quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A utilização política da crise do STF: louvor, corrupção e manipulação

 

Está em curso no Brasil mais uma intervenção eleitoral estadunidense. A bola da vez é o STF.

A fórmula é antiga e conhecida de quem acompanha a História do Brasil e da América Latina: a partir dos gritos contra a “corrupção” se cria um pânico moral para tensionar uma instituição e toda a opinião pública. A principal arma de guerra dos EUA e dos seus vassalos brasileiros — a família Bolsonaro e os seus partidos satélites — não são drones, IA ou porta-aviões, mas a psicologia de massas.

No entanto, a manipulação da psicologia de massas necessita da criação de um cenário onde o direcionamento seja possível. Sem cibersegurança não há segurança nacional; e como sabemos desde os grampos contra Dilma, denunciados por Snowden, o Brasil é um país auto exposto. Tudo aponta para a construção deste cenário no caso do STF, que se tornou o “arquirrival” do bolsonarismo e, por tabela, dos EUA, sobretudo pela condenação de Bolsonaro pelos “atos golpistas” do 8 de janeiro de 2023.

Quando falamos que se tornou “arquirrival” do bolsonarismo, isso significa que passou a ser apoiado — ou mesmo, idolatrado, em alguns casos mais bizarros — pelo petismo e seus satélites. Há um fio de continuidade no caso Master envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, o ministro Alexandre de Moraes e a sua esposa, que está sendo explorado agora, gerando desconforto por entre a militância petista.

Não foi uma mera casualidade, portanto, que os holofotes de parte da grande mídia, do movimento neofascista nacional e internacional tenha recaído justamente sobre o STF em meio à campanha eleitoral, sobretudo se observamos a atuação de André Mendonça, o ministro indicado por Bolsonaro. O objetivo é, sem dúvida, tentar demonstrar a condenação do ex-presidente como uma injustiça movida por “corrupção”, transformando-a numa bandeira de mobilização de massas para o neofascismo que justifique não apenas atos de sabotagem, mas também abra precedentes para novos golpes.

A ideia aparente é fazer o governo Lula sangrar, o que já rendeu dividendos eleitorais: caiu alguns pontos percentuais em comparação a Flávio e em muitas pesquisas já aparece na segunda colocação. Se o tensionamento político contra o STF não render uma vitória eleitoral, deixa a porta aberta para organizar novos distúrbios e preparar possíveis golpes. Era necessário criar algum farrapo de narrativa que conseguisse incitar e manter a chama do ódio neofascista acesa, dado que vinha visivelmente arrefecendo. E essa desculpa surgiu agora — e como sempre — com a narrativa moralizante “contra a corrupção” do STF que levou à “condenação injusta” de Bolsonaro.

Por acaso o que foi revelado é alguma novidade frente ao que já se sabia anteriormente ou seria mera eventualidade que o tensionamento se torne cada vez mais forte e repetitivo com a aproximação de outubro?

E é aqui que a “magia” neofascista na manipulação da psicologia de massas entra em campo: de uma família totalmente atolada na corrupção, conforme atestam as inúmeras provas coletadas no telefone de Vorcaro, ela se torna a paladina da moral que será capaz de “enfrentar o sistema”, a “corrupção do PT” e o próprio STF. Ou seja, uma total inversão de valores na qual a própria esquerda — seja em que vertente for — não consegue responder.


A “esquerda” e o STF

A experiência histórica no Brasil nos demonstra que o STF sempre foi uma instituição burguesa, voltada contra os interesses dos trabalhadores. O petismo, ao tentar disputá-la, nomeou magistrados e também o defendeu de muitos ataques políticos, somando-se, portanto, à blindagem ideológica dada a esta instituição pelos demais partidos burgueses e pela grande mídia.

Porém, o neofascismo ascendeu ao poder mundial e nacional, desnudando uma divisão na decadente elite norte-americana. O ultraliberalismo de Trump e Bolsonaro demonstrou, mais do que nunca, a comunhão entre o liberalismo e o [neo]fascismo. Quase todos os “acordos de cavalheiros” que existiam tacitamente nas instituições burguesas foram questionados pelo neofascismo, incluindo os formalismos da grande mídia, que passaram a ser “denunciados” quando confrontavam um interesse trumpista ou bolsonarista.

O STF quis perceber isso tarde demais. Escondidos sob o escudo “nobre” da “liberdade de expressão” — isto é, um suposto princípio liberal —, o neofascismo espalhou como uma metralhadora giratória todo o tipo de preconceitos que, a bem da verdade, se houvéssemos aprendido algo com a história da ascensão do nazi-fascismo europeu, jamais poderiam ser toleradas.

Lembremos de algumas delas: Bolsonaro sempre falou contra o Congresso Nacional (em entrevista, disse que o fecharia através de um golpe, pois não funciona); exaltou torturadores da ditadura e a própria ditadura em inúmeros programas, o que, por si só, atentaria contra as instituições da democracia burguesa; em muitas entrevistas para a grande mídia defendeu milícias e grupos de extermínio para “disciplinar a pobreza”, ameaçando legalizá-las.

Portanto, Bolsonaro deveria ter sido impedido de concorrer pelo STF-STE já em 2018, porque todas as suas declarações prévias possuíam teor fascista, muitas delas contra as instituições e de apologia à ditadura militar brasileira. Sequer lhe foi aplicada qualquer medida disciplinar ou pedido de retratação pública.

Possivelmente por medo de sofrerem críticas de que eram contra a “liberdade de expressão” — ou, então, por motivos bem menos nobres não declarados —, STF e Rede Globo pagaram pra ver e deixaram o monstro crescer. Ele se elegeu e começou um trabalho de desorganização das instituições e dos seus acordos tácitos, além de sabotagens, que ameaçam certas continuidades institucionais (incluindo o próprio tipo de trabalho exercido pela mídia burguesa, ao estilo da Rede Globo). Tudo isso, como se pode saber se houver coragem, amparado pela engenharia política de Trump e Banon.

O resultado foi a consolidação do movimento neofascista no Brasil, a manipulação da opinião pública, a permanente queda de braço com o STF e a mídia tradicional que não rezava toda a sua cartilha, até… a tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023!

Esta tentativa foi o resultado óbvio da evolução de tudo isso, que deveria ter sido impedido pelo STF-STE — se fossem sérios — já em 2018. Bastava olhar o mundo! O mesmo pode ser dito em relação às atuais candidaturas de Flávio Bolsonaro ou de Renan Santos (MBL/Missão), por exemplo.

Não agindo previamente, o STF deixou para agir quando o ovo da serpente já estava chocado e com 4 anos de vida! A prisão de Jair Bolsonaro é justificada quase que exclusivamente pelo 8 de janeiro, a qual, tanto ele quanto Flávio, refutam, afirmando se tratar de uma “perseguição política” e “fraude”, dado que supostamente se tratavam apenas de “pobres coitados”, “velhinhos desarmados”, enquanto que Bolsonaro estaria muito distante de Brasília naquele momento, o que demonstraria a sua “inocência”. A lógica jurídica fica muito rasa ao ignorar todo o histórico de declarações e atuações dos bolsonaros.

Grande parte da esquerda respirou aliviada quando saiu a condenação do ex-presidente, sem perceber as incongruências. Muitos transformaram Alexandre de Moraes — um agente de uma instituição burguesa — em herói. O nível político da massa brasileira, a cobertura “jornalística” da grande mídia e o tipo de debate teórico do petismo não permitem ir além. Tudo isso foi um prato cheio para que o imperialismo e seus agentes neofascistas, especializados na manipulação da psicologia de massas, agora lancem mão de um ataque fulminante contra o STF, visando a sabotagem da possível reeleição de Lula.


As instituições burguesas e a Rede Globo

O grande fiel da balança nessa “crise” parece ser a Rede Globo. Dentre as instituições burguesas brasileiras, talvez a mais forte seja ela. Não houve nenhum golpe no Brasil que não tenha passado pelo seu apoio direto ou indireto. Até o presente momento, ela demonstra não ter aderido abertamente à intentona golpista, criando um empecilho importante e vivendo um impasse.

Se ela volta a ser protagonista de mais um golpe estadunidense contra o Brasil, terminará por sofrer com um futuro governo Flávio Bolsonaro, que lhe criaria muitos problemas que vão de pautas atravessadas, grosserias nos mais distintos níveis, passando pelo questionamento das “boas práticas” da “democracia” liberal até o eventual cancelamento da concessão (não esqueçamos que Jair Bolsonaro chegou a ameaçar a Globo com isso, algo que o petismo jamais ousou); ou segue apoiando, às vezes, sutilmente, às vezes descaradamente, o lulismo; e se queimando com os seus amigos norte-americanos mais radicais e com parte da elite do atraso brasileiro, dentre as quais, um dos seus principais patrocinadores, o agronegócio.

Além disso, a Rede Globo balança para o lado do lulismo porque este demonstra uma subserviência canina inesgotável às instituições democrático-burguesas brasileiras — coisa que o bolsonarismo não faz —, lhe garantindo generosas verbas governamentais publicitárias, tendendo a se alinhar mais com as pautas do partido democrata estadunidense, como o identitarismo, a quem a Globo dá indisfarçável apoio, pois já percebeu o seu poder de desagregação e sabotagem do movimento operário mundial e nacional.

Dá pra sentir ares de “operação lava-jato” pelo ar. Sem a Globo, no entanto, falta um ator fundamental. Ela resistirá à tentação? O mais provável é que deva estar recebendo propostas indecorosas e avaliando lucros e prejuízos…


O imperialismo ianque não brinca em serviço

O que muitos analistas e militantes da esquerda enxergam como a ruína e o fim da República burguesa brasileira, é mais uma crise institucional de um sistema cheio de rachaduras e contradições por lidar com tantas desigualdades sociais e políticas. Provavelmente ela continuará funcionando como sempre funcionou, distorcendo, empurrando com a barriga e atropelando o debate de possíveis soluções, agravando — é verdade — a sua degeneração. 

Mas isso não estaria em total evidência agora se a ala neofascista do imperialismo estadunidense não tivesse autorizado colocar o dedo na ferida para desestabilizar as eleições brasileiras. Dado a situação de organização, o nível de consciência da classe trabalhadora brasileira e o tensionamento do movimento neofascista, muito dificilmente esta “putrefação” da República burguesa sairá do controle tomando um rumo que interesse ao proletariado.

A eleição brasileira é crucial para o projeto estadunidense de recolonização total da América Latina, o qual, necessita do Brasil como peça chave. A despeito de toda a conciliação de classes petista, o projeto de Trump requer um governo fantoche e de um entreguismo total.

O atual discurso do governo Trump de que o Brasil “fracassa no combate ao narcoterrorismo” complementa a campanha contra o STF, cavando possibilidades de intervencionismo. Essa acusação é tão esdrúxula quando lembramos que o bolsonarismo é a própria expressão das relações mais escusas com o crime organizado, mas que de nada vale para alertar uma base social fanatizada e totalmente doente, que aceita o que lhe ditam os líderes e vomita os moralismos mais vulgares para lhes garantir uma “boa consciência”.

A vitória eleitoral de Flávio Bolsonaro — ou a sua subida ao poder via golpe de Estado — significaria a sabotagem da aproximação do Brasil com a China, Rússia e com os BRICS. Além do quê, faz retroceder o processo de desdolarização em curso, garantindo não apenas as “terras raras”, os demais recursos naturais do nosso país, muita força de trabalho barata, mas a subserviência total aos ditames que vêm do norte.

As instituições da democracia burguesa brasileira permitem uma “liberdade de expressão” que sustente o [neo]fascismo, a incitação ao ódio, a defesa do entreguismo e o fim da soberania nacional. Portanto, tolera e legaliza a sabotagem contra si mesma. O petismo, por sua vez, aceita acriticamente todas as sentenças dadas por estas mesmas instituições.

O imperialismo estadunidense só pode aplaudir e agradecer… 

É por isso que a esquerda precisa ser cuidadosa na sua análise, agitação e propaganda em relação à “crise” do STF para não se tornar linha auxiliar do imperialismo ianque, tal como um dos seus setores — de triste memória — se tornou durante o golpe contra o governo Dilma em 2016, julgando estar nas portas da revolução!


Sugestões de leitura com afinidades de conteúdo:

> O que o escândalo de corrupção do Banco Master poderia ensinar ao povo, mas não ensina? 

> O que é o bolsonarismo?

> Eleições 2022: o neofascismo cresce, quais serão os seus possíveis próximos passos?

> Bolsonarismo e peste emocional

> O legado de Wilhelm Reich e o que ele tem a nos ensinar sobre o atual fascismo brasileiro

> Gritar contra os políticos é a catarse social brasileira

> Voto no PT: redenção ou pecado?

Nenhum comentário:

Postar um comentário