaixo duma bruta chuva", que é usada para simbolizar os tempos sombrios que estavam por vir e que “nublariam” o sol da vida simples e idílica dos povos indígenas.

Já em "O rebanho", a alucinação ganha foro de “iluminação”. O tema da loucura, também presente em outros poemas de “Paulicéia Desvairada”, traduz os ritmos das negociatas políticas, captados em meio às alucinações do poeta. No primeiro verso da primeira estrofe, podemos ler "Oh! Minhas alucinações!”, trecho que se repete mais de três vezes ao longo do poema, incluindo no seu último verso. Tal frase não emoldura um texto em vão. Ela certamente remete à ideia de imaginação e desejo de algo diferente da realidade vivenciada, a qual percebemos ser a realidade política da época em questão. A seguir, o restante da primeira estrofe descreve a atitude e a pose arrogante de políticos de nosso país sob a visão irônica do poeta.

Ao aplaudir os deputados deixando o Congresso, o “eu poético” vê os distintos políticos transformados em “cabras”. Investido da liberdade pela “alucinação”, a voz lírica satiriza os políticos, que, sob a face distinta dos “chapéus altos”, envergam trejeitos, trajes e costumes de pessoas mandadas, comandadas e dirigidas, como cabras ou gado em seus rebanhos, que seguem a “correnteza”. Aqui, novamente, vemos a alegoria dos trajes estrangeiros presentes na definição da dominação e na aculturação. O parlamento brasileiro, que deveria ser soberano e “original”, além de ter de debater mais de duas mil reformas e aprovar meros três projetos, segue a imagem semelhança de um parlamento europeu, mais especificamente do parlamento britânico. As roupas para o frio, típicos do clima europeu, com os seus “chapéus altos”, cartolas, ternos e sobretudos, são trazidas mecanicamente para a realidade brasileira, onde impera um calor infernal que contrasta com tudo aquilo. Ser “civilizado” e “progressista” para eles é copiar o que vem das metrópoles européias, inclusive a vestimenta. Ainda é possível estabelecer um laço de continuidade entre “O rebanho” e “Ode ao burguês” (poema famoso que também consta em "Pauliceia Desvairada"), uma vez que se afinam como sátira, como escárnio expressionista ao burguês e à sua sociedade, criada à imagem e semelhança da sociedade burguesa européia.

O senhor presidente, por sua vez, surge com a sua figura mítica de um verdadeiro fazendeiro, dono do rebanho. O seu palácio seria uma espécie de casa grande da fazenda, dispondo de um amplo campo verde, onde os deputados-cabras pastariam conforme a vontade do dono. O uso da palavra “esperança” enche o poema de expectativa incerta sobre o futuro de nossa nação, a de “ver tudo salvo!”. Como se algo estivesse perdido, mas tivesse solução. No entanto, não é o poeta que pode agir e resolver os problemas que vê, mas aqueles que poderiam por em prática seus “projetos”. O poeta só pode esperar que eles ocorram através de suas “verdes alucinações”, onde deixa evidente que o verde é a cor da esperança.

Podemos constatar com os dois poemas analisados que eles não apenas criticam o passado colonial e a “atualidade” de repetições dos padrões e modas políticas das metrópoles européias, mas, sobretudo, investem em uma ruptura com o passado literário nacional. Ou seja, procuram a experimentação de novas técnicas e, principalmente, da liberdade poética para criticar o passado colonial e aquela realidade brasileira ainda não superada.

sábado, 4 de abril de 2015

O outono brasileiro

Em analogia ao que a esquerda e a grande mídia convencionaram chamar de “primavera árabe”, podemos dizer que no Brasil estamos vivendo um “outono neoliberal”. Os protestos contra o governo Dilma (PT), impulsionados principalmente pela oposição de direita (PSDB, Democratas, Solidariedade), apóiam-se, sobretudo, nas camadas da pequena-burguesia, ainda que contem também com o apoio de setores dos trabalhadores.

Este “movimento” defende um programa neoliberal, mas usa como disfarce para angariar mais apoio entre a população o “combate à corrupção” (dentre outras demandas reacionárias, vagas e confusas). Ele conta com o apoio dos aparatos da mafiosa Força Sindical (dirigida majoritariamente pelo partido Solidariedade) e da grande mídia, que manipulou assustadoramente números, bandeiras, consignas e tem dado gigantesco destaque para estas “manifestações” e para a operação lava-jato, visando desmoralizar o PT, não pelo que ele é hoje, mas pelo que foi um dia. O “anti-petismo” destas “mobilizações” está sendo usado para destilar ódio e preconceito contra toda a esquerda, principalmente a revolucionária. A intenção deste “movimento” é se apoiar no descontentamento popular da classe média contra a corrupção e os “altos impostos” para fazer cumprir integralmente o programa neoliberal, que atende, sobretudo, aos interesses econômicos do imperialismo norte americano, em crise desde 2008. Os setores mais atrasados desta classe média tomaram coragem para defender demandas reacionárias reprimidas e levantam abertamente medidas neoliberais (privatizem mais; fora o “comunismo”; dentre outras pérolas como a volta da ditadura militar). Querem puxar a roda da História para trás.

Exigir o fim da “corrupção” e, ao mesmo tempo, medidas neoliberais é uma contradição que estes setores não percebem (ou não querem perceber). As práticas neoliberais legalizam a corrupção. Os montantes roubados dos cofres públicos nas privatizações dos governos do PSDB fazem corar as da operação lava jato. Que moral tem PSDB e Democratas para exigir punição à corrupção na Petrobrás? Outras características do neoliberalismo, como a especulação financeira e o pagamento das dívidas externa e interna (a maior das corrupções), são fontes de inúmeras outras vias da corrupção, legal e ilegal, que a mídia não veicula e os “indignados” não contestam. Não é a toa que PSDB, Democratas e Solidariedade não criticam estas medidas do governo Dilma, bem como os seus “ajustes”, senão que é precisamente isto que visam intensificar, além, é claro, da privatização total da Petrobrás e da intensificação da retirada de direitos. Com a exploração do escândalo da Petrobrás a seu favor, o PSDB trabalha por sua plena privatização para que preferencialmente empresas multinacionais hegemonizem as novas licitações, tal como era no governo FHC. Já o PT quer seguir o seu modelo próprio de privatização, dividindo as concessões entre o capital nacional e internacional, sobretudo às empreiteiras brasileiras amigas do governo federal. Em 2008 o governo Lula anunciou a Petrobrás como a “locomotiva estatal do desenvolvimento”. A empresa era a espinha dorsal das políticas econômicas dos governos petistas; tanto é assim que ela era a responsável por 60% das obras do PAC. Portanto, os ataques fulminantes e sem tréguas da oposição de direita e da grande mídia contra a Petrobrás são premeditados e certeiros, não para resolver os seus problemas de corrupção, mas para desestabilizar o governo e acelerar a sua entrega às multinacionais do Big Oil.

Ao que tudo indica – incluindo o discurso da mídia –, não haverá impeachment, ainda que este não possa ser totalmente descartado, a depender da correlação de forças. Os setores mais conscientes deste “movimento” (Aécio, Paulinho da Força e os demais caciques das legendas de oposição) manobram dentro da legalidade democrático burguesa, ora usando a mídia, ora usando estas “mobilizações”, para desgastar política e eleitoralmente o governo federal, de olho em 2018, e, principalmente, para aplicar plenamente sua pauta neoliberal segundo o ritmo dos interesses da oposição de direita e do imperialismo.

A grande mídia, sem perder um único minuto, já saiu divulgando as declarações de Dilma para comprometê-la e pressioná-la: “Algumas das frases da presidente: – Vamos fazer os ajustes necessários, dialogando com todos, numa posição de humildade, mas com firmeza para que possamos chegar a um bom resultado (...) Não temos mais condições de fazer política anticíclica do jeito que fazíamos (...) Ninguém pode negar o fato de que fizemos de tudo para a economia reagir. A fala deu peso à tese de Christopher Garman do Eurásia Group no Brasil, que poucas horas antes havia dito, em teleconferência da GO Associados: – É hora de dobrar aposta na estratégia do Levy. O custo político de não fazer é maior. O governo está mais refém dessa agenda do que nunca” (ZH, 17 de março de 2015). Eis aí o resumo da tragédia. “Ajuste”, no caso, são os cortes orçamentários, a retirada de direitos (MPs 664 e 665), novas privatizações (que o governo chama eufemisticamente de “concessões”); isto é, todas as medidas neoliberais exigidas para o pagamento das dívidas com os bancos e agiotas nacionais e internacionais.

Uma vez que o impeachment é descartado como saída imediata, os acordões de bastidores já estão sendo costurados. O PMDB (como sempre) está no centro destes acordões. É por intermédio deste partido que internamente a pressão pela “direita” será intensificada. O PT paga o preço da sua política de alianças e da sua estratégia reformista. Que nenhum trabalhador esqueça dessas lições! A degeneração do PT é irreversível e ele não pode mais fazer frente as pressões da direita: aplica planos de “ajuste” contra os trabalhadores e depois quer mobilizá-los contra a “ameaça da direita”! Hoje é um partido burguês como qualquer outro (o mesmo se aplica ao PCdoB: o cão de guarda do petismo). A classe média reacionária (que exige o “Fora PT”) vê nele ecos das greves de 1980, de “socialismo”, mas isso não passa de preconceito de classe. Delphin Neto, guru da “direita”, já deu o seu veredicto sobre os governos do PT: “Lula salvou o capitalismo no Brasil”. Ele está corretíssimo! Lula afirmou certa vez que “os banqueiros nunca ganharam tanto dinheiro como no meu governo”.

O discurso de Dilma sobre a defesa da “ordem democrática” é a confirmação do pântano em que está atolada. Seu governo não pode ir além desta ordem. E quanto mais a reivindica e sustenta, mais se afunda neste lamaçal e se torna refém da ofensiva da direita. Só um caminho revolucionário poderia romper o círculo vicioso. Mas, por tudo que já demonstrou, bem como pelo seu novo caráter, o PT não está disposto a seguir esse caminho.

A crise capitalista que se aprofunda no Brasil e no mundo exige mais sacrifícios dos trabalhadores. A oposição de direita quer os cortes e o arrocho já! O governo do PT, que já está fazendo os ajustes neoliberais, mescla a entrega das riquezas do país com doses homeopáticas de Bolsa Família e de uma pseudo política nacionalista da Petrobrás, como foi do seu feitio durante 12 anos. A oposição de direita quer a submissão total e incondicional ao imperialismo ianque (sem demagogias); enquanto que o governo do PT quer jogar com duas possibilidades: boa vizinhança com o imperialismo ianque e aproximação com China e Rússia. Para o imperialismo ianque e a oposição de direita isso é intolerável! Ainda mais quando constatamos que o governo Lula contraiu um empréstimo de U$10 bilhões com o Banco de Desenvolvimento da China (BDC) para financiar a sua política de desenvolvimento a partir da Petrobrás, que tem como contrapartida gastar U$3 bilhões em compra de equipamentos e tecnologias da China, e o comprometimento da Petrobrás em lhe fornecer 200 mil barris de petróleo por dia, durante 10 anos.

Atualmente o mundo todo está submetido à disjuntiva: EUA X China/Rússia. É só lançar um olhar mais crítico para a situação de Ucrânia, Síria (Oriente Médio em geral), Argentina, Venezuela. Entre os primeiros países, os ânimos estão acirrados ao ponto do enfrentamento militar aberto; e nos segundos, ao enfrentamento disfarçado. Por aqui, a “mobilização” pacífica das bandeiras neoliberais vai cumprindo a sua missão. O patriotismo deste “movimento” e dos partidos da oposição de direita é profundamente cínico, pois significa apenas a incondicional submissão aos interesses do imperialismo ianque. O único e verdadeiro “patriotismo” é o que levanta e defende a bandeira histórica dos trabalhadores: o socialismo; ou seja, valoriza o povo e, por isso mesmo, defende a unidade internacional de todos os trabalhadores, que não tem pátria. O discurso patriótico sempre serviu como uma luva para o fascismo. Agora não é diferente.

As organizações da “esquerda” brasileira faliram. Cumprem um papel de auxiliar de um ou outro setor da burguesia. Ou apóiam o governo com a desculpa de “golpe da direita”, ou apóiam indiretamente a direita quando esquecem da correlação de forças da conjuntura para impor um governo alternativo ao de Dilma. É preciso uma análise lúcida dos fatos para rebater as armadilhas dos dois campos burgueses, dando ênfase para o atual ascenso da direita em todo mundo, fruto do acirramento da crise capitalista internacional.

A política cotidiana dos partidos de esquerda (PSOL, PSTU, PCB e PCO) é de sustentação do sindicalismo cutista, ainda que defendam eventualmente a desfiliação de sindicatos da CUT. O PSOL chega ao cúmulo de defender uma “frente popular” contra o “ascenso da direita”, exigindo que o governo Dilma “reverta o modelo” político que vem aplicando e propondo um programa mínimo em conjunto com setores do PT. Não se pode ter um programa em comum com o PT; no máximo, atos específicos em repúdio à “direita” e o seu “golpismo”, no sentido de alertar e mobilizar os trabalhadores. A nossa propaganda e programa devem ter total independência do PT. Da mesma forma que o PSOL, o PSTU trabalha no sentido de aprofundar as ilusões políticas no governismo. A sua política de exigências para que CUT, UNE e MST rompam com o governo é uma tragédia, pois serve apenas para gerar ilusões de que estas entidades burocratizadas até a medula possam efetivamente romper com o governo (na verdade, estas exigências são um presente para ele). Chega ao cúmulo de exigir que a Força Sindical rompa com o PSDB! O PSTU ainda defende uma “greve geral” para enfrentar esta crise política. Quem a convocaria e a sustentaria? A CUT ou a Força Sindical? Outra vez esta bandeira ignora a real correlação de forças do país e serve como matriz de novas ilusões. O PCO conclama abertamente a esquerda para apoiar o governo Dilma contra o “golpe da direita”, denunciando os “nem, nem” (nem direita, nem governo), mas não denuncia corretamente a inconsistência da política de PSOL e PSTU porque julga que sustentar o governo seria uma política em defesa dos trabalhadores. Na realidade, o PCO arrasa qualquer possibilidade de uma política de independência de classe e serve como sustentação política do PT. O PCB faz uma análise política um pouco mais lúcida, mas termina com um programa dogmático que esquece a correlação de forças do momento, sem falar de sua política sindical que vai a reboque do PT, PSOL e PSTU, sem críticas!

Existem ainda setores de trabalhadores que não estão organizados em partidos ou correntes sindicais que, da mesma forma que os partidos de “esquerda” já citados, terminam como base de sustentação dos atos da “oposição de direita” e do fascismo, ou apóiam o governismo por compreenderem o que estes “atos” e o crescimento do fascismo representam. Eles dizem: “combater o golpismo significa estabelecer uma sólida aliança com os companheiros do PT e da CUT”. Quem criou a atual possibilidade para o golpismo senão a própria política de conciliação de classes do PT? Devemos lutar contra o ascenso da direita sim! Mas isso não significa de nenhuma forma estabelecer uma “sólida” e “respeitosa” aliança com o PT e a CUT. Isso é o enterro definitivo de qualquer resistência real, pois o PT não tem interesse em uma resistência à direita, ao avanço neoliberal, às medidas de “ajustes” exigidas pelos bancos. Sua resistência será sempre vacilante e restrita aos limites do jogo viciado da democracia burguesa.

Os trabalhadores conscientes devem buscar construir um caminho de independência de classe para enterrar estas organizações oportunistas que sustentam de uma forma ou outra o governismo (e indiretamente a própria direita). Precisam fazer isso se não querem ficar reféns da sanha de urubus dos dois setores da burguesia em luta. O único “patriotismo” possível dos trabalhadores, portanto, é lutar para mudar a situação do país, fazer uma revolução socialista para erradicar a miséria, a pobreza, a ignorância e a exploração; em suma, lutar para derrubar o capitalismo. Mas, nesse momento, para concretizar esta intenção é preciso construir as condições através de um programa e de uma propaganda de independência de classe. A classe média que se compadece com os sofrimentos do povo e, principalmente, os trabalhadores conscientes, devem não apenas não se somar aos atos do 12A, mas, sobretudo, trabalhar para construir uma alternativa de movimento de massas com independência de classe dos dois setores da burguesia brasileira e imperialista.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Um balanço do neoliberalismo

Não é costume da burguesia e da sua mídia fazer balanços das suas políticas sociais e econômicas. Geralmente ela sempre procura esconder os seus resultados (aumento da pobreza, da disparidade de renda, da miséria, do analfabetismo e da exploração) e, como se diz, “vai levando”, vendendo tudo como “grande acerto” e como “única política possível”. Os pilares econômicos do sistema e das suas políticas não são nunca questionados seriamente. Um desses “balanços” nunca feitos é sobre o neoliberalismo, principalmente após a crise capitalista iniciada em 2008.

O neoliberalismo é uma política econômica capitalista, que surgiu por volta da década de 1980 e se intensificou após a restauração do capitalismo na Rússia, leste europeu, China, Cuba, etc. Se caracteriza por levar os dogmas liberais até as últimas consequências e criar novos: o mercado deve “organizar toda a sociedade e não ter limites”; o Estado não pode interferir na economia, nem investir nos serviços públicos básicos (saúde, educação, transporte), pois isso seria “concorrência desleal” com o setor privado; os bancos centrais devem ser independentes dos governos e manter o câmbio flutuante, o “controle da inflação” e a economia pautada pelo dólar (as moedas nacionais não se pautariam mais pelo lastro-ouro, mas pelo lastro-dólar – esta medida transcende a questão neoliberal); os bancos privados também podem ter o “direito” de se tornarem independentes, podendo usar os depósitos individuais como garantias para a especulação financeira (este foi um dos fatos que desencadeou a crise econômica de 2008); a livre especulação financeira, sem limites, bem como a agiotagem internacional em relação as dívidas públicas devem nortear a atração de capitais para investimentos. Tudo deve ser regulado a partir da iniciativa privada, da “luta” voraz na “livre” competição capitalista.

É desta compreensão que surgem como “naturais” as privatizações. Como o Estado é induzido a não intervir na economia, qualquer empresa ou serviço público precisa deixar de sê-lo. O governo FHC (PSDB) privatizou inúmeras empresas a preço de banana (Telebrás, Eletrobrás, Vale do Rio Doce; iniciou a partilha da Petrobrás). O caso mais escandaloso foi a venda da estatal Vale do Rio Doce (a maior mineradora do mundo) por um valor 20 vezes menor do que ela realmente valia.

Segundo os ideólogos da burguesia e da grande mídia, se opor a este verdadeiro saque do patrimônio público é ser “anacrônico”, defender o “passado”, “ideologias retrógradas como o socialismo”. “Progressivo” mesmo seria entregar as riquezas nacionais e ainda bater no peito, orgulhoso. É importante relembrar que o neoliberalismo surgiu e se consolidou no período da restauração do capitalismo nos ex-Estados Operários, o que representou um retrocesso e uma dura derrota para os trabalhadores de todo o mundo. No momento em que sua degeneração atingiu o ápice, o PT reproduzia o discurso neoliberal de que os opositores às suas medidas eram “retrógrados”, para poder defender livremente as suas “reformas” (que na realidade eram apenas uma forma disfarçada de privatizar). Uma das primeiras medidas de Lula na presidência da República foi dar seguimento à “Reforma” da Previdência iniciada por FHC, que, além de aumentar a idade mínima para a aposentadoria, trabalha no sentido da sua privatização total. O mesmo caso pode ser aplicado à atual campanha contra a “corrupção” na Petrobrás levada a cabo pela Operação Lava Jato. O PSDB quer a sua plena privatização para que somente empresas multinacionais (do Big Oil) possam participar de novas licitações para explorar o petróleo brasileiro. Já o PT quer seguir o seu modelo próprio de privatização, dando prioridade para concessões entre o capital nacional e internacional, sobretudo às empreiteiras brasileiras amigas do governo federal.

Histórico do neliberalismo
O neoliberalismo foi idealizado pelo imperialismo inglês e norte americano, que tinham à sua cabeça as figuras de Margareth Thatcher (1ª ministra britânica de 1979 a 1990) e Ronald Reagan (presidente republicano dos EUA de 1981 a 1989). Em seguida, foi a vez das neocolônias seguirem fiel e servilmente as metrópoles: o Brasil, com Fernando Collor, Itamar Franco e FHC (e posteriormente pelo PT, disfarçando a defesa do neoliberalismo com o nome de “reformas”); a Argentina, com Carlos Menem, De La Rua e, agora, com os Kirchners, que fazem um jogo duplo, tal como o PT.

Para que projetos extremamente impopulares fossem aplicados, a máquina gigantesca de propaganda da grande mídia fez uma verdadeira lavagem cerebral em massa, disseminando um terrorismo psicológico subliminar e afirmando que esta era a única política viável. Sustentava que o Brasil iria ser excluído da comunidade internacional, iria virar uma “nova Cuba” (argumento reacionário recorrente da direita para passar a sua patrola política e econômica) e, se não aderisse às políticas neoliberais, se tornaria refém de ideologias “atrasadas”. Depois de privatizado o sistema de comunicação (Telebrás, CRT, etc.), de algumas estatais de energia elétrica, da Vale do Rio Doce, parte da educação, saúde e da Petrobrás, o Brasil não apenas continua atrasado, dependente do capital internacional e da sua tecnologia, como aprofundou esta dependência; a população segue na miséria, analfabeta, subempregada ou mesmo desempregada. Naturalmente que esta política neoliberal só serviria para concentrar ainda mais a riqueza nacional em poucas mãos e aumentar a miséria do povo. Apenas os ingênuos ou os neoliberais convictos interessados nessas “transações” não o veem.

O neoliberalismo levou à crise internacional de 2008 e a uma crise financeira permanente nos países neocoloniais
Este balanço da aplicação do neoliberalismo a mídia burguesa não faz. Ela continua defendendo e incentivando a política de privatizações do governo Dilma: entrega de portos, aeroportos, do pré-sal, da Petrobrás, etc. Os protestos anti-Dilma, insuflados pela mídia, também trazem uma pauta neoliberal e estão sendo usados pela oposição de direita para intensificá-la. A crise capitalista, iniciada em 2008 nos EUA e na Europa, foi o coroamento da política neoliberal: especulação financeira desenfreada, quebra de várias empresas e bancos ao redor do mundo, desemprego, recessão, crise e revolta popular (que geralmente tem sido canalizada ou mesmo dirigida diretamente pelos imperialismos em disputa).

E o mais irônico nisso tudo é que as empresas, multinacionais e bancos falidos recorreram ao Estado para escapar da falência. Foi drenado mais de 10 trilhões de dólares do dinheiro público para lhes salvar da bancarrota. Ou seja, podemos resumir a aplicação do neoliberalismo da seguinte forma: é a política econômica do capitalismo na sua fase de decadência histórica, de agonia, fruto das suas contradições insolucionáveis que levam à crises periódicas.

A restauração do capitalismo e as suas crises do final do século 20 impuseram uma nova “saída” na reformulação do liberalismo, transformando-o em neoliberalismo. Este legalizou a especulação financeira, a privatização das riquezas nacionais, a concentração de rendas sem precedentes que jogou milhares de pessoas no subemprego, no desemprego, na miséria e, portanto, fora do ciclo de consumo, o que por sua vez prepara sempre novas e piores crises econômicas. Assim, contribui permanentemente para novas crises de superprodução sem escoamento, novas formas de legalizar a especulação financeira que quebrou centenas de bancos para depois resgatá-los com o dinheiro público. Eis o resumo da ópera: o neoliberalismo privatiza os lucros e socializa os prejuízos; demoniza o Estado e tudo o que cheira à público, mas, como um sanguessuga, se gruda neles quando necessita. Como sempre, são os trabalhadores que pagam a conta disso tudo.

O capitalismo não pode regulamentar a especulação financeira, nem taxar as grandes fortunas. Esperar pela concretização destas propostas feitas por grande parte da esquerda e periódicos ditos “progressistas” – como o Le Monde Diplomatique, dentre outros – é, além de um contrassenso, uma utopia reacionária. O socialismo salta aos olhos como uma necessidade histórica imprescindível. Somente o socialismo pode regulamentar o sistema financeiro, o mercado, resolver o problema da especulação, das privatizações, da falta de dinheiro, dos serviços públicos de qualidade e resolver o problema da superprodução porque ataca as raízes de todo o problema: a propriedade privada e as relações de produção. Contudo, o socialismo não nascerá pela via pacífica e supostamente “reformista” das eleições burguesas. Só pode ser fruto de uma revolução dos trabalhadores. Para isso, é necessário uma nova vanguarda disposta a construção de um partido revolucionário em frontal oposição aos atuais partidos de “esquerda” (PSOL, PSTU, PCB e PCO) que estão mortos para as tarefas da revolução socialista.