quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O pior cego é a "esquerda" que não quer ver...

Dilma nomeou Joaquim Levy - banqueiro do Bradesco - para o Ministério da Fazenda (sem falar nos outros). É a mesma coisa que nomear a raposa como ministra do galinheiro! A medida - não é preciso dizer - foi aplaudida com grande entusiasmo pelo PSDB e pela Veja, que o vendeu como o homem com a missão de "recuperar a economia brasileira". Este velho eufemismo burguês significa apenas que ele vai fazer todos os cortes nos gastos sociais possíveis e impossíveis, além de aplicar os planos de austeridades previstos pelos bancos internacionais, às custas do suor e do sofrimento do povo.

Então, a lição do voto "crítico" ou "convicto" em Dilma para "evitar a volta da direita" significa apenas isto: pro povo só demagogia através do Bolsa Família (amplamente apoiada pela vanguarda de "esquerda" como a grande justificativa de que Dilma e o PT mereciam o voto dos trabalhadores) e apenas declarações de caráter "progressivo" (sem nunca questionar o "bolsa banqueiro"); para os empresários todos os ministérios, o dinheiro público, as taxas de juros, o valor das dívidas públicas, as estatais, etc.

Passadas as eleições, o bonito slogan de "Mais mudança; mais futuro", torna-se "Nenhuma mudança; futuro sombrio de cortes e demissões". O único voto classista foi o voto nulo, que não tem responsabilidade alguma sobre essa catástrofe. Para além do voto e das ilusões eleitorais, agora é preciso organizar a luta contra o que está por vir.

Saco de ilusões!

Velho Quintana, cada vez mais a atual "esquerda" enche o saco de ilusões para que o trabalhador suba a ladeira da vida cansado e sem condições de pensar!
E pra piorar, ainda te citam!
Ao invés do alívio das ilusões perdidas, só o fardo duplicado!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Como se apresentam hoje as classes sociais no Brasil?

Após a restauração do capitalismo nos ex-estados operários e a subsequente reação ideológica do fim do século XX, tornou-se comum ouvir – sobretudo nos meios acadêmicos – que as classes sociais não existem mais e que falar em burguesia e proletariado “é coisa do século XIX”. Querem desqualificar e desmoralizar o marxismo porque é a única teoria política que se apresenta de forma coerente, desmascarando e se opondo aos interesses da classe dominante de nossa sociedade (atitude esta inaceitável para a burguesia e os seus asseclas “pós-modernos”, líquidos, sólidos e gasosos). Grande parte destes intelectuais renega o marxismo fingindo “reivindicá-lo”, pois suas contribuições para o pensamento humano são profundas e inegáveis.
               
Os conceitos sociológicos marxistas não perderam a validade. Servem para explicar a realidade com grande precisão. E o mais importante: dão um norte para a organização da luta dos trabalhadores. Ao contrário do que prega a relativização pós-moderna, os conceitos, em ciência, servem para generalizar certas conclusões e condensá-las. “Catalogar” um conceito novo, quando ele se repete inúmeras vezes, faz parte da prática científica e é, até certo ponto, inevitável e necessário para que o conhecimento humano continue avançando.
               
Os pós-modernos de todos os matizes, abertos ou disfarçados, pretendem nos fazer crer que o conceito marxista de classe não é mais válido, pois, segundo eles, não existiria mais “burguesia” e “proletariado”. Ou seja: negam as classes para negar a luta de classes, que se desenrola todos os dias sob os nossos olhos, e, principalmente, a revolução e a ditadura do proletariado. Querem destruir o marxismo ou transformá-lo em uma teoria aceitável para a burguesia (o que também significaria a sua destruição). Até aí, nada de novo. É o papel que os intelectuais burgueses e reformistas cumprem desde sempre. Contudo, o estrago ocasionado pelas teorias pós-modernas serve para aprofundar o caos e a confusão do movimento proletário – eis aí sua real intenção. É por isso que todos os trabalhadores avançados devem estudar profundamente o marxismo para poder defendê-lo com consciência e clareza.

As correntes pós-modernas tem uma característica em comum: querem relativizar tudo, transformando fenômenos objetivos em subjetivos, procurando tangentes para fugir da realidade. No fundo, são pensadas e disseminadas para ajudar o capitalismo a se manter. E, como o marxismo representa uma declaração de guerra a atual estrutura social, então é muito natural que elas o vejam como seu principal inimigo, que precisa ser destruído com a desculpa de “atualizá-lo” ou “superá-lo”. As teorias pós-modernas jogam tudo para o “mundo do subjetivo”, onde é sempre mais fácil relativizar, uma vez que os fatos aparecem isolados da sua realidade histórica concreta. Com este velho método metafísico se pode comprovar qualquer coisa.

Não tendo como esconder a existência das classes sociais, isto é, de ricos e pobres, possuidores e despossuídos – realidade que salta aos olhos de qualquer pessoa que ande pelas ruas –, a mídia burguesa, surfando na onda pós-moderna e a adaptando a um público mais amplo, utiliza-se da definição do IBGE, que fala em “classe A, B, C, D e E”. Essa classificação é feita de acordo com a renda de cada família, onde a classe E é composta pelas pessoas muito pobres, que vivem com menos de um salário mínimo; a classe D é a “média-baixa”; a classe C é a “classe média”, supostamente composta pela maior parte da população; a classe B é “média-alta”; e a classe A é formada pelos “milionários e bilionários”. A principal função desta classificação é obscurecer a real dinâmica da sociedade. Não reconhece a classe operária, mas parte do lumpesinato (os marginais, mendigos, desempregados) direto para a “classe média-baixa”. Todo o pós-modernismo sustenta estas premissas obscuras para criticar o marxismo, misturando a esta confusão o “argumento” de que o trabalho “terceirizado” e o “subemprego” servem como “evidências” que comprovam a suposta superação da teoria marxista. O fato é que esta confusão caótica não explica nada, mas aprofunda a dissimulação da exploração e da real relação entre as classes sociais, escondendo os processos vivos e dinâmicos da sociedade. É com base nesta “classificação” que os governos petistas, amplamente apoiados pela grande mídia e pelas universidades, divulgam a superação da pobreza.

Frente a tudo isso, cabe perguntar: a quem interessa este tipo de classificação? A pretexto de atualizar (ou superar) uma teoria, estamos ajudando a elucidar a realidade ou a obscurecê-la? Apesar desta tentativa de falsificação da realidade, a burguesia e o proletariado continuam existindo e cumprindo as funções que já conhecíamos: a primeira tendo a posse jurídica dos meios de produção e matérias primas (o capital) e a segunda trabalhando para a primeira no sentido de acumular mais capital através da “mais valia”. Este conceito de “capital”, claríssimo como a luz do dia, ainda é válido ou caducou? Sem dúvida alguma é válido! E sempre o será enquanto existir capitalismo, pois esta é a sua essência, independentemente das peculiaridades históricas e regionais. Para que não restem dúvidas, basta olhar o lucro dos bancos, das multinacionais, das empresas; e, ao mesmo tempo, lançar um olhar para a situação das diversas categorias de trabalhadores (sejam elas efetivas ou terceirizadas) para constatá-lo vivo, pulsante.

Quanto a alegada estreiteza e dicotomia da teoria marxista com relação a existência de apenas 2 classes (burguesia x proletariado) só se pode concluir que se trata de uma profunda ignorância acerca do marxismo ou de um engano consciente. O marxismo, partindo da relação principal que deita suas raízes na produção econômica, sempre demonstrou a existência de outras classes, tais como a pequena burguesia (classe média) e o lumpemproletariado (os estratos mais baixos do proletariado), que estão subordinadas a uma das duas classes principais. Portanto, a visão marxista sempre foi dialética, demonstrando a relação entre as classes nos processos históricos vivos, e nunca estática, metafísica ou dogmática, como as inúmeras acusações dos intelectuais pós-modernos. A explicação marxista das classes desnudou as suas relações intestinas, os vários estratos que as compõem e que, muitas vezes, entram em conflito, sem nunca deixar de demonstrar a própria diferença de renda e, o mais importante, de explicá-la!

Segue uma breve definição teórica e demonstrativa dos setores sociais que compõem as principais classes no Brasil de hoje (o que não dispensa a análise concreta de cada evento histórico específico):

> Burguesia:
Na clássica definição de Engels no Manifesto Comunista, lemos: “Por burguesia o marxismo entende a classe dos capitalistas modernos, que são proprietários dos meios de produção social e empregam trabalho assalariado”[1]. Os meios de produção, em linhas gerais, podem ser definidos como: fábricas (edifícios e maquinário), empresas, terras (o latifúndio, grandes lavouras, empresas de agronegócio, minas de matérias primas, poços de petróleo), bancos, meios de comunicação e transporte – que cumprem o papel de fazer com que as mercadorias circulem, bem como intensificar e direcionar o consumo, além de alienar a população trabalhadora. Resumidamente, podemos dizer que a classe burguesa é aquele seleto grupo de pessoas que desfruta do “direito” constitucional de propriedade privada e, consequentemente, de decidir os rumos políticos e econômicos do país e do mundo.

A maior parte dos membros da burguesia mantém-se no anonimato, mas algumas “personalidades” desta classe acabam sobressaindo nos grandes meios de comunicação. São eles: Eike Batista, do ramo do petróleo; e Jorge Gerdau, do ramo da siderurgia. Outros grandes empresários são mais reservados do que estes, mas isso não quer dizer que a burguesia não exista mais. A indústria automobilística (Volkswagen, GM, Ford, Fiat, Renault, etc.) e de eletroeletrônicos (eletrodomésticos, computadores, celulares, etc.), por serem todas multinacionais, não tem “donos” brasileiros, mas “sócios menores”, que também são membros da burguesia. Elaboram as metas seguindo as orientações das matrizes nos países imperialistas e as impõem aos operários daqui, desfrutando, como sócios menores, dos seus lucros. Os detentores de ações das grandes empresas multinacionais, bancos e dívidas públicas (os agiotas), também podem ser considerados como parte da burguesia.

Além destes, fazem parte da burguesia os donos de grandes redes de supermercado e de comércio nacional e internacional (Zaffari-Bourbon, Wall Mart, Carrefour, Pão-de-Açúcar, Ponto Frio, Casas Bahia, Magazine & Luíza, Daslu, C&A, Renner, dentre outros); os donos de empreiteiras (OAS, Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, etc.); os donos de mineradoras (como a Vale, que foi privatizada pelo governo FHC-PSDB a preço de banana); bem como os donos dos grandes conglomerados farmacêuticos, de hospitais e das universidades privadas (que cresceram espantosamente durante os governos do PT).

O setor financeiro, que é um dos que mais lucra no Brasil e no mundo, é controlado pelos acionistas dos grandes bancos (os chamados banqueiros). Eles são os responsáveis por dirigir os principais bancos privados do país: Itaú (Roberto Setúbal), Bradesco (Luiz Carlos Trabuco Cappi), Santander (Emílio Botín), HSBC (Stuart Gulliver), Citibank (Michael Corbat), Votorantim (Antônio Hermínio de Moraes), Safra (Joseph Safra). Em sua maioria, estes bancos cresceram através da fusão com bancos menores ou pela compra em “leilão” dos bancos públicos, que foram sumariamente privatizados. Os tecnocratas estatais que dirigem o Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES, Banco do Nordeste e o Banrisul, por mais que não sejam os seus donos jurídicos, também podem ser considerados membros da burguesia, bem como os políticos da alta cúpula do Estado, que controlam uma máquina com gigantesca capacidade produtiva a serviço dos setores empresariais do Brasil e do mundo. O marxismo define o Estado burguês como um “balcão de negócios” da classe capitalista.

A burguesia detém o poder da “informação” e do “direito de ir e vir” através dos donos das empresas de transporte “público” (que na verdade é privado) urbano, intermunicipal e interestadual; e dos grandes meios de comunicação (TV, rádio, internet, jornais, revistas de grande circulação, etc.) e telecomunicação (telefonia móvel e fixa). Na grande mídia podemos destacar as famosas 7 famílias que controlam as principais empresas do ramo: Marinho/Sirotsky (Rede Globo/RBS), Saad (Band), Macedo (Record), Abravanel (SBT), Carvalho (RedeTV), Frias (Folha) e Civita (Abril).

A indústria alimentícia no Brasil reúne vários empresários de grande fortuna, tais como Marcel Herrmann Telles, da AmBev e Joesley Batista, da Friboi. Dentro da classe burguesa ainda se encontram os grandes ruralistas, donos de imensos latifúndios (produtivos e improdutivos), e os donos das empresas de agronegócio (em sua maioria de capital multinacional), que também exploram os latifúndios.

A ideologia burguesa reflete as condições da dominação burguesa. Ela sustenta que o capitalismo e as suas instituições “democráticas” representam o melhor sistema econômico e as mais perfeitas instituições políticas que a humanidade pode criar, uma vez que o homem seria ganancioso por sua própria natureza (e o capitalismo valoriza a ganância). A sociedade burguesa não seria apenas um estágio na evolução humana, mas a sua mais alta culminância. Nenhum outro tipo de sociedade melhor seria possível e tudo o que foge às práticas capitalistas é “irreal” e “utópico”. Desse tipo de pensamento advém aberrações como o “fim da História”, de Fukuyama.

Quando a burguesia é retratada na grande mídia, seus membros – os “empresários – são vendidos como “vencedores”, como aqueles que “se esforçaram” e “venceram na vida”. É a culminância daquela ideologia burguesa de que “todos podem chegar lá”, basta trabalhar seriamente como “peão”, não questionar os chefes, ser pontual, parcimonioso, etc. Entretanto, este discurso calcado na meritocracia cumpre o papel de enganar a sociedade, pois para um triunfar, centenas de milhares precisam fracassar e continuar sendo reles “trabalhadores”, para garantir a força de trabalho que será explorada futuramente pelo capital; sem essa disciplina imposta pela força ou pela ideologia, não há capitalismo. Da mesma forma, segundo outra faceta desta mesma ideologia, todos os desempregados, mendigos, indigentes, são “vagabundos porque querem”, pois “não querem trabalhar seriamente”. Na esmagadora maioria dos casos, estes extratos da sociedade não tem acesso a emprego, à educação, à condições de igualdade, tornando-se aquilo que Marx definiu como “exército industrial de reserva”, que serve, sobretudo, para nivelar os salários por baixo, obrigando os trabalhadores a vender a sua força de trabalho por qualquer preço. Podemos considerar este “pensamento” (que é, na verdade, um preconceito de classe) como ideologia burguesa porque desconsidera o papel da herança, do Estado, das forças armadas e da lógica do sistema, que está baseada na exploração do trabalho. Omite que a fortuna da burguesia provém não do “trabalho árduo individual” (ainda que isso seja muito importante), mas da exploração do trabalho conjugado de centenas de milhares de indivíduos e, que só pode se manter, se esta exploração continuar e se aprofundar.

Entre a burguesia e os trabalhadores existe um verdadeiro “exército” de gerentes, supervisores, capatazes e olheiros dos mais diversos matizes. Eles não fazem parte da burguesia propriamente dita, mas são “trabalhadores” mais bem remunerados que exercem a opressão direta sobre os trabalhadores de base, para garantir a sua produtividade para a patronal. Não deixam de ser “trabalhadores”, mas cumprem o mesmo papel que os capitães do mato cumpriram durante a escravidão no Brasil colonial.

> Pequena-burguesia:
Por pequena-burguesia compreende-se uma grande parcela da sociedade, popularmente chamada de “classe média”. Não possui a propriedade de um grande meio de produção, mas de um pequeno capital, que geralmente se expressa através de pequenos estabelecimentos, tais como: uma pequena fábrica ou empresa, um consultório, um escritório prestador de serviços, um pequeno pedaço de terra, um bar, um estabelecimento de “profissionais liberais”, um carro (usado como fonte de renda); até os pequenos negócios, como o comércio varejista, uma carrocinha de cachorro quente, de vender pipoca, etc. Em suma, possui um pequeno capital que não pode ser comparado ao grande capital, sobretudo ao multinacional, e à sua taxa de lucro. A pequena-burguesia é uma classe muito numerosa. Possui inúmeros estabelecimentos por todas as cidades, bem como pequenas propriedades no campo. Ao contrário da burguesia, que representa 2% da população do Brasil e do mundo, a pequena-burguesia se conta por centenas de milhares. Faz parte da política do capitalismo manter estes pequenos estabelecimentos como “abastecedores” e “prestadores” de serviços, iludindo-os com uma prosperidade que não pode sair de certos limites. Geralmente é a classe que mais sofre com os encargos burocráticos e os tributos, dada a sua limitação de recursos se comparado ao grande capital e a sua inacessibilidade aos governos.

A pequena-burguesia é uma classe heterogênea. Se mistura, acima, nos seus setores mais bem pagos e exploradores de trabalho alheio, aos estratos de baixo escalão da burguesia; e, abaixo, nos setores mais “pobres”, aos estratos do proletariado (que, às vezes, pode receber salários mais altos do que a renda de um proprietário de um “pequeno negócio”). Contudo, da mesma forma que a burguesia, a definição sociológica mais precisa é aquela que continua definindo a relação com a propriedade dos meios de produção – seja ele um grande ou pequeno capital.

Sua mentalidade, alimentada das mais diversas formas pela grande mídia, universidades, escola, etc. (que também acaba se repetindo e se impondo entre os trabalhadores), é caracterizada por fomentar o desejo de ser burguês. No campo político, frente aos escândalos de corrupção e aos problemas sociais de toda a ordem, defende uma “reforma” permanente da sociedade capitalista, tentando harmonizar os conflitos de classe no sentido de “moralizar a política”, os gastos públicos, a defesa da democracia burguesa. Pensa que não é necessário mudar as bases da sociedade, mas apenas “humanizar o capitalismo” para “corrigir” suas injustiças. Em seu pensamento idealista e metafísico (típico do senso comum pequeno burguês), julga que, desta forma, a sociedade irá melhorando gradativamente e que conseguirá ter uma vida digna sem mobilização política (que somente serve para “atrapalhar os seus negócios”). Esta mentalidade não impede que muitos pequeno-burgueses (sobretudo os seus filhos) rompam com a sua própria classe e avancem para uma consciência proletária por entender o movimento real do capitalismo (isso acontece, evidentemente, após romper com uma verdadeira muralha de hipocrisias e convenções sociais impostas).

A mentalidade pequeno-burguesa ajuda a manter o capitalismo e a divisão da sociedade em classes, mesmo que a realidade demonstre, dia a dia, que o grande capital também ameaça as condições de vida da pequena burguesia. Ciente desta contradição, a burguesia, através dos seus partidos e da sua mídia, seduz política e ideologicamente a pequena-burguesia, reforçando o seu discurso de “moralização” do capitalismo. Mas, como se pode ver, isso demonstrou ser impossível, pois está em contradição com a lógica do capitalismo, que é de sempre aumentar a taxa de lucro (ou seja, a concentração de renda – sendo, portanto, a palavra de ordem de “taxação das grandes fortunas” – amplamente defendida por PSOL, PSTU e setores do PT – uma tarefa irrealizável por se chocar decisivamente com os principais interesses da burguesia), intensificar a exploração dos trabalhadores, não deixando que a miséria e o descontentamento saiam de certos níveis. A pequena-burguesia não consegue (ou não quer) enxergar que é apenas isto que o capitalismo entende por “humanização”. Hoje, a mentalidade pequeno-burguesa domina amplos setores da sociedade brasileira. Isso é fruto, dentre outros motivos, da restauração capitalista nos ex-Estados operários e da subsequente campanha ideológica burguesa de que o “socialismo morreu” ou é “utópico e irrealizável”. Sem alternativa política, entre o movimento da burguesia e do proletariado, à pequena-burguesia só resta esperar pela “humanização do capitalismo” (esta sim a verdadeira utopia; e uma utopia reacionária).

A chamada “esquerda socialista” brasileira é, atualmente, uma autêntica representante da pequena-burguesia, não apenas pela mentalidade, mas, sobretudo, pelo programa (PSOL, PSTU, PCB, PCO; enquanto que PT e PCdoB já representam os interesses da grande burguesia, muito embora tenham diversos teóricos que expressem a mentalidade pequeno-burguesa e procurem dialogar com ela). A sua propaganda eleitoral visa atingir esta “classe média”, sem assustá-la com a ideia de revolução.

> Proletariado (os trabalhadores assalariados):
Os teóricos burgueses pós modernos afirmam que não existe mais classes sociais e, em particular, o proletariado. A sua grande justificativa para sustentar esta absurda negação da realidade são as “terceirizações” e as mudanças inevitáveis na organização do trabalho e no processo produtivo. Segundo alguns destes teóricos, o proletariado teria uma mentalidade burguesa e se conformaria com ela, trabalhando conscientemente para ajudar a burguesia a acumular capital. Não é possível pensar em uma tese mais conformista e justificadora da exploração do que esta. Porém, um olhar mais atento nos demonstrará que isso não passa de uma tentativa de confundir e enganar os trabalhadores através de uma relativização subjetiva e metafísica da realidade.

O que caracteriza o proletariado enquanto classe social? O proletariado se caracteriza por não possuir meios de produção, mas apenas dispor de sua própria força de trabalho, que vende em troca de um salário para sobreviver conjuntamente à sua família, que, dentro de um curto espaço de tempo, precisará fazer o mesmo (daí advém muitas crises e brigas familiares). Enquanto houver capital – seja ele pessoal, acionário; em forma de truste, monopólio, etc. – haverá proletariado, independentemente de qualquer “terceirização”, que não elimina a propriedade privada dos meios de produção e nem o regime de trabalho assalariado.

Compõem a classe proletária todos aqueles indivíduos que não possuem nenhum tipo de capital, mas que trabalham para algum burguês, pequeno burguês ou para o Estado em troca de salário e, geralmente, sob um mesmo regime de trabalho. São operários, técnicos, comerciários, agricultores, bancários, carteiros, estivadores, professores, enfermeiros, funcionários públicos e privados das mais diversas categorias, etc. Em suma, o proletariado é composto por todo um contingente de seres humanos que recebem um salário (mais ou menos igual) e são “disciplinados” por um regime de trabalho semelhante; é a “galinha dos ovos de ouro” da sociedade burguesa, de onde brotam, aos borbotões, os rios de dinheiro que correm para os bolsos de banqueiros e empresários, fazendo a sua fortuna e garantindo a condição social da burguesia como classe dominante. O proletariado é o agente físico da revolução socialista, pois é a classe da qual depende a produção econômica e que gera toda a riqueza social com a força do seu trabalho. A sua tarefa histórica é socializar os meios de produção (capital) através da expropriação revolucionária, preparando as condições materiais para o comunismo (fim das classes sociais e do Estado). A mentalidade imediata e habitual do proletariado é burguesa ou pequeno-burguesa – sobretudo quando está desorganizado sindical e politicamente –, mas a sua existência histórica propiciou o engendramento da consciência socialista e proletária, apreendida, dentre outros teóricos, por Karl Marx.

Dentro do proletariado existem os substratos de trabalhadores precarizados, terceirizados, subempregados, que não possuem direitos trabalhistas: estagiários, prestadores de pequenos serviços ocasionais, camelôs, etc. O desemprego (muita oferta de mão-de-obra) é uma das formas de tencionar o salário para baixo, bem como a ameaça permanente de retirada de direitos, pois obriga os trabalhadores a aceitar qualquer condição de trabalho. Com a divisão entre trabalhadores empregados e desempregados, a classe entra numa concorrência voraz para “se vender” ao patrão. Assim, não estão em condições de exigir um preço melhor. Os salários são nivelados por baixo. Apenas uma pequena parcela do proletariado especializado e universitário pode procurar melhores salários (ainda assim, bem limitados). Somente a unidade sindical e política dos trabalhadores em torno de um programa revolucionário pode criar as bases para a consciência proletária e a revolução socialista. Este programa não brotará espontaneamente do seio do movimento operário, mas precisa ser levado até ele pelos intelectuais a serviço do proletariado através do partido revolucionário, que a partir daí deve ir aproximando os trabalhadores mais avançados.

> Lumpemproletariado:
É o extrato mais baixo do proletariado, que forma uma sub classe social, composta pelos indigentes, mendigos, assaltantes, traficantes, prostitutas, etc., enfim, por todos aqueles que estão marginalizados da sociedade oficial. Ao contrário do que afirma a ideologia burguesa, sua condição social é uma conseqüência inevitável do capitalismo. Os miseráveis e mendigos foram culpados por sua própria pobreza como se o sistema não tivesse nada a ver com ela. Segundo a ideologia vigente, eles “não querem trabalhar, pois emprego tem”, bastaria ter “qualificação” e “disposição”. Estas justificativas reacionárias servem para esconder o apartheid social entre ricos e pobres; “cidadãos” e “favelados”; “trabalhadores honestos” e “vagabundos”, dando as base para a repressão policial, sobretudo nas favelas.

Muitos trabalhadores – alienados e manipulados pela grande mídia e pela intelectualidade pequeno-burguesa – vivem para consumir e acabam se decepcionando com uma vida tão vazia. Mesmo assim, seguem religiosamente o que a mídia ordena e padroniza. A maioria deles se endivida assustadoramente. Em seguida, perdem o emprego, caem no subemprego ou no desemprego perpétuo. Ficam reféns da falta de perspectiva[2]. Grandes contingentes destes trabalhadores terminam nas drogas, no crime[3], procuram as igrejas (sobretudo as Evangélicas) onde são reconduzidos ao inferno da espera do mercado de trabalho (formal ou informal), por um emprego medíocre, que muitas vezes não vem. Tudo isso se torna um ciclo vicioso.

Centenas de milhares de proletários (que não aparecem na mídia e nem nos dados do IBGE e do governo) deixam de procurar emprego. Vão para a marginalidade social: tráfico de drogas, assaltos, mendicância, prostituição. Muitos terminam morando nas ruas. Assim como as outras classes, este lumpemproletariado também desenvolve a sua “consciência” própria, degenerada e indisciplinada (uma espécie de ideologia burguesa em atrofiamento). É o reflexo das suas condições materiais que acabam se enraizando no seu “modo de ser”, muitas vezes de forma irreversível. É a barbárie nossa de cada dia nas ruas das cidades brasileiras (e do mundo também).

> Conclusão:
A inexistência das “classes” e a suposta “desatualização” do marxismo são as novas armas com que os teóricos e intelectuais burgueses (em sua roupagem “pós-moderna”) tentam fazer os trabalhadores desviarem os seus olhos do marxismo – para não atingirem a consciência que corresponde à sua condição social – e do socialismo, para que a sociedade burguesa se perpetue na riqueza e na opulência, de um lado, e na miséria e barbárie, do outro.


[1] MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Editora Martin Claret, São Paulo, 2004.
[2] “Meu amigo baiano” é uma dessas pessoas (ver: http://conscienciaproletaria.blogspot.com.br/2014/03/meu-amigo-baiano.html); o “Homem de Neanderthal portoalegrensis” e o “lutador da Redenção” são outras (ver postagens mais antigas do mesmo blog). Outro exemplo é o ambulante tunisiano que ateou fogo ao seu próprio corpo porque teve sua “mercadoria” apreendida pela perseguição policial. O seu suicídio desencadeou a fúria popular que deu origem a uma rebelião em 2011.
[3] Num antigo samba de Gabriel, o pensador, vemos, através da ótica musical, este ciclo:
Essa é a dança do desempregado
Quem ainda não dançou tá na hora de aprender
A nova dança do desempregado
Amanhã o dançarino pode ser você

E bota a mão no bolsinho (Não tem nada)
E bota a mão na carteira (Não tem nada)
E não tem nada pra comer (Não tem nada)
E não tem nada a perder
E bota a mão no trinta e oito e vai devagarinho
E bota o ferro na cintura e vai no sapatinho
E vai roubar só uma vez pra comprar feijão
E vai roubando e vai roubando e vai virar ladrão

sábado, 25 de outubro de 2014

Avanço ou catarse?

                Avanço: ação ou resultado de avançar, de ir pra frente; desenvolvimento, progresso.
                Catarse: sentimento de alívio ao se trazer à consciência sentimentos, traumas, etc.,
que estavam reprimidos; libertação desse sentimento através de encenação.

A propaganda eleitoral do PT fisgou centenas de milhares de pessoas. Os trabalhadores, no geral, são presas fáceis: trabalham longas jornadas, não tem condições de maiores esclarecimentos, seguindo em maior ou menor medida o que diz a mídia (e o petismo hoje também dispõe de muitos veículos de grande mídia); não contam com sindicatos e organizações classistas de massas, que estão nas mãos da burocracia sindical. Outros, profundamente equivocados, votam no PSDB para "punir a traição do PT", seguindo o voto da classe média alta, reacionária até a medula. Não percebem que esta "punição" tem conteúdos diferentes. É natural, portanto, que acabem sendo arrastados pela maré eleitoral. O que realmente surpreende é a “vanguarda” dos trabalhadores, que também foi facilmente fisgada (muitos "anarquistas", inclusive). A sua postura denota uma profunda consciência reformista, pois desconsidera a experiência com o PT e também não compreende o seu papel histórico (algo como a social-democracia alemã).
           
A crítica eleitoral que o PT faz ao PSDB é parcial e omissa. É parcial porque não reconhece as privatizações, as parcerias público privadas, a priorização do pagamento dos juros e amortizações das dívidas externa e interna. É omissa por que não assume que toda a política econômica, no essencial, é idêntica a do PSDB, apenas com algum disfarce “dos trabalhadores”. O PSDB representa a velha elite brasileira, de mentalidade retrógrada e escravocrata, disseminando na sociedade os piores preconceitos e ideologias burguesas, disfarçadas com uma roupagem “progressista” e, às vezes, até de “esquerda”. O seu “anti-petismo” reflete esse conteúdo. Agora, frente ao desgaste político do PT (que é o resultado inevitável de quem decidiu jogar o jogo da burguesia), aproveita para se vender como “novidade”. Por tudo isso é preciso conscientizar os trabalhadores desta falsa dicotomia. Mas esta tarefa não é do PT, conforme pudemos ver em seus 12 anos de governo. Tudo o que fez ao “jogar o jogo da burguesia” foi deixar a porta aberta, possibilitando a volta do PSDB. Derrotá-lo, portanto, é uma tarefa dos trabalhadores organizados pela via revolucionária.
           
A apologia do petismo, por sua vez, sustenta que, apesar dos pesares, o Brasil “avança” com os seus programas sociais. Não definem bem para onde este avanço nos leva: a um “capitalismo humanitário” ou ao “socialismo”? Misturam teorias reformistas com retórica revolucionária para angariar votos; falsificam a realidade e anestesiam a classe “média” e a população no geral através das estatísticas! Todos os principais programas sociais do PT são “políticas compensatórias”, não casualmente, amplamente apoiadas e incentivadas pelo imperialismo, não apenas no Brasil, mas em diversos outros países. Portanto, todo este discurso não representa nada de novo: foi sustentado por todos os reformistas ao longo do século 20 e só levou a classe trabalhadora à derrotas cada vez mais profundas e à uma desorganização caótica.
           
Não existe “avanço” algum para os trabalhadores, os subempregados, os desempregados, os favelados e moradores de rua; milhões de pessoas ainda estão fora das universidades, das escolas e seguem analfabetas. Estamos falando de um “processo vivo” da economia e não de uma média estatística estável. Em nome de um suposto “avanço” se esquece que o governo pagou mais de R$ 480 bilhões para os agiotas internacionais, R$1,5 trilhão para os nacionais e apenas R$1 bilhão para o Bolsa Família; que os bancos continuam mandando e desmandando na economia do país e decidindo as suas prioridades. A suposta “superação” da fome é uma ilusão, porque as estruturas econômicas e políticas que a geram – o capitalismo – continuam intactas e operantes. O PT não apenas as manteve, como as aprofundou. Não foi à toa que Delfin Neto, ministro da ditadura militar, afirmou que “Lula salvou o capitalismo no Brasil”. E Dilma continua salvando: assentiu com a demissão de centenas de milhares de operários da GM, da Embraer e de diversas outras empresas; deu bilhões de reais em isenção de impostos às multinacionais e bancos para “salvá-los” da crise capitalista internacional; privatizou portos, aeroportos, poços de petróleo; incentivou PPPs, comprou vagas nas universidades e cursos técnicos privados com o dinheiro público. Alguém viu o PSDB criticar esta política econômica do PT?

O PT não acabou com os 500 anos de espoliação colonial do Brasil, apenas mudou a sua forma para torná-la mais tolerável e “aceitável”. Em suma, o PT realiza uma grande catarse para aliviar as contradições do sistema capitalista. Aliviando as tensões sociais da pobreza, garante as bases para a sua manutenção.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Socialismo: um sonho ou uma necessidade histórica?

Há muitos anos que o debate sobre “socialismo utópico X socialismo como possibilidade real” foi superado com a contribuição dos teóricos marxistas e da prática política de muitas revoluções pelo mundo. Porém, com a restauração capitalista nos ex-Estados operários e a subsequente campanha mundial de difamação do socialismo orquestrada pelo imperialismo, este debate infelizmente retrocedeu a etapas já superadas. Colocações como a que se segue (retiradas das redes sociais) expressam a noção de muitos trabalhadores acerca do “socialismo”: “não encontro coesão suficiente entre os trabalhadores para uma revolução operária, e talvez nunca cheguemos lá. Será o homem preparado para abrir mão do poder que detém pela eqüidade social? E falo por nós mesmos, será que estamos prontos para dispormos de nossos meios de produção nessa sociedade de consumo. De que forma se daria a transição de poder? É um sonho lindo, mas ainda me parece um sonho!”.

Muitos teóricos socialistas já responderam essas questões. Vejamos o que escreveram Engels e Lenin: “Desde o surgimento do capitalismo houve indivíduos ou seitas inteiras que imaginaram, mais ou menos vagamente, a apropriação dos meios de produção pela sociedade. Mas, para que isso se convertesse numa necessidade histórica, era necessário a existência de condições materiais, determinadas condições econômicas. Não bastava a simples vontade de abolir as classes. O socialismo científico somente pode ser fruto do reflexo na inteligência, de um lado, dos antagonismos de classe da sociedade – entre possuidores e despossuídos, capitalistas e operários assalariados –, e, de outro lado, da anarquia que reina na produção”[1]. “Vê-se que, se o marxismo concluiu pela transformação da sociedade capitalista em sociedade socialista foi inteira e exclusivamente a partir das leis econômicas do movimento da sociedade moderna. A socialização do trabalho, que se manifesta, sobretudo, pela extensão da grande indústria, dos cartéis e dos trustes capitalistas, e também pelo imenso incremento do poder do capital financeiro, eis a principal base material do inevitável advento do socialismo. O motor intelectual e moral, o agente físico desta transformação, é o proletariado educado pelo próprio capitalismo. A luta do proletariado contra a burguesia, torna-se inevitavelmente uma luta política tendente à conquista do poder político: a ditadura do proletariado”[2]. Com estas citações podemos concluir que a “transição de poder” será realizada através da ditadura do proletariado, termo que os intelectuais burgueses e a grande mídia querem se ver livres desesperadamente, por isso o deturpam e o atacam afirmando estar “desatualizado”. Muitos trabalhadores avançados reproduzem estas afirmações sem nunca ter refletido seriamente sobre a ditadura do proletariado ou sem nunca ter estudado profundamente a história do movimento operário. Esse processo de questionamento dos princípios estabelecidos pela teoria marxista – feito não apenas pelas universidades burguesas, mas, também, pela esquerda reformista – não representa contribuição para a revolução, mas um enorme retrocesso político e teórico, que nega a experiência histórica e faz o socialismo parecer aos olhos dos trabalhadores como “utópico”, porque nega suas principais conclusões teóricas. Não há problema em debater os princípios: eles não são dogmas religiosos. Mas não é isso que faz a esquerda e os intelectuais burgueses: não conseguindo comprovar que tais princípios “caducaram” (a não ser afirmando isso como um disco quebrado, à lá Goebbels, sem comprovar) eles querem renegá-los em nome da “estratégia” reformista burguesa e a vendendo como a única “estratégia possível e realista”.

A ascensão da indústria sobre bases capitalistas converteu a pobreza e a miséria das massas trabalhadoras em condição de vida da sociedade. A partir desta premissa podemos concluir que: 1) o socialismo saiu do campo da utopia quando encontrou a força social que seria capaz de fazer a transformação social, o proletariado industrial, organizado pelo próprio capitalismo. As condições materiais para o socialismo estão dadas: grandes concentrações de trabalhadores em fábricas e empresas (sejam terceirizados ou efetivos, no campo ou na cidade) que são explorados conjuntamente, gerando riqueza social que é apropriada pela burguesia (isto é, a produção já está socializada, mas os seus resultados, não); concentração de capital em grandes transnacionais, que facilitam o processo de “socialização” dos grandes meios de produção, conforme analisou Lenin em várias obras, mas, em particular, no “Imperialismo, fase superior do capitalismo”. Outro sintoma econômico da necessidade do socialismo é o choque entre as Forças Produtivas e as relações de produção e propriedade capitalistas, que significam um estancamento ao desenvolvimento, expresso na super produção que não encontra escoamento (falta de mercados); enquanto a riqueza se concentra em níveis nunca vistos, aumenta proporcionalmente a miséria e a destruição da natureza. Para que as Forças Produtivas possam se desenvolver plenamente é necessário estabelecer novas relações sociais de produção, isto é, relações socialistas: acabar com a propriedade privada e intelectual, que impede a elevação cultural, teórica e econômica de toda a população e com a divisão em classes que condena a classe dominante ao paraíso, com todo o conforto e tecnologia à disposição, e a classe explorada chafurdando na pré-história; e 2) o capitalismo não pode acabar com a miséria da grande maioria da sociedade, uma vez que isso faz parte do seu “DNA” e, por isso mesmo, leva ao descontentamento, à luta sindical, à explosões espontâneas de indignação e revolta, à insurreições populares, à revolução social. Ou seja, dá as condições de luta para a revolução socialista. Em outras palavras: a luta de classes não para. A longo prazo as condições objetivas é que dão a última palavra.

Para tudo isso é necessário a coesão dos trabalhadores. Sem dúvida esta coesão não existe atualmente, conforme lemos na pergunta que deu origem a este debate. A partir daí temos que colocar a questão: por que não existe esta coesão? Olhando para o movimento sindical o que vemos é a confusão, a dispersão, a sabotagem; em suma, o caos! Mas não podemos olhar somente para o hoje. Embora na maior parte da história do capitalismo os trabalhadores apareçam desunidos e desorganizados – o que é bastante comum, uma vez que o capitalismo não poderia se desenvolver e se sustentar sem uma “paz de exploração e de cemitérios” –, existem muitos exemplos de coesão dos trabalhadores: movimento sindical inglês do início do século 19, Comuna de Paris, greves gerais em diversos países na primeira metade do século 20, Revolução Russa, Chinesa, Cubana. O que impede, então, que esta coesão exista hoje? Eis aí o nó górdio.

A maior parte das velhas vanguardas “socialistas” está morta para o movimento revolucionário. Elas representam, no momento, o principal entrave para o ressurgimento da luta independente dos trabalhadores no sentido da revolução socialista. Podemos listar os principais partidos desta “velha vanguarda”: PT, PCdoB, PCB, PSOL, PSTU, PCO (não são os únicos, mas são os principais – o PT e o PCdoB nem deveriam constar na categoria de “esquerda reformista”, afinal, são hoje partidos burgueses; mas, para esta análise, pesa o fato de estarem no meio sindical). A questão fundamental do movimento socialista sempre foi como colocar sua atividade prática imediata de acordo com o seu objetivo final (o socialismo). A lógica reformista do “possível”, defendida e propagada pelo petismo e pelos demais, abdica do objetivo final (o socialismo), em troca de um imediatismo que nos condena à perpetuação da escravidão assalariada (muitos deles fazem isso conscientemente, porque tornaram-se gerentes desta exploração). Por toda sua política ajudam a perpetuar a atual sociedade, condenando os trabalhadores à desunião, à confusão, através de um sindicalismo economicista e espontaneísta, e, por fim, ajudando a transformar o socialismo em um “sonho distante”. A primeira condição para que o socialismo deixe de ser um “sonho” e passe para a perspectiva do real é a construção de um verdadeiro partido revolucionário que crie as bases para um movimento proletário independente, pois como a História comprova, o capitalismo não cairá de maduro e nem será superado eleitoralmente (pacificamente). Para isso, é essencial que este partido revolucionário lute implacavelmente contra a teoria, prática e programa destes partidos de “esquerda”. Por mais difícil e “impossível” que pareça a uma primeira vista, se olharmos para a História e para alguns pequenos grupos e militantes independentes, percebemos que é preciso partir daí. Rosa Luxemburgo já dizia que “organização, conscientização e luta” são processos que andam juntos. Basta começarmos este movimento de forma séria e honesta, sem conciliação e capitulações, para que comecemos a tirar o socialismo do “mundo dos sonhos” e passemos a dar passos concretos para sua efetivação. Hoje não existe nem conscientização, nem organização e nem luta, só a via morta das eleições burguesas e o voto no “menos pior”, por isso o socialismo nos soa como “utópico”.

Poderá haver objeções sobre a viabilidade do socialismo se olharmos para o estado de alienação, de adaptação à zona de conforto e de baixo nível político por parte dos trabalhadores e do povo em geral. Sem dúvida este é um grande empecilho. Mas ele será superado à medida que um movimento proletário independente passe a existir. Hoje, a população é refém da política conciliadora da esquerda reformista e, a subsequente consciência pequeno-burguesa é, até certo ponto, inevitável. Na medida em que o partido revolucionário e o movimento independente de nossa classe crescerem, se encontrarão os métodos adequados para uma ampla agitação que combata em larga escala a consciência pequeno-burguesa e construa uma consciência de classe mais atual e correspondente à nossa realidade.

Em épocas eleitorais como estamos vivendo, a máquina propagandística dos partidos, da mídia e do Estado burguês entram em cena e arrasam qualquer resquício de consciência de classe. A ideologia mais saliente deste momento histórico é sobre a “mudança através do voto”, mas sem nunca questionar as bases do sistema econômico que vivemos. Os partidos da esquerda reformista não são conciliadores apenas porque canalizam as lutas para o processo eleitoral burguês, mas porque afirmam aos trabalhadores que qualquer outro tipo de saída é utópica, irreal, “um sonho”.

Enquanto o capitalismo subsistir, o “homem” (sempre tomando muito cuidado com estas abstrações) não estará disposto a “abrir mão do poder que detém” em nome da equidade social. A lógica geral do sistema é uma disputa selvagem pela sobrevivência, que se reflete na consciência em ideologias burguesas (racistas, segregacionistas, etc.). Mudemos esta base econômica e uma nova relação entre os homens se desencadeará. A frase de Hobbes “o homem é o lobo do homem” é incorreta porque fala de um homem abstrato, isolado do processo histórico, sem levar em consideração o todo. O homem foi o lobo do homem durante grande parte da História porque os modos de produção dividiam a sociedade em classes e condenavam-no a luta mais atroz pela sobrevivência. O correto, portanto, deveria ser: “o capitalismo é o lobo do homem” (mais especificamente do “homem-trabalhador”); assim como o escravismo e o feudalismo também o foram.

Resumindo, temos dois caminhos: um nos leva à perpetuar a sociedade atual, com um discurso pseudo-progressivo do "possível" (e com isso serve como a quinta coluna da dominação da burguesia) – este é o da esquerda reformista atual; e um segundo, que trabalha no sentido da revolução socialista, abrindo caminho entre a consciência atrasada dos trabalhadores, lutando contra o oportunismo e a "política do possível", mesmo que as condições atuais sejam completamente adversas, mesmo que nada esteja 100% assegurado no futuro (tudo depende da nossa organização, conscientização e luta) – esta é a opção dos verdadeiros marxistas-trotskistas, que entendem a necessidade da construção de um partido revolucionário e de um movimento proletário independente; e o mais importante: caminham nesse sentido. Ou vamos trabalhar para concretizar o "sonho" ou trabalharemos para lançá-lo para um futuro cada vez mais distante e irrealizável, nos queixando das mazelas do capitalismo, da “irrealidade” do socialismo, enquanto vamos vendo a barbárie social se instaurando, dia a dia, com um discurso que a exalta como natural e, até mesmo, benéfica.

Utopia é querer humanizar o capitalismo (seria algo como querer um “nazismo-pacifista” – ou seja, uma “utopia reacionária”). É vender aos trabalhadores a ilusão de que podemos regular os mercados para evitar a especulação financeira (especulação esta que foi desmascarada parcialmente no filme “o Lobo de Wall Street”) e que podemos ir conquistando melhorias graduais para a classe trabalhadora através de “programas sociais” (Bolsa Família, PRONATEC, ProUni, etc.) sem mexer na propriedade privada dos meios de produção e deixando reinar a luta de todos contra todos pela sobrevivência imediata, as guerras imperialistas de rapina, a mentira institucionalizada por parte da grande mídia, a miséria crescente. A sociedade capitalista encerra inúmeras contradições insolucionáveis. Foi esta constatação que levou Trotsky a escrever que “todas as revoluções são impossíveis, até que se tornam inevitáveis”. Indo no mesmo sentido, Marx, além de afirmar que são os homens que fazem a história, jogando para longe, de uma vez por todas, a passividade que apenas assiste os acontecimentos históricos sem se organizar para intervir neles como se fossem “eventos divinos”, sustentou que “a teoria também se converte em força material quando se apossa das massas”. Todo este processo está condicionado a que esta massa esteja organizada em partido revolucionário e em um movimento proletário completamente independente da burguesia, pois se estiverem organizados para propagar a teoria e a prática reformista (tal como faz a atual “esquerda”) só poderão propagar a confusão, a desorganização, o caos e, por fim, a conciliação de classes. A História dispõe do tempo necessário. A Humanidade nunca se propõe a uma tarefa que não possa realizar. A nova vanguarda proletária deverá andar neste sentido, combatendo o oportunismo e, principalmente, não tendo medo de ser minoria, ou não merecerá ser chamada assim.



[1] ENGELS, Friedrich. Do socialismo utópico ao socialismo científico. Editora Sundermann, São Paulo, 2004.
[2] LENIN, Vladmir I. As 3 fontes e as 3 partes constitutivas do marxismo. Editora Global, São Paulo, 1980.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

E quando o nosso "messias" é o "menos pior"?

Aécio Neves, do PSDB, teve a cara de pau de dizer no debate da Globo: "o PT quer a administração da pobreza, nós queremos a superação da pobreza". Nem o PSDB, nem o PT querem a superação da pobreza. Como gestores conscientes do capitalismo, todos os governos (FHC, Lula e Dilma) mantiveram e aprofundaram a pobreza do povo, dando lucro recorde aos bancos e às multinacionais, privatizando a riqueza nacional e gerenciando a escravidão dos trabalhadores. PT e PSDB estiveram envolvidos em vergonhosos escândalos de corrupção. Nenhum dos dois tem moral pra falar qualquer coisa a respeito deste tema. Estão simplesmente brigando pelo butim estatal para administrar nossa miséria às custas da entrega do patrimônio público nacional, fazendo uma demagogia barata, desprezível, de lobo em pele de cordeiro. São a simples continuação de séculos e séculos de espoliação, de vices-reis coloniais que simplesmente mandam e desmandam, controlando a pilhagem e a rapina do Brasil a serviço das metrópoles estrangeiras.

Todo o trabalhador consciente que ceder à pressão do voto de um lado ou do outro vai pagar muito caro por isso. Não apenas ele, mas toda a nossa classe. A crise capitalista se aprofunda e o "crescimento econômico" do governo petista vai se esgotar, mais cedo ou mais tarde. Seu crescimento econômico tem "pés de barro". O PSDB não fará absolutamente nada diferente do PT. Não representa nenhuma mudança. Os custos da especulação financeira serão descarregados sobre nossas costas impiedosamente, seja pelo PT ou pelo PSDB; pela privatização aberta ou disfarçada. Estamos entre a cruz e a espada. Não temos outro caminho senão a organização e a luta independente. Saiamos da zona de conforto: acordemos para a vida sindical, estudantil, política. A verdade é dura e dói muito. Mas as ilusões são piores: são fatais!
***
Os trabalhadores não podem esperar por um "messias" eleito que vá "melhorar as suas vidas" ou "fazer por nós". A História do Brasil é marcada por inúmeras dessas ilusões e só ocasionou catástrofes. Joguemos para longe, de uma vez por todas, a passividade que apenas assiste os acontecimentos históricos sem se organizar para intervir neles, como se fossem “eventos divinos”.

"Para sair desse antro estreito
Façamos nós por nossas mãos
Tudo o que a nós nos diz respeito"

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O petismo como um sucedâneo do “getulismo”

O “debate” eleitoral feito pela população – sobretudo nas redes sociais – é assustador, dado o grau profundo de ilusões, de incertezas, de ausência de alternativas e perspectivas; em suma, do beco sem saída ao qual se encontra, em razão da ausência de um movimento de massas independente dos trabalhadores. A falta de clareza de que o problema não são apenas os “políticos” e a corrupção, mas o sistema econômico que dá sustentação a esta “democracia”, o capitalismo, impede de compreender a situação em sua totalidade e traz a tona o turbilhão de confusões que cegam e desarmam os trabalhadores frente à mentira institucionalizada, à hipocrisia e à demagogia eleitoral infindável. Muitos trabalhadores votarão nos seus inimigos de classe e irão pagar muito caro por isso (a grande maioria sem ter plena consciência disso). Depois, procurarão explicações para suas desgraças nas “forças ocultas”, “diabólicas”, sobrenaturais, no seu “azar pessoal”; ou o que é pior: na sua família, nos filhos, nos pais, nos vizinhos, no colega de trabalho.

A máquina eleitoral gera ilusões a todo o vapor. A pressão ideológica do “voto útil”, do TSE e da mídia vem como um tsunami: arrasa qualquer resquício de consciência de classe. Lamentavelmente, muitos trabalhadores que enxergam esta situação preferem não ver. Aceitam o discurso da propaganda eleitoral e a “ausência de alternativas” (ou o “menos pior”) como inevitáveis. Adaptam-se à zona de conforto. A ausência de um movimento proletário independente cria um vazio que impede de vislumbrar uma saída para além do voto e da democracia burguesa. A experiência no movimento com os partidos reformistas também é catastrófica (e a sua propaganda eleitoral não fica atrás). A apatia, a desorganização, a inconsciência, o medo, refletem esta falta de perspectiva: votar no “menos pior” é a única “saída” realista. A partir daí pensam que, apesar dos pesares, irão “punir” um votando no outro, ou votando no “PT para evitar a vitória da direita”.
           
Cabe perguntar: que motivos impedem a existência de um movimento de massas independente dos trabalhadores? Não há apenas um único fator, mas arrisco a pontuar alguns: 1) o stalinismo e seus sucedâneos (castrismo, maoísmo) mancharam o nome do “socialismo” e desorganizaram os trabalhadores, aniquilando sua consciência de classe e “legalizando” política e teoricamente o fim da independência de classe; 2) A “força política organizada” dos trabalhadores brasileiros hoje é controlada com um misto de demagogia e de mãos de ferro pelo PT. Para que consigamos soltar as amarras dos trabalhadores e construir sua independência de classe é preciso destruir este controle. Utilizando-se dele, o PT e seus “teóricos” lançam inúmeras ideologias para defender a sua conciliação de classe, disfarçando a sua metamorfose em partido burguês com um discurso de “esquerda” e de “defesa” dos trabalhadores. Com que finalidade o PT controla esta “força organizada dos trabalhadores”? A controla para assegurar a aplicação de um programa burguês, neoliberal, que fala em “reformas” para melhor iludir os trabalhadores, enquanto retira os seus direitos falando que os “defende”. É o testa de ferro da burguesia, disfarçado com as cores dos trabalhadores. Toda esta confusão arrasa a consciência proletária e uma saída classista. Se o PT degenerou foi em razão da adoção de uma estratégia reformista, de conciliação de classes (em épocas eleitorais, como esta, os teóricos petistas tentam desesperadamente sustentar a viabilidade dessa estratégia, formando inúmeros novos militantes que reproduzem esta lógica). Os partidos de “esquerda” menores (PSOL, PSTU, PCB e PCO) são apenas rêmoras deste controle dos movimentos sociais petista, sendo subserviente à sua política oficial nos sindicatos e movimentos sociais.
           
O petismo é o “getulismo” do século XXI, pois é hoje o principal responsável por conter e manipular as massas para evitar que suas lutas avancem para a revolução social. A diferença reside no fato de que o “getulismo”, ao mesmo tempo em que controlava o movimento sindical brasileiro, concedia algumas migalhas autênticas, como a CLT; enquanto que o petismo controla o movimento sindical para aplicar “reformas” que retiram direitos – como a CLT –, privatiza poços de petróleo, dá isenções de impostos e lucros recordes aos bancos e multinacionais, vendendo essa catástrofe aos trabalhadores como a “única política possível”.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

As ilusões eleitorais e suas consequências sobre a luta dos trabalhadores

O discurso petista de “votar no PT para evitar a volta da direita” está encontrando grande eco na população em geral e no funcionalismo público (magistério) em particular. É comum ouvir que com “Aécio (PSDB) e Ana Amélia (PP)” será muito pior. Porém, não existe diferença programática entre o PT e o PSDB/PP, sobretudo no que diz respeito a defender os interesses da grande burguesia. Tanto é assim que em nível nacional PT e PP estão juntos para eleger Dilma. Em outros casos, não existe diferença sequer de forma, pois a truculência dos primeiros anos do governo Tarso não ficaram devendo nada para Yeda (PSDB). É só relembrar a aplicação da Reforma do Ensino Médio Politécnico, enfiada goela abaixo dos trabalhadores em educação. Ou ainda: existem diferenças entre as privatizações de FHC e os leilões de petróleo do governo Dilma?
           
O raciocínio oportunista isola um dos elementos da realidade e ignora todo o restante: o fato do PT ser mais “brando” em seus ataques do que o PSDB/PP e jogar maiores migalhas ao povo; enquanto ignora que os grandes empreiteiros e os bancos lucraram como nunca às custas dos serviços públicos e da vida do povo. É ilustrativo o fato de o PT ter dado aos banqueiros 100 vezes mais do que pagou ao Bolsa Família (R$1 bilhão para o Bolsa Família enquanto pagou R$ 1,5 trilhão para a dívida interna e R$ 485 bilhões para a dívida externa). As isenções de impostos às empresas multinacionais foram recordes, tanto por parte do governo Dilma quanto pelo governo Tarso. E mesmo assim essas empresas continuam demitindo e ameaçando “ir embora” do país e do Estado. Ou seja, no essencial o PT manteve a mesma estrutura econômica e política dos governos do PSDB. Aliás, estas políticas assistencialistas tornam-se uma necessidade para manter o próprio funcionamento do capitalismo, sustentando o consumismo e evitando o descontentamento generalizado.
           
Abstratamente, os governos petistas podem ser “menos piores” do que os governos de PSDB e PP. Mas quando olhamos a realidade concretamente, analisando todas as suas contradições, vemos que não existe diferença real entre PT, PSDB, PP e todos os demais partidos burgueses (PMDB, PSB, PDT, etc.). Não há outra alternativa senão prepararmos a luta revolucionária pelo socialismo, única forma de sairmos desta armadilha que a democracia burguesa nos impõem de “votar no menos pior”.

Se não existem condições para uma mudança real no país, isto é, para uma revolução socialista, então devemos trabalhar no sentido de criar estas condições. O voto no PT não ajuda a criá-las, mas anda no sentido oposto: não apenas mantém, mas intensifica e fortalece as estruturas capitalistas da sociedade, fazendo terra arrasada da luta independente dos trabalhadores, sabotando as greves e retirando os direitos sociais já conquistados com a justificativa falsa de fazer “reformas”. Não há dúvida que PSDB e PP atacarão violentamente os direitos dos trabalhadores, mas é uma ilusão achar que o PT será mais “brando” que eles. A experiência de seus governos nos mostrou que ele também atacou impiedosamente os direitos dos trabalhadores, somente sendo mais demagógico e tendo o suporte dos movimentos sociais. Esse discurso, portanto, serve apenas para obscurecer a própria experiência com o PT e confundir a consciência política dos trabalhadores, fazendo inimigos passarem por amigos. O problema está no autoritarismo do grande capital que esmaga e oprime os trabalhadores e que, tanto PT, quanto PSDB e PP, disputam para tornarem-se gestores através do controle do Estado.

A esquerda conciliadora (PSOL, PSTU, PCB) não combate esse discurso cínico do PT. O reforça de diversas maneiras, seja fazendo um debate estéril nas eleições, seja apoiando – aberta ou disfarçadamente – a política oficial do PT no movimento sindical. É por isso que não existe alternativa independente para os trabalhadores nestas eleições e o único voto de independência de classe é o voto nulo. Votar no PT para “evitar a volta da direita”, ou no PP e PSDB para “punir o PT”, é um grande equívoco que apenas serve para legitimar a opressão sobre nós mesmos.
           
O neoliberamos à la PSDB-PP e o neoliberalismo à la PT

O petismo a nível federal afirma que votar no PSDB significa votar em seus projetos neoliberais, nas privatizações, no “estado mínimo”. A candidatura de Tarso (PT) também afirma que o PP de Ana Amélia fará um governo de “estado mínimo”, ou seja, neoliberal.

Entendemos por neoliberalismo a política econômica do Estado capitalista que trabalha no sentido de gastar o menos possível com os serviços públicos, destinando o orçamento público de educação, saúde e infraestrutura para o pagamento dos juros e amortizações das dívidas externa e interna. Além disso, o Estado não deve interferir no mercado e prega a privatização de todas as empresas e serviços públicos. É a política do imperialismo para o capitalismo em sua fase de decadência, onde o lucro da burguesia precisa sobreviver às custas do dinheiro público. Ou seja, é a institucionalização do “capitalismo selvagem”, onde o lucro é sempre privatizado e os prejuízos “socializados”. Partindo desta definição, não restam dúvidas de que o PSDB-PP e a grande maioria dos partidos brasileiros são declaradamente neoliberais.

O governo de FHC (PSDB) em nível federal, e de Antonio Brito, Germano Rigotto (PMDB) e de Yeda (PSDB) no RS, foram trágicas experiências neoliberais que privatizaram inúmeras empresas e serviços públicos à preço de banana. Mas o PT realmente combate o neoliberalismo?

O PSDB aplicou o neoliberalismo de forma truculenta, passando a patrola das privatizações sobre o povo e manipulando a opinião pública para cometer estes crimes lesa pátria através do apoio cúmplice da grande mídia. O PT fortaleceu o seu discurso reformista e elegeu diversos parlamentares e governos contra as privatizações durante a década de 1990. Uma vez eleito, o PT apenas mudou de tática para continuar aplicando os projetos neoliberais: não usou o discurso de privatização aberto, tal como fazia o PSDB-PP, mas falou em “reformas”. Em outros casos, onde sequer mudou a tática – como no caso dos leilões de petróleo – o petismo usou a sua influência sobre o movimento sindical (CUT, UNE, MST) para sabotar e frear a mobilização, afim de concretizar os planos neoliberais da burguesia. Há muito tempo que o PT sacrificou a independência política dos trabalhadores e a luta pelo socialismo em troca de cargos dentro do Estado burguês. É o preço pago à classe dominante por sua estratégia reformista e eleitoreira.

Uma breve análise dos governos petistas não deixa margem à dúvidas: reforma da previdência de 2003 (o objetivo era privatizar “suavemente” a previdência e aumentar a idade mínima para a aposentadoria, medida já defendida por FHC e condenada pelo PT quando era oposição); reforma sindical e trabalhista; Acordo Coletivo Especial (ACE); Plano Nacional de Educação (PRONATEC, Reforma do Ensino Médio Politécnico, etc.); Leilão de Libras, que entregou as reservas do pré-sal para as petroleiras multinacionais, sem falar na intensificação da política de “capital misto” da Petrobrás.

Durante o debate da FIESP, perante a burguesia paulista – onde acontece o verdadeiro “horário eleitoral” sem falsas promessas –, Dilma apresentou o seu real programa de governo “em sete ações voltadas ao empresariado: desoneração de tributos, crédito subsidiado, direcionamento das compras governamentais, foco na educação técnica e científica, investimento na infraestrutura, diminuição da burocracia e fortalecimento das parcerias privadas, incluindo as concessões – que promete ampliar” (Folha de S. Paulo, 31/07/2014). É o mesmo programa de PSDB, PP e PSB. Tanto é assim que os demais candidatos, que também estavam presentes no debate, não fizeram nenhuma crítica ao programa de governo petista.

Como o PT controla os movimentos sociais, a burguesia optou por este partido para garantir a aplicação do receituário neoliberal. O PSDB não dispõem deste “apoio” e aí reside a sua atual fraqueza eleitoral. Ele não consegue frear o movimento sindical. Pelo contrário. Qualquer governo do PSDB sofre oposição sistemática do PT, seja parlamentar ou sindical. O PSDB faz oposição institucional ao PT, no sentido de puxar-lhe pela direita, e obtém grandes resultados sem muito esforço. Enquanto isso, a burocracia sindical e estudantil petista faz o trabalho ideológico de convencimento dos trabalhadores de suas “reformas” em benefício do povo, que são grandes armadilhas floreadas com um discurso de “esquerda” e, em alguns casos, até mesmo “socialista”.

Os militantes petistas dizem que a “única política possível e realista” para o movimento dos trabalhadores é votar no PT. Isso significa subordinar a nossa luta ao jogo viciado da burguesia e à abdicar de um caminho independente. A questão fundamental do movimento socialista sempre foi como colocar sua atividade prática imediata de acordo com o seu objetivo final. A lógica reformista do “possível”, defendida e propagada pelo petismo, abdica do objetivo final (o socialismo), em troca de um imediatismo que nos condena à perpetuação da escravidão assalariada. Não existe caminho para os trabalhadores fora da perspectiva do socialismo. A consciência pequeno-burguesa, amplamente disseminada nos dias de hoje pela mídia e pelos partidos reformistas (sobretudo pelo próprio PT, que tem os melhores ideólogos para isso), dá o suporte para o funcionamento da democracia burguesa, onde se espera que um “messias” eleito resolva os problemas dos trabalhadores independentemente da nossa mobilização, conscientização política e organização de classe.